Bettencourt, Aníbal de (Annibal de)

Angra do Heroísmo, 16 abril 1868 — Lisboa, 8 janeiro 1930

Palavras-chave: Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, Faculdade de Medicina, bacteriologia, parasitologia, helmintologia, medicina veterinária, doença do sono, Bilharziose.

Aníbal de Bettencourt, médico, era filho de Nicolau Moniz de Bettencourt (licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, escrivão e tabelião na Câmara Municipal de Angra do Heroísmo)  e de  Francisca Virgínia Castel Branco de Bettencourt (filha única de José Tristão da Cunha Silveira de Bettencourt e de D. Francisca Carolina de Mendonça Pacheco de Melo).

Era o mais velho de quatro irmãos, Nicolau Anastácio de Bettencourt, José Tristão de Bettencourt e Guiomar Moniz de Bettencourt. Cresceu em Angra do Heroísmo até ao momento de se matricular no curso de Medicina e Cirurgia, na Escola Médico-cirúrgica de Lisboa. Ainda estudante, sentiu-se atraído pela Bacteriologia, uma área que estava a dar os primeiros passos em Portugal, por influência de Luís da Câmara Pestana, um pouco mais velho do que ele. Ao seu lado, deu inícioaos primeiros trabalhos bacteriológicos, no Laboratório Municipal de Lisboa, situado na Rua da Madalena, dirigido por José J. da Silva Amado. Analisou a qualidade bacteriológica da água de abastecimento à cidade de Lisboa em 1892 e, no ano seguinte, a 27 de julho de 1893, terminou o curso de medicina. Defendeu uma tese intitulada, “B. typhico e B. coli. Um novo argumento a favor da sua identidade”, na qual procurou estabelecer uma relação entre estes dois microrganismos. Foi imediatamente contratado como médico auxiliar de laboratório do Instituto Bacteriológico de Lisboa, criado a 29 de dezembro de 1892 e instalado em três compartimentos de um pavilhão do Hospital de São José. Com o seu professor, Câmara Pestana, fez o estudo bacteriológico da epidemia que assolou Lisboa, em 1894; realizou os ensaios para utilização do tratamento antirrábico pelo método de Pasteur; elaborou o relatório das vacinações contra a raiva realizadas ao longo do país e descreveu um caso de siringomielia em cuja autópsia foi identificado o bacilo da peste, em 1896. 

Casou com Dídia Clotilde Corte Real Martins, de quem teve dois filhos, Maria Clotilde Corte Real Moniz de Bettencourt e Nicolau José Martins de Bettencourt. Dídia faleceu em 1903, com 29 anos. 

Em 1899, Câmara Pestana foi vitimado pela peste bubónica que investigava no Porto, a pedido de Ricardo Jorge. Antes de morrer, recomendou à rainha D. Amélia que escolhesse Aníbal de Bettencourt para seu sucessor, tal a confiança que depositava neste seu discípulo. A 30 de novembro de 1899, quinze dias após a morte de Câmara Pestana, Aníbal de Bettencourt assumiu a direção do Instituto.     

Sob proposta de Miguel Bombarda, na Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa, em 1901, foi nomeada uma missão de estudo à doença do sono a Angola, à época uma das colónias portuguesas mais ricas e simultaneamente mais fustigada pela epidemia. Coube a Aníbal de Bettencourt a liderança desta missão e a escolha de uma equipa constituída por médicos do seu Instituto: Ayres José Kopke Correia Pinto, José Gomes de Rezende Junior e João Brás de Gouveia e ainda Aníbal Celestino Correia Mendes, seu cunhado e diretor do laboratório bacteriológico do Hospital de Luanda. Foi a primeira missão de estudo europeia a fazer o estudo da doença em território africano, que se transformava assim num laboratório vivo, por excelência. A missão partiu de Lisboa no dia 21 de abril de 1901 e regressou a Lisboa, precisamente um ano depois. Os primeiros resultados eram animadores e colocavam a equipa portuguesa como pioneira na descoberta do agente causador da doença: um bacilo (o hypnococo). Todavia, tudo se modificou a partir de 1903, sendo a missão médica da Royal Society of London a protagonista desta descoberta, como resultado das contribuições de Aldo Castellani e David Bruce: o agente causal da doença era afinal um protozoário (o tripanossoma).

Em 1903, Aníbal de Bettencourt deslocou-se à Alemanha onde procurou reunir elementos que lhe permitissem organizar o seu Instituto, que recebera a designação de Instituto Bacteriológico Câmara Pestana (IBCP) no ano anterior. Sob sua gestão foi construído o novo edifício, projetado por Pedro Romano Folque, num convento de freiras franciscanas em ruínas no Campo dos Mártires da Pátria, e reorganizada a investigação e a assistência médica: a profilaxia antirrábica, o tratamento da difteria, a preparação de soros e vacinas, as análises clínicas e o ensino prático da bacteriologia. 

Este instituto constituía-se como um espaço privilegiado de investigação médica, tornando-se uma instituição modelar na primeira metade do século XX em Lisboa. Bettencourt era coadjuvado na sua direção pelo médico Morais Sarmento, na qualidade de subdiretor;  Júlio de Bettencourt, como secretário;  Carlos França, Gomes de Rezende e o veterinário Reis Martins, como médicos auxiliares;  Marck Athias (discípulo de Mathias Duval), chefe de serviço da raiva;  Ayres Kopke, chefe de serviço da tuberculose;  Ildefonso Borges, (diretor de um laboratório veterinário fundado em Angra do Heroísmo),  e por Nicolau de Bettencourt, seu irmão e futuro sucessor na direção do Instituto. Contava ainda com os assistentes, Azevedo Gomes, Estevão Pereira da Silva, Luís Figueira e Fausto Landeiro, para além dos preparadores, das enfermeiras e do restante pessoal de apoio técnico e administrativo. 

