Teixeira, Carlos

Aboim, Fafe, 23 outubro 1910 — Lisboa, 7 junho 1982

Palavras-chave: Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, escola de investigação, cartografia geológica.

Carlos Teixeira era filho de Joaquina Teixeira de Magalhães, solteira, e de pai desconhecido. Crê-se, no entanto, que o pai terá sido um padre amigo do seu tio José Teixeira, também ele padre, e que, durante algum tempo, se hospedou em casa da família. Carlos Teixeira cresceu numa família de lavradores com poucas posses, tendo os seus dois tios maternos, José e Manuel Teixeira, sido fundamentais na sua educação, tanto do ponto de vista material como espiritual.

Os primeiros anos da vida de Carlos Teixeira foram passados no campo, em São Pedro, freguesia de Rossas, concelho de Vieira do Minho, circunstância que terá sido responsável pelo seu apego à terra e amor à Natureza. Chegado à idade escolar, foi levado pelo seu tio padre para Casas Novas, Redondelo, no concelho de Chaves, onde complementou a frequência da escola primária com o ensino ministrado, em casa, pelo tio. Entre 1922 e 1929, frequentou o liceu, primeiro em Chaves e, depois, em Braga.

Carlos Teixeira tinha a intenção de cursar Medicina na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) mas acabou por optar pela licenciatura em Ciências Histórico-Naturais, decisão ditada pela falta de dinheiro: uma licenciatura mais breve era menos dispendiosa. A difícil situação financeira de Carlos Teixeira enquanto estudante, levou-o a trabalhar como perfeito em dois colégios do Porto a fim de suportar os custos do ensino universitário. Carlos Teixeira ingressou na FCUP no ano lectivo de 1929/1930 e terminou a licenciatura em 1933, com quinze (15) valores. No mesmo ano, foi convidado por Gonçalo António da Silva Ferreira Sampaio (1865–1937)—que tinha sido seu professor e com quem obteve uma boa classificação—para assistente extraordinário de Botânica na mesma Faculdade. Simultaneamente, cursou Ciências Pedagógicas na Universidade de Coimbra e deu aulas no Liceu de Braga.

O final da licenciatura coincidiu com a provável integração de Carlos Teixeira na escola de investigação liderada por António Augusto Esteves Mendes Correia (1888–1960) no Instituto de Antropologia da FCUP, por ele fundado e dirigido. Mendes Correia era então professor catedrático do 1º grupo, Mineralogia e Geologia, da 3ª secção, Ciências Histórico-Naturais, da FCUP e, até 1936, dirigiu, igualmente, o Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico (MLMG). Mendes Correia foi professor de Carlos Teixeira nas cadeiras de Geologia, Geografia Física, Paleontologia e Antropologia. A influência de Mendes Correia revelou-se decisiva no modo como Teixeira encarava o conhecimento e a prática científica e é provável que lhe tenha servido de modelo quando criou a sua própria escola de investigação em geologia na década de 1950.

Em 1937, Carlos Teixeira foi contratado como naturalista do MLMG, circunstância que determinou que a sua vida científica e profissional acabasse por ser dedicada à geologia. O próprio, aliás, sempre atribuiu esta circunstância à influência de João Carrington Simões da Costa (1891–1982) e Domingos José Rosas da Silva (1896–1967), ambos professores de geologia na FCUP, tendo o primeiro precedido Teixeira no cargo de naturalista no MLMG. Entretanto, Carlos Teixeira iniciou a preparação de uma tese de doutoramento dedicada ao Carbónico de Portugal, tendo estagiado no Instituto Geológico da Universidade de Lille, França, em 1938, na qualidade de bolseiro do Instituto para a Alta Cultura (IAC).

Em Lille, Teixeira trabalhou com os especialistas do Paleozóico superior Paul Bertrand (1879–1944), Pierre Pruvost (1890–1967) e Paul Corsin (1904–1983). A sua situação de bolseiro deu-lhe a oportunidade de, por um lado, contactar de modo continuado, pela primeira vez, com a prática científica em vários países estrangeiro — França mas também Bélgica e Suíça — e, por outro, de travar conhecimento com algumas figuras ligadas ao meio científico português e que, tal como ele, eram bolseiros do IAC. Em Paris, conheceu os geógrafos António de Medeiros Gouveia (1900–1972) e Orlando Ribeiro (1911–1997), com quem acabaria por desenvolver, de regresso a Portugal, relações de trabalho e amizade. Foi igualmente em Paris que conheceu o geólogo francês Georges Zbyszewski (1909–1999), que, em 1940, se estabeleceu em Portugal como geólogo dos Serviços Geológicos (SG), de quem se tornou igualmente amigo e com quem manteve uma significativa colaboração científica.

De regresso a Portugal, Carlos Teixeira integrou o grupo de geólogos que, a partir da segunda metade da década de 1930, foi responsável por um período de intensa actividade científica na FCUP. Foi neste contexto que, em 1940, Carrington da Costa, Carlos Teixeira e João Manuel Cotelo Neiva (1917–20) criaram a Sociedade Geológica de Portugal.

