Homem, Lopo

fl. Séculos XV-XVI

Palavras-chave: cartografia náutica, cosmografia.

Cartógrafo português do século XVI, o primeiro de uma família de cartógrafos que inclui os seus filhos Diogo e Lopo. Desconhecem-se as datas de nascimento e morte de Lopo Homem, e a mais antiga referência à sua actividade é uma carta régia assinada por D. João III, de 1524, confirmando um alvará de D. Manuel I de 1517, no qual ele é referido como “escudeiro de minha casa” e mestre de cartas de marear, e lhe é dada autorização para construir e reparar agulhas de marear. Vários outros documentos oficiais se referem a Lopo Homem como cartógrafo (1541), examinador de pilotos (1551) e cavaleiro da casa del Rei (1563). Através do testemunho do cosmógrafo espanhol Alonso de Chaves, sabe-se que Lopo Homem fez parta da delegação portuguesa às negociações da Junta de Badajoz-Elvas, que decorreram em 1524. Dessa mesma missão nos deu conta o próprio cartógrafo, numa carta enviada ao rei por volta de 1560, em que se identifica como cosmógrafo e cavaleiro da casa real, e se queixa asperamente do novo padrão estabelecido pelo cosmógrafo-mor Pedro Nunes a partir de medidas de longitudes obtidas por observação dos eclipses do Sol e da Lua. Segundo Homem, todas as cartas que se fizeram a partir desse padrão eram contrárias à ciência de navegar, e por isso muitos navios da carreira das Índias se perderam, obrigando os pilotos a adquirir outras cartas a Castela. Muito embora as alegações de Lopo Homem sejam certamente exageradas, o facto é que a razão parecia estar do seu lado, já que as cartas tradicionais estavam bem adapatadas aos métodos de navegação da época, que eram baseados em rumos magnécticos. Substituí-las por outras baseadas nas longitudes dos lugares poderia afectar gravemente a eficácia e segurança da navegação, já que os rumos medidos sobre elas não coincidiriam com aqueles que eram determinados a bordo com a agulha de marear.

Embora a produção cartográfica de Lopo Homem tenha sido porventura muito extensa, somente quatro exemplares assinados chegaram aos nossos dias: i) o mapa-múndi de 1519, que faz parte do chamado Atlas Miller e está conservado na Biblotèque nationale de France; ii) uma carta do Mediterrâneo, Mar Negro e Europa ocidental, ao estilo das cartas portulano e de data muito incerta, que Armando Cortesão datou de c.1550, conservada no Arquivo Salviati de Miglirino, em Roma; iii) uma carta atlântica de c.1550 conservada na Biblioteca Nacional de Portugal, dotada de uma escala de latitudes secundária para a região da Terra Nova; iv) e um planisfério de 1554, conservado no Istituto e Museo di Storia della Sinzia, em Florença. O exemplar mais interessante do ponto de vista historiográfico é o primeiro, pelo facto de o seu desenho ser relativamente grosseiro, quando comparado como o das outras cartas do Atlas Miller, e também por representar o mundo como um disco, em que os oceanos Atlântico e Índico aparecem totalmente rodeados por terra. Esta antiga concepção cosmográfica inspirada nas ideias de Ptolomeu, já antes adoptada no fragmento do planisfério de Piri Reis que chegou aos nossos dias (c.1513), só seria abandonada depois de completada a viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães e Sébastian de Elcano (1519-22). Também de notar é o facto de, no planisfério de 1554, a típica distorção longitudinal do continente africano aparecer consideravelmente mitigada, provavelmente por imposição do cosmógrafo-mor Pedro Nunes. 

Joaquim Alves Gaspar

Arquivos

Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Chancelaria de D. João III, Doações, Liv. 37, f.. 170v.

Livro das Denunciações da Inquisição de 1537 em deante, f. 96.

Lisboa, Câmara Municipal de Lisbo

 L.º 1.º de Vereação, f. 103.

Livro de lançamento e serviço qve a cidade de Lixa fez a elrei nosso sôr o anno de 1565, f.. 377.

Madrid, Arquivo (?)

Crónica del Emperador Carlos V, Tomo II: 88–89. 

Paris, Bibliothèque Nationale de France

Ms. Coll des Cinque Cents de Colbert, 298, ff.. 6r–8r. [Editado em Luís de Matos, Les portugais en France au XVIe siècle, 100–105, 318–322. Coimbra: Imprensa da Universidade Coimbra, 1952].

Obras

Bibliografia sobre o biografado

Cortesão, Armando e Avelino Teixeira da Mota. Portugaliae Monumenta Cartographica, Vol. I: 49–61.  Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987.

Albuquerque, Luís de. “Homem, Lopo.’ In Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses, ed. Luís de Albuquerque, Volume I: 501–502. Lisboa: Caminho, 1993.

