Cristoforo Borri (Christovão Bruno, Brono, Boro, Burrus, Bruni)

Milão, 1583 — Roma, 24 maio 1632

Palavras-chave: Astronomia, Jesuítas, Tycho Brahe, Cometas.

Cristoforo Borri teve um papel de destaque na introdução do sistema de Tycho Brahe entre os Jesuítas, tendo sido um dos primeiros autores a preconizar este modelo astronómico entre os padres da Companhia de Jesus. Defensor do modelo geo-heliocentrico tychonico, Borri desenvolveu um conjunto de importantes teorias sobre a natureza da matéria celeste, estrutura da região supra-lunar e dinâmica celeste que lhe pareciam conformes com as exigências deste sistema planetário. Borri foi ainda missionário no Extemo Oriente, tendo escrito aquele que foi a primeira obra impressa na Europa sobre a Cochinchina (Vietname e Laos). Borri ensinou matemática e astronomia em Coimbra e Lisboa na década de 1620. As suas ideias cosmológicas foram altamente influentes em Portugal durante o século XVII.

Cristoforo Borri nasceu em Milão, no ano de 1583. A 13 de setembro de 1601, entrou para a Companhia de Jesus, na Casa de Provação de Arona, no Piemonte. Aí iniciou os estudos de humanidades, retórica e gramática, antes de ingressar no Colegio de Brera. À época, este colégio destacava-se entre as instituições da Provincia Mediolanensis, funcionando, na prática, como uma universidade. Em 1605, Borri encontrava-se no rol dos doze estudantes de lógica deste colégio. Iniciava, assim, o triénio de estudos de filosofia que, segundo as indicações da Ratio Studiorum jesuíta,deveria anteceder o curso de teologia, com a duração de quatro anos. Entre os seus professores neste colégio, contam-se Tommaso Bisdomini (ca. 1571–1633), que lhe ensinou filosofia, e muito provavelmente Giovanni Bartolomeo Biamino (1580–?), professor de matemática em Brera , entre 1605 e 1607. 

Desde cedo que o jovem Borri se destacou na área das disciplinas matemáticas. Tudo parecia indicar que tinha pela sua frente uma auspiciosa carreira de “matemático” e professor de matemáticas nos colégios da Companhia de Jesus. Como era hábito entre os jesuítas, antes de assumir o magistério de matemática, filosofia ou teologia, o promissor professor era testado no ensino de matérias menores, como a gramática. Foi assim que, com o grau de mestre em Artes, Borri rumou ao Colégio de Mondovi, no Piemonte, com a incumbência de ensinar gramática e matemática, a partir do ano letivo de 1607/08. Nos anos que se seguiram, expôs com toda a probabilidade o Tratado da Esfera de Sacrobosco, livro basilar da formação em astronomia durante a Idade Média e inícios da Idade Moderna. Sem surpresa, o livro de base terá sido o In Sphaeram Ioannis de Sacro Bosco Commentarius, de Christoph Clavius (1538–1612). 

Borri regressou ao Colégio de Brera em 1610 para aí estudar teologia, formação que concluiu em 1614. Neste colégio, Borri voltou a ser encarregado do ensino de matemática, o que sugere que tenha tido um bom desempenho nos três anos em que ensinou tal disciplina no Colégio de Mondovi. Mas, em Brera, Borri iria inovar. Aí, após apresentar o sistema heliocêntrico de Copérnico e o tradicional modelo geocêntrico de Ptolomeu, defendeu publicamente o modelo geo-heliocêntrico de Tycho Brahe. Segundo este modelo, os planetas giravam em torno do Sol e este corpo celeste, juntamente com a Lua, movia-se à volta da Terra. Entre outras consequências cosmológicas, este modelo planetário tinha subjacente o princípio de que os céus eram fluídos. Borri corroborou, de forma inovadora, ambas as teorias nas suas aulas de matemática no principal colégio de Milão, em 1611/12. Esta posição pública não deixou de provocar reações entre os seus superiores. De facto, após ter ensinado matemática por dois anos no Colégio de Brera, Borri foi afastado, segundo testemunho do próprio, por pressão das autoridades da Província Milanesa. Este afastamento acabou por ter um efeito dramático na carreira de Borri. Como sabemos pela extensa carta que o jesuíta italiano endereçou, por volta de 1631, ao então Geral da Companhia de Jesus, Muzio Vitelleschi (1563–1645), Borri vaticinou que em breve o sistema de Tycho Brahe tornar-se-ia popular entre os jesuítas. E, de facto, em 1620, com publicação da Sphaera Mundi de Giuseppe Biancani (1566–1624), o sistema tychonico passou a ser oficialmente aceite pelas autoridades jesuítas, sendo defendido entre os astrónomos e filósofos. Borri, que tinha sido um dos primeiros a defender em aulas este sistema, viu-se assim privado de uma posição de preeminência entre os seus confrades.

