Silva, José Bonifácio de Andrade e

Santos, Capitania de São Paulo, Brasil, 13 junho 1763 — Ilha de Paquetá, Brasil, 6 abril 1838

Palavras-chave: mineralogia, geognosia, Intendência Geral de Minas, Academia de Minas de Freiberg, Academia das Ciências de Lisboa, malária.

José Bonifácio de Andrada e Silva foi um mineralogista e estadista. O seu pai, Bonifácio José Ribeiro de Andrada foi coronel e detentor de uma fortuna considerável, e a mãe, Maria Bárbara da Silva, prima do marido, descendia dos condes de Bobadela. Os Bobadela-Freire de Andrade constituíam um dos ramos de uma abastada e respeitada família nobre do norte de Portugal.

Primeiramente instruído pelo pai, José Bonifácio foi para São Paulo em 1777, tendo ali estudado gramática, retórica, filosofia e francês sob a orientação do franciscano Manuel da Ressurreição, sagrado bispo de São Paulo por Frei Manuel do Cenáculo de Vilas Boas, em 1774. Em 1783, foi enviado para Portugal a fim de completar a sua educação, matriculando-se na Universidade de Coimbra, que fora reformada em 1772 pelo marquês de Pombal, onde estudou matemática, filosofia natural, que na época abrangia a astronomia e a história natural, e direito, tendo concluído os estudos na Faculdade de Filosofia, em 1787, e na Faculdade de Leis, em 1788. 

Na sua juventude coimbrã, José Bonifácio cultivou igualmente a poesia e as ideias expressas nos seus poemas foram muitas vezes explicitamente inspiradas em Leibniz, Descartes e Newton. Leu diversos autores clássicos e contemporâneos, tais como Montesquieu, Locke, Pope, Virgílio, Horácio, Camões e Rousseau, sendo Voltaire o filósofo que mais o influenciou.

Com o apoio de um familiar, o duque de Lafões, parente da família real e um dos fundadores da Academia Real das Ciências de Lisboa (1779), Bonifácio tornou-se membro desta instituição em 1789, apresentando neste ano o seu primeiro trabalho, intitulado “Memória sobre a pesca das baleias e extração do seu azeite; com algumas reflexões a respeito das nossas pescarias”.

Em 1790, José Bonifácio casou com a irlandesa Narcisa Emília O’Leary. Entretanto, o duque de Lafões foi exercendo influência junto de D. Maria I para que esta enviasse Bonifácio para o estrangeiro numa missão científica, que se prolongou por um decénio. O principal objetivo foi obter e trazer para Portugal informações teóricas e práticas sobre química, mineralogia, exploração de minas e metalurgia, áreas então em franco desenvolvimento na Europa em resultado da revolução industrial. 

Bonifácio deixou Portugal na companhia de dois naturalistas: Joaquim Pedro Fragoso de Sequeira e Manuel Ferreira da Câmara Bittencourt Aguiar e Sá, ambos igualmente nascidos no Brasil. Entre 1790 e 1791, estudou mineralogia com René Juste Haüy, botânica com Antoine Laurent de Jussieu, química e mineralogia com Jean-Antoine Chaptal e Antoine François de Fourcroy e frequentou as aulas de Jean-Pierre-François Guillot-Duhamel na Escola de Minas de Paris. Ainda em 1790, apresentou um trabalho, em coautoria com o irmão, Martim Francisco de Andrada e Silva, à Sociedade de História Natural, intitulado “Mémoire sur les Diamants du Brésil”, que lhe valeu o ingresso nesta instituição no ano seguinte. Algum tempo antes, foi eleito para a Sociedade Filomática, um passo que normalmente precedia a filiação na Academia das Ciências de Paris. Na realidade, foi, mais tarde, membro-correspondente do Instituto de França, instituição criada por Napoleão Bonaparte, que agrupou as cinco principais academias francesas, incluindo a Academia das Ciências. Durante a sua estadia em França, foi testemunha da “hidra fatal” da Revolução Francesa, liderada por “homens solapados que se apregoam amigos do povo”. Bonifácio repudiou-a por diversos motivos, entre os quais seus efeitos sangrentos.

José Bonifácio foi depois para os estados germânicos, onde frequentou, entre 1792 e 1794, os cursos de geognosia e minas de Abraham Gottlob Werner na famosa Academia de Minas de Freiberg. Ali foi colega e amigo dos prussianos Alexander von Humboldt e Christian Leopold von Buch, do dinamarquês Jens Esmark e do espanhol Andrés Manuel del Rio, todos naturalistas de renome. Na Academia de Freiberg, estudou ainda matemática pura e aplicada com Johann Friedrich Lempe, direito e legislação mineira com Josef Köhler, química mineral com Johann Klotzsch, química prática com Johann Carl Freisleben e metalurgia com Wilhelm August Eberhard Lampadius.

Visitou diversas minas na Áustria e viajou por Itália, onde privou com Alessandro Volta, e pela Grã-Bretanha, onde conheceu Joseph Priestley. Em Itália, dedicou-se aos estudos geológicos, o que o levou a escrever em 1794 uma dissertação intitulada “Viagem Geognóstica aos Montes Eugâneos”, na qual, enquanto neptunista na linha de Werner, se opôs às teorias vulcanistas sobre essa mesma região italiana, defendidas por Johann Jacob Ferber, Alberto Fortis e Lazzaro Spallanzani. Entre 1796 e 1799, viajou pela Suécia, Noruega e Dinamarca, onde teve a oportunidade de frequentar cursos de mineralogia em Uppsala com Torbern Bergman e, as lições de Peter Christian Abilgaard em Copenhaga. Visitou ainda minas na Escandinávia, em Arendal, Sahla, Krageroe e Langbanshyttan. Destas visitas resultou a descoberta de doze novos minerais (quatro novas espécies e oito variedades de espécies conhecidas). As quatro novas espécies de minerais foram por ele designadas, respetivamente, petalite, espodumena, criolite, escapolite. As oito variedades que pensou serem novas espécies foram designadas wernerite (uma variedade de escapolite), acanticónio (uma variedade de epídoto), salita (um nome que hoje se aplica às piroxenas comuns), cocolite (uma variedade de piroxena), ictioftalmite (uma mistura de apofilite com indicolite e alocroíte), indicolite (correspondente à turmalina azul), afrisite (uma variedade de turmalina negra) e alocroíte (correspondente à granada). Todos estes minerais foram descritos num artigo intitulado “Kurze Angabe der Eigenschaften und Kennzeichen einiger neuen Fossilien aus Schweden und Norwegen nebst einigen chemischen Bemerkungen über dieselben”, publicado na revista alemã Allgemeines Journal der Chemie.

Este estudo teve uma considerável repercussão na Europa, tal como revelam as diversas traduções da versão original alemã. Nele, Bonifácio deu especial ênfase à determinação do peso específico dos minerais, que calculou com grande precisão. O peso específico era, à época, um parâmetro fundamental para a identificação de minerais, uma vez que o fenómeno do isomorfismo era ainda desconhecido, a escala de Mohs não existia e os sistemas cristalinos ainda não tinham sido estabelecidos. Os mineralogistas tinham de confiar integralmente na determinação rigorosa de propriedades como a clivagem, a cor, a dureza aproximada, as formas de cristalização e as propriedades químicas. Dois dos minerais identificados por José Bonifácio adquiriram particular importância na história da classificação periódica dos elementos químicos: a petalite e a espodumena, originalmente identificados na Suécia. Ambos os minerais são silicatos, mas foi Martin Klaproth que, alguns anos mais tarde, determinou a natureza da espodumena como um silicato de alumínio. No entanto, a massa total do mineral excedia sempre a soma das massas respetivas de alumínio e silício. Só em 1818, um estudante de Jöns Jacob Berzelius, Johann August Arfwedson, concluiu, através de uma minuciosa análise da petalite, que este mineral incluía uma base contendo um metal ao qual deu o nome de lítio. O mesmo ocorreu com a espodumena, na qual Humphry Davy e William Thomas Brande identificaram, independentemente, a presença de lítio.

