Saldanha, Luiz Vieira Caldas

Lisboa, 16 dezembro 1937 — Cascais, 16 novembro 1997

Palavras-chave: Biologia marinha, oceanografia biológica, Laboratório Marítimo da Guia, divulgação científica.

Luiz Saldanha iniciou em Portugal, fna Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o ensino universitário das disciplinas de Oceanografia Biológica e Ictiologia, bem como de outras disciplinas no âmbito da Biologia Marinha. Foi responsável pela formação científica de numerosos biólogos marinhos que mais tarde vieram a integrar os corpos docentes e de investigação de inúmeras universidades e institutos de investigação portugueses. Foi o reformador da oceanografia portuguesa. Foi presidente do Instituto Nacional de Investigação das Pescas e mais tarde presidente do Instituto do Mar (IMAR). No exercício destas funções contribuiu de um modo decisivo para o desenvolvimento e coordenação das ciências e tecnologias do mar em Portugal. 

Em 1961, licenciou-se em Ciências Biológicas, na Faculdade de Ciências de Lisboa, tendo feito as últimas disciplinas da licenciatura durante o cumprimento de parte de um longo serviço militar (sete anos no total). Um ano depois de ter concluído a licenciatura, foi mobilizado para servir em África, sendo incorporado numa unidade de combate onde permaneceu dois anos e três meses na Zona de Intervenção do Norte de Angola (1962–1965). Durante a sua estada em África, teve a preocupação de recolher inúmeros exemplares que ele próprio preparou e que foram depositados nas coleções do Museu Bocage (atual Museu Nacional de História Natural e da Ciência). Por este motivo só pôde iniciar a sua carreira profissional aos 27 anos de idade, primeiro como naturalista do Museu Bocage (agosto de 1965) e depois como investigador do Museu e Laboratório Zoológico e Antropológico (Museu Bocage) da Faculdade de Ciências de Lisboa (julho de 1970 a dezembro de 1974).

A sua atividade de investigação como naturalista do Museu Bocage levou-o a efetuar numerosos estágios (até ao seu doutoramento) e trabalhos de investigação em diversas instituições estrangeiras.

Em novembro de 1974, doutorou-se em Ciências (especialidade de Ecologia Animal) na Universidade de Lisboa, tendo sido aprovado com Distinção e Louvor. Foi professor auxiliar da Faculdade de Ciências de Lisboa de janeiro de 1975 a outubro de 1978, altura em que tomou posse do lugar de professor extraordinário e professor catedrático da Faculdade de Ciências de Lisboa de 1 de dezembro de 1979 até à altura da[1]  sua morte.

O incêndio que lavrou na Faculdade de Ciências de Lisboa em março de 1978 destruiu completamente o seu laboratório, com todo o equipamento, material zoológico de estudo, manuscritos de trabalho em curso, apontamentos, livros e separatas assim como toda a coleção zoológica que havia recolhido durante a sua permanência em África.

Com a preocupação de transmitir os seus conhecimentos, tanto à comunidade académica como ao público em geral, realizou numerosas palestras, onde divulgou as investigações científicas que realizou incluindo os numerosos trabalhos no mar (desde 1957, a bordo de navios e/ou com escafandro autónomo) a sua participação em campanhas oceanográficas (tendo, desde 1969, utilizando regularmente os submersíveis franceses Archimède e Nautile) e o americano Alvin nos estudos de biologia abissal e fauna hidrotermal), sem nunca esquecer o lado humano e etnográfico dos vários povos que conheceu. Proferiu igualmente um grande número de conferências a convite em diversas instituições estrangeiras.

Essas palestras tiveram como consequência imediata que um grupo de alunos da Faculdade de Lisboa (ainda na Escola Politécnica) lhe tivessem pedido que criasse algumas cadeiras da área da Biologia e Ecologia Marinha. Foi assim que nasceu o ensino universitário das disciplinas de Oceanografia Biológica e de Ictiologia, bem como de outras unidades curriculares no âmbito da biologia marinha. Surge então, em 1975, a Secção de Biologia Marinha e Oceanografia Biológica do Departamento de Zoologia e Antropologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. 

No mesmo ano, Luiz Saldanha reabriu e reativou o Laboratório Marítimo da Guia em Cascais onde foi responsável pela formação científica de numerosos biólogos marinhos, que mais tarde integraram os corpos docentes e de investigação de inúmeras universidades e institutos de investigação portugueses. A sua atividade académica traduziu-se na regência de cadeiras na área da oceanografia biológica e da biologia marinha, na orientação de estágios pedagógicos e científicos, de doutoramentos e na participação em numerosos júris em universidades e instituições portuguesas e estrangeiras. Foi sobretudo por estes motivos que alguns autores se referem a Luiz Saldanha como o “reformador da oceanografia portuguesa”.

O seu interesse de naturalista levou-o a efetuar algumas viagens em diferentes áreas desérticas deslocando-se em caravanas tradicionais bem como recorrendo a diversos veículos terrestres. 

Em todas as suas deslocações, Luiz Saldanha efetuou numerosas fotografias e elaborou diários profusamente ilustrados com desenhos e aguarelas da sua autoria. Alguns dos seus livros de viagens bem como as suas aguarelas e fotografias foram objeto de diversas exposições em sua homenagem. 

Os seus interesses científicos situaram-se sobretudo no domínio da ecologia marinha e da oceanografia biológica, nomeadamente no respeitante à fauna e processos biológicos que ocorrem nas grandes profundidades marinhas, bem como nos ecossistemas litorais, tropicais e polares, o que levou a ser denominado de “Homem dos sete Mares”.

