Faleiro, Francisco

n. Covilhã? — m. 1576

Palavras-chave: Expansão marítima, navegação, cosmografia, Casa de la Contratación. 

Francisco Faleiro (Falero na sua forma castelhanizada) foi um cosmógrafo português do século XVI que desenvolveu a sua atividade científica em Sevilha na Casa de la Contratación, o principal centro de ciência aplicada em Espanha neste período sustentado pela Coroa. Faleiro ocupou um papel destacado no âmbito da náutica vinculado à expansão marítima nas décadas centrais de quinhentos, especialmente como autor do Tratado del esfera y del arte del marear, con el regimiento de las alturas, con algunas reglas nuevamente escritas muy necessárias, publicado em espanhol em Sevilha em 1535; e também pelo seu contributo em diversos debates científicos e diplomáticos surgidos dentro da mencionada instituição sevilhana. Estes foram, entre outros a construção e atualização do Padrón Real (Padrão Real), o principal modelo cartográfico da Casa; a utilidade das cartas náuticas de dupla ou de múltiplas graduações (isto é, desenhadas com duas ou mais escalas de latitudes) fabricadas por Diego Gutiérrez nos anos quarenta; ou a reabertura das discussões ao redor do velho problema da localização do antemeridiano. No âmbito pessoal, Francisco Faleiro foi casado com María Manrique, pertencente a uma família sevilhana relativamente abastada. Não se conhece descendência do seu matrimónio.

São poucos os dados que se conhecem da vida de Francisco Faleiro, assim como da vida do seu irmão Rui Faleiro, também cosmógrafo. Como muitos outros portugueses nas primeiras décadas do século XVI, ambos chegaram a Sevilha vindos de Portugal no ano de 1517 ou 1518 no contexto do projeto ultramarino de Fernão de Magalhães. Este projeto, de atingir as Ilhas Molucas (também conhecidas como as ‘Ilhas das Especiarias’) por Ocidente, finalmente seria aceite pelo rei de Espanha, Carlos I (Carlos V do Sacro Imperio Romano Germânico). Este exílio português em Sevilha estava diretamente relacionado com as possibilidades que se abriam às pessoas vinculadas com o mundo marítimo perante a expansão Europeia. A cidade de Sevilha, e especialmente a Casa de la Contratación, eram lugares onde um perito em assuntos de náutica e cosmografia podia construir um futuro. Desde a sua chegada à cidade espanhola Faleiro esteve envolvido, junto com o seu irmão e outros compatriotas, como o cartógrafo Diogo Ribeiro, na preparação da primeira circum-navegação ao globo, a expedição de Magalhães-Elcano, que teve lugar entre 1519 e 1522. 

Faleiro desenvolveu a maior parte da sua vida profissional, se não toda, em Sevilha. A partir de 1518, e durante as décadas seguintes, ficou associado a tarefas náuticas efetuadas no contexto da Casa de la Contratación, como a supervisão da preparação de frotas ou a avaliação de instrumentos de navegação, trabalhos pelos quais acabaria recebendo 35,000 maravedís (antiga moeda espanhola) anuais que mais tarde aumentaram para 50,000 maravedís.

Em 1531, depois de mais de uma década ao serviço da Coroa espanhola, Francisco Faleiro solicitou, numa memória dirigida ao rei, ajuda económica para ele e para o seu irmão pelos serviços prestados como cosmógrafos. As necessidades económicas dos Faleiro e o desespero era tão grande que Francisco intimidou Carlos V que deixaria o país e iria servir outro monarca. O rei aceitou o pedido de Francisco e a partir desse ano foram enviadas várias cartas reais aos oficiais da Casa para executarem pagamentos aos Faleiro pelos seus serviços. Antes desta memória, a relação entre os Faleiro e a Coroa foi difícil. Segundo o acervo documental conservado no Archivo General de Indias, em Sevilha, houve uma ordem real onde se proibia que os irmãos Faleiro fizessem parte da armada de Magalhães. Francisco parece ter respondido a essa ordem ao não ter entregado os seus estudos sobre a determinação da longitude para a viagem a Magalhães, como se tinha comprometido.  