Faleiro, Rui (Ruy Falero, Rui Falero, Rodrigo Faleyro)

n. Covilhã?  — 1544                                                       

Palavras-chave: Expansão marítima, navegação, cosmografia, Sevilha. 

Rui Faleiro foi um cosmógrafo português do século XVI que, como o seu irmão Francisco Faleiro, trabalhou para a Coroa espanhola desde 1517, ou 1518, até ficar doente, facto que aconteceria pouco tempo depois. Rui partiu para Espanha com o grupo de portugueses, liderado por Fernão de Magalhães, que apresentou ao rei espanhol Carlos I (também conhecido como Carlos V do Sacro Imperio Romano Germânico) o projeto de circum-navegação do globo que acabaria por se materializar entre 1519 e 1522. Os irmãos Faleiro, e especialmente Rui, ocuparam um papel fulcral na preparação científica desta viagem. 

Rui Faleiro teve uma considerável reputação como perito em temas técnicos relacionados com a cosmografia e a navegação, assim como com a construção de instrumentos náuticos, tais como astrolábios e quadrantes. Escreveu ainda alguns documentos sobre O Regimento da Altura de Leste-Oeste para a expedição de Magalhães. Embora existam poucos dados sobre a sua vida, sabemos que pertenceu à Ordem de Santiago, que foi casado com a portuguesa Eva Alonso e que sofreu, ao pouco de chegar a Sevilha, duma aguda doença mental. Segundo as crónicas da altura, e outra documentação de arquivo, Rui tornou-se mentalmente insano pois “tinha perturbadas as suas faculdades mentais” e andava “fora do seu juízo natural” pouco tempo antes da partida da viagem, motivo pelo qual acabou por ficar em Sevilha com o seu irmão, que passaria a tomar conta dele. Argensola escreveu que, uma vez perdido seu o juízo, Rui ficou na casa dos loucos de Sevilha. No seu lugar embarcou o piloto Andrés de San Martín.

A doença de Rui propiciou um amargo confronto entre a sua mulher, Eva Alonso, e o seu irmão Francisco. Os dois mantiveram um litígio que demorou vários anos no qual ambos lutaram para cuidarem do doente, assim como para disporem da sua pensão anual, que atingia os 50.000 maravedís (antiga moeda espanhola) pelos serviços prestados à Casa de la Contratación, e outros direitos económicos derivados, por exemplo, da Ordem de Santiago. Se desconhece o facto pelo qual o cartógrafo da Casa e compatriota dos Faleiro, Diogo Ribeiro, testemunhou neste conflito em favor de Eva Alonso. A discórdia esteve aberta grande parte da década dos anos vinte do século XVI. 

Os diversos documentos que hoje se podem consultar sobre a primeira volta ao mundo capitaneada por Magalhães colocam Rui Faleiro como um dos principais capatazes técnicos da preparação da viagem. Esta ideia fica confirmada quando lemos, nos papéis relativos às despesas que a Coroa gastou em cartas náuticas e em outros instrumentos náuticos, que Rui ordenou a Nuño García de Toreno a construção de sete cartas de marear para a viagem. García de Toreno foi uns dos primeiros cartógrafos da Casa de la Contratación de Sevilha e, sem dúvida, o principal fabricante de cartas para a expedição de 1519. Além deste dado, vários cronistas espanhóis da altura como Bartolomé de las Casas, Antonio de Herrera ou Bartolomé Leonardo de Argensola se referiram à autoridade científica de Rui nas suas obras quando escreveram sobre o material científico que Magalhães levava consigo para persuadir a Carlos V dos efeitos positivos da sua viagem. Segundo as palavras de Argensola no seu livro Conquista de las islas Malucas (1609), Magalhães tentou convencer o rei espanhol apoiando-se “nos escritos e autoridade de Ruy Faleiro português, astrólogo judiciário”. 

No que respeita aos “escritos,” Argensola talvez se referisse aos trabalhos de Faleiro sobre o regimento da altura de leste-oeste. Além de encarregar, e ele próprio construir, instrumentos para a viagem, Rui trabalhou também na composição de um regimento onde propunha diferentes procedimentos para a determinação da longitude, um dos problemas que, juntamente com o problema da declinação magnética, mais preocupavam a expedição e ao próprio Faleiro. Nos documentos pertencentes a Rui Faleiro, conservados no Archivo General de Indias, e que o historiador Avelino Teixeira da Mota estudou, o cosmógrafo português ofereceu três métodos diferentes para o cálculo da longitude, isto é, através da declinação da agulha, por meio da latitude da Lua, e pelas conjunções e oposições da Lua com o Sol e com outros astros.

