Semedo, João Curvo (Joam Curvo Semmedo, Ioam Cvrvo Semmedo)

Monforte, 1 dezembro 1635 – Lisboa, 26 novembro 1719

Palavras-chave: terapêutica química, medicina seiscentista, remédios de segredo, livros médicos.

João Curvo Semedo, médico, cavaleiro da Ordem de Cristo e familiar do Santo Ofício, tem o seu nome marcado na história da medicina portuguesa principalmente devido ao seu papel pioneiro no uso e divulgação dos medicamentos químicos. 

Natural de Monforte, João Curvo Semedo viveu a sua juventude naquela cidade do Alto Alentejo até se mudar com a sua família para Lisboa, por volta de 1647, quando o seu pai abriu na Ribeira uma loja de ferro. Após passar pelo Colégio de Santo Antão, iniciou, por volta de 1667 o curso de Medicina na Universidade de Coimbra. Quando apresentou candidatura a familiar do Santo Ofício, intitulou-se como “médico do partido de sua Majestade”, o que supõe que realizou os seus estudos em Medicina com o auxílio pecuniário oferecido pelos partidos médicos de cristãos-velhos da Universidade. Uma vez licenciado, Curvo Semedo retornou em definitivo para Lisboa, onde se manteve  durante toda a sua trajetória profissional. 

Ainda que a profissão do seu pai estivesse entre aquelas que na dinâmica do Antigo Regime eram vistas como profissões mecânicas, que por isso possuíam menor prestígio e possibilidades de ascensão económica, a relação de Curvo Semedo com outros membros de sua família foram fundamentais para o seu sucesso profissional e para a diluição da sua origem humilde. Seja em maior ou menor proximidade, Curvo Semedo possuía entre os seus parentes importantes personalidades religiosas e médico-farmacêuticas da sociedade lisboeta do período. Através do seu segundo casamento, tornou-se cunhado do frei Manuel Guilherme (1658–1730), dominicano influente, professor de Teologia Moral, pregador e qualificador do Santo Ofício. A sua sobrinha foi casada com o Dr. José da Pina Coutinho, filho do cirurgião-mor do reino, Dr. Manuel da Pina Coutinho (n.–1715). Também foi primo direito por via materna de João Gomes da Silveira, boticário da Casa Real, que o representou na venda dos seus remédios. Em relação ao seu núcleo familiar mais próximo, casou duas vezes, tendo como descendente apenas um filho ilegítimo, o reverendo Inácio Curvo Semedo (n.–1746), que, por sua vez, faleceu sem filhos. Assim, após sua morte, a venda dos seus remédios ficou a cargo de Pedro Joaquim Curvo Semedo (1676–f.) e António Feliz Curvo Semedo (n.1768), respetivamente filho e neto do seu irmão mais velho.

No que respeita à sua prática laboral diária, Curvo Semedo teve uma ampla e heterogénea experiência profissional, tendo entre seus clientes indivíduos das mais diversas posições socioeconómicas. Entre as casas nobres às quais prestou serviços, constam a do duque de Aveiro, D. Pedro de Lencastre, dos marqueses de Arronches e de Angeja, da condessa de Vila Nova, do cardeal de Sousa e do estribeiro-mor. Além de particulares, Curvo Semedo foi também médico da Misericórdia e da Casa Real. Através do testamento de sua segunda esposa, Isabel Guilherme, infere-se que Curvo Semedo angariou ao longo da sua via uma considerável fortuna, visto que a sua esposa declarou ter entre seus bens mais de 14 000 cruzados ouro.

Em sua produção bibliográfica, da qual constam onze obras (algumas delas folhetos), é possível visualizar com maior clareza a sua trajetória profissional e, em especial, a sua importância na modernização do campo médico nacional. Tendo em conta que durante o período seiscentista o pensamento médico-farmacêutico português era hegemonicamente galénico e baseado em medicamentos de origem vegetal e animal, Curvo Semedo foi pioneiro na defesa e uso dos medicamentos químicos . Após o Tratado da Peste (1680) e Proposta que o Doutor João Curvo Semedo, Medico e morador em Lisboa faz aos amantes da saúde (1701), foi publicada aquela que seria a sua obra mais famosa, a Polianteia Medicinal. Notícias Galénicas e Químicas. Publicado originalmente em 1697, o livro foi reeditado quatro vezes, em 1704, 1716, 1727 e 1741. Dividida em três tratados, as suas mais de oitocentas páginas incluem a divulgação das qualidades terapêuticas de vários remédios químicos, entre os quais se destaca o antimónio. Também é relevante ressaltar que a obra é precursora na introdução de um estilo moderno de escrita científica, com a indicação e referência das fontes utilizadas, além da exposição da bibliografia consultada no final de cada capítulo, detalhes  pouco comuns na literatura médico-farmacêutica portuguesa da época. Obra pioneira em língua portuguesa em descrever a terapêutica química, a Polianteia Medicinal foi um dos manuais terapêuticos de maior popularidade entre médicos e boticários, tanto em Portugal como nas colónias, até meados do século XVIII.

