Almeida, Teodoro de

Lisboa, 7 janeiro 1722 – 18 abril 1804 

Palavras-chave: Oratoriano, filosofia natural, divulgação, Academia das Ciências.

Teodoro de Almeida foi um padre oratoriano, filósofo natural, pedagogo, e um activo divulgador das ciências na segunda metade do século XVIII em Portugal. A sua vida foi atravessada pela perseguição e pelo exílio a que se viu obrigado pelo marquês de Pombal. Foi ainda um dos fundadores da Academia Real das Ciências de Lisboa.

Teodoro de Almeida nasceu em Lisboa, a 7 de Janeiro de 1722, entrou para a Congregação do Oratório aos 13 anos de idade e aí fez toda a sua formação académica secundária. Estudou filosofia e teologia, tendo tido como professor o Padre João Batista, autor da Philosophia Aristotelica restituta ed illustrata qua experimentis qua raciociniis nuper inventis (1748) e a quem é atribuída a responsabilidade da introdução da filosofia moderna, de inspiração gassendiana, nas escolas do Oratório. Batista foi também o responsável, nos princípios da década de 1750, pelo início das conferências de filosofia experimental, na Casa das Necessidades da Congregação e que seriam, depois, continuadas por Teodoro de Almeida. A Casa das Necessidades tinha sido doada, em 1745, por D. João V, à Congregação do Oratório, tendo uma bem fornecida Biblioteca e um Gabinete de Física, onde Teodoro de Almeida frequentemente fazia demonstrações perante o rei e a corte. 

Terminados os seus estudos, foi nomeado, em 1748, substituto do mestre de filosofia da altura, o Padre Luis José e, em 1751, principia a ler filosofia na Congregação, agora como mestre de filosofia. Nesse ano, Almeida publicou os dois primeiros tomos dos dez que comporiam a sua obra mais notável de divulgação das ciências do século XVIII português, Recreasão Filozofica ou Dialogo sobre a Filozofia Natural, para instrução de pessoas curiosas, que não frequentarão as aulas (RF).

Para além dos seis primeiros tomos, publicados até 1763, e que constituíam o projeto inicial, Teodoro de Almeida compôs a RF, com mais 4 tomos, compreendendo a lógica (1768), metafísica (1792), filosofia moral (1793) e teologia natural (1800). Como suplemento à RF e sob o pretexto de aprofundamento de alguns dos temas nela tratados, publicaria ainda, em 3 tomos (1784 e 1799), as Cartas Fisico-Mathemáticas de Theodozio a Eugenio para servir de Complemento á Recreaçaõ Filosofica.

O título explicita as linhas de força do programa de divulgação das ciências que Almeida se propunha levar a cabo. A utilização do diálogo como estratégia de confrontação entre a filosofia moderna e a escolástica, a indexação da instrução à recreação, articuladas por uma retórica em que a razão e a experiência emergem como legitimação epistemológica da nova filosofia, a utilização do português em vez do latim como veículo de divulgação  e, por fim, a escolha de um novo tipo de público , que designava como pessoas curiosas que não frequentaram as aulasconfiguraram  a especificidade  editorial da RF.  A filosofia natural, tal como Almeida a apresenta nos seis primeiros tomos da RF,evidencia uma amplitude temática –  os céus, os astros, o movimento, os ventos e as marés, o globo terráqueo, as plantas, os brutos, o homem e os seus sentidos, enfim, todas as coisas naturais mais as suas causas e efeitos  – que, no século XVIII europeu, a aproximava de iniciativas similares e, ao mesmo tempo, a afastava de alguns dos textos canónicos de filosofia natural de inspiração newtoniana, como os de Pieter van Musschenbroek, Jean Théofile Desaguliers ou  Willem s´Gravesande (1688 – 1742). Esta amplitude temática, adjetivada de enciclopédica pela sua diversidade e de eclética pela natureza da abordagem, configura um programa de divulgação das ciências no contexto de periferia europeia em que se desenvolveu. As marcas deste contexto emergem na RF, por exemplo, sob a forma de debate entre a filosofia moderna e a filosofia peripatética, na resistência – mitigada ao longo das diferentes edições da RF – à teoria newtoniana da dispersão da luz, ou, ainda, na apropriação do copernicianismo, cautelosamente lido de acordo com as determinações adotadas no século anterior pela Igreja Católica.

O sucesso editorial da RF – a que não foi alheia a eleição de Teodoro de Almeida como sócio da Royal Society em 1758 – e das Cartas, comprovado pelas várias reimpressões de cada um dos diferentes tomos da RF, indo alguns até à 7ª edição, ultrapassou fronteiras, incluindo traduções para castelhano e francês e chegando às colónias portuguesas e espanhola. 

