Athias, Marck Anahory

Funchal, 11 Dezembro 1875 — Lisboa, 30 Setembro 1946

Palavras-chave: “Geração de 1911”, escola de investigação, fisiologia, histofisiologia e histopatologia, cancro, Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, Sociedade Portuguesa de Biologia.

Marck Anahory Athias nasceu numa família de origem judaica que se fixou na Madeira no século XIX. O pai, Abrahão Athias, era director de um estabelecimento bancário no Funchal; sua mãe, Deborah Anahory Athias, era doméstica. Fez os estudos secundários na Madeira e cedo manifestou interesse pelas Ciências Naturais, por influência de um dos seus professores. Aos dezasseis anos persuadiu o seu pai a deixá-lo frequentar o curso de medicina, em Paris. Os anos que passou na faculdade permitiram-lhe privar com histologistas e fisiologistas de renome internacional, entre os quais se contava Mathias Duval, discípulo de Santiago Ramón Y Cajal, Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia de 1906, que muito influenciou a sua carreira como médico-cientista. Concluiu o curso de medicina, em 1897, com uma tese intitulada Histogènese du Cortex Cérébelleux, que lhe valeu a atribuição da medalha comemorativa da Faculdade de Medicina de Paris e as palmas académicas (Officier de L’Instruction Publique), do Ministério da Educação francês. 

Ao terminar o curso teria preferido continuar no laboratório de Duval, mas não ganhou o concurso. O lugar foi ocupado por outro discípulo, de nacionalidade francesa, o que condicionou o seu regresso ao Funchal, no mesmo ano. Após a morte do pai e insatisfeito com a ideia de exercer clínica na Madeira, veio para Lisboa, na expectativa de dar continuidade à sua carreira científica, já que regressar a França não se lhe afigurava viável devido ao caso Dreyfus (1894) e à onda de antissemitismo que então se gerou. 

Vivia na Rua de S. Bento. Foi apresentado por Xavier da Costa, histologista no Instituto Oftalmológico Gama Pinto, a Miguel Bombarda, que o convidou para trabalhar num pequeno laboratório de histologia, que instalou no Hospital de Rilhafoles, destinado ao ensino e à investigação desta disciplina. Aí acorreram Carlos França, Azevedo Neves, Pinto de Magalhães, Aníbal de Castro, Borges de Sousa, Oliveira Soares e António Barbosa, a que se associaram depois, no curso de 1901, Costa Santos, Manchego, Santiago, Arbuès Moreira e Augusto Celestino da Costa, interessados no conhecimento das novas técnicas histológicas, que Athias dominava. Ao mesmo tempo assumiu a direção de um laboratório médico privado de análises clínicas e preparação de soros, do Instituto Pasteur de Lisboa, propriedade de Virgílio Leitão. Em 1903, tornou-se preparador de histologia e fisiologia na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, onde elaborou a apresentação da nova dissertação inaugural, “Anatomia da célula nervosa”, para obter equivalência na Universidade portuguesa.

Por dificuldades financeiras, o laboratório de Rilhafoles encerrou e, em 1905, Athias entrou para o quadro do Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, dirigido por Annibal Bettencourt, como médico-auxiliar, responsável pelo serviço da raiva.

Athias colaborou ativamente na elaboração do projecto da nova escola, a Escola Médico-cirúrgica de Lisboa, no Campo de Santana, que seria inaugurada em 1906, para acolher também o XV Congresso Internacional de Medicina, organizado por Miguel Bombarda. A este evento Athias apresentou vários trabalhos de investigação que lhe deram visibilidade para a criação, em 1907, da primeira sociedade científica especializada em ciências biológicas (entenda-se experimentais), a Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais (SPCN). A Sociedade foi fundada a 8 de Janeiro de 1907 com sede no Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, sendo Fernando Mattoso Santos seu presidente e Athias, 1º secretário. Nesta qualidade organizava as sessões, tratava da correspondência e publicava o Boletim e as Memórias da Sociedade, em francês, dando assim cumprimento às disposições estatutárias que não só incluíam a criação da Estação de Biologia Marítima, que tinha um programa bem mais ambicioso: o de  “cultivar e desenvolver o estudo das Ciências Naturais e publicar trabalhos relativos a estas ciências, assim como patrocinar outras organizações que, junto dela se organizassem com os mesmos objectivos”, como indica Toscano Rico. A esta sociedade seguiu-se a Sociedade Portuguesa de Biologia fundada em 1920, com Augusto Celestino da Costa e Abel Salazar, que viveu vários anos sob o patrocínio da SPCN e da Société de Biologie de Paris, abrindo assim caminho à divulgação da investigação médica portuguesa.

