Silva, Daniel Augusto da

Lisboa, 16 abril 1814 — Oeiras, 6 abril 1878

Palavras-chave: astática, matemática actuarial, Escola Naval, Montepio Geral.

Daniel Augusto da Silva é reconhecido como um dos mais importantes matemáticos portugueses do século XIX. Lente da Escola Naval (EN) e académico, da sua obra científica destacam-se, pela sua originalidade, contributos nas áreas da mecânica e da teoria dos números. Com formação científica vasta, usou as suas aptidões para resolver problemas de sociedades a que se afiliou, o que determinou os seus estudos em matemática actuarial e física. Numa época em que os planos de pensões dos montepios de sobrevivência portugueses não obedeciam aos princípios da ciência actuarial, as iniciativas de Daniel da Silva constituem novidade. A importância social dessas associações, de estava bem consciente, reforça a mais-valia do seu contributo.

Pouco se sabe das origens de Daniel da Silva. O seu pai, Roberto José da Silva (?-1866), foi negociante na praça de Lisboa, desconhecendo-se o ramo de actividade. De sua mãe, apenas se sabe o nome, Maria do Patrocínio. Teve um irmão, mais velho, Carlos Bento da Silva (1812-1891), que foi ministro de diversas pastas (de 1857 a 1877). Casou com Zeferina d’Aguiar (1825-1913), natural da cidade do Funchal, em 1859, e tiveram um filho, Júlio Daniel da Silva (1866-1891).

Iniciou a formação na Academia Real da Marinha (1829), frequentando o Curso Mathematico, trienal. Mostrou aptidão para as ciências matemáticas, obtendo prémios nos 1.º e 2.º anos. Em Outubro de 1833 apresentou-se ao Real Corpo dos Guardas Marinhas com a indicação de que servia o Batalhão Móvel do Comércio, corpo este que integrou por um período de dois meses. Ingressou na Academia Real dos Guardas Marinhas no posto de Guarda Marinha, completando a sua formação em ciências navais e instrução militar. Pediu licença para cursar na Faculdade Matemática da Universidade de Coimbra em 1835 e, a expensas da Marinha, concluiu o grau de bacharel em matemática (1839).

Retornou a Lisboa, à Companhia dos Guardas Marinhas, e em 1845 iniciou a carreira de docente na EN. Ensinou assuntos diversos, enquanto lente substituto das 1.ª cadeira (Elementos de Mecânica. Astronomia esférica e náutica) e 2.ª cadeira (Princípios de óptica, construção e uso dos instrumentos de reflexão. Prática das observações astronómicas e dos cálculos mais úteis na Navegação. Factura de uma derrota completa, princípios de Táctica Naval) (no período 1845-1848) e enquanto lente proprietário da 3.ª cadeira (Artilharia prática e teórica) (de 1848 a 1852). Em 1852 deu parte de doente, ausentando-se por sete anos. Em 1859 foi considerado incapaz de serviço activo, sendo promovido a Capitão-tenente adido ao Corpo de Veteranos da Marinha. Como causa possível da sua debilidade geral, apontou-se o excesso de trabalhos intelectuais. Foi jubilado em 1865 e em 1868 reformou-se no posto de Capitão-de-fragata. Destaca-se o seu envolvimento na contestação à reforma de estudos proposta logo em 1847. Críticas à formação apresentada e o afastamento de professores nomeados conduziram à sua anulação em menos de um mês. A frequência de um curso preparatório na Escola Politécnica (EP) pelos futuros oficiais da Armada mereceu constantes críticas desde a fundação da EN e a reforma de 1847 pretendia terminar com essa situação. Daniel da Silva contribuiu para outras propostas de reforma, quer no seio do Conselho da EN, quer em comissões nomeadas pelo Governo, mas nenhuma foi atendida, protelando-se uma primeira reforma até 1864. 

A sua produção científica abrange várias áreas – mecânica (astática), teoria dos números (congruências binómias), geometria analítica, matemática actuarial (planos de pensões de montepios de sobrevivência e estudos da população portuguesa) e física (experiências com a chama) –, distinguindo-se duas fases, separadas pelo período de doença prolongada. Estreou-se no meio científico com trinta e cinco anos, oferecendo à Academia das Ciência de Lisboa (ACL) uma das suas obras mais significativas, a Memória sobre a rotação das forças em torno dos pontos de applicação, valendo-lhe a nomeação como sócio correspondente. O período de 1850 a 1852 foi o mais produtivo pelo valor científico dos seus textos, sobre astática e congruências binómias. Após 1859 investigou temáticas menos exigentes do ponto de vista científico, podendo estabelecer-se uma relação com as sociedades a que se ligou.