No mesmo ano, em 1903, fez parte de uma comissão permanente de revisão da Pharmacopêa Portugueza de 1876, juntamente com dois professores da Escola Médico-cirúrgica de Lisboa (Carlos Belo de Morais e Sílvio Rebelo Alves), dois da Escola de Farmácia (José Evaristo de Morais Sarmento e António Moreira Beato), dois da Escola Politécnica de Lisboa (Aquiles Alfredo da Silveira Machado e António Xavier Pereira Coutinho) e ainda Joaquim Urbano da Veiga, como farmacêutico de reconhecida competência. Todavia, esta comissão não chegou a produzir qualquer resultado.

A partir de 1905, e na sequência do desânimo causado pela perda de protagonismo na descoberta do agente etiológico responsável pela doença do sono, Aníbal de Bettencourt dedicou-se à parasitologia, inicialmente com Carlos França, e depois com Ildefonso Borges. Determinado em identificar novos agentes patogénicos, a ele se deve a proposta do género theileria para o agente da epizootia estudada nas regiões de África oriental por Theiler. Esta proposta foi incluída no tratado de protozoologia de Wenyon, publicado em 1926.

Em 1906, participou no XV Congresso Internacional de Medicina realizado em Lisboa na qualidade de vogal da comissão executiva e presidente da comissão da secção de patologia geral, bacteriologia e anatomia patológica. Neste congresso, apresentou uma comunicação, em coautoria com Carlos França, sobre os tripanossomas, com o título, “Note sur les trypanosomes des oiseaux du Portugal”.

Dado o volume da produção científica do Instituto, no mesmo ano deu início à publicação dos Arquivos do Real Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, revista redigida em francês, com ampla distribuição nacional e internacional, que contribuiu para a difusão dos trabalhos experimentais realizados por um conjunto de jovens empenhados em desenvolver a investigação experimental nas várias áreas das ciências da vida e da saúde. 

Em 1912 fez alguns trabalhos sobre parasitas intestinais, como a Taenia solium, a Taenia saginata e a Hymenolepis nana, identificados em casos clínicos nos hospitais portugueses. 

Os últimos trabalhos que publicou foram realizados no âmbito da Esquistossomose. Identificou com Pereira da Silva, Luís Figueira e Anthero de Seabra, vários focos de bilharziose vesical, provocada pelo Schistosoma haematobium, na região sul do país, sendo esta considerada uma doença autóctone em Portugal. 

A par de uma carreira científica e clínica, Bettencourt fez também carreira académica na Faculdade de Medicina de Lisboa, tendo sido o primeiro representante da Faculdade no Senado Universitário. Após a constituição universitária de 1911, a disciplina de Bacteriologia e Parasitologia passou a fazer parte do currículo médico. Assim, a 25 de junho, Aníbal de Bettencourt foi nomeado para a cátedra desta disciplina, lugar que manteve até falecer. Desde então, passou a acumular o cargo de diretor do IBCP. De forte cariz experimental, esta disciplina permitiu consolidar a importância de um saber laboratorial que iria conferir à geração de 1911 um lugar de destaque na modernização do ensino médico em Portugal, que se expandiu para os principais centros de referência no país. 

Aníbal de Bettencourt foi presidente de várias agremiações científicas e profissionais. Em 1907, foi escolhido para primeiro presidente da Sociedade Portuguesa de Fotografia, dada a sua perícia em microfotografia, que cultivou no seu instituto. Foi também o primeiro presidente da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, criada por Marck Athias no seu Instituto em 1907, e da Sociedade Portuguesa de Biologia, desde 1920 até 1927. 

Foi também o representante da Microbiologia nacional em vários momentos no circuito internacional. São disso exemplo, o convite que recebeu para colaborar nas cerimónias do centenário de nascimento de Louis Pasteur, em Paris, em 1922, assim como na reunião conjunta das sociedades de Biologia em 1923. 

Era uma figura reconhecida nalguns círculos políticos, que lhe permitiu tomar parte ativa na política científica nacional. Neste contexto participou na Liga de Educação Nacional, fundada por Reis Santos e José de Magalhães, bem como na Junta Orientadora de Estudos de António Sérgio, embriões da Junta de Educação Nacional, fundada em 1929.

Foi membro de várias sociedades científicas. Foi sócio titular da Sociedade de Sciencias Medicas de Lisboa, sócio correspondente da Academia das Sciencias de Lisboa, sócio da Academia das Sciencias de Portugal, sócio correspondente do Instituto de Coimbra, membro correspondente estrangeiro da Académie Royale de Médecine de la Belgique (1922), membro honorário da Société de Pathologie Exotique de Paris (1926), membro correspondente da Société Belge de Médecine Tropicale e membro da Société Royal de Médecine de Budapest.

Em 1901, recebeu a condecoração da Ordem de Sant’Iago da Espada e de Mérito Scientifico, Literario e Artistico, pela forma como conduziu a primeira missão médica europeia em África, para o estudo da doença do sono. 

Morreu em 1930, vítima de tuberculose, no seu quarto, no Instituto.

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Sem grandes ambições de protagonismo público, Aníbal de Bettencourt deixou um legado considerável na história da medicina portuguesa das primeiras décadas do século XX, num período em que a especialização médica dava os primeiros passos, pela modernização do ensino, pela criação de institutos de investigação, pela articulação das várias instituições de assistência e ainda pela criação de organismos reguladores da política científica nacional.  

Aníbal de Bettencourt iniciou a sua investigação científica ao lado de Câmara Pestana entusiasmado pela carreira de investigação de pendor pasteuriano, “uma doença, um micróbio, uma vacina”. Com ele deu início a um percurso de institucionalização da bacteriologia médica iniciada no Instituto Bacteriológico de Lisboa (1892–1895), que recebeu a designação real nos quatro anos seguintes e se instalou definitivamente no espaço da colina de Santana, em 1899, no IBCP, hoje extinto. Dotado de um financiamento e de instalações diferenciadas, constituiu-se no principal centro de investigação em ciências biológicas e biomédicas em Lisboa, formando várias gerações de médicos que vieram a ocupar lugares de destaque na história da medicina portuguesa. Em paralelo, tinha uma vocação social valorizável: assistindo gratuitamente a população, oferecia soluções de profilaxia e tratamento para várias doenças, como a raiva ou a difteria, obtidas a partir dos laboratórios. O financiamento do Instituto proveniente do Estado e de donativos particulares foram determinantes para a organização de uma sólida estrutura de assistência e de investigação, ímpar à época, no país. 

