Reinel, Pedro

m. ca. 1542                                                                      

Palavras-chave: Cartografia, cartas de marear, escala de latitudes, declinação magnética, Sevilha. 

Pedro Reinel foi um cartógrafo português cujos trabalhos foram desenvolvidos entre o último quartel do século XV e a primeira metade do século XVI. Com exceção de um conjunto muito reduzido de documentos, o seu nome vai aparecer sempre ligado às suas funções profissionais como perito em cartografia. Não são muitos os dados biográficos que se conhecem dele e é muito complicado estabelecer com exatidão a sua data de nascimento e morte. No entanto, ficaram vários trabalhos cartográficos da sua autoria (geralmente cartas náuticas) da maior relevância para a história da cartografia portuguesa e europeia no contexto da expansão ultramarina. Destes trabalhos, duas cartas foram assinadas por ele. As outras, que iremos mencionar ao longo desta biografia, foram-lhe atribuídas pelos especialistas. 

Embora um documento de 1519 diga que Pedro Reinel assim como o seu filho Jorge Reinel passaram uma curta temporada em Sevilha envolvidos em tarefas cartográficas no contexto da preparação da viagem de Fernão de Magalhães (1519–1522), a verdade é que ambos trabalharam para a Coroa portuguesa grande parte da sua vida. De fato, uma carta de mercê com a data de 10 de Fevereiro de 1528 revela que D. João III concedeu a Pedro Reinel um salário anual de 15.000 reais pelos serviços prestados aos reis D. João II e D. Manuel I como mestre de cartas e agulhas de marear. Sabe-se também que em 1524 Pedro Reinel esteve envolvido nas negociações da Junta de Badajoz-Elvas, um encontro diplomático celebrado na fronteira luso-espanhola entre os representantes dos reis de Espanha e Portugal para tentar resolver a questão das Molucas. Segundo informa uma carta de Junho do mesmo ano enviada ao rei pelos delegados portugueses na dita reunião, Diogo Lopes de Sequeira e António de Azevedo Coutinho, os delegados espanhóis tentaram, sem muito sucesso, persuadir Pedro e Jorge Reinel para trabalharem ao serviço de Carlos V. Um outro documento de 1542 revela que Pedro Reinel ainda estava vivo nesta data: encontrava-se então casado com Isabel Fernandez, morava em Lisboa e fazia cartas de marear. 

Pedro Reinel é o autor de uma das poucas cartas náuticas portuguesas que chegaram até hoje do século XV e uma das duas cartas assinadas (a outra é a carta de Jorge de Aguiar de 1492) mais antigas que se conhecem. Trata-se de uma carta em pergaminho do Atlântico oriental construída entre 1485 e 1492 e conservada nos Archives Départementales de la Gironde, em Bordéus (França). Esta carta, onde se pode ler “Pedro Reinel me fez,” deu início a uma série de cartas produzidas pelos Reinel (pai e filho) que chegaram até os anos quarenta do século XVI. Um dos aspetos mais chamativos desta carta, que também seria usado por Jorge de Aguiar, é a representação da linha de costa atlântica de Africa. Aparentemente, a carta representa o Mediterrâneo ocidental até à Sicília e o Atlântico oriental desde as Ilhas Britânicas até ao Golfo da Guiné com todos os arquipélagos europeus e africanos – e as ilhas imaginarias Mayda e Brasill. No entanto, no interior do continente africano pode-se ver o resto da linha de costa desde o Golfo da Guiné até o Rio Congo, última paragem da expedição de Diogo Cão. Este aspeto tem dado lugar a várias interpretações que não iremos discutir aqui. 

Alguns anos mais tarde o nome de Pedro Reinel vai aparecer numa outra carta em pergaminho do Atlântico (chamada Kunstmann I) feita por volta de 1504 e conservada na Bayerisch Staatsbibliotek de Munique (Alemanha). Esta é a segunda das duas cartas assinadas por Pedro Reinel. Nesta carta Reinel tentou corrigir os efeitos da variação da agulha na costa da península do Labrador (ao leste do Canadá) com uma escala de latitudes oblíqua de 44º a 57º e com uma inclinação de 22,5º. Trata-se da carta náutica mais antiga que se conhece com uma escala de latitudes visível. E de fato não tem apenas uma, mas duas o que faz com que seja considerada uma das chamadas cartas de dupla graduação. A escala principal está localizada no centro do Atlântico em direção norte-sul e é aplicável a toda a costa ocidental de África representada na carta. A outra escala, em posição oblíqua, está situada no estreito e baía de Hudson e aplicava-se só àquela região. Depois de Reinel ter usado este recurso técnico, muitos outros cartógrafos tentaram resolver as consequências da declinação magnética através deste procedimento.

