Silva, António Joaquim Ferreira da

Cucujães, Aveiro, 28 julho 1853 — Santiago de Riba-Ul, Aveiro, 23 Agosto 1923

Palavras-chave: Química, Análises, Laboratório, Porto.

António Joaquim Ferreira da Silva nasceu no seio de uma família de proprietários, com terras em Portugal e no Brasil. Ferreira da Silva realizou os seus estudos secundários, no Porto (1865‒1870), permanecendo nesta cidade para cursar algumas disciplinas na Academia Politécnica e no Instituto Industrial e, também, teologia no Seminário Episcopal. De facto, as suas primeiras publicações são reflexo das profundas convicções religiosas que manteve ao longo da vida a par das suas atividades científicas, sendo disso exemplo um dos últimos livros que escreveu intitulado Sciencia e crenças, publicado em 1914. Em 1872, abandonou os estudos eclesiásticos e matriculou-se na Universidade de Coimbra, tendo-lhe sido conferido o grau de bacharel em filosofia natural, em 1876. A partir de então, exerceu a sua atividade profissional em diversas instituições científicas e académicas do Porto, dedicando-se ao estudo e à prática da química. 

Em 1942, o volume especial de homenagem editado pela Revista de Chimica Pura e Applicada apresentou—além de diversas notas biográficas e dos tradicionais obituários—uma lista com 330 trabalhos publicados por Ferreira da Silva, entre 1872 e 1919. Os seus tratados, livros de texto, monografias científicas e publicações em diversos diários profissionais mostram uma grande variedade de interesses científicos entre os que se destacam a química toxicológica e legal, a hidrología, a química sanitária, a química merceológica ou comercial, a química agrícola e, principalmente, a química analítica.

Ferreira da Silva casou-se no Brasil, em 1880, com a sua prima em segundo grau, Idalina de Sousa Godinho Ferreira (1864–1922), filha do Visconde de Santiago de Riba-Ul, José Joaquim Godinho (1836–1885), com quem teve catorze filhos, embora nenhum deles tenha seguido as pisadas paternas. Em 1882, viajou de novo até ao Brasil por razões familiares, mas aproveitou, também, para visitar os laboratórios de química e toxicologia da Escola Politécnica e da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Apesar de não ter realizado viagens de estudo enquanto estudante, Ferreira da Silva fez numerosas excursões científicas ao estrangeiro—principalmente a França, país que mais o influenciou do ponto de vista científico—que não só lhe permitiram adquirir novos conhecimentos e competências, mas também o ajudaram a criar uma rede de contactos com cientistas de outros países que reforçaram seu papel de perito.

As múltiplas viagens que realizou combinavam interesses variados—desde o estudo científico do gás de iluminação até à organização das escolas superiores, como no caso da viagem a Paris, em 1889—passando por participações em congressos e organismos internacionais, algumas vezes com funções oficiais ou cargos honoríficos. Assim, foi membro do Congresso para a Reforma da Nomenclatura Química em Genebra (1892); membro do comité promotor do II Congresso de Química Aplicada, em Paris (1896); presidente da Comissão portuguesa no III Congresso de Química Aplicada, em Viena (1898); vice-presidente honorário do IV Congresso Internacional de Química Aplicada, em Paris (1900); presidente do Comité português e vice-presidente honorário do V Congresso Internacional de Química Aplicada, em Berlim (1903); presidente do comité português do Vl Congresso Internacional de Química Aplicada, em Roma (1906); presidente do comité português do VII Congresso de Química, em Londres (1909), do II Congresso Internacional de Higiene Alimentar e do II Congresso Internacional de Radiologia e Eletricidade, em Bruxelas (1909); delegado oficial português e vice-presidente da Conferência Internacional de Paris para estudo da unificação dos métodos de análise das substâncias alimentares (1910), etc.

Ferreira da Silva iniciou a carreira docente no Porto, em 1877, ano em que publicou seu primeiro trabalho científico intitulado Estudo sobre as classificaçoes chimicas dos compostos orgânicos, tendo sido nomeado lente substituto da disciplina de “Chymica inorganica e organica,” na Academia Politécnica, sendo promovido a lente proprietário, em 1880. No ano anterior, em 1879, Ferreira da Silva organizara um curso voluntário e gratuito para os estudantes da Academia Politécnica do Porto, denominado Curso de chymica prático, que o ajudou a convencer as autoridades académicas da utilidade desta matéria e da necessidade de reorganizar os estudos de química, pelo que, em 1885, foi criada uma nova cadeira de “Chymica organica e analytica” que se conservou até sua morte. 