       No ano em que o sistema tychonico se tornava uma referência pública para os jesuítas, Borri encontrava-se no Extremo Oriente como missionário. Como descreve num manuscrito sobre a sua experiência de missionário, “Partimos da Europa no entrar de abril de 1615. Após seis meses chegámos a Goa”. Iniciava-se, assim, a jornada oriental de Borri. Após concluir a sua formação em teologia, Borri deslocou-se, entre o verão de 1614 e os primeiros meses do ano seguinte, para Lisboa e daqui partiu, no dia 5 de abril de 1615, em direção a Goa, onde chegou em outubro desse ano. Como as monções retinham em Goa as embarcações que se destinavam ao Extremo Oriente até abril, Borri demorou-se meia dúzia de meses nesta cidade antes de alcançar o seu destino. 

Em abril de 1616, a viagem de Cristoforo Borri retomou o seu curso rumo ao Extremo Oriente, onde deve ter chegado três a quatro meses mais tarde. Uma vez em Macau, Borri fixou residência no Colégio de São Paulo. Este colégio desempenhava funções que ultrapassavam em muito o ensino. Ele era, na prática, uma plataforma de pessoas, produtos e ideias que circulavam entre a Europa, a China, o Japão e a Cochinchina. No que se refere ao ensino, para além da formação regular em humanidades, filosofia e teologia, aí estudava-se, com particular detalhe, matemática e as línguas do Extremo Oriente. A familiarização com os costumes, as tradições intelectuais e as crenças religiosas desses povos era, também, uma importante componente da formação dos futuros missionários.

No Colégio de São Paulo, para surpresa de Borri, foi-lhe pedido, pelo Visitador Francisco Vieira, que escrevesse um tratado sobre a fluidez celeste especificamente dirigido aos missionários jesuítas na região. Segundo o seu relato, a expulsão da China de que os jesuítas foram alvo, em 1616, ter-se-ia ficado a dever, em grande parte, ao facto dos missionários preconizarem a teoria da solidez e pluralidade dos céus e, em particular, terem publicado um livro sobre tal temática. Esta teoria contrariava frontalmente as crenças chinesas na existência de um único céu fluido, posição que o jesuíta italiano considerava, aliás, ser comum a toda a Antiguidade pré-aristotélica. Assim, se justificava, não sem alguma ironia, que Borri tornasse públicas as suas ideias cosmológicas na China para que os jesuítas não fossem, também aqui, apelidados de defensores de novas teorias.

Apesar da ideia inicial de Borri ser servir como missionário no Japão ou na China, as dificuldades com os jesuítas se deparavam em ambos os teatros de conversão, fez com que fosse enviado, em inícios de 1618, para a Cochinchina. Tendo aportado inicialmente na cidade Faïfo, foi-lhe destinado, segundo palavras suas, ir para “Turon [Dalat], para aí servir os portugueses, dizendo-lhes a missa, pregando e confessando-os, aprendendo ao mesmo tempo a língua da Cochinchina”. Pouco depois, Borri partiu para Pulucambi [Qui-nhon], onde se demorou a maior parte do tempo em que esteve na Cochinchina. Foi provavelmente aqui que observou o aparecimento de um cometa no final de 1618. Esta observação, que lhe permitiu concluir que o cometa se situava na região celeste e não abaixo do côncavo do céu a Lua, como afirmavam os aristotélicos, será crucial no desenvolvimento do seu pensamento cosmológico. 

