Corvo, João de Andrade

Torres Novas, 30 janeiro 1824 — Lisboa, 15 fevereiro 1890

Palavras-chave: Regeneração, Agricultura, Política colonial, Política externa.

João de Andrade Corvo foi uma personalidade interventiva no meio político português da segunda metade do século XIX. Ainda que seja mais conhecido devido ao impulsionamento de uma nova política colonial em África, contribuiu também para a modernização agrícola de Portugal e para o ordenamento do território. Quer através da divulgação científica, do leccionamento de disciplinas científicas em instituições de ensino superior, ou do estudo de problemas agrícolas concretos, defendeu o potencial da ciência e da tecnologia para o desenvolvimento do país, aderindo à Regeneração e ao projecto político de Fontes Pereira de Melo.

Andrade Corvo nasceu em Torres Novas, a 30 de Janeiro de 1824, no seio de uma família de proprietários rurais partidários do absolutismo. O seu pai, um oficial de cavalaria, combateu ao serviço de D. Miguel durante as guerras liberais. Os excessos que o jovem Andrade Corvo presenciou durante esta época, e em anos subsequentes, impressionaram-no ao ponto de repudiar as posições políticas da sua família, aderindo ao liberalismo, e de se distanciar de quaisquer tendências belicosas, enfatizando, até ao final da vida, a importância da diplomacia para a manutenção da paz. 

Em 1834, após o fim da guerra civil, a família de Andrade Corvo mudou-se para Lisboa. A educação do jovem Andrade Corvo foi tomada a cargo do seu tio materno, o general Nuno Augusto de Brito Taborda. Este também combatera do lado dos absolutistas, mas a instauração de um regime liberal levou-o a afastar-se da esfera política e a dedicar-se à instrução do sobrinho. Os primeiros estudos de Andrade Corvo foram feitos com irregularidade, embora tenha tido aulas com alguns professores particulares e frequentado o Colégio Militar. Aos 15 anos, ingressou na então recentemente criada Escola Politécnica de Lisboa, uma instituição predominantemente dedicada ao ensino técnico-científico, com vista a uma carreira militar. Continuou os estudos na Escola do Exército, formando-se em engenharia militar. Até ao início da década de 1850, dedicou grande parte do seu tempo livre às artes literárias, escrevendo peças de teatro e um romance.

No final da década de 1840, Andrade Corvo possuía uma ideia clara das medidas necessárias para ultrapassar a difícil situação financeira e económica do país. A sua formação em engenharia conferiu-lhe a noção de que os profissionais em áreas técnico-científicas eram aqueles que possuíam as melhores competências para modernizar o país. À semelhança de outros liberais da época influenciados por doutrinas saint-simonistas, defendia que o desenvolvimento material do país, fortemente apoiado no saber técnico-científico, era a chave para o progresso da nação. De modo a disseminar estas ideias, passou pela direcção de periódicos como A Época e O Ateneu, entre 1848 e 1851, onde também defendia a necessidade de consolidar um regime liberal incipiente, através da reforma da administração pública e da liberalização da economia.

Com a instauração da nova cultura política da Regeneração, no início da década de 1850, e a presença de Fontes Pereira de Melo no governo, o projecto político apoiado por Andrade Corvo começou a ser concretizado. O facto de pertencer ao quadro docente da Escola Politécnica, desde que venceu o concurso para lente substituto da cadeira de botânica com apenas 20 anos, conferiu-lhe um estatuto que conduziu à sua nomeação para cargos onde pôde implementar algumas das medidas que defendera. Apesar de não ser um especialista em botânica ou agronomia, a necessidade de leccionar estas matérias e resolver problemas agrícolas concretos permitiram-lhe tornar-se um perito nestas áreas. Simultaneamente, a sua ligação profissional a José Maria Grande, lente proprietário de botânica e parlamentar já com um percurso político traçado, facilitou a sua aproximação aos círculos políticos da época.

As contribuições científicas mais importantes de Andrade Corvo resultaram da análise de questões agrícolas, o sector económico de maior relevo para o Portugal da época. Em 1853, estudou a praga de oídio que dizimava as vinhas da ilha da Madeira, por incumbência da Academia das Ciências de Lisboa, e em 1859 avaliou a influência dos arrozais na saúde pública, fazendo parte de uma comissão criada por Fontes Pereira de Melo, à data ministro do reino.

Andrade Corvo defendia que a melhoria da instrução da população era fundamental para a modernização agrícola do país. Ao ser nomeado para o quadro docente do Instituto Agrícola de Lisboa, provavelmente devido à proximidade a Grande, que o dirigia desde a sua fundação em 1852, pôs em prática o seu plano. Em 1855, aquando da sua presença na Exposição Universal de Paris, chegou mesmo a adquirir instrumentos agrícolas modernos que se adequavam à realidade nacional, para uso pedagógico no Instituto.

O reconhecimento das suas qualidades no ordenamento do território agrícola, bem como o seu envolvimento crescente na política nacional, conduziram à eleição de Andrade Corvo como deputado pelo Partido Regenerador, em 1865. No ano seguinte, a aceitação do cargo de direcção do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria colocou-o num lugar privilegiado para implementar reformas que vinha defendendo há anos, como a reconversão de territórios pantanosos para a agricultura e a extensão do caminho-de-ferro. Contudo, esta passagem foi breve, devido à queda do governo em 1868.

