Portugal, Bento de Moura

Moimenta da Serra, Gouveia, 21 março 1702 — Lisboa, 27 Janeiro 1776

Palavras-chave: Bento de Moura Portugal, Royal Society, Inquisição, Marquês de Pombal.

Físico e engenheiro português, Bento de Moura Portugal notabilizou-se como engenheiro na criação de máquinas e promoção de obras públicas, após ter adquirido experiência em vários países europeus. Descendente do lado do pai de Cristóvão de Moura Portugal, primeiro marquês de Castelo Rodrigo, consta que efetuou estudos no colégio jesuíta de Gouveia, mas esta escola só foi fundada em 1723, quando Moura Portugal já tinha 21 anos. Certo é que Moura Portugal se formou em Direito na Universidade de Coimbra em 11 de maio de 1731 (deve ter interrompido estudos, pois se tinha matriculado no 1.º ano em 1 de outubro de 1720). Em contraste com a sua formação de base jurídica, Moura Portugal foi um engenheiro e gestor, que trabalhou em diversas obras públicas de mecânica e hidráulica. Pode ser considerado um dos “estrangeirados” do século das Luzes, por ter passado um período da sua vida fora do país e dessa experiência ter trazido ensinamentos para a sua terra natal. Tornou-se Cavaleiro da Ordem de Cristo, em 12 de agosto de 1744, e Cavaleiro da Casa Real, por alvará régio de 24 de março de 1750 (D. João V, que assim o distinguiu, faleceria pouco depois).

Moura Portugal começou por exercer atividades de advocacia, para as quais se tinha preparado. Contudo, a fim de desenvolver as suas invulgares competências técnicas em assuntos mecânicos, foi enviado em 1736 por D. João V numa viagem de formação ao estrangeiro, para a qual lhe atribuiu o que chamaríamos hoje uma bolsa de estudo. Viajou pela Europa durante quatro anos, observando diversas obras públicas, designadamente na Inglaterra (onde aprendeu a filosofia newtoniana), na Hungria (onde ensaiou um invento náutico, que consiste na aplicação de remos a navios de grande porte), na Áustria, na Alemanha (onde inventou uma máquina pneumática), na França, em Espanha e, provavelmente, também na Holanda. Um ministro português escreveu assim ao embaixador em Londres recomendando a pessoa enviada: “passa a essa Corte para aprender algumas sciencias, e particularm.te a profissão de Enginheiro mellitar para a qual tem especial propensão, e capacidade”. Foi admitido como sócio da Real Sociedade de Londres em 5 de Fevereiro de 1741 e viu publicado nas Philosophical Transactions dessa sociedade em 1751 um artigo que apresentava o novo modelo de máquina a vapor (“máquina de fogo”) que tinha demonstrado na praia de Belém, Lisboa, em 1742 perante o rei D. João V e a família real. Tratava-se de um melhoramento da máquina de vapor do inventor inglês Thomas Savery (c. 1650–1715). A nova máquina era capaz de funcionar autonomamente, segundo um progresso que foi muito apreciado pelo engenheiro inglês John Smeaton (1724–1792), um dos pioneiros da locomotiva, que apresentou a comunicação nas Transactions.

Regressado a Portugal em 1740, foi mentor de diversas obras hidráulicas, para benefício da agricultura, designadamente projetos de um dique no rio Tejo em Vila Velha de Ródão para evitar as inundações dos terrenos agrícolas limítrofes e de diques semelhantes no rio Mondego; uma roda hidráulica para secar terras alagadas no paúl de Fôja, em Coimbra; drenagem dos paúis de Vila Nova de Magos, do Juncal e de Tresoito, no Ribatejo; etc. Desempenhou o cargo de “superintendente e Conservador das fabricas reais da fundiçam da artelharia da Comarca de Thomar” (as chamadas “ferrarias”, em Figueiró dos Vinhos, onde se construíam não só armas como alfaias agrícolas). 

