Santucci, Bernardo

Cortona, Grão-ducado da Toscana, ca. 1701 — 1764

Palavras-chave: anatomia, medicina, Hospital Real de Todos os Santos, médico, anatomista.

Bernardo Santucci notabilizou-se pela sua atividade de médico e anatomista em Itália e em Portugal no reinado de D. João V. Foi também o autor da obra A anatomia do corpo humano (1739) dedicada aos cirurgiões aprendizes que frequentavam o Hospital Real de Todos os Santos.

Embora sejam relativamente escassas as informações biográficas sobre Bernardo Santucci, sabe-se que os seus pais foram Carlos Santucci e Maria Galeazze, tendo nascido por volta de 1701 em Cortona, no grão-ducado da Toscana. Obteve o título de doutor em Medicina na Universidade de Bolonha, indo depois para Florença onde cultivou o estudo da anatomia no Hospital de Santa Maria Nuova. O seu desempenho como médico e anatomista motivou a sua nomeação como médico da princesa Violante Beatriz da Baviera. Munido de cartas de recomendação da princesa, veio para Lisboa em 1730. Neste mesmo ano o rei D. João V nomeou-o seu anatómico e dois anos mais tarde lente de anatomia no Hospital Real de Todos os Santos. Concomitantemente decretou a aposentação de Monravá e Roca, seu antecessor no cargo desde 1721. O estudo e a prática regular da anatomia passou a ser obrigatória na formação dos cirurgiões.

A permanência de Bernardo Santucci em Portugal não foi destituída de controvérsia. A sua obra A anatomia do corpo humano dada a lume em 1739 foi prontamente atacada por Monravá e Roca no manuscrito Desterro crítico das falsas anatomias que hum anatómico novo deu à luz em Lisboa, neste presente anno de 1739. Neste mesmo ano o exercício de dissecação de cadáveres humanos no Hospital Real de Todos os Santos viria a ser suspenso por decreto real. Desconhecem-se as razões precisas que motivaram esta alteração, tendo sido apontada a influência  junto ao trono das críticas de Monravá e Roca a Santucci e o apoio com que contou por parte de um grande número de médicos cirurgiões que desconheciam os fundamentos e a utilidade da anatomia e que persuadiram o rei de que as dissecações anatómicas determinavam a morte daqueles que a ela se entregavam. Foi também conjecturada a influência dos jesuítas no processo. Apesar do desagrado causado pela proibição das dissecações anatómicas, Santucci continuou a reger Anatomia durante uns sete ou oito anos, voltando a Itália só em 1747. Regressaria a Portugal em 1751, altura em que D. José o contemplou com uma tensa de 30$000 reis anuais e com o grau de cavaleiro da Ordem de São Tiago. Pouco tempo depois, retorna definitivamente a Itália onde irá falecer no ano de 1764. 

A anatomia do corpo humano de Santucci constitui uma obra ímpar na história editorial portuguesa já que, até finais do século XVIII, foi o único compêndio de anatomia publicado com estampas ilustrativas. No entanto, um estudo de Hermano Neves revelaria que as gravuras anatómicas executadas pelo artista francês Michel le Bouteaux eram na sua maioria cópias adaptadas da obra Corporis humani anatomia (1707) do autor flamengo Philip Verheyen. Identificou ainda algumas cópias de outras obras anatómicas. Deve, no entanto, salientar-se que o processo de apropriação de imagens era uma prática comum ainda no século XVIII. A mesma permitia reduzir os custos associados à produção de obras com imagens e colmatar as lacunas de dissecações necessárias à visualização das várias formas e órgãos do corpo humano. Embora no Hospital de Todos os Santos se procedesse a dissecações até à publicação da obra de Santucci, estas seriam muito provavelmente executadas num número limitado de cadáveres. No entanto, é no texto da obra de Santucci que se encontra a sua maior debilidade uma vez ser muito próximo, para não dizermos no seguimento da análise de Hermano Neves, praticamente uma cópia não reconhecida da Anatomia corporis humani de Verheyen. Contudo, este aspecto não diminui o valor pedagógico da obra de Santucci no Portugal de setecentos. É ainda de assinalar que entre os alunos de Santucci contam-se dois que foram lentes de anatomia na Universidade de Coimbra, Caetano Alberto e Santos Gato e outros dois alunos que foram professores de cirurgia no Hospital Real de Todos os Santos, António Gomes Lourenço e Pedro de Arvellos Espinola.

Palmira Fontes da Costa

Obras

Bernardo Santucci. Anatomia do Corpo Humano. Lisboa: Oficina de António Pedroso Galran, 1739.

Bibliografia sobre o biografado

Lemos, Maximiano. História da Medicina em Portugal. Doutrinas e Instituições, vol. II: 68–72. Lisboa: Publicações D. Quixote, 1991 [1889].

Neves, Hermano. “O livro de Bernardo Santucci e a ‘Anatomia Corporis Humani’ de Verheyen. Contribuição para o estudo da obra do anatómico cortonense.” Arquivo de anatomia e antropologia 10 (1926): 315–346.

Serrano. Tratado de osteologia humana, Tomo II: vii–lxxxix. Lisboa: Typografia da Academia Real das Sciencias, 1897.

Santos, Sebastião Costa. A escola de cirurgia do Hospital Real de Todos os Santos, 93–143. Lisboa: Faculdade de Medicina de Lisboa, 1925.

Jorge, Ricardo de Almeida

Porto, 9 maio 1858 – Lisboa, 29 julho 1939

Palavras-chave: médico, professor, higienismo, epidemias.

Filho de um ferreiro na Rua do Almada, Ricardo Jorge entrou aos oito anos para o Colégio da Lapa, onde foi aluno de Ramalho Ortigão na disciplina de francês, e de Manuel Rodrigues da Silva Pinto, em português. Frequentou o Liceu de Santa Catarina e tornou-se amigo de Júlio de Matos. Com desasseis anos matriculou-se no curso de medicina da Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Foi aluno entre 1874 e 1879 e conquistou vários prémios académicos. A sua dissertação de licenciatura intitulou-se, Um ensaio sobre o nervosismo. Em 1880 competiu pelo lugar de substituto da secção cirúrgica da mesma Escola com a apresentação do trabalho Localizações Motrizes no Cérebro. Depois de aprovado iniciou a sua carreira de professor na escola onde se formou, leccionando as cadeiras de anatomia, histologia e fisiologia experimental, ao mesmo tempo que se dedicava à prática clínica. Desenvolveu também estudos sobre o diagnóstico e tratamento das doenças do sistema nervoso pela hidroterapia, eletricidade e ginástica, os quais colocou em prática, ao fundar, em colaboração com Augusto Henrique de Almeida Brandão, o Instituto Hidroterápico e Eletroterápico, nas dependências do Grande Hotel do Porto, em 1881.

Ao longo da sua carreira participou em vários congressos internacionais e realizou viagens de estudo ao estrangeiro, que designava, “as suas digressões sanitárias”. Em 1883 deslocou-se a Estrasburgo, onde visitou os laboratórios de anatomia patológica de Recklinghausen e Waldeyer, e depois a Paris, onde conheceu o neurologista Charcot e assistiu às suas lições. De volta ao Porto, leccionou a cadeira de Anatomia dos Centros Nervosos e criou o o Laboratório de Microscopia e Fisiologia do Porto. 

Casou com Leonor Maria dos Santos e teve dois filhos: Artur Ricardo Jorge, nascido em 1886, médico e professor de Botânica e Zoologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e Ministro da Instrução em 1926; e Ricardo Jorge Júnior, nascido 1888, casado com Maria Isabel Ortigão Ramos, com dois filhos.

