Silva, António Joaquim Ferreira da

Cucujães, Aveiro, 28 julho 1853 — Santiago de Riba-Ul, Aveiro, 23 Agosto 1923

Palavras-chave: Química, Análises, Laboratório, Porto.

António Joaquim Ferreira da Silva nasceu no seio de uma família de proprietários, com terras em Portugal e no Brasil. Ferreira da Silva realizou os seus estudos secundários, no Porto (1865‒1870), permanecendo nesta cidade para cursar algumas disciplinas na Academia Politécnica e no Instituto Industrial e, também, teologia no Seminário Episcopal. De facto, as suas primeiras publicações são reflexo das profundas convicções religiosas que manteve ao longo da vida a par das suas atividades científicas, sendo disso exemplo um dos últimos livros que escreveu intitulado Sciencia e crenças, publicado em 1914. Em 1872, abandonou os estudos eclesiásticos e matriculou-se na Universidade de Coimbra, tendo-lhe sido conferido o grau de bacharel em filosofia natural, em 1876. A partir de então, exerceu a sua atividade profissional em diversas instituições científicas e académicas do Porto, dedicando-se ao estudo e à prática da química. 

Em 1942, o volume especial de homenagem editado pela Revista de Chimica Pura e Applicada apresentou—além de diversas notas biográficas e dos tradicionais obituários—uma lista com 330 trabalhos publicados por Ferreira da Silva, entre 1872 e 1919. Os seus tratados, livros de texto, monografias científicas e publicações em diversos diários profissionais mostram uma grande variedade de interesses científicos entre os que se destacam a química toxicológica e legal, a hidrología, a química sanitária, a química merceológica ou comercial, a química agrícola e, principalmente, a química analítica.

Ferreira da Silva casou-se no Brasil, em 1880, com a sua prima em segundo grau, Idalina de Sousa Godinho Ferreira (1864–1922), filha do Visconde de Santiago de Riba-Ul, José Joaquim Godinho (1836–1885), com quem teve catorze filhos, embora nenhum deles tenha seguido as pisadas paternas. Em 1882, viajou de novo até ao Brasil por razões familiares, mas aproveitou, também, para visitar os laboratórios de química e toxicologia da Escola Politécnica e da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Apesar de não ter realizado viagens de estudo enquanto estudante, Ferreira da Silva fez numerosas excursões científicas ao estrangeiro—principalmente a França, país que mais o influenciou do ponto de vista científico—que não só lhe permitiram adquirir novos conhecimentos e competências, mas também o ajudaram a criar uma rede de contactos com cientistas de outros países que reforçaram seu papel de perito.

As múltiplas viagens que realizou combinavam interesses variados—desde o estudo científico do gás de iluminação até à organização das escolas superiores, como no caso da viagem a Paris, em 1889—passando por participações em congressos e organismos internacionais, algumas vezes com funções oficiais ou cargos honoríficos. Assim, foi membro do Congresso para a Reforma da Nomenclatura Química em Genebra (1892); membro do comité promotor do II Congresso de Química Aplicada, em Paris (1896); presidente da Comissão portuguesa no III Congresso de Química Aplicada, em Viena (1898); vice-presidente honorário do IV Congresso Internacional de Química Aplicada, em Paris (1900); presidente do Comité português e vice-presidente honorário do V Congresso Internacional de Química Aplicada, em Berlim (1903); presidente do comité português do Vl Congresso Internacional de Química Aplicada, em Roma (1906); presidente do comité português do VII Congresso de Química, em Londres (1909), do II Congresso Internacional de Higiene Alimentar e do II Congresso Internacional de Radiologia e Eletricidade, em Bruxelas (1909); delegado oficial português e vice-presidente da Conferência Internacional de Paris para estudo da unificação dos métodos de análise das substâncias alimentares (1910), etc.

Ferreira da Silva iniciou a carreira docente no Porto, em 1877, ano em que publicou seu primeiro trabalho científico intitulado Estudo sobre as classificaçoes chimicas dos compostos orgânicos, tendo sido nomeado lente substituto da disciplina de “Chymica inorganica e organica,” na Academia Politécnica, sendo promovido a lente proprietário, em 1880. No ano anterior, em 1879, Ferreira da Silva organizara um curso voluntário e gratuito para os estudantes da Academia Politécnica do Porto, denominado Curso de chymica prático, que o ajudou a convencer as autoridades académicas da utilidade desta matéria e da necessidade de reorganizar os estudos de química, pelo que, em 1885, foi criada uma nova cadeira de “Chymica organica e analytica” que se conservou até sua morte. 

Em 1902, foi nomeado professor da disciplina de “Química legal e sanitária”, da Escola de Farmácia, anexa à Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Em 1921, Ferreira da Silva foi nomeado catedrático de “Toxicologia e análises toxicológicas” na nova Faculdade de Farmácia do Porto e, em 1922, esta instituição outorgou-lhe o grau de Doutor em Farmácia. Além destes cargos, entre 1917 e 1919, Ferreira da Silva acumulou a docência da cadeira de “Toxicologia forense” na Facultade de Medicina do Porto. Enquanto docente, publicou diferentes livros de texto que foram editados em numerosas ocasiões, como por exemplo o Tratado de chimica elementar (Porto, 1884) e Primeiros elementos de chimica analytica mineral e organica (Porto, 1904). Ferreira da Silva teve um papel fundamental na transformação das instituições de ensino portuenses, no âmbito da reforma republicana de 1911. As grandes mudanças políticas decorrentes da implantação da Primeira República implicaram, também, uma profunda reforma do sistema universitário pelo que foram criadas duas universidades, uma em Lisboa e outra no Porto, além da Universidade de Coimbra, até ali a única no país. As escolas superiores de medicina e de farmácia, bem como as escolas politécnicas de Lisboa e do Porto, foram convertidas em faculdades e integradas nas recém-criadas universidades. Foi assim que, em 1911, Ferreira da Silva foi nomeado diretor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, chegando a exercer o cargo de vice-reitor da última, entre 1918 e 1921. 

