Ribeiro, Diogo

Portugal, séc. XV — m. Sevilha, 16 agosto 1553

Palavras-chave: cosmógrafo, cartografia nautica, instrumentos, Casa de la Contratación.

O cartógrafo Diogo Ribeiro (em espanhol Diego Ribero), filho de Afonso Ribeiro e Beatriz de Oliveira, nasceu em Portugal, em finais do século XV. Era um perito em cartografia, desenho e construção de instrumentos cosmográficos e inventor de outros aparelhos técnicos (cf. Carta de Sebastião Alvarez, feitor em Andaluzia, a El-Rei D. Manuel, 18 Julho 1519). Desempenhou o cargo de ‘cosmógrafo’ na Casa de la Contratación em Sevilha e na Casa de la Especiería em La Coruña, entre 1523 e 1533. Ribeiro possuía particulares capacidades técnicas, adquiridas provavelmente na prática da navegação e, ao longo da vida, demonstrará alguma formação humanista e erudita. Num pedido que enviou diretamente ao rei, apresenta-se como ‘yo Diego Ribeiro cosmographo y maestro de todos los instrumentos a la navegacion necesarios’. Ficou conhecido como um excelente desenhador de cartas náuticas e planisférios, e tinha experiência no processamento de metais, como atesta a sua produção de astrolábios e o seu pioneirismo na concepção de bombas de água metálicas. Ribeiro começou como mestre artesão, isto é como perito técnico formado na execução prática de cartas e instrumentos. Estas capacidades permitiram a subir rapidamente deste estatuto a um cargo respeitado e bem remunerado com alguma proximidade à Coroa e aos círculos diplomáticos. Ribeiro assemelhava-se assim aos virtuosi que foram particularmente protegidos em toda a Europa durante a época do Renascimento, em que florescia o ideal de combinar em tudo a teoria com a prática.

Na primeira década do século XVI a Coroa portuguesa empenhava-se em estabelecer o seu império no Sudeste da Ásia. A certa altura, vários peritos, pilotos ou simples marinheiros Portugueses envolvidos neste empreendimento decidiram deixar Portugal e acabaram por trabalhar na Casa de la Contratación em Sevilha. Entre eles encontravam-se Fernão de Magalhães (1480–1521), Rui Faleiro e Duarte Barbosa († 1521), o autor de uma detalhada descrição (c.1516) das viagens portuguesas no Oriente, divulgada por Giovanni Battista Ramusio. Paralelamente chegou a Sevilha, ido de Lisboa, Cristóbal de Haro, abastado membro de uma família de mercadores originária de Burgos, cujo irmão, Tiago (Jacobus) de Haro, residente em Amesterdão, era sogro de Maximilianus Transylvanus, conselheiro próximo do imperador Carlos V (Carlos I de Espanha a partir 1516, † 1558). Seria De Haro o principal financiador, juntamente com os comerciantes alemães Fugger, da expedição Magalhães-Elcano, que decorreu entre 1519 e 1522. Ao mesmo tempo, os cartógrafos Pedro e Jorge Reinel passaram também de Lisboa para Sevilha.

Em 1518 ou 1519 Ribeiro entrou ao serviço da Coroa espanhola no contexto da preparação da viagem de Magalhães. Em conjunto com Pedro e Jorge Reinel, ele vinha ocupar-se da produção de cartas e instrumentos náuticos para a expedição, tocando a Ribeiro a construção de astrolábios e outros aparelhos técnicos. A documentação existente comprova que lhe foram pagos, a 12 de Março de 1519, quatro ducados de ouro para fazer quatro astrolábios e, em 7 de Maio do mesmo ano, recebeu 8 reais de prata por ter elaborado um grande compasso magnético e tê-lo ajustado. Desde Lisboa, a Coroa parece ter feito um esforço para convencer os peritos portugueses a voltar ao serviço do seu monarca. Pedro Reinel e o seu filho Jorge voltaram, mas Ribeiro ficou em Espanha.

Em 10 de Julho de 1523, já depois do regresso da única embarcação sobrevivente da armada de Magalhães, regista-se a nomeação de Ribeiro para o cargo de ‘cosmografo y maestro de hazer cartas y otros ingenios para la navegacion’ com um salário anual de 30.000 maravedís. E, um pouco mais tarde, temos notícia das cartas marinhas, dos globos, dos mappae-mundi, dos astrolábios e outros instrumentos elaborados por Diogo Ribeiro, em La Coruña, na Galiza. Aí se encontrava a funcionar, desde 1522, a Casa de la Especiería sob a direção de Cristóbal de Haro com o intuito de preparar as próximas expedições para as Molucas.