Na sequência das polémicas levantadas com a instalação dos cemitérios no Porto, em 1884, Ricardo Jorge promoveu quatro conferências dedicadas aos temas da “Higiene em Portugal”, “A Evolução das Sepulturas”, “Inumação e Cemitérios” e “Cremação”, com as quais demonstrou que os cemitérios não colocavam em risco a saúde pública. Estas conferências foram publicadas no livro Higiene Social Aplicada à Nação Portuguesa, amplamente divulgado, e no qual o seu autor concluiu, depois de estudar as condições de sanidade locais, que era absolutamente necessária a intervenção do Estado para a criação de um sistema de saneamento. O rigor do seu estudo e o nível das propostas apresentadas fizeram de Ricardo Jorge um dos mais prestigiados higienistas portugueses, com larga influência nas políticas de saúde em Portugal.

A sua vasta obra, que abrange toda a sua carreira e tem até algumas publicações póstumas, demonstra a variedade dos interesses de Ricardo Jorge. Incidindo maioritariamente sobre as especialidades da Higiene e Epidemiologia, e também sobre Medicina Geral, a lista de mais de sessenta títulos inclui mais de uma dezena de obras literárias e outro tanto de História, além de biografias de figuras ilustres da medicina e mesmo das artes e da literatura. Escreveu ainda sobre Demografia, sobre as termas do Gerês e colaborou regularmente nas revistas Clínica, higiene e hidrologia, dirigida por Armando Narciso (1935-1957), Revista Científica, dirigida por Teófilo Braga e Júlio de Matos (1882-1982), A Medicina Contemporânea (1882-1974), Lisboa Médica, entre outras. Publicou também  no estrangeiro e em várias revistas internacionais, como o Bulletin Mensuel de l’Office International d’Hygiène Publique.

Ricardo Jorge interessou-se pelo termalismo e hidrologia. Em 1886, o químico Adolfo de Sousa Reis pediu-lhe para comentar a sua análise às águas das Caldas do Gerês. A sua apreciação foi tão favorável que Ricardo Jorge decidiu, junto com o seu colega Marcelino Dias, o referido químico Sousa Reis e o capitalista Manuel Joaquim Gomes, pedir a concessão destas termas. Em 1888 o Governo adjudicou-lhes o contrato de exploração por cinquenta anos. Ricardo Jorge exerceu o cargo de diretor clínico da Companhia das Caldas do Gerês entre 1889 e 1892, mas a companhia abriu falência em 1893. 

Pouco depois das conferências sobre higiene, Ricardo Jorge foi convidado pela Câmara Municipal do Porto para tomar parte de uma comissão de estudo sobre as condições sanitárias da cidade, no âmbito da qual produziu um inquérito sobre as condições de salubridade urbana. O respetivo relatório final, intitulado Saneamento do Porto, foi publicado em 1888. Em 1891 foi nomeado médico municipal do Porto, cargo que desempenhou até 1899. No ano seguinte foi convidado também pela Câmara Municipal para os cargos de Diretor dos Serviços Municipais de Saúde e Higiene da Cidade do Porto e do Laboratório Municipal de Bacteriologia. No âmbito destas atividades publicou a série do respetivo Anuário do serviço municipal de saúde e higiene da cidade do Porto e um Boletim Mensal de Estatística Sanitária do Porto.

Em 1895 foi nomeado professor titular da cadeira de Higiene e Medicina Legal da Escola Médico-Cirúrgica do Porto.

Em 1899 publicou uma das obras fundamentais para a compreensão dos problemas sanitários da cidade: Demografia e Higiene da Cidade do Porto: clima, população, mortalidade. Nesta, o autor descreveu a história da cidade e aprofundou a questão das ilhas como causa para a proliferação de doenças e epidemias, com especial destaque para a tuberculose. O levantamento das condições de vida e higiene das populações que residiam nestes bairros levaram-no a apelidar o Porto de “cidade cemiterial”, devido às péssimas condições sanitárias que ele encontrou. Este seu trabalho, juntamente com os de Arantes Pereira e do Conde de Samodães, provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, ajudaram a influenciar a Rainha D. Amélia na criação, nesse mesmo ano, da Assistência Nacional aos Tuberculosos e à construção de sanatórios para os doentes.

Em junho de 1899 manifestaram-se vários casos de peste bubónica no Porto, diagnosticados por si, enquanto  médico municipal e diretor do posto de desinfeção pública do Porto. Foram encomendados ao Instituto Pasteur de Paris duzentos tubos do soro Yersin, que tinha sido desenvolvido por Alexandre Emile Jean Yersin, um médico Suiço que tinha isolado o bacilo da peste bubónica em 1894, em conjunto com Kitasato Shibasaburō, após investigação sobre esta doença na China. Durante a epidemia de peste em Macau em 1898, o soro já fora testado. No entanto, a sua eficácia dependia da rapidez da aplicação, logo nos primeiros dias da doença, e funcionava melhor ainda como preventivo, como foi usado pelos médicos franceses que se deslocaram ao Porto para estudar a evolução da epidemia: Albert Calmette, delegado do Instituto Pasteur de Paris, e  Alessandro Salimbeni, preparador ajudante  de Émile Roux.

Apesar da confiança dos médicos franceses neste soro, Ricardo Jorge conhecia bem as condições em que a doença se desenvolvia e os grupos mais afetados: “as classes trabalhadoras, miseráveis e mais imundas, ou nos seus hábitos ou na casa em que residem”. Por esse motivo, foram imediatamente impostas medidas sanitárias rigorosas obrigando à higiene pessoal (com a construção de balneários públicos) e para o combate aos agentes transmissores da doença: os ratos e as pulgas. Ao mesmo tempo criou-se um cordão sanitário à volta do Porto, defendido pelo exército, suprimiram-se todos os comboios de recreio, todas as feiras, romarias e outros ajuntamentos, e obrigou-se a inspeção médica todos os passageiros e funcionários dos comboios, que tinham de cumprir uma quarentena de nove dias. 

O Porto sempre reagiu contra as medidas restritivas impostas pelo poder central. Em todos os surtos epidémicos, o isolamento da cidade e as proibições de feiras e mercados foram contestados pelos comerciantes, pelos industriais e pela população como extremamente prejudiciais e que colocava em causa a sobrevivência não só do comércio, mas das próprias pessoas. Assim, a posição oficial das elites do Porto sempre foi de negação do contágio. De facto, com as medidas radicais postas em prática por Ricardo Jorge logo nos primeiros dias do surto de peste bubónica, a doença não se espalhou e teve uma mortalidade reduzida, o que contribuiu para as afirmações locais de que não se tratava de uma epidemia. 

No entanto, os banhos obrigatórios, as casas e roupas queimadas quando os médicos e os subdelegados de saúde realizavam visitas domiciliárias, acompanhados pela polícia, e encontrava um doente de peste, e o isolamento forçados dos doentes e de todos os seus familiares e vizinhos em hospitais especiais, todas estas ações eram motivo de grande revolta popular, que provocaram cenas de autêntica guerra civil, com bombas a rebentar onde? e casas de médicos destruídas. Ricardo Jorge foi obrigado a ter proteção policial e chegou a sofrer ataques na sua casa. Nesse período Jorge recebeu a solidariedade dos médicos do Porto pelas circunstâncias difíceis que estava a atravessar no cumprimento das suas obrigações. As medidas sanitárias foram reforçadas e o cordão alargado, o que conduziu à demissão do presidente da Câmara Municipal do Porto, Lima Júnior, por considerar que as determinações impostas pela Junta Consultiva da Saúde Pública provarem que existia má vontade contra a cidade.