Em 1909, por intervenção de Miguel Bombarda, foi designado pelo governo para visitar, durante três meses, alguns laboratórios e fábricas de equipamento laboratorial no estrangeiro, juntamente com Pinto de Magalhães, com a missão de equipar os laboratórios e as bibliotecas, na Faculdade de Medicina. A 9 de Novembro de 1910 Marck Athias substituiu Miguel Bombarda na cátedra de fisiologia, para a qual foi nomeado com dispensa de provas públicas, e um ano depois, instalou o Instituto de Fisiologia na faculdade. Em 1919, foi nomeado Professor de histologia e fisiologia e diretor da biblioteca da Faculdade. Casou no mesmo ano com Judite Brou, filha de Aníbal Brou, um colega seu que vivia no Porto. Deste casamento nasceram duas filhas.

Em 1923, António Sérgio criou o Instituto Português para o Estudo do Cancro, que funcionou provisoriamente na Iª Clínica Cirúrgica de Francisco Gentil e no Instituto de Fisiologia de Athias, na Faculdade de Medicina. Após a sua inauguração em 1927, como Instituto Português de Oncologia (IPO), os laboratórios de investigação foram confiados a Athias, e de forma particular, a secção de patologia experimental e de histofisiologia. O seu primeiro trabalho sobre o cancro foi apresentado em 1907, na Sociedade de Ciências Médicas, mas apenas após a responsabilidade que assumiu na direção da investigação do IPO, se dedicou inteiramente a esta problemática. 

Nos primeiros anos da ditadura militar instaurada em 1926, foi membro da Junta de Educação Nacional, tendo sido seu presidente em 1931.

No ano seguinte, foi convidado por Ferreira de Mira para trabalhar consigo no laboratório de fisiologia, do Instituto de Investigação Científica Bento da Rocha Cabral (IRC), passando assim a integrar o quadro dos investigadores deste instituto privado de investigação. Aqui permaneceu até 1943, tendo realizado os primeiros estudos sobre a histofisiologia das glândulas endócrinas, que abririam caminho à endocrinologia, na década de 50. 

Em 1933 foi nomeado professor do Instituto de Hidrologia, onde realizou ainda alguns estudos de águas termais portuguesas, com características medicinais. 

Em 1935 chegou à conclusão de que a sua missão de histologista na Faculdade de Medicina estava terminada e que não tinha condições para dar continuidade ao seu trabalho. Para além de orientar alguns trabalhos de investigação, dava apenas aulas, fazia os exames, comparecia aos conselhos e participava nos concursos. Até 1944, continuou a ocupar-se da redação e revisão das publicações das sociedades científicas de que era secretário. Controlou as suas atividades editoriais cujo objetivo visava, por um lado, difundir a sua produção científica, por outro, controlar a produção científica nacional nas áreas de influência da escola. Foi precisamente através destes canais de difusão do conhecimento que Marck Athias e a sua escola não só internacionalizaram a medicina portuguesa durante a primeira metade do séc. XX, como também criaram na comunidade científica local a necessidade de uma produção científica original e regular, orientada por padrões internacionais.

Nos últimos 15 anos da sua vida dedicou-se, quase exclusivamente, ao Instituto Português de Oncologia: teve uma participação ativa no estudo e instalação do instituto; dirigiu alguns trabalhos laboratoriais, colaborou na redação do Boletim do Instituto Português de Oncologia e na direção e redação do Arquivo de Patologia. Fez ainda outras publicações sob a forma de artigos relacionados com o cancro e contribuiu ativamente para a luta contra o cancro nas diversas funções do instituto. 

Em 1945, abandonou o cargo de secretário da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, passando a ser sócio benemérito e manteve-se na Sociedade Portuguesa de Biologia até adoecer. No mesmo ano, ano em que atingiu o limite de idade, foi homenageado pela Faculdade de Medicina e pelo Instituto Português de Oncologia, tendo sido inaugurados um retrato e um busto seus, concebidos por Abel Salazar, seu colaborador e amigo. No ano seguinte, faleceu a sua esposa vítima de cancro e Athias, faleceria poucos meses depois, vítima da mesma doença.

