Sousa, José Fernando de

Viana do Alentejo, 30 maio 1855 — Lisboa, 12 março 1942

Palavras-chave: caminhos de ferro, coordenação dos transportes, estradas, Gazeta dos Caminhos de Ferro.

José Fernando de Sousa  foi um polémico engenheiro ferroviário português. 

Foi filho do médico António José de Sousa e de sua esposa Maria José. Foi irmão de Isidoro de Sousa, importante vinicultor local. Casou com Berta Guerreiro com quem teve oito filhos.

Frequentou o liceu de Évora, a Escola Politécnica de Lisboa (1869–1873) e a Escola do Exército. Em 1876, concluiu o curso de Engenharia, tendo recebido vários prémios ao longo do seu percurso.

Principiou a sua carreira em 1877, nos Serviços de Engenharia do Ministério da Guerra e na Direção-Geral dos Serviços Geodésicos. Em 1890, iniciou a ligação à ferrovia, na Direção dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste, onde as suas qualidades pessoais e técnicas lhe valeram a comenda de Avis. Em 1898, integrou a comissão encarregada de reorganizar os caminhos de ferro do Estado (Minho, Douro, Sul e Sueste), na sequência do decreto de 6 de outubro de 1898. A equipa reuniu a elite dos engenheiros ferroviários nacionais. Fernando de Sousa foi o redator das atas das sessões e do relatório final, que deu origem aos Caminhos de Ferro do Estado, ao fundo especial de caminhos de ferro e ao primeiro plano de rede ferroviária nacional aprovado com força legal. Em 1899, foi nomeado inspetor técnico das linhas de Salamanca à fronteira portuguesa (construídas em território espanhol por um consórcio de bancos portugueses) e vogal da Junta Central de Melhoramentos Sanitários.

A sua carreira militar foi precocemente interrompida em 1900. Instado pelo Ministro da Guerra a bater-se em duelo com o diretor d’O Seculo, recusou, invocando princípios religiosos. Foi levado a Conselho Superior de Disciplina, onde apresentou a demissão.

Manteve-se ligado ao Ministério das Obras Públicas e em particular ao Conselho de Administração dos Caminhos de Ferro do Estado e ao Conselho Superior de Caminhos de Ferro. Chegou a conselheiro de Estado em 1904 e a deputado em 1906.

Monárquico convicto, ultraconservador católico, antiliberal e antimaçónico, opôs-se vigorosamente ao regime republicano e aos movimentos operários associados, tendo sido por isso saneado dos Caminhos de Ferro do Estado em 1911. Passou a colaborar com diversas companhias portuguesas e estrangeiras (Eiffel, Sociedade Estoril, Burnay, Companhia Portuguesa para a Construção e Exploração de Caminhos de Ferro) e com a Sociedade de Propaganda de Portugal (promotora do país como destino turístico). Simultaneamente, foi eleito senador, em 1925 e manteve uma profícua carreira publicista em diversos jornais, como o Correio NacionalA OrdemPortugal: Diário Católico, entre outros, com o pseudónimo, Nemo.

Na sua carreira profissional, demonstrou igual conservadorismo, mas também uma grande perícia técnica que o guindou à presidência da Associação de Engenheiros Civis Portugueses e à condição de associado da Academia das Ciências de Lisboa. Nas dezenas de trabalhos de temática ferroviária que publicou, tanto na Gazeta dos Caminhos de Ferro, como em volumes avulso, sempre defendeu a manutenção e extensão das linhas do Estado sob alçada pública, excepto durante a República, em que propôs a sua privatização para subtrair o sector à influência do anarquismo e do associativismo. Como um dos últimos engenheiros com formação oitocentista, foi um acérrimo defensor da ferrovia contra o desenvolvimento da concorrência automóvel. Em 1929, propôs a duplicação da extensão da rede ferroviária nacional e a tomada de medidas que faziam do automóvel um apoio e não um concorrente do caminho de ferro, num relatório que foi considerado pela Associação de Engenheiros como obsoleto.

Até à sua morte, em 1942, foi uma personalidade controversa pelo extremar das suas posições políticas, mas também pela sua opinião sobre a coordenação dos transportes. Defendeu sempre a prevalência do caminho de ferro no transporte a longa distância, numa altura em que a estrada e a camionagem se começavam a assumir como meios de transporte mais eficazes e representantes mais emblemáticos do progresso. Deixou esta e outras opiniões nas suas diversas obras, que, além de demonstrarem um profundo conhecimento do sector, constituem uma importante fonte para a história do caminho de ferro em Portugal.

Hugo Silveira Pereira

Arquivos

Lisboa, Acervo Infraestruturas, Transportes e Comunicações, Processos individuais, Cx. 172, José Fernando de Sousa, PT/AHMOP/PI/172/012.

Lisboa, Arquivo Histórico Militar, cx. 1122, processo individual de José Fernando de Sousa.

Obras 

Comissão encarregada de propor um plano de reorganização dos Caminhos de Ferro do Estado pelo decreto de 6 de Outubro de 1898. Relatorio. Lisboa: Imprensa Nacional, 1899.

Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria. Actas da commissão encarregada de propor um plano de reorganisação dos caminhos de ferro do Estado pelo decreto de 6 de Outubro de 1898. Lisboa: Imprensa Nacional, 1898.

Ministério do Comércio e Comunicações. Direção Geral dos Caminhos de Ferro. Plano Geral da Rêde Ferroviária do Continente proposto pela Comissão encarregada da elaboração dêsse plano (Decreto n.º 13:829, de 17 de Junho de 1927). Lisboa: Imprensa Nacional, 1929.

Sousa, José Fernando de. Comunicações. Lisboa: Imprensa Nacional, 1929.

Sousa, José Fernando de. Comunicações em Trás-os-Montes. Lisboa: Oficinas Gráficas da Gazeta dos Caminhos de Ferro, 1941.

Sousa, José Fernando de. Douro e Leixões. A questão dos portos commerciaes. Lisboa: Oficinas do Comércio do Porto, 1912.

Sousa, José Fernando de. O caminho de ferro do Vale-do-Lima. Lisboa: Tipografia Minerva, 1927.

Sousa, José Fernando de. O problema nacional ferroviário. Lisboa: Oficinas Gráficas da Gazeta dos Caminhos de Ferro, 1938.

Sousa, José Fernando de. O problema nacional ferroviário e a coordenação dos transportes. Sintese doutrinal de quatro conferências. Lisboa: Oficinas Gráficas da Gazeta dos Caminhos de Ferro, 1938.

Sousa, José Fernando de. Os caminhos de ferro do Estado e a reforma da lei da contabilidade publica. [S. l]: [s. n.], 1906.