Ricardo Jorge ainda se manteve no seu posto mais de um mês, até queapresentou a sua demissão e mudou-se para Lisboa em 15 de outubro de 1899. Câmara Pestana ainda continuou no Porto a estudar a peste bubónica e acabou por ser infetado e morrer no dia 15 de novembro desse ano. Mas o combate contra a disseminação da epidemia estava ganho e a doença foi considerada extinta em janeiro de 1900. 

Em Lisboa, Ricardo Jorge foi nomeado inspetor-geral dos Serviços Sanitários do Reino e lente de higiene na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, além de membro do Conselho Superior de Higiene e Saúde. Começou a trabalhar na organização geral dos Serviços de Saúde Pública (Decreto de 28 de dezembro de 1899, sob o Governo de José Luciano de Castro) e no Regulamento Geral dos Serviços de Saúde e Beneficência Pública, de 24 de dezembro de 1901, sob o Governo de Hintze Ribeiro. 

O seu trabalho como docente, investigador e mentor da nova legislação deu origem a uma profunda reforma na saúde pública em Portugal, inspirada no modelo inglês, e à criação da Direção-Geral de Saúde e Beneficência Pública (Decreto de 9 de outubro de 1899) e do Instituto Central de Higiene, que iria desempenhar um importante papel na educação, formação e investigação em saúde pública. Em 1929, pelo Decreto nº 16861, de 11 de maio, assinado pelo presidente Carmona e pelo Ministro da Instrução Pública Cordeiro Ramos, ao Instituto Central de Higiene é dado o nome do Dr. Ricardo Jorge, que o tinha dirigido entre 1902 e 1926. Neste instituto se ministravamos cursos de Medicina Sanitária e Engenharia Sanitária, os quais forneciam a habilitação necessária para o exercício dos médicos e engenheiros do corpo de saúde pública. O primeiro habilitava para o cargo de delegado de saúde, cujas funções, a nível distrital, incluíam a direção técnica dos serviços sanitários, o licenciamento dos estabelecimentos, a fiscalização da higiene industrial e do trabalho operário ou agrícola, a higiene infantil e as condições sanitárias da população em geral.

As suas preocupações sanitárias levaram-no também ao estudo sistemático sobre a epidemiologia da malária em Portugal, uma doença que assolava as populações há vários séculos, especialmente nas zonas ligadas à cultura do arroz. O resultado do seu estudo originou a publicação do relatório Epidemiologia. Sobre o estudo e o combate do sezonismo em Portugal, em 1903, a criação de estações anti-sezonáticas a partir de  1911, e inspirou vários outros estudos desenvolvidos nas décadas seguintes no sentido da erradicação da doença.

Ricardo Jorge participou no Congresso Internacional de Medicina de 1906, no qual presidiu à Secção de Higiene e Epidemiologia. Colaborou também na reforma do ensino médico de 1911, e em 1912 iniciou os seus trabalhos no Office Internacional ded’Hygiène Publique , em Paris. Foi responsável pela publicação dos Arquivos do Instituto Cental de Higiene (1913-1938) e das Estatística do movimento fisiológico da população de Portugal, publicadas anualmente pela secção de demografia e estatística do mesmo instituto entre 1914 e 1925. Pertenceu ao primeiro Ministério da Instrução Pública em 1913, fazendo parte do Conselho de Instrução Pública do governo de Afonso Costa, que durou de 9 de janeiro de 1913 a 9 de fevereiro de 1914. Entre 1914 e 1915 presidiu à Sociedade das Ciências Médicas. Nos anos seguintes visitou formações sanitárias no teatro de guerra, em França. 

Em dezembro de 1917 declarou-se uma epidemia de tifo exantemático no Porto. na qualidade de Diretor-Geral da Saúde deslocou-se a essa cidade para estudar o problema e colocar em prática as primeiras medidas sanitárias., logo em janeiro de 1918,  Como resultado do seu inquérito local, elaborou um relatório que foi apresentado no Conselho Superior de Higiene. O seu plano sanitário foi colocado em prática por  Augusto de Almeida Monjardino, nomeado comissário do governo na cidade do Porto para combate à epidemia, no dia 23 de fevereiro de 1918, e depois por António de Almeida Garrett, que o sucedeu no cargo.  e desde 18 de maio de 1918 dirigiu o combate à epidemia de tifo exantemático que se prolongou até março do ano seguinte. Em simultâneo o comissário do governo teve de lidar com a epidemia de gripe pneumónica que, desde agosto desse ano, e com maior intensidade em outubro, provocou em Portugal um número elevados de mortos. 

Se as medidas sanitárias tomadas para evitar a propagação do tifo exantemático foram muito semelhantes às da peste bubónica de 1899, pelo contrário, no contexto da gripe, a sua propagação pelo ar tornou desnecessárias medidas restritivas à circulação de pessoas. Aconselhou-se apenas evitar a permanência em lugares fechados onde houvesse grandes aglomerações, arejamento das habitações e lugares de trabalho, o uso de preparações desinfetantes das vias nasais e garganta, e tornou-se obrigatória a declaração por escrito de todos os casos. Mais tarde as feiras e mercados foram proibidos e as escolas só iniciaram o ano letivo no final do ano. Em simultâneo, entre junho e dezembro de 1918 verificou-se uma epidemia de varíola que obrigou à vacinação em todo o país.

estanho decurso desta crise sanitária, Ricardo Jorge não esqueceu o lado social da questão, preocupando-se em angariar donativos para as vítimas da gripe e seus familiares, uma função que era tradicionalmente exercida pelos particulares e só muito mais tarde, já nos finais do Estado Novo, passou a ser assumida.

Na sequência destas epidemias, Ricardo Jorge participou em conferências internacionais, como a da Comissão Sanitária dos Países Aliados, que se realizou em Paris em abril de 1918, e também, no ano seguinte em março, apresentou à mesma comissão um relatório sobre a gripe; em outubro de 1919 apresentou uma comunicação ao Comité Internacional de Higiene Pública sobre o tifo exantemático no Porto, na qual reafirmou que o piolho, agente responsável pela transmissão da doença, era ainda muito frequente nas classes mais pobres, também as mais afetadas.

Em 1926 Ricardo Jorge foi incumbido de reformar o seu regulamento de saúde pública de 1901. Igualmente, na sua qualidade de diretor-geral da Saúde, foi o responsável, em 1927, pela proibição da Coca-Cola, depois de tomar conhecimento do slogan publicitário da bebida criada por Fernando Pessoa: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Só no dia 4 de julho de 1977a Coca-Cola voltou a entrar oficialmente em Portugal.

Em 1929 foi nomeado presidente do conselho técnico superior de higiene, da Organização de Saúde, da Sociedade das Nações. Nesse mesmo ano viajou até ao Brasil como representante do Office International d’Hygiène Publique para participar nos festejos do centenário da Academia Nacional de Medicina, no Rio de Janeiro, e para colaborar com o Instituto Oswaldo Cruz no combate à epidemia de febre-amarela que grassava  nessa cidade. 

Mesmo nos últimos anos da sua vida continuava a investigar e a publicar. Participou pela última vez numa reunião do Office Internacional d’Hygiène Publique, três meses antes de falecer.