Carlos Teixeira obteve o doutoramento pela FCUP em 1944, o mesmo ano em que se tornou colaborador oficial dos SG. Carlos Teixeira continuou a ocupar o lugar de naturalista do MLGM até 1946, mas, neste ano, deixou a FCUP, ingressando como 1º assistente de geologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). Em 1948, realizou as provas de agregação e, em 1950, ascendeu a professor catedrático. 

Geólogo de campo por excelência, Carlos Teixeira foi o principal responsável pela introdução da prática de campo sistemática na licenciatura em Ciências Geológicas—a partir de 1964, licenciatura em Geologia—da FCUL. 

Todavia, a sua iniciação na prática da Geologia em contexto académico não terá sido diferente da que era habitual, na época, em Portugal: o trabalho de gabinete, concretamente, no caso de Teixeira, o trabalho de gabinete enquanto naturalista de MLMG. É preciso recuar aos anos da licenciatura em Ciências Histórico-Naturais para detectar o rasto das primeiras saídas de campo de Teixeira, realizadas sob orientação de Rui de Serpa Pinto (1907–1933), licenciado em Matemática e Engenharia Civil que acabou por se dedicar à investigação em Antropologia, Arqueologia e Geologia e que, em 1930, se tornou assistente do grupo de Mineralogia e Geologia da FCUP. Mais tarde, durante a preparação do doutoramento, a estadia de Teixeira no Instituto Geológico de Lille ter-se-á revelado fundamental, uma vez que a instituição era reconhecida enquanto escola de formação em trabalho de campo. De regresso a Portugal, a colaboração científica com os SG, em particular com o geólogo Georges Zbyszewski e com os colectores da instituição, poderá ser entendida como uma derradeira etapa na formação de Carlos Teixeira enquanto geólogo de campo.

Carlos Teixeira foi o líder daquela que terá sido a primeira escola de investigação em geologia existente em Portugal, criada pelo IAC, em 1956, no Centro de Estudos de Geologia Pura e Aplicada sediado na mesma Faculdade. Foi desta escola que saíram alguns dos mais significativos geólogos portugueses da segunda metade do século XX, muitos dos quais, como os próprios reconheceram, tiveram como mestre Carlos Teixeira. Foi o caso, por exemplo, de Francisco Gonçalves (1926–1997), João José Cardoso Pais (1949–2016), António Marcos Galopim de Carvalho (1931) ou Rogério Eduardo Bordalo da Rocha (1941).

Teixeira foi um líder carismático, que exerceu uma liderança forte e efetiva, a raiar, por vezes, o autoritarismo. A par da sua indiscutível competência científica, o significativo poder institucional de Carlos Teixeira permitiu-lhe a obtenção de bolsas e a colocação de discípulos em diversas instituições ligadas à Geologia, com destaque para as universidades e os SG, onde era colaborador científico desde 1944. A liberdade de movimentos de Teixeira nesta instituição era de tal modo significativa que, durante as décadas de 1960 e 1970, os SG funcionaram como uma escola prática de geologia, extensão da escola de investigação da FCUL, que não possuía os recursos humanos e materiais adequados à prossecução de trabalho de campo. A existência desta escola prática nos SG permitiu o estreitamento e a consolidação de relações entre a instituição e a FCUL que se mantiveram durante muito tempo.

A Revolução de Abril de 1974 trouxe mudanças radicais e abruptas no quotidiano universitário. O poder significativo de que Carlos Teixeira tinha disfrutado durante o regime ditatorial conduziu a uma situação de confronto com a nova academia, levando Teixeira, que se considerava injustiçado, a afastar-se da FCUL.

Para além do desenvolvimento da sua carreira como professor na FCUL, Carlos Teixeira desempenhou um papel relevante em instituições que, de algum modo, contemplavam algum tipo de atividade geológica. Foi o caso da Junta de Investigações do Ultramar (JIU), onde foi vogal e chefiou o Laboratório de Estudos Petrológicos e Paleontológicos, e da Junta de Energia Nuclear (JEN), onde foi igualmente vogal e consultor científico, tendo acompanhado os levantamentos geológicos de áreas com mineralizações de urânio em Portugal continental. Teixeira desempenhou ainda o papel de consultor benévolo em diversas outras instituições públicas.

A detenção destes cargos e posições devem-se, em grande parte, às relações que mantinha com personalidades que detiveram alguma relevância institucional e política durante o Estado Novo, com destaque para Carrington da Costa e Mendes Correia. Deve-se, certamente, a Carrington da Costa as funções que Teixeira desempenhou na JEN e na JIU, uma vez que o primeiro desempenhou cargos executivos em ambas as instituições. Se o percurso científico e profissional destes três homens se começou a cruzar na FCUP, na década de 1930, entre eles acabaram por se estabelecer relações de grande proximidade e afinidade: começaram por ser mestre/aluno e colegas e acabaram por se tornar amigos.

Da obra científica de Carlos Teixeira constam quase quinhentos trabalhos, dedicados não apenas à geologia de Portugal continental, mas também à das antigas possessões coloniais portuguesas.

Todavia, os primeiros trabalhos científicos de Teixeira, que datam de 1934, são dedicados à arqueologia, antropologia e etnologia, encontrando-se relacionados com a sua integração na escola de investigação liderada por Mendes Correia. Até ao final da década de 1930, e ainda durante o ano de 1940, Teixeira continuou a publicar, preferencialmente, nestas áreas; de facto, o seu interesse pelas mesmas acompanhou-o ao longo da vida.