Andrade Corvo nunca deixou de se interessar pela modernização agrícola do país, publicando obras de divulgação de boas práticas em anos subsequentes, com destaque para a Biblioteca de Agricultura e Ciências, na década de 1880. Contudo, a partir do final da década de 1860, a sua atenção concentrou-se na política externa do país. Andrade Corvo temia que os movimentos políticos de unificação, bem-sucedidos em Itália e na Prússia, atingissem Portugal, promovendo a união com Espanha, o que comprometeria, no seu entender, a independência da nação. Entre 1869 e 1870, foi enviado na qualidade de ministro plenipotenciário a Madrid, onde geriu a delicada situação diplomática na sequência da deposição da rainha Isabella II, impedindo a união ibérica.

Os receios de Andrade Corvo, porém, não se limitavam às consequências de uma eventual união ibérica. Na sua opinião, o reduzido peso político de Portugal face a outros estados europeus mais prósperos e extensos punha em causa a sua sobrevivência enquanto nação independente. Assim, defendeu como solução uma nova política externa para o país, baseada na formação de alianças políticas e na assinatura de tratados de comércio aptos a sustentar uma rede internacional de boas relações. A economia e a diplomacia deveriam concorrer para evitar a todo o custo um eventual conflito armado. Em 1871, com o apoio político de um novo governo do Partido Regenerador, Andrade Corvo subiu ao cargo de ministro dos negócios estrangeiros e procurou implementar este plano.

Ao longo do seu mandato, desentendimentos diplomáticos com a Grã-Bretanha, relativamente aos privilégios comerciais detidos por Portugal em algumas das suas colónias africanas, levaram a que Andrade Corvo dedicasse particular atenção à política colonial. Ainda que as suas hábeis negociações com diplomatas britânicos tenham sido inicialmente bem-sucedidas, era claro que Portugal não poderia continuar a reclamar indefinidamente a posse de territórios escassamente colonizados. Pressionado por um número crescente de vozes que exigiam a adopção de políticas expansionistas em solo ultramarino, criou a Comissão Central Permanente de Geografia junto do Ministério da Marinha e Ultramar, durante um dos breves períodos em que acumulou a sua direcção, entre 1875 e 1876. Através deste organismo, aplicou a política fontista de construção de vias de comunicação, já iniciada em Portugal, ao espaço colonial, com vista a promover o seu desenvolvimento económico. Além do destacamento de equipas de engenheiros para a concretização das obras projectadas, em 1877, enviou ainda uma expedição científica, cujos dados recolhidos facilitariam a fixação de fronteiras e o levantamento de recursos naturais de interesse económico. Simultaneamente, prosseguiu com a negociação de tratados liberalizadores do comércio colonial, sobretudo com a Grã-Bretanha, tentando obter em contrapartida investimentos em projectos de engenharia nas colónias, como a construção de caminhos-de-ferro. As iniciativas ficaram muito aquém dos seus objectivos.

Após a queda do governo regenerador em 1877, Andrade Corvo voltou novamente a dirigir os negócios estrangeiros em Janeiro de 1878, com o regresso de Fontes Pereira de Melo ao poder. Continuou as negociações com a Grã-Bretanha, mas foi definitivamente afastado no ano seguinte, pela queda do governo, deixando muitos projectos por concretizar. Na década de 1880, continuou a defender as pretensões coloniais portuguesas, publicando estudos que pudessem auxiliar a organização de uma política colonial realista e consistente. Tornou-se um dos principais conselheiros do seu colega da Escola Politécnica de Lisboa, José Vicente Barbosa du Bocage, enquanto este ocupou a pasta dos negócios estrangeiros de um novo governo regenerador, entre 1883 e 1886, para a resolução da questão do Congo. Durante este período, serviu como ministro plenipotenciário em Paris, contribuindo para as negociações que tiveram lugar por ocasião da Conferência de Berlim. Os diplomatas portugueses tentaram obter um acordo com o governo francês, de modo a assegurarem a soberania nos territórios do troço final do rio Congo, mas as pressões exercidas por nações mais poderosas, com destaque para a Grã-Bretanha, invalidaram os esforços portugueses.

Ponderado e crente no poder da ciência e da tecnologia para a modernização de Portugal, Andrade Corvo foi, essencialmente, um patriota avesso a extremismos políticos e um defensor convicto do liberalismo. Faleceu em Fevereiro de 1890, em Lisboa, sem assistir à resolução do conflito diplomático desencadeado pelo ultimato britânico a Portugal.

Daniel Gamito-Marques

Arquivo

Biblioteca Nacional: Arquivo Andrade Corvo.

Obras

Corvo, João de Andrade. Memórias sobre as ilhas da Madeira e Porto-Santo. Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, 1854.

—. Relatório sobre a Exposição Universal de Paris. Agricultura. Lisboa: Imprensa Nacional, 1857.

—. A instrução pública: discurso pronunciado nas sessões de 9, 10 e 11 de Abril de 1866. Lisboa, Tipografia Franco-Portuguesa, 1866.

Corvo, João de Andrade Corvo e António Augusto de Aguiar, O livro do lavrador. Lisboa: Tipografia Universal, 1873.

—. Algumas palavras acerca do estado geral das nossas terras em 1875.Lisboa: Minerva, 1875.

—. Estudos sobre as províncias ultramarinas. 4 vols. Lisboa: Tipografia da Academia Real das Ciências, 1883-7.

Bibliografia sobre o biografado

Correia, Francisco.“Um ministro da Regeneração através dum arquivo da família existente na Biblioteca Nacional: estudo económico-social sobre João de Andrade Corvo” in: Revista da Biblioteca Nacional, vol. 2, nº 2, (Julho-Dezembro 1982).

Palmeirim, Luís Augusto. “João d’Andrade Corvo” in: Revista Contemporânea, vol. II, nº 6, (Setembro 1860).

Avillez, Maria Leonor Maia Correia Henriques de. João de Andrade Corvo e a aliança inglesa. Tese de Mestrado em História Contemporânea, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1998.