Em 1706, Curvo Semedo publicou o folheto Manifesto que o Doutor João Curvo Semedo […] Faz aos Amantes da Saúde, dedicado a propagandear a eficácia de seus remédios de segredo. Os remédios de segredo foram um dos elementos mais característicos da farmácia portuguesa durante o século XVII e XVIII. Produzidos através de fórmulas secretas, esses remédios prometiam a cura para diversas enfermidades, sendo alguns produzidos em grandes quantidades e vendidos para o estrangeiro. No ano seguinte, publicou Observações Médicas Doutrinais de Cem Casos Gravíssimos, obra que incluiu vários casos de enfermos aos quais Curvo Semedo atendeu, assim como os prognósticos para cada caso e as terapêuticas por ele usadas. O objetivo da obra era orientar os médicos e leitores em casos semelhantes. O livro foi republicado em 1718 em latim, a língua científica da época, para assim conseguir alcançar um rol maior de leitores.

Em 1720, foi publicada postumamente Atalaia da Vida contra as Hostilidades da Morte. Editado de maneira enciclopédica e em ordem alfabética, o livro apresentou uma série de remédios anteriormente relatados em Polianteia Medicinal e Observações Médicas, além de um número menor de outros medicamentos até então inéditos. Também são da autoria de Curvo Semedo os panfletos não datados Manifesto em Que Se Mostra com Autoridade de Gravíssimos Doutores que Se Podem Dar Purgas Estando os Humores CrusMemorial de Vários Simples que da India Oriental, da América e de outras partes do Mundo vem ao nosso Reino, Advertências Dignas De Serem Sabidas e, por fim, Tratado do Ouro Diaforético.

Ainda que seja evidente nas obras de Curvo Semedo o seu interesse pela química terapêutica, bem como a influência de Nicolas Lemery (1645–1715) e Paracelso (1493–1541), deve-se sublinhar que Curvo Semedo não foi um adepto da iatroquímica, pensamento médico que buscava compreender o funcionamento do corpo humano, suas doenças e formas de cura em termos essencialmente químicos. Pelo contrário, foi notório o seu empenho em conciliar a terapêutica química com o galenismo, paradigma médico oficial da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e historicamente adotado pelos médicos do país. Isto é manifesto em Observações Médicas Doutrinais, onde Curvo Semedo afirmou que não era “tão obstinado sequaz da Escola Hermética, que não me preze muito de ser discípulo de Hipócrates; nem quanto louvo os remédios Químicos, deixo de conhecer se devem grandes aplausos aos Galénicos”. Não foi um exclusivo de Curvo Semedo a tentativa de conciliar os dois paradigmas; esta era uma prática característica do pensamento médico-farmacêutico português até pelo menos a primeira metade do século XVIII.

Para além da química e do galenismo, a terapêutica de Curvo Semedo apresentou também um forte componente religiosa na compreensão das enfermidades e no processo de cura do enfermo. Em Observações Médicas Doutrinais, várias são as passagens que demonstram a espiritualidade cristã na sua conduta médica. Ao receitar um óleo contra dores no tórax, Curvo Semedo prescreveu que o mesmo devia ser aplicado pelo tempo de oito Ave Marias; ao socorrer uma mulher com complicações decorrentes de um aborto malsucedido, o médico invocou a moral cristã contra a atitude da paciente, ainda que não lhe negasse socorro, devido ao seu compromisso como médico cristão. Em Atalaia da Vida contra as Hostilidades da Morte, Curvo Semedo indicou que seguir os preceitos de uma vida cristã, como a regularidade nas confissões, arrependimento dos pecados, orações e jejuns regulares, eram a melhor forma de prevenção e cura da peste. Desse modo, e em conformidade com seu tempo, as linhas que separavam questões de fundo religioso e médico não possuíam uma delimitação clara. Além da componente patológica, as doenças eram encaradas como um desejo ou punição divina, bem como os processos de cura estavam intimamente associados à esfera espiritual. 