Em 1535, Faleiro publicou a única obra da sua autoria que se conhece, o Tratado del esfera y del arte del marear, dando assim início, junto com a Suma de geografia de Martín Fernández de Enciso, publicada também em Sevilha em 1519, a uma prolífica produção de tratados de navegação e cosmografia em vernáculo. Estes tratados, como os redigidos por Pedro de Medina, Martín Cortés, Juan Escalante de Mendoza, Rodrigo Zamorano ou Andrés García de Céspedes, entre outros, foram rapidamente traduzidos noutras línguas europeias e tiveram um impacto significativo a partir da segunda metade do século XVI em diante. Os livros de navegação como estes tinham um estilo muito particular. Os temas de carácter teórico que tratavam, por exemplo, teorias cosmográficas, rudimentos de astronomia geralmente baseados noTratado da Esfera de Sacrobosco, regras matemáticas ou o uso de instrumentos náuticos, eram explicados de uma forma sequencial semelhante aos manuais e livros de regras dos artesãos. Tratavam-se de livros que abordavam problemas específicos com objetivos muito pragmáticos, como sejam formar pilotos e outros marinheiros. Os conteúdos eram organizados como uma série de instruções para utilização prática dos navegantes.

Tratado de Faleiro mereceu a aprovação do prestigiado professor de astrologia da Universidade de Salamanca, o Doutor Salaya. O livro foi dedicado ao presidente do Consejo de Indias, Dom García Fernández Manrique y Toledo. Trata-se de um tratado de navegação dividido em duas partes claramente distintas. A primeira delas, como era habitual neste género, oferece uma versão estandardizada e simplificada da Esfera de Sacrobosco. A segunda é um guia prático dedicado à arte de navegar, onde se destacam essencialmente os capítulos destinados à declinação magnética e os métodos e instrumentos por ele sugeridos para a obtenção do valor da declinação através de observações solares. Merecem ainda uma menção especial o sexto capítulo desta segunda parte, dedicado ao ‘regimento de las alturas del sol’ (regimento das alturas do Sol) e o capítulo oitavo sobre a declinação da agulha magnética, tema que também interessou a Rui Faleiro. É neste capítulo que Francisco introduz um novo instrumento em forma de placa circular e quatro métodos diferentes para a obtenção do valor da declinação.

Vários exemplares da obra de Faleiro podem encontrar-se hoje em bibliotecas espanholas, entre elas a Biblioteca Nacional de Espanha (Madrid), o Museu Naval de Madrid, a Biblioteca Universitária de Salamanca e a Biblioteca Geral de Navarra (Pamplona). Existem diversas edições da obra, todas elas fac-similes, produzidas ao longo do século XX. O historiador português Joaquim Bensaúde publicou uma edição em 1915, no quarto volume da sua Histoire de la science nautique portugaise à l’époque des grandes découvertes: collection de documents publiés par ordre du Ministère de l’Instruction Publique de la République Portugaise. Só mais tarde apareceram as edições de Rafael Arroyo (1989), de Timothy Coates (1997) e de José Ignacio González-Aller Hierro (em CD-ROM, 1998). O referido capítulo oitavo da obra foi traduzido para língua inglesa em 1943. 