Athias propôs-se criar uma dinâmica interna na comunidade científica portuguesa, servindo-se do seu próprio trabalho para abrir um precedente e estabelecer um padrão de produção científica regular, através do seu percurso individual. Interessava-lhe mais estabelecer uma rede de condições que permitissem sustentar a atividade da comunidade científica, através da criação das várias sociedades científicas e periódicos que fundou e secretariou. Por esse motivo não publicou um grande número de obras nem o fez no circuito internacional. Publicou 138 trabalhos originais: 9 biografias científicas (D. Carlos I, Miguel Bombarda, Fernando Mattoso Santos, A. Laveran, Santiago Ramón y Cajal, Albert Dustin, Max Askanazy, Henrique Parreira e Carlos França); 4 textos didáticos escritos para os alunos da Faculdade de Medicina (em colaboração com Ferreira de Mira e Joaquim Fontes), os guias dos trabalhos práticos de fisiologia, e os exercícios de química fisiológica (em colaboração com Joaquim Fontes); 35 artigos de divulgação, relatórios de viagens ao estrangeiro ou das instituições em que trabalhou ou dirigiu e, os restantes, são artigos científicos. Estes artigos distribuem-se pelas áreas segundo as quais orientou a sua escola de investigação ¾ a fisiologia, a histologia, a histofisiologia, a histopatologia e a química fisiológica.

No início do século XX, a investigação científica em Portugal no domínio médico restringia-se a aspetos da prática clínica. Foi com a criação das estruturas basilares do novo paradigma médico inaugurado pela “geração de 1911” que Marck Athias introduziu uma nova tradição científica na comunidade médica, ao mesmo tempo que influenciou vários discípulos e colaboradores, em diferentes instituições médicas de ensino e investigação. A escola que fundou e o impacto da sua influência intersecta os ideais de inspiração positivista com os quais a “geração de 1911” se identificava, e que permitiu a criação de um verdadeiro “esprit de corps” que atraiu várias gerações de discípulos e seguidores. A escola que Athias fundou teve continuidade pela mão dos seus discípulos e seguidores permitindo consolidar o novo paradigma experimental na medicina portuguesa da primeira metade do século XX.

***

Marck Anahory Athias exerceu clínica durante escassos meses, mas inaugurou, na primeira metade o século XX, um novo capítulo na história da medicina portuguesa e no panorama científico nacional. Elemento da “geração de 1911”, partilha dos ideais republicanos que conferem à investigação experimental e ao laboratório um estatuto privilegiado. Criticou o estilo livresco do ensino médico em Portugal, em defesa da investigação laboratorial. Esta nova perspetiva iria introduzir, alterações sem precedentes na comunidade médica portuguesa, tradicionalmente orientada apenas para a clínica, e far-se-ia sentir em dois planos: o da prática da investigação biomédica propriamente dita, e o da organização da investigação científica, no sentido da especialização e da profissionalização, o que virá a ter reflexos significativos no panorama científico nacional. 

Pela sua vivência em Paris, Athias estava consciente da importância de formar discípulos e de fazer escola, pelo que, logo que iniciou a sua atividade científica em Portugal, foi congregando em torno de si jovens interessados em prosseguir uma carreira científica. Estes, mais do que estudantes de investigação, foram efetivamente discípulos, já que sustentaram e deram continuidade à dinâmica da escola em vários planos. Recrutados maioritariamente na Faculdade de Medicina e unidos por um ideal comum de universidade e de investigação científica, constituíram um grupo coeso e com identidade própria, ficando indelevelmente ligados à “geração de 1911.”

A investigação da escola de Athias expandiu-se por vários laboratórios. O crescimento em espaço e em equipamento foi sendo gradualmente melhorado: no laboratório do Hospital de Rilhafoles (1897-1903) havia apenas uma sala relativamente pequena e deficientemente equipada; o da Escola Médico-Cirúrgica, (1903–1906) tinha melhores condições que o anterior, mas Athias considerava-o ainda desajustado à investigação; o do Instituto de Fisiologia (1911–1946) e dos laboratórios do Instituto Rocha Cabral estavam, desde o início, bem equipados para responder às necessidades da escola; finalmente o laboratório de patologia experimental do IPO (1933–1946), era de todos o que tinha as melhores condições. O financiamento da investigação realizada nestes laboratórios provinha do Estado, nomeadamente das verbas da Faculdade de Medicina, da Junta de Educação Nacional e do Instituto para a Alta Cultura, bem como de donativos particulares de somas consideráveis. 