Em meados do século XIX, a cidade de Porto converteu-se num dos polos económicos mais importantes do país, graças ao desenvolvimento de novas indústrias e do comércio, principalmente relacionado com a exportação de vinho. Devido ao crescimento económico da cidade e ao aumento da atividade comercial, a Câmara Municipal planeou a criação de um laboratório químico municipal, em 1881. Este laboratório seguia o exemplo de laboratórios similares criados em outras cidades europeias com o objetivo de perseguir a fraude, combater as falsificações de géneros alimentares e melhorar a saúde pública da população. Ferreira da Silva foi nomeado diretor deste laboratório, em 1883, ano em que viajou até França para conhecer o laboratório municipal de Paris, a fim de melhor organizar a instalação do novo laboratório do Porto, aberto ao público, em Junho de 1884. Este laboratório tornou-se num dos mais prestigiados do país, pois não só se realizavam ali análises requisitadas oficialmente, mais também numerosas investigações originais, além de serem ministrados cursos práticos a estudantes de farmácia, a partir de 1903. Entre 1888 e 1889, o laboratório foi ampliado, passando a albergar um Posto Fotométrico, destinado a avaliar a qualidade do gás de iluminação; entre 1902 e 1903, foram efetuadas novas ampliações que permitiram criar uma secção de bacteriologia. A grande maioria das análises realizadas destinava-se a averiguar possíveis falsificações de substâncias alimentares e suas falsificações; em menor quantidade, também se realizavam análises clínicas, toxicológicas, de medicamentos, produtos industriais e comerciais, adubos e terras.

Um exemplo da variedade de usos do laboratório dirigido por Ferreira da Silva foi o seu envolvimento no processo judicial em que o médico Vicente Urbino de Freitas foi acusado de envenenamento mortal com alcaloides de vários dos seus familiares, em 1890. Ferreira da Silva foi um dos peritos químicos nomeados pelo tribunal judicial, enquanto Augusto Rocha, professor de patologia geral da Universidade de Coimbra e conhecido republicano, atuou como perito da defesa. Este caso, amplamente noticiado, foi reportado em influentes revistas médicas como A Medicina Contemporâneae a Coimbra Médica, a última porta-voz das posições defendidas por Augusto Rocha, seu fundador e diretor até 1900. No entanto, Ferreira da Silva aproveitou os instrumentos existentes no seu laboratório para aperfeiçoar o estudo de novas reações da cocaína que permitissem identificar esta substância com maior certeza. Graças a este trabalho, conseguiu esclarecer o caso e persuadir o juiz, apesar do prestígio do catedrático de Coimbra, da culpa de Urbino de Freitas que, assim, foi condenado a pena de prisão. Este caso reforçou, naturalmente, a autoridade científica e a popularidade de Ferreira da Silva.

Em 1907, Ferreira da Silva viu-se envolvido em outro complexo processo judicial, no qual se defrontaram interesses económicos relacionados com as análises industriais realizadas no laboratório que dirigia e questões de política local. Efetivamente, em 1907, foi acusado de irregularidades económicas relacionadas com as análises de açúcares e melaços encomendadas pela alfândega do Porto. Praticamente desde a sua criação que o laboratório realizava análises aduaneiras; por exemplo, no período entre 1886 e 1896 foram analisadas 159 amostras de mercadorias várias, principalmente óleos minerais e vegetais, gorduras diversas, sodas e potassas. Apesar de contar com o apoio do diretor da alfândega e de posteriormente ter sido declarado inocente, Ferreira da Silva nunca mais efetuou análises de âmbito aduaneiro. Além disso, a Câmara Municipal do Porto, a pretexto deste caso, encerrou o laboratório. 

Os motivos da Câmara do Porto parecem ter estado relacionados com o desejo das autoridades municipais de poupar despesas, além de considerarem que as análises químicas poderiam ser realizadas em outros laboratórios existentes na cidade, como o laboratório químico-agrícola e o laboratório de higiene. Todavia, este caso foi bem mais complexo pois nele se refletiram as tensões políticas existentes na cidade, nos anos que precederam a queda da monarquia. Havia, então, uma ampla maioria republicana na Câmara Municipal que não veria Ferreira da Silva com bons olhos, uma vez que este não ocultava as suas posições católicas, monárquicas e conservadoras, além de que fora nomeado Par do Reino, em 1894, e Conselheiro de Sua Majestade. 

O encerramento do laboratório teve lugar, em 1907, e o do Posto Fotométrico, em 1910. Após diversos recursos administrativos e judiciais, os instrumentos e a biblioteca do laboratório da cidade, acabaram por ser doados ao laboratório de química da Faculdade de Ciências, onde Ferreira da Silva lecionava, tendo-se comprometido a Câmara a requerer a este laboratório as análises químicas de que precisasse e a reintegrar o seu responsável na função de diretor do Posto Fotométrico, o que veio a ocorrer em 1917. A fórmula encontrada só foi possível graças ao prestígio científico de Ferreira da Silva e aos benefícios económicos que as suas análises traziam às associações comerciais da cidade, bem como às numerosas casas produtoras de vinhos do Porto que o apoiaram em todos os momentos.  

A utilidade das análises químicas de Ferreira da Silva para a economia da cidade e da região foi compreendida logo à data de abertura do laboratório, na década de 1880, quando se gerou uma controvérsia científica entre o Brasil e Portugal relacionada com a origem e os limites máximos de ácido salicílico, permitidos nos vinhos. Os resultados das análises realizadas nos laboratórios das alfândegas do Brasil não coincidiam com os dos laboratórios oficiais portugueses, o que implicou que os vinhos nacionais perdessem, durante algum tempo, o acesso ao importante mercado brasileiro. Por solicitação dos viticultores e exportadores de vinhos do Porto, Ferreira da Silva investigou esta questão e concluiu que a controvérsia se devia ao uso de processos e técnicas de análise diferentes e com sensibilidades distintas, em Portugal e no Brasil. Por isso, os exportadores portugueses adaptaram os controlos químicos realizados ao vinho do Porto para que os métodos analíticos tivessem uma sensibilidade e resultados semelhantes aos exigidos pelas autoridades brasileiras, o que lhes permitiu retomar e continuar as suas exportações para aquele país.

Dificuldades e problemas como este convenceram o governo português da necessidade de estabelecer métodos de análises padronizados que ajudassem a obter resultados fiáveis, uniformes, e tão incontroversos quanto possível. Em 1895, foi criada a Comissão de Unificação dos Processos de Analyse dos Vinhos, Azeites e Vinagres para padronizar os métodos analíticos dos laboratórios de agricultura portugueses. Esta comissão foi presidida por Ferreira da Silva, juntamente com outros oito químicos e agrónomos nacionais. Os trabalhos realizados por esta comissão, também reforçaram os interesses profissionais de Ferreira da Silva, uma vez que os serviços de fiscalização dos géneros alimentícios se distanciaram da esfera de ação dos médicos e das autoridades sanitárias vinculadas ao Ministério do Reino, para passarem a ser controladas pela Direção-geral da Agricultura do Ministério das Obras Públicas que dispunha de químicos-peritos e de laboratórios especiais. Em 1904, esta comissão deu lugar à Commissão Technica dos Methodos Chimico-analyticos, também dirigida por Ferreira da Silva, e ampliou o seu âmbito de actuação a muitos outros laboratórios do Estado.