Maria Antónia Pires de Almeida
CIES, ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa

Arquivo

Lisboa, Instituto Ricardo Jorge, Biblioteca Digital, Bibliografia Ricardiana.

Obras 

Jorge, Ricardo. Hygiene social applicada à Nação Portuguesa: conferências feitas no Porto. Porto: Civilização, 1885. 

Jorge, Ricardo. Saneamento do Porto: relatório apresentado à Commissão Municipal de Saneamento. Porto: Typ. de António José da Silva Teixeira, 1888. 

Jorge, Ricardo. O Gerez thermal: historia, hydrologia, medicina. Porto: Typ. Occidental, 1888. 

Jorge, Ricardo. Demographia e hygiene da cidade do Porto: clima-população-mortalidade, Separata do Anuário do serviço municipal de saúde e higiene da cidade do Porto. Porto: Repartição de Saúde e Hygiene da Câmara, 1899. 

Jorge, Ricardo. A peste bubónica no Porto, 1899. Seu descobrimento. Primeiros trabalhos, Separata do Anuário do serviço municipal de saúde e higiene da cidade do Porto. Porto: Repartição de Saúde e Hygiene da Câmara, 1899. 

Jorge, Ricardo. La malaria au Portugal: Premiers résultats d’une enquête. Lisboa: Inspeção Geral dos Serv. Sanitários, 1906. 

Jorge, Ricardo. Tifo exantemático ou tabardilho: relatórios apresentados ao Conselho Superior de Higiene (1918).

Jorge, Ricardo. La grippe: rapport préliminaire présenté à la commission sanitaire des pays alliés dans sa session de mars 1919. Lisboa: Imp. National, 1919. 

Jorge, Ricardo. Alastrim et variole: vaccine, encéphalites postvaccinales. Lisboa: Instituto Central de Higiene, 1927. 

Jorge, Ricardo. La fièvre jaune et la campagne sanitaire a Rio de Janeiro: 1928-1929 (1930).

Bibliografia sobre o biografado

Almeida, Maria Antónia Pires de. Saúde pública e higiene na imprensa diária em anos de epidemias, 1854-1918. Lisboa: Colibri, 2013.

Amaral, Isabel, Ana Carneiro, Teresa Salomé Mota, Victor Machado Borges, José Luís Doria (coords.). Percursos da Saúde Pública nos séculos XIX e XX – a propósito de Ricardo Jorge. Lisboa: CELOM – Centro Editor Livreiro da Ordem dos Médicos, 2010.

Coelho, Eduardo. Ricardo Jorge, o médico e o humanista (Lisboa: Livr. Luso-Espanhola Lda, 1961).

Correia, Fernando da Silva (compil., anot. e pref.). A vida, a obra, o estilo, as lições e o prestígio de Ricardo Jorge. Lisboa: Inst. Superior de Higiene Dr. Ricardo Jorge, 1960. 

Sobral, José Manuel, Maria Luísa Lima, Paula Castro e Paulo Silveira e Sousa (orgs.). A Pandemia Esquecida. Olhares comparados sobre a Pneumónica 1918-1919. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2009.

Martins, José Tomás de Sousa

Alhandra, 7 março 1843 – 18 agosto 1897

Palavras-chave: médico, sanatório, professor.

Filho de Caetano Martins, carpinteiro, e de Maria das Dores de Sousa Pereira. Completou o ensino primário em Alhandra. O pai faleceu quando ele tinha sete anos. Com doze foi para Lisboa, para casa do seu tio materno, Lázaro Joaquim de Sousa Pereira, farmacêutico e proprietário da Farmácia Ultramarina, na Rua de São Paulo. 

Desde 1 de abril de 1856 foi praticante na farmácia do seu tio, ao mesmo tempo que frequentava o Liceu Nacional de Lisboa, na área de Humanidades. Matriculou-se então na Escola Politécnica de Lisboa, onde completou em 1861 os estudos preparatórios em Ciências Naturais com excelente aproveitamento, como o comprovam os prémios pecuniários que recebeu nas cadeiras que frequentou. Ingressou nesse ano no curso de Medicina da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. A prática de oito anos de Farmácia e o facto de ter completado os 21 anos de idade permitiram-lhe propor-se a exame na mesma Escola e no dia 11 de julho de 1864 foi aprovado e ficou habilitado como Farmacêutico. Dois dias depois foi eleito sócio efetivo da Sociedade Farmacêutica Lusitana, por proposta de José Tedeschi, assumindo em pouco tempo um papel relevante na vida da instituição, e elaborando ao longo da década seguinte múltiplos relatórios e pareceres. 

Publicou vários artigos no periódico Jornal da Sociedade Farmacêutica, órgão oficial daquela associação. Foi durante mais de uma década vogal da Comissão de Saúde Pública da Sociedade, tendo um papel relevante na regulação de diversas práticas farmacêuticas importantes na área da saúde pública. 

No dia 16 de julho de 1866 concluiu o curso de Medicina e Cirurgia com a dissertação intitulada O Pneumogástrico Preside à Tonicidade da Fibra Muscular do Coração, iniciando uma carreira ligada ao ensino e investigação sobre a vertente clínica da medicina.

Em 1867 tornou-se sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa e foi eleito membro efetivo da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, da qual foi vice-presidente em 1875, vogal da Comissão de Higiene em 1890 e presidente em 1897. Em 6 de agosto de 1868 realizou prova de concurso público para demonstrador da Secção Médica da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, com a dissertação A Patogenia Vista à Luz dos Actos Reflexos, sendo nomeado para o respetivo lugar por decreto de 27 do mesmo mês, e depois promovido a lente substituto por decreto de 9 de fevereiro de 1872. 

Em 22 de outubro de 1874 foi nomeado, por concurso, médico extraordinário do Hospital de São José, onde a sua atividade, e em particular a importante ação filantrópica que exercia a favor dos doentes mais pobres, afirmou-o como um dos médicos mais prestigiados de Portugal. 

A 25 de julho de 1883 foi promovido a médico ordinário do banco do mesmo hospital, lugar que ocupou a partir de 1885. No dia 20 de outubro de 1884 assumiu a direção da enfermaria de S. Miguel, do Hospital de S. José, lugar para o qual foi nomeado oficialmente por decreto de 17 de setembro de 1885. 

Como médico e professor, dava grande importância à componente psicológica e de relação humana na sua ação médica, além de praticar atos de caridade que foram reconhecidos no seu tempo e permanecem até ao presente como uma das componentes mais destacadas da sua personalidade. Estas suas caraterísticas, a que se soma o facto de ter sido adepto do espiritismo, tão em voga na sua época, criaram uma associação entre Sousa Martins e algumas curas milagrosas que se realizaram em seu nome após a sua morte. O médico humanitário assumiu assim contornos de santo laico, num culto que se mantém até ao presente, bem visível nas flores e ex-votos colocados por milhares de pessoas em torno da sua estátua no Campo dos Mártires da Pátria, em Lisboa (inaugurada em 1901), e no cemitério de Alhandra, onde está sepultado, especialmente nos aniversários do seu nascimento e morte. 

Sousa Martins realizou trabalhos de especial importância na luta contra a tuberculose, que então atingia proporções epidémicas em Lisboa e no Porto, e no estudo da prevenção e tratamento dos surtos epidémicos. Por esse motivo foi nomeado, por decreto de 23 de maio de 1872, secretário e relator da comissão revisora do regulamento quarentenário de 1860. 