O programa de investigação desenvolvido pela escola de Marck Athias iniciou-se pela histofisiologia nervosa, em 1897, área na qual Athias fizera as primeiras contribuições científicas em 1895, e prolongou-se até 1915. Esta área alargou-se para abranger a histofisiologia geral a partir de 1905 e diversificou-se para a fisiologia e a química fisiológica, a partir de 1911, e a histopatologia a partir de 1923. Os métodos e técnicas da histofisiologia, “migraram para novas áreas de ignorância” das quais se destaca endocrinologia. Na histologia do sistema nervoso, a escola centrou-se no estudo do desenvolvimento do neurónio e das infiltrações celulares no cérebro; no domínio da histofisiologia, procedeu ao estudo das glândulas endócrinas; na fisiologia dedicou-se à fisiologia muscular, glandular e de alguns órgãos como o rim e o coração; na química fisiológica, procurou encontrar uma explicação química para os fenómenos fisiológicos estudados no âmbito da fisiologia. O programa da escola de investigação de Athias operou duas mudanças importantes, na investigação biológica em Portugal: primeiro consolidou na investigação fisiológica portuguesa uma abordagem ao nível da célula e não somente ao nível do órgão; com a química fisiológica anunciou a transição do nível celular para o molecular, no âmbito da fisiologia. 

Em torno deste programa de investigação Athias deixou discípulos não só nas instituições em que liderou a investigação, como também noutras instituições de ensino e de investigação em Lisboa, no Porto, e em Coimbra. Athias promoveu um estilo próprio para a disseminação do seu próprio trabalho, criando vários periódicos, cujos artigos eram escritos maioritariamente em língua francesa, o que leva a supor que Athias estaria determinado a criar hábitos de publicação científica regular na comunidade científica portuguesa.

A escola de Marck Athias atravessou dois períodos históricos e políticos marcantes do séc. XX. Os ideais republicanos foram favoráveis ao desenvolvimento da ideologia e das práticas científicas com as quais a escola de Marck Athias se identificava e, portanto, os primeiros passos dados no âmbito da reforma dos estudos médicos com a criação da Universidade de Lisboa, em 1911, e da Junta de Educação Nacional, em 1929, foram fundamentais para os resultados desta escola. O Estado Novo, apesar de lhe ser desfavorável, não conseguiu, no entanto, travar de imediato a tradição que a escola inaugurara. A escola de Marck Athias converteu-se, no plano da investigação científica, numa referência durável até à segunda geração de discípulos e, no plano ideológico, numa referência da intelectualidade portuguesa que viveu os anos mais duros da ditadura.

Isabel Amaral

Arquivo

Lisboa, Coleção Marck Athias, Faculdade de Medicina

Obras

Athias, Marck. “Recherches sur l’histogénèse de l’écorce du cervelet.” Journal d’Anatomie 33 (1897): 372–373.

Athias, Marck. Anatomia da cellula nervosa. Dissertação Inaugural. Lisboa: Centro Tipografico Colonial, 1905.

Athias, Marck. “Introdução do método experimental e as suas principais aplicações às ciências médicas e biológicas em Portugal (Discurso)”. Actas do Congresso de História da Actividade Científica Portuguesa (1940): 465–491.

Athias, Marck. “La vacuolisation de la cellule nerveuse.” Anatomischer Anzeiger 28 (1905): 492–494. 

Athias, Marck. “Cytologia Geral do Cancro.” Jornal da Sociedade de Sciencias Médicas de Lisboa 72 (1908): 110–142.

Athias, Marck. “Études Hystologiques sur la Greffe Ovarienne.” In Libro en Honor de D. Santiago Ramón y Cajal, trabajos originales de sus admiradores e discipulos extranjeros y nacionales, 78–118. Madrid: Jiménez y Molina Impresores, 1922.

Athias, Marck. “Contribuição para o Estudo da Enervação dos Tumores.” Arquivo de Patologia 4 (1932): 138–161. [com Maria Teresa Furtado Dias].

Athias, Marck. “Le Cancer et la lutte anticancéreuse au Portugal”. Communications du IIe Congrés International de la lutte scientific et sociale contre le cancer, 519–525. Bruxelles: Marcel Hayez, 1936.

Athias, Marck. “Conception unitaire des paraganglions.” Comptes Rendus de la Société de Biologie de Paris 132 (1) (1940): 103–108.