A documentação existente revela ainda um outro problema pessoal de Rui Faleiro, desta vez com a justiça portuguesa. Numa viagem ao seu país para visitar os seus pais Rui foi preso por ordem do rei de Portugal. O facto de ter abandonado o seu país para prestar serviço a outra nação sobre assuntos tão politicamente sensíveis como expedições marítimas relacionadas com a expansão era considerado, segundo o regime monárquico da altura, alta traição. Rui dirigiu pessoalmente um pedido, numa carta em latim datada de 1520, ao Cardeal de Tortosa para que o rei de Espanha intercedesse por si. Finalmente, foi posto em liberdade, voltando depois a Sevilha, onde terá falecido em meados dos anos quarenta.   

Antonio Sánchez
Universidad Autónoma de Madrid

Arquivos

Sevilha, Archivo General de Indias

Indiferente, 737, N.15.; Indiferente, 415, L.1, f. 18v-20r; Indiferente, 421, L.12, f. 110r-110v; Indiferente, 421, L.11, f. 166v; Indiferente, 421, L.12, f. 156r-156v; Indiferente, 421, L.12, f. 18v-20r; Indiferente, 419, L.7, f. 797v-798r; Indiferente, 420, L.8, f. 127v-128r; Indiferente, 421, L.12, f. 311r; Indiferente, 1963, L.7, f. 191r-191v; Indiferente, 421, L.11, f. 296r-296v; Indiferente, 421, L.12, f. 132r-132v; Indiferente, 421, L.12, f. 70v (2); Indiferente, 1961, L.2, f. 7-8; Indiferente, 1952, L.1, f. 48v-49; Indiferente, 421, L.13, f. 279v-280r; Indiferente, 419, L.7, f. 741r-742r; Indiferente, 419, L.7, f. 779r-779v; Indiferente, 419, L.7, f. 709v; Indiferente, 420, L.9, f. 73r (1); Indiferente, 420, L.8, f. 38r-38v; Indiferente, 419, L.7, f. 710v; Indiferente, 420, L.8, f. 101v (2); Indiferente, 420, L.9, f. 73r (2).

Justicia, 1161, N.2; Justicia, 704, N.2.

Patronato, 34, R.3; Patronato, 34, R.12; Patronato, 34, R.22; Patronato, 251, R.11;Patronato, 34; Patronato, 276, N.3, R.69; Patronato, 34, R.19; Patronato, 34, R.8;Patronato, 34, R.7; Patronato, 34, R.1.

Contratación, 5784, L.1, F.29V; Contratación, 5090, L.4; Contratación, 5784, L.1, F.29.

Panamá, 233, L.1, f. 203r-203v; Panamá, 233, L.1, f. 249r.

Obras

Faleiro, Rui. O Regimento da Altura de Leste-Oeste de Rui Faleiro: Subsídios para o Estudo Náutico e Geográfico da Viagem de Fernão de Magahlães, d.- por Avelino Teixeira da Mota. Lisboa: Edições Culturais de Marinha, 1986.

Fernández de Navarrete, Martín. Colección de los viajes y descubrimientos que hicieron por mar los españoles desde fines del siglo XV, Tomo IV: 179–180. Madrid: Imprenta Real, 1825–37.

Bibliografia sobre o biografado

Argensola, Bartolomé Leonardo de. Conquista de las islas Molucas. Madrid: Alonso Martin, 1609. 

Laguarda Trias, Rolando A. “Las longitudes geográficas de la membranza de Magallanes y del primer viaje de circunnavegación.” In A viagem de Fernão de Magalhães e a questão das Molucas, ed. Avelino Teixeira da Mota, 135–178. Lisboa: Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1975.

Teixeira da Mota, Avelino. “O Regimento da altura de Leste-Oeste de Rui Faleiro.” Boletim Geral do Ultramar 28 (1953): 163–171. 

Teixeira da Mota, Avelino. “Contribuição dos irmãos Rui e Francisco Faleiro no campo da náutica em Espanha.” In A viagem de Fernão de Magalhães e a questão das Molucas, ed. Avelino Teixeira da Mota, 315–341. Lisboa: Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1975.

Toribio Medina, José. El descubrimiento del Océano Pacifico. Hernando de Magallanes y sus compañeros. Santiago de Chile: Imprenta Elzeviriana, 1920.

Figueiredo, Manuel de

Torres Novas ca. 1568 — ca. 1622                                       

Palavras-chave: Cosmografia, náutica, Cosmógrafo-Mor, hidrografia, roteiros. 