Em 1902, foi nomeado professor da disciplina de “Química legal e sanitária”, da Escola de Farmácia, anexa à Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Em 1921, Ferreira da Silva foi nomeado catedrático de “Toxicologia e análises toxicológicas” na nova Faculdade de Farmácia do Porto e, em 1922, esta instituição outorgou-lhe o grau de Doutor em Farmácia. Além destes cargos, entre 1917 e 1919, Ferreira da Silva acumulou a docência da cadeira de “Toxicologia forense” na Facultade de Medicina do Porto. Enquanto docente, publicou diferentes livros de texto que foram editados em numerosas ocasiões, como por exemplo o Tratado de chimica elementar (Porto, 1884) e Primeiros elementos de chimica analytica mineral e organica (Porto, 1904). Ferreira da Silva teve um papel fundamental na transformação das instituições de ensino portuenses, no âmbito da reforma republicana de 1911. As grandes mudanças políticas decorrentes da implantação da Primeira República implicaram, também, uma profunda reforma do sistema universitário pelo que foram criadas duas universidades, uma em Lisboa e outra no Porto, além da Universidade de Coimbra, até ali a única no país. As escolas superiores de medicina e de farmácia, bem como as escolas politécnicas de Lisboa e do Porto, foram convertidas em faculdades e integradas nas recém-criadas universidades. Foi assim que, em 1911, Ferreira da Silva foi nomeado diretor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, chegando a exercer o cargo de vice-reitor da última, entre 1918 e 1921. 

Em meados do século XIX, a cidade de Porto converteu-se num dos polos económicos mais importantes do país, graças ao desenvolvimento de novas indústrias e do comércio, principalmente relacionado com a exportação de vinho. Devido ao crescimento económico da cidade e ao aumento da atividade comercial, a Câmara Municipal planeou a criação de um laboratório químico municipal, em 1881. Este laboratório seguia o exemplo de laboratórios similares criados em outras cidades europeias com o objetivo de perseguir a fraude, combater as falsificações de géneros alimentares e melhorar a saúde pública da população. Ferreira da Silva foi nomeado diretor deste laboratório, em 1883, ano em que viajou até França para conhecer o laboratório municipal de Paris, a fim de melhor organizar a instalação do novo laboratório do Porto, aberto ao público, em Junho de 1884. Este laboratório tornou-se num dos mais prestigiados do país, pois não só se realizavam ali análises requisitadas oficialmente, mais também numerosas investigações originais, além de serem ministrados cursos práticos a estudantes de farmácia, a partir de 1903. Entre 1888 e 1889, o laboratório foi ampliado, passando a albergar um Posto Fotométrico, destinado a avaliar a qualidade do gás de iluminação; entre 1902 e 1903, foram efetuadas novas ampliações que permitiram criar uma secção de bacteriologia. A grande maioria das análises realizadas destinava-se a averiguar possíveis falsificações de substâncias alimentares e suas falsificações; em menor quantidade, também se realizavam análises clínicas, toxicológicas, de medicamentos, produtos industriais e comerciais, adubos e terras.

Um exemplo da variedade de usos do laboratório dirigido por Ferreira da Silva foi o seu envolvimento no processo judicial em que o médico Vicente Urbino de Freitas foi acusado de envenenamento mortal com alcaloides de vários dos seus familiares, em 1890. Ferreira da Silva foi um dos peritos químicos nomeados pelo tribunal judicial, enquanto Augusto Rocha, professor de patologia geral da Universidade de Coimbra e conhecido republicano, atuou como perito da defesa. Este caso, amplamente noticiado, foi reportado em influentes revistas médicas como A Medicina Contemporâneae a Coimbra Médica, a última porta-voz das posições defendidas por Augusto Rocha, seu fundador e diretor até 1900. No entanto, Ferreira da Silva aproveitou os instrumentos existentes no seu laboratório para aperfeiçoar o estudo de novas reações da cocaína que permitissem identificar esta substância com maior certeza. Graças a este trabalho, conseguiu esclarecer o caso e persuadir o juiz, apesar do prestígio do catedrático de Coimbra, da culpa de Urbino de Freitas que, assim, foi condenado a pena de prisão. Este caso reforçou, naturalmente, a autoridade científica e a popularidade de Ferreira da Silva.