Apesar da notoriedade das suas obras, enfrentou adversidades e conheceu finalmente uma sorte trágica. Em 1743 viu-se acusado pela Inquisição, por alegadamente duvidar da existência de milagres (escreveu o frade franciscano que o denunciou: “o tal sojeito por ser bastante subtil, e ao mesmo tempo muito amante da sua opinião, causará damno e prejuízo ás almas, continuando semelhantes disputas”). Foi por isso interrogado pelo Santo Ofício em 1746. Um inquisidor escreveu: “Que todas as questões e duvidas que altercava nas suas praticas e conversas sobre lugares da Sagrada Escriptura o dito Bento de Moura Portugal eraõ nascidas de ter andado e assistido nos reynos estrangeyros como Inglaterra e Olanda onde reyna a heresia calviniana e lutherana”. Em 1748, Moura Portugal entregou uma carta de retractação, prometendo não mais se meter em matérias “alheias da sua profissaõ”. Os inquisidores, embora não convencidos, arquivaram o processo.

Depois de ter trabalhado na construção de uma ponte de barcas no Porto, de ter voltado a problemas de irrigação do Tejo e de ter voltado à ideia da navegação auxiliada por  remos agora não no Danúbio mas no Tejo, ter lidado com problemas do paúl da Ota e de ter estudado novos processos de aplicação de impostos, nomeadamente o “quinto” do ouro do Brasil (consta que terá viajado até ao Brasil, mas provavelmente tal nunca ocorreu), viu-se envolvido, num período marcado por intensas perseguições político-religiosas ordenadas pelo Marquês de Pombal (paradoxalmente, também ele membro da Sociedade Real de Londres, para onde entrou em 15 de maio de 1740, pouco antes de Moura Portugal), no processo político dos Távoras ao ser acusado, por denúncia anónima, de conspirar contra o governo. Foi encarcerado na prisão do forte da Junqueira em Lisboa, em 9 de Julho de 1760, interrogado duas vezes e deixado sem culpa formada na prisão, de onde nunca mais saiu. A sua estada na prisão ao longo de seis anos levou-o à demência e a uma tentativa falhada de suicídio, pouco antes de morrer. Foi sepultado no próprio forte da Junqueira.

Vários dos seus contemporâneos o elogiaram, tanto no estrangeiro como em Portugal. O físico alemão Herman Osterrieder (1719–1783) declarou com algum exagero que “depois do grande Newton em Inglaterra, só Bento de Moura em Portugal”. O oratoriano Teodoro de Almeida (1722–1804) elogiou a sua teoria das marés, procurando reabilitar um cientista caído em desgraça. Em conjunto com uma crítica ao comportamento despótico do Marquês de Pombal, Almeida incluiu, no terceiro volume da sua obra Cartas físico-mathemáticas, uma carta com o título Sobre huma máquina para provar a causa das marés, segundo a doutrina do grande Bento de Moura Portugal. Num gesto que pode ser considerado de homenagem, a Imprensa da Universidade de Coimbra deu à estampa em 1821 um livro que resultou dos 28 cadernos de manuscritos sobre obras públicas escritos no cárcere em condições dramáticas, com papel pardo, um pauzinho ou ossinho e o fumo da candeia e resgatados postumamente por um amigo do autor: Inventos e Vários Planos de Melhoramento para Este Reino… Note-se a data da publicação: 55 anos após a morte, numa altura em que a maior parte desses “melhoramentos” já não faziam sentido. Uma carta de Moura Portugal contida nesse livro enumera uma lista de 18 dos seus inventos, onde destaca “um artefacto por modo de Navio para conduzir madeira do Pinhal de Leiria, ou de outra qualquer parte do Reino, para Lisboa”. Num jardim em Moimenta da Serra existe uma estátua que homenageia Moura Portugal.

