Costa, Cristóvão da (Costa, Christovam da; Acosta, Christobal; Acosta, Christophorous; Coste, Christophle de la)

Cabo Verde?, ca. 1525 — Burgos?, ca. 1594

Palavras-chave: Cristóvão da Costa, Tratado das Drogas, matéria médica asiática, Índias Orientais, botânica do século XVI.

Médico e cirurgião quinhentista. Dado que assinou os seus tratados como “Christophorus Acosta Africanus”, assume-se que nasceu no continente africano. Não se conhecem, no entanto, evidências que permitam localizar o seu local de nascimento. As opiniões dos seus biógrafos dividem-se entre Tanger, Cabo Verde e Ceuta. A origem portuguesa parece ser evidenciada por Alõso Gonçalez de la Torre que no “Dialogo entre Fortuna y Fama al Autor Christoval Acosta” o designou de “valeroso Lusitano”.

Muito pouco se sabe sobre a sua juventude. Dos seus estudos, apenas se pode afirmar que cursou medicina e cirurgia. A sua fluência no idioma castelhano permite admitir que frequentou universidades espanholas. Partiu a 7 abril de 1568 para Oriente integrando, como físico e cirurgião, a armada de D. Luis de Ataíde, 10º Vice-rei da Índia (1568–1571) onde chegou em Outubro do mesmo ano. Permaneceu alguns anos na Índia, ao serviço do governante. Participou, como lhe competia no cargo que ocupava, nas campanhas militares. Tal como o licenciado Juan Costa referiu e o seu amigo Don Pedro Manrique sugeriu, o médico conheceu cativeiros e prisões. Estes dados não foram, até hoje, suportados por quaisquer elementos arquivísticos. No capítulo da pimenta, Costa testemunhou que o “capturaram no Malabar”. Ao longo do Tractado de las Drogas (Burgos, 1578) o físico contou algumas das suas deambulações pelo Oriente, nomeadamente a sua passagem pelos “bosques de Cangranor, junto ao rio Mangate”, a ida a Tanor ou as viagens às ilhas da costa ocidental da índia. Referiu ainda a sua “residência na cidade de Santa Cruz de Cochim” e testemunhou a sua actividade clínica no Hospital Real da cidade. Da permanência de Costa por terras orientais pouco mais se pode saber. Têm sido referidas peregrinações à longínqua China, à Pérsia, a Damasco, a Jerusalém ou ao Cairo. Das palavras do médico não foi possível, até hoje, estabelecer um percurso definitivo. A análise das gravuras que incluiu no Tratado de las Drogas pode ser uma ajuda preciosa para colmatar esta falta de dados. Plantas como as do cravinho ou a noz-moscada, provenientes das Molucas ou da Banda, não parecem testemunhar o mesmo realismo pictural que o tamarindo, a canela ou a árvore-triste. Podemos admitir que Costa nunca as viu nas ilhas de origem. Também o pau-de-maluco, “originário daquelas partes de Maluco”, que o médico contou ter-lhe sido apresentado por D. Luís de Ataíde no ano de 1571, parece evidenciar que Costa nunca viajou até este arquipélago. Já o facto de ter desenhado “como testemunha de vista” os duriões, frutos perecíveis e incapazes de suportar grandes viagens, nos leva a assumir a sua deslocação mais para Oriente, talvez até Malaca, região onde estes frutos abundam. Supõe-se que regressou ao Reino ao lado do Vice-Rei, que descreveu como sendo um “homem muito prudente e animoso”. Provavelmente testemunhou o ambiente festivo com que Lisboa acolheu D. Luís. As crónicas coevas atestam que foi com grande entusiasmo que a multidão encheu as ruas da cidade para acompanhar o governante, desde a sua chegada ao Tejo até à Igreja de S. Domingos. Ao certo sabe-se que em meados da década de 1570 vivia na Península Ibérica. Em Abril de 1576 assinou um contrato por três anos com a cidade de Burgos, que o acolheu como médico municipal. Nesta altura parece claro que Costa já dera provas do seu saber e da sua competência técnica. Admite-se que a decisão da instalação em Burgos terá decorrido rapidamente entre Julho de 1572 e finais de 1575. As razões da translação geográfica de Lisboa para Castela, continuam por clarificar. Mas não restam dúvidas que os seus conhecimentos e a sua perícia clínica foram notórios já que, em 1581, Costa viu o seu orçamento reforçado. O Senado de Burgos propôs-lhe um novo cargo, devidamente remunerado, o de médico dos pobres. Nesta altura já teria família formada e eram-lhe reconhecidas qualidades profissionais adequadas ao desempenho do lugar proposto. Costa manteve as suas funções até que a viuvez, por volta de 1587, o levou a afastar-se da sociedade. Optou então por uma vida de reflexão e de isolamento. Apesar da austeridade da sua nova existência, não se alheou do mundo. Manteve a sua atividade clínica, multiplicou os cuidados com o seu jardim botânico e prolongou a relação epistolar com os seus amigos, que afirmava “visitar com as suas cartas”. O médico procurou assim aquilo que designou num dos seus tratados venezianos “uma santa e sossegada vida”. 

Conhecem-se, atualmente, três tratados da autoria de Cristóvão da Costa. 