As propostas de Almeida enquanto divulgador das ciências partilharam e ajudaram a construir uma ecologia favorável ao processo de renovação cultural que atravessou o século XVIII português. Esta agenda veio, no entanto, a ser perturbada pelos alinhamentos político-religiosos de uma parte significativa da elite oratoriana em que se integrava. As simpatias anti-regalistas de alguns deles tornaram-nos num alvo para o marquês de Pombal que os desterrou, em 1760, para diferentes pontos do país. Almeida fixar-se-ia no Porto por 8 anos, findos os quais se viu obrigado a exilar-se para Espanha, primeiro, e, depois, para França, em Bayonne. Aqui viveu até 1777, prosseguindo a sua ação pastoral, dando lições particulares e fabricando instrumentos astronómicos. Durante este período foi feito sócio da Real Sociedad Vascongada de Amigos del País.

Pouco antes do seu desterro para o Porto, Teodoro de Almeida publicou nas Philosophical Transactions (1757), juntamente com João Chevalier, outro dos oratorianos perseguidos por Pombal, um Eclipsis Lunae die 4ª Februarii, ann. 1757 e, já no exílio, um artigo sobre a observação do trânsito de Vénus de 1761, que foi publicado nas Mémoires de Mathématique et Physique , Presentés à l´Académie Royal des Sciences (1774).

Com a morte de D. José, a quem sucedeu sua filha D. Maria, e a demissão do Marquês de Pombal, estava estabelecido o clima político propício ao regresso de Almeida a Portugal, onde chegou a 13 de Março de 1778. Cerca de um ano depois, a 4 de Julho de 1779, Teodoro de Almeida foi o orador escolhido para a apresentação pública da recém fundada Real Academia das Ciências de Lisboa de que foi membro fundador juntamente com o Duque de Lafões, o Abade Correia da Serra, o Visconde de Barbacena e Domingos Vandelli, entre outros. A sua Oração de Abertura desencadeou uma acesa polémica tal como, embora por motivos diferentes, tinha acontecido em 1752, aquando da publicação dos dois primeiros tomos da RF. Se, neste caso, os alvos dos seus opositores foram o carácter público das novas ciências e uma abordagem de inspiração cartesiana da alma dos brutos e dos acidentes eucarísticos, desta vez, foi o facto de Almeida ter apresentado a Academia como um renascimento cultural caucionado pelo novo poder que motivou o aparecimento de várias cartas manuscritas e anónimas, críticas das posições de Almeida e da nova Academia,em defesa da herança cultural pombalina. 

A ação pastoral de Teodoro de Almeida, para além do ensino e da divulgação das ciências, estendeu-se, também, à publicação de sermões, e textos devocionais e moralizantes dos se salienta, pelo seu sucesso editorial, O Feliz Independente do Mundo e da Fortuna ou Arte de Viver Contente em Quaisquer Trabalhos da Vida (1779). Esta obra teve, até finais do século XIX e no contexto ibérico, uma ampla divulgação, com cinco edições em português, dezasseis em castelhano e uma em francês.

Almeida continuaria, nesta fase final da sua vida, a ensinar Filosofia, primeiro na Casa das Necessidades e, depois, a partir de 1792, na Casa do Espírito Santo, reconstruída após o terramoto de 1755, e a ter uma atividade editorial significativa de que mantinha o privilégio de impressão, concedido por alvará de D. Maria I. Para além de alguns textos devocionais, das Cartas e dos últimos três tomos da RF, foram ainda publicadas, em 3 volumes, as Physicarum Institutionum, libri X, ad usum scholarum (1785, 1786 e 1793) e algumas teses defendidas por discípulos sobre temas de mecânica.

Uma das suas intervenções públicas traduziu-se no estabelecimento em Portugal, em 1784, vindas de Annecy, França, da Ordem da Visitação que, a par da educação religiosa, funcionava também como colégio para instrução de meninas de famílias nobres, tendo sido Almeida o autor do respetivo programa pedagógico

Por razões ainda por esclarecer, que o Abade Correia da Serra atribuiu à sua desatualização científica, Almeida não conseguiu que a Academia publicasse quer a sua polémica oração de abertura, quer o texto das comunicações que aí apresentou. Algumas destas seriam, depois, integradas em obras publicadas por Almeida, como algumas “Cartas” incluídas das Cartas Fisico-Mathemáticas e uma “Dissertação sobre a causa natural do famoso Terramoto de Lisboa no anno de 1755”, esta incluída em Lisboa Destruida (1803), a última obra publicada por Teodoro de Almeida antes de falecer a 18 de Abril de 1822.