Carlos Fiolhais
Centro de Física da Universidade de Coimbra

Arquivos

Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal, [Memória de Bento de Moura Portugal dirigida a uma sociedade científica]. 1750. MSS. 21, n.º 66.

Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal, Novos Inventos Por Bento de Moura Portugal extrahidos das margens de hum Livro intitulado Nouvelles decouvertes sur la Guerre aonde o Auctor entre outros escreveu os três projectos q[ue] contem este traslado. 1776. MSS. 60, n.º 1.

Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal, Modo de affructar os paues e terra alagadiças : Providencias para conter, e diminuir as cheyas dos Rios Mondego e Tejo / Obra posthuma que para benificio comum, e utilidade da Real Corôa, e do Reino, estando prezo nos Carceres do Forte da Junqueira, onde faleceo, a 27 de Janeiro de 1766 compos e trabalhou Bento de Moura Portugal Cavalleiro Professo na Ordem de Christo, Fidalgo da Casa de Sua Magestade Fidelissima, Socio da Academia Real das Sciencias de Londres, e Superintendente das Reaes Ferrarias da Comarca de Tomar. 1801.COD. 10751.

Nova Iorque, Metropolitan Museum of New York, Dialogo sobre hua nova obra no Rio Tejo … 1776 (?). GB1321.M68 1766.

Obras

Portugal, Bento de Moura. Inventos e Vários Planos de Melhoramento para Este Reino. : escriptos nas prisões da Junqueira por Bento de Moura Portugal. Coimbra: na Imprensa da Universidade, 1765 (?).

Bibliografia sobre o biografado:

AlmeidaTeodoro de. Cartas físico-mathemáticas de Theodosio a Eugenio: para servir de complemento á Recreaçaõ Filosophica, Lisboa: Tipografia Régia, 3 tomos, 1784–[1798].

Amaral, Abílio Mendes do. Bento de Moura Portugal na Lisboa da século XVIII. Lisboa: [s.n.], 1973.

Baião, António. Episódios Dramáticos da Inquisição em Portugal, 3ª ed. Vol. II: 41–52. Lisboa: Seara Nova, 1973.

Bento de Moura Portugal – O homem, o cientista e a obra na história do seu tempo e na perenidade do seu génio. Gouveia, Câmara Municipal de Gouveia, 1973.

Carvalho, Rómulo de. Bento de Moura Portugal, Homem de Ciência do Século XVIII, Memórias da Academia de Ciências de Lisboa, XXXIII (1993–1994): 153–224. [Reimpresso em Actividades Científicas em Portugal no Século XVIII, pp. 323–429. Évora, Universidade de Évora, 1996].

Carvalho, Rómulo de. “Portugal nas ‘Philosophical Transactions’ nos Séculos XVII e XVIII”, Revista Filosófica 11 (1956): pp. [Reimpresso em Colectâneea de Estudos Históricos (1953-1994), pp. 9–68. Évora: Universidade de Évora, 1997].

Pinto, Donzília Alves Ferreira Pires da Cruz. “Vida e obra de Bento de Moura Portugal.” Dissertação de mestrado, Universidade Nova de Lisboa, 1993.

Fiolhais, Carlos, ed., Membros Portugueses da Royal Society / Portuguese Fellows  of the Royal Society. CoimbbaUniversidade de Coimbra, 2011. [NB: Ver lista de sócios].

Machado, Alberto Teles de Utra. Bento de Moura Portugal: memória. Lisboa: Typographia da Academia Real das Ciências, 1890.

Smeaton, John. “An engine for raising Water by Fire, being an Improvement of Savery’s Construction, to render it capable of working itself, invented by Mr. De Moura of Portugal, F.R.S.” Philosophical Transactions 47 (1751–1752): 436–439. [NB: contém gravura em folha desdobrável].

Orta, Garcia de

Castelo de Vide, c. 1500 — Goa, 1568

Palavras-chave: matéria médica, botânica, Império Português no século XVI, Inquisição.

