Figueiredo, Manuel de

Torres Novas ca. 1568 — ca. 1622                                       

Palavras-chave: Cosmografia, náutica, Cosmógrafo-Mor, hidrografia, roteiros. 

Manuel de Figueiredo foi um cosmógrafo português natural de Torres Novas (Santarém) que viveu aproximadamente entre o último quartel do século XVI e o primeiro quartel do século XVII. Além das suas publicações sobre aspetos relacionados com a cosmografia, a navegação, a astronomia e a astrologia, Figueiredo é maiormente conhecido por ter ocupado a prestigiada posição de Cosmógrafo-Mor do reino de forma interina entre 1608 e 1622 (data da sua morte), isto é, uma vez que o Cosmógrafo-Mor oficial, João Baptista Lavanha, se encontrava na corte espanhola ao serviço de Filipe III primeiro e Filipe IV depois (Filipe II e Filipe III de Portugal respetivamente). Após a morte de Figueiredo, Valentim de Sá sucederia-o no cargo, também de forma interina, dada a prolongada ausência de Lavanha.

Figueiredo, como no caso dos seus antecessores no cargo e também dos seus sucessores, deve ter reunido uma série de qualidades específicas. Basta relembrar que a posição de Cosmógrafo-Mor era uma das mais exigentes e de maior responsabilidade que existiram em Portugal ligada ao mundo da náutica durante a época da expansão ultramarina. De fato, este cargo, como muitos outros, foi um efeito das profundas mudanças administrativas e organizativas que sofreram os reinos ibéricos neste período como consequência das viagens oceânicas de longa distância. O Cosmógrafo-Mor, cargo instituído pela Coroa portuguesa em 1547 e ocupado pela primeira vez pelo matemático Pedro Nunes, era alguém que levava a cabo um conjunto muito variado e complexo de funções, para as quais requeriam-se tanto habilidades práticas como conhecimentos teóricos aprofundados. Nesse sentido, pode-se afirmar que o Cosmógrafo-Mor ocupava uma posição que unia dois mundos aparentemente separados, o mundo artesanal e o mundo culto e erudito, o mundo dos homens práticos e o mundo dos homens teóricos. Dadas estas exigências, nem todas as pessoas reuniam as capacidades para tal posição, sendo às vezes muito difícil encontrar a pessoa certa. Em geral, tratava-se de indivíduos com uma sólida formação universitária que eram obrigados, no cumprimento das suas funções, a trabalhar e interatuar com indivíduos e coletivos de diferentes escalas sociais —como no caso dos navegantes, cartógrafos, construtores de instrumentos náuticos, carpinteiros e, mesmo, provedores dos Armazéns – em diversos espaços. Assim ficou estabelecido no Regimento do Cosmógrafo-Mor de 1592 (revisão dum documento de 1559 hoje perdido) e em outra legislação régia coeva. 

O Cosmógrafo-Mor desenvolvia ao mesmo tempo várias tarefas da maior importância: ensinava e examinava pilotos, cartógrafos e construtores de instrumentos nos Armazéns da Guiné e Índia de Lisboa e outras instituições afins; inspecionava a qualidade das cartas e outros instrumentos náuticos; era consultado como especialista técnico; escrevia tratados e manuais de cosmografia e navegação; e até realizava funções de conselheiro científico na corte. Este foi o trabalho de Manuel de Figueiredo durante quinze anos, uma vez que se tornou essencial quer formar de maneira sistemática e regulada o novo pessoal marítimo quer gerir e controlar o enorme fluxo de informação que chegava a Lisboa e que tinha uma enorme relevância política e económica para a monarquia. É óbvio que a versatilidade e capacidades dum Cosmógrafo-Mor foram sempre acompanhadas de certo reconhecimento social. 

Antes de ser nomeado Cosmógrafo-Mor, Figueiredo publicou em 1603 uma Cronografia ou Reportório dos Tempos, que é de fato uma miscelânea de temas pertencentes a várias ciências. Aqui, Figueiredo escreve sobre diversos aspetos da cosmografia, navegação, astronomia e astrologia ao mesmo tempo que oferece explicações sobre o uso de dois instrumentos náuticos—a balestilha e o quadrante—e incorpora um tratado sobre relógios. A seguir a este livro, Figueiredo publicou em 1608, já como Cosmógrafo-Mor, a que é provavelmente a sua obra mais conhecida, a Hidrografia, Exame de Pilotos…, reeditada pelo menos três vezes durante a primeira metade do século XVII em 1614, 1625 e 1632. Esta obra é composta por duas partes claramente diferenciadas. A primeira é um tratado náutico ao estilo dum regimento de navegação ou uma arte de navegar, isto é, aquele conhecimento que um piloto devia aprender. A segunda está destinada à descrição dos roteiros das principais rotas oceânicas dos portugueses e os espanhóis, como as do Brasil, da Guiné, da Índia e do Rio da Prata, entre outras. Em paralelo à segunda parte da Hidrografia, dedicada à arte dos roteiros, no ano seguinte, em 1609, Figueiredo publicou também o Roteiro e navegação das Índias Ocidentais. Junto com a Hidrografia, esta é uma compilação e uma síntese dos roteiros portugueses mais importantes compostos até o final do século XVI. 