Em diante, todas as cartas relacionadas com Pedro Reinel são só atribuições, algumas delas meramente conjeturais e envolvidas em processos complexos de atribuição de autoria. Como acontece com vários trabalhos cartográficos deste período, estas atribuições são ainda hoje questões em aberto. A primeira destas cartas é uma carta do Oceano Índico de c.1517, hoje desaparecida. Seguem-se um conjunto de cartas que constituem o chamado Atlas Miller (também atribuído a Lopo Homem), datado de 1519 e guardado na Bibliothèque nationale de France; uma outra carta do Índico construída por volta de 1520 e pertencente ao British Museum, em Londres; uma carta de c. 1522 em projeção polar representando o hemisfério sul e preservada no Topkapi Sarayi Müzesi, em Istambul (Turquia); e a carta do Atlântico de c.1535, hoje no National Maritime Museum de Greenwich (Reino Unido).

Além destes trabalhos, é sabido que em 1519 Pedro Reinel esteve em Sevilha envolvido na construção de um planisfério (o planisfério anónimo de Munique, também conhecido como Kunstmann IV), que segundo o historiador Armando Cortesão foi feito por Jorge Reinel por volta de 1519 (ver a biografia de Jorge Reinel). Assim o diz uma carta com data de 18 de Julho de 1519 enviada ao rei D. Manuel pelo seu feitor em Sevilha, Sebastião Álvares. A missiva queria informar ao rei dos planos da viagem de Magalhães e, referindo-se às Ilhas Molucas, diz que as viu representadas numa carta construída por Jorge Reinel, a qual não estava acabada quando o seu pai (Pedro) foi a Sevilha à procura do filho para regressarem juntos a Portugal. Segundo Álvares foi Pedro Reinel quem acabou a carta e representou nela as Molucas. Álvares escreve também que este era o modelo cartográfico usado por outro cartógrafo português que trabalhava na Casa de la Contratación de Sevilha, Diogo Ribeiro. O que se pode verificar a partir desta carta é que Pedro Reinel foi a Sevilha em busca do seu filho (por razões pouco claras) e acabou por fazer parte nos trabalhos cartográficos da preparação da circunavegação de Magalhães. A carta ou planisfério à qual se refere o documento, supostamente o Kunstmann IV, desapareceu no fim da Segunda Guerra Mundial. Hoje só se pode ter acesso a um fac-símile construído em 1836 por Otto Progel preservado na Bibliothèque nationale de France. Segundo o contexto em que foi feito, o aspeto mais destacado desta carta é que as cobiçadas ilhas das especiarias (as Ilhas Molucas) são representadas a este do meridiano de Tordesilhas, isto é, dentro da área de influência espanhola. 

Antonio Sánchez
Universidad Autónoma de Madrid

Arquivos

Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Carta de Sebastião Álvares ao rei D. Manuel I, 18 de Julho de 1519. Corpo Cronológico, P. 1.ª, maço 13, doc. 20. 

Carta de Diogo Lopes de Sequeira e António de Azevedo Coutinho ao rei D. João III, 9 de Junho de 1524. Gaveta 18, maço 8, doc. 13.

Carta de mercê do rei D. João III a Pedro Reinel, 10 de Fevereiro de 1528. Chancelaria de D. João III, Doações, ofícios e mercês 1521/1557, Liv. 14, f. 67. 

Documento com data de 5 de Junho de 1542. Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa 1536/1821, Denunciações 1537/1736, livro 1 1537/1543, f. 165.

Obras

Carta do Atlântico oriental de Pedro Reinel, ca. 1492. Archives Départementales de la Gironde, Burdeos (2 Fi 1582 bis). Manuscrito em pergaminho, 711 x 948 mm.

Carta atlântica de Pedro Reinel, também chamada Kunstmann I ca. 1504. Bayerisch Staatsbibliotek, Munich (Cod. Icon. 132). Manuscrito iluminado sobre pergaminho, 60 x 73,5 cm.

Bibliografia sobre o biografado

Cortesão, Armando. Cartografia e cartógrafos portugueses dos séculos XV e XVI, Vol. I: 249–305. Lisboa: Seara Nova, 1935.

Cortesão, Armando e Avelino Teixeira da Mota. Portugaliae Monumenta Cartographica, Vol. I. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987 [1960]. 

Marques, Alfredo Pinheiro. Portugaliae Monumenta Cartographica, Vol. I.: 66–72 Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987.

Marques, Alfredo Pinheiro. “Reinel, Pedro e Jorge.” In Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses, ed. Luís de Albuquerque, Vol. II: 940–941. Lisboa: Caminho, 1994.

Viterbo, Sousa. Trabalhos náuticos dos Portuguezes nos séculos XVI e XVII, Parte I. Lisboa: Typographia da Academia Real das Sciencias, 1898.