Pais, Miguel Carlos Correia

Lisboa, n. 1825 – m. 17 março 1888

Palavras-chave: caminhos-de-ferro, urbanismo, utopias urbanas, ponte sobre o Tejo.

Miguel Carlos Correia Pais foi um engenheiro que se destacou no sector ferroviário e no debate sobre a planificação urbana de Lisboa.

Filho de João Pais Correia, voluntariou-se para o Exército em 1842, tendo cursado a Academia Politécnica de Lisboa até 1850. A longa frequência do curso ficou a dever-se a problemas disciplinares ligados à sua adesão ao anarquismo. Entre 1851 e 1855, estudou na Escola do Exército, onde concluiu o curso de Engenharia. Ingressou no Ministério da Guerra, chegando à patente de tenente-coronel em 1883.

Em 1857, a convite de Lobo d’Ávila e do visconde da Luz, Joaquim António Velez Barreiros, trabalhou na operação da linha do Leste. Quando a linha passou para a Companhia Real foi convidado por Nunes de Aguiar para a fiscalização, onde se manteve até 1865. 

Acompanhou Nunes de Aguiar no estudo do abastecimento de água a Lisboa, mas uma tarefa mal desempenhada levou o seu superior a afastá-lo e a recomendá-lo para o estudo do ramal de Valadares, recém-concessionado à Companhia Real. Contudo, Correia Pais acabou na direção de Obras Públicas de Aveiro. Foi, em seguida, convidado por Sousa Brandão para os estudos da linha do Douro, mas, a pedido do deputado viseense Tomás Ribeiro, optou pela Direção de Obras Públicas desta cidade. Foi transferido para Castelo Branco, alegadamente por não ceder a interesses particulares na definição da diretriz de uma estrada, caso pelo qual recusou trabalhar novamente em Direções de Obras Públicas.

Quando o corpo de Engenharia Civil foi extinto, em 1868, foi um dos fundadores da Associação de Engenheiros Civis Portugueses, no ano seguinte.

Em 1870, ingressou na Companhia das Águas de Lisboa, antes de regressar à ferrovia em 1873, nas linhas do Sul e Sueste (chefe de exploração desde 1880). Como defensor da gestão pública dos caminhos de ferro, esforçou-se por desenvolver a capacidade das oficinas ferroviárias de manter e melhorar o material e aumentar a extensão da rede, usando receitas próprias. 

Integrou a comissão de inquérito à Companhia Real e interveio no debate sobre o plano de rede na Associação de Engenheiros, envolvendo-se numa acesa discussão com Raimundo Valadas sobre a localização da estação término da rede transtagana (preferia o Barreiro enquanto o seu interlocutor se inclinava para Cacilhas). A altercação, se bem que rica em argumentos técnicos, tinha também origens pessoais, uma vez que os dois engenheiros se digladiavam em tribunal desde 1877.

Entre 1879 e a sua morte, em 1888, dedicou-se aos melhoramentos da capital. As suas ideias valeram-lhe o epíteto de utópico por parte de alguma imprensa. 

Foi dos primeiros a sugerir uma ponte rodoferroviária sobre o Tejo entre Lisboa (Grilo) e o Montijo (semelhante às travessias sobre os rios Tay, Forth e Lima), para a qual adiantou não só aspetos técnicos, mas também custos e meios de os financiar. O projeto contou com o apoio de 64 engenheiros e da Câmara Municipal de Lisboa. 

Apresentou sugestões para a urbanização de Chelas, Belém, Arroios, Benfica, Amadora e Queluz, propondo uma rede ferroviária baseada no vale de Alcântara (Alcântara a Pombal, ramificada até Santa Apolónia, Cascais, Sintra, Ericeira, Alhandra, Torres Vedras, Peniche e Santarém). 

Sugeriu diversos melhoramentos em edifícios públicos, no abastecimento de água, no porto de Lisboa e na criação de grandes artérias de movimento na capital, através da construção de túneis (Intendente-São Bento, São Vicente-Portas de Santo Antão), viadutos (Graça-Estrela, Chiado-Caldas) e diversos arruamentos. Entre estes, destaque-se o projeto para a avenida da Liberdade, que deveria estender-se numa distância de 2.27 km até São Sebastião, onde se deveria erguer o monumento ao marquês de Pombal (um arco triunfal semelhante ao parisiense).