Memória sobre a rotação das forças em torno dos pontos de applicação constitui uma referência na teoria do equilíbrio astático e rotação das forças, acrescentando novos resultados à teoria de Ernst Ferdinand Adolf Minding (1806-1885) e August Ferdinand Möbius (1790-1868). Existe uma questão de prioridade sobre certos resultados que Jean-Gaston Darboux (1842-1917) incluiu na memória Étude sur la reduction d’un système de forces, apresentada cerca de um quarto de século depois à Académie des Sciences (1876). Daniel da Silva não fez reclamação de prioridade à corporação francesa; apenas ao director da revista científica Les Mondes, onde lera notícia sobre esse trabalho. Francisco Gomes Teixeira preocupou-se com a devida reclamação de prioridade, após Daniel da Silva falecer, divulgando a sua obra além-fronteiras e incentivando o estudo dessa questão. Inicialmente, ao filho do matemático, Júlio, como candidatura a um lugar de lente na EP, no início da década de 1890; depois a Fernando de Almeida Loureiro e Vasconcelos (1874-1944), assistente na secção de matemática da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra. Do primeiro, não se conhecem resultados; o outro publicou alguns estudos. De qualquer modo, o papel de Daniel da Silva na fundação da astática está ainda por fundamentar devidamente.

A única obra que compôs em teoria dos números contém, também, uma questão de prioridade sobre John Stephen Smith (1826-1883), o qual publicou, perto de uma década depois, alguns resultados sobre congruências binómias nas Philosophical Transactions (1861). Christophoro Alasia de Quesada (1869-1900) destacou essa questão num periódico italiano, em 1903. Também neste caso Teixeira se preocupou com a devida reclamação, correspondendo-se com Quesada, resultando daí a publicação de dois estudos pelo matemático italiano.

A afiliação de Daniel da Silva a certas sociedades determinou a sua investigação em temáticas de matemáticas aplicadas. A associação a montepios de sobrevivência – Montepio Geral de Marinha (c. 1843), Montepio Geral (MG) (1863) e Montepio Oficial dos Servidores do Estado (1867) – motivou-o para o estudo dos seus planos de pensões, entre 1863 e 1870. Durante o século XIX os planos de pensões dos montepios de sobrevivência portugueses não estavam cientificamente organizados e, por conseguinte, a prosperidade dessas associações, maioritariamente fundadas a partir da década de 1840, era efémera. A inexistência de estatísticas fiáveis da população portuguesa, e de grupos mais específicos como os dessas sociedades, impossibilitavam o cálculo correto de tabelas de contribuições e de pensões. Em finais da década de 1860, e seguindo as orientações do Congresso Internacional de Estatística, realizou-se, em Portugal, um inquérito oficial às associações de socorros mútuos, com vista à verificação do seu estado de desenvolvimento e aconselhamento sobre a mais adequada organização a adoptar. Daniel da Silva integrou o grupo de trabalho que estudou, em particular, os montepios de sobrevivência, sendo os seus estudos indicados como uma referência. O Governo não atendeu aos trabalhos que daí resultaram e, mais genericamente, não exerceu eficazmente o seu papel enquanto entidade reguladora e fiscalizadora dessas sociedades durante todo o século XIX. A relevância dos seus escritos reside na introdução de métodos aconselhados pela ciência na organização dos fundos de pensões dos montepios portugueses, minimizando a sua organização deficiente. 

A ligação à Companhia Lisbonense de Iluminação a Gás esteve na base das experiências que levou a cabo sobre o poder calorífico da chama, na década de 1870. À data, assistia-se a mudanças na iluminação urbana das grandes cidades europeias e, para essa empresa, pioneira no ramo, era imprescindível avaliar opções de investimento. Também neste campo, antecipou resultados de outros cientistas. Em Novembro de 1878, o químico Karl Heumann (1850-1894) reconheceu a sua primazia sobre resultados que publicara nesse ano num artigo incluído nos Annalen de Chemie. Daniel da Silva já havia falecido.

No estrangeiro, a obra de Daniel da Silva foi desconhecida durante a sua vida. Em Portugal, o seu mérito científico foi, de uma forma geral, reconhecido pelos seus pares, se bem que seja de assinalar não se estudarem com a mesma profundidade os assuntos que investigou.  

Tornou-se sócio de três sociedades científicas – o Grémio Literário (1846), de que foi sócio fundador, a ACL (1850), sendo elevado a sócio de mérito em 1859, e o Instituto de Coimbra (1855), de que foi sócio correspondente. 

As suas aptidões notavam-se para além do domínio de assuntos científicos. Na década de 1840 traduziu, do alemão, as memórias de viagem do príncipe Felix von Lichnowsky (1814-1848), relativas à sua estadia em Portugal entre Junho e Agosto de 1842. 