Precocemente viúvo, Aníbal de Bettencourt terá procurado encontrar uma fonte suplementar de rendimentos através do laboratório de análises clínicas, que criou no seu Instituto. 

Pelo prestígio nacional que alcançou no âmbito da bacteriologia nos primeiros anos de investigação, Aníbal de Bettencourt foi o médico escolhido para liderar a primeira missão de estudo da doença do sono em África, pelo Estado português, numa época em que as escolas de medicina tropical europeias procuravam respostas para explicar a etiologia de algumas doenças tipicamente africanas. A equipa que escolheu foi maioritariamente recrutada no IBCP. Embora as hipóteses desta missão não tivessem sido confirmadas a seu favor, o que fragilizou a imagem de Aníbal de Bettencourt, a controvérsia que geraram na comunidade científica nacional e internacional permitem-nos avaliar o quanto esta plêiade de médicos estava alinhada com a comunidade científica internacional. 

Fora da escola médica, Aníbal de Bettencourt foi o médico que mais contribuiu para a formação de uma elite médica militante da investigação científica como alicerce para o progresso das ciências médicas e por consequência, da geração de 1911. Pelo Instituto Bacteriológico Câmara Pestana passaram vários vultos da história da medicina da época como Ayres Kopke, Marck Athias, Carlos França, Henrique Parreira, Pinto de Magalhães, Jaime Celestino da Costa, Sílvio Rebelo, Francisco Gentil ou Pulido Valente, entre muitos outros. 

Para alguns dos seus biógrafos, Aníbal de Bettencourt era considerado um patologista exímio, sem atribuir primazia ao laboratório sobre a clínica. Utilizava como modelo as doenças infeciosas e atribuía tanto ao diagnóstico laboratorial como aos dados nosológicos um papel de relevo na educação médica. 

Dizia Celestino da Costa: “adversário irredutível da organização que até então prevalecia no ensino superior português, partidário convicto da especialização, entusiasmava os novos que se reuniam no seu gabinete no Instituto e que na sua autoridade encontravam forte apoio para as suas ideias”. Ideias de um pasteuriano convicto para quem o labor científico era o alicerce do progresso médico e o instituto de investigação, o vórtice de uma estrutura organizada de investigação, suportada pela biblioteca, pelos laboratórios, ou ainda, pelas sociedades científicas que nele foram criadas, bem como os seus periódicos, canais privilegiados para divulgação da investigação realizada, entre pares.

Era uma figura de referência que estabelecia relações de cooperação muito próximas com as instituições e academias científicas europeias, científicas e médicas, das quais se destaca o Instituto Pasteur de Paris, que, por várias vezes, validou as suas observações microscópias. Esta filiação científica, plasmada na sua correspondência pessoal, permite-nos concluir que Bettencourt terá sido um médico-investigador reservado, mas tecnicamente muito competente e admirado pelos seus pares.

Apresenta uma trajetória científica diversificada, com trabalhos publicados maioritariamente com os seus colegas médicos ou veterinários. Começou com bacteriologista, atravessou a parasitologia e a helmintologia, não só no ensino como na investigação. 

Isabel Amaral

Arquivo 

Angra do Heróismo, Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro, Colecção Aníbal de Bettencourt. 

Obras

Bettencourt, Aníbal de e E. Pereira da Silva. “The Cercaria de Schistossoma haematobium.” Archivos do Instituto Bacteriologico Câmara Pestana 6 (1932): 1-21.

Bettencourt, Aníbal de e Ildefonso Borges. “Sur une Theileria parasite du Cephalophus (L.).” Archivos do Instituto Bacteriologico Câmara Pestana 3 (1912): 19-20.

Bettencourt, Aníbal de e Luís Câmara Pestana. “Contribuição para o estudo bacteriológico da epidemia de Lisboa.” Revista de Medicina e Cirurgia 1 (1894): 306-319.

Bettencourt, Aníbal de Ildefonso Borges, Antero Seabra e Pereira da Silva. “Rapport de la mission de l’Institute Câmara Pestana pour l’étude de la bilharziose au Portugal.” Archivos do Instituto Bacteriologico Câmara Pestana 5(1921): 189-230.

Bettencourt, Aníbal de, Correia Mendes, Ayres Kopke e Gomes de Resende. Doença do SomnoRelatórios enviados ao Ministério da Marinha pela missão scientifica nomeada por portaria de 21 de Fevereiro de 1901. Portugal: Ministério da Marinha e Ultramar, 1902.

Bettencourt, Aníbal de, Ildefonso Borges e Antero Seabra. “La bilharziose vésicale en tant que la maladie autochone au Portugal.” Comptes Rendus de la Société de Biologie de Paris 85 (1921): 785-786.

Bettencourt, Aníbal de, Ildefonso Borges, J. Nogueira, M. Reis Martins e Águeda Ferreira. “La pneumo-entérite du Porc (Hogcolera). Confirmation de l’éxistence du virus filterable comme cause de la maladie en Portugal.” Archivos do Instituto Bacteriologico Câmara Pestana 4 (1913): 183-193.

Bettencourt, Aníbal de. B. typhico e B. coli. Um novo argumento a favor da sua identidade. Lisboa: Typ. da Companhia Nacional Editora, 1893.

Bettencourt, Aníbal de. “Pestana e o seu Instituto Bacteriológico.” Revista Portuguesa de Medicina e Cirurgia Praticas 7 (1899):78-85.

Bettencourt, Aníbal de. “Sur la fréquence relative du Taenia solium et du Taenia saginata en Portugal.” Archivos do Instituto Bacteriologico Câmara Pestana 4 (1916): 1-5.