O Laboratorio Municipal de Chimica do Porto foi a primeira sede da Revista de Chimica Pura e Applicada (RCPA). Esta revista foi fundada em 1905, em resultado das colaborações científicas estabelecidas no âmbito das comissões dos métodos químico-analíticos, e sucedeu à Revista Chimico-Pharmaceutica, publicada na Escola de Farmácia do Porto, entre 1903 e 1904. Além de Ferreira da Silva, os outros fundadores da RCPA foram José Pereira Salgado, professor no laboratório químico da Academia Politécnica do Porto e Alberto de Aguiar, professor da Escola de Medicina da mesma cidade. Alguns dos objetivos iniciais da revista foram a aproximação entre a química e a medicina, em Portugal, e a reforma do ensino de farmácia, com o intuito de reforçar substancialmente os conhecimentos em química e em bromatología destes profissionais. Os contactos internacionais de Ferreira da Silva contribuíram consideravelmente para o sucesso da revista, que não só passou a ser distribuída no estrangeiro, mas também conseguiu que diversos químicos e cientistas de outros países enviassem artigos e trabalhos. A consolidação da revista coincidiu com o encerramento do Laboratório Municipal do Porto, pelo que Ferreira da Silva também a utilizou para reivindicar a utilidade dos trabalhos realizados e a necessidade de construir novas e melhores instituições dedicadas à promoção da química em Portugal.

Fruto desse interesse em institucionalizar a química portuguesa, Ferreira da Silva foi também um dos principais impulsionadores da Sociedade Portuguesa de Química, fundada em 1911, um momento-chave na história política do país. Os objetivos principais da sociedade foram o fortalecimento das relações entre a química pura e a aplicada, o fomento da industrialização do país, a organização de conferências e congressos, a criação de uma biblioteca especializada em química e a renovação de relações científicas com outras sociedades internacionais. A sede da sociedade foi instalada em Lisboa, e a Revista de Chimica Pura e Applicada passou a ser a sua publicação oficial. Ferreira da Silva foi eleito presidente da sociedade, Hugo Mastbaum secretário e Amando Arthur de Seabra, tesoureiro. Em 1926, o nome e âmbito sociedade mudaram, passando para Sociedade Portuguesa de Química e de Física e, em 1974, esta dividiu-se na Sociedade Portuguesa de Química e na Sociedade Portuguesa de Física.

Nos últimos anos da sua vida, Ferreira da Silva exerceu diversos cargos honoríficos e foi alvo de inúmeras distinções. Foi membro de diversas academias internacionais e ocupou cargos institucionais, nomeadamente na Sociedade Portuguesa de Química. A sua atividade científica foi-se reduzindo significativamente, não só devido ao encerramento do laboratório municipal, mas também a uma característica comum aos peritos do sul de Europa, neste período. Muitos deles, frequentemente aproveitaram a sua autoridade científica para impulsionar e gerir atividades que pudessem contribuir para a consolidação das suas disciplinas localmente. Apesar de dificuldades e resistências, Ferreira da Silva foi capaz de construir uma carreira científica prestigiada, para a qual contribuíram elementos de vária ordem: não só os conhecimentos teóricos e as competências práticas, mas também as viagens científicas e as relações sociais e boa sintonia com as elites comerciais e exportadoras do Porto. Em todo caso, no âmbito específico da química analítica e das suas aplicações comerciais e forenses, Ferreira da Silva foi um dos peritos em química mais conhecidos do país, capaz de circular entre diferentes espaços e exercer múltiplas funções como as de docente, cientista, pedagogo e divulgador, empenhado em consolidar novos públicos e alargar a esfera de intervenção da química e das análises químicas, em Portugal.

Ignacio Suay-Matallana
EuChemS Working Party of History of Chemistry

Obras

Silva, António Joaquim Ferreira da. Estudo sobre as classificaçoes chimicas dos compostos orgânicos. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1877.

Silva, António Joaquim Ferreira da. Tratado de chimica elementar. Porto: Livraria Universal de Magalhães & Moniz, 1884.

Souto, Agostinho Antonio do, Joaquim Pinto de Azevedo, Manoel Rodrigues da Silva e António Joaquim Ferreira da Silva, O caso medico-legal Urbino de Freitas: observações e criticas, relatorios, documentos. Porto: Imprensa Portugueza, 1893.

Silva, António Joaquim Ferreira da. Relatórios do Laboratório Municipal de Chimica do Porto no período de 1884 a 1896. Porto: Typographia A. da Fonseca Vasconcellos, 1897.

Silva, António Joaquim Ferreira da. Relance de vista sobre a questão dos vinhos portuguezes no Brazil em 1900‒1901: notas historicas e criticas. Lisboa: Typographia vapor da Pap. Estevão Nunes & Fos, 1901.

Silva, António Joaquim Ferreira da. Primeiros elementos de chimica analytica mineral e orgânica. Porto: Officinas do “Comercio do Porto”, 1904.

Silva, António Joaquim Ferreira da. Recursos e peritos na fiscalisação sanitaria no Porto em 1903. Porto: Imprensa Portuguesa, 1905.

Silva, António Joaquim Ferreira da. Documentos sobre os trabalhos de química aplicada à higiene do Laboratório Municipal de Química do Porto: 1884‒1906. Coimbra: Imprensa de Universidade, 1910.

Silva, António Joaquim Ferreira da. Sciencia e crenças,. Braga: Cruz e Companhia, 1914.

Silva, António Joaquim Ferreira da. A suposta salicilagem dos vinhos portugueses no Brasil (1900‒1902): memórias, notas e documentos Coimbra: Imprensa da Universidade, 1919.

Arquivos

Arquivo Histórico Municipal do Porto

Arquivo da Universidade do Porto

Bibliografia sobre o biografado

Alegre, Cristina Maria Martins Alegre. “O papel do Laboratorio Municipal de Chimica do Porto e de Ferreira da Silva na implementação e ensino da Química no fim do séc. XIX.” Dissertação de mestrado, Universidade de Lisboa, 2006.