Manuel de Figueiredo foi um cosmógrafo português natural de Torres Novas (Santarém) que viveu aproximadamente entre o último quartel do século XVI e o primeiro quartel do século XVII. Além das suas publicações sobre aspetos relacionados com a cosmografia, a navegação, a astronomia e a astrologia, Figueiredo é maiormente conhecido por ter ocupado a prestigiada posição de Cosmógrafo-Mor do reino de forma interina entre 1608 e 1622 (data da sua morte), isto é, uma vez que o Cosmógrafo-Mor oficial, João Baptista Lavanha, se encontrava na corte espanhola ao serviço de Filipe III primeiro e Filipe IV depois (Filipe II e Filipe III de Portugal respetivamente). Após a morte de Figueiredo, Valentim de Sá sucederia-o no cargo, também de forma interina, dada a prolongada ausência de Lavanha.

Figueiredo, como no caso dos seus antecessores no cargo e também dos seus sucessores, deve ter reunido uma série de qualidades específicas. Basta relembrar que a posição de Cosmógrafo-Mor era uma das mais exigentes e de maior responsabilidade que existiram em Portugal ligada ao mundo da náutica durante a época da expansão ultramarina. De fato, este cargo, como muitos outros, foi um efeito das profundas mudanças administrativas e organizativas que sofreram os reinos ibéricos neste período como consequência das viagens oceânicas de longa distância. O Cosmógrafo-Mor, cargo instituído pela Coroa portuguesa em 1547 e ocupado pela primeira vez pelo matemático Pedro Nunes, era alguém que levava a cabo um conjunto muito variado e complexo de funções, para as quais requeriam-se tanto habilidades práticas como conhecimentos teóricos aprofundados. Nesse sentido, pode-se afirmar que o Cosmógrafo-Mor ocupava uma posição que unia dois mundos aparentemente separados, o mundo artesanal e o mundo culto e erudito, o mundo dos homens práticos e o mundo dos homens teóricos. Dadas estas exigências, nem todas as pessoas reuniam as capacidades para tal posição, sendo às vezes muito difícil encontrar a pessoa certa. Em geral, tratava-se de indivíduos com uma sólida formação universitária que eram obrigados, no cumprimento das suas funções, a trabalhar e interatuar com indivíduos e coletivos de diferentes escalas sociais —como no caso dos navegantes, cartógrafos, construtores de instrumentos náuticos, carpinteiros e, mesmo, provedores dos Armazéns – em diversos espaços. Assim ficou estabelecido no Regimento do Cosmógrafo-Mor de 1592 (revisão dum documento de 1559 hoje perdido) e em outra legislação régia coeva. 

O Cosmógrafo-Mor desenvolvia ao mesmo tempo várias tarefas da maior importância: ensinava e examinava pilotos, cartógrafos e construtores de instrumentos nos Armazéns da Guiné e Índia de Lisboa e outras instituições afins; inspecionava a qualidade das cartas e outros instrumentos náuticos; era consultado como especialista técnico; escrevia tratados e manuais de cosmografia e navegação; e até realizava funções de conselheiro científico na corte. Este foi o trabalho de Manuel de Figueiredo durante quinze anos, uma vez que se tornou essencial quer formar de maneira sistemática e regulada o novo pessoal marítimo quer gerir e controlar o enorme fluxo de informação que chegava a Lisboa e que tinha uma enorme relevância política e económica para a monarquia. É óbvio que a versatilidade e capacidades dum Cosmógrafo-Mor foram sempre acompanhadas de certo reconhecimento social. 

Antes de ser nomeado Cosmógrafo-Mor, Figueiredo publicou em 1603 uma Cronografia ou Reportório dos Tempos, que é de fato uma miscelânea de temas pertencentes a várias ciências. Aqui, Figueiredo escreve sobre diversos aspetos da cosmografia, navegação, astronomia e astrologia ao mesmo tempo que oferece explicações sobre o uso de dois instrumentos náuticos—a balestilha e o quadrante—e incorpora um tratado sobre relógios. A seguir a este livro, Figueiredo publicou em 1608, já como Cosmógrafo-Mor, a que é provavelmente a sua obra mais conhecida, a Hidrografia, Exame de Pilotos…, reeditada pelo menos três vezes durante a primeira metade do século XVII em 1614, 1625 e 1632. Esta obra é composta por duas partes claramente diferenciadas. A primeira é um tratado náutico ao estilo dum regimento de navegação ou uma arte de navegar, isto é, aquele conhecimento que um piloto devia aprender. A segunda está destinada à descrição dos roteiros das principais rotas oceânicas dos portugueses e os espanhóis, como as do Brasil, da Guiné, da Índia e do Rio da Prata, entre outras. Em paralelo à segunda parte da Hidrografia, dedicada à arte dos roteiros, no ano seguinte, em 1609, Figueiredo publicou também o Roteiro e navegação das Índias Ocidentais. Junto com a Hidrografia, esta é uma compilação e uma síntese dos roteiros portugueses mais importantes compostos até o final do século XVI. 