Bibliografia sobre o biografado

Costa, Augusto Celestino da. “Aníbal Bettencourt.” A Medicina Contemporanea, 48(3) (1930): 29-34.

Kopke, Ayres. “Prof. Aníbal Bettencourt.” Lisboa Médica 7 (2) (1930): 53-62.

Oliveira, J. Cândido de. “O centenário do Prof. Anibal Bettencourt.” Jornal da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa 132 (1-2) (1968): 1-18.

Pereira, Luísa Vilarinho. Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa 1836-1911 – Contributo para a sua memória. Lisboa: Edição de autor, 2018.

Valente, Pulido. “Títulos e obras de Aníbal Bettencourt.” Arquivos do Instituto Bacteriológico Câmara Pestana 6 (2) (1930): IV-X.  

Valente, Pulido. “Prof. Aníbal Bettencourt.”Archivos do Instituto Bacteriologico Câmara Pestana 6 (1) (1932): 1-4.

Pinto, Aires José Kopke Correia (Ayres) 

Lisboa, 14 fevereiro 1866 — 13 de março 1947

Palavras-chave: Hospital da Marinha, Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, Escola de Medicina Tropical de Lisboa, doença do sono, Atoxyl.

Aires José Kopke Correia Pinto descendente de uma família de origem judaica, nasceu em Lisboa, na freguesia de Santo André. Filho de pais incógnitos, foi batizado na Igreja Paroquial de Santo André e Santa Marinha a 1 de fevereiro de 1866, tendo sido testemunhas, Maria Luísa, a sua parteira, e o seu padrinho, Alfredo Theodulo Kopke Corrêa Pinto, casado e morador na Rua da Glória, à Graça.

Com 18 anos, em 1884, ingressou como aspirante na Armada portuguesa. Casou aos 32 anos, a 1 de outubro de 1898, com Adelaide Prazeres Metello Vasques (Kopke Corrêa Pinto), de 21 anos de idade. Foi testemunha do seu casamento, Luiz da Câmara Pestana, à época, diretor do Real Instituto Bacteriológico. Deste casamento nasceram cinco filhos: os engenheiros Henrique Kopke (futuro diretor dos Caminhos de Ferro e Transportes Aéreos de Angola) e Lúcio Kopke, Maria Kopke (que casou com Fausto Salazar Leite), Maria Luísa Kopke (que casou com o arquiteto Pardal Monteiro) e Alda Kopke (casada com Fernando Belard).

Foi colega de Luís da Câmara Pestana, Moreira Junior, José de Magalhães e Brito Camacho na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, tendo concluído o curso de Medicina e Cirurgia, em 1889, com a defesa de uma dissertação intitulada “Algumas palavras sobre o tratamento dos desvios uterinos”. Foi iniciado na prática experimental por Câmara Pestana, ainda quintanista, num laboratório de reduzidas dimensões instalado junto da enfermaria de São Carlos, no Hospital de São José.

Ao serviço da Marinha, como médico, fez missões na estação naval de Macau (1890–1891), na Índia e na divisão naval do Atlântico Sul, desde a costa do Daomé até à Baía dos Tigres. Fez parte da expedição do Cunene, dirigida por Mascarenhas Gaivão, governador de Moçâmedes. Em 1887, assumiu a direção do Gabinete de Bacteriologia, do Hospital da Marinha, o primeiro em hospitais portugueses. Foi incumbido de organizar a nomenclatura das doenças, segundo os princípios nosológicos com aplicação na Marinha e de rever o formulário dos medicamentos. Dez anos depois, em 1897, publicou um trabalho sobre o paludismo no jornal dirigido por Câmara Pestana com o título “Contribuition à l’étude étiologique du Paludisme dans la côte occidentale de l’Afrique”, realizado durante a sua permanência em Angola e São Tomé e Príncipe, trabalho que foi citado por Alphonse Laveran, no Traité du Paludisme, publicado em 1907.

Em 1901, fez parte da primeira missão europeia para estudo da doença do sono, em Angola, dirigida por Anníbal de Bettencourt (1868–1930), diretor do Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, ao lado de outros colegas da mesma instituição, Gomes Rezende e Correia Mendes. Os resultados inicialmente animadores para a missão portuguesa, que julgara ter descoberto o agente etiológico da doença, o hypnococco, foram contrariados pelas missões britânicas que, no Entebe, descobriam o tripanossoma como sendo o parasita causador da transmissão da doença ao Homem, mediada pela mosca tsé-tsé.

No mesmo ano, foi nomeado membro de uma comissão de estudo do saneamento da cidade de Luanda (Angola); em 1905, integrou uma comissão encarregue de estudar a remodelação do Hospital da Marinha, e, em 1910, fez parte do grupo que analisou o programa de Educação Física nas escolas, adaptado às condições da “raça portuguesa”.

Em 1902, quando o Hospital Colonial e a Escola de Medicina Tropical de Lisboa (EMT) foram fundados, foi convidado a integrar o corpo clínico e docente das duas instituições, respetivamente. Assumindo a responsabilidade da disciplina e do laboratório de Parasitologia e de Bacteriologia da EMT, desenvolveu um programa de investigação focado na doença do sono, da sua profilaxia e tratamento. Deu assim início, aos 36 anos, à carreira de investigação, tendo transitado do serviço da medicina naval, para a medicina tropical. 

Em 1904, numa missão de estudo a São Tomé, para estudo do beribéri, analisou também a doença do sono. De regresso a Lisboa fez ensaios clínicos no Hospital Colonial e estabeleceu um protocolo de doses terapêuticas para os doentes tratados com Atoxyl. O sucesso na utilização deste fármaco considerado pioneiro no tratamento da doença foi por ele apresentado no XV Congresso Internacional de Medicina, que se realizou em Lisboa, em 1906. Este foi citado por Robert Kock, Alphonse Laveran e Paul Elrich no ano seguinte, conferindo-lhe desde logo algum protagonismo no combate a esta doença tropical, que era responsável por grande número de óbitos na população nativa, comprometendo assim o projeto colonial europeu em África. 

