Holanda, Francisco de

Lisboa, ca. 1517 — Lisboa, 19 junho 1585

Palavras-chave: Humanista, urbanista, tratadista, teoria da ideia.

Francisco de Holanda nasceu em Lisboa em 1517. Foi o segundo filho de António de Holanda (c. 1480-1556), pintor da corte de D. Manuel I (1469-1521) e de D. João III (1502-1557), possivelmente originário dos Países Baixos (como o nome indica), e especialmente dedicado a iluminura heráldica. A partir de 1536 António de Holanda recebe a mercê de rei de armas e escrivão da nobreza, o que garantia algum bem-estar e segurança à família e sobretudo acesso à vida na corte e a privilégios concedidos pela família real. Francisco de Holanda cresce, assim, na corte e torna-se moço da câmara do Infante D. Afonso (1509-1540), filho de D. Manuel I, escudeiro-fidalgo de D. João III em 1541, cavaleiro-fidalgo em 1556 e, finalmente, recebe o hábito de cavaleiro da Ordem de Cristo. Casa-se em 1560 com a aia da rainha D. Catarina (1507-1578). Francisco de Holanda tinha possivelmente oito irmãos que beneficiaram igualmente do estatuto do seu pai na corte.

Neste contexto, Francisco de Holanda aprendeu, desde a infância, a arte da pintura com o seu pai e, na qualidade de moço fidalgo do Infante D. Afonso, residiu no seu Paço em Évora onde o humanista André de Resende (1498-1573) protagonizava um círculo renascentista em Portugal. Aos vinte anos, parte para Roma com o séquito da embaixada de D. Pedro Mascarenhas (1484-1555) para aí completar os seus estudos de pintura. Estudou em Roma entre Setembro de 1538 e 15 de Março de 1540, com o apoio financeiro de D. João III. No contexto do Pleno Renascimento Italiano foi introduzido por Blosio Palladio (-1550) e Lattanzio Tolomei, amigos de longa data do antigo embaixador de Portugal em Roma – D. Miguel da Silva (1480-1556) – no círculo da poetisa Vitoria Colonna (1492-1547), no qual participavam igualmente Miguel Ângelo (1475-1564), Parmigiano (1503-1540) e Giambologna (1529-1608).  

Durante a sua estadia em Roma, Francisco de Holanda desenhou profusamente as obras que viu, tal como D. João III e o Infante D. Luís (1506-1555) desejavam, o que resultou no livro de aparato denominado Antigualhas, conservado na Biblioteca do Escorial (28-I-20). As Antigualhas, para além do valor documental que consubstanciam, iluminam o quadro teórico de Francisco de Holanda e o seu esforço para estabelecer uma taxonomia das esculturas antigas – as figuras pedestres, em movimento, a correr ou a combater, sedentes ou reclinadas. 

Paralelamente ao desenvolvimento da teoria da ideia por inspiração divina, que comunga com Miguel Ângelo, Il Divino, Francisco de Holanda intelectualiza a antiqua novitas – um grupo de normas sistematicamente observadas nas obras antigas, cuja aprendizagem e aplicação garantiriam uma qualidade média patente uniformemente. Por estas razões, a persona de Francisco de Holanda para além de pintor e arquiteto, é também um construtor de conhecimento. 

Enquanto a aprendizagem da norma garantia a qualidade da arte em termos gerais, os artistas de génio procuravam atingir o nível do Criador, a Ideia. O desenho passou a ser entendido como a incarnação da ideia invisível e incorpórea, fonte de todas as artes e ciências e por isso “tudo o que se faz neste mundo é desenhar”, no sentido de que desenhar (esboçar ideias) é o máximo que se pode ambicionar fazer neste mundo.

Holanda foi o primeiro artista da Península Ibérica a corresponder ao ideal de artista do Renascimento Italiano cujo trabalho assenta no desenho e na conceção da obra, e a defender o valor da ideia, da arte como “coisa mental” e, por isso mesmo, exclusivamente acessível aos homens livres, aos fidalgos, distanciando assim a pintura do trabalho manual do artesão. Por isso mesmo, nunca participou ou colaborou com qualquer associação ou grémio de oficiais mecânicos e assumiu a denominação de arquiteto, apesar de nunca ter dirigido uma obra arquitetónica – limitou-se a fornecer os desenhos para a Fortaleza de Mazagão – para reforçar a diferença com o mestre pedreiro, o riscador ou mesmo engenheiro militar. Para Francisco de Holanda existia uma diferença imensa entre aquele que tem a ideia e aquele que executa. 

Francisco de Holanda destacou-se sobretudo no campo teórico, sendo o único nome de um artista português do Renascimento com prestígio internacional como tratadista. Escreveu quatro tratados paradigmáticos que revelam o seu pensamento crítico sobre pintura, desenho e urbanismo e que permanecem igualmente espelho das profundas transformações que ocorreram no Renascimento ao nível de observação do mundo real e modo de o pensar e representar.

O seu mais importante tratado Da Pintura Antiga começou a ser redigido por volta de 1541, mal tinha chegado de Itália, e foi terminado em Lisboa em 1548. Da Pintura Antiga é um tratado de pintura dividido em dois textos: Da Pintura Antiga e Diálogos em Roma. Neste tratado, Francisco de Holanda enumera as ciências de que convém o pintor ter conhecimentos: Latim, Grego, Filosofia Natural, Teologia, História, Música e Matemática, Cosmografia, Astrologia, Geometria e perspetiva, Anatomia, sublinhando que deveria ter desta disciplina tantos conhecimentos como um cirurgião, escultura e arquitetura. Esta panóplia de saberes aponta o enciclopedismo com que concebia a atividade artística, que aliás é próprio dos pintores humanistas do Renascimento. Francisco de Holanda cita nos seus tratados Vitrúvio, Alberti, Sagredo, Durer, Serlio, Pomponio Gaurico, mostrando estar a par das últimas correntes de produção conceptual e prática da arte do seu tempo. 