Na primavera de 1524 Ribeiro foi chamado a Vitória, no País Basco, onde estanciava então o imperador Carlos V, em conjunto com Estevão Gomes, outro perito, para consultas relativamente à disputa entre Portugal e Espanha sobre as Molucas (cf. Carta de Antonio Ribeiro da Cunhha a El-Rei D. Manuel, 28 Fevereiro 1525). Durante esta estada parece ter trabalhado junto do embaixador de Génova, Martin Centurione, ao traduzir de português para espanhol o Livro de Duarte Barbosa.

Entre Abril e Maio de 1524 Ribeiro participou, enquanto perito da delegação espanhola, no famoso encontro de Badajoz-Elvas. Ali devia decidir-se de que lado do anti-meridiano de Tordesilhas se encontravam as ilhas Molucas. As delegações de cada parte eram constituídas por nove membros: três juristas, três cosmógrafos e três pilotos. Não se sabe qual era exatamente o papel de Ribeiro. Os embaixadores portugueses já tinham insistido em Vitória, que ele não podia participar na delegação oficial por ser, tal como Simão de Alcáçava e Estevão Gomes dois dos portugueses que deixaram o seu país para trabalhar para a Coroa espanhola. As negociações foram interrompidas em Junho seguinte, sem resultado.

Em 1524 Ribeiro fez um pedido de privilégio para a produção e venda de uma bomba de água por si concebida, apresentando um modelo. Na sua petição refere: ‘Me oferesco a hazer bonbas de metal para agotar las naos y q[eu] con cada vna de las dichas bonbas se agote tanta agua quanta agotaran con diez bonbas de las otras de madera’ (citado de acordo com Germán Latorre). Em recompensa esperava receber anualmente 60.000 maravedis, para além dos 30.000 auferia. (cf. Carta de 31 janeiro 1524).

Em conjunto com o cartógrafo Nuño García de Toreno, Ribeiro contribuiu com uma série de cartas náuticas para a armada comandada por Jofre García de Loaysa, que partiu a 24 de Julho de 1525 em direção às Molucas. Em Setembro do mesmo ano voltou da costa da Nova Escócia (Canadá) uma caravela comandada por Estevão Gomes com 58 indígenas capturados. Um deles foi acolhido em casa de Ribeiro e recebeu o nome de Diego Lengua, provavelmente porque sabia um pouco castelhano e servia de intérprete.

O historiador Louis-André Vigneras acha provável que Ribeiro tenha traçado ou completado o mappa mundi anónimo de Mântua, o chamado Planisfério de Castiglione, datado de 1525. De facto, acham-se nele informações então recentemente trazidas por essa expedição de Estevão Gomes. O planisfério apresenta além da informação cartográfica, esquemas geometricamente muito precisos de um astrolábio náutico, de um quadrante horário para a latitude de 42°N, e de uma teórica do sol, isto é, um gráfico que permite representar a declinação do sol em cada dia do ano. Os mesmos esquemas encontrar-se-ão também nos dois planisférios assinados por Ribeiro, datados de 1529, e que são característicos nos trabalhos do cartógrafo.

Uma nova armada devia partir de La Coruña para as Molucas chefiada por Simão de Alcáçava. Em 1527 Ribeiro foi escolhido para executar os mapas, astrolábios e outros instrumentos necessárias para esta viagem. De facto, uma Cédula Real (carta régia), de Dezembro de 1527, instruiu a tesouraria da Casa de la Contratación ‘para que provean de dinero a Ribero para hacer cartas, padrones, agujas [compassos magnéticos], astrolabios’. O técnico receberá a 30 de Dezembro, 15.000 maravedís como pagamento, por parte da Casa de la Especiería