Escreveu também na imprensa lisboeta, sobre assuntos diversos, mostrando-se preocupado em repor a verdade dos factos. Notamo-lo na iniciativa de publicar na Revista Universal Lisbonense a proposta de reforma dos estudos navais composta pelo Conselho da EN em 1847. Também na defesa do prestígio da ACL contra os ataques de José Maria Latino Coelho, no semanário O Atheneu, em 1850. Ainda, reagindo a notícias sobre os estudos que compôs acerca da estabilidade financeira do MG, no Jornal do Commercio. Por fim, também sobre decisões governamentais envolvendo o Observatório Astronómico de Lisboa. Na base da organização definitiva desse estabelecimento estiveram não só questões políticas mas também rivalidades da Universidade de Coimbra em assuntos relacionados com a instrução superior e com instituições científicas. Daniel da Silva escreveu sobre isso no Jornal do Commercio e o título de um dos seus artigos, “A astronomia vencida pela política”, faz antever tais críticas.

Recusou a comenda da Ordem de S. Tiago da Espada (1869), condecoração que foi iniciativa de Latino Coelho. Agradeceu essa demonstração particular de afeição ao amigo, e secretário-geral da ACL, mas recusou-a enquanto acto público, por considerar repugnante assinalar de tal forma o seu pretenso merecimento.

Ana Patrícia Martins

Arquivos

Academia das Ciências de Lisboa, Série Azul de manuscritos, 1211 [Cartas para José Maria Latino Coelho – conjunto de 9 cartas de Daniel Augusto da Silva]

Arquivo da Universidade de Coimbra, Espólio de Francisco Gomes Teixeira – Correspondência recebida [conjunto de 22 cartas de Daniel Augusto da Silva]

Arquivo da Universidade de Coimbra, Espólio de Francisco Gomes Teixeira – Correspondência recebida [conjunto de 18 cartas sobre obras de Daniel Augusto da Silva, maioritariamente de correspondentes estrangeiros]

Obras 

Daniel Augusto da Silva, Da transformação e reducção dos binários (Lisboa: Typographia da Academia Real das Sciencias, 1851) [(Silva,1851a)]

Daniel Augusto da Silva, Memória sobre a rotação das forças em torno dos pontos de applicação (Lisboa: Typographia da Academia Real das Sciencias, 1851) [(Silva,1851a)]

Daniel Augusto da Silva, Propriedades geraes e resolução directa das congruências binómias: introducção ao estudo da theoria dos numeros (Lisboa: Imprensa Nacional, 1854)

Daniel Augusto da Silva, “Amortização anual média das pensões nos principais montepios de sobrevivência portugueses”, Jornal de Sciencias Mathematicas, Physicas e Naturaes, t. I, III (Agosto 1867) 175-187

Daniel Augusto da Silva, O presente e o futuro do Monte Pio Geral (Lisboa: Imprensa Nacional, 1868)

Daniel Augusto da Silva, “Contribuições para o estudo comparativo do movimento da população em Portugal”, Jornal de Sciencias Mathematicas, Physicas e Naturaes, t. II, VIII (Dezembro 1869) 255-306

Daniel Augusto da Silva, Das condições económicas indispensáveis á existência do Monte Pio Geral (Lisboa: Imprensa Nacional, 1870)

Daniel Augusto da Silva, De varias formulas novas de geometria analytica relativa aos eixos coordenados oblíquos(Lisboa: Typographia da Academia Real das Sciencias, 1872)  

Daniel Augusto da Silva, Considerações e experiencias acerca da chamma (Lisboa: Typographia da Academia Real das Sciencias, 1873)

Daniel Augusto da Silva, Luz do gaz de pinheiro e luz do gaz e petróleo (Lisboa: Imprensa Nacional, 1874)

Bibliografia sobre o biografado

Ana Patrícia Martins, Daniel Augusto da Silva e o Cálculo Actuarial, Tese de doutoramento em História e Filosofia das Ciências, Universidade de Lisboa, 2013

Christoforo Alasia de Quesada, “Daniel Augusto da Silva e la teoria delle congruenze binomie”,  Annaes Scientificos da Academia Polytechnica do Porto, IV (1909) 166-192

Christoforo Alasia de Quesada, Esposizione di una teoria dei radicali modulari secondo Daniel Augusto da Silva(Coimbra: Imprensa da Universidade, 1914)

Fernando de Almeida e Vasconcelos, Sobre a rotação das fôrças à roda dos pontos de aplicação e O Equilíbrio Astático (Coimbra: Imprensa da Universidade, 1912) 

Francisco Gomes Teixeira, “Elogio historico de Daniel Augusto da Silva”, in: Panegíricos e Conferências (Coimbra: Imprensa da Universidade, 1925), pp. 155-19