Na Escandinávia, José Bonifácio recusou o convite do príncipe da Dinamarca para inspetor das minas norueguesas. Após a estadia no norte da Europa, visitou a Bélgica, a Holanda, de novo os estados germânicos, a Hungria, a Boémia, a Turquia e a Inglaterra. Com 37 anos, tornara-se membro das mais relevantes instituições científicas europeias, como a Sociedade Mineralógica de Iena, a Academia de Berlim, a Academia de Estocolmo, a Sociedade Geológica de Londres e a Sociedade Werneriana de Edimburgo.

Em 1801, regressou a Portugal e as suas atividades foram oficialmente reconhecidas pela Coroa que o nomeou para diversos cargos, que nem sempre eram pagos e, frequentemente, eram mal pagos, sendo encarados como distinções e sinais de reconhecimento oficial. José Bonifácio rapidamente se sentiu submergido pelo excesso de tarefas administrativas, que, muitas vezes, implicavam a cobertura de todo o país, destacando-se as de membro do Tribunal de Minas, intendente-geral das Minas e Metais do Reino, administrador das minas de carvão de Buarcos e das minas e fundição de ferro de Figueiró dos Vinhos e inspetor das matas e florestas. Foi também nomeado para a cátedra de Metalurgia da Universidade de Coimbra, com um contrato por seis anos, mas esta experiência revelou-se frustrante. A mentalidade dominante e a falta de instalações e equipamentos não lhe permitiram prosseguir os seus planos de modernização do ensino da mineralogia, que considerava livresco e arcaico. Numa tentativa de ultrapassar estas dificuldades, recorreu à sua coleção particular de minerais, que sabia ser de grande qualidade e com potencial para se tornar uma das melhores da Europa. Foi também nomeado diretor do Real Laboratório da Casa da Moeda, em 1801, ficando encarregado de aí organizar aulas práticas de química e docimasia, e, em 1802, diretor das obras de reflorestamento da orla marítima portuguesa. Enquanto diretor do laboratório da Casa da Moeda, Bonifácio orientou diversos projetos de investigação. Em 1814, publicou, em conjunto com João Croft, Sebastião de Mendo Trigoso e Bernardino António Gomes, um artigo sobre o quinino que resultou de pesquisas realizadas em 1811, efetuadas no contexto da busca, promovida pelo governo português, de um substituto brasileiro da quinquina peruana. Esta substância era amplamente utilizada como antipirético, sobretudo na luta contra a malária. Pela vastidão dos conhecimentos de química adquiridos no estrangeiro, orientou as investigações subsequentes realizadas no laboratório da Casa da Moeda por Alexandre António Vandelli, e pelo médico Bernardino António Gomes, tendo este último isolado, por cristalização da denominada Chinchonina, a substância ativa de carácter básico (alcaloide) presente na casca da quina.

Em 1807, foi dispensado da docência na Universidade para melhor se dedicar à Intendência-Geral de Minas, sendo ainda nomeado superintendente do Encanamento do Rio Mondego e das Obras Públicas de Coimbra. Com as Invasões Francesas, participou ativamente na resistência às tropas napoleónicas, entre 1808 e 1810, tendo sido nomeado major em 1809, e depois tenente-coronel do Corpo Militar Académico. 

Após o conflito, retomou as suas funções anteriores. Ascendeu a vice-secretário da Academia Real das Ciências de Lisboa em 1812, ano em que foi criada a Instituição Vacínica, liderada por Bernardino António Gomes. No ano seguinte, defendeu a adoção do Sistema Métrico Decimal e advogou a introdução da vacina antivariólica, em memória publicada em 1814.

Em 1810, José Bonifácio iniciou as suas tentativas de obter autorização para regressar ao Brasil, o que só conseguiu em 1819. A 24 de junho de 1810, fez um discurso de despedida na Academia Real das Ciências de Lisboa, em que expôs os seus pontos de vista sobre mineralogia e climatologia, declarando, igualmente, a sua intenção de traduzir para português a História Natural de Plínio. José Bonifácio dominava diversas línguas estrangeiras, sendo capaz de compreender onze línguas diferentes e de falar e escrever em seis.

Quando José Bonifácio regressou ao Brasil em 1819, recusou o cargo de reitor do Instituto Académico, uma espécie de universidade que D. João VI pretendia estabelecer no Rio de Janeiro. Em vez disso, dedicou-se a missões científicas, das quais resultaram planos para a exploração de recursos minerais e o estabelecimento de diversas indústrias. No seguimento da Revolução Liberal de 1820, as atividades científicas de Bonifácio terminaram em 1821, devido ao seu claro envolvimento político. O regresso a Portugal, em 1821, do rei D. João VI e da família real, assim como de muitos membros da aristocracia que se lhes juntaram, aliado às políticas aplicadas em Lisboa relativamente ao Brasil, conduziram a uma situação em que o príncipe D. Pedro, que tinha permanecido no Brasil, desafiou a autoridade paterna. José Bonifácio envolveu-se então nas campanhas militares comandadas pelo futuro imperador do Brasil, D. Pedro I. Em junho de 1821, José Bonifácio foi eleito vice-presidente da Junta Governativa de São Paulo, após o fracasso do governo imposto por Lisboa. Em dezembro desse mesmo ano, foi nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros. Nessa capacidade, desempenhou um influente papel devido, não só à sua competência diplomática, mas também à sua filiação na Maçonaria, onde atingiu o grau de Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, em 1822. Após a proclamação da independência do Brasil, neste mesmo ano, foi nomeado ministro do Império, mas divergências políticas levaram-no a passar à oposição, na qual se tornou extremamente ativo. Em 1823, foi preso e deportado para Espanha, mas depressa se mudou para Talence (Bordéus, França), onde viveu durante seis anos. No exílio, dedicou-se à poesia, escrevendo diversos livros e traduzindo autores latinos como Virgílio e Píndaro.

De novo regressado ao Brasil, foi viver na ilha de Paquetá, eximindo-se a qualquer participação política. No entanto, com a crise de 1831, que culminou com a abdicação do imperador D. Pedro I, foi nomeado tutor do novo imperador D. Pedro II, então com cinco anos de idade. Esta nomeação fundou-se na estima e admiração que o anterior imperador lhe dedicava, mas, uma vez mais, a intriga política levou à sua demissão, sob a acusação de subversão, sendo então detido e colocado sob prisão domiciliária em Paquetá. Orgulhoso e perentório, o “Patriarca da Independência”, como passou a ser conhecido no Brasil, recusou-se a ir a tribunal. Finalmente, após algumas atribulações, acabou por ser absolvido em 1835.

Politicamente, as atividades de José Bonifácio pautaram-se por um profundo sentido de objetividade e pragmatismo, que foi da maior importância no processo de independência do Brasil. Anticolonialista, opôs-se aos empréstimos externos e à dependência económica. Em linhas gerais, o seu pensamento político caracterizou-se pela defesa de uma reforma agrária que se opunha ao latifúndio, do direito dos analfabetos ao voto, da extinção do tráfico de escravos e da abolição gradual da escravatura, bem como da integração dos índios. 

Ana Carneiro

Obras

Bonifácio, José e Martim Andrada. “Voyage minéralogique dans les provinces de Saint-Paul au Brésil.” Journal des Voyages 36 (1827): 216–227. 

Bonifácio, José, João Croft, Sebastião de Mendo Trigoso e Bernardino António Gomes. “Experiências Químicas sobre a Quina do Rio de Janeiro, Comparada com Outras.” Memórias da Academia Real das Ciências de Lisboa 3 (1814): 96–118. 

Bonifácio, José. “Kurze Angabe der Eigennschaften und Kennzeichen einiger neuen Fossilien aus Schweden und Norwegen, nebst einigen chemischen Bemerkungen über dieselben.” Allgemeines Journal der Chemie 4 (1800): 29–39.  

Bonifácio, José. “Mémoire sur les Diamants du Brésil.” Annales de Chimie 15 (1792): 82–88.

Bonifácio, José. “Memória sobre a Pesca das Baleias e Extracção de Seu Azeite; com Algumas Reflexões a respeito das Nossas Pescarias.” Memórias da Academia Real das Ciências e Lisboa 2 (1790): 388–412.