Em 1907, Ferreira da Silva viu-se envolvido em outro complexo processo judicial, no qual se defrontaram interesses económicos relacionados com as análises industriais realizadas no laboratório que dirigia e questões de política local. Efetivamente, em 1907, foi acusado de irregularidades económicas relacionadas com as análises de açúcares e melaços encomendadas pela alfândega do Porto. Praticamente desde a sua criação que o laboratório realizava análises aduaneiras; por exemplo, no período entre 1886 e 1896 foram analisadas 159 amostras de mercadorias várias, principalmente óleos minerais e vegetais, gorduras diversas, sodas e potassas. Apesar de contar com o apoio do diretor da alfândega e de posteriormente ter sido declarado inocente, Ferreira da Silva nunca mais efetuou análises de âmbito aduaneiro. Além disso, a Câmara Municipal do Porto, a pretexto deste caso, encerrou o laboratório. 

Os motivos da Câmara do Porto parecem ter estado relacionados com o desejo das autoridades municipais de poupar despesas, além de considerarem que as análises químicas poderiam ser realizadas em outros laboratórios existentes na cidade, como o laboratório químico-agrícola e o laboratório de higiene. Todavia, este caso foi bem mais complexo pois nele se refletiram as tensões políticas existentes na cidade, nos anos que precederam a queda da monarquia. Havia, então, uma ampla maioria republicana na Câmara Municipal que não veria Ferreira da Silva com bons olhos, uma vez que este não ocultava as suas posições católicas, monárquicas e conservadoras, além de que fora nomeado Par do Reino, em 1894, e Conselheiro de Sua Majestade. 

O encerramento do laboratório teve lugar, em 1907, e o do Posto Fotométrico, em 1910. Após diversos recursos administrativos e judiciais, os instrumentos e a biblioteca do laboratório da cidade, acabaram por ser doados ao laboratório de química da Faculdade de Ciências, onde Ferreira da Silva lecionava, tendo-se comprometido a Câmara a requerer a este laboratório as análises químicas de que precisasse e a reintegrar o seu responsável na função de diretor do Posto Fotométrico, o que veio a ocorrer em 1917. A fórmula encontrada só foi possível graças ao prestígio científico de Ferreira da Silva e aos benefícios económicos que as suas análises traziam às associações comerciais da cidade, bem como às numerosas casas produtoras de vinhos do Porto que o apoiaram em todos os momentos.  

A utilidade das análises químicas de Ferreira da Silva para a economia da cidade e da região foi compreendida logo à data de abertura do laboratório, na década de 1880, quando se gerou uma controvérsia científica entre o Brasil e Portugal relacionada com a origem e os limites máximos de ácido salicílico, permitidos nos vinhos. Os resultados das análises realizadas nos laboratórios das alfândegas do Brasil não coincidiam com os dos laboratórios oficiais portugueses, o que implicou que os vinhos nacionais perdessem, durante algum tempo, o acesso ao importante mercado brasileiro. Por solicitação dos viticultores e exportadores de vinhos do Porto, Ferreira da Silva investigou esta questão e concluiu que a controvérsia se devia ao uso de processos e técnicas de análise diferentes e com sensibilidades distintas, em Portugal e no Brasil. Por isso, os exportadores portugueses adaptaram os controlos químicos realizados ao vinho do Porto para que os métodos analíticos tivessem uma sensibilidade e resultados semelhantes aos exigidos pelas autoridades brasileiras, o que lhes permitiu retomar e continuar as suas exportações para aquele país.