No seu percurso de cientista, foi responsável e colaborou em variados projetos de investigação muitos deles de caracter aplicado e com uma forte componente de conservação da Natureza.

As suas preocupações com a conservação da natureza já vinham de longa data, muito antes de ter sido presidente da Liga para a Proteção da Natureza. Em 1965, apresentou, juntamente com os seus colegas e amigos do Centro Português de Atividades Subaquáticas, um projeto ao então Ministério da Marinha para a criação de uma Reserva Submarina na Costa da Arrábida, precisamente para a área em que foi criado, 33 anos mais tarde, o Parque Marinho “Professor Luiz Saldanha”. Durante as missões efetuadas nos Açores e que foram alvo de uma série de documentários televisivos (O Mar e a Terra), diversas áreas foram por ele indicadas como zonas a integrar reservas marinhas. Atualmente, todas fazem parte de áreas protegidas do arquipélago dos Açores. 

Os trabalhos científicos resultantes de toda a sua atividade (mais de 130) têm sido frequentemente citados na bibliografia nacional e internacional.

Fez parte de diversas comissões de leitura de revistas científicas nacionais e internacionais. Participou em numerosos congressos internacionais, ora proferindo simples comunicações, ora conferências plenárias, bem como em reuniões internacionais científicas ou político-científicas (no âmbito do Internacional Council for the Exploration of the Sea, da European Science Foundation, da International Oceanographic Commission ou como presidente do Instituto Nacional de Investigação das Pescas). Participou ainda entre 1987 e 1991 num painel de avaliação, no âmbito do programa STD-CEE[2] , de projetos de investigação a decorrerem na Ásia (Malásia, Tailândia, Vietname e China).

O seu entusiasmo pela investigação em ciências do mar mobilizou praticamente todos os investigadores a nível nacional. Em 3 de outubro de 1991, criou o IMAR, do qual foi o primeiro presidente e do qual a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa foi associada e instituição fundadora. Quando faleceu, Luiz Saldanha era presidente da Assembleia Geral deste instituto.

Alguns investigadores nacionais e estrangeiros dedicaram-lhe um número considerável de espécies (nomenclatura biológica) mostrando assim o reconhecimento pela sua obra e cultura científica tendo também sido alvo de outras homenagens tanto em vida como após o seu falecimento.

Pedro Ré e Armando J. Almeida
Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

Obras

Saldanha, Luiz. “Estudo do povoamento dos horizontes superiores da rocha litoral da costa da Arrábida (Portugal).”  Arquivos do Museu Bocage 2(5) (1974): 38-xx.

Saldanha, Luiz. Fauna Submarina Atlântica – Portugal continental, Açores, Madeira. Mem Martins: Europa América, 1980.

Saldanha, Luiz e N. R. Merrett. “A new species of the deep-sea eel genus Ilyophis  Gilbert (Synaphobranchidae) from the eastern North Atlantic, with comments on its ecology and intrafamilial relationships.” Journal of Fish Biology 21 (1982): 623–636.

Quéro, J. C., J. C. Hureau, A. Post e L. Saldanha, L., ed. Check-list of the Fishes of the eastern tropical Atlantic(CLOFETA)Lisboa e Paris: Junta Nacional de Investigação Cientifica e Tecnológica, European Ichthyological Union,  e United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, 1990. 3 vols.

Carpine-Lancre, Jacqueline e Luiz Saldanha. Souverains océanographes.  Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1992.

Saldanha, Luiz., Pedro Ré e António M. Frias Martins, eds. Centenaire de la dernière campagne océanographique du Prince Albert de Monaco aux Açores à bord de l’Hirondelle. S. l.: Açoreana, 1992.

Piepenburg, D., N. V. Chernova, C. F. von Dorrien, J. Gutt, J., A. V. Neyelov, E. Rachor, E., L. Saldanha e M. K. Schmid. “Megabenthic communities in the waters around Svalbard.” Polar Biology 16 (1996): 431–446.

Van Dover, C., D. Desbruyères, M. Segonzac, T. Comtet, L. Saldanha, A. Fiala-Médioni e C. Langmuir. “Biology of the Lucky Strike hydrothermal field.” Deep-Sea Research I 43 (9) (1996):1509–1529

Saldanha, L., M. Biscoito e D. Desbruyères.. “The Azorean deep-sea hydrothermal ecosystem: Its recent discovery”, . In Deep-sea and extreme shallow-water habits: affinities and adaptations, ed. F. Uiblein, J. Ott e  M. Stachowitsch, 383-388. Viena: Austrian Academy of Sciences Press, 1996.

Saldanha, Luiz e Pedro Ré, ed. . One hundred years of Portuguese Oceanography. In the footsteps of King Carlos de Bragança. Lisboa: Publicações Avulsas do Museu Bocage (nova série), 1997.

Bibliografia sobre o biografado

Biscoito, Manuel, Armand J. Almeida e Pedro Ré, ed. “A tribute to Luiz Saldanha.” Boletim do Museu Municipal do Funchal 6 (número especial evocativo da vida e obra do Prof. Luiz Saldanha, 1937-1997) (2001-2003)

Almeida, Armando J. e Pilar Pereira. Luiz Saldanha e o Laboratório Marítimo da Guia (1975-1997). Ensino e Investigação. Museu Bocage. Lisboa: Museu Nacional de História Natural.