Bonifácio, José. “Memória sobre as Pesquisas e Lavras dos Veios de Chumbo de Chacim, Souto, Ventozelo e Vila de Rei, na Província de Trás-os-Montes.” História e Memória da Academia Real das Ciências de Lisboa 5 (1818): 77–91. 

Bonifácio, José. Apontamentos para a Civilização dos Índios Bravos do Império do Brasil. Rio de Janeiro: Assembleia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil, 1823.

Bonifácio, José. Representação à Assembleia Geral e Constituinte e Legislativa do Império do Brasil Sobre a Escravatura. Paris: Firmin Didot, 1825. 

Bibliografia sobre o biografado

Bruhns, Karl. Alexander von Humboldt. Eine wissenschaftliche Biographie. Leipzig: F. A. Brockhaus, 1872.

Coelho, José Maria Latino. Elogio Historico de José Bonifácio de Andrada e Silva, lido na Sessão Pública da Academia Real das Sciencias de Lisboa em 15 de Maio de 1877. Lisboa: Typographia da Academia, 1877.

Cruz, Guilherme Braga da. “Coimbra e José Bonifácio de Andrada e Silva.” Memórias da Academia das Ciências de Lisboa – Classe de Letras 20 (1979): 216–276.

Falcão, Edgard de Cerqueira. Obras Científicas, Políticas e Sociais de José Bonifácio de Andrada e Silva. Santos: Câmara Municipal de Santos, 1963. 3 vols. 

Filgueiras, Carlos. “A Química de José Bonifácio.” Química Nova 9 (1986): 263–268.

Haüy, René Juste. Traité de Minéralogie. Paris: Imprimerie de Delance, 1801. 4 vols. 

Lima, Oliveira. O Movimento de Independência:18211822. São Paulo: Companhia de Melhoramentos de São Paulo, 1922.

Sousa, Octávio Tarquínio de. O Pensamento Vivo de José Bonifácio. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1961.

Delgado, Joaquim Nery

Elvas, 26 maio 1835 — Buçaco, 3 agosto 1908

Palavras-chave: Paleozoico, cartografia geológica, geologia aplicada, paleoantropologia, arqueologia, Comissão Geológica do Reino.

Joaquim Filipe Nery da Encarnação Delgado, batizado a 23 de junho de 1835, na Sé de Elvas, foi filho de Francisca Rosa Delgado e do tenente-coronel José Miguel Delgado, mais tarde governador do forte da Graça, em Elvas. Foi neto de José da Encarnação Delgado, major de Artilharia, que fora governador da mesma fortificação. Aos sete anos, Nery Delgado ficou órfão de pai e foi viver com uma irmã, casada com o engenheiro militar Gilberto António Rola Júnior. Uma vez que este se opôs ao golpe militar chefiado por Costa Cabral e pelo duque da Terceira, e se recusou a declarar, por escrito, o sentido do seu voto nas eleições de 1842, foi deportado para a ilha de São Miguel, acompanhado da mulher e do pequeno Nery Delgado. Permaneceram nos Açores até 1844, ano em que regressaram a Lisboa.

Gilberto Rola inscreveu o jovem cunhado no Real Colégio Militar, em Rilhafoles, nesse mesmo ano. Concluiu o curso em 1850, com aprovação plena no exame de preparatórios e distinções nas disciplinas dos dois últimos anos. Seguidamente, Nery Delgado frequentou a Escola Politécnica, terminando o curso geral em 1853, com dois primeiros prémios, na quarta e na sétima cadeiras (respetivamente, Astronomia e Mineralogia, Geologia e Princípios de Metalurgia). Dois anos volvidos, formou-se em Engenharia na Escola do Exército, com distinção na sexta cadeira (Topografia) e na segunda parte da quarta cadeira (Hidráulica). Regressou em seguida à Escola Politécnica para frequentar, durante um ano, o curso de Minas e Docimasia que concluiu com distinção. Em 22 de outubro de 1855, foi despachado alferes efetivo.

Entretanto, com o advento da Regeneração, foi criado, em 1852, o Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria (MOPCI). Em 1856, já no posto de subtenente de Engenharia, Nery Delgado integrou uma comissão, criada no âmbito do MOPCI, encarregada de estudar a regularização das cheias do Mondego, obra que dirigiu, bem como a da barra da Figueira da Foz. O ano seguinte marcou a criação, no quadro do MOPCI, da Comissão Geológica, uma secção da Direção Geral dos Trabalhos Geodésicos, Corográficos, Hidrográficos e Geológicos do Reino, presidida pelo general Filipe Folque e dirigida pelo capitão de Artilharia Carlos Ribeiro e por Francisco António Pereira da Costa, lente de mineralogia e geologia na Escola Politécnica. A Comissão Geológica tinha por principal missão efetuar o reconhecimento e elaborar a cartografia geológica do território nacional. Nery Delgado foi nela admitido no lugar de adjunto.

Em 1860, casou com Maria Ricardina Augusta da Fonseca, que conhecera na Figueira da Foz, de quem teve três filhas – Ricardina Adelaide, Virgínia Palmira e Amélia Beatriz.

Ao cabo de onze anos de trabalho na Comissão Geológica, Nery Delgado viu a sua atividade interrompida. Devido a dissensões profundas entre os dois diretores, Carlos Ribeiro e Pereira da Costa, a Comissão Geológica foi dissolvida em 1868. No ano seguinte, o ministro das Obras Pública, Joaquim Tomás Lobo d’Ávila restabeleceu a Comissão Geológica com o nome de Secção dos Trabalhos Geológicos. Nery Delgado retomou as suas funções de adjunto e Carlos Ribeiro as de diretor. Em 1882, Nery Delgado tornou-se diretor da secção, após a morte do seu mestre e amigo Carlos Ribeiro. Dirigiu a secção entre 1882 e 1908, tendo criado, em 1883, um dos primeiros periódicos científicos portugueses especializados: Communicações da Secção dos Trabalhos Geologicos. Durante o seu mandato, os serviços geológicos sofreram sucessivas alterações de nome e organização, sem que nunca fossem resolvidos os problemas estruturais que os afetaram, apesar das recomendações de Nery Delgado.

Embora devesse a Pereira da Costa algumas noções de mineralogia e de paleontologia aprendidas na Escola Politécnica e na sede da Comissão Geológica, foi com Carlos Ribeiro que Nery Delgado aprendeu o ofício de geólogo, atribuindo ao trabalho de campo, até aí quase inexistente em Portugal, a importância fundamental que ele tem na prática geológica. 

À data da fundação da Comissão Geológica (1857) Carlos Ribeiro planeara iniciar os trabalhos com vista à publicação de um mapa geológico geral, seguido de mapas de pormenor das regiões representativas dos sistemas geológicos em que os membros da instituição viriam, gradualmente, a especializar-se. No entanto, foi obrigado a mudar de rumo. A falta de uma base topográfica fiável forçou-o a esperar que a Direção dos Trabalhos Geodésicos publicasse um mapa geográfico geral de Portugal que servisse de base ao mapa geológico. Tendo por fundamento o trabalho anteriormente por ele realizado, o reconhecimento geológico de Portugal arrancou em novembro de 1857, na região de Setúbal e províncias do Alentejo e Algarve. No ano seguinte, Nery Delgado deslocou-se ao Minho, tendo utilizado um mapa topográfico desta região da autoria de Sir Nicholas Trant, um brigadeiro do exército português, de ascendência irlandesa, que lutara nas guerras peninsulares. Foi na sequência desta missão que Ribeiro se queixou oficialmente da ausência de mapas geográficos fiáveis, reiterando a queixa em sucessivos relatórios enviados à tutela, nos quais solicitou, repetidamente, a elaboração de um mapa geográfico de Portugal na escala 1:500 000. Este mapa levou cinco anos a ser terminado (1860−1865), obrigando a Comissão Geológica a rever o plano de trabalho inicial. Os dados geológicos entretanto obtidos por Ribeiro e Nery Delgado durante as missões de 1857 foram lançados em folhas da carta corográfica, na escala 1:100 000, publicadas pela Direção Geral dos Trabalhos Geodésicos, sob a orientação de Filipe Folque. Entre 1862 e 1864, Nery Delgado elaborou cartas geológicas sobre as folhas 19 e 20 da carta corográfica (regiões de Óbidos e Lourinhã), mas apenas numa versão aguarelada. Entre abril e setembro de 1867, acompanhou Carlos Ribeiro ao norte de Portugal. Iniciaram a preparação da carta geológica geral de Portugal na escala 1:500 000, da qual foi feita uma primeira versão aguarelada, apresentada na Exposição de Paris de 1867, que lhes valeu uma medalha de prata. Iniciou-se aqui uma prática que se tornou comum: a produção de cartas geológicas de Portugal Continental, na escala 1:500 000 passou a acompanhar o ritmo das exposições universais, onde mapas e outras produções científicas e técnicas eram postas ao serviço da representação do Estado, neste caso com um significado simbólico adicional por se tratar do território. Nestas ocasiões, os serviços geológicos receberam verbas extraordinárias do Estado para intensificar os trabalhos de reconhecimento geológico, revisão e atualização de levantamentos anteriores e custear as despesas de impressão das cartas. A carta de 1867 foi cromolitografada e publicada em duas ocasiões distintas: em 1876, foi impresso um pequeno número de exemplares para a Exposição de Filadélfia; em 1877, apesar de os exemplares terem a data de 1876, foi feita nova impressão com algumas modificações à edição anterior, no que se referia ao Paleozoico do Baixo-Alentejo e à convenção de cores.