O domínio da língua vietnamita permitiu-lhe escrever o livro Relatione della Nuova Missione delli PP. della Compagnia di Giesu al regno della Cocincina, que ao ser impresso em Roma, em 1631, e traduzido, de imediato, para francês, holandês, latim, inglês e alemão, se tornou a primeira obra publicada por um ocidental sobre a região vietnamita, tornado Borri um viajante conhecido na Europa.

       Apesar dos sucessos reclamados por Borri na conversão dos povos vietnamitas, mas disputados por outros jesuítas da época, o jesuíta italiano abandona inesperadamente a missão na Cochinchina em 1622. Segundo o seu relato, nesse ano, ele ficou muito doente e não restou outra alternativa aos seus superiores de Macau senão chamarem-no para esta cidade para aí se curar. O jesuíta italiano partiu para Macau no mês de abril ou maio desse ano. 

Borri demorou-se em Macau até provavelmente inícios de 1623. Aí foi-lhe atribuído um cargo de governo, “ofício” de Ministro do Colégio de São Paulo de Macau. Em Macau, participou , ainda da defesa da cidade contra um ataque holandês de junho de 1622. Foi nessa qualidade que recebeu a notícia de que os dois padres procuradores da Índia, que tinham sido enviados à Europa “per negotii spettanti alla salvezza dell’anime dell’India”, não tinham chegado ao seu destino, por morte de um e prisão do outro. Cumpria ao jesuíta italiano dar bom destino a essa missão.

Em abril de 1623, Borri já se encontrava em Goa, de regresso à Europa. Na manhã do dia 10 desse mês teve um encontro com o humanista e poliglota italiano Pietro della Valle (1586-1652). Tendo realizado uma impressionante viagem que o levou desde Itália, através da Turquia, Ásia Menor, Egito, Monte Sinai, Palestina, Irão até à Índia, uma viagem que lhe valeu o cognome de “peregrino”, Della Valle foi visitar, nessa manhã, a Casa Professa dos jesuítas, em Goa. Aí se encontrava, entre muitos outros jesuítas, Cristoforo Borri, um “grande matemático”, no juízo do viajante italiano.

Nos meses que se seguiram, os dois italianos desenvolveram uma relação de amizade que perdurará até à morte de Borri. Em Goa, discutiram por longas horas astronomia, cosmologia e náutica. Nessa ocasião, Borri informou Della Valle acerca dos mais recentes livros publicados sobre matéria astronómica e descreveu-lhe o instrumento recentemente inventado e que estava a revolucionar o debate e a investigação astronómica, o telescópio. Della Valle parece ter ficado de tal modo emocionado pela defesa que Borri fez do sistema planetário de Tycho Brahe e pela descrição das observações das “novidades celestes” feitas na Europa e no Oriente que lhe sugeriu que escrevesse um tratado sobre tais temáticas. A sua intenção seria, ao que é possível apurar, traduzir esse texto para farsi e enviar a um astrónomo persa, chamado Zayn al-Din, da cidade de Lar, de quem se tornara próximo aquando do seu périplo pelo Irão. Deste encontro resultou o tratado de Az risāla-i pādri Khristufurūs Būrus ‘Isawī dar tawkif-i djadid-i dunyā. Não se sabe se este tratado chegou a ser realmente enviado para Zayn al-Din, mas se tal foi o caso, Risāla foi a primeira obra a tornar o sistema tychonico conhecido na região do Médio Oriente.