Foi apenas em 1937, quando se tornou naturalista do MLMG, que Carlos Teixeira publicou os primeiros artigos científicos no âmbito da geologia, mais especificamente, da paleobotânica. O primeiro, no Boletim do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico da Universidade de Lisboa, é dedicado ao estudo de musgos do Carbónico português; o segundo, sobre o Estefaniano do Norte de Portugal, surge, em francês, no Bulletin de la Société Portugaise des Sciences Naturelles. As temáticas abordadas estão directamente relacionadas com a preparação da sua tese de doutoramento com o título O Antracolítico Continental Português (Estratigrafia-Tectónica).

Apesar de, inicialmente, Teixeira se ter centrado no estudo de formações geológicas anteriores ao Mesozóico—com destaque para as pertencentes ao Carbónico continental—no decorrer da sua carreira científica e profissional acabou por dedicar-se ao estudo de formações de, praticamente, todas as idades. Por outro lado, a sua investigação passou também a abarcar diversas áreas da geologia. Muitos dos seus trabalhos possuem um carácter global e abrangente, constituindo-se como verdadeiros estudos de geologia regional. Pode dizer-se que o trabalho de Carlos Teixeira—e de grande parte dos geólogos portugueses até ao último quartel do século XX—se caracterizou por uma visão global e generalista da geologia, eminentemente descritiva e, à primeira vista, baseada em pressupostos teóricos cuja aceitação em contexto nacional não foi, regra geral, problematizada. Esta visão encontrou a sua expressão máxima na realização da cartografia geológica e nos estudos de geologia regional a ela associados.

A colaboração de Carlos Teixeira com os SG permitiu-lhe a autoria ou co-autoria de uma parte significativa das folhas da Carta Geológica de Portugal na escala 1:50 000. Em 1972, foi o principal responsável pela 4ª edição da Carta Geológica de Portugal Continental na escala 1:500 000 e participou na construção e publicação das cartas geológicas do Noroeste e do Sudoeste peninsulares, resultantes de extenso trabalho conjunto com geólogos espanhóis. O estabelecimento e desenvolvimento de relações de trabalho com cientistas estrangeiros foram, aliás, uma das marcas da atividade científica e profissional de Carlos Teixeira.

Carlos Teixeira teve ainda uma importância fundamental na defesa e desenvolvimento da geologia em Portugal. Enquanto co-fundador da Sociedade Geológica de Portugal, que foi estabelecida com o objectivo de promover o reconhecimento científico e social da geologia e dos geólogos, Teixeira desenvolveu uma extensa atividade que encontrou expressão em diversas publicações e comunicações orais. O seu empenhamento na defesa da geologia e do papel dos geólogos na sociedade portuguesa extravasou o âmbito restrito da comunidade científica, adquirindo uma acentuada vertente pública, uma vez que o geólogo escreveu sobre este assunto em diversos periódicos.

Carlos Teixeira foi sócio da Sociedade Geológica de França desde cerca de 1940, onde chegou a desempenhar as funções de vice-presidente. Em 1952, tornou-se sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa e, em 1960, sócio efetivo, substituindo Mendes Correia na secção de Ciências Histórico-Naturais. Em 1955, foi eleito sócio correspondente da Real Academia de Ciências Exactas, Físicas e Naturais de Madrid. No início da década de 1950, foi responsável pela inscrição de Portugal na International Union of Geological Sciences (IUGS) e, a partir de então, passou a representar Portugal em diversos encontros científicos internacionais, nomeadamente nas sessões do Congresso Internacional de Geologia realizadas em Copenhaga, em 1964, e em Praga, em 1968

A imagem usufruída por Carlos Teixeira entre os geólogos portugueses, foi construída e perpetuada tanto pelos seus discípulos e amigos mais próximos, como pelos seus críticos. É uma imagem dúplice mas nem por isso contraditória e que hoje integra a ‘mitologia’ fundadora da comunidade geológica. Após a sua morte, e juntamente com os pioneiros da ‘época de ouro’ da geologia, Carlos Ribeiro (1814–1882), Nery Delgado (1835–1908) e Paul Choffat (1849–1919), Teixeira passou a ser considerado um dos ‘pais fundadores’ da geologia em Portugal.

Carlos Teixeira parece ter sido o geólogo de campo por excelência, conhecedor ímpar da geologia de todo o país, observador invulgar com uma memória visual fora do comum; os próprios cadernos de campo ser-lhe-iam praticamente dispensáveis. Durante o trabalho de campo, mostrava-se insensível às horas, ao frio e ao cansaço, ao calor e à chuva. A expressão ‘um geólogo não é solúvel’, repetida de geração em geração por geólogos seniores aos seus discípulos durante as primeiras saídas de campo, é-lhe atribuída.

Solteiro, praticamente sem família, Teixeira representa o estereótipo do ‘cientista sacerdote’ que renunciou aos aspetos mais mundanos da vida para se dedicar totalmente à ciência, sacrificando-se tanto do ponto de vista pessoal como material. Este último aspecto é vincado pelo testemunho da sua prodigalidade e desapego material, de que beneficiaram amigos, colegas e alunos. Personalidade forte, de carácter vincado, somam-se as qualidades de carácter: lutador, abnegado, solidário, leal, amigo do seu amigo.

