Gusmão, Bartolomeu Lourenço de

Santos, São Paulo ca. dezembro 1685 — Toledo, 19 novembro 1724

Palavras-chave: Aeróstato, Passarola, D. João V, Academia Real da História Portuguesa

Bartolomeu Lourenço nasceu em Santos, na Capitania de São Vicente (atual estado de São Paulo), Brasil, em finais de 1685. É considerado um dos percursores da navegação aérea, ao realizar as primeiras experiências aerostáticas conhecidas no Ocidente. A maior parte dos seus biógrafos sustenta que o seu pai Francisco Lourenço Rodrigues era cirurgião-mor do presídio de Santos. Contudo, Jaime Cortesão encontrou evidências de que a atividade do pai eram os negócios. Sabe-se que foi batizado em 19 de dezembro desse ano. Bartolomeu Lourenço recebeu a primeira instrução na sua vila natal e entrou em seguida, como noviço, no Seminário jesuíta de Belém, na vila baiana da Cachoeira, entregue aos cuidados do reitor o Padre Alexandre de Gusmão (1649-1724). Em 1718 adotou o apelido Gusmão, tal como veio a acontecer como o seu irmão Alexandre (1695-1753) – secretário do rei D. João V (1689-1750) e saliente diplomata – em homenagem ao antigo perceptor jesuíta. Desde cedo se revelou um jovem inteligente, dotado de uma extraordinária memória. Após terminar os estudos no Seminário, por volta de 1699 ou 1700, transferiu-se para o Colégio de Salvador, onde se situava a capital Brasileira na época.

Em 1701 viajou para Lisboa e, nos círculos intelectuais da metrópole, as suas capacidades e conhecimentos causaram admiração. Ficou hospedado em casa de D. Rodrigo Anes de Sá Almeida e Meneses (1676-1733), 3º Marquês de Fontes (a partir de Agosto de 1718, 1º Marquês de Abrantes). D. Rodrigo foi um dos mais influentes e eruditos nobres da Corte e, entre 1712 e 1718, foi ele que chefiou a célebre embaixada ao Papa. A estadia permitiu a Bartolomeu Lourenço melhorar a formação em matérias técnicas e científicas e certamente usufruir da rica biblioteca e museu de raridades do seu patrono.

Regressado ao Brasil, em 1705 pediu patente ao Senado da Câmara da Baía de uma invenção para elevar água. O conhecimento da hidráulica e da hidrostática ficou testemunhado por essa primeira criação, um dispositivo para levar água desde o rio Paraguaçu até ao Seminário de Belém, vencendo um desnível de cerca de 100 metros. Apesar da documentação conhecida que chegou até nós não incluir qualquer desenho, o que ajudaria a compreender o funcionamento do engenho, tratar-se-ia muito possivelmente de uma bomba hidráulica. A patente deste invento foi concedida por D. João V, a 23 março de 1707, depois de um parecer favorável do Concelho Ultramarino datado de 18 de novembro de 1706.

Terminados os estudos na Baía no início de 1709 foi ordenado padre secular – optando assim por não ingressar na Companhia de Jesus. Ao contrário do que referem diversas fontes Bartolomeu Lourenço nunca foi jesuíta. Porém, a sua formação foi em grande medida adquirida com os inacianos e, sabemos hoje, entre as bibliotecas das escolas da Companhia circulavam livros científicos, antigos e modernos, chegando mesmo aos colégios mais longínquos. É pois natural admitir que, num contexto formal ou informal, o jovem Bartolomeu tenha conhecido e estudado tratados científicos, e em particular as obras de Arquimedes de Siracusa (287 a.C.-212 a.C.). Esse contacto deve ter acontecido sobretudo no Colégio de Salvador uma vez que no Seminário de Belém não havia curso de Filosofia, e segundo os currículos jesuítas as matemáticas mistas e outros assuntos científicos eram ensinados no âmbito do programa de Filosofia. Acresce que várias provas, diretas e indiretas, apontam para o facto de a biblioteca do Colégio de Salvador ter sido a mais significativa das coleções bibliográficas jesuíticas da América Portuguesa, onde se incluíam obras de cariz literário, filosófico e científico. Se no virar do século XVII para o XVIII o número de volumes rondava os 3 000, estima-se que por alturas da expulsão dos jesuítas, em 1759, a biblioteca do Colégio já tinha ultrapassado os 15 000 volumes.

Em 1708 Bartolomeu volta a embarcar para Lisboa. No dia 1 de dezembro matriculou-se na Faculdade de Cânones da Universidade de Coimbra, abandonando os estudos alguns meses depois. 