Garcia de Orta (de Orta, da Orta, d’Orta) (Castelo de Vide, c. 1500 — Goa, 1568foi um médico e naturalista do período renascentista. Os seus pais, Fernando de Orta e Leonor Gomes, originários respectivamente de Valência de Alcântara e de Albuquerque, em Espanha, deslocaram-se para Portugal na sequência da promulgação do édito de expulsão dos judeus de Espanha, em 1492. Fixaram residência na povoação fronteiriça de Castelo de Vide na qual  tiveram quatro filhos, Garcia de Orta e as suas irmãs  Violante, Isabel e Catarina. Orta teve também um meio-irmão, Jorge de Orta, fruto de uma ligação anterior mantida entre o pai e uma mulher castelhana de nome Brites Nunes. Este seu familiar estabeleceu-se em Elvas pouco tempo antes de 1504. A ascendência judaica de Garcia de Orta e, nomeadamente, a sua condição de cristão-novo teve uma influência marcante no seu percurso pessoal e profissional.

Entre c. 1515 e 1523, Orta estudou medicina nas universidades de Salamanca e de Alcalá onde obteve o seu título de licenciado. Dedicou-se à prática médica, primeiro em Castelo de Vide e, volvidos três anos, em Lisboa. Depois de três tentativas frustradas para conseguir um lugar na Faculdade de Artes da Universidade de Lisboa, obteve  em 1530 a posição de  leitor de Filosofia Natural nesta instituição. Em 1533, foi eleito representante do Conselho da Universidade, cargo que ocupou até à partir para a Índia, a 12 de Março de 1534. Embarcou na qualidade de médico pessoal do amigo e patrono Martim Afonso de Sousa, Capitão-Mor da Armada. A Inquisição  foi estabelecida em Portugal, poucos anos antes, em 1531, e o receio do médico português de vir a ser perseguido devido às suas origens judaicas, terá sido um dos principais motivos desta mudança radical na sua vida. Jamais regressaria ao reino. 

A frota ancorou em Goa, no mês Setembro de 1534. Em breve, Orta passou a acompanhar Martin Afonso de Sousa em campanhas militares na costa ocidental da Índia, desde Gujarate a Ceilão, cruzando, entre outras,  as cidades de Diu, Chaul, Baçaim e Cochin. Em 1538, Sousa regressou a Lisboa mas Orta decidiu não o acompanhar e instalar-se em Goa. Em breve, adquiriu grande prestígio profissional e social, tendo sido médico de vários vice-reis e governadores da cidade e do sultão de Ahmadnagar. Exerceu também medicina no Real Hospital Militar de Goa e granjeou o título de Físico-mor aquando do regresso de Martim Afonso de Sousa a Goa, em 1541, na qualidade de Vice-Rei, cargo que ocupou até 1546. Para a fortuna pessoal do médico português, contribuiu também a sua actividade comercial em matéria médica e pedras preciosas.  Além da sua abastada casa em Goa, Orta passou igualmente a dispor da Ilha de Bombaim que adquiriu por aforamento, em 1548.

Em finais de 1541, chegou a Goa a família do mercador e cristão novo Henrique de Solis, originária de Alter do Chão. Pouco tempo depois, a filha, Brianda de Solis, contraiu matrimónio com Garcia de Orta com quem teve duas filhas. Em 1548, chegou também a esta cidade a mãe e as irmãs de Orta, Catarina e Isabel, fugindo à perseguição movida pelo Tribunal da Santa Inquisição de Lisboa. Este tribunal religioso foi estabelecido em Goa, em 1560, mas durante a sua vida Orta conseguiu escapar à acusação do Santo Ofício e proteger dele a sua família, provavelmente devido ao seu prestígio e ao seu círculo de contactos e amigos influentes. Após a morte do médico português em Goa, em 1568, alguns dos seus familiares mais próximos foram perseguidos severamente pela Inquisição, tanto em Goa, como em Portugal. A  irmã Catarina foi presa e condenada à fogueira, em 1569, e o ano de interrogações e tortura a que tinha sido sujeita conduziu a que denunciasse vários dos seus familiares pela prática de judaísmo, incluindo o seu já falecido irmão. O Santo Ofício ordenou que fossem exumadas as ossadas de Orta e que as mesmas fossem queimadas em auto-da-fé,  ocorrido a 4 de Dezembro de 1580. As cinzas foram depois lançadas no rio Mandovi.