A similitude deste tratado persa com a obra maior de Borri, Collecta Astronomica ex doctrina, publicada mais tarde em Lisboa, levou alguns historiadores a considerarem-no uma espécie de resumo da obra latina. Contudo, esta interpretação não resiste à análise de ambas as obras. De facto, não apenas estes tratados têm um fôlego completamente distinto, como, sobretudo, apresentam ideias diferentes e conflituantes em tópicos essenciais aos modelos cosmológicos da época, nomeadamente sobre a natureza e composição da matéria que compõe os céus e a dinâmica dos corpos celetes. Risāla Collecta proveem, portanto, de dois momentos diferentes no desenvolvimento do pensamento cosmológico de Cristoforo Borri. Ainda assim, o tratado persa demonstra que, por volta de 1623/24, Borri já tinha provavelmente decidido escrever um livro sobre astronomia e cosmologia, tendo escolhido os tópicos e alguns dos argumentos que iria desenvolver.  A redação deste livro terá lugar já em Portugal, para onde Borri partiu em inícios de fevereiro de 1624.

Enquanto, em Lisboa, se refazia da longa viagem oceânica, vagou no Colégio das Artes de Coimbra a cátedra de matemática. Instigado a ocupar-se desta disciplina, Borri viajou para Coimbra e aí leu matemática no ano letivo de 1626/27. Tal como havia feito em Mondovi, Borri voltou a expor a esfera de Sacrobosco. Era comum, entre os professores de matemática jesuítas, iniciar-se os comentários à esfera com uma exposição sobre a utilidade, divisão e história da matemática. Borri, por sua vez, decidiu tratar um tema polémico à época, a questão da cientificidade e certeza das matemáticas; tema, então, designado comummente de quaestio de certitudine mathematicarum. Neste domínio, defendeu, contrariamente à tradição filosófica e, em particular, contra o que havia sido estabelecido pelo jesuíta Sebastião do Couto, célebre Conimbricense, que a matemática obedecia aos principais requisitos da ciência aristotélica, devendo, como tal, ser considerada ciência. Tal posição custar-lhe-ia, a breve trecho, uma situação de tensão com as autoridades jesuítas em Portugal.

Foi provavelmente em Coimbra que Borri escreveu parte substancial da sua obra maior de cosmologia, a Collecta Astronomica. O livro estava praticamente concluído em junho de 1627, mas foi publicado apenas em 1631. Esta demora ficou a dever-se à oposição movida contra a publicação da obra por Sebastião do Couto. Ofendido com a crítica direta e incisiva que o confrade italiano havia feito à sua tese sobre o estatuto epistemológico da matemática, Couto moveu todas as influências possíveis para que a obra não fosse publicada.

Contudo, o manuscrito da Collecta Astronomica ser-lhe-ia particularmente útil, quando rumou para Lisboa com a função de ler matemática na “Aula da Esfera” do Colégio de Santo Antão, no ano letivo de 1627/28. Entre os tópicos que abordou no colégio de Lisboa encontravam-se a astronomia e a cosmologia. Ao abordar essa temática, o professor italiano seguiu o livro composto em Coimbra como se depreende da análise da apostila do curso de Lisboa, intitulada Nova Astronomia na qual se refuta a Antiga da multidão de XII ceos pondo so tres Aereo, Sydereo e Empireo. A relação entre o impresso latino e manuscrito em língua portuguesa tem estado na origem de alguns equívocos, afirmando-se frequentemente que a Collecta Astronomica não é mais do que uma versão latina da Nova Astronomia. Na origem deste erro encontra-se o testemunho do jesuíta francês Dominique Le Jeunehomme, segundo o qual, após anos de viagens entre a Europa e o Extremo Oriente, Borri ter-se-ia esquecido da sua língua materna e do latim e, consequentemente, decidido escrever a Collecta em português. Face ao suposto desejo dos jesuítas da província lusitana em ver o livro do seu confrade alcançar as audiências europeias, Le Jeunehomme ter-se-ia oferecido para verter a obra para latim, transformando, assim, a Nova Astronomia na Collecta Astronomica que hoje conhecemos. Esta versão sobre a génese da obra maior de Borri foi retomada por Carlos Sommervogel na sua monumental Bibliothèque de la Compagnie de Jésus. Desde aí, a tese da origem portuguesa da Collecta tem sido frequentemente reiterada pelos estudiosos de Borri. Contudo, esta interpretação sobre a génese desta obra não tem qualquer fundamento. Antes de mais, como já salientado pelo historiador jesuíta Domingos Maurício Gomes dos Santos, os documentos existentes da década de vinte demonstram que Borri tinha um domínio absoluto tanto do italiano como do idioma latino. Acresce que a tese de LeJeunehomme/Sommervogel sobre génese da principal obra cosmológica de Borrinão resiste a uma análise comparativa das versões latina e portuguesa dela existentes, uma vez que a versão latina é mais rica, extensa e detalhada nas questões técnicas do que a sua congénere portuguesa. 