José Alberto Silva

Arquivos

Grande parte das informações biográficas sobre Teodoro de Almeida têm tido como fonte um manuscrito depositado na Torre do Tombo, Manuscritos da Livraria, nº 2316, cuja autoria é atribuída a um discípulo de Almeida, o padre Joaquim Dâmaso, Vida do P. Theodoro de Almeida da Congregação do Oratório de Lisboa. A quase totalidade dos manuscritos da autoria de Almeida, na forma de cartas, orações, memórias, cursos, e outros, bem como as obras impressas de caráter devocional estão referenciados na bibliografia aqui listada e podem ser encontrados na Torre do Tombo, Biblioteca da Academia das Ciências, Biblioteca Pública de Évora, Biblioteca Nacional e Biblioteca da Ajuda. 

Obras

Almeida, Teodoro de. Recreasão Filozofica, ou dialogo sobre a Filozofia Natural, para Instrucsão de pessoas curiosas, que não frequentarão as aulas, tomo I a VI. Lisboa: Na Oficina de Miguel Rodrigues, 1751 a 1763.

—. Recreasão Filozofica, ou dialogo sobre a Filozofia Racional, para Instrucsão de pessoas curiosas, que não frequentarão as aulas, tomo VII. Lisboa: Na Oficina de Miguel Rodrigues, 1768.

—. O feliz Independente do Mundo e da Fortuna, ou arte de viver contente em quasquer trabalhos da vida, dedicado a Jesus crucificado, 3 tomos. Lisboa: Na Regia Officina Typografica, 1779.

—. Cartas Fysico-Mathematicas de Theodozio a Eugenio: para servir de complemento à Recreaçaõ Philosofica , 3 tomos. Lisboa: Na Officina de António Rodrigues Galhardo/Regia Offcina Typográfica, 1784-1798.

—. Physicarum institutionum libri decem ad ususm scholarum, 3 vols. Olisipone: Typographia Regia, 1785/1793.

—. Methodo para a Geografia oferecido às religiosas da Visitação de Santa Maria de Lisboa. Lisboa: Na Officina de António Rodrigues Galhardo, 1787..

—. Recreasão Filozofica, ou dialogo sobre a Metafysica, para Instrucção de pessoas curiosas, que não frequentarão as aulas, tomo VIII. Lisboa: Na Regia Officina Typografica, 1792.

—. Harmonia da Razão, e da Religião ou Respostas Fiosoficas aos argumentos dos incrédulos, que reputaõ a Religião contraria à Boa Razão. Diálogo do Author da Recreação Filosofica sobre a parte da Metafysica, que se chama Teologia Natural, tomo IX. Lisboa: Na Oficina Patriarcal, 1793.

—. Descripção do novo Planetário Universal. Na Regia Officina Typografica, 1796.

—. Recreação Filosofica sobre a Filosofia Moral, em que trata dos costumes, tomo X. Lisboa: Na Regia Officina Typografica, 1800.

Bibliografia sobre o biografado

Azevedo, Maria Leopoldina. Pe. Teodoro de Almeida, Subsídios para o Estudo da sua Vida e Obra, dissertação de licenciatura. Lisboa: FLUC, 1960.

Domingues, Francisco Contente. Ilustração e Catolicismo. Teodoro de Almeida. Lisboa: Edições Colibri, 1994.

Piwnik, Marie-Helène. “Les souscripteurs espagnols du P. Teodoro de Almeida (1722-1804)”, Bulletin des Etudes Portugaises et Brésiliennes, 42(1981), 95-119. 

Santos, Zulmira. Literatura e Espiritualidade na Obra de Teodoro de Almeida (1722-1804). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian/Fundação para a Ciência e Tecnologia, 2007.

Silva, José Alberto. A apropriação da filosofia natural em Teodoro de Almeida (1722 -1804). Lisboa: CIUHCT, 2009.

Silva, José Alberto. “Teodoro de Almeida (1722-1804) ou a arte da recreação” in Ana Simões, Marta C. Lourenço, José Alberto Silva, orgs., Ciência, Tecnologia e Medicina na Construção de Portugal. Razão e Progresso, século XVIII, pp. 449-469, 2º volume de Maria Paula Diogo, Ana Simões, eds., Ciência, Tecnologia e Medicina na Construção de Portugal. Lisboa: Tinta da China, 2021, 4 vols.