No mesmo ano da publicação do seu tratado, Faleiro seria chamado para examinar os instrumentos náuticos fabricados pelo cosmógrafo Gaspar Rebelo. Poucos anos mais tarde, voltaria a ser consultado para um outro assunto de maior relevância: a construção de cartas náuticas e de um modelo cartográfico na Casa de la Contratación. Por volta de 1538, depois da visita à Casa do visitador do Consejo de Indias, Juan Suárez de Carvajal, para trabalhar na reforma do Padrón Real iniciada em 1536, surgiu na instituição sevilhana um importante debate entre o Piloto Mayor (Piloto-Mor) Sebastian Caboto e o cartógrafo Diego Gutiérrez, por um lado, e outros cosmógrafos da Casa por outro lado, nomeadamente Pedro de Medina e Alonso de Chaves. O debate girou em torno da adequação da carta padrão e das cópias dele tiradas, assim como das cartas de múltiplas graduações construídas por Gutiérrez. No fundo, este debate nasceu por causa dos problemas provocados pela declinação magnética na navegação oceânica e, em consequência, na cartografia. Desde o início, o debate foi convertido num confronto entre apoiantes do conhecimento prático e simpatizantes do conhecimento teórico, entre pilotos e cosmógrafos, entre homens de mar e homens com formação teórica e universitária. Defensores e detratores das cartas feitas de acordo com o Padrón Real (com uma única escala de latitudes) ou das cartas feitas segundo as fazia Gutiérrez (com duas ou mais escalas, tentando assim corrigir a variação) mantiveram uma intensa disputa que se prolongou durante vários anos. Foi no contexto desta discussão que Faleiro, e outros cosmógrafos especializados como Alonso de Santa Cruz e Pedro Mejía, deu a sua opinião sobre o assunto em Maio de 1544. O parecer do cosmógrafo português foi ao coração do problema: o sistema deficiente de coleta de informação da Casa, ou melhor, a falta de um sistema padronizado de recolha de dados. Segundo Faleiro, esta era a origem de todos os problemas, que tinha como consequência a ausência de um modelo cartográfico preciso e adequado. Em simultâneo, Faleiro criticou as cartas fabricadas por Gutiérrez, as quais lhe pareciam ir contra a arte da navegação.

Em 1566, o rei Filipe II (Filipe I de Portugal) reabriu a antiga querela ibérica pela posse e direitos das Molucas com o objetivo de conhecer a posição geográfica das Filipinas em relação aos acordos estabelecidos no Tratado de Zaragoza de 1529. O dito tratado, assinado entre Espanha e Portugal como consequência do anterior Tratado de Tordesilhas (1494), determinava que as Molucas ficavam de lado espanhol, sendo estas alugadas pela Coroa espanhola a Portugal para a sua exploração comercial. Mais uma vez, o rei pediu parecer científico a vários cosmógrafos ligados à Casa de la Contratación, entre os quais se encontrava Faleiro. Não restam dúvidas que, desde a sua chegada a Sevilha, Francisco desenvolveu importantes tarefas como consultor científico da Casa, na maioria dos casos sobre assuntos de enorme relevância para a política expansionista da monarquia espanhola. 

Além do seu trabalho científico, as fontes arquivísticas revelam também que Faleiro esteve intensamente envolvido, desde a sua chegada a Sevilha, em problemas pessoais que o levaram a manter diversos litígios com a sua cunhada, Eva Alonso, também portuguesa. Uma vez que o seu irmão Rui ficou mentalmente insano, durante a preparação da expedição de Magalhães, foi Francisco quem tomou conta dele e também era quem recebia uma importante soma de dinheiro como pensão pelos serviços que Rui tinha prestado à Coroa espanhola, quer na Casa quer como membro da Ordem de Santiago. Desavenças económicas parecem ter levado aos prolongados confrontos entre Francisco e a mulher do seu irmão. Uma das curiosidades deste caso foi que em 1526 Diogo Ribeiro, destacado cosmógrafo português da Casa de la Contratación, se declarou em favor de Eva Alonso. Desconhecem-se os motivos para tal. No final, Francisco Faleiro parece ter saído vitorioso. 

Antonio Sánchez
Universidad Autónoma de Madrid

Arquivos

Sevilha, Archivo General de Indias

Justicia, 1146, N.3, R.2, Bloque 1, f. 6v. 

Justicia, 1161, N.2; Justicia, 704, N.2.

Contratación, 5784, L.1, F.58; Contratación, 5784, L.1, f. 34; Contratación, 752.

Patronato, 49, R.12; Patronato, 285, R.195; Patronato, 276, N.3, R.69; Patronato,  34, R.8; Patronato, 34, R.19.