Os remédios de segredos curvianos também desempenharam um papel marcante na trajetória profissional e prestígio médico de Curvo Semedo. A fama dos seus segredos era tão grande que os mesmos podiam ser encontrados em todo o Portugal e também em Espanha. O sucesso comercial de seus segredos suscitou várias falsificações, como denunciou várias vezes o próprio Curvo Semedo. Entre seus inúmeros segredos, destacam-se o bezoártico, os castelinhos de estancar sangue, trociscos de Fiavorante e pílulas absorventes. A sua importância foi tão grande que, mesmo sob protestos de alguns boticários, que os consideravam ultrapassados e inócuos em seus objetivos médicos, continuaram a ser consumidos até os fins do século XVIII.

Além de seus segredos, que podiam ser encontrados mesmo após a sua morte, a obra de Curvo Semedo alcançou uma notável repercussão internacional. Em 1735, o médico Thomás Cortijo Herráiz (n.–f.) publicou a obra Secretos Medicos y Chirurgicos del Doctor Don Juan Curbo Semmedo, onde se encontram compilados uma série de remédios descritos nas obras de Curvo Semedo. Em Espanha foram igualmente editados pelo médico Francisco Suárez de Riviera (1680–1754) uma série de livros sobre Curvo Semedo, nomeadamente Ilustracíon, y Publicacion de los Diez y Siete Secretos del Doctor Juan Curvo Semedo (1732), Observaciones de Curvo (1735) e Manifestación de Cien Secretos del Doctor Juan Curvo Semedo (1736). Por fim, em italiano consta a tradução de Memorial de Vários Simples, sob o título de Ricetti di Varj Remedj Orientaçli (1751).

O legado de Curvo Semedo está intrinsecamente ligado a difusão dos medicamentos químicos em Portugal, que influenciou uma série de personalidades do campo médico-farmacêutico na primeira metade do século XVIII. Entre eles, conta-se o cirurgião Luís Gomes Ferreira, autor de Erário Mineral (1735), livro que denota uma influência manifesta das obras de Curvo Semedo. O médico de D. João V, Francisco da Fonseca Henriques (1665–1731), que também possuía uma forte preferência pelo uso dos remédios químicos, sublinhou que muitos medicamentos de origem química devem o seu conhecimento a Curvo Semedo. 

Wellington Bernardelli Silva Filho
Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

Arquivos

Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Chancelaria da Ordem de Cristo, Liv. 53, fls. 335 vº 336.

Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Habilitações para a Ordem de Cristo, Letra J, M. 89, nº 62.

Obras

Semedo, João Curvo. Advertências Dignas De Serem Sabidas. Lisboa: s. n., s. d.

Semedo, João Curvo. Atalaia da Vida contra as Hostilidades da Morte. Lisboa: Oficina Ferreiriana, 1720.

Semedo, João Curvo. Manifesto em Que Se Mostra com Autoridade de Gravíssimos Doutores que Se Podem Dar Purgas Estando os Humores Crus. S. l.: s. n, s. d..

Semedo, João Curvo. Manifesto que o Doutor João Curvo Semedo […] Faz aos Amantes da Saúde. S. l.: Oficina de Valentim da Costa Deslandes, 1706.

Semedo, João Curvo. Memorial de Vários Simples que da India Oriental, da América e de outras partes do Mundo vem ao nosso Reino. S. l.: s. n., s. d.

Semedo, João Curvo. Observações Médicas Doutrinais de Cem Casos Gravíssimos. Lisboa: Oficina de António Pedroso Galrão, 1707.

Semedo, João Curvo. Observationes Aegritudinum Fere Incurabilium. Lisboa: Paschoalis a Sylva Serenissimi Regis Typographi, 1718.

Semedo, João Curvo. Polianteia Medicinal. Notícias Galénicas e Químicas. Lisboa: Oficina de Miguel Deslandes, 1697.

Semedo, João Curvo. Proposta que o Doutor João Curvo Semedo, Medico e morador em Lisboa faz aos amantes da saúde. Lisboa: s. n., 1701.

Semedo, João Curvo. Tratado da Peste. Lisboa: Oficina de João Galrão, 1680.

Semedo, João Curvo. Tratado do Ouro Diaforético. S. l.: s. n., s. d.