Em 1874 foi nomeado delegado à Conferência Sanitária Internacional realizada em Viena. Estas conferências, iniciadas em Paris em 1851 e repetidas em Constantinopla em 1866, Viena em 1874, Washington em 1881, Roma em 1885, Veneza em 1892, Dresden em 1893 e de novo em Veneza em 1897, tinham a participação dos melhores especialistas da época em medicina e saúde pública, e visavam a discussão científica sobre as epidemias que assolaram o mundo ao longo de todo o século XIX.

A 4 de agosto de 1874 foi elevado à categoria de membro benemérito da Sociedade Farmacêutica Lusitana, à qual pertencia desde 1864, com fundamento na maneira brilhante como desempenhou o cargo de representante de Portugal na Conferência de Viena. 

Esta sua especialidade habilitou-o a ser nomeado secretário da comissão encarregada de propor os melhoramentos necessários no Lazareto de Lisboa, por portaria de 16 de setembro de 1875, e em 1881 fez parte da comissão sanitária encarregada de propor ao governo as medidas a tomar no caso da invasão de cólera em Lisboa. Foi ainda secretário e relator da comissão nomeada por decreto de 15 de novembro de 1871 para redigir a Farmacopeia Portuguesa, publicada em 1876.

O seu percurso académico e profissional incluiu o cargo de secretário e bibliotecário da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa entre 1873 e 1876. Sendo criada por carta de lei de 10 de abril de 1876 a cadeira de Patologia Geral, Semiologia e História da Medicina, na mesma Escola, Sousa Martins tornou-se lente proprietário da mesma por decreto de 16 de julho do mesmo ano, na qual foi sucedido por Câmara Pestana em 1898. Foi ainda presidente da Comissão Executiva e da Secção de Medicina da expedição científica à Serra da Estrela. Esta expedição foi organizada sob a égide da Sociedade de Geografia de Lisboa, de que Sousa Martins era sócio fundador (1876) e vogal do Conselho Central, reunindo em agosto de 1881 uma plêiade de cientistas e intelectuais que estudaram aquela região portuguesa nas suas vertentes geográfica, meteorológica e antropológica num esforço sem precedentes de exploração sistemática do território português.

O interesse de Sousa Martins na realização da expedição prendia-se com a necessidade de conhecer a meteorologia e as condições sanitárias da região dado a importância então atribuída ao clima no tratamento da tuberculose pulmonar. Essa necessidade levou a que em, conjunto com Brito Capelo, tivesse requerido ao Governo, em 1882, a instalação de um posto meteorológico na Serra. Na sequência da expedição Sousa Martins defendeu a implantação de Casas de Saúde nessa região. Nesse sentido foi um dos impulsionadores da fundação do Clube Hermínio, uma associação de caráter humanitário que foi criada em 1888 e se manteve ativa pelo menos até 1892. Sousa Martins foi aclamado sócio honorário e presidente perpétuo pelos membros fundadores. Afirmando-se como uma instituição de solidariedade, o Clube Hermínio tinha por objetivos a promoção do melhoramento das condições naturais da Serra da Estrela, considerada como estação sanitária através do estabelecimento de casas de saúde sob direção médica, o socorro aos doentes pobres e o exercício de polícia higiénica em todos os pontos da Serra e nas habitações que fossem usados pelos doentes.

No Verão de 1888, com o patrocínio do Clube Hermínio e com o apoio entusiástico de Sousa Martins e de Guilherme Teles de Meneses, esteve na Serra da Estrela o médico Basílio Freire, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, que ali assegurou acompanhamento médico gratuito aos doentes que o procuravam.

O principal objetivo de Sousa Martins era a construção de um sanatório na Serra da Estrela que pudesse acolher de forma permanente e tratar doentes com tuberculose pulmonar. Desde 1888 que ele tinha o cargo de médico honorário da Real Câmara de Suas Majestades e Altezas, o que lhe daria alguma influência junto da Coroa. Essa posição permitiu-lhe sensibilizar a família real e o governo para os seus objetivos, e a iniciativa, aclamada por todos, começou a tomar forma a partir de 1891, com o início da construção do Hospital Príncipe da Beira. No entanto, foi apenas após a sua morte que este hospital foi concluido, sendo inaugurado com o nome de Sanatório Dr. Sousa Martins apenas em 18 de maio de 1907 pelo Rei D. Carlos e a mulher, no âmbito da atividade da Assistência Nacional aos Tuberculosos. Esta instituição fora promovida pela Rainha D. Amélia numa reunião realizada no dia 11 de junho de 1899 na sala do Conselho de Estado, no Ministério do Reino, para tratar do estabelecimento de edifícios apropriados para acudir as pessoas atacadas de tuberculose. Segundo notícias da época, a rainha mandara fazer 402 convites. Os reis, de forma particular, contribuiram para a formação desta associação, encabeçando a lista de subscritores com 10.000$000 réis por parte de D. Carlos e 5.000$000 por parte de D. Amélia. E doaram também um forte da Casa de Bragança, no qual se instalou o primeiro sanatório em Portugal, com o nome de Sanatório Marítimo do Outão, em Setúbal, inaugurado em 6 de junho de 1900, com 400 camas. Agregando assim os esforços de beneficência privada com o objetivo de lutar contra este autêntico flagelo social, a ANT lançou-se numa campanha de profilaxia e tratamento da tuberculose e dedicando-se à construção de sanatórios para os doentes.

Sousa Martins foi de novo delegado de Portugal à Conferência Sanitária Internacional realizada em Veneza em março de 1897, onde foi eleito vice-presidente. Adoeceu quando se encontrava em Veneza, regressando a Lisboa muito debilitado. Diagnosticado com tuberculose, partiu para a Serra da Estrela à procura tratamento. Aparentemente convalescendo, recolheu-se a Alhandra, onde se instalou numa quinta, propriedade de amigos, tentando recuperar. A doença agravou-se e aos 54 anos, tuberculoso terminal e sofrendo de lesão cardíaca, Sousa Martins suicidou-se com uma injeção de morfina. 

O Rei D. Carlos, ao tomar conhecimento do seu falecimento, enviou uma mensagem. Sousa Martins não casou nem teve filhos. As homenagens sucederam-se ao longo dos anos. 

Além das já referidas sociedade científicas portuguesas, Sousa Martins foi também sócio fundador da Associação dos Jornalistas e Escritores Portugueses, vogal da primeira direção do Jardim Zoológico em 1883, membro do Instituto de Coimbra, da Associação dos Enfermeiros do Corpo de Saúde Civil de Lisboa, da Sociedade da Cruz Vermelha, do Centro Farmacêutico Português (do Porto), da Associação Camoniana José Vitorino Damásio, diretor do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa em 1887-88 e médico honorário da Real Casa Pia de Lisboa em 1894. 


No que diz respeito a instituições estrangeiras, foi membro da Sociedade Farmacêutica da Grã-Bretanha (sedeada em Londres), da Sociedade Farmacêutica Mexicana, da Sociedade Real de Medicina Pública da Bélgica, da Real Academia de Medicina e Cirurgia de Madrid, da Sociedade Antropológica Espanhola, da Sociedade Ginecológica Espanhola, da Academia Nacional de Medicina e Cirurgia de Cádis, da Academia Provincial de Ciências Médicas de Badajoz, da Sociedade Real de Medicina Pública e da Sociedade de Ciências Médicas do Luxemburgo, da Sociedade Real de Medicina Pública da Bélgica, do Instituto de Vasco da Gama, de Nova Goa, da Sociedade Francesa de Higiene e da Associação Internacional para o Progesso da Higiene, em Bruxelas. Foi comendador da ordem de S. Tiago, e da Ordem Real do Salvador da Grécia. Sousa Martins publicou obras de referência nas especialidades de epidemiologia, patologia, e ainda sobre medicina geral e tuberculose. Escreveu também biografias e aventurou-se na literatura, sob um pseudónimo. Colaborou na Gazeta Médica de Lisboa, no Jornal da Sociedade Farmacêutica Lusitana, Jornal da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, Revista Médica Portuguesa, Revista Ocidental, Revista Contemporânea, Diario Ilustrado, Ocidente, Enciclopédia Popular e da Revista de Nevrologia e Psychiatria, entre outras.