Indiferente, 425, L.24, f. 300v-301r; Indiferente, 421, L.12, f. 18v-20r;       Indiferente, 1961, L.3, f. 284; Indiferente, 421, L.12, f. 311r; Indiferente, 1961,       L.2, f. 216v-217; Indiferente, 1963, L.7, f. 191r-191v; Indiferente, 421, L.12, f.     132r-132v; Indiferente, 421, L.12, f. 70v (2); Indiferente, 1961, L.2, f. 7-8;      Indiferente, 1952, L.1, f. 48v-49; Indiferente, 422, L.14, f. 32r; Indiferente, 421,    L.13, f. 279v-280r; Indiferente, 737, N.15.

Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Corpo Cronológico, P. 1.ª, maço 13, doc. 20: Carta de Sebastião Álvares ao ReiManuel I, 18 de Julho de 1519.

[Citado em Fernández de Navarrete, Martín. Colección de los viajes y descubrimientos que hicieron por mar los españoles desde fines del siglo XV, Tomo IV. Madrid: Imprenta Real, 1825-37, p. 155; e em Cortesão, Armando e Teixeira da Mota, Avelino. Portugaliae Monumenta Cartographica, Vol. I. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1987, p. 20.]

Obras

Faleiro, Francisco. Tratado del esfera y del arte del marear; con el regimiento de las alturas; con algunas reglas nuevamente escritas muy necesarias. Sevilla: Juan Cromberger, 1535. 

Faleiro, Francisco. Tratado del esphera y del arte del marear; con el Regimiento de las alturas. In Joaquim Bensaúde, Histoire de la science nautique portugaise à l’époque des grandes découvertes: collection de documents publiés par ordre du Ministère de l’Instruction Publique de la République Portugaise, Vol. 4. Munich: J. B. Obernetter, 1915. 

Falero, Francisco. Tratado de la esfera y del arte de marear. Con el regimiento de las alturas. Con algunas reglas nuevamente escritas muy necesarias. Madrid: Ministerio de Defensa-Ministerio de Agricultura, Pesca y Alimentación, 1989. Edição de Rafael Arroyo.

Bibliografia sobre o biografado

Collins, Edward. “Francisco Faleiro and Scientific Methodology at the Casa de la Contratación in the Sixteenth Century.” Imago Mundi 65 (1) (2013): 25–36.

Gavira Martín, José. La ciencia geográfica española del siglo XVI: Martín Cortés, Martín Fernández de Enciso, Jerónimo de Chaves y Francisco Falero. Madrid: Imprenta del P. de H. de Intendencia e Intervención Militares, Caracas, 1931.

Gil, Juan. El exilio portugués en Sevilla: de los Braganza a Magallanes. Sevilla: Fundación Cajasol, 2009.

Serrão, Joaquim Veríssimo. “Um memorial de Francisco Faleiro ao Imperador Carlos V, 1531.” Arquivos do Centro Cultural Português I (1969): 451–454.

Teixeira da Mota, Avelino. “Contribuição dos irmãos Rui e Francisco Faleiro no campo da náutica em Espanha.” In A viagem de Fernão de Magalhães e a questão das Molucas: actas do II Colóquio Luso-Espanhol de História Ultramarina, ed. Avelino Teixeira da Mota, 315—341. Lisboa: Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1975.

Ribeiro, Diogo

Portugal, séc. XV — m. Sevilha, 16 agosto 1553

Palavras-chave: cosmógrafo, cartografia nautica, instrumentos, Casa de la Contratación.

O cartógrafo Diogo Ribeiro (em espanhol Diego Ribero), filho de Afonso Ribeiro e Beatriz de Oliveira, nasceu em Portugal, em finais do século XV. Era um perito em cartografia, desenho e construção de instrumentos cosmográficos e inventor de outros aparelhos técnicos (cf. Carta de Sebastião Alvarez, feitor em Andaluzia, a El-Rei D. Manuel, 18 Julho 1519). Desempenhou o cargo de ‘cosmógrafo’ na Casa de la Contratación em Sevilha e na Casa de la Especiería em La Coruña, entre 1523 e 1533. Ribeiro possuía particulares capacidades técnicas, adquiridas provavelmente na prática da navegação e, ao longo da vida, demonstrará alguma formação humanista e erudita. Num pedido que enviou diretamente ao rei, apresenta-se como ‘yo Diego Ribeiro cosmographo y maestro de todos los instrumentos a la navegacion necesarios’. Ficou conhecido como um excelente desenhador de cartas náuticas e planisférios, e tinha experiência no processamento de metais, como atesta a sua produção de astrolábios e o seu pioneirismo na concepção de bombas de água metálicas. Ribeiro começou como mestre artesão, isto é como perito técnico formado na execução prática de cartas e instrumentos. Estas capacidades permitiram a subir rapidamente deste estatuto a um cargo respeitado e bem remunerado com alguma proximidade à Coroa e aos círculos diplomáticos. Ribeiro assemelhava-se assim aos virtuosi que foram particularmente protegidos em toda a Europa durante a época do Renascimento, em que florescia o ideal de combinar em tudo a teoria com a prática.