Dificuldades e problemas como este convenceram o governo português da necessidade de estabelecer métodos de análises padronizados que ajudassem a obter resultados fiáveis, uniformes, e tão incontroversos quanto possível. Em 1895, foi criada a Comissão de Unificação dos Processos de Analyse dos Vinhos, Azeites e Vinagres para padronizar os métodos analíticos dos laboratórios de agricultura portugueses. Esta comissão foi presidida por Ferreira da Silva, juntamente com outros oito químicos e agrónomos nacionais. Os trabalhos realizados por esta comissão, também reforçaram os interesses profissionais de Ferreira da Silva, uma vez que os serviços de fiscalização dos géneros alimentícios se distanciaram da esfera de ação dos médicos e das autoridades sanitárias vinculadas ao Ministério do Reino, para passarem a ser controladas pela Direção-geral da Agricultura do Ministério das Obras Públicas que dispunha de químicos-peritos e de laboratórios especiais. Em 1904, esta comissão deu lugar à Commissão Technica dos Methodos Chimico-analyticos, também dirigida por Ferreira da Silva, e ampliou o seu âmbito de actuação a muitos outros laboratórios do Estado.

O Laboratorio Municipal de Chimica do Porto foi a primeira sede da Revista de Chimica Pura e Applicada (RCPA). Esta revista foi fundada em 1905, em resultado das colaborações científicas estabelecidas no âmbito das comissões dos métodos químico-analíticos, e sucedeu à Revista Chimico-Pharmaceutica, publicada na Escola de Farmácia do Porto, entre 1903 e 1904. Além de Ferreira da Silva, os outros fundadores da RCPA foram José Pereira Salgado, professor no laboratório químico da Academia Politécnica do Porto e Alberto de Aguiar, professor da Escola de Medicina da mesma cidade. Alguns dos objetivos iniciais da revista foram a aproximação entre a química e a medicina, em Portugal, e a reforma do ensino de farmácia, com o intuito de reforçar substancialmente os conhecimentos em química e em bromatología destes profissionais. Os contactos internacionais de Ferreira da Silva contribuíram consideravelmente para o sucesso da revista, que não só passou a ser distribuída no estrangeiro, mas também conseguiu que diversos químicos e cientistas de outros países enviassem artigos e trabalhos. A consolidação da revista coincidiu com o encerramento do Laboratório Municipal do Porto, pelo que Ferreira da Silva também a utilizou para reivindicar a utilidade dos trabalhos realizados e a necessidade de construir novas e melhores instituições dedicadas à promoção da química em Portugal.

Fruto desse interesse em institucionalizar a química portuguesa, Ferreira da Silva foi também um dos principais impulsionadores da Sociedade Portuguesa de Química, fundada em 1911, um momento-chave na história política do país. Os objetivos principais da sociedade foram o fortalecimento das relações entre a química pura e a aplicada, o fomento da industrialização do país, a organização de conferências e congressos, a criação de uma biblioteca especializada em química e a renovação de relações científicas com outras sociedades internacionais. A sede da sociedade foi instalada em Lisboa, e a Revista de Chimica Pura e Applicada passou a ser a sua publicação oficial. Ferreira da Silva foi eleito presidente da sociedade, Hugo Mastbaum secretário e Amando Arthur de Seabra, tesoureiro. Em 1926, o nome e âmbito sociedade mudaram, passando para Sociedade Portuguesa de Química e de Física e, em 1974, esta dividiu-se na Sociedade Portuguesa de Química e na Sociedade Portuguesa de Física.

Nos últimos anos da sua vida, Ferreira da Silva exerceu diversos cargos honoríficos e foi alvo de inúmeras distinções. Foi membro de diversas academias internacionais e ocupou cargos institucionais, nomeadamente na Sociedade Portuguesa de Química. A sua atividade científica foi-se reduzindo significativamente, não só devido ao encerramento do laboratório municipal, mas também a uma característica comum aos peritos do sul de Europa, neste período. Muitos deles, frequentemente aproveitaram a sua autoridade científica para impulsionar e gerir atividades que pudessem contribuir para a consolidação das suas disciplinas localmente. Apesar de dificuldades e resistências, Ferreira da Silva foi capaz de construir uma carreira científica prestigiada, para a qual contribuíram elementos de vária ordem: não só os conhecimentos teóricos e as competências práticas, mas também as viagens científicas e as relações sociais e boa sintonia com as elites comerciais e exportadoras do Porto. Em todo caso, no âmbito específico da química analítica e das suas aplicações comerciais e forenses, Ferreira da Silva foi um dos peritos em química mais conhecidos do país, capaz de circular entre diferentes espaços e exercer múltiplas funções como as de docente, cientista, pedagogo e divulgador, empenhado em consolidar novos públicos e alargar a esfera de intervenção da química e das análises químicas, em Portugal.