Bibliografia sobre o biografado

Dias, José Pedro de Sousa. “Terapéutica química y polifarmacia en Portugal. La contribución de João Curvo Semedo.” In Construyendo las Ciencias Químicas y Biológicas, ed. P. A. Pastrana, 67–88. Ciudad de México: Universidad Autónoma Metropolitana, 1998.

Dias, José Pedro de Sousa. “Tradição e Renovação na Terapêutica: a aceitação dos medicamentos químicos.” In Droguistas, Boticários e Segredistas: ciência e sociedade na produção de medicamentos na Lisboa de Setecentos, ed. José Pedro de Sousa Dias, 17–74. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2007.

Pina, Luís de. “A Vida Social Lisboeta na ‘Polyanthea’ de Curvo Semedo.” Revista Municipal 20/21 e 22/23 (1944): 3–16.

Pina, Luís de. Dr. Curvo Semedo: pioneiro da indústria farmacêutica. Lisboa: Sociedade Progresso Industrial1968.

Vigier, João

Espondeilhan, França, 14 Abril 1662 – Lisboa, 1723

Palavras-chave: Farmácia Química, Boticários e Droguistas, Farmácia setecentista, Farmacopeias Portuguesas.

O droguista João Vigier (Joam Vigier) (Espondeilhan, França, 14 Abril 1662 – Lisboa, Portugal, 1723), filho de Francisco Vigier e Joana Gaudion, era natural de Espondeilhan, localidade próxima a Béziers e Montpellier. Educado em França, Vigier radicou-se em Lisboa entre os anos de 1677 e 1682, onde inicialmente exerceu a profissão farmacêutica em conjunto com o seu tio, Pedro Donadieu. Na data de estabelecimento em Portugal, seu tio ocupava um importante cargo como boticário da Rainha, além de ser um reconhecido droguista na cidade.

Apesar de sua formação boticária, ele nunca chegou a realizar o exame para o exercício da profissão em Portugal, estabelecendo-se efetivamente como droguista durante seu trajeto laboral. A actividade nesse ramo comercial explica sua elevada condição socioeconómica, sendo sua fortuna avaliada, em 1719, em mais de 40.000 cruzados. Seu êxito comercial era tamanho que conseguiu, inclusive, ingressar um de seus filhos na Ordem de Cristo, feito então impensável a um boticário do período, mesmo os boticários da Casa Real, qual ocupavam o topo hierárquico da profissão.

Ainda que os ofícios de boticário e droguistas estivessem correlatados ao campo médico, as condições socioprofissionais da Farmácia portuguesa durante o século XVII e XVIII delimitavam posições hierárquicas distintas para ambas. O exercício boticário carregava consigo o status servil de ofício mecânico, qual dificilmente permitia que seus praticantes alcançassem ascensão económica ou reconhecimento técnico-científico. Em contraposição, enquanto droguista, Vigier colocava-se entre os homens de negócio e, dentro da hierarquia socioprossional do período, em uma posição mais elevada aos boticários.

Muitos detalhes sobre a vida de Vigier permanecem ainda hoje ignotos. A maior parte do que sabemos sobre sua biografia provém de excertos extraídos das suas obras, seu testamento e detalhes encontrados nos documentos referentes aos seus filhos. As fontes documentais dão conta que o droguista francês instalou-se na Rua das Flores, mudando-se posteriormente para a Calceteria, em frente a Casa da Moeda.

Os registros também apontam que Vigier casou-se por duas vezes. Com sua primeira mulher, Maria dos Santos, uma franco-portuguesa, e deste camasameto teve sete filhos (um deles falecido ainda criança). O mais velho, Luís Vigier, nascido em 1686, foi Familiar do Santo Ofício e também exerceu a profissão de droguista, porém morreu prematuramente em 1716. Com o falecimento desse, coube a Bartolomeu Vigier herdar o negócio do pai. Os quatro filhos restantes tornaram-se membros do clero, sendo dois cónegos na Sé de Coimbra e duas freiras no convento de Santa Marta, em Lisboa. Vigier casou-se por uma segunda vez, por volta de 1705, com D. Francisca Teresa de Jesus. De seu segundo matrimónio, Vigier ainda teve outros três filhos, ainda menores na data de seu falecimento.