Depois de uma inspeção à Casa de la Contratación por parte do Consejo de Indias, em presença do imperador Carlos V, em 1526, ficou decidido que Ribeiro devia assistir Fernando Colón na revisão de um novo mapa padrão, o Padrón Real. Assim, deviam ser elaborados ‘una carta de navegar y un mapamundi o esfera redonda [globo terrestre]’ para se conservarem na Casa como ‘padrones de todas las cartas y mapamundis’. Mas como Ribeiro se encontrava a trabalhar na Casa de la Especiería de La Coruña, Colón trabalhou em parceria com Alonso de Chaves, mais tarde Piloto Mayor (Piloto Mor) em Sevilha. Dois planisférios produzidos nessa época (o ‘Planisfério Salviati’ de Florença, de 1525 ou 1526, e o Planisfério de Weimar, datado de 1527) são muitas vezes atribuídos a Ribeiro. O Planisfério Salviati não apresenta os esquemas de instrumentos característicos dos mapas de Ribeiro, mas inclui informações da expedição de Estevão Gomes, e pode ter sido inspirado num trabalho de Ribeiro. O mapa de Weimar, por sua vez, foi feito em Sevilha, e Vigneras conclui que se trata provavelmente de uma cópia de um mappa mundi de Ribeiro, porque nesta altura o cartógrafo ainda se encontrava em La Coruña.

Entretanto o Imperador preparava a cedência aos Portugueses, contra pagamento de 350.000 ducados de ouro, ou seja mais de 130 milhões de maravedís, do domínio e direito de comerciar com as Molucas. Assinou-se o Tratado de Saragoça em 1529. Mas, pouco tempo antes, a armada de Alcáçava tinha sido cancelada e a Casa de la Especiería fechada. Assim, vários oficiais da Casa, entre eles Ribeiro e Estevão Gomes viajaram de La Coruña a Cádiz, em Junho de 1528. Chegado a Sevilha, Ribeiro (em conjunto com Alonso de Chaves) devia substituir Sebastiano Caboto e Nuño García de Toreno no ‘júri’ de examinadores dos pilotos. O júri retomou a sua atividade com a chegada de Ribeiro, em 20 de Junho desse ano.

Em Sevilha, Ribeiro assina dois grandes mapas universais ou planisférios datados de 1529, que se conservaram até hoje. Inscreve nas cartas: ‘Hizola Diego Ribero cosmografo de su Magestad’. Um primeiro encontra-se na Biblioteca Vaticana (o Planisfério Borgiano), um segundo de padrão igual, com muitas legendas adicionais, e alguns trechos de costa completados, está na Biblioteca de Weimar.

Ribeiro continuava a pressionar a Corte com petições no sentido de avançar com os testes às bombas de água que tinha concebido. Testes tinham sido feitos em presença de peritos nomeados pela Coroa ainda em La Coruña (1524) e depois, uma vez mais, em Sevilha (1526). Apesar disso, o negócio não ficou decidido. Ribeiro foi convidado a deslocar-se até Madrid para discutir o projeto, e só em 1531 foi permitido pôr à prova uma bomba. Em Novembro desse ano experimentou-se um exemplar numa caravela em presença de numerosos peritos e oficiais. O tipo de bomba proposto por Ribeiro, com peso de 303 libras, foi finalmente usado na nau Mar Alta, durante a viagem comandada por Ginés de Carrión. Em Outubro de 1533 a Casa de la Contratación recomendou a adoção de bombas de água de metal. Entretanto, Diogo Ribeiro tinha falecido no mês de Agosto desse ano.

Samuel Gessner e Thomas Horst

Arquivos

Arquivo Nacional da Torre de Tombo: Corpo Cronológico, gav. 1, m 13, n. 20 [Carta de Sebastião Alvarez, feitor em Andaluzia, a El-Rei D. Manuel, 18 Julho 1519]; gav. 2, m. 10, n. 20 [Carta de 31 janeiro 1524]; gav. 15, m. 10, n. 33 [Carta de Antonio Ribeiro da Cunhha a El-Rei D. Manuel, 28 Fevereiro 1525].

Archivo General de Indias (seleção dos documentos relevantes): Contadutoría 269; Contadutoría 428, n. 3; Contratación 5784, Lib. 1, f. 44 e 76; Indiferente Geral 420, Lib. 1, f. 167 [nomeação de Ribeiro para o cargo de ‘cosmografo y maestro de hazer cartas y otros ingenios para la navegacion’]; Indiferente Geral 421, Lib. 1, f. 21 e 324; Indiferente Geral 421, Lib. 11, 234 r/v Justicia de Indias 1169, n.°3, r.°2 e n. 4, r. 1; Patronato Real 37, R. 38, f. 14, 28 e 31.