Posteriormente, quando o projeto de publicação de uma carta geológica da Europa foi lançado na sessão de 1881 do Congresso Internacional de Geologia, em Bolonha, a Comissão Geológica juntou-se a esta iniciativa. Em colaboração com o geólogo suíço contratado pelos serviços geológicos portugueses, Paul Choffat, Nery Delgado colaborou na elaboração da carta geológica da Europa na escala 1:1 500 000, publicada em Berlim, em 1896, sob a direção de Wilhelm Hauchecorne e Heinrich Ernst Beyrich.

Mais tarde, Delgado e Choffat prepararam uma segunda versão mais precisa da carta geológica de Portugal na escala 1:500 000. Uma versão aguarelada foi apresentada na reunião do Congresso Internacional de Geologia, realizada em Londres em 1888. Esta carta, somente impressa em 1899, ganhou, em 1900, a medalha de ouro na Exposição Universal de Paris, mantendo-se o mapa geológico de referência do território nacional, até 1972.

A obra de Nery Delgado participou nas transformações mais significativas do conhecimento geológico ocorridas no século XIX, com contributos que transcenderam o espaço nacional. Embora bem relacionado com a elite nacional, não são muitos os seus interlocutores portugueses no plano estrito da geologia. Nery Delgado alargou os contactos internacionais iniciados por Carlos Ribeiro. Nos planos institucional e pessoal, envolveu-se numa vastíssima correspondência com especialistas de todo o mundo, já que escrevia bem em francês, a língua franca da ciência da época. De entre os seus inúmeros correspondentes, de diversas nacionalidades, destacam-se: Francisco Tubino, Lucas Mallada, Justo Egozcue y Cia, Juan Vilanova, Manuel Fernandez de Castro, José MacPherson, Hermegildo Giner de los Rios, Eduardo Benot, Charles Barrois, Emile Cartailhac, Gaston de Saporta, Amour Auguste Louis de Berthelot (barão de Baye), Gabriel de Mortillet, Louis Lartet, Frédérique Fontannes, Stanislas Meunier, René Zeiller, Jules Marcou, Oswald Heer, Percival de Loriol, Pietro Zezi, Achille de Zigno, Giovanni Capellini, Gilles Dewalque, Eduard Suess, Wilhelm H. Waagen, Karl Alfred von Zittel, Wilhelm Hauchecorne, Sir Archibald Geikie, Sir Edwin Ray Lankester, Sir John Evans, John Marr, Alfred Nathorst, Otto Torel, George M. Wheeler, Percy Raymond, William B. Rogers, etc.

Paralelamente, foi membro de diversas sociedades científicas estrangeiras, participou institucionalmente em exposições universais e efetuou visitas a diversos países europeus com múltiplos objetivos científicos. Participou, também, nas reuniões do Congresso Internacional de Geologia, organismo criado em 1878, que reunia regularmente com o intuito de normalizar a nomenclatura geológica e as convenções de cores e de sinais a usar na cartografia geológica, bem como de superintender à publicação da carta geológica da Europa. Foi, ainda, membro do Congresso Internacional de Arqueologia e Antropologia Pré-Históricas, então dominado por questões em torno das origens e evolução do Homem.

Nery Delgado viu o seu trabalho reconhecido com diversos louvores e condecorações nacionais e estrangeiras, como por exemplo: Grã-Cruz da Real Ordem de São Bento de Aviz (1905), Medalha Al Merito Cientifico (Academia Real de Ciencias Exactas, Fisicas y Naturales, Madrid, 1905), Grand Prix (Exposition Universelle de Paris, 1900), Officier da Légion d’Honneur (1870), Recompense (Exposition Universelle de Paris, 1867, em parceria com Carlos Ribeiro), louvor de D. Carlos (pela sua carreira, 1905), louvor do Governo Civil de Lisboa (pela participação na Comissão encarregada do estudo das causas da febre tifoide e medidas de saneamento a adotar, 1882), louvor de D. Luís (pelos trabalhos apresentados na IX Sessão do Congresso Internacional de Arqueologia e Antropologia Pré-Históricas, Lisboa, 1880), louvor do conde de Ficalho na qualidade de  diretor do Instituto Geral de Agricultura, (pelo trabalho sobre a arborização geral do país, realizado em parceria com Carlos Ribeiro, 1869). Foi, ainda sócio de diversas associações e agremiações científicas, nomeadamente: Academia das Ciências de Lisboa, Associação dos Engenheiros Civis Portugueses, Sociedade de Geografia, Die Berliner Gesellschaft für Anthropologie, Ethnologie und Urgeschichte (Sociedade de Antropologia, Etnologia e Pré-História de Berlim), Die Kaiserliche-Königliche Geologische Reichsanstalt (Instituto Geológico Imperial), Société Geólogique de France, Société Française d’Archéologie, The Geological Society of London, La Real Academia das Ciências de Madrid, La Real Academia de Ciências Naturales y Artes de Barcelona, La Real Academia Valdarnese del Poggio, Società Geologica Italiana, entre outras.

Além da geologia e cartografia geológica, a obra científica de Nery Delgado abarcou diversas áreas da estratigrafia à paleontologia, passando pela arqueologia, paleoantropologia e geologia aplicada. 

Os trabalhos mais relevantes de Nery Delgado no domínio da geologia centram-se no reconhecimento geral dos terrenos do Paleozoico de Portugal e sua classificação estratigráfica. Publicou, em 1870, as suas primeiras ideias relativas à classificação de estratos do Paleozoico em três notas, a primeira das quais fez uma breve descrição de toda a Era enquanto a segunda e a terceira notas apresentaram um estudo mais pormenorizado dos terrenos metamórficos do “Silúrico”.

Por volta de 1876, concentrou-se no estudo dos xistos contendo Nereites de São Domingos, no Baixo Alentejo, icnofósseis que Nery Delgado classificou como pertencendo ao “Silúrico inferior” (atual Ordovícico). A idade dos xistos do Silúrico tornou-se uma das suas principais preocupações, sobre as quais se correspondeu com diversos especialistas estrangeiros. Reviu este trabalho por duas vezes ao longo da vida. Em resultado disso, a fauna de S. Domingos, inicialmente classificada como sendo do “Silúrico inferior” foi mais tarde deslocada para o “Silúrico superior” (atual Silúrico).

No decurso dos anos 1880, Nery Delgado mostrou-se determinado a esclarecer questões em torno dos icnofósseis do Ordovícico, especialmente os designados por “bilobites” (Cruziana), particularmente abundantes em Portugal. A exemplo do paleontólogo francês Gaston de Saporta, Nery Delgado defendeu a origem vegetal destes fósseis, envolvendo-se numa controvérsia, que se prolongou de 1885 a 1888, com diversos intervenientes, dos quais se destaca o paleontólogo sueco Alfred Nathorst. Este defendia a interpretação atualmente aceite de que estes icnofósseis não são mais do que rastos resultantes da atividade de trilobites, a classe mais primitiva de artrópodes que habitou os mares do Paleozoico.