Os Colóquios dos simples e drogas e coisas medicinais da Índia, a única obra de Garcia de Orta e a primeira de um autor europeu sobre as matérias nela versadas, foram publicados em Goa por Joannes de Enden, em 1563. A prensa móvel foi introduzida nesta cidade em 1557, sendo os Colóquios apenas a terceira obra publicada no território e a única que, até então, não se debruçava sobre temas religiosos. Vigorando já o Tribunal do Santo Ofício na cidade, a folha de rosto do livro patenteia a necessária autorização à sua impressão por parte do inquisidor Aleixo Dias Falcão. Não é totalmente conhecido o modo como a mesma foi obtida, nem tão pouco o grau de escrutínio utilizado pelo censor. Em todo o caso, o prestígio social e económico de Orta e, em particular, o seu círculo de protetores e de amigos  influentes no reino e em Goa, terão contribuído decisivamente para que a obra pudesse ter sido publicada. São aliás dois dos humanistas seus companheiros nesta cidade, o licenciado Dimas Bosque e o latinista Tomé Dias Caiado quem, a par de Luís de Camões que então publica o seu primeiro poema, dão autoria aos principais  paratextos laudatórios da obra. O frontispício dos Colóquios contribui também como dispositivo legitimador ao referenciar o suposto título de Garcia de Orta como Físico d’ El Rey nosso Senhor e o privilégio do 3º Conde do Redondo, Vice-Rei da Índia, sendo ainda de assinalar a dedicatória da obra ao ilustre e seu sempre estimado Martim Afonso de Sousa.

Tal como o título indica, a obra de Garcia de Orta é apresentada no formato dialógico, sendo constituída por uma série de conversas, 59 no total, entre o próprio Orta e o seu principal interlocutor, Ruano, um jovem médico também ele formado nas Universidades de Salamanca e Alcalá e acabado de chegar a Goa, em busca de novos conhecimentos. A mesma dá ainda voz a outras figuras da sociedade goesa e aos próprios serviçais do médico português. A forma coloquial escolhida serve múltiplos propósitos incluindo uma melhor efectivação dos processos de comunicação, legitimação e persuasão subjacentes  à obra.

Os Colóquios baseiam-se na compilação de observações e de informações recolhidas pelo autor ao longo dos quase trinta anos, até então tinha vividos em Goa e noutros lugares do Oriente, abrangendo as virtudes médicas de vários produtos de origem vegetal, alguns de origem animal e ainda de algumas pedras preciosas. Os diversos produtos considerados estão organizados alfabeticamente em capítulos distintos não sendo, todavia, esta ordem sempre obedecida. Para cada um deles, Orta apresenta não só os seus usos médicos  e atributos morfológicos e sensoriais, mas também os seus nomes em diferentes línguas, os seus locais de origem e os seus preços em várias terras e mercados. Um dos propósitos do autor é, assim, o de proporcionar um sistema de ordenação da grande variabilidade dos atributos dos produtos naturais do oriente utilizados na prática médica. Outro dos seus objetivos é a consideração de métodos de tratamento utilizados por físicos indígenas, nomeadamente os  “hakins” (muçulmanos) e os “vaydas” (hindus).