Mas Carlos Teixeira é igualmente retratado como um homem de natureza difícil, autoritário, dado a zangas e humores, por vezes mesmo rancoroso, e com quem se tornava difícil conviver. Usava o prestígio e a influência de que desfrutava para satisfazer os seus interesses mas mesmo os seus críticos reconhecem que esses interesses diziam mais respeito à comunidade geológica portuguesa do que a objectivos pessoais. Na verdade, durante toda a vida, Teixeira lutou intensamente pela valorização da geologia e pela dignificação da profissão de geólogo na sociedade portuguesa.

Só é possível compreender a personalidade de Carlos Teixeira se contextualizarmos histórica e socialmente as suas ações, as suas opções científicas e profissionais, as suas idiossincrasias. Mas a sua imagem, construída e perpetuada ao longo dos anos pela comunidade geológica, não deve ser negligenciada; de outra forma, arriscamo-nos a obter uma imagem distorcida do homem e do cientista e a perpetuar ‘estórias’ e anedotas.

Há assim dois aspectos que se afiguram fundamentais na compreensão de Carlos Teixeira. Por um lado, a importância institucional e a notoriedade científica que adquiriu resultaram não só à sua inquestionável competência científica como das relações de proximidade que manteve com algumas personalidades ligadas ao Estado Novo, algumas delas ainda por reconhecer plenamente. Apesar de um não comprometimento político objectivo com a ditadura, Teixeira soube aproveitar o carácter nacionalista do regime para fazer valer os seus interesses e os da comunidade geológica em geral, que por vezes se confundiam.

Por outro, é significativa a importância que o cruzamento de valores católicos e republicanos desempenhou na formação do carácter de Carlos Teixeira. A infância num meio rural pobre, intrinsecamente rude e agreste, marcada pela ausência da figura paterna e em que a presença dos tios, um dos quais padre, se afigura determinante, cruza-se com a interiorização de valores republicanos durante a experiência universitária. Como mostram diversos testemunhos deixados pelo próprio Carlos Teixeira, as suas palavras ecoam as dos mestres Mendes Correia e Carrington da Costa, ambos republicanos, as quais enaltecem o professor universitário não apenas enquanto transmissor de conhecimentos mas também, e sobretudo, enquanto investigador original e cientista comprometido com questões intelectuais e sociais. O conhecimento e a prática científicos são considerados fundamentais para o desenvolvimento e o ‘progresso’ do país, sendo dado particular relevo ao papel da formação de discípulos no contexto de escolas de investigação.

Mas também os valores transmitidos pela educação católica de Carlos Teixeira acabaram por influenciar a sua prática científica. Foi ao catolicismo que o geólogo foi buscar valores como o trabalho árduo, a dedicação, o sacrifício e o desprendimento pelos bens materiais, que reforçam a construção de uma imagem que não é, de todo, invulgar na retórica e iconografia científicas: a do cientista cujas excepcionais e invulgares características e capacidades lhe permitem uma devoção completa à ciência. No caso de Teixeira, essa dedicação acabou por adquirir os contornos de um verdadeiro sacerdócio, reforçada pelo facto do geólogo ter permanecido solteiro, e encontrando uma espécie de culminar no final da sua vida, quando, cego devido à diabetes, continuou a trabalhar, ditando os seus trabalhos a colaboradores e amigos.

Teresa Salomé Mota
Gestão e conversação do património geológico

Arquivos

Arquivo Histórico do Laboratório Nacional de Energia e Geologia

Arquivo Histórico do Instituto de Investigação Científica e Tropical

Arquivo Histórico da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

Arquivo Histórico da Academia de Ciências de Lisboa

Arquivo Histórico Camões

Obras

Teixeira, Carlos. “Introdução.” Boletim da Sociedade Geológica de Portugal 1 (1941): 3–4.

Teixeira, Carlos. “O Antracolítico continental português (Estratigrafia-Tectónica).” Boletim da Sociedade Geológica de Portugal 5 (1945): 1–139.

Teixeira, Carlos. “Flora mesozóica portuguesa.” Memórias dos Serviços Geológicos de Portugal (1948): pp.

Teixeira, Carlos. O que Vale a Geologia. Missão do Geólogo. Lisboa: Edição de autor, 1950.

Teixeira, Carlos. “Cartografia geológica de Goa”. In A Geologia de Goa. Considerações e Controvérsias, 139–160. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1960.

Teixeira, Carlos. Carta Geológica de Portugal na escala 1/500 000. Lisboa: Serviços Geológicos de Portugal, 1972.

Teixeira, Carlos e Luís Carlos Garcia de Figuerola, Luis Carlos, dir.; Francisco Gonçalves, Francisco e J. L. Hernandez Enrile, coord. Mapa Geológico do Maciço Hespérico do Sudoeste da Península Ibérica na Escala 1/500 000. Madrid: Departamento de Petrologia e Geoquimica de la Universidade de Salamanca/Instituto Geografico y Cadastral, 1975.

Teixeira, Carlos, Rogério Rocha, Rogério e João Pais. Quadros de Unidades Estratigráficas e da Estratigrafia Portuguesa. Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1979.

Teixeira, Carlos e Francisco Gonçalves. Introdução à Geologia de Portugal. Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1980.