Pouco antes de falecer, e já na qualidade de inspetor, integrou o exame às Direções de Obras Públicas de Évora, Portalegre e Castelo Branco e à secção norte do caminho de ferro do Oeste, de Torres Vedras à Figueira da Foz. 

Foi um engenheiro controverso, que, dotado de uma escrita agressiva com a qual brindava amiúde os seus críticos, não procurava consensos. Talvez por esta razão, não acumulou honrarias (apenas foi agraciado com a Ordem de Avis). De qualquer modo, contribuiu para a valorização do serviço público nos caminhos de ferro (e consequentemente para a sua manutenção na posse do Estado) e para a modernização de Lisboa através de uma visão utópica para a capital.

Hugo Silveira Pereira

Arquivos

Lisboa, Acervo Infraestruturas, Transportes e Comunicações, Processos Individuais, Cx. 121, Miguel Carlos Correia Pais, PT/AHMOP/PI/121/035. 

Lisboa, Arquivo Histórico Militar, cx. 953, processo individual de Miguel Carlos Correia Pais.

Obras 

Pais, Miguel Carlos Correia. Carta geographica de Portugal Indicando a rede dos principais caminhos de ferro estratégicos. Lisboa: Imprensa Nacional, 1877.

Pais, Miguel Carlos Correia. Carta topographica da cidade de Lisboa reduzida da que foi levantada na escala 1:1000 em 1856 a 1858. Lisboa: Direção Geral dos Trabalhos Geodésicos, 1882.

Pais, Miguel Carlos Correia. Esclarecimentos sobre a administração do governo. Discussão sobre o local para a fixação do terminus d’estas linhas. Indicação de um novo traçado ligando a estação do Pinhal Novo com o caminho de ferro de Leste proximo a Lisboa. Lisboa: Imprensa Nacional, 1876. 

Pais, Miguel Carlos Correia. Melhoramentos de Lisboa. Engrandecimento da Avenida da Liberdade. Lisboa: Tipografia Universal, 1885-1887. 3 vols.

Pais, Miguel Carlos Correia. Melhoramentos de Lisboa e seu porto. Lisboa: Tipografia Universal, 1883. 2 vols.

Pais, Miguel Carlos Correia. “Memoria apresentada á associação dos engenheiros civis portuguezes, em sessão de 5 de Agosto de 1876, pelo socio Miguel Carlos Correia Paes, sobre o local da estação terminus dos caminhos de ferro ao sul do Tejo.” Revista de Obras Publicas e Minas, 98 (1878): 61–81. 

Pais, Miguel Carlos Correia. “Memoria sobre a rede completa de todos os caminhos de ferro ao sul do Tejo.” Revista de Obras Publicas e Minas, 109–110 (1879): 12–43. 

Pais, Miguel Carlos Correia. “Memoria sobre a rede geral dos caminhos de ferro considerados debaixo do ponto de vista estratégico.” Revista de Obras Publicas e Minas, 102-103 (1878): 280–288. 

Pais, Miguel Carlos Correia. Ponte sobre o Tejo próximo a Lisboa. Lisboa: Tipografia Universal, 1879.

Pais, Miguel Carlos Correia. “Segunda memoria apresentada á associação dos engenheiros civis portuguezes, em sessão de 7 de Outubro de 1876, refutando a opinião do sr. Manuel Raymundo Valladas, relativamente á posição que deve occupar a estação terminus dos caminhos de ferro de sul e sueste.” Revista de Obras Publicas e Minas, 98–99 (1878): 105–108 e 135–148. 

Pais, Miguel Carlos Correia. Valle de Alcantara. Sua importancia no movimento ordinario e accelerado de Lisboa. Lisboa: Tipografia Universal, 1881.

Bibliografia sobre o biografado

Diario Illustrado 17 (5377) (29 de março de 1888): 1.

Pereira, Hugo Silveira. “A política ferroviária nacional (1845-1899)”. Dissertação de doutoramento. Porto: Universidade do Porto, 2012.

Revista de Obras Publicas e Minas 20 (229–230) (1889): 13.