Nem todos os produtos abordados nos Colóquios eram então totalmente desconhecidos no Ocidente, mas Orta tem também o propósito de avaliar e clarificar considerações sobre matéria médica de autores antigos e modernos. Nesta época, A Matéria Médica  do médico e botânico Dioscorides continuava a ser a principal obra de referência  nesta área do saber. Com a invenção da imprensa, em 1455, e  a influência do humanismo renascentista, a mesma passou a ser objecto de um renovado interesse, de traduções e de estudos por vários autores incluindo Jean de RuellePier Andrea MattioliAndrés Laguna  e o português Amato Lusitano. Contudo, os comentários de Orta não se restringem a estes autores e incluem, entre outros, referências a Teofrasto, Galeno e Plíneo, o Velho da antiguidade clássica, aos árabes Rasis, Avicena e Averróis, do período medieval, e aos europeus António Musa, Niccolò Leoniceno, Matheolo Senense e Nicolás Monardes, seus contemporâneos. Nas suas observações-  critica, sobretudo, alguns dos autores coevos pelo facto de não procurarem actualizar os seus conhecimentos face à reconfiguração do saber proporcionada pela expansão geográfica, descrevendo mesmo alguns dos autores da sua época como meros imitadores dos gregos. Orta é também crítico de algumas passagens de autores árabes, mas a sua apreciação sobre os mesmos é fundamentalmente positiva. É de realçar a enfâse  dada pelo autor à natureza aberta e dinâmica da construção do conhecimento médico e botânico.

Os Colóquios são uma obra abrangente, apresentando numerosas informações sobre as propriedades médicas do mundo natural asiático. Muito do conhecimento neles patenteado resultou da experiência pessoal do seu autor ao longo da sua vivência na Índia e, em particular, em Goa.  A partir de 1510,  esta cidade passou a ser a  capital do Império Português no Oriente e um  importante centro de intercâmbio comercial e cultural favorável à  aquisição de produtos e saberes com relevância para a prática médica. No entanto, a grande amplitude da origem dos produtos mencionados por Orta, não permitia que as observações directas do autor fossem por si só suficientes na elaboração da obra. A mesma indica que a sua rede de informadores  foi vasta e ecléctica, tendo incluindo 

não somente médicos e boticários, mas também comerciantes, soldados, missionários, viajantes e tradutores oriundos de vários lugares. O médico português remunerou também alguns agentes em tarefas de recolha de plantas e sementes de lugares específicos da Índia. Beneficiou, ainda, de relações de colaboração e amizade que estabeleceu com médicos e eruditos árabes, persas e hindus. Terá igualmente sido favorecido pelo acesso a compilações confidenciais sobre plantas e drogas medicinais da Índia encomendadas por reis e altos  dignitários da coroa portuguesa.

As várias fontes e agentes de informação subjacentes aos Colóquios  contribuem para que, pelo menos em parte, possamos considerar a obra como uma espécie de  “centro de acumulação” de saberes sobre a matéria médica da Índia e territórios adjacentes. Todavia, este é apenas um dos seus atributos uma vez que a obra tem uma natureza multifacetada. 

Uma das características distintivas e, ao mesmo tempo, mais apelativas dos Colóquios são as menções culturais apresentadas nos mesmos e para as quais o formato dialógico eleito pelo autor muito  contribui. Entre outras, a obra alude a costumes locais de Goa, a notícias da China, à situação geográfica da Babilónia e ao jogo de xadrez. Incluem ainda histórias e até fábulas. É ainda significativo que a maioria dos diálogos apresentados na obra decorra na casa de Orta e,  especialmente, à sua mesa. Deste modo, a transmissão a Ruano de conhecimentos sobre as virtudes médicas de plantas, frutas  e especiarias tais como a manga — um dos ingredientes mais frequentes da cozinha Goesa — o coco, o cravo ou o gengibre, é acompanhada da sua percepção directa através dos sentidos (visão, olfacto, paladar e tacto). A alimentação simultânea do corpo e da mente surge, assim, nos Colóquios como um dos métodos didácticos mais eficazes. É ainda na visita a dois dos seus pacientes que, a par de um bom mestre, Orta exibe as suas qualidades no exercício da medicina. Desde logo, é destacada a prontidão com que atende os doentes  quando é chamado e seguidamente o cuidado com que avalia os seus sintomas e dita o tratamento mais apropriado.