Em Santo Antão, para além de cosmologia e astronomia, Borri dedicou-se também ao ensino de náutica, detendo-se na questão premente à época da determinação da longitude em mar aberto. Nas suas aulas no colégio lisboeta, ele propôs três métodos, a saber, o cálculo com base em eclipses, a utilização de um relógio de areia, uma ampulheta, que “conservaria” a hora do meridiano de referência e o método da retardações da Lua. Contudo, nesta época, o jesuíta italiano encontrava-se a desenvolver um método muito mais inovador (ainda que ineficaz), o cálculo da longitude com base nas variações do magnetismo terrestre. O método proposto por Borri tinha na sua base a suposta existência de uma variação regular do magnetismo terrestre, sendo possível estabelecer umas linhas de orientação grosso modo norte-sul onde a agulha magnética não apresentava variações de declinação.

Este método parece ter gerado um forte interesse por parte das autoridades espanholas que convocaram Borri a apresentá-lo em Madrid. Para lá se deslocou em 1629. Tendo exposto a sua proposta a uma comissão que estava encarregada de avaliar as diferentes soluções e eventualmente atribuir um prémio àquela que resolvesse tão delicado problema para a navegação, foi-lhe ordenado que desse as devidas instruções a uma frota encarregada de experimentar a sua invenção.

Contudo, antes de saber do sucesso do seu inveto, Borri pediu autorização para se deslocar a Roma. Assim, no início do segundo semestre de 1630 embarcou de Barcelona com destino à caput mundi do catolicismo. Moviam-no dois objectivos na sua viagem a Roma. Por um lado, como podemos concluir da extensa carta que endereça a Vitelleschi, pretendia interferir a favor da publicação do seu livro Collecta Astronomica. Não se conhece a resposta de Muzio Vitteleschi. Contudo, passados poucos meses do seu envio, o livro foi finalmente publicado em Lisboa, com o apoio de Gregório de Castelo Branco, terceiro conde de Vila Nova e Sortelha que tinha sido seu aluno de matemática. 

O segundo motivo que terá levado Borri a solicitar autorização para se deslocar a Roma prende-se com a convocação (8 de julho de 1630) por parte da recém-criada Congregação De Propaganda Fide para que se apresentasse perante esta instituição criada, em 1622, com o objetivo de promover a evangelização a uma escala planetária. Neste contexto, Borri acabaria por endereçar a esta congregação uma importante Informazione, em que expunha os métodos segundo os quais, na sua opinião, se poderia converter ao catolicismo os povos asiáticos. Um papel de destaque estava reservado à Congregação. Como já foi destacado por vários historiadores, a criação da Congregação De Propaganda Fide introduziu uma tensão na relação entre as ordens religiosas que tradicionalmente se dedicavam à missionação. Isso talvez explique a razão por que Borri solicitou à Congregação que este assunto se mantivesse sigiloso.

Todavia, as notícias do envolvimento do jesuíta italiano nos projetos da Congregação De Propaganda Fiderapidamente chegaram ao conhecimento dos superiores jesuítas. Este acontecimento parece ter resultado na saída de Borri da Companhia e Jesus. De acordo com o testemunho de Pietro della Valle, com quem Borri fortaleceu os laços de amizade estando em Roma, os superiores, sabendo do contacto de Borri com a Congregação De Propaganda Fide, exerceram uma forte pressão sobre o seu confrade, levando-o ao abandono da Companhia de Jesus. Nas palavras do patrício romano, ele “por isso [ou seja, pelas relações com a Congregação] teve tais problemas com os Superiores, que teve necessidade, com o beneplácito do Papa, que o favoreceu com um breve especial, de sair da Religião dos Jesuítas e de passar àquela dos monges Cistercienses”.