Alves, Jorge Fernandes e Rita C. Alves. A. J. Ferreira da Silva‒Nos caminhos da química. Porto: Universidade do  Porto Editorial, 2013.

Alves, Jorge Fernandes e Rita C. Alves. “Ferreira da Silva e o Laboratório Químico Municipal do Porto (1884‒1917).” Estudos do Século XX 12 (2012): 13‒30.

Leitão, Vanda, Ana Carneiro e Ana Simões. “Portugal: Tackling a Complex Chemical Equation: The Portuguese Society of Chemistry, 1911‒1926.” In Creating Networks in Chemistry. The Founding and Early History of Chemical Societies in Europe, ed. Anita Kildebæk Nielsen; Soňa Štrbáňová, 257–280. London: The Royal Society of Chemistry, 2008.

“Homenagem ao Dr. António Joaquim Ferreira da Silva.” Revista de Chimica Pura e Applicada 16 (1‒3) (1924): 1‒82.

Albuquerque, Luís da Silva Mouzinho de (Albuquerque, Luiz da Silva Mousinho de)

Lisboa, 16 junho 1792 – Torres Vedras, 24 dezembro 1846

Palavras-chave: agronomia, química, reforma do ensino, engenharia, restauro.

Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque, mediador de conhecimentos científicos entre a Europa e Portugal na primeira metade do século XIX, distinguiu-se nas áreas da Agronomia, da Química, dos projetos de reforma do ensino e na Engenharia (Obras Públicas), tendo ainda sido percursor no restauro de monumentos históricos.

Quinto filho de um desembargador foi apadrinhado por D. Tomás Xavier de Lima, fundador da Real Biblioteca Pública. Aos cinco anos coube-lhe a carreira eclesiástica na Ordem de Jerusalém ou de Malta em que seu tio, frei José da Silva Ataíde, foi o último balio residente em Malta. 

As guerras napoleónicas deram-lhe, porém, um rumo diferente, não só pela conotação pró-francesa da família, como pela crise da Ordem de Malta após a tomada da ilha pelos franceses. Assim entrou para a Brigada Real de Marinha, frequentou a Real Academia de Marinha e, em 1812, já tinha completado o curso de Matemática, pedindo então para entrar como partidista do Observatório. 

Uma breve passagem pela agricultura no Fundão deu-lhe ensejo de escrever alguns artigos sobre temas agrícolas para a revista Anais das Ciências e das Artes que seu tio e sogro, Mascarenhas Neto, publicava em Paris. Publicou também em Paris o poema Geórgicas Portuguesas. Deslocou-se para junto do sogro em 1820. Aí completou a sua formação frequentando os laboratórios do Jardin des Plantes e assistindo aos cursos de Vauclin. 

Nos Anais publicou múltiplos estudos sobre técnicas e instrumentos entre os quais se destacam a técnica litográfica e a régua de cálculo e os seus usos. Os seus artigos sobre adubos foram, segundo Maria Carlos Radich, elementos fundamentais na ciência agronómica portuguesa, mostrando nele um sólido partidário da teoria orgânica e do método experimental. Publicou ainda um artigo sobre eletricidade em que defendeu a conjugação das experiências com a análise matemática que afirmou permitir confirmar as hipóteses. 

Em 1823 ofereceu às Cortes uma Memória sobre o estabelecimento da Instrução Pública em Portugal. A educação que propunha era influenciada pelas reformas revolucionárias francesas. Para além de um ensino primário (centrado no ensino das primeiras letras e destinado a todos os cidadãos) e de ensinos secundário e liceal (que visavam a especialização e o ensino profissional), criava três Academias que substituíam a Universidade. Nestas, as escolas viradas para o ensino das Ciências Naturais, da Matemática da Física e da Química representavam um esforço de compreensão da natureza e das suas leis. De salientar o carácter colegial da administração do ensino que voltará a propor em 1836, enquanto ministro do Reino. Com efeito, a 25 de janeiro de 1836 apresentou na Câmara dos Deputados um regulamento do ensino primário no reino e um regulamento provisório dos estudos maiores na cidade de Lisboa, que criava faculdades de Medicina, de Matemática, de Engenharia Civil e escolas Militar, de Marinha, de Comércio e Administração Pública. O projeto estendia-se ao Porto e de forma mais restrita aos Açores e à Madeira.

Desde 27 de abril de 1823 foi sócio correspondente da Academia de Ciências e em novembro de 1824 tornou-se sócio efetivo na classe de Ciências Naturais.

Em setembro de 1823 apresentou os seus quadros de química à Academia das Ciências de Lisboa, que os aprovou. No seu regresso a Lisboa, foi nomeado provedor da Casa da Moeda. Escreveu então um compêndio de físico-química, oferecendo-o aos alunos que frequentavam a sua aula na casa da Moeda. Apesar de pareceres positivos, a Academia não recomendou a sua publicação, mas esta foi autorizada pelo governo do duque de Palmela em 16 de setembro de 1824. Apesar do uso do método experimental, não existe neste compêndio referência à notação simbólica proposta por Berzelius em 1820.

Entre setembro e outubro de 1825 viajou até aos Açores para analisar as águas das Furnas. Nesta viagem estudou e descreveu vários aspetos da ilha cujo atraso agrícola salientou. Em 1826 publicou as suas Observações debruçando-se sobre a constituição geológica, a flora e origem histórica da paisagem agrária de São Miguel, que atribuiu à má distribuição da propriedade. Enquanto Governador da Madeira, em 1835, redigiu um relatório semelhante sobre as ilhas da Madeira, Porto Santo e Desertas.

A sua carreira de cientista foi abruptamente interrompida pela Guerra Civil em que assumiu um papel de relevo. Não foi chamado a participar no ensino de Físico-Química nas escolas criadas depois deste conflito militar.

 A breve tutela das Obras Públicas, enquanto ministro do Reino em 1836, fê-lo dedicar-se a este sector sendo nomeado inspetor das Obras Públicas da Região Centro a 22 de junho de 1836. Apresentou o seu primeiro relatório sobre a barra de Aveiro, o encanamento do Mondego e a estrada de Lisboa ao Porto a 3 de maio de 1837, defendendo a criação de um canal entre Aveiro e as proximidades de Leiria. A adesão à Revolta dos Marechais voltou a cortar a sua carreira, mas a 7 de março de 1840 foi nomeado Inspetor Geral-interino das Obras Públicas do Reino.