Na primeira década do século XVI a Coroa portuguesa empenhava-se em estabelecer o seu império no Sudeste da Ásia. A certa altura, vários peritos, pilotos ou simples marinheiros Portugueses envolvidos neste empreendimento decidiram deixar Portugal e acabaram por trabalhar na Casa de la Contratación em Sevilha. Entre eles encontravam-se Fernão de Magalhães (1480–1521), Rui Faleiro e Duarte Barbosa († 1521), o autor de uma detalhada descrição (c.1516) das viagens portuguesas no Oriente, divulgada por Giovanni Battista Ramusio. Paralelamente chegou a Sevilha, ido de Lisboa, Cristóbal de Haro, abastado membro de uma família de mercadores originária de Burgos, cujo irmão, Tiago (Jacobus) de Haro, residente em Amesterdão, era sogro de Maximilianus Transylvanus, conselheiro próximo do imperador Carlos V (Carlos I de Espanha a partir 1516, † 1558). Seria De Haro o principal financiador, juntamente com os comerciantes alemães Fugger, da expedição Magalhães-Elcano, que decorreu entre 1519 e 1522. Ao mesmo tempo, os cartógrafos Pedro e Jorge Reinel passaram também de Lisboa para Sevilha.

Em 1518 ou 1519 Ribeiro entrou ao serviço da Coroa espanhola no contexto da preparação da viagem de Magalhães. Em conjunto com Pedro e Jorge Reinel, ele vinha ocupar-se da produção de cartas e instrumentos náuticos para a expedição, tocando a Ribeiro a construção de astrolábios e outros aparelhos técnicos. A documentação existente comprova que lhe foram pagos, a 12 de Março de 1519, quatro ducados de ouro para fazer quatro astrolábios e, em 7 de Maio do mesmo ano, recebeu 8 reais de prata por ter elaborado um grande compasso magnético e tê-lo ajustado. Desde Lisboa, a Coroa parece ter feito um esforço para convencer os peritos portugueses a voltar ao serviço do seu monarca. Pedro Reinel e o seu filho Jorge voltaram, mas Ribeiro ficou em Espanha.

Em 10 de Julho de 1523, já depois do regresso da única embarcação sobrevivente da armada de Magalhães, regista-se a nomeação de Ribeiro para o cargo de ‘cosmografo y maestro de hazer cartas y otros ingenios para la navegacion’ com um salário anual de 30.000 maravedís. E, um pouco mais tarde, temos notícia das cartas marinhas, dos globos, dos mappae-mundi, dos astrolábios e outros instrumentos elaborados por Diogo Ribeiro, em La Coruña, na Galiza. Aí se encontrava a funcionar, desde 1522, a Casa de la Especiería sob a direção de Cristóbal de Haro com o intuito de preparar as próximas expedições para as Molucas.

Na primavera de 1524 Ribeiro foi chamado a Vitória, no País Basco, onde estanciava então o imperador Carlos V, em conjunto com Estevão Gomes, outro perito, para consultas relativamente à disputa entre Portugal e Espanha sobre as Molucas (cf. Carta de Antonio Ribeiro da Cunhha a El-Rei D. Manuel, 28 Fevereiro 1525). Durante esta estada parece ter trabalhado junto do embaixador de Génova, Martin Centurione, ao traduzir de português para espanhol o Livro de Duarte Barbosa.