Maria Antónia Pires de Almeida
CIES, ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa

Obras

O pneumogástrico preside à tonicidade da fibra muscular do coração, dissertação de licenciatura em Medicina (Lisboa: 1866).

O Pneumogástrico, os Antinomiais, a Pneumonia. Memória apresentada à Academia Real das Ciências de Lisboa (Lisboa: Tipografia da Academia Real das Ciências de Lisboa, 1867). 

A pathogenia vista à luz dos actos reflexos (Lisboa: Typ. Universal de Thomaz Quintino Antunes, 1868). 

A medicina legal no processo Joanna Pereira: questão de peritos…, com M. Bento de Sousa e J. C. da Camara Cabral (Lisboa: Typ. das Horas Romanticas, 1878).

Relatório da comissão encarregada de rever o regulamento das quarentenas (Lisboa: Diário do Governo, 1873). 

Relatório dos Trabalhos da Conferência Sanitária Internacional reunida em Viena em 1874, apresentado pelo delegado português a essa conferência J. T. Sousa Martins (Lisboa: Imprensa Nacional, 1874). 

A febre amarela importada pela Barca Imogene em 1879 (Lisboa: Typ. Portugueza, 1880). 

Os Typhos de Setúbal, Relatório sobre a Memória acerca dos typhos de Setúbal do sr. Dr. Francisco Ayres do Soveral e Parecer sobre essa memória por Sousa Martins (Lisboa: Imprensa Nacional, 1881). 

“Movimentos Pupilares Post-Mortem e Intra-Vitam”, in: Revista de Nevrologia e Psychiatria (Lisboa: 1888). 

A tuberculose pulmonar e o clima de altitude da Serra da Estrela (Lisboa: Impr. Nacional, 1890). 

Bibliografia sobre o biografado

Almeida, Maria Antónia Pires de, Saúde pública e higiene na imprensa diária em anos de epidemias, 1854-1918 (Lisboa: Colibri, 2013).

Jorge, Ricardo, Sousa Martins (s.l.: s.n.. 1939). 

Museu de Alhandra. Casa Dr. Sousa Martins, Biografia detalhada. Publicação eletrónica: http://www.museusousamartins.org/home.html.

Pais, José Machado, Sousa Martins e suas memórias sociais: sociologia de uma crença popular (Lisboa: Gradiva, 1994).

Silva, Fernando Emídio da, Sousa Martins, grande senhor do seu tempo (s.l.: s.n., 1944). 

Orta, Garcia de

Castelo de Vide, c. 1500 — Goa, 1568

Palavras-chave: matéria médica, botânica, Império Português no século XVI, Inquisição.

Garcia de Orta (de Orta, da Orta, d’Orta) (Castelo de Vide, c. 1500 — Goa, 1568foi um médico e naturalista do período renascentista. Os seus pais, Fernando de Orta e Leonor Gomes, originários respectivamente de Valência de Alcântara e de Albuquerque, em Espanha, deslocaram-se para Portugal na sequência da promulgação do édito de expulsão dos judeus de Espanha, em 1492. Fixaram residência na povoação fronteiriça de Castelo de Vide na qual  tiveram quatro filhos, Garcia de Orta e as suas irmãs  Violante, Isabel e Catarina. Orta teve também um meio-irmão, Jorge de Orta, fruto de uma ligação anterior mantida entre o pai e uma mulher castelhana de nome Brites Nunes. Este seu familiar estabeleceu-se em Elvas pouco tempo antes de 1504. A ascendência judaica de Garcia de Orta e, nomeadamente, a sua condição de cristão-novo teve uma influência marcante no seu percurso pessoal e profissional.

Entre c. 1515 e 1523, Orta estudou medicina nas universidades de Salamanca e de Alcalá onde obteve o seu título de licenciado. Dedicou-se à prática médica, primeiro em Castelo de Vide e, volvidos três anos, em Lisboa. Depois de três tentativas frustradas para conseguir um lugar na Faculdade de Artes da Universidade de Lisboa, obteve  em 1530 a posição de  leitor de Filosofia Natural nesta instituição. Em 1533, foi eleito representante do Conselho da Universidade, cargo que ocupou até à partir para a Índia, a 12 de Março de 1534. Embarcou na qualidade de médico pessoal do amigo e patrono Martim Afonso de Sousa, Capitão-Mor da Armada. A Inquisição  foi estabelecida em Portugal, poucos anos antes, em 1531, e o receio do médico português de vir a ser perseguido devido às suas origens judaicas, terá sido um dos principais motivos desta mudança radical na sua vida. Jamais regressaria ao reino. 

A frota ancorou em Goa, no mês Setembro de 1534. Em breve, Orta passou a acompanhar Martin Afonso de Sousa em campanhas militares na costa ocidental da Índia, desde Gujarate a Ceilão, cruzando, entre outras,  as cidades de Diu, Chaul, Baçaim e Cochin. Em 1538, Sousa regressou a Lisboa mas Orta decidiu não o acompanhar e instalar-se em Goa. Em breve, adquiriu grande prestígio profissional e social, tendo sido médico de vários vice-reis e governadores da cidade e do sultão de Ahmadnagar. Exerceu também medicina no Real Hospital Militar de Goa e granjeou o título de Físico-mor aquando do regresso de Martim Afonso de Sousa a Goa, em 1541, na qualidade de Vice-Rei, cargo que ocupou até 1546. Para a fortuna pessoal do médico português, contribuiu também a sua actividade comercial em matéria médica e pedras preciosas.  Além da sua abastada casa em Goa, Orta passou igualmente a dispor da Ilha de Bombaim que adquiriu por aforamento, em 1548.

Em finais de 1541, chegou a Goa a família do mercador e cristão novo Henrique de Solis, originária de Alter do Chão. Pouco tempo depois, a filha, Brianda de Solis, contraiu matrimónio com Garcia de Orta com quem teve duas filhas. Em 1548, chegou também a esta cidade a mãe e as irmãs de Orta, Catarina e Isabel, fugindo à perseguição movida pelo Tribunal da Santa Inquisição de Lisboa. Este tribunal religioso foi estabelecido em Goa, em 1560, mas durante a sua vida Orta conseguiu escapar à acusação do Santo Ofício e proteger dele a sua família, provavelmente devido ao seu prestígio e ao seu círculo de contactos e amigos influentes. Após a morte do médico português em Goa, em 1568, alguns dos seus familiares mais próximos foram perseguidos severamente pela Inquisição, tanto em Goa, como em Portugal. A  irmã Catarina foi presa e condenada à fogueira, em 1569, e o ano de interrogações e tortura a que tinha sido sujeita conduziu a que denunciasse vários dos seus familiares pela prática de judaísmo, incluindo o seu já falecido irmão. O Santo Ofício ordenou que fossem exumadas as ossadas de Orta e que as mesmas fossem queimadas em auto-da-fé,  ocorrido a 4 de Dezembro de 1580. As cinzas foram depois lançadas no rio Mandovi.