Athias, Marck. Catálogo das obras da colecção portuguesa anteriores à fundação das Regias Escolas de Cirurgia. Lisboa: Faculdade de Medicina, 1942.

Athias, Marck. “O Ensino da Fisiologia na Régia Escola de Cirurgia e na Escola Médico Cirúrgica de Lisboa.” Clinica Contemporânea 1 (6) (1946): 333–341.

Bibliografia sobre o biografado

Celestino da Costa, Augusto. “Athias e a investigação científica.” Cadernos Científicos 3 (1) (1946): 249–262.

Celestino da Costa, Augusto. “A vida e obra Científica de Marck Athias.” Arquivo de Anatomia e Antropologia 26 (1948): 14–-227.

Rico, Toscano. “Mark Athias.” Arquivo de Patologia 21 (2) (1949): 117–140.

Dias, Maria Thereza Furtado. “Mark Athias.” Arquivo de Patologia 21 (2) (1949): 141–148.

Ferreira de Mira, Matias Boleto. “Athias e a Investigação Científica.” Clínica, Higiene e Hidrologia, 13, (1947), 269-270. 

Ferreira de Mira, “Athias e a Investigação Científica,” Clínica Higiene e Hidrologia, 13, (1947), 269-270.

Guimarães, J. A., “A Personalidade do Professor Marck Athias,” Clínica, Higiene e Hidrologia, 13 (1947), 266-273

Botelho, Luís da Silveira. “Marck Athias.” Revista Medicina 5 (1990): 69–71.

Amaral, Isabel. A Emergência da Bioquímica em Portugal: as escolas de investigação de Marck Athias e de Kurt Jacobsohn. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian-Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2006.

Amaral, Isabel. “The emergence of new scientific disciplines in Portuguese medicine: Marck Athias’s histophysiology research school, Lisbon (1897-1946).” Annals of Science 63 (1) (2006): 85–110.

Amaral, I. “The New Face of Portuguese Medicine: the generation of 1911 and the Research School of Marck Athias.” Acta Medica Portuguesa 24 (1) (2011): 165-162.

Amaral, Isabel. “Marck Athias e a ‘geração de 1911.’” Letras convida – Literatura, Cultura e Arte 3 (2011): 94–95.

Amaral, Isabel. Marck Anahory Athias (1875-1946). Instituto Camões. Versão digital em http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/p41.html, consultado a 7 de julho de 2022. 

Costa, Augusto Pires Celestino da

Lisboa, 16 abril 1884 —  27 março 1956

Palavras-chave: Faculdade de Medicina de Lisboa, Histologia e Embriologia, “Geração de 1911”, Política científica.

Augusto Pires Celestino da Costa nasceu numa família de ascendência açoriana. O pai, Pedro Celestino da Costa, filho do Visconde de Noronha, era oficial do exército e sucumbiu às lutas que levaram à implantação da República, a 4 de Outubro de 1910; sua mãe, Úrsula Cândida de Canto e Castro faleceu quando Celestino da Costa tinha apenas três anos. Celestino da Costa foi criado por Joana Figueira Magalhães, mulher do pai em segundas núpcias. A perda deste e a morte precoce da mãe marcaram-no profundamente, mas foi o médico May Figueira − irmão da madrasta, médico de D. Luís I e professor na Escola Médico-cirúrgica de Lisboa− o seu verdadeiro tutor, que lhe despertou o interesse pelos estudos experimentais em medicina.  

No liceu interessou-se pela investigação histórica que lhe despertaria a curiosidade pela vida científica. Concluído o ensino secundário, decidiu inscrever-se na Escola Médico-cirúrgica de Lisboa. A sua atração pela medicina foi reforçada pela morte precoce de Luiz da Câmara Pestana, vítima da peste, que assim ganhou uma aura de heroicidade no combate à doença. Na Escola Médico-cirúrgica frequentou o laboratório de Marck Athias, que lhe incutiu o gosto pela medicina experimental e pela investigação, especialmente, em histologia. Foi aluno do primeiro curso de técnica histológica lecionado por Athias, sendo o seu trabalho sobre a histofisiologia das glândulas endócrinas (1904) considerado pioneiro em Portugal, por interpretar os resultados laboratoriais ao invés de fazer uso do saber livresco.