A multifuncionalidade dos Colóquios faz crer que a audiência que o autor pretendia atingir fosse também ela diversa. Na dedicatória, Orta indica que o seu trabalho foi sobretudo escrito para a comunidade local de Goa e regiões adjacentes e, em particular, os seus colegas e amigos médicos e boticários, nos quais certamente se incluiria o licenciado Dimas Bosque. Contudo, o número significativo de referências a autores antigos e modernos nela incluído indica que os humanistas europeus seus contemporâneos também fariam parte do público almejado, especialmente os seus colegas portugueses, espanhóis e italianos tais como Amato Lusitano, Andrés Laguna, Nicolás Monardes e Pier Andrea Mattiolipara quem a língua portuguesa não constituiria um obstáculo. Os Colóquios poderiam ainda ser úteis em instituições médicas de Goa como o Real Hospital Militar de Goa e a Santa Casa da Misericórdia desta cidade.  É ainda muito provável que atraíssem uma audiência mais vasta incluindo mercadores e oficiais já que a obra proporciona informações variadas sobre a localização, o preço e as rotas de comércio de muitos dos simples e drogas da Índia. Provavelmente menos significativo, mas nem por isso menos assinalável, é a leitura lúdica e perspicaz que os Colóquios também podiam proporcionar. Seria difícil conciliar todas estas potencialidade da obra se a mesma tivesse sido escrita em latim e não em português. Igualmente de assinalar é o facto de a língua portuguesa estar muito próxima de ser a língua franca da época para os leitores de todas as cidades portuárias em redor do Oceano Índico..

Alguns exemplares dos Colóquios alcançaram, sem demora, a capital do império. Testemunha-o  um dos leitores mais atentos e diligentes da obra de Orta,  Carolus Clusius, que datou de 6 de Janeiro de 1564 o exemplar adquirido em Lisboa. A importância da obra do médico português foi imediatamente reconhecida por Clusius, que reconheceu não só a relevância dos novos conhecimentos médicos e botânicos nela apresentados, mas também admirou a crítica destemida e acérrima de Orta a afirmações de autores antigos e modernos sobre  matéria médica.

A adaptação dos Colóquios por Clusius, com o título Aromatum et simplicium aliquot medicamentorum apud Indos nascentium história , a cargo do famoso impressor Christopher Plantin, foi publicada logo em 1567. O naturalista flamengo reduz a epítome

as conversas da obra de Orta e  omite  as informações que não considera directamente relevantes para o conhecimento médico e botânico. Ordena e clarifica, ainda, partes da obra original e complementa o processo editorial com anotações de sua autoria e algumas ilustrações. A obra de Orta é assim recriada numa nova língua, o latim, num formato mais sóbrio  que prima pela sistematização do conhecimento médico e botânico nela apresentado. O conteúdo informativo é mais alargado e algumas representações visuais são originais. Os dotes editoriais de Clusius, as suas capacidades linguísticas e a sua preocupação constante em avaliar e adicionar novas observações às suas obras tornaram o epítome dos Colóquiosnum dos maiores sucessos da história do livro do século XVI. As suas sucessivas tiragens, todas elas de algum modo reformuladas e melhoradas, apresentando também alterações em algumas das ilustrações nelas patenteadas, vieram a lume em 1574, 1579, 1593 e 1605. A quarta edição de 1593 apresentou, pela primeira vez, não só o epítome dos Colóquios mas também as obras de Cristovão da Costa, Nicolás Monardes e Pierre Belon du Mans. Já a última e quinta edição foi integrada na publicação das obras completas de Clusius, Exoticorum libri decem, quibus animalium, plantarum, aromatum, aliorumque peregrinorum fructuum historiae describuntur.