Entre Abril e Maio de 1524 Ribeiro participou, enquanto perito da delegação espanhola, no famoso encontro de Badajoz-Elvas. Ali devia decidir-se de que lado do anti-meridiano de Tordesilhas se encontravam as ilhas Molucas. As delegações de cada parte eram constituídas por nove membros: três juristas, três cosmógrafos e três pilotos. Não se sabe qual era exatamente o papel de Ribeiro. Os embaixadores portugueses já tinham insistido em Vitória, que ele não podia participar na delegação oficial por ser, tal como Simão de Alcáçava e Estevão Gomes dois dos portugueses que deixaram o seu país para trabalhar para a Coroa espanhola. As negociações foram interrompidas em Junho seguinte, sem resultado.

Em 1524 Ribeiro fez um pedido de privilégio para a produção e venda de uma bomba de água por si concebida, apresentando um modelo. Na sua petição refere: ‘Me oferesco a hazer bonbas de metal para agotar las naos y q[eu] con cada vna de las dichas bonbas se agote tanta agua quanta agotaran con diez bonbas de las otras de madera’ (citado de acordo com Germán Latorre). Em recompensa esperava receber anualmente 60.000 maravedis, para além dos 30.000 auferia. (cf. Carta de 31 janeiro 1524).

Em conjunto com o cartógrafo Nuño García de Toreno, Ribeiro contribuiu com uma série de cartas náuticas para a armada comandada por Jofre García de Loaysa, que partiu a 24 de Julho de 1525 em direção às Molucas. Em Setembro do mesmo ano voltou da costa da Nova Escócia (Canadá) uma caravela comandada por Estevão Gomes com 58 indígenas capturados. Um deles foi acolhido em casa de Ribeiro e recebeu o nome de Diego Lengua, provavelmente porque sabia um pouco castelhano e servia de intérprete.

O historiador Louis-André Vigneras acha provável que Ribeiro tenha traçado ou completado o mappa mundi anónimo de Mântua, o chamado Planisfério de Castiglione, datado de 1525. De facto, acham-se nele informações então recentemente trazidas por essa expedição de Estevão Gomes. O planisfério apresenta além da informação cartográfica, esquemas geometricamente muito precisos de um astrolábio náutico, de um quadrante horário para a latitude de 42°N, e de uma teórica do sol, isto é, um gráfico que permite representar a declinação do sol em cada dia do ano. Os mesmos esquemas encontrar-se-ão também nos dois planisférios assinados por Ribeiro, datados de 1529, e que são característicos nos trabalhos do cartógrafo.

Uma nova armada devia partir de La Coruña para as Molucas chefiada por Simão de Alcáçava. Em 1527 Ribeiro foi escolhido para executar os mapas, astrolábios e outros instrumentos necessárias para esta viagem. De facto, uma Cédula Real (carta régia), de Dezembro de 1527, instruiu a tesouraria da Casa de la Contratación ‘para que provean de dinero a Ribero para hacer cartas, padrones, agujas [compassos magnéticos], astrolabios’. O técnico receberá a 30 de Dezembro, 15.000 maravedís como pagamento, por parte da Casa de la Especiería

Depois de uma inspeção à Casa de la Contratación por parte do Consejo de Indias, em presença do imperador Carlos V, em 1526, ficou decidido que Ribeiro devia assistir Fernando Colón na revisão de um novo mapa padrão, o Padrón Real. Assim, deviam ser elaborados ‘una carta de navegar y un mapamundi o esfera redonda [globo terrestre]’ para se conservarem na Casa como ‘padrones de todas las cartas y mapamundis’. Mas como Ribeiro se encontrava a trabalhar na Casa de la Especiería de La Coruña, Colón trabalhou em parceria com Alonso de Chaves, mais tarde Piloto Mayor (Piloto Mor) em Sevilha. Dois planisférios produzidos nessa época (o ‘Planisfério Salviati’ de Florença, de 1525 ou 1526, e o Planisfério de Weimar, datado de 1527) são muitas vezes atribuídos a Ribeiro. O Planisfério Salviati não apresenta os esquemas de instrumentos característicos dos mapas de Ribeiro, mas inclui informações da expedição de Estevão Gomes, e pode ter sido inspirado num trabalho de Ribeiro. O mapa de Weimar, por sua vez, foi feito em Sevilha, e Vigneras conclui que se trata provavelmente de uma cópia de um mappa mundi de Ribeiro, porque nesta altura o cartógrafo ainda se encontrava em La Coruña.