A autorização para Borri abandonar a Companhia de Jesus foi emitida em 19 de dezembro de 1631. Seguidamente, o milanês entrou na ordem cistercience, onde tomou o nome de Onofrio. É frequentemente mencionado que, após ter sido admitido no convento cisterciense de S. Croce in Gerusalemme, Borri foi expulso deste convento, tentando ingressar sem sucesso em outra casa religiosa da mesma ordem. Contudo, os autores seus contemporâneos, como o cisterciense Charles de Visch, não mencionam qualquer abandono posterior desta ordem religiosa. Cristoforo Borri morreu no dia 24 de maio de 1632.

Luís Miguel Carolino
Instituto Universitário de Lisboa
ISCTE-IUL, CIES

Arquivos

Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo:

“Al molto Reu. Pre. Generale. Christoforo Borri sopra il libro che ho composto per stampare delli tre Cieli,” Armário dos Jesuítas, vol. XIX, ff. 314–317v.

Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal:

Sphaera Mundi, FG 2378.

Compendium problematum, meteorum et paruorum naturalium et tractatus aliquot de mathematica disciplina traditi a Patre Christophoro Brono e Societate Jesu. Ignatius Nunes, Cod. 2378.

Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

Arte da Memoria, Ms. 44, ff. 144–153v.

Arte de Navegar, Ms. 44, ff. 1–62.

Nova Astronomia na qual se refuta a antiga da multidão de 12 ceos pondo so tres Aereo, Cidereo e Impireo, Ms. 44, ff.. 65–143v.

Della terra nuoua dell’India Australe del padre Christoforo Borri Giesuita, Ms. 677, ff. 230–231.

Évora, Biblioteca Pública de Évora:

Isperiencias que se mandarão fazer pera a nauegasão de Leste a Oeste segundo a invenção do Padre Mestre Cristouão Bruno, Cod. CXXVI/1-17, nº 2, fls. 72-80.

Nova Astronomia na qual se refuta a Antiga da multidão de XII ceos pondo so tres Aereo, Sydereo e Empireo, CXVI/1-17.

Vaticano, Archivio della Congregazione per L’Evangelizzazione dei Popoli:

Informazione del P. Christoforo Borro Giesuita a Sua Santità d’vna nuova India per poter’in quella con Sua Autorità Apostolica mandare a piantare, e propagare la Santa Fede a petizione della Santa Congregazione de’ Cardinali di Propaganda Fide, Africa, Isole dell’Oceano Australe, vol. 1; S.O.C.G. – India et Iapponia, 1636, vol. 190.

Vaticano, Biblioteca Apostolica Vaticana:

Az risāla-i pādri Khristufurūs Būrus ‘Isawī  dar tawkif-i djadid-i dunyā / Compendio di un trattato del Padre Christoforo Borro Giesuita della nuova costitution del mondo secondo Tichone Brahe e gli altri astrologi moderniTradotto di Latino in Persiano da Pietro Della Valle il Pellegrino Patritio Romano, 1624/1631, Ms. Pers. 9 e Ms. Pers. 10.

Roma, Archivum Romanum Societatis Iesu:

Relatione d’alcune cose di edificatione occorse al P. Christoforo Borro della Compagnia di Giesù nell’India Orientale, massime in Cochinchina, ARSI, Jap.Sin. 68, fls. 43-46.

Roma, Biblioteca Nazionale Centrale di Roma:

De astrologia universa tractatus. Diuiditur in duas partes quarum prima de contemplatrice astronomia, secunda de practica breuiter, sed dilucide ita pertractat ut deesse plane aut desiderari posse nihil uideatur. Rdo P. Christoforo Burro Societatis Jesu. Auctore in amplissimo Braydensi Collegio scientiarum mathematicarum doctore praestantissimo Anno MDCXII. Qui deinde ad Indos migrauit Anno 1615. Albertus de Albertis [1612, 1615], Ms. Fondo Gesuitico 587.