Do tirar polo natural (1549) foi escrito por Francisco de Holanda em Santarém e surge como continuação dos dois volumes Da Pintura Antiga concluídos em 1548. Em 1563 o pintor português Manuel Dinis realizou a tradução para castelhano – Del sacar por el natural –, mas, pelo facto de não ter chegado a ser impresso, não é possível aferir do seu verdadeiro impacto. Em 1775, o manuscrito em castelhano estava nas mãos do escultor do Rei, D. Filipe de Castro, passando, a partir de 1800, a ser propriedade da Real Academia de Belas Artes de São Fernando, em Madrid.

Em vez do estudo direto da natureza, Holanda defende o estudo exclusivo das obras antigas onde já se encontrava a imitação seletiva perfeita da natureza. Neste sentido, Francisco de Holanda prefigura o academismo dos séculos XIX e XX porque foi a vontade de descobrir o cânone dos Antigos que conduziu à criação de coleções de esculturas da Antiguidade Clássica por toda a Europa. 

Francisco de Holanda parece nunca ter tido residência fixa, antes andando ao sabor das deslocações da corte e vária documentação localiza-o em Évora entre 1537 e 1545, em Santarém entre 1547 e 1549 quando acabava de escrever Da Pintura Antiga, em Almeirim, por volta de 1551 e 1570 e, entre 1571 e 1573, em Lisboa na freguesia de Santa Clara. É certo que passou o Verão de 1571 na sua quinta em Sintra, região que frequentava desde a juventude na companhia do infante D. Luís, percorrendo a Serra de Sintra a observar a natureza e os vestígios arqueológicos antigos que se iam redescobrindo. Foi no seu Monte em Sintra que, em 1571, terminou as suas duas obras: Da Fábrica que falece à Cidade de Lisboa e De quanto serve a ciência do desenho assim na paz como na guerra

O tratado de urbanismo A Fabrica que falece á cidade de Lisboa oferece uma lista de edifícios e obras arquitetónicas que eram necessários construir para enobrecer Lisboa, como um aqueduto, pontes e calçadas públicas, fortalezas e baluartes, chafarizes nas praças, igrejas e capelas, e palácios com jardins em terraços como os do Renascimento italiano. 

Apesar dos tratados serem claramente uma crítica ao estado das artes e da arquitetura em Portugal e de ser certo que Francisco de Holanda considerava a pintura italiana claramente superior, o seu desenho Roma Caída revela o pensamento de Francisco de Holanda. Partilhava com Pedro Nunes, D. João de Castro, João de Barros, Frei Heitor Pinto, e Camões, entre outros, a visão grandiosa e messiânica de Lisboa como a capital do V Império e não outras cidades antigas da Europa “que não dominam nem o Oriente nem o Ocidente como o faz Lisboa” (Da Fábrica que falece à cidade de Lisboa, cap. 3).

Da fábrica que falece à cidade de Lisboa, o primeiro tratado de urbanismo escrito na Península Ibérica, estava pronto e licenciado para impressão em 1576, oito anos antes da morte de Francisco de Holanda, mas por razões que se desconhecem, só vieram a ser publicados no século XIX o que só pode ter sido um grave prejuízo para o desenvolvimento das artes e da ciência em geral. Francisco de Holanda delineou a primeira teoria que introduziu a Filosofia na História da Arte, baseada em Platão e no neoplatonismo de Marsilio Ficino (1433-1499) e Cristoforo Landino (1424-1498). Foi o primeiro a descrever a atividade do pintor como “criar” (Pintura Antiga, I, 2). Mesmo Giovanni Paolo Lomazzo (1538-1600) e Federico Zuccaro (1540-1609) que produziram importantes textos de teoria da arte algumas décadas depois, não foram tão assertivos quanto Francisco de Holanda a reivindicar a liberdade criativa para a pintura de uma forma sem precedentes no século XVI. Esta visão da arte só vingou muito mais tarde e o valor incontornável da “ideia” veio a ser, muitos séculos depois, a base do pensamento tanto artístico quanto científico.

Ana Duarte Rodrigues

Obras

Holanda, Francisco de. Da Pintura Antiga. Lisboa: Livros Horizonte, 1984.

—. Diálogos em Roma. Lisboa: Livros Horizonte, 1984.

—. Do Tirar Polo Natural. Lisboa: Livros Horizonte, 1984.

—. Da Fábrica que Falece à cidade de Lisboa (Lisboa: Livros Horizonte, 1984)

—. De quanto serve a ciência do desenho assim na paz como na guerra (manuscrito)

Bibliografia sobre o biografado

Teixeira, António Moreira. A ideia não tem fim: para uma filosofia da História da Arte em Francisco de Holanda, Tese de Doutoramento em Filosofia apresentada à Universidade de Lisboa, 2002.

Moreira, Rafael. “Novos dados sobre Francisco de Holanda”, Sintria, (I-II, tomo 1, Sintra, 1982/83, pp. 619-692)

Deswarte, Sylvie. “Rome déchue”: décomposition d’une image de Francisco de Holanda (S.I.: s.n., 1990, pp. 97-181)

Deswarte, Sylvie. Ideias e imagens em Portugal na época dos Descobrimentos: Francisco de Holanda e a teoria da arte (Lisboa: Difel, 1992)Sylvie Deswarte-Rosa, Francisco de Holanda entre théorie et collection: “Tudo o que se faz em este mundo é desenhar” (Valladolid: Universidad, 2004)