Ignacio Suay-Matallana
EuChemS Working Party of History of Chemistry

Obras

Silva, António Joaquim Ferreira da. Estudo sobre as classificaçoes chimicas dos compostos orgânicos. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1877.

Silva, António Joaquim Ferreira da. Tratado de chimica elementar. Porto: Livraria Universal de Magalhães & Moniz, 1884.

Souto, Agostinho Antonio do, Joaquim Pinto de Azevedo, Manoel Rodrigues da Silva e António Joaquim Ferreira da Silva, O caso medico-legal Urbino de Freitas: observações e criticas, relatorios, documentos. Porto: Imprensa Portugueza, 1893.

Silva, António Joaquim Ferreira da. Relatórios do Laboratório Municipal de Chimica do Porto no período de 1884 a 1896. Porto: Typographia A. da Fonseca Vasconcellos, 1897.

Silva, António Joaquim Ferreira da. Relance de vista sobre a questão dos vinhos portuguezes no Brazil em 1900‒1901: notas historicas e criticas. Lisboa: Typographia vapor da Pap. Estevão Nunes & Fos, 1901.

Silva, António Joaquim Ferreira da. Primeiros elementos de chimica analytica mineral e orgânica. Porto: Officinas do “Comercio do Porto”, 1904.

Silva, António Joaquim Ferreira da. Recursos e peritos na fiscalisação sanitaria no Porto em 1903. Porto: Imprensa Portuguesa, 1905.

Silva, António Joaquim Ferreira da. Documentos sobre os trabalhos de química aplicada à higiene do Laboratório Municipal de Química do Porto: 1884‒1906. Coimbra: Imprensa de Universidade, 1910.

Silva, António Joaquim Ferreira da. Sciencia e crenças,. Braga: Cruz e Companhia, 1914.

Silva, António Joaquim Ferreira da. A suposta salicilagem dos vinhos portugueses no Brasil (1900‒1902): memórias, notas e documentos Coimbra: Imprensa da Universidade, 1919.

Arquivos

Arquivo Histórico Municipal do Porto

Arquivo da Universidade do Porto

Bibliografia sobre o biografado

Alegre, Cristina Maria Martins Alegre. “O papel do Laboratorio Municipal de Chimica do Porto e de Ferreira da Silva na implementação e ensino da Química no fim do séc. XIX.” Dissertação de mestrado, Universidade de Lisboa, 2006.

Alves, Jorge Fernandes e Rita C. Alves. A. J. Ferreira da Silva‒Nos caminhos da química. Porto: Universidade do  Porto Editorial, 2013.

Alves, Jorge Fernandes e Rita C. Alves. “Ferreira da Silva e o Laboratório Químico Municipal do Porto (1884‒1917).” Estudos do Século XX 12 (2012): 13‒30.

Leitão, Vanda, Ana Carneiro e Ana Simões. “Portugal: Tackling a Complex Chemical Equation: The Portuguese Society of Chemistry, 1911‒1926.” In Creating Networks in Chemistry. The Founding and Early History of Chemical Societies in Europe, ed. Anita Kildebæk Nielsen; Soňa Štrbáňová, 257–280. London: The Royal Society of Chemistry, 2008.

“Homenagem ao Dr. António Joaquim Ferreira da Silva.” Revista de Chimica Pura e Applicada 16 (1‒3) (1924): 1‒82.

Garrett, António de Almeida

Porto, 22 setembro 1884 – 19 novembro 1961 

Palavras-chave: Faculdade de Medicina, Porto, pediatria, epidemias.

António de Almeida Garrett foi filho de Francisco Xavier de Almeida Garrett e de Maria Margarida da Costa Maia e sobrinho-bisneto de João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, o primeiro visconde de Almeida Garrett, figura fundamental da literatura portuguesa, político, par do reino e grande impulsionador do teatro em Portugal. 