Milão, Biblioteca Ambrosiana:

Tractatus astrologiae auctore a R.P. Christophoro Borro lectore e Societate Iesuaudiente Bernardino Gorino Luganensi in Collegio Braydensi Mediolani, Ms. A.83 sussidio.

Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro:

Regimento que o P. Christovam Bruno da Comp. de Jesus, por ordem de S.M., da aos pilotos das naos da India para fazerem as experiências sobre a invenção de navegar de leste a oeste, Ms. I-12, 3, 6

Obras

Arte de Navegar (1628) pelo padre mestre Cristóvão Bruno, prefácio por A. Fontoura da Costa. Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1940.

Collecta Astronomica ex doctrina… De tribus caelis aereo, sydereo, empyreo. Lisboa: apud Matthiam Rodrigues, 1631.

Relatione della Nuova Missione delli PP. della Compagnia di Giesu al regno della Cocincina. Roma: Francesco Corbelletti, 1631.

Relatione della nuova missione delli P.P. della Compagnia di Giesù al Regno della Cocincina. Roma e Bolonha: Francesco Catanio, 1631.

Relation de la nouvelle mission des peres de la Compagnie de Jesus au Royaume de la Cochinchine. Traduite de l’italien du Pere Christofle Borri Milanois, qui fut un des premieres qui entrerent en ce Royaume. Par le Pere Antoine de la Croix, de la mesme Compagni. Rennes: Jean Hardy, 1631.

Historie van eene nieuwe Seyndinghe door de Paters der Societeyt Iesu in’t ryck van Cocincina. In’t Italiens gheschreven door P.Christophous Borri Melanois. Der Societeyt Iesu, eenen die onder de eerste in dit Rijk zijn ghegaen. Ende verduytscht door P. Jacobus Susius der selve Societeyt, Lovaina: weduwe van Hendrick Haesten, 1632.

Relatio de Cocincina R.P. Christophori Borri e Societate Jesu, ex Italico latine reddita pro strena D.D. Sodalibus Inclytae Congregationis Assumptae Deiparae in Domo Profess Societatis Jesu, Viena, Excudebat Michael Rictius, in novo mundo. 1633.

Cochin-China: Containing many admirable Rarities and Singularities of that Countrey. Extracted out of an Italian Relation, lately presented to the pope, by Christophoro Barri, that liued certaine yeeres there. London: published by Robert Ashley,, printed by Robert Raworth, 1633.

Relation von dem newen Konigreich Cocincina desz Ehrwurdingen Patris Christophori Borri, der Societet Jesu … aus dem Welsch und Latein verseuscht. Gedrucht zu Wien in Oesterreich bey Michael Riekhes. Viena: Michael Rickhes 1633.

An Description of Cochin-China. In A Collection of Voyages and Travels, ed. Churchill, vol. 2: 721–765. London, printed by assignment from Messrs. Churchill, 1732.

Bibliografia sobre o biografado

Carolino, Luís Miguel. “Cristoforo Borri and the Epistemological Status of Mathematics in Seventeenth-Century Portugal.” Historia Mathematica 34 (2) (2007):  187–205.

Carolino, Luís Miguel. “The making of a Tychonic cosmology: Cristoforo Borri and the development of Tycho Brahe’s astronomical system.” Journal for the History of Astronomy 39 (2008): 313–344.

Dror, Olga e K. W. Taylor , eds. Views of seventeenth-century Vietnam. Christoforo Borri on “Cochinchina” and Samuel Baron on “Tonkin”. Ithaca, NY: Cornell University, 2006.

Santos, Domingos Maurício Gomes dos. “Vicissitudes da obra do Pe. Cristóvão Borri.” Anais da Academia Portuguesa de História 3 (1951): 117–150. 

Surdich, Francesco. “L’ attività di Padre Cristoforo Borri nelle Indie Orientali in un resoconto inedito.” In Fonti sulla Penetrazione Europea in Asia, 67–122.. Génova: Bozzi, 1979.