O estado calamitoso das comunicações do país tornou-se desde 1836 a sua maior preocupação, tendo feito aprovar contratos referentes a obras de necessidade indiscutível, como os referentes à estrada de Lisboa ao Porto e às pontes de Sacavém e pênsil do Porto. Entre 1840 e 1842 estudou a situação geral do país e participou na constituição da Sociedade Promotora da Construção, Conservação e Aperfeiçoamento das Comunicações do Reino. Concebeu e redigiu o projeto de financiamento da construção de estradas no reino com um plano apenso das estradas a construir. Este plano, apesar das dificuldades financeiras e da nova guerra civil, durante a qual perdeu a vida, constituiu, conforme escreveu Fernando Eduardo de Serpa Pimentel em finais do século, a estrutura de referência da rede de estradas construída em Portugal no século XIX.

 Para financiar o projeto, propunha a criação de um imposto destinado a subsidiar as construções, que teria o seu uso fiscalizado por comissões eleitas nas cabeças de distrito. Em dez anos, o plano de estradas deveria estar terminado. Para tal esforço ser possível, recomendava que alguns engenheiros deviam vir de fora do país e os melhores jovens engenheiros portugueses deviam ser enviados a escolas estrangeiras. Como deputado, defendeu o projeto que foi aprovado com ligeiras modificações 

Opositor a Costa Cabral, foi exonerado do seu cargo em 1843, mas continuou a defender o seu projeto no parlamento, para onde foi sucessivamente reeleito deputado. Opôs-se à lei de 3 de março de 1845 que constituía a Companhia das Obras Públicas como empreiteiro geral das estradas a construir e rendeiro do imposto. Previu que levantaria oposições, como veio a acontecer na primavera de 1846.

Entretanto, em 1844, escreveu e enviou à Academia das Ciências o Guia do Engenheiro na Construção das Pontes de Pedra, destinado a apoiar os engenheiros na construção de pontes. Para além da apresentação do projeto, em que a memória descritiva era considerada uma peça fundamental, guiava-os na procura de rochas capazes de ser utilizadas na fabricação de cimentos e nos princípios construtivos. 

Apesar de centrar então a sua ação na rede de estradas, não abandonou a ideia de que alguns canais seriam de grande utilidade e fácil construção. Neste sentido, empregou-se na direção dos trabalhos de construção da vala da Azambuja.

Para além de publicar o poema de ambiente medieval Ruy, o Escudeiro, cuja escrita terá iniciado durante a Guerra Civil, teve um papel relevante no início de uma política de conservação e restauro de monumentos históricos. Desde 1836, ordenou à Academia de Ciências que determinasse quais os Monumentos a preservar. Em 1836/1837, enquanto Inspetor das Obras Públicas da Região Centro, começou a estudar o mosteiro da Batalha e iniciou a sua reconstrução. Após a sua morte, foi publicada a memória em que descreveu os trabalhos que realizou e que exprimiram o seu amor eminentemente romântico pelo estilo gótico.

Faleceu de ferimentos sofridos na batalha de Torres Vedras às 7 horas do dia 24 de dezembro de 1846.

Magda Pinheiro
ISCTE-IUL

Obras

Mouzinho de Albuquerque, Luís da Silva. As Geórgicas Portuguesas, dedicadas a D. Anna Mascarenhas de Athayde. Paris: A. Bobée, 1820.

Mouzinho de Albuquerque, Luís da Silva. Ideias sobre o estabelecimento da Instrução Pública em Portugal. Paris: A. Bobée, 1823.

Mouzinho de Albuquerque, Luís da Silva. Curso elementar de Física e de Química oferecido aos alunos destas ciências no Laboratório de Química da Casa da Moeda. Lisboa: Imprensa Régia, 1824. 5 volumes.

Mouzinho de Albuquerque, Luís da Silva. Observações sobre a ilha de São Miguel recolhidas pela comissão enviada à mesma ilha em Agosto de 1825 e regressada em Outubro do mesmo ano. Lisboa: Imprensa Régia, 1826.

Mouzinho de Albuquerque, Luís da Silva. Observações para servirem a História das ilhas da Madeira e Porto Santo e Desertas, oferecidas à Real Academia das Ciências. Lisboa: s. n., 1836.

Mouzinho de Albuquerque, Luís da Silva. Breve exposição do esforço em favor da Carta Constitucional, em Portugal, em 1837, por um testemunho ocular. Porto: Typ. Commercial Portuense, 1837.

Mouzinho de Albuquerque, Luís da Silva. Relatório do Ministro secretário de Estado dos Negócios do Reino apresentado às Cortes em 1836. Lisboa: s. n.,1837.

Mouzinho de Albuquerque, Luís da Silva. Relatório contendo os fundamentos e a explicação da despesa orçada para a repartição das Obras Públicas, a exposição do sistema fundamental para a aplicação dos fundos votados para esta repartição e a indicação e proposta de algumas providências legislativas, e regulamentares, necessárias para o andamento regular deste ramo do Serviço Público: apresentado ao ilustríssimo e excelentíssimo senhor ministro e secretário de Estado dos Negócios do Reino, em observância da portaria de 17 de Novembro de 1840, pelo inspector-geral interino das Obras Públicas do Reino, Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque. S. l.: s. n., 1840. 

Mouzinho de Albuquerque, Luís da Silva. Relatório geral sobre as Obras Públicas do Reino apresentado ao excelentíssimo Ministro e secretário de Estado dos Negócios do Reino pelo inspector-geral interino das Obras Públicas do Reino, o conselheiro de Albuquerque, 18 de Julho de 1840. S. l.: s. n., 1840.

Mouzinho de Albuquerque, Luís da Silva. Relatório da Inspeção das Obras e Comunicações Internas nos Distritos do Reino ao Norte do Tejo executada em Outubro e Novembro de 1842. Lisboa: s. n., 1842.

Mouzinho de Albuquerque, Luís da Silva. Guia do Engenheiro na Construção de Pontes de Pedra, oferecido à Academia das Ciências.Lisboa: Typographia da Academia Real das Sciencias,1844.

Mouzinho de Albuquerque, Luís da Silva. Ruy o escudeiro, conto por L. S. Mousinho de Albuquerque, Oferecido à Sociedade Propagadora dos Conhecimentos úteis. Lisboa: Typ. da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis, 1844.

Mouzinho de Albuquerque, Luís da Silva. Memória Inédita sobre o Edifício Monumental da Batalha. Leiria: Tipografia do Leiriense, 1854.