Teixeira, Carlos Geologia de Portugal, Volume 1—Precâmbrico Paleozóico. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1981.

Bibliografia sobre o biografado

Gonçalves, Francisco. Carlos Teixeira, Notícia Bio-bibliográfica, o Pedagogo, o Cientista. Lisboa: Edição de autor, 1976.

Ribeiro, Orlando. “A personalidade de Carlos Teixeira.” In Opúsculos Geográficos, Volume I: Orlando Ribeiro, 307–313. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1989.

Ribeiro, António. “Carlos Teixeira (1910–1982). O renascimento da geologia de campo no século XX.” In Memórias de Professores Cientistas, ed. Ana Simões, 90–95. Lisboa: Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 2001.

Rocha, Rogério. “Carlos Teixeira (1910–1982)—Uma vida devotada ao serviço da Ciência.” Boletim da Sociedade Geológica de Portugal 25 (2009): 19–24.

Carneiro, Ana, Ana Simões, Maria Paula Diogo, e Teresa Salomé Mota. “Geology and religion in Portugal.” Notes and Records of the Royal Society 67 (2013): 331–354.

Athias, Marck Anahory

Funchal, 11 Dezembro 1875 — Lisboa, 30 Setembro 1946

Palavras-chave: “Geração de 1911”, escola de investigação, fisiologia, histofisiologia e histopatologia, cancro, Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, Sociedade Portuguesa de Biologia.

Marck Anahory Athias nasceu numa família de origem judaica que se fixou na Madeira no século XIX. O pai, Abrahão Athias, era director de um estabelecimento bancário no Funchal; sua mãe, Deborah Anahory Athias, era doméstica. Fez os estudos secundários na Madeira e cedo manifestou interesse pelas Ciências Naturais, por influência de um dos seus professores. Aos dezasseis anos persuadiu o seu pai a deixá-lo frequentar o curso de medicina, em Paris. Os anos que passou na faculdade permitiram-lhe privar com histologistas e fisiologistas de renome internacional, entre os quais se contava Mathias Duval, discípulo de Santiago Ramón Y Cajal, Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia de 1906, que muito influenciou a sua carreira como médico-cientista. Concluiu o curso de medicina, em 1897, com uma tese intitulada Histogènese du Cortex Cérébelleux, que lhe valeu a atribuição da medalha comemorativa da Faculdade de Medicina de Paris e as palmas académicas (Officier de L’Instruction Publique), do Ministério da Educação francês. 

Ao terminar o curso teria preferido continuar no laboratório de Duval, mas não ganhou o concurso. O lugar foi ocupado por outro discípulo, de nacionalidade francesa, o que condicionou o seu regresso ao Funchal, no mesmo ano. Após a morte do pai e insatisfeito com a ideia de exercer clínica na Madeira, veio para Lisboa, na expectativa de dar continuidade à sua carreira científica, já que regressar a França não se lhe afigurava viável devido ao caso Dreyfus (1894) e à onda de antissemitismo que então se gerou. 

Vivia na Rua de S. Bento. Foi apresentado por Xavier da Costa, histologista no Instituto Oftalmológico Gama Pinto, a Miguel Bombarda, que o convidou para trabalhar num pequeno laboratório de histologia, que instalou no Hospital de Rilhafoles, destinado ao ensino e à investigação desta disciplina. Aí acorreram Carlos França, Azevedo Neves, Pinto de Magalhães, Aníbal de Castro, Borges de Sousa, Oliveira Soares e António Barbosa, a que se associaram depois, no curso de 1901, Costa Santos, Manchego, Santiago, Arbuès Moreira e Augusto Celestino da Costa, interessados no conhecimento das novas técnicas histológicas, que Athias dominava. Ao mesmo tempo assumiu a direção de um laboratório médico privado de análises clínicas e preparação de soros, do Instituto Pasteur de Lisboa, propriedade de Virgílio Leitão. Em 1903, tornou-se preparador de histologia e fisiologia na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, onde elaborou a apresentação da nova dissertação inaugural, “Anatomia da célula nervosa”, para obter equivalência na Universidade portuguesa.

Por dificuldades financeiras, o laboratório de Rilhafoles encerrou e, em 1905, Athias entrou para o quadro do Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, dirigido por Annibal Bettencourt, como médico-auxiliar, responsável pelo serviço da raiva.

Athias colaborou ativamente na elaboração do projecto da nova escola, a Escola Médico-cirúrgica de Lisboa, no Campo de Santana, que seria inaugurada em 1906, para acolher também o XV Congresso Internacional de Medicina, organizado por Miguel Bombarda. A este evento Athias apresentou vários trabalhos de investigação que lhe deram visibilidade para a criação, em 1907, da primeira sociedade científica especializada em ciências biológicas (entenda-se experimentais), a Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais (SPCN). A Sociedade foi fundada a 8 de Janeiro de 1907 com sede no Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, sendo Fernando Mattoso Santos seu presidente e Athias, 1º secretário. Nesta qualidade organizava as sessões, tratava da correspondência e publicava o Boletim e as Memórias da Sociedade, em francês, dando assim cumprimento às disposições estatutárias que não só incluíam a criação da Estação de Biologia Marítima, que tinha um programa bem mais ambicioso: o de  “cultivar e desenvolver o estudo das Ciências Naturais e publicar trabalhos relativos a estas ciências, assim como patrocinar outras organizações que, junto dela se organizassem com os mesmos objectivos”, como indica Toscano Rico. A esta sociedade seguiu-se a Sociedade Portuguesa de Biologia fundada em 1920, com Augusto Celestino da Costa e Abel Salazar, que viveu vários anos sob o patrocínio da SPCN e da Société de Biologie de Paris, abrindo assim caminho à divulgação da investigação médica portuguesa.