Dos anos 1890 em diante, Nery Delgado reviu o trabalho anterior relativo ao Câmbrico, Ordovícico e Silúrico do Alentejo, especialmente de Barrancos e São Domingos, mas também de Valongo e do Buçaco. Por volta de 1892, descreveu uma trilobite gigante, encontrada em Valongo, que batizou de Lichas riberoi, em homenagem ao seu mestre. Também anunciou a descoberta de fósseis do Câmbrico em Vila Boim, nas imediações de Elvas, tema a que regressou em 1897.

Em 1904, descreveu a fauna câmbrica do Alto-Alentejo, composta de moluscos, crustáceos e braquiópodes, que considerou estarem entre os primeiros vestígios de vida na Terra. No ano seguinte, dedicou-se à descrição da “fauna primordial” (Câmbrico), revendo as classificações estratigráficas de 1899. Sentiu que devia, por uma última vez, resumir as suas ideias sobre o Paleozoico, pelo que, em 1908, publicou uma monografia, contendo cortes do Silúrico, apresentando argumentos no que se referia aos afloramentos de Valongo e da sua extensão na direção de São Félix, e ainda, os do Buçaco e de Barrancos. Sendo a tectónica de Valongo e do Buçaco particularmente complexa, especialmente na direção de Penacova e de Góis, os estudos prosseguiram por algum tempo, até a morte de Nery Delgado lhes pôr termo.

Na área da arqueologia e antropologia pré-históricas, os trabalhos de Nery Delgado inscreveram-se na preocupação com as origens do Homem, característica da época. Os estudos mais significativos que realizou foram os das grutas da Cesareda, que descreveu em 1867, e o da gruta da Furninha (Peniche), em 1880. A descrição e morfologia desta última foram apresentadas na IX Sessão do Congresso Internacional de Arqueologia e Antropologia Pré-Históricas, realizado em Lisboa, em 1880, por iniciativa de Carlos Ribeiro e do próprio Nery Delgado. 

Ao privilegiar uma abordagem de base científica, caracterizada pela convergência da estratigrafia, paleontologia e paleoantropologia, Nery Delgado, apesar da obra científica quantitativamente reduzida, deu um contributo importante para fazer sair a arqueologia e a paleoantropologia da esfera das práticas do colecionador-antiquário. Como os métodos estratigráficos que utilizou não diferiram substancialmente dos atuais, os resultados da investigação alcançados neste domínio ainda hoje são aceites.

No que se refere à geologia aplicada, área que não o entusiasmava especialmente, desde o início da sua carreira na Comissão Geológica que Nery Delgado acompanhou Carlos Ribeiro em trabalhos associados à exploração de minas e pedreiras e à hidrogeologia. Mesmo durante a suspensão da Comissão Geológica do Reino, em 1868, mestre e discípulo foram solicitados, dado o seu conhecimento do território, a efetuar o estudo que conduziu ao relatório sobre a arborização do país, ainda hoje uma obra de referência.

À época, a hidrogeologia revestia-se de especial importância, pois veio possibilitar a prospeção, canalização e abastecimento de águas potáveis às populações citadinas, uma prioridade das teorias higienistas desenvolvidas ao longo do século XIX. Neste domínio, Nery Delgado acompanhou Carlos Ribeiro nos estudos e obras associados ao abastecimento de água a Lisboa e a outras localidades como a Figueira da Foz e Beja. Também interveio nas áreas da construção civil, portos e caminhos de ferro, embora neste último caso, se limitasse a acudir a problemas pontuais, já que, em Portugal, eram raros os estudos geológicos preliminares a obras desta índole. Inspetor-geral de Minas, a partir de 1886, foi ainda consultado sobre a atividade mineira e a exploração de pedreiras.

Em 1908, Nery Delgado, então com 73 anos e a patente de general de divisão, sucumbiu a uma pneumonia dupla, durante uma saída de campo, na região do Buçaco.

Ana Carneiro

Arquivos

Lisboa, Arquivo Histórico do Laboratório Nacional de Energia e Geologia, publicações, manuscritos, cadernos de campo, cadernos de apontamentos, correspondência nacional e internacional, mapas, gravuras, fotografias e memorabilia

Lisboa, Arquivo Militar, documentos relativos à sua carreira militar

Lisboa, Museu Geológico, coleções paleontológicas, litológicas e arqueológicas, instrumentos científicos e condecorações.

Obras 

Nery Delgado, Joaquim e Paul Choffat, Carta Geológica de Portugal. Escala 1:500 000. Lisboa: Direção dos Trabalhos Geológicos, 1899.

Nery Delgado, Joaquim. “As Aguas de Bellas. Reflexões acerca do artigo ‘As Aguas de Lisboa’, publicado no vol. 24 d’esta Revista.” Revista de Obras Publicas e Minas 25 (1894): 72–81.

Nery Delgado, Joaquim. “Relatórios sobre a Reorganisação dos Serviços Geológicos Apresentados ao Ministro das Obras Publicas em 1899.” Communicações do Serviço Geológico de Portugal 7 (1909): 168–186.

Nery Delgado, Joaquim. Da Existência do Homem no nosso Solo em Tempos Mui Remotos provada pelo Estudo das Cavernas – Noticia Acerca das Grutas da Cesareda. Lisboa: Typographia da Academia Real das Sciencias, 1867.

Nery Delgado, Joaquim. errains Paléozoïques du Portugal. Études sur les Bilobites et Autres Fossiles de Quartzites de la Base du Système Silurique du Portugal. Lisboa: Imprimerie de l’Académie Royale des Sciences, 1885.

Nery Delgado, Joaquim. Relatorio da Commissão Desempenhada em Hespanha no anno de 1878. Lisboa: Typographia da Academia Real das Sciencias, 1879.

Nery Delgado, Joaquim. Relatorio e outros Documentos Relativos à Commissão Scientifica Desempenhada em Differentes Cidades da Italia, Allemanha e França em 1881. Lisboa: Imprensa Nacional, 1882.

Nery Delgado, Joaquim. Système Silurique du Portugal. Étude de Stratigraphie Paléontologique. Lisboa: Imprimerie de l’Académie Royale des Sciences, 1908.

Nery Delgado, Joaquim. Terrains Paléozoïque du Portugal. Sur l’Éxistence du Terrain Silurien dans le Baixo-Alemtejo, Mémoire présenté à l’Académie Royale des Sciences de Lisbonne. Lisboa: Imprimerie de l’Académie Royale des Sciences, 1876.

Ribeiro, Carlos e Joaquim Nery Delgado. Relatório acerca da Arborisação Geral do Paiz apresentado a Sua Excelência o Ministro das Obras Publicas, Commercio e Industria, em resposta aos quesitos do artº 1 do Decreto de 21 de Setembro de 1867. Lisboa: Typographia da Academia Real das Sciencias, 1868.

Bibliografia sobre o biografado

Carneiro, Ana. “The Museum of the Geological Survey of Portugal: The Role of the ‘Bilobites’ Collection in a 19th-century Palaeoichnological Controversy.” In From Private to Public, Natural Collections and Museums, edited by Marco Beretta, 189-234. Nova York: Science History Publications, 2005.

Carneiro, Ana, Teresa Salomé Mota e Vanda Leitão. O Chão que Pisamos. A Geologia ao Serviço do Estado (1848–1974). Lisboa: Edições Colibri, 2014.

Catalá-Gorgues, Jesús e Ana Carneiro. “Like birds of a feather: the cultural origins of Iberian geological cooperation and the European Geological Map of 1896.” The British Journal for the History of Science 46 (2013): 39–70. 

Choffat, Paul. “Notice Nécrologique sur J. F. Nery Delgado (1835–1908).” Communicações do Serviço Geológico de Portugal 7 (1909): VI–XXI.Teixeira, Carlos. “A Figura e Obra de Nery Delgado.” Boletim da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais 12 (1968–1969), 45–54

Choffat, Léon-Paul

Porrentruy, Suíça, 14 março 1849 — Lisboa, 6 junho 1919

Palavras-chave: Mesozoico, cartografia geológica, geologia aplicada, tectónica.