Foi proposto como representante português na primeira reunião do Sleeping Sickness Committee, realizada em Londres, em 1907, bem como em todas as outras que se sucederam até 1928, inicialmente sob a presidência de Patrick Manson, da Escola de Medicina Tropical de Londres, e depois, pela Sociedade das Nações.

Participou sucessivamente em vários congressos como representante da escola portuguesa de medicina tropical, nomeadamente no Congresso Internacional de Higiene e Demografia (Berlim, 1907), nos Congressos Internacionais de Medicina (Budapeste, 1909; Londres, 1913), no Congresso de Agronomia Colonial e Tropical (Bruxelas, 1910), no Congresso de Medicina Tropical de África Ocidental (Luanda, 1923), nos Congressos Internacionais de Medicina Tropical (Roma, 1923; Cairo, 1928), na sessão do Instituto Colonial Internacional de Bruxelas (Roma, 1924), no Congresso do Royal Institute of Public Health of London (1925) e no Congresso Internacional de Higiene do Mediterrâneo (Marselha, 1932).

Em 1916. recebeu um prémio da Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL), da qual era o sócio nº 7 739, pela melhor memória publicada sobre o tratamento dos doentes afetados pelo Tripanossoma gambiense, a doença do sono, com o título “Estudo da Doença do Sôno”, apresentada sob a divisa Therapia Sterilisans Magna. Na SGL foi vogal da Comissão de Proteção dos Indígenas das Colónias Portuguesas (1930–1932), presidente desta comissão em 1932, vogal da direção da SGL, no ano seguinte e presidente da Comissão das Calamidades em 1936. Em 1941, foi nomeado para o quadro de honra.

Liderou ainda várias missões médicas organizadas pela EMT ou em representação do Estado português, entre as quais, para além das já referidas, a missão de estudo da doença do sono a Moçambique entre 1927 e 1928, na zona oeste da Companhia do Niassa. Destaca-se ainda o seu interesse pelo estudo das tripanossomíases animais, realizado em colaboração com os Serviços Veterinários de Lourenço Marques e Inhambane.

Foi autor da primeira proposta de reforma do ensino e da investigação na EMT em 1929, bem como da sua transição para Instituto, em 1935, que contribuíram para uma articulação entre o ensino teórico na metrópole e o conhecimento prático nas províncias ultramarinas, através de missões médicas periódicas para lá enviadas. 

Foi membro da Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa, tendo sido seu presidente entre 1915 e 1916; foi vogal do Conselho Superior das Colónias desde 1928 e seu vice-presidente até 1941. Foi diretor da EMT entre 1928 e 1935 e do Instituto de Medicina Tropical entre 1935 e 1936. Em 1946, foi designado chefe dos Serviços Bacteriológicos de Assistência aos Tuberculosos no Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, lugar que conservou até ao final da vida. Foi sócio do Clube Naval Militar e da Sociedade Portuguesa de Biologia, sócio honorário da Société de Pathologie Exotique de Paris desde 1908, membro nomeado da Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene of London desde 1904, membro nomeado do Royal Institute of Public Health of London desde 1925. 

Depois de ter atingido a idade da reforma, em 1936, terminou a carreira militar, no posto de Capitão de Mar e Guerra. Foi agraciado com a Ordem de Avis e com a Ordem de Cristo. 

Faleceu em Lisboa, na residência onde vivia, na Rua António Enes, n.º 16, com 81 anos de idade. Tem o seu nome associado à toponímia de Lisboa, a Travessa Aires Kopke, situada na urbanização do Neudel na Reboleira (Amadora). 

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Aires Kopke ilustra um percurso híbrido de expertise fruto do interesse que desde muito cedo cultivou pela medicina experimental. A experiência militar em África aliada à experiência adquirida junto de Câmara Pestana, enquanto pioneiro da microbiologia em Portugal, permitiram-lhe adquirir uma posição de relevo na história da medicina tropical durante os anos de ouro da Escola de Medicina Tropical de Lisboa, entre 1902 e 1935.

Terá sido determinante para a sua carreira de médico investigador a sua ligação permanente ao Instituto Bacteriológico de Lisboa/Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, mesmo depois de ter deixado a docência na EMT. 

Aires Kopke foi sem dúvida uma figura emblemática da medicina tropical portuguesa na primeira metade do século XX. Estabeleceu um programa de investigação inovador para a medicina portuguesa no domínio da parasitologia; detinha um treino experimental de excelência; estabeleceu uma rede de contactos cruciais para que Portugal acompanhasse os progressos da medicina tropical, uma área de especialização médica que estava a dar os primeiros passos para a sua consolidação na Europa; e colocou Portugal entre os países mais bem sucedidos no combate à doença do sono, uma das poucas doenças verdadeiramente tropicais, que comprometiam o ideário do império europeu. 

Nos vários curricula que publicou, Aires Kopke sempre se referiu ao pioneirismo que lhe era atribuído pelo sucesso que obteve na utilização do Atoxyl no controlo da doença do sono, tanto na escola alemã, como francesa. No entanto, com rigor, dever-se-ia associar a Kopke o nome de Harold Thomas, da Escola de Medicina Tropical de Liverpool, que, em 1905, testou a eficácia desta droga, na eliminação dos tripanossomas em humanos e em animais, ainda antes de Kopke.

Não obstante ter sido o representante da escola portuguesa de medicina tropical e, em alguns momentos, do Ministério das Colónias, pela autoridade científica que detinha na rede internacional de médicos tropicalistas, e pela forma como conduziu o programa de parasitologia da sua escola, não conseguiu deixar seguidores. Ao atingir o limite de idade, a escola viveu alguns constrangimentos na transição para Instituto de Medicina Tropical em 1935. 

Isabel Maria Amaral

Arquivos 

Lisboa, Igreja Paroquial de Santo André e Santa Marinha, Registo nº 9/1866.