A projeção profissional de Vigier, bem como sua própria importância histórica, está directamente ligada à sua relevância para a introdução da farmácia química em Portugal. Assim como seu tio Pedro Donadieu, Vigier era conhecido por vender drogas de origem química às boticas do Reino. A ausência de uma concorrência numerosa no país fez com que o comércio prosperasse suntuosamente. Em 1716 e 1719 são encontrados na Gazeta de Lisboa, não sem destaque, anúncios assinados por Vigier que em sua casa de comércio eram encontradas “toda casta de drogas, ou simples, e químicas, aos boticários desta corte e Reino”.

Também é no contexto de divulgação comercial que muitas de suas publicações podem ser entendidas. Ao introduzir as drogas químicas na literatura farmacêutica nacional, seus livros configuravam-se não somente como expressões científicas do período, mas também como manuais de simples e compostos químicos que poderiam ser comprados em sua casa de comércio. O primeiro de seus livros foi Tesouro apolíneo, galénico, químico, cirúrgico e farmacêutico, ou compêndio de remédios para ricos e pobres, foi publicado primeiramente em 1714, levado a uma segunda estampa posteriormente, em 1745. É notório nas páginas desse tratado de matéria médica a presença e emprego das drogas químicas para a cura e conservação da saúde.  

No ano de 1716 foi publicada sua mais importante e reconhecida obra, a Farmacopeia Ulissiponense, galénica e química, que contém os princípios definições e termos gérais de uma e outra Farmácia. Suas páginas configuram-se como a primeira publicação em português onde podem ser encontrados, de maneira organizada e sistemática, as formas de preparação dos remédios de origem química. Também são significativas as ilustrações – que por si só representavam uma inovação na literatura farmacêutica – onde Vigier apresentava os instrumentos necessários para a produção das drogas químicas. Tanto em Tesouro apolíneo, como em Farmacopéia Ulissiponense, podemos perceber a influência marcante das obras do químico francês Nicolas Lémery (1645-1715) no trabalho de Vigier. Vários são os trechos que remetem, direta ou indiretamente, para as obras Curso de Química (1675) e Farmacopeia Universal (1679) de autoria de Lémery. 

Em complemento as questões relativas a farmácia química, a Farmacopeia Ulissiponense também reserva passagens de destaque para as drogas simples de origem vegetal, dentre elas, o capítulo Tratado das virtudes e descrições de diversas plantas, e partes de animais do Brasil, e das mais partes da América, ou Índia Ocidental, de algumas do Oriente descobertas no último século. Nas quase 60 páginas desse capítulo, Vigier compila uma série de espécies naturais até então ainda desconhecidos por grande parte dos boticários portugueses, além de outras há muito conhecidas e encontradas largamente entre suas boticas.

Também foi dada a estampa por Vigier o livro Cirurgia anatómica, e completa por perguntas e respostas que contém os seus princípios, a osteologia, a miologia, os tumores, as chagas, as feridas símplices e compostas, impressa pela primeira vez no ano de 1715, e posteriormente nos anos de 1758 e 1768. A obra é uma tradução do livro homónimo de Daniel Leclerc (1652-1728), publicado originalmente em 1702 em Paris. As sucessivas reedições do livro, algumas mesmo publicadas em datas muito posteriores à morte de Vigier, remetem a deficiência de literatura especializada sobre o campo em Portugal deste período. Para além dos assuntos relacionados com a cirurgia, suas páginas também abordavam temas relacionados à farmácia química e produção de remédios associados à prática cirúrgica. Dentre eles, a instrução de como preparar a panaceia mercurial, um fármaco amplamente utilizado na cidade de Lisboa, qual a botica de Mosteiro de São Vicente de Fora era notória em sua produção e venda.

Sua quarta obra, História das Plantas da Europa e das mais usadas que vem da Ásia, África & das Américas, é datada de 1718 e fora impressa na cidade de Lyon. Sua publicação tem a intenção de suprir a necessidade de um livro exclusivamente dedicado as plantas terapêuticas em Portugal e Reino Ultramar. A obra também destaca-se pela numerosa quantidade de ilustrações contidas em suas páginas, sendo ao todo mais de 600 xilogravuras onde são evidencidas os principais elementos morfológicos das plantas abordadas, como o formato de suas folhas, raízes, flores e presença de fruto. Como declarado pelo autor no prólogo, a obra tinha como objetivo instruir os leitores na prática de reconhecimento e classificação das espécies vegetais, elemento esse qual Vigier considerava os droguistas de Portugal carentes de um maior embasamento teórico.