Léon-Paul Choffat nasceu no seio de uma família abastada, filho de Marie Anne Jeanne Baptiste Béchaux (1812−1881) e de Henri Joseph Choffat (1797−1869), banqueiro e industrial. Durante a infância, era visita da casa paterna o naturalista e iniciador da tectónica do Jura, Jules Thurmann, discípulo de Élie de Beaumont. Choffat foi diretamente influenciado por dois alunos de Thurmann, Jean-Baptiste Thiessing e Joseph Ducret, então professores da Ecole Cantonale de Porrentruy, onde se matriculou em 1861, acompanhando-os em excursões geológicas. Após terminar a educação secundária, foi enviado para Besançon para adquirir a formação necessária a uma carreira na banca; simultaneamente, frequentou a Faculdade de Ciências local. Foi nesta altura que se tornou sócio da Société d’Emulation du Doubs, uma associação promotora desta região francesa, vindo a publicar trabalhos sobre a geologia da região do Jura nas respetivas Mémoires, entre 1875 e 1879.

Regressado da estadia de três anos em França, Choffat ingressou, em 1871, na Escola Politécnica e na Universidade de Zurique, onde frequentou cursos de química e de ciências naturais. O falecimento de seu pai, aliado à fortuna pessoal herdada e à influência do arqueólogo e historiador da região, Auguste Quiquerez, e do médico e geólogo, Jean Baptiste Greppin, levaram-no a seguir a sua vocação de geólogo, agora sem constrangimentos. Durante este período, beneficiou do regime de aulas de campo de Arnold Escher von der Linth e Albert Heim, figuras de relevo na geologia suíça, e Heim na sua institucionalização. Na universidade e, mais tarde, nas expedições pelos Alpes, na região do Jura, Choffat relacionou-se com Ludwig von Loczy, Oswald Heer, que viria a colaborar com os serviços geológicos portugueses, Karl Mayer-Eymar e Jules Marcou. Depois de concluir os estudos superiores na Universidade de Zurique, em 1875, foi nomeado Privatdozent, na Escola Politécnica local para os cursos de geologia e paleontologia animal, lecionando também na Faculdade de Medicina; porém, rapidamente deixou a docência devido a uma laringite crónica, sendo aconselhado a mudar-se para um clima mais ameno. Em resultado das investigações realizadas no Jura francês e na região de Berna, tinha já publicados diversos trabalhos, em França e na Suíça, quando, em 1878, se deslocou a Paris para a primeira reunião do Congresso Internacional de Geologia (CIG).

A atividade científica de Choffat decorreu num período de franco desenvolvimento da geologia, então já em fase de profissionalização e especialização. Desde meados da década de 1830, tinham sido criados nos diversos países, incluindo Portugal, instituições estatais destinadas ao levantamento geológico e à elaboração de cartografia geológica, decorrentes da necessidade de controlar o território para melhor o administrar. A exploração de recursos minerais e hidrológicos intensificou-se dada a sua utilização em importantes sectores económicos como a produção industrial, enquanto matérias-primas e combustíveis, construção civil, agricultura, abastecimento de águas potáveis e exploração de águas mineromedicinais. Sendo a geologia uma ciência territorial que comporta uma dimensão histórica e tendo as unidades geológicas, frequentemente, um carácter transnacional, nela convergiram tensões entre nacionalismo e internacionalismo, numa época em que a ciência e a tecnologia se tornaram argumentos decisivos na afirmação da supremacia das diversas potências europeias. Estas tensões ficaram bem patentes nas reuniões do CIG, fórum internacional que reunia periodicamente com o intuito de normalizar a linguagem verbal e visual da geologia, em matéria de divisões cronostratigráficas e respetiva nomenclatura e do código de cores a usar na cartografia geológica, a última adquirindo um carácter simbólico ao integrar a parafernália de símbolos nacionais. 

Foi, precisamente, na reunião do CIG de 1878 que Choffat travou conhecimento com Carlos Ribeiro, então diretor da Secção dos Trabalhos Geológicos, organismo do Ministério da Obras Públicas, Comércio e Indústria, que tinha por missão o levantamento geológico de Portugal continental e a produção de cartografia geológica. Ribeiro convidou Choffat a colaborar com a instituição portuguesa não só para que este realizasse o estudo do Mesozóico, até aí inexplorado devido à falta de especialistas em Portugal, mas também fortalecesse a estratégia de internacionalização dos serviços que chefiava. Choffat, por seu turno, estava simultaneamente interessado em passar algum tempo num clima mais suave e em investigar a geologia de Portugal, o que lhe garantiria uma produção original e sem concorrência, facilitando a sua projeção na comunidade científica internacional. 

Choffat esboçou um programa de trabalho e negociou modos de prevenir conflitos, assegurando-se de que não haveria sobreposição com trabalho de colegas portugueses, ao mesmo tempo que clarificou questões de propriedade intelectual e dos fósseis a recolher, propondo-se ser um colaborador temporário, a título gratuito. Ribeiro respondeu favoravelmente ao plano e Choffat veio para a Lisboa. A correspondência endereçada à Secção dos Trabalhos Geológicos dá indicações acerca das suas atividades no ano e meio seguinte e da rede de contactos que tinha na Suíça e em França.

Choffat chegou a Portugal em Novembro de 1878, passando os últimos dois meses deste ano a examinar a coleção de fósseis da Secção; em Janeiro de 1879, foi-lhe oficialmente requerido que estudasse as formações do Mesozóico. Bem integrado, gozava de uma autonomia significativa, cedo desempenhando um papel ativo na instituição, pois apercebeu-se das limitações existentes, nomeadamente da sua reduzida dimensão e falta de recursos bibliográficos, estabelecendo contactos com livreiros estrangeiros, no sentido de adquirir obras atualizadas para a modesta biblioteca.

As investigações sobre o Mesozóico resultaram na colheita de fósseis cuja descrição e classificação requereram colaboração externa. No início de 1880, decidiu contactar Heer, reputado especialista na flora do Terciário, que se mostrou interessado nos seus achados e se prontificou a auxiliá-lo, mas no quadro de uma colaboração formalizada com a Secção dos Trabalhos Geológicos. Como Ribeiro não conhecia Heer, Choffat funcionou como intermediário entre ambos e, mais tarde, com outros especialistas: o paleontólogo suíço Perceval de Loriol, e o cristalógrafo e mineralogista austríaco Gustav Adolph Kenngot que colaboraram com os serviços geológicos portugueses. 

A estadia de Choffat em Portugal produziu resultados capazes de contribuir para a consolidação da sua posição no panorama científico internacional e a confiança nele depositada levou Ribeiro a investi-lo de responsabilidades de diplomacia científica. Quando se deslocou a Paris, em Junho de 1880, para apresentar um trabalho na Société Géologique de France sobre as investigações do Jurássico realizadas em Portugal usou a oportunidade para, a pedido de Ribeiro, auscultar a disponibilidade dos colegas de viajarem até Lisboa para o Congresso de Arqueologia e Antropologia Pré-histórica que teve lugar nesse mesmo ano. 

A sua primeira estadia em Portugal terminou, em 1880, ano em que regressou a Porrentruy para depois casar, em Besançon, com Jeanne Claudette Logerot (1859−1928) de quem teve nove filhos. Embora à data mantivesse o lugar de professor em Zurique, manifestou a Ribeiro o desejo de voltar a Portugal. Entretanto, o ano de 1882 é marcado pela morte deste, sucedendo-lhe na direção da Secção dos Trabalhos Geológicos, Joaquim Filipe Nery da Encarnação Delgado, que seguiu orientações idênticas no que se referia à colaboração externa, dado o reduzido pessoal dos serviços e a inexistência de uma comunidade local de geólogos. 

Choffat regressou definitivamente a Portugal, em 1883, começando a trabalhar para o governo português, na Secção dos Trabalhos Geológicos, sob contrato sucessivamente prorrogado até à sua morte. Nesse mesmo ano, iniciou-se a publicação da primeira revista portuguesa especializada em geologia, as Comunicações da Secção dos Trabalhos Geológicos, denotando a capacidade da instituição de produzir, regularmente, investigação científica. 