Os Colóquios dos simples e drogas e coisas medicinais da Índia, a única obra de Garcia de Orta e a primeira de um autor europeu sobre as matérias nela versadas, foram publicados em Goa por Joannes de Enden, em 1563. A prensa móvel foi introduzida nesta cidade em 1557, sendo os Colóquios apenas a terceira obra publicada no território e a única que, até então, não se debruçava sobre temas religiosos. Vigorando já o Tribunal do Santo Ofício na cidade, a folha de rosto do livro patenteia a necessária autorização à sua impressão por parte do inquisidor Aleixo Dias Falcão. Não é totalmente conhecido o modo como a mesma foi obtida, nem tão pouco o grau de escrutínio utilizado pelo censor. Em todo o caso, o prestígio social e económico de Orta e, em particular, o seu círculo de protetores e de amigos  influentes no reino e em Goa, terão contribuído decisivamente para que a obra pudesse ter sido publicada. São aliás dois dos humanistas seus companheiros nesta cidade, o licenciado Dimas Bosque e o latinista Tomé Dias Caiado quem, a par de Luís de Camões que então publica o seu primeiro poema, dão autoria aos principais  paratextos laudatórios da obra. O frontispício dos Colóquios contribui também como dispositivo legitimador ao referenciar o suposto título de Garcia de Orta como Físico d’ El Rey nosso Senhor e o privilégio do 3º Conde do Redondo, Vice-Rei da Índia, sendo ainda de assinalar a dedicatória da obra ao ilustre e seu sempre estimado Martim Afonso de Sousa.

Tal como o título indica, a obra de Garcia de Orta é apresentada no formato dialógico, sendo constituída por uma série de conversas, 59 no total, entre o próprio Orta e o seu principal interlocutor, Ruano, um jovem médico também ele formado nas Universidades de Salamanca e Alcalá e acabado de chegar a Goa, em busca de novos conhecimentos. A mesma dá ainda voz a outras figuras da sociedade goesa e aos próprios serviçais do médico português. A forma coloquial escolhida serve múltiplos propósitos incluindo uma melhor efectivação dos processos de comunicação, legitimação e persuasão subjacentes  à obra.

Os Colóquios baseiam-se na compilação de observações e de informações recolhidas pelo autor ao longo dos quase trinta anos, até então tinha vividos em Goa e noutros lugares do Oriente, abrangendo as virtudes médicas de vários produtos de origem vegetal, alguns de origem animal e ainda de algumas pedras preciosas. Os diversos produtos considerados estão organizados alfabeticamente em capítulos distintos não sendo, todavia, esta ordem sempre obedecida. Para cada um deles, Orta apresenta não só os seus usos médicos  e atributos morfológicos e sensoriais, mas também os seus nomes em diferentes línguas, os seus locais de origem e os seus preços em várias terras e mercados. Um dos propósitos do autor é, assim, o de proporcionar um sistema de ordenação da grande variabilidade dos atributos dos produtos naturais do oriente utilizados na prática médica. Outro dos seus objetivos é a consideração de métodos de tratamento utilizados por físicos indígenas, nomeadamente os  “hakins” (muçulmanos) e os “vaydas” (hindus).

Nem todos os produtos abordados nos Colóquios eram então totalmente desconhecidos no Ocidente, mas Orta tem também o propósito de avaliar e clarificar considerações sobre matéria médica de autores antigos e modernos. Nesta época, A Matéria Médica  do médico e botânico Dioscorides continuava a ser a principal obra de referência  nesta área do saber. Com a invenção da imprensa, em 1455, e  a influência do humanismo renascentista, a mesma passou a ser objecto de um renovado interesse, de traduções e de estudos por vários autores incluindo Jean de RuellePier Andrea MattioliAndrés Laguna  e o português Amato Lusitano. Contudo, os comentários de Orta não se restringem a estes autores e incluem, entre outros, referências a Teofrasto, Galeno e Plíneo, o Velho da antiguidade clássica, aos árabes Rasis, Avicena e Averróis, do período medieval, e aos europeus António Musa, Niccolò Leoniceno, Matheolo Senense e Nicolás Monardes, seus contemporâneos. Nas suas observações-  critica, sobretudo, alguns dos autores coevos pelo facto de não procurarem actualizar os seus conhecimentos face à reconfiguração do saber proporcionada pela expansão geográfica, descrevendo mesmo alguns dos autores da sua época como meros imitadores dos gregos. Orta é também crítico de algumas passagens de autores árabes, mas a sua apreciação sobre os mesmos é fundamentalmente positiva. É de realçar a enfâse  dada pelo autor à natureza aberta e dinâmica da construção do conhecimento médico e botânico.

Os Colóquios são uma obra abrangente, apresentando numerosas informações sobre as propriedades médicas do mundo natural asiático. Muito do conhecimento neles patenteado resultou da experiência pessoal do seu autor ao longo da sua vivência na Índia e, em particular, em Goa.  A partir de 1510,  esta cidade passou a ser a  capital do Império Português no Oriente e um  importante centro de intercâmbio comercial e cultural favorável à  aquisição de produtos e saberes com relevância para a prática médica. No entanto, a grande amplitude da origem dos produtos mencionados por Orta, não permitia que as observações directas do autor fossem por si só suficientes na elaboração da obra. A mesma indica que a sua rede de informadores  foi vasta e ecléctica, tendo incluindo 

não somente médicos e boticários, mas também comerciantes, soldados, missionários, viajantes e tradutores oriundos de vários lugares. O médico português remunerou também alguns agentes em tarefas de recolha de plantas e sementes de lugares específicos da Índia. Beneficiou, ainda, de relações de colaboração e amizade que estabeleceu com médicos e eruditos árabes, persas e hindus. Terá igualmente sido favorecido pelo acesso a compilações confidenciais sobre plantas e drogas medicinais da Índia encomendadas por reis e altos  dignitários da coroa portuguesa.

As várias fontes e agentes de informação subjacentes aos Colóquios  contribuem para que, pelo menos em parte, possamos considerar a obra como uma espécie de  “centro de acumulação” de saberes sobre a matéria médica da Índia e territórios adjacentes. Todavia, este é apenas um dos seus atributos uma vez que a obra tem uma natureza multifacetada. 

Uma das características distintivas e, ao mesmo tempo, mais apelativas dos Colóquios são as menções culturais apresentadas nos mesmos e para as quais o formato dialógico eleito pelo autor muito  contribui. Entre outras, a obra alude a costumes locais de Goa, a notícias da China, à situação geográfica da Babilónia e ao jogo de xadrez. Incluem ainda histórias e até fábulas. É ainda significativo que a maioria dos diálogos apresentados na obra decorra na casa de Orta e,  especialmente, à sua mesa. Deste modo, a transmissão a Ruano de conhecimentos sobre as virtudes médicas de plantas, frutas  e especiarias tais como a manga — um dos ingredientes mais frequentes da cozinha Goesa — o coco, o cravo ou o gengibre, é acompanhada da sua percepção directa através dos sentidos (visão, olfacto, paladar e tacto). A alimentação simultânea do corpo e da mente surge, assim, nos Colóquios como um dos métodos didácticos mais eficazes. É ainda na visita a dois dos seus pacientes que, a par de um bom mestre, Orta exibe as suas qualidades no exercício da medicina. Desde logo, é destacada a prontidão com que atende os doentes  quando é chamado e seguidamente o cuidado com que avalia os seus sintomas e dita o tratamento mais apropriado.