Além destas obras, outro tipo de documentos têm sido atribuídos a Figueiredo, especialmente na sua etapa como Cosmógrafo-Mor. Como é o caso dumas instruções náuticas confecionadas para os pilotos da carreira da Índia (Ordem que os Pilotos devem guardar na viagem da Carreira da índia) no início do século XVII que, segundo o historiador Avelino Teixeira da Mota, foram redigidas no contexto organizativo dos Armazéns da Guiné e Índia pelo Cosmógrafo-Mor entre 1608 e 1624 aproximadamente. O documento é composto por catorze instruções que descrevem o processo de recolha e registo de informação desenvolvido pelos navegantes diariamente na sua viagem à Índia. Segundo estas instruções, os pilotos tinham que fazer todos os dias um registo pessoal com os dados recolhidos ao longo da viagem e anotar as novidades nas cartas náuticas. No seu regresso a Lisboa, os pilotos deviam entregar toda esta informação ao provedor dos Armazéns e este por sua vez punha-a à disposição do Cosmógrafo-Mor, que analisava os dados, registava-os nos regimentos náuticos, mandava aos cartógrafos que melhorassem as cartas padrões e transmitia aos futuros pilotos as novidades e as correções durante a sua lição diária de matemáticas.   

Antonio Sánchez
Universidad Autónoma de Madrid

Obras

Figueiredo, Manuel de. Chronographia: reportorio dos tempos, no qual se contem vi. Partes, s. dos tempos: esfera, cosmographia, & arte da navegação, astrologia rustica, & dos tempos, & pronosticação dos eclipses, cometas, & sementeiras. O calendario romano, cõ os eclipses ate 630. E no fim o uso, & fabrica da balhestilha, & quadrante gyometrico, com hum tratado dos relógios / composto por Manoel de Figueiredo natural de Torres Novas. Lisboa: por Iorge Rodriguez: a custa de Pero Ramires, 1603.

Figueiredo, Manuel de. Hidrografia, Exame de pilotos, no qual se contem as regras que todo piloto deue guardar em suas navegações, assi no sol, variação dagulha, como no cartear, com algu[m]as regras da navegação de Leste, Oeste, com mais aureo numero, epactas, marès & altura da estrella pollar. Com os Roteiros de Portugal pera o Brasil, Rio da Prata, Guinè, Sam Thomé, Angolla & Indias de Portugal & Castella. Lisboa: Impresso por Vicente Alvarez, 1614 [1608]. 

Figueiredo, Manuel de. Roteiro e navegação das Indias Occidentais ilhas, antilhas do mar oceano ocidental, com suas derrotas, sondas, fundos, & conhecenças / novamente ordenado segundo os pilotos antigos, modernos, por Manoel de Figueiredo, que serve de cosmographo mor, por mandado de sua majestade nestes reynos, e senhorios de Portugal: dirigido a Dom Carlos de Borga, Conde de Ficalho, do Concelho do Estado da sua majestade. Lisboa: por Pedro Crasbeeck, 1609.

Bibliografia sobre o biografado

Albuquerque, Luís de. “Portuguese books on nautical science from Pedro Nunes to 1650”. Revista da Universidade de Coimbra XXXIII (1985): 259–278.

Matos, Rita Cortez de. “O Cosmógrafo-Mor: o ensino náutico em Portugal nos séculos XVI e XVII.” Oceanos 38 (1999): 55–64.

Mota, Avelino Teixeira da. “Os regimentos do Cosmógrafo-mor de 1559 e 1592 e as origens do ensino náutico em Portugal.” Memórias da Academia das Ciências de Lisboa (Classe de Ciências) Tomo XIII (1969): 1–69.

Vasconcelos, José Augusto do Amaral Frazão de. Subsídios para a história da carreira da Índia no tempo dos Filipes. Lisboa: O Mundo do Livro, 1960.

Viterbo, Sousa. Trabalhos nauticos dos Portuguezes nos sécalos XVI e XVII. Lisboa: Imprensa Nacional, 1890.

Faleiro, Francisco

n. Covilhã? — m. 1576

Palavras-chave: Expansão marítima, navegação, cosmografia, Casa de la Contratación. 

Francisco Faleiro (Falero na sua forma castelhanizada) foi um cosmógrafo português do século XVI que desenvolveu a sua atividade científica em Sevilha na Casa de la Contratación, o principal centro de ciência aplicada em Espanha neste período sustentado pela Coroa. Faleiro ocupou um papel destacado no âmbito da náutica vinculado à expansão marítima nas décadas centrais de quinhentos, especialmente como autor do Tratado del esfera y del arte del marear, con el regimiento de las alturas, con algunas reglas nuevamente escritas muy necessárias, publicado em espanhol em Sevilha em 1535; e também pelo seu contributo em diversos debates científicos e diplomáticos surgidos dentro da mencionada instituição sevilhana. Estes foram, entre outros a construção e atualização do Padrón Real (Padrão Real), o principal modelo cartográfico da Casa; a utilidade das cartas náuticas de dupla ou de múltiplas graduações (isto é, desenhadas com duas ou mais escalas de latitudes) fabricadas por Diego Gutiérrez nos anos quarenta; ou a reabertura das discussões ao redor do velho problema da localização do antemeridiano. No âmbito pessoal, Francisco Faleiro foi casado com María Manrique, pertencente a uma família sevilhana relativamente abastada. Não se conhece descendência do seu matrimónio.