A produção científica de Choffat foi vasta, abrangendo diversas disciplinas da geologia, ou com ela relacionadas: estratigrafia e paleontologia do Mesozoico, cartografia geológica, tectónica, sismologia, geologia económica, hidrogeologia, paleoantropologia e arqueologia. Entre 1880 e 1885, publicou sobre o Lias (Jurássico Inferior) e Dogger (Jurássico Médio), a Norte do Tejo, e sobre o Cretácico nas regiões de Lisboa, Sintra e Belas. Como era então comum, dividiu o Jurássico em Lias, Malm (Jurássico Superior) e Dogger, estando entre os primeiros geólogos europeus a defender a separação do Calloviano do Jurássico Superior e a colocá-lo no Dogger. Em 1882, apresentou à Société Géologique de France uma nota sobre estruturas diapíricas em Portugal que designou vales tifónicos, assunto sobre o qual publicou nos dois anos seguintes. Neste período, teve ainda assento nas comissões de nomenclatura geológica, lideradas pela Secção dos Trabalhos Geológicos, no âmbito do CIG. 

Com a reestruturação de 1886, a Secção dos Trabalhos Geológicos passou a denominar-se Comissão dos Trabalhos Geológicos, dissociando-se da Direcção-Geral dos Trabalhos Geodésicos, em fase de declínio, ficando formalmente ligada ao sector mineiro pela sua integração na Direcção-Geral das Obras Públicas e Minas. A partir de então, a Comissão passou a ser obrigada a recrutar o seu pessoal entre os engenheiros de minas já ao serviço do Ministério das Obras Públicas, certamente para poupar verbas e satisfazer esta já bem posicionada clientela. De salientar que somente Choffat e depois Wenceslau de Lima, ambos no regime de contratados, tiveram o título de geólogo, facto indicativo de que o estatuto profissional dos engenheiros prevalecia sobre o dos geólogos no seio da instituição, situação que se prolongou pelas primeiras décadas do século XX.

De 1885 em diante, Choffat prosseguiu com investigações sobre o Cretácico e o Jurássico, corrigindo interpretações de Ribeiro. Apesar de este ter definido as principais características geológicas do território antes de 1860, os seus conhecimentos sobre as faunas e floras do Cretácico e do Jurássico estavam, naturalmente, limitadas pelo conhecimento da época, o que explica que não tenha podido caracterizar o Bathoniano (Jurássico Médio), o Senoniano (Cretácico Superior), hoje em desuso, e estabelecer os contactos do Jurássico com o Triásico. Choffat localizou os depósitos bathonianos e estabeleceu a estratigrafia pormenorizada de todos os andares do Jurássico, descrevendo a sua fauna em Portugal. Propôs a criação do andar Lusitaniano (1885 e 1893) para o conjunto estratigráfico Oxfordiano Superior – Kimmeridgiano, localizado no Jurássico, o que foi temporariamente aceite. Embora nunca se tenha deslocado a África, desenvolveu, entre 1886 e 1889, estudos de geologia das colónias portuguesas neste continente, analisando amostras e notas enviadas por diversos viajantes. 

Em 1887, Choffat solicitou que nos trabalhos de levantamento geológico auferisse de ajudas de custo para o serviço de campo iguais às dos engenheiros de minas, alegando ser mais antigo no serviço do governo português do que o primeiro classificado dos engenheiros subalternos, pretensão despachada favoravelmente. No ano seguinte, requereu que o seu vencimento de 60 mil reis fosse equiparado ao dos engenheiros chefes de minas, no valor de 100 mil reis; no entanto, foram-lhe apenas abonados 90 mil reis

Neste período, a produção científica da Comissão dos Trabalhos Geológicos assentava, fundamentalmente, nos trabalhos de Choffat e de Delgado, recorrendo-se novamente a colaborações estrangeiras, em certos casos facilitadas por Choffat. É o caso de Loriol que analisou as faunas do Cretácico e do Jurássico, em 1888, e, posteriormente, em 1890 e 1896. Mais uma vez, os serviços geológicos foram reestruturados, em 1892, passando a designar-se Direção dos Trabalhos Geológicos, continuando Nery Delgado a gerir os seus destinos. 

No plano da cartografia, Choffat e Nery Delgado baseados na carta geológica de Portugal de 1876, na escala de 1:500 000, apresentaram os esboços da revisão desta carta, nas reuniões do CIG de Londres (1888) e de Zurique (1894), publicando uma nova versão, em 1899, que foi premiada com uma medalha de ouro, na Exposição Universal de Paris de 1900. Em conjunto com Nery Delgado, Choffat colaborou na elaboração do Mapa Geológico de España, na escala 1: 400 000 (folhas 5, 9 e 13), publicada em 1889, e na edição de 1893 do Mapa Geológico de España (representando a Península Ibérica), na escala 1: 1 500 000, ambos sob a direção de Manuel Fernandez de Castro. Contribuíram, também, para as folhas 29 AV e 36 AVI da carta geológica da Europa, na escala 1: 500 000, publicada em Berlim, em 1896, uma iniciativa do CIG coordenada pelo prussiano Wilhelm Hauchecorne. Choffat elaborou uma carta geológica de Portugal do ponto de vista agrícola, na escala de 1: 2 000 000, publicada em 1901. Em colaboração com Luís de Almeida Couceiro, funcionário dos serviços geológicos, elaborou uma carta hipsométrica de Portugal, na escala de 1:100 000 publicada em 1900, com uma nota explicativa, em 1907. Trabalhou, ainda, nos mapas geológicos de Sintra, na escala 1: 20 000; Buarcos, na escala 1: 100 000, e Arrábida, na escala 1: 25 000, com a colaboração de Romão de Matos (1880−1979), um dos auxiliares de trabalho de campo (então denominados coletores) mais proficientes. 

Em 1899, a Direção dos Trabalhos Geológicos foi reestruturada, passando a designar-se Direção dos Serviços Geológicos, deixando o vencimento de Choffat de estar inscrito no orçamento geral, para passar a sair da verba “despesas diversas.” Consequentemente, ficou sem financiamento para ajudas de custo referentes a trabalho de campo e a publicações, sendo o seu vencimento reduzido para 76 500 reis, facto surpreendente, tendo em conta a sua carreira e prestígio. Em 1901, na sequência de mais uma reorganização, a anterior Direção passa a Comissão do Serviço Geológico.

Choffat, agora detentor de um conhecimento aprofundado da geologia do país, reviu divisões estratigráficas anteriormente estabelecidas. Trabalhou, principalmente, o Cretácico Superior e os contactos entre o Jurássico e o Cretácico. Relativamente ao Cretácico, reviu interpretações e distinguiu quatro grupos: o grupo hoje em desuso Neocomiano (Cretácico Inferior), o Belasiano (uma antiga divisão entre o Cretácico Médio e Inferior, cujo nome deriva de Belas, localidade próxima de Lisboa), o Turoniano (Cretácico Médio), e o Senoniano (Cretácico Superior). Na sequência dos sismos registados no país em 1903 e 1909, publicou trabalhos neste domínio, tendo representado Portugal na Associação Internacional de Sismologia; em 1908, publicou um estudo sobre a tectónica da Serra da Arrábida. 

Na área da hidrogeologia realizou, entre 1893 e 1903, estudos relacionados com o abastecimento de água a Lisboa, Guimarães, Beja e Guarda, e sobre as águas minerais dos terrenos mesozoicos e do soco paleozoico.