Casou no Porto em 8 de julho de 1915 com Maria Luísa Ruiz Hernandez, nascida em 22 de junho de 1884. O casal teve três filhos: António Ruiz, José Ruiz e João Ruiz de Almeida Garrett, nascidos em 1917, 1919 e 1923, respetivamente. 

Licenciado em Medicina na Escola Médico-Cirúrgica do Porto em 1906, especializou-se em Pediatria, desenvolvendo uma carreira médica e docente de destaque, para além do desempenho de importantes cargos públicos. A partir de 1912, foi professor de Pediatria e de Higiene na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, criada em 1911. Entre 1931 e 1954 exerceu o cargo de diretor desta faculdade. 

Teve longa carreira como funcionário na área da saúde pública. Foi subdelegado, delegado e, em 1934, inspetor dos serviços de saúde do Porto. Em simultâneo com a sua carreira docente, durante a qual participou em vários em júris de licenciatura e de doutoramento nas áreas da pediatria, higiene e termalismo, o seu interesse na vida política levou-o a candidatar-se ao Parlamento. De ideologia conservadora e católico convicto, foi eleito deputado em 1915 pelo círculo eleitoral de Vila Nova de Gaia, pelas listas da União Republicana. No início de 1918, desempenhou o cargo de vereador da Câmara Municipal do Porto, com o pelouro da Higiene, tendo participado ativamente na organização dos serviços de saúde da câmara para o combate à epidemia de tifo exantemático, especialmente no que dizia respeito aos balneários públicos e à lavagem das ruas e ilhas, onde a doença grassava com maior intensidade. Foi apoiante de Sidónio Pais e foi eleito deputado em 1918 pelo círculo do Porto. Na sua carreira política, destacam-se ainda os cargos de presidente da Junta Geral do Distrito do Porto entre 1926 e 1936 e de presidente da Junta da Província do Douro Litoral em 1940.

O seu reconhecido trabalho na área da saúde pública e a sua filiação aos conceitos higienistas e ao trabalho de Ricardo Jorge, assim como a atividade política e o apoio a Sidónio Pais, mereceram-lhe a nomeação, em 18 de maio de 1918, para o cargo de comissário do governo na cidade do Porto para combate à epidemia de tifo exantemático que grassava nesta cidade desde dezembro do ano anterior e se prolongou até março do ano seguinte. Sucedeu ao professor Augusto de Almeida Monjardino, que tinha sido nomeado em 23 de fevereiro de 1918. Manteve-se no cargo durante todo o resto do ano, acompanhando igualmente a epidemia de gripe pneumónica que, desde agosto desse ano, e com maior intensidade em outubro, provocou em Portugal um número de mortos estimado em mais de 135 000, apesar de as estatísticas oficiais apontarem para 59 000.

Neste ano dramático para o Porto, o comissário do governo colocou em prática fortes medidas higiénicas e de isolamento dos doentes, com a participação ativa das forças policiais, nem sempre bem recebidas pela população do Porto. Aliás, dadas as semelhanças das epidemias, muitas das medidas sanitárias foram herdadas daquelas postas em prática por Ricardo Jorge na epidemia de peste bubónica de 1899. Usaram-se os mesmos balneários públicos, os banhos obrigatórios, e ainda se construiram mais. Igualmente foram realizadas visitas domiciliárias por parte dos subdelegados de saúde, acompanhados pelas autoridades policiais, que resultavam, em grande parte das vezes, na queima das roupas e das próprias casas dos doentes e de todos os seus familiares e vizinhos, para eliminação do agente de transmissão da doença, na altura já perfeitamente identificado: o piolho. As escolas fecharam e foram obrigatórias guias sanitárias para apresentação nas estações de caminhos de ferro. 

No que diz respeito à epidemia de gripe, a sua transmissão pelo ar tornou desnecessárias as guias sanitárias, mas foram tomadas medidas preventivas de isolamento dos doentes, fecho das escolas, proibição de feiras e mercados, assim como foram amplamente divulgadas recomendações higiénicas e fornecidos serviços médicos e farmacêuticos gratuitos para os pobres, criando-se toda uma rede de assistência domiciliária a famílias inteiras atacadas e de transporte para os hospitais.