Entretanto o Imperador preparava a cedência aos Portugueses, contra pagamento de 350.000 ducados de ouro, ou seja mais de 130 milhões de maravedís, do domínio e direito de comerciar com as Molucas. Assinou-se o Tratado de Saragoça em 1529. Mas, pouco tempo antes, a armada de Alcáçava tinha sido cancelada e a Casa de la Especiería fechada. Assim, vários oficiais da Casa, entre eles Ribeiro e Estevão Gomes viajaram de La Coruña a Cádiz, em Junho de 1528. Chegado a Sevilha, Ribeiro (em conjunto com Alonso de Chaves) devia substituir Sebastiano Caboto e Nuño García de Toreno no ‘júri’ de examinadores dos pilotos. O júri retomou a sua atividade com a chegada de Ribeiro, em 20 de Junho desse ano.

Em Sevilha, Ribeiro assina dois grandes mapas universais ou planisférios datados de 1529, que se conservaram até hoje. Inscreve nas cartas: ‘Hizola Diego Ribero cosmografo de su Magestad’. Um primeiro encontra-se na Biblioteca Vaticana (o Planisfério Borgiano), um segundo de padrão igual, com muitas legendas adicionais, e alguns trechos de costa completados, está na Biblioteca de Weimar.

Ribeiro continuava a pressionar a Corte com petições no sentido de avançar com os testes às bombas de água que tinha concebido. Testes tinham sido feitos em presença de peritos nomeados pela Coroa ainda em La Coruña (1524) e depois, uma vez mais, em Sevilha (1526). Apesar disso, o negócio não ficou decidido. Ribeiro foi convidado a deslocar-se até Madrid para discutir o projeto, e só em 1531 foi permitido pôr à prova uma bomba. Em Novembro desse ano experimentou-se um exemplar numa caravela em presença de numerosos peritos e oficiais. O tipo de bomba proposto por Ribeiro, com peso de 303 libras, foi finalmente usado na nau Mar Alta, durante a viagem comandada por Ginés de Carrión. Em Outubro de 1533 a Casa de la Contratación recomendou a adoção de bombas de água de metal. Entretanto, Diogo Ribeiro tinha falecido no mês de Agosto desse ano.

Samuel Gessner e Thomas Horst

Arquivos

Arquivo Nacional da Torre de Tombo: Corpo Cronológico, gav. 1, m 13, n. 20 [Carta de Sebastião Alvarez, feitor em Andaluzia, a El-Rei D. Manuel, 18 Julho 1519]; gav. 2, m. 10, n. 20 [Carta de 31 janeiro 1524]; gav. 15, m. 10, n. 33 [Carta de Antonio Ribeiro da Cunhha a El-Rei D. Manuel, 28 Fevereiro 1525].

Archivo General de Indias (seleção dos documentos relevantes): Contadutoría 269; Contadutoría 428, n. 3; Contratación 5784, Lib. 1, f. 44 e 76; Indiferente Geral 420, Lib. 1, f. 167 [nomeação de Ribeiro para o cargo de ‘cosmografo y maestro de hazer cartas y otros ingenios para la navegacion’]; Indiferente Geral 421, Lib. 1, f. 21 e 324; Indiferente Geral 421, Lib. 11, 234 r/v Justicia de Indias 1169, n.°3, r.°2 e n. 4, r. 1; Patronato Real 37, R. 38, f. 14, 28 e 31.

Obras

Tradução de Português para Castelhano do Livro de Duarte Barbosa, em conjunto com o genovês Martin Centurion, 1524 (uma cópia que menciona a colaboração de Ribeiro encontra-se no ms. 835 da Biblioteca da Universidade de Barcelona).