Lisboa, Igreja Paroquial dos Anjos, Registo nº 89/1990.

Lisboa, Instituto de Higiene e Medicina Tropical, Coleção Aires Kopke.

Obras

Kopke, Aires. Os recentes progressos da medicina tropical. Lisboa: A. de Mendonça, 1915. 

Kopke, Aires. “Tratamento da Doença do Sôno.” Revista Médica de Angola n4 (número especial – Primeiro Congresso de Medicina Tropical de África) (1923): 51-112.

Kopke, Aires. A Conferência Internacional sobre a doença do sono. Lisboa: Casa Portuguesa, 1926. 

Kopke, Aires. “Relatório sobre a doença do sono em Moçambique.” Boletim Geral das Colónias 4 (37) (1928): 79-110.

Kopke, Aires. Estudos Executados na missão médica de Moçambique. Lisboa: Tipografia do Comércio, 1928.

Kopke, Aires. Investigations on Human Trypanosomiasis in Mozambique – report submitted to the 2nd International Conference on Sleeping Sickness (Paris, November 5th to 7th) 1928. Genebra: League of Nations, 1930.

Kopke, Aires. Investigations on human Trypanossomiasis in Mozambique. Genéve: World Health Organization, 1930.

Kopke, Aires. O ensino da medicina tropical na metrópole iniciado em 1902. Lisboa: Ministério das Colónias, 1934.

Kopke, Aires. Política Sanitária do Império. Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1936.

Kopke, Aires. A medicina portuguesa e a doença do sono. Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1946.

Bibliografia sobre o biografado

Abranches, Pedro. O Instituto de Higiene e Medicina Tropical: cem anos de história. Lisboa: Celom, 2002.

Amaral, Isabel. “Colonial Hospital of Lisbon: a new space of medicalisation in the scope of Portuguese tropical medicine (1902-1942).” Dynamis 28 (8) (2008): 301-328.

Azevedo, João Fraga de. “Professor Aires Kopke.” Anais do Instituto de Medicina Tropical, 4 (1947): 855-864.

Costa, Manuel Freitas e. Personalidades e grandes vultos da medicina portuguesa através dos séculos. Lisboa: Lidel, 2010.

“O Dr. Aires Kopke, homem de ciência, o bacteriólogo insigne faleceu a noite passada.” O Século 13 de Março de 1947.

Ribeiro, Pedro. “A emergência da medicina tropical em Portugal (1887-1902).” Dissertação de Mestrado. Lisboa: Universidade NOVA de Lisboa, 2002.

Costa, Augusto Pires Celestino da

Lisboa, 16 abril 1884 —  27 março 1956

Palavras-chave: Faculdade de Medicina de Lisboa, Histologia e Embriologia, “Geração de 1911”, Política científica.

Augusto Pires Celestino da Costa nasceu numa família de ascendência açoriana. O pai, Pedro Celestino da Costa, filho do Visconde de Noronha, era oficial do exército e sucumbiu às lutas que levaram à implantação da República, a 4 de Outubro de 1910; sua mãe, Úrsula Cândida de Canto e Castro faleceu quando Celestino da Costa tinha apenas três anos. Celestino da Costa foi criado por Joana Figueira Magalhães, mulher do pai em segundas núpcias. A perda deste e a morte precoce da mãe marcaram-no profundamente, mas foi o médico May Figueira − irmão da madrasta, médico de D. Luís I e professor na Escola Médico-cirúrgica de Lisboa− o seu verdadeiro tutor, que lhe despertou o interesse pelos estudos experimentais em medicina.  

No liceu interessou-se pela investigação histórica que lhe despertaria a curiosidade pela vida científica. Concluído o ensino secundário, decidiu inscrever-se na Escola Médico-cirúrgica de Lisboa. A sua atração pela medicina foi reforçada pela morte precoce de Luiz da Câmara Pestana, vítima da peste, que assim ganhou uma aura de heroicidade no combate à doença. Na Escola Médico-cirúrgica frequentou o laboratório de Marck Athias, que lhe incutiu o gosto pela medicina experimental e pela investigação, especialmente, em histologia. Foi aluno do primeiro curso de técnica histológica lecionado por Athias, sendo o seu trabalho sobre a histofisiologia das glândulas endócrinas (1904) considerado pioneiro em Portugal, por interpretar os resultados laboratoriais ao invés de fazer uso do saber livresco.

Em 1905, concluiu a licenciatura com a tese intitulada, Glândulas Supra-Renais e suas Homólogas, Estudo Citológico. Nos dois anos seguintes, apoiado financeiramente por May Figueira, partiu para a Alemanha com o objetivo de se especializar em histologia, seguindo os passos do tio, que se doutorara em Bruxelas e estagiara com o histologista Charles Robin, na Faculdade de Medicina de Paris, em 1855. Fez um estágio no laboratório de Rudolf Krause em Berlim, no Anatomisch-Biologische Institut, dirigido por Wilhelm Hertwig, citologista, embriologista e um dos pioneiros dos estudos sobre a hereditariedade. Findo o estágio fez várias viagens às principais capitais europeias, visitando vários laboratórios de investigação, o que lhe permitiu desenvolver uma visão médica, científica, cultural e artística mais universalista.

De regresso a Lisboa, ao mesmo tempo que trabalhou durante algum tempo no seu laboratório de análises clínicas na Avenida da Liberdade, deu início à investigação científica no laboratório de Marck Athias, no Instituto Real Bacteriológico Câmara Pestana, dirigido por Aníbal Bettencourt. Athias congregou a segunda geração de “médicos de laboratório”, constituída por Aníbal Bettencourt, Carlos França, Celestino da Costa, Sílvio Rebelo, Azevedo Neves e Henrique Parreira. 

Casou com Emília Hermengarda Croner Celestino da Costa, descendente de uma família de músicos. Deste casamento nasceram quatro filhos: Pedro, Jaime, Elisa e Augusto. Celestino da Costa deixou-se contagiar pela cultura musical da família Croner e escreveu, entre 1930 e 1931, uma série de 18 crónicas radiofónicas e fonográficas com críticas de emissões e discos, sob o pseudónimo de Sehr Musikalisch no semanário Kino, fundado pelo cineasta António Filipe Lopes Ribeiro, em 1930. 