Assim como a Cirurgia anatómica, a História das Plantas é uma tradução do livro homónimo francês publicado pela primeira vez em 1670, também em Lyon, por Jean Baptiste De Ville. Profusamente reeditada, podemos encontrar exemplares da obra francesa datados até a segunda metade do século XVIII, sendo as últimas edições assinadas por Nicolas De Ville. Tanto em sua versão original, quanto na tradução em português por Vigier, a classificação botânica encontrada em suas páginas são balizadas pela obra de Gaspard Bauhim (1560-1624), naturalista suíço que, antes de Carl Linnaeus (1707-1778), formulou uma classificação botânica assentada na morfologia e nomenclatura binomial das plantas.

Por sua copiosa publicação no campo farmacêutico e médico, D. João V fez-lhe a mercê de 40.000 réis, incluindo o hábito da Ordem de Cristo, posteriormente herdado por seu primogénito Luís Vigier e, após a morte desse, por seu filho Bartolomeu Vigier em 1726. 

Em seu testamento, estão dispostas informações pertinentes sobre a rede de contatos do droguista francês. Dentre eles, destaca-se aquele que deveria ser seu grande amigo, o também droguista francês Dionísio Verney (1650-1734), pai de Luís António Verney (1713-1792), autor de O Verdadeiro Método de Estudar (1746) e outras obras de expressiva importância do Iluminismo português. Ademais a Dionísio Verney, são citados outros droguistas e boticários lisboetas como profissionais ligados a Vigier, como Manuel Galvão, António Sonis e Jácome Vallebella.

Detalhes sobre sua morte, como o local, data e condição para tal, são pouco claras pela documentação existente; todavia sabe-se que foi em Lisboa no ano de 1723. 

Wellington Bernardelli Silva Filho
Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

Arquivos

Gazeta de Lisboa, 1716, 8 Ag., 32, 168 e 1719, 16 Fev., 7, 56.Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Chancelaria de D. Afonso VI, Liv. 22, fl. 170.

Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Chancelaria de D. João V, Liv. 42, fl. 8 e Liv. 47, fl. 168.

Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Chancelaria da Ordem de Cristo, Liv. 173, fls. 168-187, fl. 213 e fl. 216.

Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Registro Geral de Testamentos, Li. 145, fls. 53-55 e Liv. 171, fls. 188-192.

Obras

Vigier, João. Tesouro apolíneo, galénico, químico, cirúrgico e farmacêutico, ou compêndio de remédios para ricos e pobres. Lisboa, Oficina Real Deslandesiana, 1714.

—. Cirurgia anatómica, e completa por perguntas e respostas que contém os seus princípios, a osteologia, a miologia, os tumores, as chagas, as feridas símplices e composta. Lisboa, Oficina Real Deslandesiana, 1715.

—. Farmacopeia Ulissiponense, galénica e química, que contém os princípios definições e termos gérais de uma e outra Farmácia. Lisboa, Pascoal da Silva, 1716.

—. História das Plantas da Europa e das mais usadas que vem da Ásia, África & das Américas. Lyon, Oficina de Anisson, Posuel & Rigaud, 1718.

Bibliografia sobre o biografado

Debus, Allen G. “Chemeistry and Iatrochemistry in Early Eighteeth-Century Portugal: A Spanish Connection” in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal até o Século XX: I Colóquio, Lisboa, 15 a 19 de Abril de 1985, 2 vols. (Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, 1986), 2: 1245-1262.

Calainho, Daniela Buono. “João Vigier: Um droguista no Portugal setecentista” (artigo apresentado no XII Encontro Regional de História – Anpuh Rio, Niterói, Rio de Janeiro, 14-18 de Agosto de 2006).

Dias, José Pedro de Sousa. “João Vigier e a Introdução da Química Farmacêutica em Portugal”, Farmácia Portuguesa, 43, (1987): 31-35.

—. “Novas actividades e ocupações” in Droguistas, Boticários e Segredistas: ciência e sociedade na produção de medicamentos na Lisboa de Setecentos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2007.

—. “Um grupo socio-profissional setecentista de grande importância na economia do medicamento: os droguistas”, Farmácia Portuguesa, 54 (1988), 31-35.José Pedro de Sousa Dias e João Rui Pita, “L’influence de la pharmacie et de la chimie françaises au Portugal au XVIIIe siècle : Nicolas Lémery”, Revue d’Histoire de la Pharmacie 300 (1994): 84-90.