Barbuda, Luís Jorge de (Ludovico Georgio)

fl. século XVI

Palavras-chave: Luís Jorge de Barbuda, cartografia, China, Abraham Ortelius.

Luís Jorge de Barbuda, também conhecido pelo nome latino Ludovico Georgio, foi um cartógrafo português ativo na segunda metade do século XVI e primeiros anos do século imediato. Desenhou o primeiro mapa da China impresso na Europa, incluído na edição de 1584 do Theatrum Orbis Terrarum, atlas da responsabilidade do flamengo Abraham Ortelius, que foi publicado em Antuérpia a partir de 1570, em sucessivas edições melhoradas e ampliadas. Nada de especial se consegue apurar sobre a primeira fase da sua vida, mas por volta de 1568 trabalhava em Lisboa como adjunto de Pedro Nunes, o célebre matemático português que então desempenhava funções de cosmógrafo-mor. Parece certo que Luís Jorge estaria ligado a um ateliê de produção cartográfica relacionada com as viagens e navegações portuguesas. Em circunstâncias que não se conseguem apurar, e por volta de 1570, Barbuda passou ao serviço de D. Juan de Borja, representante de Felipe II de Espanha junto da corte lusitana. O próprio embaixador espanhol confirmava esta ligação numa carta mais tardia, na qual afirmaria que Luís Jorge, oficial mecânico especializado na iluminação e pintura de cartas de marear, trabalhara sob as suas ordens entre 1570 e 1574, desenhando mapas de regiões orientais e colaborando nas ilustrações de um livro de empresas. Esta obra de D. Juan de Borja seria publicada com o título de Empresas Morales, em 1581 em Praga, para onde o embaixador espanhol fora transferido alguns anos depois de cessar funções em Lisboa. Muito provavelmente, uma parte das ilustrações da obra seria da autoria de Luís Jorge, mormente aquelas que se relacionavam com temas geométricos e cosmográficos.

As atividades de D. Juan de Borja em Lisboa tinham uma clara ligação aos assuntos orientais, pois em 1565 os espanhóis tinham conseguido estabelecer uma rota regular entre os seus territórios americanos e as ilhas logo depois designadas como Filipinas. Pretendiam agora, a partir deste arquipélago, intervir no comércio asiático que até então fizera a fortuna dos portugueses, que desde a primeira viagem de Vasco da Gama monopolizavam a rota do Cabo. Decerto por esse motivo, o embaixador fizera-se acompanhar por Giovanni Battista Gesio, cosmógrafo napolitano que estava ao serviço de Felipe II. Ambos procuravam recrutar técnicos portugueses especializados em assuntos ultramarinos, ao mesmo tempo que colecionavam documentação geográfica e cartográfica sobre o Oriente. A importância estratégica do trabalho cartográfico desenvolvido por Luís Jorge de Barbuda levou a que D. Juan de Borja o tentasse levar para Espanha, quando em 1575 cessou funções em Lisboa. Mas o cartógrafo português foi preso em Olivença pelas autoridades lusitanas, que o impediram de abandonar Portugal. Barbuda foi reconduzido a Lisboa, onde esteve preso durante dois anos sob acusação de espionagem. Tal alegação não era decerto infundada, pois Gesio escreveu um pouco mais tarde que durante a sua estadia em Lisboa o cartógrafo português lhe tinha revelado numerosos segredos relacionados com a geografia oriental, para além de lhe fornecer muitas relações, mapas e roteiros respeitantes à configuração geográfica de terras e mares da Ásia mais oriental. Aliás, um baú repleto destes materiais geográficos, incluindo diversos mapas desenhados por Barbuda, fora remetido a Felipe II pela embaixada espanhola em Lisboa em 1573. O cosmógrafo italiano voltou a Lisboa poucos anos passados, e restabeleceu contacto com Luís Jorge, que, entretanto, estava já em liberdade, continuando disponível para passar ao serviço de Espanha. Decerto aproveitando a situação complexa que então se vivia em Portugal, na sequência do desaparecimento do rei D. Sebastião em Alcácer Quibir (1578), Battista Gesio conseguiu que Barbuda passasse a fronteira de forma encoberta, e em meados de 1579 já ambos se encontravam em Madrid. Parece certo que o cartógrafo português levou consigo um conjunto de mapas da sua autoria, representando regiões da Ásia e do Pacífico. Posteriormente, Luís Jorge passaria ao serviço de Felipe II, e nos anos seguintes desenvolveria intensas atividades de natureza matemática, geográfica e cartográfica, circulando entre Madrid, onde colaborou na Academia de Matemáticas, e Sevilha, onde trabalhou na Casa de la Contratación, organismo que superintendia aos contactos de Espanha com os seus territórios além-mar. É provável que um mapa da Península Ibérica que é conhecido como Atlas de El Escorial, e que foi desenhado na década de 1580, tenha tido a sua colaboração. 

Não estão ainda totalmente esclarecidas as circunstâncias em que um mapa manuscrito da China de Luís Jorge de Barbuda chegou às mãos de Abraham Ortelius. O editor flamengo mantinha excelentes relações com Benito Arias Montano, o célebre biblista espanhol, capelão de Felipe II, que entre 1565 e 1572 tinha residido em Antuérpia, enquanto preparava a edição da monumental Bíblia Poliglota. Arias Montano, a partir de Espanha ou de Itália, manteve ativa correspondência com Ortelius, e em diversas ocasiões remeteu-lhe novos mapas (de Portugal, de Espanha, mas também de regiões extraeuropeias), que seriam utilizados em sucessivas edições do grande atlas Theatrum Orbis Terrarum. Tudo leva a crer que o mapa da China teria sido remetido para Antuérpia por Arias Montano, para depois aparecer pela primeira vez impresso na edição latina do atlas orteliano de 1584, com o título “Chinae, olim Sinarum regionis, noua descriptio, auctore Ludovico Georgio”, integrando a partir de então as subsequentes edições da obra. O atlas de Abraham Ortelius conheceu uma circulação intensa em toda a Europa, pela extrema novidade da fórmula de reunir num mesmo volume um conjunto exaustivo de mapas de formato manuseável, pela excelente qualidade gráfica das impressões, que depois eram coloridas manualmente, pela extraordinária abrangência geográfica dos exemplares cartográficos, que cobriam praticamente todo o mundo então conhecido, e sobretudo pelo facto de circularem impressos, pela primeira vez, determinados mapas que até então haviam permanecido no segredo dos gabinetes de cartografia de diversas potências europeias. 