Desde os finais do século XIX que, no decurso de trabalhos de terraplanagens, abertura de poços ou pesquisa de águas, se registaram ocorrências de hidrocarbonetos (petróleo, asfalto e betume) nos terrenos mesozoicos portugueses a norte do Tejo. Rapidamente se difundiu a notícia da existência de petróleo em Portugal, numa altura em que a exploração de jazidas deste combustível fóssil adquiria cada vez maior importância em diversos países. Desde 1902 que Choffat fora solicitado por privados a realizar estudos sobre locais onde parecia existirem indícios de petróleo. Os resultados destes estudos foram publicados em 1910, concluindo o geólogo ser inegável a existência de petróleo nas formações mesozoicas portuguesas da região de Torres Vedras e Monte-Real. Aproveitou a ocasião para chamar a atenção para a necessidade de realização de estudos geológicos preliminares a sondagens, de modo a aumentar a eficácia, reduzir o risco de insucesso e os custos; considerava que o Estado português deveria intervir na pesquisa e exploração dos hidrocarbonetos, uma atividade industrial promissora em termos económicos. Entre 1912 e 1914, Choffat elaborou relatórios sobre as areias auríferas da Adiça e outros depósitos da costa ocidental da Península de Setúbal, as jazidas de ferro do Triásico e dos xistos paleozoicos das zonas de Pias e Alvaiázere e as minas de granadas de Monte Suímo, em Sintra.

Ainda no que se refere à geologia aplicada, publicou sobre a importância dos dados geológicos prévios à construção de caminhos-de-ferro, prática corrente na Suíça, e a construção de uma ponte sobre o Tejo, em Lisboa. De entre estes trabalhos, destaca-se o estudo geológico dos terrenos onde foi construído o túnel do Rossio, publicado em 1889. Além do seu significado científico, esta obra visou ser uma demonstração da necessidade de estudos geológicos preliminares a obras públicas, demarcando o espaço de competência profissional do geólogo, face ao engenheiro civil. No entanto, o principal beneficiário deste estudo foi Edmond Bartissol, o empreiteiro francês responsável pela obra inaugurada em Junho de 1890, que pôde assim escolher o método de perfuração mais económico. Choffat, no entanto, advogava um traçado do túnel ligeiramente diferente, alegando que este pouparia ao Estado quantia considerável, mas nem a Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses, nem a Direcção-Geral ou o Ministério da Obras Públicas, lhe solicitaram qualquer estudo prévio à adjudicação da obra, talvez por entenderem que este seria uma mera formalidade burocrática.  

Finalmente, Choffat publicou diversos obituários de geólogos portugueses e de estrangeiros que trabalharam sobre temas geológicos referentes ao território nacional, contribuindo para a construção de uma memória da geologia, em Portugal.

Com a morte de Nery Delgado, em 1908, sucedeu-lhe Wenceslau de Lima cujo mandato foi efémero. Choffat foi instado a suceder-lhe, mas recusou por se sentir fisicamente debilitado. Lamentou a falta de quadros competentes, dadas as deficiências no ensino da geologia em Portugal e a aversão ao trabalho de campo que já anteriormente criticara. Choffat não deixou discípulos; apenas alguns coletores e o capitão de engenharia do quadro de minas do Ministério das Obras Públicas, Francisco Luís Pereira de Sousa, terão beneficiado da sua experiência e conhecimentos. A 6 de Junho de 1919, Choffat morreu, em Lisboa, ficando provisoriamente sepultado no jazigo de Nery Delgado, no Cemitério dos Prazeres, tendo sido posteriormente transladado para o seu mausoléu, no cemitério de Porrentruy. 

Cada vez mais crítico do rumo que a instituição tomara, sobretudo após o falecimento de Nery Delgado, terá sido sua intenção doar parte da biblioteca pessoal a sociedades científicas francesas e belgas; a um seu sobrinho, estudante de geologia, as obras referentes à Suíça e o remanescente à Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra. Quanto às suas notas de campo e outros manuscritos, foram levados pelos herdeiros para a Suíça. Este espólio só regressaria a Portugal, em 1947, sendo posteriormente devolvido aos serviços geológicos.

A obra de Choffat foi reconhecida e objeto de distinções variadas. Foi homenageado através da nomenclatura paleontológica, sendo longa a lista de táxones que lhe são dedicados. Em 1892, foi-lhe conferido o doutoramento honoris causa pela Universidade de Zurique, e o grau de Comendador da Ordem de Isabel la Católica, em 1896, pela colaboração com a Comisión del Mapa Geológico de España; em Portugal, recebeu o mesmo grau da Ordem de S. Tiago. Em 1900, foi galardoado com o Prémio Auguste Viquesnel da Société Géologique de France, pela primeira vez atribuído a um estrangeiro. Foi membro de inúmeras academias e sociedades científicas portuguesas e estrangeiras.

Ana Carneiro

Arquivos

Arquivo Histórico e Biblioteca do LNEG – Laboratório Nacional de Energia e Geologia: notas manuscritas, correspondência, minutas de campo, cartografia e publicações científicas (espólio não organizado, guardado em caixas diversas).

Biblioteca do Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Coimbra, 

Núcleo Paul Choffat (1849–1919).

Obras 

Choffat, Paul. “Études Géologiques sur la Chaîne du Jura. I– Esquisse du Callovien et de l’Oxfordien dans le Jura Occidental et le Jura Méridional suivie d’un Supplément aux Couches à Ammonites Acanthicus dans le Jura Occidental.” Mémoires de la Société d’Émulation du Doubs, 3 (1879): 72–219.

— Etude Stratigraphique et Paléontologique des Terrains Jurassiques du Portugal: Première Livraison – Le Lias et le Dogger au Nord du Tage. Lisbonne: Section des Travaux Géologiques/Imprimerie de L’Académie Royales des Sciences, 1880.

Étude Géologique du Tunnel du Rocio. Contribution à la Connaissance du Sous-sol de Lisbonne. Lisbonne: Commission des Travaux Géologiques du Portugal/ Imprimerie de l’Académie Royale des Sciences, 1889.

— “Les Eaux d’Alimentation de Lisbonne. Rapport entre leur Origine Géologique et leur Composition Chimique.” Bulletin de la Société Belge de Géologie, Paléontologie et Hydrologie, 10 (1896): 161–197.

— “L’Infralias et le Sinémurien du Portugal.” Comunicações da Comissão do Serviço Geológico de Portugal, 5 (1903): 49–113.

Contributions à la Connaissance Géologique des Colonies Portugaises d’Afrique. I – Le Crétacique de Conducia. Lisbonne: Commission du Service Géologique du Portugal/ Imprimerie de l’Académie Royale des Sciences, 1903.

Essai sur la Tectonique de la Chaîne de l’Arrabida. Lisbonne: Commission du Service Géologique du Portugal/Imprimerie Nationale, 1908.

—“Le Séisme du 23 Avril 1909 dans le Ribatejo (Portugal) et ses Relations avec la Nature Géologique du Sol.” In Comptes Rendus des Séances de la Troisième Réunion de la Commission Permanente de l’Association Internationale de Sismologie, Réunion à Zermatt, du 30 Août au 2 Septembre, edited by R. Kövesligethy, 126–129. Budapest: Victor Hornyánszky, 1910. 

— “Rapports de Géologie Économique. 3– Les Recherches d’Hydrocarbures dans l’Estremadure Portugaise (Résumé). 4– Les Mines de Grenats de Suimo.” Comunicações da Comissão do Serviço Geológico de Portugal, 10 (1914): 159–198.

Delgado, Joaquim Filipe Nery e Paul Choffat. Carta Geológica de Portugal. Escala 1:500 000. Direção dos Trabalhos Geológicos, 1899.

Bibliografia sobre o biografado 

Areias, Maria das Dores, “Expeditions in the African Colonies during then 19th century: Geological Contributions from Portuguese Travellers.” Comunicações do Instituto Geológico e Mineiro, 88 (2001): 347–354.

Carneiro, Ana, Teresa Salomé Mota e Vanda Leitão. O Chão que Pisamos. A Geologia ao Serviço do Estado (1848–1974). Lisboa: Edições Colibri /Colecção CIUHCT, 2014.

Fleury, Ernest. “Une Phase Brillante de la Géologie Portugaise: Paul Choffat, 14 Mars 1849–6 Juin 1919.” Mémoires de la Société Portugaise des Sciences Naturelles, 3 (1920): 1–54.

Rocha, Rogério Bordalo da, et al. (eds). Paul Choffat na Geologia Portuguesa. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa /Instituto Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação, 2008.

Teixeira Pinto, Luís. “Paul Choffat’s First Stay with the Portuguese Geological Survey.” Comunicações do Instituto Geológico e Mineiro, 88 (2001): 301–308.