Em Abril de 1709, já na capital do reino e novamente acolhido pelo seu protetor, o Marquês de Fontes, apresentou ao rei a petição de patente de «hum instrumento para se andar pello ar da mesma sorte, que pella terra, e pello mar, e com muito mais brevidade». O monarca despachou favoravelmente o pedido a 17 de Abril, acrescentando várias benesses às que Bartolomeu solicitara, entre elas a de «Lente de Prima de Mathematica» na Universidade de Coimbra. No texto Bartolomeu Lourenço alegava que a sua máquina voadora poderia percorrer mais de 200 léguas por dia, transportar passageiros e carga, e mostrava-se ciente das vantagens do voo para a exploração terrestre, as comunicações e a guerra – em 1709 Portugal estava envolvido na Guerra da Sucessão de Espanha. Em particular, chamava a atenção para a exploração das regiões polares: «sendo da Naçaõ Portugueza a gloria deste descobrimento», se se viesse a concretizar; e para a possibilidade de a navegação aérea poder resolver um dos principais problemas científicos da época: o da determinação das longitudes.

Um autor coevo, José Soares da Silva, relatou numa Gazeta manuscrita que D. João V mandou entregar a Bartolomeu as chaves da quinta do Duque de Aveiro para a fabricação da máquina voadora, tendo no entanto o inventor preferido uma outra propriedade, pertencente ao rei, em Alcântara. Acrescentava ainda Soares de Silva que a confeção do engenho consumia papel e grande quantidade de arame.

No início de agosto de 1709, no dia 3, perante a Corte de D. João V, Bartolomeu fez a primeira de 5 experiências com balões de ar quente de pequenas dimensões. Nessa primeira tentativa, realizada no torreão do Palácio da Ribeira o protótipo ardeu antes de se elevar. No segundo ensaio, dia 5, noutra dependência do Palácio Real o aeróstato elevou-se a 4 metros mas como começou a arder foi derrubado por dois servos armados de paus. Estes receavam que o fogo se propagasse ao Palácio. As restantes demonstrações foram quase todas coroadas de êxito, sendo que numa delas – realizada provavelmente no dia 7, no Terreiro do Paço – o balão se elevou a grande altura tendo pousado posteriormente sem pegar fogo. Vários ensaios foram testemunhados pelo núncio apostólico em Lisboa, Michelangelo Conti (1655-1724), que relatou para Roma a 16 de agosto de 1709 o que viu: «O sujeito […] fez por estes dias duas experiências na presença do Rei havendo formado um corpo esférico de pouco peso; mas como a virtude impulsiva ou atrativa parece ser constituída por espíritos [álcool], estes pegaram fogo, e queimou-se o engenho da primeira vez sem se mover da terra […] ele, empenhado em fazer crer que não corre perigo a sua invenção, está a fabricar outro engenho maior». Ao construir balões sucessivamente maiores Bartolomeu avançava na direção certa, no entanto o desiderato de transportar pessoas e animais só seria conseguido em França, em 1783, pelos aeróstatos dos irmãos Joseph-Michel Montgolfier (1740-1810) e Jacques-Étienne Montgolfier (1745-1799).

Contrastando com a imagem excessiva e quase caricatural de D. João V, construída pela historiografia portuguesa do século XIX, o monarca surge aqui – ainda no início do seu reinado – como um protetor das artes e das ciências, interessado em inovações técnicas – mesmo nas mais arrojadas, como acontecia com a invenção proposta pelo Padre Bartolomeu Lourenço.

Apesar do apoio do rei e de fidalgos importantes da Corte nos meio literários e entre a população as propostas fantásticas de Bartolomeu foram recebidas com ceticismo. Para além de ganhar o epiteto de «voador» foi alvo de um bom número de poemas e outros textos satíricos. Certamente que uma parte da responsabilidade dessa reação se deveu à gravura e descrição da «Passarola». A imagem e respetivo texto, que se difundiram pela Europa, tiveram origem no próprio Bartolomeu que, com a conivência do filho primogénito do Marquês de Fontes, D. Joaquim Francisco de Sá Almeida e Menezes (1695-1756), os terá elaborado como manobra de diversão, com vista a desviar as atenções do verdadeiro invento. D. Joaquim Francisco era então aluno de matemática do inventor e, aparentemente, a única testemunha da fabricação dos pequenos aeróstatos. A descrição que acompanhava a gravura prometia o transporte de homens, víveres, mensagens ou dinheiro, e explicava o funcionamento do veículo recorrendo ao magnetismo. Algumas semelhanças estruturais sugerem que Bartolomeu conhecia a obra Prodromo Ovvero Saggio di Alcune Inventione Nuove Premesso All’Arte Maestra (1670) do jesuíta Francesco Lana Terzi (1631-1687), e a sua barca voadora sustentada por balões de vácuo. Como recorda a historiadora Lorelay Brilhante Kury a proposta de Lana Terzi baseava-se na impulsão arquimediana aplicada ao ar e esse é, sem dúvida, um ponto de contacto com as experiências de Bartolomeu Lourenço, embora o inventor americano tenha optado por uma solução técnica distinta. Os escritos do Padre Bartolomeu não citam Arquimedes, nem qualquer outra autoridade. Contudo, neles é clara a ideia de considerar o ar, tal como a água, um fluido.