Em 1909, por intervenção de Miguel Bombarda, foi designado pelo governo para visitar, durante três meses, alguns laboratórios e fábricas de equipamento laboratorial no estrangeiro, juntamente com Pinto de Magalhães, com a missão de equipar os laboratórios e as bibliotecas, na Faculdade de Medicina. A 9 de Novembro de 1910 Marck Athias substituiu Miguel Bombarda na cátedra de fisiologia, para a qual foi nomeado com dispensa de provas públicas, e um ano depois, instalou o Instituto de Fisiologia na faculdade. Em 1919, foi nomeado Professor de histologia e fisiologia e diretor da biblioteca da Faculdade. Casou no mesmo ano com Judite Brou, filha de Aníbal Brou, um colega seu que vivia no Porto. Deste casamento nasceram duas filhas.

Em 1923, António Sérgio criou o Instituto Português para o Estudo do Cancro, que funcionou provisoriamente na Iª Clínica Cirúrgica de Francisco Gentil e no Instituto de Fisiologia de Athias, na Faculdade de Medicina. Após a sua inauguração em 1927, como Instituto Português de Oncologia (IPO), os laboratórios de investigação foram confiados a Athias, e de forma particular, a secção de patologia experimental e de histofisiologia. O seu primeiro trabalho sobre o cancro foi apresentado em 1907, na Sociedade de Ciências Médicas, mas apenas após a responsabilidade que assumiu na direção da investigação do IPO, se dedicou inteiramente a esta problemática. 

Nos primeiros anos da ditadura militar instaurada em 1926, foi membro da Junta de Educação Nacional, tendo sido seu presidente em 1931.

No ano seguinte, foi convidado por Ferreira de Mira para trabalhar consigo no laboratório de fisiologia, do Instituto de Investigação Científica Bento da Rocha Cabral (IRC), passando assim a integrar o quadro dos investigadores deste instituto privado de investigação. Aqui permaneceu até 1943, tendo realizado os primeiros estudos sobre a histofisiologia das glândulas endócrinas, que abririam caminho à endocrinologia, na década de 50. 

Em 1933 foi nomeado professor do Instituto de Hidrologia, onde realizou ainda alguns estudos de águas termais portuguesas, com características medicinais. 

Em 1935 chegou à conclusão de que a sua missão de histologista na Faculdade de Medicina estava terminada e que não tinha condições para dar continuidade ao seu trabalho. Para além de orientar alguns trabalhos de investigação, dava apenas aulas, fazia os exames, comparecia aos conselhos e participava nos concursos. Até 1944, continuou a ocupar-se da redação e revisão das publicações das sociedades científicas de que era secretário. Controlou as suas atividades editoriais cujo objetivo visava, por um lado, difundir a sua produção científica, por outro, controlar a produção científica nacional nas áreas de influência da escola. Foi precisamente através destes canais de difusão do conhecimento que Marck Athias e a sua escola não só internacionalizaram a medicina portuguesa durante a primeira metade do séc. XX, como também criaram na comunidade científica local a necessidade de uma produção científica original e regular, orientada por padrões internacionais.

Nos últimos 15 anos da sua vida dedicou-se, quase exclusivamente, ao Instituto Português de Oncologia: teve uma participação ativa no estudo e instalação do instituto; dirigiu alguns trabalhos laboratoriais, colaborou na redação do Boletim do Instituto Português de Oncologia e na direção e redação do Arquivo de Patologia. Fez ainda outras publicações sob a forma de artigos relacionados com o cancro e contribuiu ativamente para a luta contra o cancro nas diversas funções do instituto. 

Em 1945, abandonou o cargo de secretário da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, passando a ser sócio benemérito e manteve-se na Sociedade Portuguesa de Biologia até adoecer. No mesmo ano, ano em que atingiu o limite de idade, foi homenageado pela Faculdade de Medicina e pelo Instituto Português de Oncologia, tendo sido inaugurados um retrato e um busto seus, concebidos por Abel Salazar, seu colaborador e amigo. No ano seguinte, faleceu a sua esposa vítima de cancro e Athias, faleceria poucos meses depois, vítima da mesma doença.

Athias propôs-se criar uma dinâmica interna na comunidade científica portuguesa, servindo-se do seu próprio trabalho para abrir um precedente e estabelecer um padrão de produção científica regular, através do seu percurso individual. Interessava-lhe mais estabelecer uma rede de condições que permitissem sustentar a atividade da comunidade científica, através da criação das várias sociedades científicas e periódicos que fundou e secretariou. Por esse motivo não publicou um grande número de obras nem o fez no circuito internacional. Publicou 138 trabalhos originais: 9 biografias científicas (D. Carlos I, Miguel Bombarda, Fernando Mattoso Santos, A. Laveran, Santiago Ramón y Cajal, Albert Dustin, Max Askanazy, Henrique Parreira e Carlos França); 4 textos didáticos escritos para os alunos da Faculdade de Medicina (em colaboração com Ferreira de Mira e Joaquim Fontes), os guias dos trabalhos práticos de fisiologia, e os exercícios de química fisiológica (em colaboração com Joaquim Fontes); 35 artigos de divulgação, relatórios de viagens ao estrangeiro ou das instituições em que trabalhou ou dirigiu e, os restantes, são artigos científicos. Estes artigos distribuem-se pelas áreas segundo as quais orientou a sua escola de investigação ¾ a fisiologia, a histologia, a histofisiologia, a histopatologia e a química fisiológica.