Bibliografia sobre o biografado

Cordeiro, António Xavier. Elogio Histórico do Sócio do Instituto da Academia Dramática, Luiz da Silva Mouzinho de Albuquerque: recitado na sessão solemne de 9 de Junho de 1850. Coimbra: E. Trovão, 1850.

Fernandes, Rogério. “Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque e as Reformas do Ensino em 1835-1836.” Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra 37 (1985): 221–304.

Pimentel, Júlio Máximo d’Oliveira. Elogio Histórico do Sócio Efectivo Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque, Recitado na sessão pública da Academia Real das Ciências, em 19 de Novembro de 1856. Lisboa: Typ. Academia das Sciencias: s. n., 1856. 

Pinheiro, Magda. Luís Mousinho de Albuquerque. Um Intelectual na Revolução. Lisboa: Fundação Maria Manuela e Vasco Albuquerque D’Orey, 1992.

Torgal, Luís Reis, e Isabel Nobre Vargues. Vintismo e Instrução Pública. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra,1984.

Gouveia, António Jorge Andrade de

Guarda, 18 junho 1905 — Coimbra, 13 julho 2002 

Palavras-chave: Universidade de Coimbra, Química, História das Ciências, Academia das Ciências de Lisboa.

António Jorge Andrade de Gouveia, filho de António Carvalho de Gouveia e de Angelina da Soledad Sarah Bette Andrade de Gouveia, frequentou a Escola Primária de São Vicente da Guarda e fez os seus estudos secundários no Colégio da Via Sacra e no Liceu Alves Martins, em Viseu. 

Em outubro de 1922, matriculou-se na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, onde se licenciou em Ciências Físico-Químicas, em 1926. Ainda antes de terminar o curso, em agosto de 1925, foi nomeado, primeiro assistente da Faculdade de Ciências. Reconduzido neste cargo académico até 1930, foi provido definitivamente neste ano, no cargo em questão. 

Por indicação e recomendação da Congregação da Faculdade, de outubro a dezembro de 1927, estagiou na Universidade de Paris, frequentando os cursos de Marie Curie e Jean Perrin, estudando simultaneamente vários compostos de alumínio, estanho e tungsténio no Laboratório de Química Inorgânica do Instituto de Química Aplicada, sob a orientação e direção do professor Raymond Marquis.

Em 1931, passou a trabalhar em Inglaterra, na Universidade de Liverpool, sob a orientação do professor Richard Alan Morton (1899–1977). Aí estudou vários compostos orgânicos, em particular o índigo, o naftaleno e outros compostos aromáticos e sua aplicação ao estudo de problemas biológicos, utilizando técnicas espectroscópicas de absorção no visível e ultravioleta. Obteve, em 7 de julho de 1934, o grau de doutor com a tese “Contributions to the Study of the Role of the Double Bond in the Absorption Spectra of Organic Compounds”.

Em agosto de 1935, foi-lhe concedida equivalência ao grau de doutor em Ciências Físico-Químicas pela Universidade de Coimbra. Foi então contratado pela Faculdade de Ciências como equiparado a professor catedrático. Primeiro assistente desde abril de 1942, em janeiro de 1944, foi aprovado por unanimidade para professor extraordinário de Química, em concurso onde apresentou a dissertação “Contribuição para o estudo das oleorresinas portuguesas do Pinus pinaster e do Pinus pinea – Estudo espectrofotométrico dos ácidos resínicos e seus derivados”. Em junho deste mesmo ano, foi aprovado para o lugar de professor catedrático do mesmo grupo.

Foi secretário da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra de 1945 a 1949. Em 1955 foi nomeado diretor do Laboratório Químico, cargo que exerceu até setembro de 1975, acumulando funções com o cargo de diretor da Faculdade de Ciências, nos anos de 1962–1963, e com o cargo de reitor da Universidade de Coimbra, a partir de junho de 1963 e até fevereiro de 1970. 

Foi membro da Junta de Educação Nacional nos anos de 1956, 1962 e 1965. Em 1963, foi nomeado para membro da Comissão Permanente da Organização circum-escolar do Ensino Superior. No mesmo ano, foi nomeado presidente da Comissão Administrativa das Obras da Cidade Universitária. Em 1944, foi admitido como sócio do Instituto de Coimbra; e, em 1992, foi admitido como membro da New York Academie Advanced. Em 1969, integrou a Comissão Nacional para a Celebração do V Centenário do Nascimento de Vasco da Gama. Neste mesmo ano, representou Portugal na Assembleia Geral dos Reitores das Universidades Europeias, em Genebra. Foi ainda Presidente da Sociedade Filantrópico-Académica da Universidade de Coimbra, cargo que deixou ao tomar posse como reitor, por falta de tempo e por entender que as funções que exercia nessa sociedade eram incompatíveis com o cargo de reitor. Em 1963, tornou-se sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa, passando a efetivo em 1973.

Como reconhecimento pelos elevados serviços prestados, foram-lhe conferidos os títulos e as insígnias de Grande Oficial da Ordem de Mérito da República Italiana, em 27 de dezembro de 1968, e de Grande Oficial da Ordem de Sant’Iago da Espada, da República Portuguesa, em 30 de maio de 1996.

Em sua homenagem, o Departamento de Química da Universidade de Coimbra criou, em 1995, o Prémio Professor António Jorge Andrade de Gouveia, destinado a “galardoar os alunos de licenciatura que se salientem no estudo da ciência química”.

Anotados os passos principais da sua carreira académica, deve relevar-se aqui a atividade científica a que Andrade Gouveia se dedicou toda a sua vida de professor universitário. Nos primeiros anos da década de 1930, após o seu doutoramento em Inglaterra, regressou ao Laboratório Químico da Universidade de Coimbra e empenhou-se completamente na formação de uma equipa de investigadores que, liderada por si, equipou o Laboratório com a aparelhagem necessária, nomeadamente no domínio da espectrofotometria, votada a investigações de química orgânica centradas no estudo sobre o valor nutritivo de várias espécies de peixes e moluscos das costas portuguesas, determinando, em particular, os seus conteúdos de proteínas e lípidos, bem como vitaminas A e D. Rapidamente, estes estudos se estenderam a várias espécies de peixes da costa de Angola, em estreita colaboração científica com o Agrupamento Científico de Estudos Ultramarinos, envolvendo amostras preparadas em Angola e remetidas por via aérea para a metrópole, investigando o seu teor em tiamina, riboflavina, niacina e vitamina A, bem como de proteínas e gorduras. Já nos finais da década de 1950, o grupo dedicou-se ao desenvolvimento de uma técnica analítica espectrofotométrica para determinação quantitativa de pró-vitaminas D, baseada na reação de cor destas substâncias com soluções saturadas de cloreto de antimónio e dicloreto de etileno, em presença de pequenas quantidades de iodo, e estabeleceu uma estreita e muito dinâmica colaboração com os Laboratórios Atral no estudo da plumbagina, uma naftoquinona extraída de várias plantas com numerosas propriedades farmacológicas, procedendo à síntese química do composto e à preparação de vários derivados hidrossolúveis do mesmo, determinando o seu poder químio-terapêutico. 