O epítome dos Colóquios de Clusius passou a ser na Europa a obra de referência do saber médico e botânico inicialmente veiculado por Garcia de Orta e foi com base na mesma que foram obtidas as múltiplas traduções em italiano (Veneza: 1578, 1582, 1582, 1589, 1597, 1605, 1616)  e em francês (Lyon: 1601, 1619), versando a temática dos simples e das drogas da Índia. 

Ao longo dos séculos XVI e XVII, os Colóquios continuaram a ter uma influência

determinante nas obras de outros autores, de entre as quais se destacam o Tratado

delas drogas y medicinas de las Indias Orientales, con sus plantas debuxadas

al bivo de Cristovão da Costa publicado em Burgos, em 1578, e De medicina Indorum libri iv de Jacobus Bontius  publicado em Leiden, em1642. No entanto, em Portugal, durante um  longo período, os Colóquios foram votados a um esquecimento presumivelmente forçado.

Até meados do século XIX, a atenção dedicada a Garcia de Orta no nosso país foi praticamente inexistente. Os primeiros esforços conducentes à reedição da obra estiveram intimamente associados a questões nacionalistas, em particular, ao propósito de legitimar e reforçar os interesses políticos e científicos do império português. Num processo que foi longe de ser linear, os Colóquios acabariam por ser reeditados por Francisco Adolfo de Vernhagen, em 1872. No entanto, o empreendimento não foi considerado satisfatório por vários membros das comunidades científicas e literárias portuguesas. Apenas em 1886, foi publicado o primeiro estudo sobre Orta da autoria do Conde de Ficalho com o título Garcia de Orta e o seu tempo. Foi também da sua responsabilidade a edição comentada dos Colóquios em dois volumes (1891, 1895)que ainda hoje é utilizada como referência. Ficalho desconhecia a ascendência judaica do autor apenas revelada por Augusto da Silva Carvalho, em 1934.

Ao longo do século XX, a nova dimensão de Orta como autor e o seu novo estatuto de herói fundador da medicina portuguesa teve correspondência no significativo número de publicações dedicadas à sua obra. Indubitavelmente, a componente médica e científica dos Colóquios foi a que despertou maior interesse. A formação da grande maioria dos estudiosos era precisamente nestas áreas. Neste período, a historiografia sobre Orta e a sua obra assumiu, em larga medida, um carácter laudatório e foi quase sempre ancorada numa análise literal dos Colóquios. Não deve, no entanto, ser esquecido o valor destas primeiras análises e o contributo de alguns do estudiosos na inventariação de novas fontes históricas relevantes para a história da expansão portuguesa e para o lugar que a inventariação e a

descrição do mundo natural ocupou nestas investigações. Foi essencialmente no século XXI que um conjunto de estudos imbuídos de recentes e mais sofisticadas abordagens historiográficas permitiu atribuir um significado mais complexo e global aos Colóquios e à vida do seu autor.

Garcia de Orta é o médico que, até à data, foi motivo de mais homenagens públicas, que incluem o mural “Garcia de Orta e os médicos portugueses” (1906) de Veloso Salgado, patente na Escola Médica de Lisboa (actual Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa), a estátua de Martins Correia (1953), no Instituto de Higiene e Medicina Tropical, e a estátua de Irene Vilar, no largo Tomé Pires, no Porto. A imagem de Orta teve também  uma larga circulação em selos, notas de vinte escudos  e  moedas. Motivou ainda a designação de jardins, ruas e um hospital em 1991. Os vários tributos contrastam radicalmente com o longo esquecimento a que autor e a sua obra foram votados, tendo contribuído para que a figura de Garcia de Orta  adquirisse um estatuto emblemático como herói da comunidade médica e científica, bem como da própria nação portuguesa.

Palmira Fontes da Costa