Celestino da Costa viveu na transição da Monarquia para a República, período de transformações importantes no ensino superior e na construção do poder pela classe médica. A reforma republicana do ensino criou as Universidades de Lisboa e Porto, em 1911, tendo as escolas médico-cirúrgicas destas duas cidades sido convertidas em Faculdades de Medicina. Em 1910, com a morte de Miguel Bombarda, titular das cadeiras de Histologia e Fisiologia Geral na Escola Médico-cirúrgica de Lisboa, Celestino da Costa, então com 27 anos, ocupou a cátedra de Histologia, na agora Faculdade de Medicina de Lisboa, onde criou o Instituto de Histologia e Embriologia. 

Foi director técnico do Aquário Vasco da Gama (1913-1921), procurando transformá-lo num verdadeiro instituto de biologia marítima. Nos anos 30, no contexto de uma reorientação da medicina nacional para a investigação laboratorial, Celestino da Costa dedicou-se fundamentalmente à Faculdade de Medicina e à criação de uma escola de investigação que deixasse discípulos continuadores da sua obra. Em 1919, organizou o serviço de análises clínicas dos Hospitais Civis; em 1931, ocupou o cargo de secretário da Faculdade; em 1932, foi nomeado delegado dos professores catedráticos ao senado universitário e eleito vice-presidente da Junta Nacional de Educação, organismo destinado à definição de políticas científicas e ao financiamento da investigação; em 1935, foi nomeado diretor da Faculdade de Medicina. Em 1947, Celestino da Costa, como tantos outros professores universitários foi atingido pela vaga de saneamentos políticos organizada por Salazar e compulsivamente afastado da Faculdade durante alguns meses. A partir de 1950, Celestino da Costa viajou pelo Brasil e por Buenos Aires, onde realizou algumas conferências e cursos. Jubilou em 1954, ao completar 70 anos de idade. 

No contexto do Estado Novo, regime que não tinha o seu apoio, Celestino da Costa empenhou-se na definição e concretização de políticas de investigação, através da Junta Nacional de Educação e do Instituto para a Alta Cultura (IAC), cujos resultados se fizeram sentir em diversas disciplinas científicas, particularmente nas áreas biomédicas. Em 1932, foi eleito vice-presidente da Junta Nacional de Educação; entre 1934 e 1936 assumiu a presidência da comissão executiva e em 1936 passou a dirigir o IAC, com três grandes linhas de ação até 1942: a organização da investigação científica e do fomento cultural, o intercâmbio cultural universitário e a expansão da língua e da história portuguesas.

Celestino da Costa desempenhou vários cargos em sociedades científicas e profissionais. Foi membro fundador da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, em 1907, e da Socieade de Biologia, em 1920; vice-presidente da Association des Anatomistes, em 1927; presidente da secção da Société Anatomique de Paris, em 1933; sócio honorário da Société d’Endocrinologie, em 1939 e, presidente da sociedade portuguesa de endocrinologia, entre 1949 e 1955. Foi ainda presidente da Associação dos Médicos Portugueses, em 1920, presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, entre 1946 e 1949, e da secção de ciências da Academia das Ciências de Lisboa. Foi também fundador da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia e co-fundador da Sociedade Luso-Espanhola de Endocrinologia com Gregorio Marañon.

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De espírito liberal, movido por um ideal de apostolado científico, influenciado pelo pensamento de Santiago Rámon y Cajal, Celestino da Costa deu início a uma carreira de professor e investigador, que ficaria para a história da medicina portuguesa como um dos representantes mais destacados da “geração de 1911,” e arauto da modernização do sistema científico português, na primeira metade do século XX.

Na tradição inaugurada pela escola de investigação de Marck Athias de quem foi discípulo, Celestino da Costa estruturou um programa de investigação em três áreas fundamentais: a citologia, a embriologia e a histologia, reunindo, ao longo dos anos, diversos discípulos e colaboradores. Entre os mais próximos estão Pedro Roberto Chaves, Alfredo Magalhães Ramalho, Luiz Simões Raposo, Luís Hernâni Dias Amado, Sérgio de Carvalho, Manuel Xavier Morato, Francisco Geraldes Barba, Vasconcelos Frazão e José David-Ferreira. Destes, os quatro primeiros estiveram no centro de decisão do programa e investigação da sua escola, mas, por razões pessoais, políticas e institucionais, nenhum deles veio a suceder a Celestino da Costa, na cátedra de histologia e embriologia. Na segunda geração, iniciada com Xavier Morato, todos se dedicaram à histofisiologia, à carreira universitária e à carreira de investigação nos laboratórios da Faculdade de Medicina. No entanto a influência do grupo de investigação de Celestino da Costa não se restringiu apenas a esta instituição nem às áreas médicas. Por exemplo, o zoólogo Germano Sacarrão, Oliveira e Silva, Tavares de Sousa, António Madeira, Fernando Frade, Diogo Furtado e Rodolfo Iriarte Peixoto, após terem passado pelos laboratórios de Celestino da Costa, expandiram o seu programa de investigação da Faculdade de Medicina de Lisboa para a de Coimbra, e ainda para a Escola Superior de Medicina Veterinária, a Faculdade de Ciências de Lisboa e os Hospitais Civis. Para além destes seguidores mais próximos, integraram também o seu grupo de investigação, os docentes da Faculdade de Medicina, Jacinto Moniz de Bettencourt, Fernando Portela Gomes, Jaime Celestino da Costa, Carlos Alberto Vidal e João Bello de Moraes.  