Bomba metálica de água para uso a bordo, exemplares em 1524, 1526, 1531 e a bomba de 1533, de um peso de 303 libras (c. 140 kg) [não conservados].

Mapas

Planisfério de Castiglione (1525, atribuído a Ribeiro), 82 x 210 cm, Biblioteca Estense universitaria, Modena; anteriormente em ‘Archivio Marchesi Castiglioni’ (Mantova);

Planisfério de Weimar (1527, inacabado e atribuído a Ribeiro): ‘Carta Vniversal en que se contiene todo lo que del mvndo se a decubi[erto] fasta aora hizola vn cosmographo de sv magestad Anno. M.D.XX.VII. en Sevilla’. Manuscrito em pergaminho, 86 x 216 cm, Herzogin-Anna-Amalia-Biblithek Weimar, Kt 020-57S;

Planisfério de Roma (1529, assinado de Ribeiro): ‘Carta Vniversal en que se contiene todo lo que del mundo se há descubierto fasta agora. Hizola Diego Ribero cosmographo de Su magestad, año de 1529, em Sevilla […]’. Manuscrito em pergaminho, 85 x 204,5 cm, Biblioteca Apostolica Vaticana; anteriormente no Colégio da Propaganda Fide;

Planisfério de Weimar (1529), ‘Carta Vniversal em que se contiene todo lo que del mundo se há descubierto fasta agora, hizola Diego Ribero Cosmographo de su magestad, año de 1529’. Manuscrito em pergaminho, 89 x 217 cm, Herzogin-Anna-Amalia-Biblithek Weimar, Kt 020-58S;

Dois Fragmentos de um planisfério (c. 1530), anteriormente usado como de um capa dum livro e descoberto só em 1960. Manuscrito em pergaminho, Kreis- und Studienbibliothek Dillingen; 

Fragmentos de uma Carta do hemisfério ocidental (1532). Manuscrito em pergaminho, 67,8 x 87,5 e 58,3 x 87,8 cm, Herzog-August-Bibliothek Wolfenbüttel, 104-a-aug-2f e 104-b-aug-2f.

Instrumentos astronómicos e de navegação (quadrantes astrolábios náuticos), globos, compassos magnéticos etc. [não conservados].

Bibliografia sobre o biografado

Cortesão, Armando e Avelino Teixeira da Mota. Portugaliae Monumenta Cartographica, Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique. 6 vols., Lisboa 1960, vol. I, p. 87–94.

Horst, Thomas. Die Entdeckung Venezuelas durch die Europäer und ihr Niederschlag in Karten des 16. und 17. Jahrhunderts, in: Markus Heinz – Wolf Günther Koch (eds.): 13. Kartographiehistorisches Colloquium und 9. Dresdner Sommerschule für Kartographie. Vorträge, Berichte, Posterbeiträge (Schriftenreihe Kartographische Bausteine des Instituts für Kartographie der TU Dresden 34), Bonn 2012, p. 19–32.

Kohl, Johann Georg. Die beiden ältesten General-Karten von Amerika. Ausgeführt in den Jahren 1527 und 1529 auf Befehl Kaiser Karls V. im Besitz der großherzoglichen Bibliothek zu Weimar, Weimar, 1860.

Latorre, Germán. Diego Ribero: cosmógrafo y cartógrafo de la Casa de la Contratación de Sevilla (Publicaciones del Centro Oficial de Estudios Americanistas de Sevilla 2), Sevilla, 1919.

Sánchez, Antonio. La espada, la cruz y el Padrón: soberanía, fe y representación cartográfica en el mundo ibérico bajo la Monarquía Hispánica, 1503–1598 (Universos americanos 11), Madrid 2013, p. 108–117 (expedição Magalhães-Elcano, encontro de Badajoz-Elvas, Tratado de Saragoça), p. 153, p. 180–191 (Salviati, Castiglione e a reforma do padrão de 1526), p. 194–210 (Los planisferios de Diogo Ribeiro, el cartógrafo de Tordesillas), p. 213–216 (fragmento de Wolfenbüttel).

Vigneras, Louis-André. “The Cartographer Diogo Ribeiro”, Imago Mundi 16 (1962), p. 76–83.