O trabalho de combate às epidemias realizado por este clínico foi reconhecido nos jornais pela sua competência, tendo sido descrito como incansável na adopção de todas as medidas tendentes a terminar de vez com a temerosa epidemia.

De facto, a sua obra publicada revela atualidade a nível das mais recentes descobertas científicas internacionais. Por exemplo, quando publicou o seu artigo sobre “Epidemiologia e profilaxia do tabardilho” (tifo exantemático), António de Almeida Garrett citou os trabalhos de Henrique da Rocha Lima, um bacteriologista brasileiro que, em 1916, tinha isolado a bactéria causadora da doença. 

Em 1927, colaborou com Ricardo Jorge na reforma dos serviços sanitários e organizou o II Congresso Nacional de Medicina. Em 1932, criou o Instituto de Puericultura do Porto, do qual foi diretor. Foi ainda vogal do Conselho Superior de Higiene, presidente da Associação dos Médicos do Norte de Portugal e presidente do Centro Nacional de Estudos Demográficos.

António de Almeida Garrett foi também um nome de relevo do Estado Novo, não só pelos cargos que ocupou, mas também por pertencer a um dos poderosos grupos familiares, figuras de proa da banca nas décadas de 1930 e 1940. 

A sua vasta obra soma quase três dezenas de livros e debruça-se sobre temática variada, incidindo maioritariamente sobre as especialidades médicas da Pediatria, Higiene, Alimentação e Demografia. Destaca-se ainda a atenção dada às áreas da Epidemiologia, da Medicina Geral e ainda à Literatura e à cidade do Porto. 

Foi o fundador e diretor da revista mensal Portugal Médico: arquivos portugueses de medicina, publicada em Lisboa entre 1915 e 1966. Publicou diversos artigos em revistas científicas, incluindo a revista Clínica, higiene e hidrologia, editada entre 1935 e 1957 por Armando Narciso e especializada em higiene e termalismo.

Maria Antónia Pires de Almeida
CIES, ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa

Obras

Garrett, António de Almeida. Sobre a mortalidade infantil (até aos 5 anos) na cidade do Porto e os meios de a evitar. Porto: Tip. Emp. Guedes, 1909.

Garrett, António de Almeida. “Epidemiologia e profilaxia do tabardilho.” Portugal Médico 2 (1918): 105–106.

Garrett, António de Almeida. “Contra a epidemia de gripe pneumónica, em 1918, no Norte do País (Relatório).” Portugal Médico 11 (1919): 653–673.

Garrett, António de Almeida. Como organisar a luta contra a mortalidade infantil. Lisboa: Imprensa Nacional, 1928.

Garrett, António de Almeida. Costumes alimentares dos portugueses. Porto: Imprensa Portuguesa, 1940.

Garrett, António de Almeida. Tendências demográficas de Portugal Metropolitano. Porto: Imprensa Portuguesa, 1940.

Garrett, António de Almeida. Estatística demográfica e luta contra a mortalidade infantil. Porto: Tip. Imprensa Portuguesa, 1952.

Garrett, António de Almeida. Dos erros de interpretação de sombras radiológicas-pulmonares. Porto: s. n., 1953.

Garrett, António de Almeida. Relatório do delegado português à Conferência europeia de estudo sobre o ensino post-universitário da higiene, da medicina preventiva e da medicina social. Lisboa: Oficinas Gráficas da Casa Portuguesa, 1953.

Garrett, António de Almeida. Aspectos gerais da evolução demográfica no Portugal metropolitano. Porto: Imprensa Portuguesa, 1954.

Bibliografia sobre o biografado

Almeida, Maria Antónia Pires de. Saúde pública e higiene na imprensa diária em anos de epidemias, 1854-1918. Lisboa: Colibri, 2013.

Marques, A. H. de Oliveira, ed. Parlamentares e ministros da 1ª República (1910-1926). Lisboa: Edições Afrontamento e Assembleia da República, 2000.

Rosas, Fernando. “O Estado Novo (1926-1974).” In História de Portugal, ed. José Mattoso, vol. 7. Lisboa: Círculo de Leitores, 1993.

Sobral, José Manuel, Maria Luísa Lima, Paula Castro e Paulo Silveira e Sousa, ed. A Pandemia Esquecida. Olhares comparados sobre a Pneumónica 1918-1919. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2009.