Para além de toda esta sua atividade de investigação científica no domínio da química orgânica, Andrade de Gouveia fomentou com grande interesse o estudo da história e filosofia das ciências em Portugal, com particular ênfase nos períodos renascentista e pós-pombalino. Enquanto diretor da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, a ele se deve a criação de um curso livre de História da Ciência ministrado, a seu convite, nos anos de 1962–1964, pelo professor Reijer Hooykaas (1906–1994), o primeiro professor de História das Ciências numa universidade holandesa (1946) e professor da mesma disciplina na Universidade Livre de Amsterdão, nos anos de 1946–1972. Já aposentado, na Academia de Ciências de Lisboa, em 1983, Andrade Gouveia estabeleceu relações muito estreitas com o professor Allen George Debus (1926–2009), eminente historiador das ciências, nomeadamente da química, da Universidade de Chicago, e com o então presidente da International Union of History and Philosophy of Science (IUHPS)William R. Shea (1937), professor de História e Filosofia da Ciência na Universidade McGill de Montreal (Canadá), em colaboração com os quais viria a organizar na Academia de Ciências de Lisboa dois marcantes colóquios sobre o desenvolvimento da ciência em Portugal (o primeiro de 15 a 19 de abril de 1985, sobre a ciência em Portugal até inícios do século XX, e o segundo de 13 a 17 de novembro de 1989, sobre a ciência em Portugal no século XX). Ainda em colaboração com os mesmos professores, organizou, em Coimbra, de 18 a 22 de abril de 1988, a VII Conferência Internacional da IUPHS, cujas atas, publicadas nesse mesmo ano pela Science History Publications (Estados Unidos da América) com o título Revolutions in Science – Their Meaning and Relevance, lhe foram dedicadas pelo editor, o próprio professor William R. Shea. 

António M. Amorim da Costa
Departamento de Química, Universidade de Coimbra

Arquivos

Coimbra, Arquivo da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra 

Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Curriculum Vitae, 1996

Lisboa, Arquivo da Academia das Ciências de Lisboa

Obras

Andrade de Gouveia, António Jorge. “Análise Química da água de abastecimento da cidade de Coimbra (Rio Mondego).” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 1 (1931): 33–38.

Andrade de Gouveia, António Jorge. “Desenvolvimento da Química e Ciências Relacionadas e seu Impacto com Actividades Científicas e Culturais em Portugal.” Revista Portuguesa de Química 29 (1987): 127–139.

Andrade de Gouveia, António Jorge. “Determinações quantitativas de pro-vitaminas D.” In Memórias da Academia das Ciências de Lisboa 8 (1962): 121–134.

Andrade de GouveiaAntónio Jorge. “Livros do século XV e XVI sobre artes químicas e simples e drogas, nas Livrarias da Universidade e de Colégios de Coimbra.” Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, Classe de Ciências 22 (1978-1979): 289–309.

Andrade de Gouveia, António Jorge. “Os paradigmas da afinidade química e a Faculdade de Filosofia nos fins do séc. XVIII.” Memórias da Academia de Ciências de Lisboa 22 (1978): 17–26.

Andrade de Gouveia, António Jorge. “Químico esclarecido luso-brasileiro: Vicente Seabra (1764-1804).” Memórias da Academia de Ciências de Lisboa 21 (1976-1977): 7–35.

Andrade de GouveiaAntónio Jorge. “Vicente de Seabra e a Revolução Química em Portugal.” In História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, vol. 1, 335–351. Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, 1986.

Andrade de Gouveia, António Jorge. “Vicente Seabra and the Chemical Revolution in Portugal.” Ambix 32 (3) (1985): 97–109.

Andrade GouveiaAntónio Jorge. “Posições de Garcia d’Orta e de Amato Lusitano na ciência do seu tempo.” In História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, vol. 1, 303-333. Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, 1986.

António Jorge Andrade de Gouveia e Fernando Pinto Coelho. “Determinações quantitativas de vitamina C em frutos e derivados.” Las Ciências 6 (1942): 483–491.

Andrade de Gouveia, António Jorge e Alfredo da Purificação Gouveia. “Contribuição para o estudo químico dos moluscos da costa portuguesa. I. Estudo analítico da espécie Loligo vulgaris Lamark.” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 20 (1951): 5–20.

Andrade de Gouveia, António Jorge e Alfredo da Purificação Gouveia. “Determinação quantitativa da vitamina B12 em produtos naturais e farmacêuticos.” La Ricerca Scientifica 23 (1953): 23–26.

 Andrade de Gouveia, António Jorge e Alfredo da Purificação Gouveia. “Contribuições para o estudo químico de peixes da costa portuguesa I-Estudo analítico das espécies “Sardina pilchardus (Walbum) (sardinha) e Trachurus (L) (carapau).” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 19 (1950): 136–150.

 Andrade de Gouveia, António Jorge e Alfredo da Purificação Gouveia. “Contribuições para o estudo químico de peixes da costa portuguesa II. Carotenoides de Sardina pilchardus Walbaum.” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 21 (1952): 166–169.

 Andrade de Gouveia, António Jorge e Alfredo da Purificação Gouveia. “Contribuiciones para el estudio químico de pescado de la costa portuguesa. Estudio analítico de las espécies de Sardina pilchardus (Walbum) (sardinha) e Trachurus (L) (Jusel).” Industria Conservera 7 (1951): 120–123.

Andrade de Gouveia, António Jorge e Fernando Pinto Coelho. “Determinações quantitativas de vitamina A pelo método espectrofotométrico. I Estudo de alguns óleos de fígado de bacalhau de empresas de pesca portuguesas.” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 6 (4) (1936): 191–199.