São poucos os dados que se conhecem da vida de Francisco Faleiro, assim como da vida do seu irmão Rui Faleiro, também cosmógrafo. Como muitos outros portugueses nas primeiras décadas do século XVI, ambos chegaram a Sevilha vindos de Portugal no ano de 1517 ou 1518 no contexto do projeto ultramarino de Fernão de Magalhães. Este projeto, de atingir as Ilhas Molucas (também conhecidas como as ‘Ilhas das Especiarias’) por Ocidente, finalmente seria aceite pelo rei de Espanha, Carlos I (Carlos V do Sacro Imperio Romano Germânico). Este exílio português em Sevilha estava diretamente relacionado com as possibilidades que se abriam às pessoas vinculadas com o mundo marítimo perante a expansão Europeia. A cidade de Sevilha, e especialmente a Casa de la Contratación, eram lugares onde um perito em assuntos de náutica e cosmografia podia construir um futuro. Desde a sua chegada à cidade espanhola Faleiro esteve envolvido, junto com o seu irmão e outros compatriotas, como o cartógrafo Diogo Ribeiro, na preparação da primeira circum-navegação ao globo, a expedição de Magalhães-Elcano, que teve lugar entre 1519 e 1522. 

Faleiro desenvolveu a maior parte da sua vida profissional, se não toda, em Sevilha. A partir de 1518, e durante as décadas seguintes, ficou associado a tarefas náuticas efetuadas no contexto da Casa de la Contratación, como a supervisão da preparação de frotas ou a avaliação de instrumentos de navegação, trabalhos pelos quais acabaria recebendo 35,000 maravedís (antiga moeda espanhola) anuais que mais tarde aumentaram para 50,000 maravedís.

Em 1531, depois de mais de uma década ao serviço da Coroa espanhola, Francisco Faleiro solicitou, numa memória dirigida ao rei, ajuda económica para ele e para o seu irmão pelos serviços prestados como cosmógrafos. As necessidades económicas dos Faleiro e o desespero era tão grande que Francisco intimidou Carlos V que deixaria o país e iria servir outro monarca. O rei aceitou o pedido de Francisco e a partir desse ano foram enviadas várias cartas reais aos oficiais da Casa para executarem pagamentos aos Faleiro pelos seus serviços. Antes desta memória, a relação entre os Faleiro e a Coroa foi difícil. Segundo o acervo documental conservado no Archivo General de Indias, em Sevilha, houve uma ordem real onde se proibia que os irmãos Faleiro fizessem parte da armada de Magalhães. Francisco parece ter respondido a essa ordem ao não ter entregado os seus estudos sobre a determinação da longitude para a viagem a Magalhães, como se tinha comprometido.  

Em 1535, Faleiro publicou a única obra da sua autoria que se conhece, o Tratado del esfera y del arte del marear, dando assim início, junto com a Suma de geografia de Martín Fernández de Enciso, publicada também em Sevilha em 1519, a uma prolífica produção de tratados de navegação e cosmografia em vernáculo. Estes tratados, como os redigidos por Pedro de Medina, Martín Cortés, Juan Escalante de Mendoza, Rodrigo Zamorano ou Andrés García de Céspedes, entre outros, foram rapidamente traduzidos noutras línguas europeias e tiveram um impacto significativo a partir da segunda metade do século XVI em diante. Os livros de navegação como estes tinham um estilo muito particular. Os temas de carácter teórico que tratavam, por exemplo, teorias cosmográficas, rudimentos de astronomia geralmente baseados noTratado da Esfera de Sacrobosco, regras matemáticas ou o uso de instrumentos náuticos, eram explicados de uma forma sequencial semelhante aos manuais e livros de regras dos artesãos. Tratavam-se de livros que abordavam problemas específicos com objetivos muito pragmáticos, como sejam formar pilotos e outros marinheiros. Os conteúdos eram organizados como uma série de instruções para utilização prática dos navegantes.