Obras

Tradução de Português para Castelhano do Livro de Duarte Barbosa, em conjunto com o genovês Martin Centurion, 1524 (uma cópia que menciona a colaboração de Ribeiro encontra-se no ms. 835 da Biblioteca da Universidade de Barcelona).

Bomba metálica de água para uso a bordo, exemplares em 1524, 1526, 1531 e a bomba de 1533, de um peso de 303 libras (c. 140 kg) [não conservados].

Mapas

Planisfério de Castiglione (1525, atribuído a Ribeiro), 82 x 210 cm, Biblioteca Estense universitaria, Modena; anteriormente em ‘Archivio Marchesi Castiglioni’ (Mantova);

Planisfério de Weimar (1527, inacabado e atribuído a Ribeiro): ‘Carta Vniversal en que se contiene todo lo que del mvndo se a decubi[erto] fasta aora hizola vn cosmographo de sv magestad Anno. M.D.XX.VII. en Sevilla’. Manuscrito em pergaminho, 86 x 216 cm, Herzogin-Anna-Amalia-Biblithek Weimar, Kt 020-57S;

Planisfério de Roma (1529, assinado de Ribeiro): ‘Carta Vniversal en que se contiene todo lo que del mundo se há descubierto fasta agora. Hizola Diego Ribero cosmographo de Su magestad, año de 1529, em Sevilla […]’. Manuscrito em pergaminho, 85 x 204,5 cm, Biblioteca Apostolica Vaticana; anteriormente no Colégio da Propaganda Fide;

Planisfério de Weimar (1529), ‘Carta Vniversal em que se contiene todo lo que del mundo se há descubierto fasta agora, hizola Diego Ribero Cosmographo de su magestad, año de 1529’. Manuscrito em pergaminho, 89 x 217 cm, Herzogin-Anna-Amalia-Biblithek Weimar, Kt 020-58S;

Dois Fragmentos de um planisfério (c. 1530), anteriormente usado como de um capa dum livro e descoberto só em 1960. Manuscrito em pergaminho, Kreis- und Studienbibliothek Dillingen; 

Fragmentos de uma Carta do hemisfério ocidental (1532). Manuscrito em pergaminho, 67,8 x 87,5 e 58,3 x 87,8 cm, Herzog-August-Bibliothek Wolfenbüttel, 104-a-aug-2f e 104-b-aug-2f.

Instrumentos astronómicos e de navegação (quadrantes astrolábios náuticos), globos, compassos magnéticos etc. [não conservados].

Bibliografia sobre o biografado

Cortesão, Armando e Avelino Teixeira da Mota. Portugaliae Monumenta Cartographica, Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique. 6 vols., Lisboa 1960, vol. I, p. 87–94.

Horst, Thomas. Die Entdeckung Venezuelas durch die Europäer und ihr Niederschlag in Karten des 16. und 17. Jahrhunderts, in: Markus Heinz – Wolf Günther Koch (eds.): 13. Kartographiehistorisches Colloquium und 9. Dresdner Sommerschule für Kartographie. Vorträge, Berichte, Posterbeiträge (Schriftenreihe Kartographische Bausteine des Instituts für Kartographie der TU Dresden 34), Bonn 2012, p. 19–32.

Kohl, Johann Georg. Die beiden ältesten General-Karten von Amerika. Ausgeführt in den Jahren 1527 und 1529 auf Befehl Kaiser Karls V. im Besitz der großherzoglichen Bibliothek zu Weimar, Weimar, 1860.

Latorre, Germán. Diego Ribero: cosmógrafo y cartógrafo de la Casa de la Contratación de Sevilla (Publicaciones del Centro Oficial de Estudios Americanistas de Sevilla 2), Sevilla, 1919.

Sánchez, Antonio. La espada, la cruz y el Padrón: soberanía, fe y representación cartográfica en el mundo ibérico bajo la Monarquía Hispánica, 1503–1598 (Universos americanos 11), Madrid 2013, p. 108–117 (expedição Magalhães-Elcano, encontro de Badajoz-Elvas, Tratado de Saragoça), p. 153, p. 180–191 (Salviati, Castiglione e a reforma do padrão de 1526), p. 194–210 (Los planisferios de Diogo Ribeiro, el cartógrafo de Tordesillas), p. 213–216 (fragmento de Wolfenbüttel).

Vigneras, Louis-André. “The Cartographer Diogo Ribeiro”, Imago Mundi 16 (1962), p. 76–83.