Em 1710 obteve privilégio de patente de uma nova bomba hidráulica para esgotar água entrada nos porões das naus. Em 1713, talvez receoso do Santo Ofício, abandonou o país com poucos recursos materiais, errando três anos pela Holanda e pela França, vivendo de ocupações modestas, incluindo a de ervanário em Paris, até se encontrar na Embaixada portuguesa com o seu irmão Alexandre, então secretário da missão diplomática do Conde da Ribeira. Com ele regressou a Portugal e, a expensas deste, completou os estudos na Universidade de Coimbra, doutorando-se em Cânones, a 16 de junho de 1720. D. João V designou-o fidalgo Capelão-mor da Capela Real, em 1722, e nessa qualidade foi como enviado extraordinário a Roma, encarregue de tratar com a Cúria pontifícia da obtenção de privilégios pretendidos pelo monarca em benefício da Sé de Lisboa e do seu Clero.

Não obtendo sucesso nesse ano de negociações foi substituído em Roma pelo irmão Alexandre, em 1723. No regresso ao reino, todavia, seria nomeado por D. João V sócio efetivo da Academia Real de História Portuguesa, um dos 50 académicos de número, o que lhe valeu terem-se impresso, até 1721, os seus sermões e outras obras. Como notou Rómulo de Carvalho, a inclusão de Bartolomeu de Gusmão entre a elite erudita da Academia Real da História revela como continuou a ser respeitado pelo rei, apesar de não ter conseguido cumprir completamente as suas promessas e planos da máquina voadora.

Perseguido pela Inquisição sob suspeita de ter abraçado o Judaísmo fugiu para Espanha em 1724, em companhia de outro irmão, o carmelita descalço frei João Álvares. Adoecendo gravemente à chegada a Toledo, teve de recolher ao hospital, onde, apesar dos seus 38 anos, veio a morrer em 19 de novembro vencido pelos rigores da viagem e pela doença.

Luís Tirapicos

Arquivos

Archivio Segreto Vaticano (Roma)
Fondo Bolognetti, 116, fl. 36-37
Arquivo Nacional Torre do Tombo (Lisboa)
Chancelaria D. João V, Liv. 31, fl. 202v-203v
Tribunal do Santo Ofício, CG/A/8/I/4356
Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra
Ms. 342; Ms. 392; Ms. 537, fl. 314-316; Ms. 677, fl. 410-410v

Obras 

Varios modos de esgotar sem gente as naos que fazem agua: offerecidos ao muyto alto e muyto poderoso Rey de Portugal, & dos Algarves D. Joam V. Nosso Senhor pelo P. Bartholomeu Lourenço. Lisboa: na Officina real Deslandense, 1710.

Bibliografia sobre o biografado

Faria, Vicomte. Bartholomeu Lourenço de Gusmão (1685-1724) Américain-Brésilien Inventeur du Premier Aerostat. Lausanne: Imprimeries Réunies, 1910..

Filho, Murillo Cruz. Bartolomeu Lourenço de Gusmão: Sua Obra e o Significado Fáustico de Sua Vida (Rio de Janeiro: Biblioteca Reprográfica Xerox/MAST, 1985).

Fiolhais, Carlos (coord.). Bartolomeu Lourenço de Gusmão: o Padre Inventor. Rio de Janeiro: Universidade do estado/Andrea Jakobsson Estúdio, 2011..

Taunay, Affonso de E. Bartholomeu de Gusmão e a sua prioridade aerostática (S. Paulo: Escolas Profissionaes Salesianas, 1935).

Visoni, Rodrigo M. e João Batista G. Canalle. “Bartolomeu Lourenço de Gusmão: o primeiro cientista brasileiro,” Revista Brasileira de Ensino da Física 31:3 (2009): 3604-1 – 3604-12.