Em 1905, concluiu a licenciatura com a tese intitulada, Glândulas Supra-Renais e suas Homólogas, Estudo Citológico. Nos dois anos seguintes, apoiado financeiramente por May Figueira, partiu para a Alemanha com o objetivo de se especializar em histologia, seguindo os passos do tio, que se doutorara em Bruxelas e estagiara com o histologista Charles Robin, na Faculdade de Medicina de Paris, em 1855. Fez um estágio no laboratório de Rudolf Krause em Berlim, no Anatomisch-Biologische Institut, dirigido por Wilhelm Hertwig, citologista, embriologista e um dos pioneiros dos estudos sobre a hereditariedade. Findo o estágio fez várias viagens às principais capitais europeias, visitando vários laboratórios de investigação, o que lhe permitiu desenvolver uma visão médica, científica, cultural e artística mais universalista.

De regresso a Lisboa, ao mesmo tempo que trabalhou durante algum tempo no seu laboratório de análises clínicas na Avenida da Liberdade, deu início à investigação científica no laboratório de Marck Athias, no Instituto Real Bacteriológico Câmara Pestana, dirigido por Aníbal Bettencourt. Athias congregou a segunda geração de “médicos de laboratório”, constituída por Aníbal Bettencourt, Carlos França, Celestino da Costa, Sílvio Rebelo, Azevedo Neves e Henrique Parreira. 

Casou com Emília Hermengarda Croner Celestino da Costa, descendente de uma família de músicos. Deste casamento nasceram quatro filhos: Pedro, Jaime, Elisa e Augusto. Celestino da Costa deixou-se contagiar pela cultura musical da família Croner e escreveu, entre 1930 e 1931, uma série de 18 crónicas radiofónicas e fonográficas com críticas de emissões e discos, sob o pseudónimo de Sehr Musikalisch no semanário Kino, fundado pelo cineasta António Filipe Lopes Ribeiro, em 1930. 

Celestino da Costa viveu na transição da Monarquia para a República, período de transformações importantes no ensino superior e na construção do poder pela classe médica. A reforma republicana do ensino criou as Universidades de Lisboa e Porto, em 1911, tendo as escolas médico-cirúrgicas destas duas cidades sido convertidas em Faculdades de Medicina. Em 1910, com a morte de Miguel Bombarda, titular das cadeiras de Histologia e Fisiologia Geral na Escola Médico-cirúrgica de Lisboa, Celestino da Costa, então com 27 anos, ocupou a cátedra de Histologia, na agora Faculdade de Medicina de Lisboa, onde criou o Instituto de Histologia e Embriologia. 

Foi director técnico do Aquário Vasco da Gama (1913-1921), procurando transformá-lo num verdadeiro instituto de biologia marítima. Nos anos 30, no contexto de uma reorientação da medicina nacional para a investigação laboratorial, Celestino da Costa dedicou-se fundamentalmente à Faculdade de Medicina e à criação de uma escola de investigação que deixasse discípulos continuadores da sua obra. Em 1919, organizou o serviço de análises clínicas dos Hospitais Civis; em 1931, ocupou o cargo de secretário da Faculdade; em 1932, foi nomeado delegado dos professores catedráticos ao senado universitário e eleito vice-presidente da Junta Nacional de Educação, organismo destinado à definição de políticas científicas e ao financiamento da investigação; em 1935, foi nomeado diretor da Faculdade de Medicina. Em 1947, Celestino da Costa, como tantos outros professores universitários foi atingido pela vaga de saneamentos políticos organizada por Salazar e compulsivamente afastado da Faculdade durante alguns meses. A partir de 1950, Celestino da Costa viajou pelo Brasil e por Buenos Aires, onde realizou algumas conferências e cursos. Jubilou em 1954, ao completar 70 anos de idade. 

No contexto do Estado Novo, regime que não tinha o seu apoio, Celestino da Costa empenhou-se na definição e concretização de políticas de investigação, através da Junta Nacional de Educação e do Instituto para a Alta Cultura (IAC), cujos resultados se fizeram sentir em diversas disciplinas científicas, particularmente nas áreas biomédicas. Em 1932, foi eleito vice-presidente da Junta Nacional de Educação; entre 1934 e 1936 assumiu a presidência da comissão executiva e em 1936 passou a dirigir o IAC, com três grandes linhas de ação até 1942: a organização da investigação científica e do fomento cultural, o intercâmbio cultural universitário e a expansão da língua e da história portuguesas.