Além destas obras, outro tipo de documentos têm sido atribuídos a Figueiredo, especialmente na sua etapa como Cosmógrafo-Mor. Como é o caso dumas instruções náuticas confecionadas para os pilotos da carreira da Índia (Ordem que os Pilotos devem guardar na viagem da Carreira da índia) no início do século XVII que, segundo o historiador Avelino Teixeira da Mota, foram redigidas no contexto organizativo dos Armazéns da Guiné e Índia pelo Cosmógrafo-Mor entre 1608 e 1624 aproximadamente. O documento é composto por catorze instruções que descrevem o processo de recolha e registo de informação desenvolvido pelos navegantes diariamente na sua viagem à Índia. Segundo estas instruções, os pilotos tinham que fazer todos os dias um registo pessoal com os dados recolhidos ao longo da viagem e anotar as novidades nas cartas náuticas. No seu regresso a Lisboa, os pilotos deviam entregar toda esta informação ao provedor dos Armazéns e este por sua vez punha-a à disposição do Cosmógrafo-Mor, que analisava os dados, registava-os nos regimentos náuticos, mandava aos cartógrafos que melhorassem as cartas padrões e transmitia aos futuros pilotos as novidades e as correções durante a sua lição diária de matemáticas.   

Antonio Sánchez
Universidad Autónoma de Madrid

Obras

Figueiredo, Manuel de. Chronographia: reportorio dos tempos, no qual se contem vi. Partes, s. dos tempos: esfera, cosmographia, & arte da navegação, astrologia rustica, & dos tempos, & pronosticação dos eclipses, cometas, & sementeiras. O calendario romano, cõ os eclipses ate 630. E no fim o uso, & fabrica da balhestilha, & quadrante gyometrico, com hum tratado dos relógios / composto por Manoel de Figueiredo natural de Torres Novas. Lisboa: por Iorge Rodriguez: a custa de Pero Ramires, 1603.

Figueiredo, Manuel de. Hidrografia, Exame de pilotos, no qual se contem as regras que todo piloto deue guardar em suas navegações, assi no sol, variação dagulha, como no cartear, com algu[m]as regras da navegação de Leste, Oeste, com mais aureo numero, epactas, marès & altura da estrella pollar. Com os Roteiros de Portugal pera o Brasil, Rio da Prata, Guinè, Sam Thomé, Angolla & Indias de Portugal & Castella. Lisboa: Impresso por Vicente Alvarez, 1614 [1608]. 

Figueiredo, Manuel de. Roteiro e navegação das Indias Occidentais ilhas, antilhas do mar oceano ocidental, com suas derrotas, sondas, fundos, & conhecenças / novamente ordenado segundo os pilotos antigos, modernos, por Manoel de Figueiredo, que serve de cosmographo mor, por mandado de sua majestade nestes reynos, e senhorios de Portugal: dirigido a Dom Carlos de Borga, Conde de Ficalho, do Concelho do Estado da sua majestade. Lisboa: por Pedro Crasbeeck, 1609.

Bibliografia sobre o biografado

Albuquerque, Luís de. “Portuguese books on nautical science from Pedro Nunes to 1650”. Revista da Universidade de Coimbra XXXIII (1985): 259–278.

Matos, Rita Cortez de. “O Cosmógrafo-Mor: o ensino náutico em Portugal nos séculos XVI e XVII.” Oceanos 38 (1999): 55–64.

Mota, Avelino Teixeira da. “Os regimentos do Cosmógrafo-mor de 1559 e 1592 e as origens do ensino náutico em Portugal.” Memórias da Academia das Ciências de Lisboa (Classe de Ciências) Tomo XIII (1969): 1–69.

Vasconcelos, José Augusto do Amaral Frazão de. Subsídios para a história da carreira da Índia no tempo dos Filipes. Lisboa: O Mundo do Livro, 1960.

Viterbo, Sousa. Trabalhos nauticos dos Portuguezes nos sécalos XVI e XVII. Lisboa: Imprensa Nacional, 1890.