 Andrade de Gouveia, António Jorge, Alfredo da Purificação Gouveia, J. Anacoreta Correia e M. H. R. Fonseca. “Estudo químico de peixes da costa de Angola (Luanda). I-Teor de riboflavina e comportamento dos resíduos insaponificáveis.” In XXIII Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências. Coimbra, 1956.

Andrade de Gouveia, António Jorge, Alfredo da Purificação Gouveia e M. H. R. Fonseca. “Ergosterol and 7-dehydrecholesterol colour reaction.” In XV Congresso da União Internacional de Química Pura e Aplicada. Lisboa: s. n., 1956. 

Andrade de Gouveia, António Jorge, Alfredo da Purificação Gouveia, J. Anacoreta Correia e M. H. R. Fonseca. “Contribuição para o estudo químico de peixes da costa de Angola. I- Estudo analítico de algumas espécies obtidas nas pecarias de Luanda.” Garcia de Orta, Revista da Junta das Missões Geográficas e de Investigações do Ultramar 4 (4) (1957): 531–555.

Andrade de Gouveia, António Jorge, Alfredo da Purificação Gouveia e M. H. R. Fonseca. “Metalic Complexes with alicyclic unsaturated compounds.” In XVI Congresso Internacional de Química Pura e Aplicada. Paris: s. n., 1957.

Andrade de Gouveia, António Jorge, Alfredo da Purificação Gouveia e M. H. R. Fonseca. “Reacção corada do ergosterol e do de-hidro-7 colesterol.” Revista Portuguesa de Química 1 (1) (1958): 15–36.

Andrade de Gouveia, António Jorge, Fernando Pinto Coelho e Aires Pedroso de Lima. “Determinações quantitativas de ácido fítico. I-Estudo de farinhas portuguesas de trigo, centeio e milho.” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 14 (1945): 35–49.

Andrade de Gouveia, António Jorge, Fernando Pinto Coelho e Aires Pedroso de Lima. “Determinações quantitativas de ácido fítico. II-Estudo de produtos de panificação da Cidade do Porto.” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 15 (1946): 55–76.

Andrade de Gouveia, António Jorge, Fernando Pinto Coelho e Alfredo da Purificação Gouveia. “Complexos de cobalto bivalente com ácidos resínicos. I-Composição e estudo espectrofotométrico.” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 22 (1953): 88–109.

Andrade de Gouveia, António Jorge, Fernando Pinto Coelho e J. A. Correia. “Determinações quantitativas de vitamina C em bananas (Musa nana) provenientes da Ilha da Madeira.” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 9 (1) (1941): 49–68.

Andrade de Gouveia, António Jorge, Fernando Pinto Coelho e Karl Schön. “Studies on the ultraviolet absorption spectra of proteins. I. Aminoacids. II. Dipeptides.” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 6 (4) (1936): 391–413.

 Andrade de Gouveia, António Jorge, Fernando Pinto Coelho, Alfredo da Purificação Gouveia e L. J. Esteves Paz. “Determinações quantitativas de vitamina A pelo método espectrofotométrico. II-Estudo de óleos de fígado de atum (Thunnusthynnus, (L) de empresas de pesca do Algarve.” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 11 (1945): 35–49.

Gouveia, Alfredo da Purificação e António Jorge Andrade de Gouveia. “Contribuição para o estudo químico do peixe seco de Angola. Algumas vitaminas e composição das proteínas em amino-ácidos.” Revista Portuguesa de Quimica3 (1962): 41–60.

Gouveia, Alfredo da Purificação, G. S. Figueiredo e António Jorge Andrade de Gouveia. “Plumbagina e compostos relacionados.” Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, Classe de Ciências 14 (1970): 303–325.

Gouveia, Alfredo da Purificação, G. S. Figueiredo, A. M. Silva e António Jorge Andrade de Gouveia. “Estudo químico dos componentes da Plumbago zeylanica. Síntese de outros produtos afins.” Garcia de Orta, Revista da Junta das Missões Geográficas e de Investigações do Ultramar 16 (1968): 441–456.

Gouveia, Alfredo da Purificação, G. S. Figueiredo, A. M. Silva e António Jorge Andrade de Gouveia. “Métodos micro-analíticos da dosagem da plumbagina e naftoquinonas relacionadas, em soluções aquosas e meios fisiológicos. Diferenças de comportamento com a estrutura.” Revista Portuguesa de Química 12 (1970): 104–111.

Gouveia, Alfredo da Purificação, G. S. Figueiredo, A. M. Silva e António Jorge Andrade de Gouveia. “Estudo do Oleo Essencial de «Heteropyxis natalensis» Harv.” Revista Portuguesa de Química 14 (1972): 230–237.

Gouveia, Alfredo da Purificação, M. H. R. Fonseca e António Jorge Andrade de Gouveia. “Possíveis intermediários numa reacção de cor do ergosterol e do 7-de-hidro-colesterol.” In XXIV Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências. Madrid: s. n., 1958.

Gouveia, António Jorge Andrade de. Garcia d’Orta e de Amato Lusitano na Ciência do seu Tempo. Lisboa: Instituto Camões e Biblioteca Breve, 1985.

Morton, Richard Alan e António Jorge Andrade de Gouveia. “Chromophoric Groups. Part I. Ultra-violet Absorption Spectra of Indene and Certain of its Derivatives.” Journal of the Chemical Society 1934: 911–916.

Morton, Richard Alan e António Jorge Andrade de Gouveia. “Chromophoric Groups. Part II. Absorption Spectra of Naphthalene, Hydronaphthalenes and Related Compounds.” Journal of the Chemical Society 1934: 916–930.

Schön, Karl, António Jorge Andrade de Gouveia e Fernando Pinto Coelho. “Determinações quantitativas da Vitamina A, Ergosterol, Vitamina B2 (lactoflavina) e Vitamina C, por métodos físico-químicos. Estudo do vinho tinto da Bairrada.” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 8 (1939): 130–147.

Bibliografia sobre o biografado

Carvalho, A. Herculano de. “Discurso de recepção do Prof. Doutor Andrade Gouveia, novo Académico Titular da Cadeira n.º 19.” Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, Classe das Ciências 18 (1975): 51–56.

Costa, António M. Amorim da. “Chemical Science and Education in the University of Coimbra (Portugal) from the thirties to the fifties of the twentieth century.” In Alchemy, Chemistry and Pharmacy, ed. M. Bougard, 169–176. Turnhout: Brepols Publications, 2002.