Celestino da Costa desempenhou vários cargos em sociedades científicas e profissionais. Foi membro fundador da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, em 1907, e da Socieade de Biologia, em 1920; vice-presidente da Association des Anatomistes, em 1927; presidente da secção da Société Anatomique de Paris, em 1933; sócio honorário da Société d’Endocrinologie, em 1939 e, presidente da sociedade portuguesa de endocrinologia, entre 1949 e 1955. Foi ainda presidente da Associação dos Médicos Portugueses, em 1920, presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, entre 1946 e 1949, e da secção de ciências da Academia das Ciências de Lisboa. Foi também fundador da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia e co-fundador da Sociedade Luso-Espanhola de Endocrinologia com Gregorio Marañon.

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De espírito liberal, movido por um ideal de apostolado científico, influenciado pelo pensamento de Santiago Rámon y Cajal, Celestino da Costa deu início a uma carreira de professor e investigador, que ficaria para a história da medicina portuguesa como um dos representantes mais destacados da “geração de 1911,” e arauto da modernização do sistema científico português, na primeira metade do século XX.

Na tradição inaugurada pela escola de investigação de Marck Athias de quem foi discípulo, Celestino da Costa estruturou um programa de investigação em três áreas fundamentais: a citologia, a embriologia e a histologia, reunindo, ao longo dos anos, diversos discípulos e colaboradores. Entre os mais próximos estão Pedro Roberto Chaves, Alfredo Magalhães Ramalho, Luiz Simões Raposo, Luís Hernâni Dias Amado, Sérgio de Carvalho, Manuel Xavier Morato, Francisco Geraldes Barba, Vasconcelos Frazão e José David-Ferreira. Destes, os quatro primeiros estiveram no centro de decisão do programa e investigação da sua escola, mas, por razões pessoais, políticas e institucionais, nenhum deles veio a suceder a Celestino da Costa, na cátedra de histologia e embriologia. Na segunda geração, iniciada com Xavier Morato, todos se dedicaram à histofisiologia, à carreira universitária e à carreira de investigação nos laboratórios da Faculdade de Medicina. No entanto a influência do grupo de investigação de Celestino da Costa não se restringiu apenas a esta instituição nem às áreas médicas. Por exemplo, o zoólogo Germano Sacarrão, Oliveira e Silva, Tavares de Sousa, António Madeira, Fernando Frade, Diogo Furtado e Rodolfo Iriarte Peixoto, após terem passado pelos laboratórios de Celestino da Costa, expandiram o seu programa de investigação da Faculdade de Medicina de Lisboa para a de Coimbra, e ainda para a Escola Superior de Medicina Veterinária, a Faculdade de Ciências de Lisboa e os Hospitais Civis. Para além destes seguidores mais próximos, integraram também o seu grupo de investigação, os docentes da Faculdade de Medicina, Jacinto Moniz de Bettencourt, Fernando Portela Gomes, Jaime Celestino da Costa, Carlos Alberto Vidal e João Bello de Moraes.  

A investigação realizada no âmbito do seu programa de trabalho foi desenvolvida, quer no Instituto de Histologia e Embriologia da Faculdade de Medicina, onde se sediou o Centro de Estudos Histológicos e Embriológicos, financiado pelo IAC, quer na secção de embriologia do Instituto Bento da Rocha Cabral, desde 1927. Para além da componente didática, nestes laboratórios estudava-se o sistema glandular dos pontos de vista da estrutura, funcionamento e desenvolvimento, bem como o estudo embriológico do desenvolvimento do simpático, aparelho suprarrenal e para-gânglios. A difusão deste programa de investigação fez-se através de conferências temáticas e de cursos de verão frequentados por um público diversificado, mas maioritariamente médico, tendo Celestino da Costa promovido o contacto estreito com biólogos, anatomistas, histologistas e embriologistas não só plano nacional, mas também europeu. 

Sendo a histofisiologia uma área recente na Europa da época e carecendo Portugal de uma tradição científica nesta área alicerçada na experimentação, o papel que a escola de Celestino da Costa teve na alteração da mentalidade científica vigente e nas práticas de investigação foi marcante. Para além de mentor, Celestino da Costa encorajou a produção científica dos discípulos e promoveu uma intervenção planeada em sociedades e atividades editoriais, fatores indispensáveis à obtenção dos recursos intelectuais, científicos e financeiros capazes de garantir a continuidade e afirmação desta escola de investigação nas primeiras décadas do século XX. 