Tratado de Faleiro mereceu a aprovação do prestigiado professor de astrologia da Universidade de Salamanca, o Doutor Salaya. O livro foi dedicado ao presidente do Consejo de Indias, Dom García Fernández Manrique y Toledo. Trata-se de um tratado de navegação dividido em duas partes claramente distintas. A primeira delas, como era habitual neste género, oferece uma versão estandardizada e simplificada da Esfera de Sacrobosco. A segunda é um guia prático dedicado à arte de navegar, onde se destacam essencialmente os capítulos destinados à declinação magnética e os métodos e instrumentos por ele sugeridos para a obtenção do valor da declinação através de observações solares. Merecem ainda uma menção especial o sexto capítulo desta segunda parte, dedicado ao ‘regimento de las alturas del sol’ (regimento das alturas do Sol) e o capítulo oitavo sobre a declinação da agulha magnética, tema que também interessou a Rui Faleiro. É neste capítulo que Francisco introduz um novo instrumento em forma de placa circular e quatro métodos diferentes para a obtenção do valor da declinação.

Vários exemplares da obra de Faleiro podem encontrar-se hoje em bibliotecas espanholas, entre elas a Biblioteca Nacional de Espanha (Madrid), o Museu Naval de Madrid, a Biblioteca Universitária de Salamanca e a Biblioteca Geral de Navarra (Pamplona). Existem diversas edições da obra, todas elas fac-similes, produzidas ao longo do século XX. O historiador português Joaquim Bensaúde publicou uma edição em 1915, no quarto volume da sua Histoire de la science nautique portugaise à l’époque des grandes découvertes: collection de documents publiés par ordre du Ministère de l’Instruction Publique de la République Portugaise. Só mais tarde apareceram as edições de Rafael Arroyo (1989), de Timothy Coates (1997) e de José Ignacio González-Aller Hierro (em CD-ROM, 1998). O referido capítulo oitavo da obra foi traduzido para língua inglesa em 1943. 

No mesmo ano da publicação do seu tratado, Faleiro seria chamado para examinar os instrumentos náuticos fabricados pelo cosmógrafo Gaspar Rebelo. Poucos anos mais tarde, voltaria a ser consultado para um outro assunto de maior relevância: a construção de cartas náuticas e de um modelo cartográfico na Casa de la Contratación. Por volta de 1538, depois da visita à Casa do visitador do Consejo de Indias, Juan Suárez de Carvajal, para trabalhar na reforma do Padrón Real iniciada em 1536, surgiu na instituição sevilhana um importante debate entre o Piloto Mayor (Piloto-Mor) Sebastian Caboto e o cartógrafo Diego Gutiérrez, por um lado, e outros cosmógrafos da Casa por outro lado, nomeadamente Pedro de Medina e Alonso de Chaves. O debate girou em torno da adequação da carta padrão e das cópias dele tiradas, assim como das cartas de múltiplas graduações construídas por Gutiérrez. No fundo, este debate nasceu por causa dos problemas provocados pela declinação magnética na navegação oceânica e, em consequência, na cartografia. Desde o início, o debate foi convertido num confronto entre apoiantes do conhecimento prático e simpatizantes do conhecimento teórico, entre pilotos e cosmógrafos, entre homens de mar e homens com formação teórica e universitária. Defensores e detratores das cartas feitas de acordo com o Padrón Real (com uma única escala de latitudes) ou das cartas feitas segundo as fazia Gutiérrez (com duas ou mais escalas, tentando assim corrigir a variação) mantiveram uma intensa disputa que se prolongou durante vários anos. Foi no contexto desta discussão que Faleiro, e outros cosmógrafos especializados como Alonso de Santa Cruz e Pedro Mejía, deu a sua opinião sobre o assunto em Maio de 1544. O parecer do cosmógrafo português foi ao coração do problema: o sistema deficiente de coleta de informação da Casa, ou melhor, a falta de um sistema padronizado de recolha de dados. Segundo Faleiro, esta era a origem de todos os problemas, que tinha como consequência a ausência de um modelo cartográfico preciso e adequado. Em simultâneo, Faleiro criticou as cartas fabricadas por Gutiérrez, as quais lhe pareciam ir contra a arte da navegação.

Em 1566, o rei Filipe II (Filipe I de Portugal) reabriu a antiga querela ibérica pela posse e direitos das Molucas com o objetivo de conhecer a posição geográfica das Filipinas em relação aos acordos estabelecidos no Tratado de Zaragoza de 1529. O dito tratado, assinado entre Espanha e Portugal como consequência do anterior Tratado de Tordesilhas (1494), determinava que as Molucas ficavam de lado espanhol, sendo estas alugadas pela Coroa espanhola a Portugal para a sua exploração comercial. Mais uma vez, o rei pediu parecer científico a vários cosmógrafos ligados à Casa de la Contratación, entre os quais se encontrava Faleiro. Não restam dúvidas que, desde a sua chegada a Sevilha, Francisco desenvolveu importantes tarefas como consultor científico da Casa, na maioria dos casos sobre assuntos de enorme relevância para a política expansionista da monarquia espanhola. 