No início do século XX, a investigação científica em Portugal no domínio médico restringia-se a aspetos da prática clínica. Foi com a criação das estruturas basilares do novo paradigma médico inaugurado pela “geração de 1911” que Marck Athias introduziu uma nova tradição científica na comunidade médica, ao mesmo tempo que influenciou vários discípulos e colaboradores, em diferentes instituições médicas de ensino e investigação. A escola que fundou e o impacto da sua influência intersecta os ideais de inspiração positivista com os quais a “geração de 1911” se identificava, e que permitiu a criação de um verdadeiro “esprit de corps” que atraiu várias gerações de discípulos e seguidores. A escola que Athias fundou teve continuidade pela mão dos seus discípulos e seguidores permitindo consolidar o novo paradigma experimental na medicina portuguesa da primeira metade do século XX.

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Marck Anahory Athias exerceu clínica durante escassos meses, mas inaugurou, na primeira metade o século XX, um novo capítulo na história da medicina portuguesa e no panorama científico nacional. Elemento da “geração de 1911”, partilha dos ideais republicanos que conferem à investigação experimental e ao laboratório um estatuto privilegiado. Criticou o estilo livresco do ensino médico em Portugal, em defesa da investigação laboratorial. Esta nova perspetiva iria introduzir, alterações sem precedentes na comunidade médica portuguesa, tradicionalmente orientada apenas para a clínica, e far-se-ia sentir em dois planos: o da prática da investigação biomédica propriamente dita, e o da organização da investigação científica, no sentido da especialização e da profissionalização, o que virá a ter reflexos significativos no panorama científico nacional. 

Pela sua vivência em Paris, Athias estava consciente da importância de formar discípulos e de fazer escola, pelo que, logo que iniciou a sua atividade científica em Portugal, foi congregando em torno de si jovens interessados em prosseguir uma carreira científica. Estes, mais do que estudantes de investigação, foram efetivamente discípulos, já que sustentaram e deram continuidade à dinâmica da escola em vários planos. Recrutados maioritariamente na Faculdade de Medicina e unidos por um ideal comum de universidade e de investigação científica, constituíram um grupo coeso e com identidade própria, ficando indelevelmente ligados à “geração de 1911.”

A investigação da escola de Athias expandiu-se por vários laboratórios. O crescimento em espaço e em equipamento foi sendo gradualmente melhorado: no laboratório do Hospital de Rilhafoles (1897-1903) havia apenas uma sala relativamente pequena e deficientemente equipada; o da Escola Médico-Cirúrgica, (1903–1906) tinha melhores condições que o anterior, mas Athias considerava-o ainda desajustado à investigação; o do Instituto de Fisiologia (1911–1946) e dos laboratórios do Instituto Rocha Cabral estavam, desde o início, bem equipados para responder às necessidades da escola; finalmente o laboratório de patologia experimental do IPO (1933–1946), era de todos o que tinha as melhores condições. O financiamento da investigação realizada nestes laboratórios provinha do Estado, nomeadamente das verbas da Faculdade de Medicina, da Junta de Educação Nacional e do Instituto para a Alta Cultura, bem como de donativos particulares de somas consideráveis. 

O programa de investigação desenvolvido pela escola de Marck Athias iniciou-se pela histofisiologia nervosa, em 1897, área na qual Athias fizera as primeiras contribuições científicas em 1895, e prolongou-se até 1915. Esta área alargou-se para abranger a histofisiologia geral a partir de 1905 e diversificou-se para a fisiologia e a química fisiológica, a partir de 1911, e a histopatologia a partir de 1923. Os métodos e técnicas da histofisiologia, “migraram para novas áreas de ignorância” das quais se destaca endocrinologia. Na histologia do sistema nervoso, a escola centrou-se no estudo do desenvolvimento do neurónio e das infiltrações celulares no cérebro; no domínio da histofisiologia, procedeu ao estudo das glândulas endócrinas; na fisiologia dedicou-se à fisiologia muscular, glandular e de alguns órgãos como o rim e o coração; na química fisiológica, procurou encontrar uma explicação química para os fenómenos fisiológicos estudados no âmbito da fisiologia. O programa da escola de investigação de Athias operou duas mudanças importantes, na investigação biológica em Portugal: primeiro consolidou na investigação fisiológica portuguesa uma abordagem ao nível da célula e não somente ao nível do órgão; com a química fisiológica anunciou a transição do nível celular para o molecular, no âmbito da fisiologia. 

