Casmach, Francisco Guilherme (Kasmach, Casmak)

ca.1570 — ca.1650

Palavras-chaves: medicina, astrologia, Restauração, almanaques.

Astrólogo, médico e cirurgião licenciado pela Universidade de Salamanca. Filho de Nicolao Guilherme e de Catherina Manrique Casmak. Trabalhou para a corte portuguesa durante os reinados de D. Filipe II (1598–1621), D. Filipe III (1621–1640) e D. João IV (1640–1656). Aplicou os seus conhecimentos astrológicos tanto na sua prática médica como na elaboração de almanaques, afirmando-se desta forma como homem de ciência, tanto na corte, como perante um público mais vasto.

A sua primeira obra conhecida é relatório um médico intitulado Relação chirurgica de hum caso grave, impresso em 1623. Casmach apresenta-se já como intitula Chyrurgião del Rey nosso Senhor, & do seu Hospital Real em que se cura a Infantaria Espanhola. A obra descreve um grave acidente e a respectiva cura: “Tristam da Cunha de Mello, & Ataide, fidalgo muy conhecido neste Reyno (pella ilustre ascendência de seus progenitores) sobindo em hua mula, Domingo as cinco horas da tarde a vinte hu de Iunho, no anno de 1620. se lhe impinou, & querendo elle saltar della, por se liurar do perigo em que se via, cahio em terra, leuando-se diante a mao esquerda, paraque sustentandose nella, liurasse a cabeça & corpo. E soccedeo por no braço tanta força, que deslocãdose o osso pelo sangradouro, sahio fora, fazendo hua ferida transversal pella parte de dentro, que rompeo, & dilacerou veas, artérias, neruos, músculos, tendães, & ligamentos.” Segue-se uma detalhada e cruenta narração dos tratamentos a que o paciente foi sujeito, até à cura, finalmente alcançada a 20 de novembro de 1620.

Da sua obra sobrevivem também dois almanaques: Almanach Prototypo e exemplar de pronosticos, com previsões para o ano de 1645, dedicado à rainha D. Leonor de Gusmão, e Brachyologia astrológica e apocatastasis, para o ano de 1646, dedicado à “muito insigne, antigua, & ilustre nobreza lusitana”. Uma leitura dos prefácios destas publicações sugere que Casmach teria escrito outras obras, entre elas um estudo da conjunção máxima de Júpiter e Saturno, oferecido a D. João IV.

Estes almanaques consistiam na previsão dos principais eventos de cada ano, sendo estes deduzidos a partir do horóscopo do ingresso do Sol em Carneiro (ingresso Venal), que ocorre em Março. Estas publicações, bastante elaboradas, integram referências de literatura grega, latina e portuguesa (incluindo Camões), citações bíblicas, alusões a astrólogos reconhecidos (Ptolomeu, Marcus Manilius, Alfarganus, Alcabitius, Ali ben Ragel, Luca Gaurico, Origanus, Gerolamo Cardano, Guido Bonatti, entre outros) e a diversos astrónomos. Incluem também o desenho do horóscopo do ingresso do Sol em Carneiro para o respectivo ano—uma característica única das publicações de Casmach, omitida nas de outros autores. A presença dos horóscopos exige um processo de impressão mais complexo (e portanto mais dispendioso), sugerindo que parte dos leitores estaria familiarizada com o simbolismo astrológico. Esta escolha editorial vem confirmar a ideia de que estas publicações se dirigiam a um público culto, ajudando a explicar a disparidade de preços entre estes almanaques (quarenta reais) e o custo médio de outras publicações astrológicas coevas (quatro reais).

Casmach teve participação activa na política pós-Restauração, tendo usado os seus almanaques como veículos de propaganda da nova dinastia. Assim, a par de conteúdos relativamente inócuos de astrometeorologia (que versavam sobre eventos naturais e suas consequências na agricultura e economia), surgem várias incursões no terreno arriscado da astrologia judiciária, designadamente previsões sobre a família real. Estas eram duplamente perigosas: por um lado, versavam a instável política da época pós-Restauração, por outro, arriscavam a condenação da Igreja, por interferência com o livre arbítrio. Estes riscos, contudo, parecem não demover Casmach; a sua proximidade ao rei, associada ao seu prestígio como homem de saber, ter-lhe-ão certamente conferido alguma impunidade nesta área.

No seu Almanach Prototypo, de 1645, Casmach combina as habituais considerações meteorológicas com diversos argumentos astrológicos e numerológicos, constituindo-se como discurso patriótico e legitimador da recém-formada dinastia de Bragança. Assim, aponta a Stella Nova (a supernova de 1604) como sinal inequívoco do destino redentor de D. João IV: “apareceo esta Estrella no anno de 1604 em que nasceo nosso Serenissimo Rey, & Senhor Dom Joam o IV no signo a que esta sogeito Portugal” e acrecenta que “Deos nos manifestou nesta estrela ser este Rei o prometido, cujo Reyno se trocara muy cedo em Imperio, & Suprema Monarchia, com felicidades nunca vistas, nem ouvidas”.