A investigação realizada no âmbito do seu programa de trabalho foi desenvolvida, quer no Instituto de Histologia e Embriologia da Faculdade de Medicina, onde se sediou o Centro de Estudos Histológicos e Embriológicos, financiado pelo IAC, quer na secção de embriologia do Instituto Bento da Rocha Cabral, desde 1927. Para além da componente didática, nestes laboratórios estudava-se o sistema glandular dos pontos de vista da estrutura, funcionamento e desenvolvimento, bem como o estudo embriológico do desenvolvimento do simpático, aparelho suprarrenal e para-gânglios. A difusão deste programa de investigação fez-se através de conferências temáticas e de cursos de verão frequentados por um público diversificado, mas maioritariamente médico, tendo Celestino da Costa promovido o contacto estreito com biólogos, anatomistas, histologistas e embriologistas não só plano nacional, mas também europeu. 

Sendo a histofisiologia uma área recente na Europa da época e carecendo Portugal de uma tradição científica nesta área alicerçada na experimentação, o papel que a escola de Celestino da Costa teve na alteração da mentalidade científica vigente e nas práticas de investigação foi marcante. Para além de mentor, Celestino da Costa encorajou a produção científica dos discípulos e promoveu uma intervenção planeada em sociedades e atividades editoriais, fatores indispensáveis à obtenção dos recursos intelectuais, científicos e financeiros capazes de garantir a continuidade e afirmação desta escola de investigação nas primeiras décadas do século XX. 

A obra de Celestino da Costa compreende 384 publicações, que incluem artigos e biografias científicas, manuais de laboratório, livros de texto, relatórios institucionais e artigos de carácter mais generalista, cuja temática dominante é o ensino médico nas universidades. Para além dos 173 artigos científicos, merecem especial destaque os livros de texto, como sejam: Elementos de Embriologia publicado em 1933, traduzido em francês em 1945, com segunda edição, também traduzida para francês, em 1948, e, o Tratado Elementar de Histologia e Anatomia Microscópica publicado em 1944, com uma segunda edição, em 1949, e tradução em espanhol em 1953. 

No campo científico, Celestino da Costa voltou sempre às suas ideias iniciais para as completar e refazer: no campo da endocrinologia, começou com o estudo da glândula suprarrenal, em 1904, e com ela terminou, em 1956; no âmbito da embriologia, começou com a histogénese da suprarrenal no estudo dos para-gânglios e as suas relações com o simpático, em 1917, e fechou também o ciclo, poucas horas antes de falecer, ao apresentar no último congresso da Association des Anatomistes, realizado em Lisboa, em 1956, um trabalho de revisão sobre a embriologia do simpático. A investigação em histofisiologia das glândulas endócrinas (supra-renal, hipófise, tiroideia e pâncreas) viria a projetar-se além-fronteiras, nomeadamente no desenvolvimento da endocrinologia na Península Ibérica e em França, onde era considerado referência obrigatória.

Isabel Amaral

Arquivo 

David-Ferreira, José. Disponível online em http://jfdf.pt/
Coleção Celestino da Costa, Faculdade de Ciências Médicas, Lisboa.

Obras

Celestino da Costa, Augusto. “Sobre alguns Pormenores da Estructura da Cápsula Supra-Renal dos Mamíferos.” A Medicina Contemporânea 22 (1904): 100–101, 108–109, 115–116, 160–-162, 192–193, 200–202, 214–215.

O Ensino Médico em Lisboa – a Histologia e a Embriologia. Lisboa: Faculdade de Medicina de Lisboa, 1925.

  • Elementos de Embriologia. Lisboa: J. A. Rodrigues, 1933.
  • A Junta de Educação Nacional. Lisboa: Publicação da Sociedade de Estudos Pedagógicos, Série A2, 1934.

O Problema da Investigação Científica em Portugal. Lisboa: Instituto para a Alta Cultura, 1938. 

— “Conception unitaire des paraganglions.” Comptes Rendus de la Société de Biologie de Paris 132 (1) (1940): 103–108.

— e Roberto Chaves, Pedro. Tratado Elementar de Histologia e Anatomia Microscópica. Lisboa: Livraria Luso-Espanhola, 1944.

—“Fomento e Organização da Investigação Científica. O Caso Português.” Ciência e Cultura, 3, nº3 (1951): 194– 207.

— “L’embryologie du sympathique et de ses dérivés. ” Bulletin de l’Association des Anatomistes 88b (1956) : 3–61. 

  • Historia de uma Experiência (manuscrito). s.d.

Bibliografia sobre o biografado

Flores, António. “Elogio histórico do Doutor Celestino da Costa.” Boletim da Academia das Ciências de Lisboa 29 (1957): 161–190. 

Marañon, Gregorio. “Sessão de Homenagem à memória do Professor Doutor Augusto Pires Celestino da Costa.” Revista Iberica de Endocrinologia 20 (1957): 14–144.

Xavier Morato, Manuel. “O Professor Augusto Pires Celestino da Costa.” Jornal da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa. 125,6 (1961): 1–39.

Celestino da Costa, Jaime. Um Certo Conceito de Medicina. Lisboa: Gradiva, 2001, 17–21; 147–176.

Amaral, Isabel et al. “A Escola de Histofisiologia de Augusto Celestino da Costa (1911-1956).” Actas do 1º Congresso Luso-Brasileiro de História da Ciência e da Técnica (2001):  615–629.

Celestino da Costa, Jaime. A Geração Médica de 1911 – Origem, realização e destino. Lisboa: Faculdade de Medicina de Lisboa, 2003.

“Sessões de Homenagem no Centenário do Professor Augusto Celestino da Costa na Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa,” Jornal da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa 149, nº 6, (1985). 

Salazar, Abel. 96 Cartas a Celestino da Costa. Lisboa; Gradiva, 2006. 

David-Ferreira, José. “Augusto Celestino da Costa (1884-1956) – Professor, Scientist and Science Promoter,” International Journal of Developmental Biology 53 (2009), 1161–1164.

Amaral, Isabel. “Augusto Pires Celestino da Costa (1884-1956): Uma vida, uma obra.” Letras convida – Literatura, Cultura e Arte 3 (2011): 44–45.