Em torno deste programa de investigação Athias deixou discípulos não só nas instituições em que liderou a investigação, como também noutras instituições de ensino e de investigação em Lisboa, no Porto, e em Coimbra. Athias promoveu um estilo próprio para a disseminação do seu próprio trabalho, criando vários periódicos, cujos artigos eram escritos maioritariamente em língua francesa, o que leva a supor que Athias estaria determinado a criar hábitos de publicação científica regular na comunidade científica portuguesa.

A escola de Marck Athias atravessou dois períodos históricos e políticos marcantes do séc. XX. Os ideais republicanos foram favoráveis ao desenvolvimento da ideologia e das práticas científicas com as quais a escola de Marck Athias se identificava e, portanto, os primeiros passos dados no âmbito da reforma dos estudos médicos com a criação da Universidade de Lisboa, em 1911, e da Junta de Educação Nacional, em 1929, foram fundamentais para os resultados desta escola. O Estado Novo, apesar de lhe ser desfavorável, não conseguiu, no entanto, travar de imediato a tradição que a escola inaugurara. A escola de Marck Athias converteu-se, no plano da investigação científica, numa referência durável até à segunda geração de discípulos e, no plano ideológico, numa referência da intelectualidade portuguesa que viveu os anos mais duros da ditadura.

Isabel Amaral

Arquivo

Lisboa, Coleção Marck Athias, Faculdade de Medicina

Obras

Athias, Marck. “Recherches sur l’histogénèse de l’écorce du cervelet.” Journal d’Anatomie 33 (1897): 372–373.

Athias, Marck. Anatomia da cellula nervosa. Dissertação Inaugural. Lisboa: Centro Tipografico Colonial, 1905.

Athias, Marck. “Introdução do método experimental e as suas principais aplicações às ciências médicas e biológicas em Portugal (Discurso)”. Actas do Congresso de História da Actividade Científica Portuguesa (1940): 465–491.

Athias, Marck. “La vacuolisation de la cellule nerveuse.” Anatomischer Anzeiger 28 (1905): 492–494. 

Athias, Marck. “Cytologia Geral do Cancro.” Jornal da Sociedade de Sciencias Médicas de Lisboa 72 (1908): 110–142.

Athias, Marck. “Études Hystologiques sur la Greffe Ovarienne.” In Libro en Honor de D. Santiago Ramón y Cajal, trabajos originales de sus admiradores e discipulos extranjeros y nacionales, 78–118. Madrid: Jiménez y Molina Impresores, 1922.

Athias, Marck. “Contribuição para o Estudo da Enervação dos Tumores.” Arquivo de Patologia 4 (1932): 138–161. [com Maria Teresa Furtado Dias].

Athias, Marck. “Le Cancer et la lutte anticancéreuse au Portugal”. Communications du IIe Congrés International de la lutte scientific et sociale contre le cancer, 519–525. Bruxelles: Marcel Hayez, 1936.

Athias, Marck. “Conception unitaire des paraganglions.” Comptes Rendus de la Société de Biologie de Paris 132 (1) (1940): 103–108.

Athias, Marck. Catálogo das obras da colecção portuguesa anteriores à fundação das Regias Escolas de Cirurgia. Lisboa: Faculdade de Medicina, 1942.

Athias, Marck. “O Ensino da Fisiologia na Régia Escola de Cirurgia e na Escola Médico Cirúrgica de Lisboa.” Clinica Contemporânea 1 (6) (1946): 333–341.

Bibliografia sobre o biografado

Celestino da Costa, Augusto. “Athias e a investigação científica.” Cadernos Científicos 3 (1) (1946): 249–262.

Celestino da Costa, Augusto. “A vida e obra Científica de Marck Athias.” Arquivo de Anatomia e Antropologia 26 (1948): 14–-227.

Rico, Toscano. “Mark Athias.” Arquivo de Patologia 21 (2) (1949): 117–140.

Dias, Maria Thereza Furtado. “Mark Athias.” Arquivo de Patologia 21 (2) (1949): 141–148.

Ferreira de Mira, Matias Boleto. “Athias e a Investigação Científica.” Clínica, Higiene e Hidrologia, 13, (1947), 269-270. 

Ferreira de Mira, “Athias e a Investigação Científica,” Clínica Higiene e Hidrologia, 13, (1947), 269-270.

Guimarães, J. A., “A Personalidade do Professor Marck Athias,” Clínica, Higiene e Hidrologia, 13 (1947), 266-273

Botelho, Luís da Silveira. “Marck Athias.” Revista Medicina 5 (1990): 69–71.

Amaral, Isabel. A Emergência da Bioquímica em Portugal: as escolas de investigação de Marck Athias e de Kurt Jacobsohn. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian-Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2006.

Amaral, Isabel. “The emergence of new scientific disciplines in Portuguese medicine: Marck Athias’s histophysiology research school, Lisbon (1897-1946).” Annals of Science 63 (1) (2006): 85–110.

Amaral, I. “The New Face of Portuguese Medicine: the generation of 1911 and the Research School of Marck Athias.” Acta Medica Portuguesa 24 (1) (2011): 165-162.

Amaral, Isabel. “Marck Athias e a ‘geração de 1911.’” Letras convida – Literatura, Cultura e Arte 3 (2011): 94–95.

Amaral, Isabel. Marck Anahory Athias (1875-1946). Instituto Camões. Versão digital em http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/p41.html, consultado a 7 de julho de 2022.