Além do seu trabalho científico, as fontes arquivísticas revelam também que Faleiro esteve intensamente envolvido, desde a sua chegada a Sevilha, em problemas pessoais que o levaram a manter diversos litígios com a sua cunhada, Eva Alonso, também portuguesa. Uma vez que o seu irmão Rui ficou mentalmente insano, durante a preparação da expedição de Magalhães, foi Francisco quem tomou conta dele e também era quem recebia uma importante soma de dinheiro como pensão pelos serviços que Rui tinha prestado à Coroa espanhola, quer na Casa quer como membro da Ordem de Santiago. Desavenças económicas parecem ter levado aos prolongados confrontos entre Francisco e a mulher do seu irmão. Uma das curiosidades deste caso foi que em 1526 Diogo Ribeiro, destacado cosmógrafo português da Casa de la Contratación, se declarou em favor de Eva Alonso. Desconhecem-se os motivos para tal. No final, Francisco Faleiro parece ter saído vitorioso. 

Antonio Sánchez
Universidad Autónoma de Madrid

Arquivos

Sevilha, Archivo General de Indias

Justicia, 1146, N.3, R.2, Bloque 1, f. 6v. 

Justicia, 1161, N.2; Justicia, 704, N.2.

Contratación, 5784, L.1, F.58; Contratación, 5784, L.1, f. 34; Contratación, 752.

Patronato, 49, R.12; Patronato, 285, R.195; Patronato, 276, N.3, R.69; Patronato,  34, R.8; Patronato, 34, R.19.

Indiferente, 425, L.24, f. 300v-301r; Indiferente, 421, L.12, f. 18v-20r;       Indiferente, 1961, L.3, f. 284; Indiferente, 421, L.12, f. 311r; Indiferente, 1961,       L.2, f. 216v-217; Indiferente, 1963, L.7, f. 191r-191v; Indiferente, 421, L.12, f.     132r-132v; Indiferente, 421, L.12, f. 70v (2); Indiferente, 1961, L.2, f. 7-8;      Indiferente, 1952, L.1, f. 48v-49; Indiferente, 422, L.14, f. 32r; Indiferente, 421,    L.13, f. 279v-280r; Indiferente, 737, N.15.

Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Corpo Cronológico, P. 1.ª, maço 13, doc. 20: Carta de Sebastião Álvares ao ReiManuel I, 18 de Julho de 1519.

[Citado em Fernández de Navarrete, Martín. Colección de los viajes y descubrimientos que hicieron por mar los españoles desde fines del siglo XV, Tomo IV. Madrid: Imprenta Real, 1825-37, p. 155; e em Cortesão, Armando e Teixeira da Mota, Avelino. Portugaliae Monumenta Cartographica, Vol. I. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1987, p. 20.]

Obras

Faleiro, Francisco. Tratado del esfera y del arte del marear; con el regimiento de las alturas; con algunas reglas nuevamente escritas muy necesarias. Sevilla: Juan Cromberger, 1535. 

Faleiro, Francisco. Tratado del esphera y del arte del marear; con el Regimiento de las alturas. In Joaquim Bensaúde, Histoire de la science nautique portugaise à l’époque des grandes découvertes: collection de documents publiés par ordre du Ministère de l’Instruction Publique de la République Portugaise, Vol. 4. Munich: J. B. Obernetter, 1915. 

Falero, Francisco. Tratado de la esfera y del arte de marear. Con el regimiento de las alturas. Con algunas reglas nuevamente escritas muy necesarias. Madrid: Ministerio de Defensa-Ministerio de Agricultura, Pesca y Alimentación, 1989. Edição de Rafael Arroyo.

Bibliografia sobre o biografado

Collins, Edward. “Francisco Faleiro and Scientific Methodology at the Casa de la Contratación in the Sixteenth Century.” Imago Mundi 65 (1) (2013): 25–36.

Gavira Martín, José. La ciencia geográfica española del siglo XVI: Martín Cortés, Martín Fernández de Enciso, Jerónimo de Chaves y Francisco Falero. Madrid: Imprenta del P. de H. de Intendencia e Intervención Militares, Caracas, 1931.

Gil, Juan. El exilio portugués en Sevilla: de los Braganza a Magallanes. Sevilla: Fundación Cajasol, 2009.

Serrão, Joaquim Veríssimo. “Um memorial de Francisco Faleiro ao Imperador Carlos V, 1531.” Arquivos do Centro Cultural Português I (1969): 451–454.

Teixeira da Mota, Avelino. “Contribuição dos irmãos Rui e Francisco Faleiro no campo da náutica em Espanha.” In A viagem de Fernão de Magalhães e a questão das Molucas: actas do II Colóquio Luso-Espanhol de História Ultramarina, ed. Avelino Teixeira da Mota, 315—341. Lisboa: Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1975.