A multifuncionalidade dos Colóquios faz crer que a audiência que o autor pretendia atingir fosse também ela diversa. Na dedicatória, Orta indica que o seu trabalho foi sobretudo escrito para a comunidade local de Goa e regiões adjacentes e, em particular, os seus colegas e amigos médicos e boticários, nos quais certamente se incluiria o licenciado Dimas Bosque. Contudo, o número significativo de referências a autores antigos e modernos nela incluído indica que os humanistas europeus seus contemporâneos também fariam parte do público almejado, especialmente os seus colegas portugueses, espanhóis e italianos tais como Amato Lusitano, Andrés Laguna, Nicolás Monardes e Pier Andrea Mattiolipara quem a língua portuguesa não constituiria um obstáculo. Os Colóquios poderiam ainda ser úteis em instituições médicas de Goa como o Real Hospital Militar de Goa e a Santa Casa da Misericórdia desta cidade.  É ainda muito provável que atraíssem uma audiência mais vasta incluindo mercadores e oficiais já que a obra proporciona informações variadas sobre a localização, o preço e as rotas de comércio de muitos dos simples e drogas da Índia. Provavelmente menos significativo, mas nem por isso menos assinalável, é a leitura lúdica e perspicaz que os Colóquios também podiam proporcionar. Seria difícil conciliar todas estas potencialidade da obra se a mesma tivesse sido escrita em latim e não em português. Igualmente de assinalar é o facto de a língua portuguesa estar muito próxima de ser a língua franca da época para os leitores de todas as cidades portuárias em redor do Oceano Índico..

Alguns exemplares dos Colóquios alcançaram, sem demora, a capital do império. Testemunha-o  um dos leitores mais atentos e diligentes da obra de Orta,  Carolus Clusius, que datou de 6 de Janeiro de 1564 o exemplar adquirido em Lisboa. A importância da obra do médico português foi imediatamente reconhecida por Clusius, que reconheceu não só a relevância dos novos conhecimentos médicos e botânicos nela apresentados, mas também admirou a crítica destemida e acérrima de Orta a afirmações de autores antigos e modernos sobre  matéria médica.

A adaptação dos Colóquios por Clusius, com o título Aromatum et simplicium aliquot medicamentorum apud Indos nascentium história , a cargo do famoso impressor Christopher Plantin, foi publicada logo em 1567. O naturalista flamengo reduz a epítome

as conversas da obra de Orta e  omite  as informações que não considera directamente relevantes para o conhecimento médico e botânico. Ordena e clarifica, ainda, partes da obra original e complementa o processo editorial com anotações de sua autoria e algumas ilustrações. A obra de Orta é assim recriada numa nova língua, o latim, num formato mais sóbrio  que prima pela sistematização do conhecimento médico e botânico nela apresentado. O conteúdo informativo é mais alargado e algumas representações visuais são originais. Os dotes editoriais de Clusius, as suas capacidades linguísticas e a sua preocupação constante em avaliar e adicionar novas observações às suas obras tornaram o epítome dos Colóquiosnum dos maiores sucessos da história do livro do século XVI. As suas sucessivas tiragens, todas elas de algum modo reformuladas e melhoradas, apresentando também alterações em algumas das ilustrações nelas patenteadas, vieram a lume em 1574, 1579, 1593 e 1605. A quarta edição de 1593 apresentou, pela primeira vez, não só o epítome dos Colóquios mas também as obras de Cristovão da Costa, Nicolás Monardes e Pierre Belon du Mans. Já a última e quinta edição foi integrada na publicação das obras completas de Clusius, Exoticorum libri decem, quibus animalium, plantarum, aromatum, aliorumque peregrinorum fructuum historiae describuntur.

O epítome dos Colóquios de Clusius passou a ser na Europa a obra de referência do saber médico e botânico inicialmente veiculado por Garcia de Orta e foi com base na mesma que foram obtidas as múltiplas traduções em italiano (Veneza: 1578, 1582, 1582, 1589, 1597, 1605, 1616)  e em francês (Lyon: 1601, 1619), versando a temática dos simples e das drogas da Índia. 

Ao longo dos séculos XVI e XVII, os Colóquios continuaram a ter uma influência

determinante nas obras de outros autores, de entre as quais se destacam o Tratado

delas drogas y medicinas de las Indias Orientales, con sus plantas debuxadas

al bivo de Cristovão da Costa publicado em Burgos, em 1578, e De medicina Indorum libri iv de Jacobus Bontius  publicado em Leiden, em1642. No entanto, em Portugal, durante um  longo período, os Colóquios foram votados a um esquecimento presumivelmente forçado.

Até meados do século XIX, a atenção dedicada a Garcia de Orta no nosso país foi praticamente inexistente. Os primeiros esforços conducentes à reedição da obra estiveram intimamente associados a questões nacionalistas, em particular, ao propósito de legitimar e reforçar os interesses políticos e científicos do império português. Num processo que foi longe de ser linear, os Colóquios acabariam por ser reeditados por Francisco Adolfo de Vernhagen, em 1872. No entanto, o empreendimento não foi considerado satisfatório por vários membros das comunidades científicas e literárias portuguesas. Apenas em 1886, foi publicado o primeiro estudo sobre Orta da autoria do Conde de Ficalho com o título Garcia de Orta e o seu tempo. Foi também da sua responsabilidade a edição comentada dos Colóquios em dois volumes (1891, 1895)que ainda hoje é utilizada como referência. Ficalho desconhecia a ascendência judaica do autor apenas revelada por Augusto da Silva Carvalho, em 1934.

Ao longo do século XX, a nova dimensão de Orta como autor e o seu novo estatuto de herói fundador da medicina portuguesa teve correspondência no significativo número de publicações dedicadas à sua obra. Indubitavelmente, a componente médica e científica dos Colóquios foi a que despertou maior interesse. A formação da grande maioria dos estudiosos era precisamente nestas áreas. Neste período, a historiografia sobre Orta e a sua obra assumiu, em larga medida, um carácter laudatório e foi quase sempre ancorada numa análise literal dos Colóquios. Não deve, no entanto, ser esquecido o valor destas primeiras análises e o contributo de alguns do estudiosos na inventariação de novas fontes históricas relevantes para a história da expansão portuguesa e para o lugar que a inventariação e a

descrição do mundo natural ocupou nestas investigações. Foi essencialmente no século XXI que um conjunto de estudos imbuídos de recentes e mais sofisticadas abordagens historiográficas permitiu atribuir um significado mais complexo e global aos Colóquios e à vida do seu autor.

Garcia de Orta é o médico que, até à data, foi motivo de mais homenagens públicas, que incluem o mural “Garcia de Orta e os médicos portugueses” (1906) de Veloso Salgado, patente na Escola Médica de Lisboa (actual Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa), a estátua de Martins Correia (1953), no Instituto de Higiene e Medicina Tropical, e a estátua de Irene Vilar, no largo Tomé Pires, no Porto. A imagem de Orta teve também  uma larga circulação em selos, notas de vinte escudos  e  moedas. Motivou ainda a designação de jardins, ruas e um hospital em 1991. Os vários tributos contrastam radicalmente com o longo esquecimento a que autor e a sua obra foram votados, tendo contribuído para que a figura de Garcia de Orta  adquirisse um estatuto emblemático como herói da comunidade médica e científica, bem como da própria nação portuguesa.

Palmira Fontes da Costa