De todas as obras que publicou, aquela que lhe deu projecção no mundo erudito foi o Tractado de las Drogas (Burgos, 1578). Nesta obra, Costa conciliou o saber médico-botânico que, na Europa como no Oriente, acumulou ao longo sua vida profissional, com os novos conhecimentos sobre matéria médica divulgados por Garcia de Orta (ca. 1500–1568) em Colóquios dos Simples he Drogas e Cousas Mediçinais da India (Goa, 1563). Para além de complementar, aprofundar e corrigir algumas das novidades divulgadas por Orta, o médico tirou partido da sua experiência asiática para apresentar neste pequeno tratado a descrição das qualidades terapêuticas de plantas, como algumas ervas, os pinhões-de-Maluco, os charameis, o pau-de-Maluco, a moringa, o ananás bravo, o sargaço ou o carcapuli, até então desconhecidas ou pouco valorizadas na farmacopeia europeia.

Tractado de las Drogas é um pequeno volume. Ao longo das suas quase 450 páginas encontram-se distribuídas, de forma harmoniosa, cerca de meia centena de figuras desenhadas “à vista” por Costa. O seu formato agradável e os diversos índices remissivos tornaram este compêndio atrativo e de fácil consulta, não apenas para a comunidade erudita, mas também para mercadores, navegantes ou simples curiosos.

Em 1582, Clusius publicou em Antuérpia, Aromatum et medicamentorum in Orientali India nascentium liber um pequeno resumo latino desta obra, que foi reeditado em 1593 e integrado na colectânia  Exoticorum libri decem, (Leiden, 1605).

Obras como a Historiae Generalis Plantarum de Jacques Dalechamps (Lyon, 1586) e a Histoire Générale des Plantes (1615)de Jean de Moulins,  divulgaram muitas das informações respeitantes à flora asiática veiculadas no Tractado de las Drogas. Ainda durante o século XVI, em 1585, surgiu em Veneza, Della historia, natura, et virtu delle drogue medicinali, & altri semplici rarissimi, che vengono portati dalle Indie Orientali in Europa, com le figure delle piante ritrarte & disegnate dal vivo poste a’luoghi propij. versão italiana da obra de Costa, na qual se apresentou uma tradução quase literal do texto original. Este livro foi reeditado nas oficinas de Francesco Ziletti em 1589 e 1597, revelando o entusiasmo dos leitores italianos por esta obra. Em 1602 foi dada à estampa, em Lião, uma versão francesa da autoria de Antoine Colin. O tratado de Costa encontrava-se então integrado numa compilação de textos sobre matéria médica exótica: Traité des drogues & medicaments qui naissent aux Indes. Servant beaucoup pour l’esckaircissement & inteliigence de ce que Garcie du Jardin a ecrit sur ce sujet. A obra foi reeditada em 1619. Em 1623, Caspard Bahuin integrou as novidades botânicas descritas por Cristóvão da Costa no Pinax Theatri Botanici (Basileia, 1623), obra de referência para todos os botânicos europeus dos séculos seguintes. O saber médico-botânico divulgado por Costa foi assim, desde muito cedo, divulgado entre a comunidade erudita europeia.

Em 1592, o físico editou em Veneza duas pequenas obras: Tratado en contra y pro de la vida solitaria e o Tratado en loor de las mugeres. O primeiro era dedicado a Filipe II enquanto e o segundo dirigido à Infanta D. Catarina de Áustria. 

Nestes tratados, o médico, através do seu testemunho e das muitas histórias verídicas ou verosímeis que contou, procurou emendar os erros da sociedade que decidiu abandonar e apontar modelos de virtude que ajudassem os seus leitores a tornar-se “gentes louváveis”. A argumentação defendida por Costa, fruto da sua experiência ou enraizada nas fontes clássicas, revelou da sua enorme erudição. 

Alguns autores, entre os quais Anastásio Chinchilla, atribuiuem ainda a Cristóvão da Costa uma pequena obra Remedios específicos de la India Oriental y America. Barbosa de Machado, por seu turno, aludiu a outros escritos do médico como: Tres diálogos del amor divino, natural y humanoDiscurso del viagem de los Indios…ou Tratado de la vida solitária y religiosa de mugeres. No entanto, dado que até hoje não foi possível localizar qualquer exemplar destes textos, tais notícias deverão ser tomadas com precaução.

Teresa Nobre de Carvalho
CHAM, Universidade Nova de Lisboa
SFRH/BPD/119899/2016

Obras

Costa, Cristovão da. Tractado de las drogas, y medicinas de las Indias Orientales, com sus plantas debuxadas al bivo por Christoval Acosta medico y cirurjano que las vio ocularmente. Burgos: Martin de Victoria, 1578.

Costa, Cristóvão da. Tractado en contra y pro de la vida solitária. Con otros dos tractados, uno de la Religion y Religioso, otro contra los hombres que mal viven. Veneza:  Giacomo Cornetti, 1592.

Costa, Cristóvão da. Tractado en loor de las mujeres, y de la castidad, onestidad, constancia, silencio y justicia: con otras muchas particularidades y varias historias. Veneza: Giacomo Cornetti,1592.

Bibliografia sobre o biografado

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Barreto, Luís Filipe. Caminhos do saber no Renascimento Português. Estudos de história e teoria da cultura. Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1986.

Carvalho, Teresa Nobre de. “Imagens do mundo natural asiático na obra botânica de Cristóvão da Costa.” Revista de Cultura 20 (2006): 28–39.

Costa, Cristóvão da, Tratado das Drogas e Medicinas das Índias Orientais. Versão portuguesa com introdução e notas de Jaime Walter. Lisboa, Junta de Investigações do Ultramar, 1961

Guerra, Francisco. “Cristobal Acosta.” Dictionary of Scientific Biography, vol. 1: 47–48. Nova Iorque. Charles Scribner’s Sons. 1970.

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