A obra de Celestino da Costa compreende 384 publicações, que incluem artigos e biografias científicas, manuais de laboratório, livros de texto, relatórios institucionais e artigos de carácter mais generalista, cuja temática dominante é o ensino médico nas universidades. Para além dos 173 artigos científicos, merecem especial destaque os livros de texto, como sejam: Elementos de Embriologia publicado em 1933, traduzido em francês em 1945, com segunda edição, também traduzida para francês, em 1948, e, o Tratado Elementar de Histologia e Anatomia Microscópica publicado em 1944, com uma segunda edição, em 1949, e tradução em espanhol em 1953. 

No campo científico, Celestino da Costa voltou sempre às suas ideias iniciais para as completar e refazer: no campo da endocrinologia, começou com o estudo da glândula suprarrenal, em 1904, e com ela terminou, em 1956; no âmbito da embriologia, começou com a histogénese da suprarrenal no estudo dos para-gânglios e as suas relações com o simpático, em 1917, e fechou também o ciclo, poucas horas antes de falecer, ao apresentar no último congresso da Association des Anatomistes, realizado em Lisboa, em 1956, um trabalho de revisão sobre a embriologia do simpático. A investigação em histofisiologia das glândulas endócrinas (supra-renal, hipófise, tiroideia e pâncreas) viria a projetar-se além-fronteiras, nomeadamente no desenvolvimento da endocrinologia na Península Ibérica e em França, onde era considerado referência obrigatória.

Isabel Amaral

Arquivo 

David-Ferreira, José. Disponível online em http://jfdf.pt/
Coleção Celestino da Costa, Faculdade de Ciências Médicas, Lisboa.

Obras

Celestino da Costa, Augusto. “Sobre alguns Pormenores da Estructura da Cápsula Supra-Renal dos Mamíferos.” A Medicina Contemporânea 22 (1904): 100–101, 108–109, 115–116, 160–-162, 192–193, 200–202, 214–215.

O Ensino Médico em Lisboa – a Histologia e a Embriologia. Lisboa: Faculdade de Medicina de Lisboa, 1925.

  • Elementos de Embriologia. Lisboa: J. A. Rodrigues, 1933.
  • A Junta de Educação Nacional. Lisboa: Publicação da Sociedade de Estudos Pedagógicos, Série A2, 1934.

O Problema da Investigação Científica em Portugal. Lisboa: Instituto para a Alta Cultura, 1938. 

— “Conception unitaire des paraganglions.” Comptes Rendus de la Société de Biologie de Paris 132 (1) (1940): 103–108.

— e Roberto Chaves, Pedro. Tratado Elementar de Histologia e Anatomia Microscópica. Lisboa: Livraria Luso-Espanhola, 1944.

—“Fomento e Organização da Investigação Científica. O Caso Português.” Ciência e Cultura, 3, nº3 (1951): 194– 207.

— “L’embryologie du sympathique et de ses dérivés. ” Bulletin de l’Association des Anatomistes 88b (1956) : 3–61. 

  • Historia de uma Experiência (manuscrito). s.d.

Bibliografia sobre o biografado

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Marañon, Gregorio. “Sessão de Homenagem à memória do Professor Doutor Augusto Pires Celestino da Costa.” Revista Iberica de Endocrinologia 20 (1957): 14–144.

Xavier Morato, Manuel. “O Professor Augusto Pires Celestino da Costa.” Jornal da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa. 125,6 (1961): 1–39.

Celestino da Costa, Jaime. Um Certo Conceito de Medicina. Lisboa: Gradiva, 2001, 17–21; 147–176.

Amaral, Isabel et al. “A Escola de Histofisiologia de Augusto Celestino da Costa (1911-1956).” Actas do 1º Congresso Luso-Brasileiro de História da Ciência e da Técnica (2001):  615–629.

Celestino da Costa, Jaime. A Geração Médica de 1911 – Origem, realização e destino. Lisboa: Faculdade de Medicina de Lisboa, 2003.

“Sessões de Homenagem no Centenário do Professor Augusto Celestino da Costa na Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa,” Jornal da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa 149, nº 6, (1985). 

Salazar, Abel. 96 Cartas a Celestino da Costa. Lisboa; Gradiva, 2006. 

David-Ferreira, José. “Augusto Celestino da Costa (1884-1956) – Professor, Scientist and Science Promoter,” International Journal of Developmental Biology 53 (2009), 1161–1164.

Amaral, Isabel. “Augusto Pires Celestino da Costa (1884-1956): Uma vida, uma obra.” Letras convida – Literatura, Cultura e Arte 3 (2011): 44–45.