Para além de legitimar a monarquia portuguesa, o almanaque pretendia ainda corrigir erros de cálculo de outros autores, mostrando assim aos estrangeiros “que ainda há em Portugal quem cultive & exercite esta sciencia & que não faltam ainda os Pedros Nunes Portugueses que tanto no século passado venerarão & ainda hoje reconhecem por oráculos desta ciência”.

Casmach decidiu ir mais longe na sua Brachyologia Astrologica e Apocatastasis, de 1646, onde fez previsões directas sobre o irmão do rei, Dom Duarte de Bragança (1605–1649), que na altura se encontrava cativo em Passau. Dom Duarte saíra de Portugal em 1636 para participar na Guerra dos Trinta Anos, lutando ao lado do imperador Fernando III do Sacro Império Romano-Germânico. Contudo, o Imperador mandou prendê-lo a pedido dos espanhóis em janeiro de 1641, quando lhe chegaram notícias da Restauração. É a esta situação que se refere Casmach quando expressa a esperança “de se por em liberdade o nosso sereníssimo infante, & concluir as pazes universais”. Esta esperança foi contudo gorada: as negociações falharam, tendo Dom Duarte permanecido em cativeiro, passado por diversas prisões, até à sua morte, em 1649 em Milão.

A carreira astrológica de Guilherme Casmach foi marcada por um aceso confronto com um outro astrólogo, Manuel Gomes Galhano Lourosa, também ele autor de almanaques. A disputa centrou-se na autoria de um tratado anónimo sobre uma invasão de gafanhotos que ocorreu em Lisboa em 1639. A obra colheu aprovação geral, pelo que não faltaram interessados em apresentar-se como autores. Lourosa chamou a si a autoria, no seu almanaque de 1641. Três anos mais tarde, Casmach insinuou o mesmo, no prefácio do Almanach Prototypo, ao afirmar “dado que até agora não desse ao prelo semelhantes obras, não deixei de fazer alguns tratados tocantes a esta ciência de não menos estima, que de certeza como poderão bem testemunhar os que os leram, e por meus os reconhecem, apesar de quem tão falsamente o contradiz”. Afrontado, Lourosa refirmou-se como autor no seu almanaque para o mesmo ano, acrescentando, num ataque directo a Casmach, que “chega um destes, prenhe de presunção, a apregoar ao mundo que é seu certo tratado meu que de mão anda na mão dos curiosos”. A discussão agravou-se, passando rapidamente da questão da autoria para a da competência astrológica: surgiram acusações mútuas de enganos nos cálculos, de erros crassos na determinação da posição dos astros e de má interpretação das regras astrológicas para a escolha do regente do ano (o planeta que maior peso teria na determinação dos acontecimentos). A provocações sucederam-se até ao final da década, sem que nenhuma das partes capitulasse. Longe de diminuir a reputação dos intervenientes, esta disputa acabou por beneficiar a ambos, dando-lhes grande visibilidade e apresentando-os ao grande público como homens de saber e de erudição.

Helena Avelar de Carvalho
Revista por Luís Campos Ribeiro

Obras

Casmach, Francisco Guilherme. Relação chirurgica de hum caso grave em que succedeo mortificar-se hum braço, e cortar-se com bom sucesso. Lisboa: Gerardo da Vinha, 1623.

Casmach, Francisco Guilherme. Almanach Prototypo e exemplar de pronósticos. Com particulares Ephemerides das conjunções, & aspectos dos planetas, Eclypses do Sol, & da Lua, & pronosticação de seus efeitos pera o presente anno de 1645. Calculado pela nova, & genuína theorica do motu celeste, & tesouro das observaçoens astronómicas Lansbergienses, Argolicas, & de Origano ao Meridiano desta Cidade de Lisboa. Lisboa: por Paulo Craesbeek, 1644. http://purl.pt/14186/1/index.html#/5/html

Casmach, Francisco Guilherme. Brachyologia astrologica e apocatastasis Apographica do Sol, Lua, & mais planetas, com todos seus aspectos, Eclypses, & pronosticação de seus effeitos, pera o presente anno de 646: Calculado pella nova, e genuina theorica do motu celeste, & thesouro das obseruações Astronomicas Lansbergienses, & Argolicas, Parisienses, & de Orîgano, tychomicas, & proprias pera o Meridiano desta Cidade de Lisboa. Lisboa: por Paulo Craesbeek, 1646. http://purl.pt/13996/1/index.html#/3/html

Bibliografia sobre o bibliografado

Carolino, Luís Miguel. A escrita celeste. Almanaques astrológicos em Portugal nos séculos XVII & XVIII, 42–43, 52–61.Rio de Janeiro: Access, 2002.

Carolino, Luís Miguel. Ciência, Astrologia e Sociedade. A teoria da influência celeste em Portugal (1593-1755), 207–208, 223–224.  Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian-Fundação para a Ciência e Tecnologia, 2003.

Camenietzki, Carlos Ziller, and Luís Miguel Carolino. “Astrologers at War: Manuel Galhano Lourosa and the Political Restoration of Portugal, 1640-1668.” Culture and Cosmos 13 (2009): 63–85.