O mapa de Barbuda era verdadeiramente revolucionário, do ponto de vista da cartografia portuguesa (e também europeia) da época. Até então, e de forma genérica, as representações cartográficas da China apresentavam apenas os contornos do litoral, com um mais ou menos alargado conjunto de topónimos espalhados ao longo dessa faixa costeira. As regiões interiores, que nunca haviam sido visitadas pelos viajantes portugueses, surgiam despidas de informação gráfica, a qual se resumia a ilustrações simbólicas de centros urbanos. Na carta da “Chinae, olim Sinarum regionis», pela primeira vez apareciam as designações adequadas das quinze províncias chinesas, o nome de muitas dezenas de localidades interiores (muitas das quais perfeitamente identificáveis), cadeias montanhosas, e uma complexa rede hidrográfica de rios e lagos. Entretanto, na fronteira setentrional aparecia uma representação da Grande Muralha chinesa, que não era contínua, mas alternava com porções montanhosas. Ao longo desta linha de fortificações aparecia uma extensa legenda em latim, que referia um «muro de quatrocentas léguas» mandado construir pelo «Rei da China contra as invasões dos Tártaros». Não é improvável que Barbuda, complementarmente a materiais de origem portuguesa e espanhola, tivesse tido acesso a algum mapa chinês, chegado a Portugal pela via do Cabo da Boa Esperança ou oriundo das Filipinas e encaminhado para Espanha pela via do novo Mundo. Um exemplo poderia encontrar-se num mapa chinês impresso no Fujian em 1555 por meios xilográficos, o Gujin xingsheng zhi tu (Mapa topográfico antigo e moderno), que se conserva hoje em Sevilha, no Archivo General de Indias, e que foi adquirido em Manila e enviado para Espanha em 1574 pelo governador Guido de Lavezaris. Exemplares cartográficos deste género poderiam também ter chegado a Lisboa pela via de Macau, servindo de fonte de informação ao cartógrafo lusitano relativamente ao desconhecido interior da China.  

Praticamente todos os mapas que figuram no Theatrum Orbis Terrarum incluem no verso um texto sobre a região que é representada, mas não é perfeitamente transparente que o autor da carta seja sempre o autor do respetivo texto. O mapa da China não era exceção, e no respetivo verso figura um texto em latim intitulado «China», que tanto pode ser atribuído a Luís Jorge, como a Abraham Ortelius. Anda imputada ao cartógrafo português a autoria de uma «Descrição da China», provavelmente com base no texto que figura no atlas orteliano. A fonte principal desta descrição da China é o Discurso de la navegacion que los Portugueses hazen à los Reinos y Provincias del Oriente, da autoria do religioso espanhol Bernardino de Escalante, que foi impresso em Sevilha em 1577, e que por sua vez se baseava no Tractado das cousas da China do dominicano português Gaspar da Cruz, impresso em Évora em 1570. Mas são também utilizadas informações colhidas na segunda edição do primeiro volume das Navigationi et viaggi, da responsabilidade de Giovanni Battista Ramusio. Esta célebre coletânea de relatos de viagem foi publicada em Veneza a partir de 1550, em três volumes que conheceram numerosas edições, e que foram sendo sucessivamente alargados com novos textos. Caso fosse da autoria de Barbuda a descrição da China que figura no verso do mapa, a datação deste último poderia ser colocada cerca de 1580, numa altura em que o cartógrafo português já residia em Espanha, baseado em Madrid, mas visitando repetidamente a cidade de Sevilha, onde poderia ter consultado quer o mapa chinês chegado pela via das Filipinas, quer o tratado de Escalante sobre matéria chinesa. Nada mais se consegue apurar sobre a vida de Barbuda, que por volta de 1600 parece ter regressado a Portugal, para se reunir à família. 

Rui Manuel Loureiro
ISMAT e CHAM/NOVA

Obras

Barbuda, Luís Jorge de. “Chinae, olim Sinarum regionis, noua descriptio”, in Abraham Ortelius, Theatrum Orbis Terratum. Antuérpia, Christopher PLantin, 1584.

Bibliografia sobre o biografado

Armando Cortesão. Cartografia e cartógrafos portugueses dos séculos XV e XVI, 2 vols. Lisboa: Seara Nova, 1935.

Suzanne Daveau. “O fragmento de mapa corográfico de Portugal da Real Academia de la Historia de Madrid. Fases de realização e de utilização.” Cadernos de Geografia 26–27 (2007–2008): 3–17.

Sylvie Deswartes-Rosa. “De l’emblematique à l’espionnage: autour de D. Juan de Borja, ambassadeur espagnol au Portugal.” In As Relações Artísticas entre Portugal e Espanha na Época dos Descobrimentos, ed. Pedro Dias, 147–183. Coimbra: Livraria Minerva, 1987.

Maroto, María Isabel Vicente e& Mariano Esteban Piñeiro. Aspectos de la Ciencia Aplicada en la España del Siglo de Oro. Salamanca: Junta de Castilla y León, 1991.