Salgueiro, Lídia Coelho

Lisboa, 31 dezembro, 1917 — 24 julho 2009

Palavras-chave: Investigação, Física Atómica, Centro de Estudos de Física. 

Lídia Coelho Salgueiro nasceu em Lisboa, a 31 de dezembro de 1917. Os pais, João Fortunato da Fonseca da Rocha Salgueiro, secretário de finanças, e Maria Angélica Pina Coelho Salgueiro, de profissão indefinida, provinham de famílias abastadas que, entretanto, delapidaram a fortuna. O pai morreu precocemente, em 25 de janeiro de 1923 com 35 anos e a mãe, com duas filhas, sendo Lídia a mais nova de apenas cinco anos, passou a ter necessidade de trabalhar devido à escassez dos meios de subsistência. 

Até à maioridade Lídia conheceu diversas localidades, pois a mudança de residência passou a ser a constante. O melhor emprego que a mãe conseguiu foi como mestra de lavores, proporcionando uma situação de maior desafogo que, ainda criança, Lídia conheceu. Seguiu o ensino doméstico ministrado pela mãe até aos oito anos, tendo frequentado a escola aos nove anos, nos arredores de Peniche. Por motivos de saúde da mãe, mudaram-se para Palmela, local de residência dos avós maternos, onde fez a preparação com uma tia para completar o ensino básico. Durante dois anos, frequentou o ensino comercial pelo facto de ser de curta duração, quatro anos, e praticamente gratuito. No entanto, Lídia Salgueiro não sentia vocação para as disciplinas comerciais e a mãe conseguiu, através de antigas colegas do marido, que fosse aceite no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, de Lisboa, onde se matriculou no 1º ano, em 1930/31. Entretanto, devido a novo emprego da mãe em Viseu, Lídia Salgueiro foi matriculada no Liceu Central de Alves Martins, tendo aqui completado o curso em 1937. O primeiro ano de ciências físico-químicas foi frequentado na Universidade de Coimbra, tendo terminado o curso na Universidade de Lisboa, em julho de 1941. 

O último exame do curso na cadeira de Eletricidade, ministrada por Herculano de Amorim Ferreira (1895–1974), estando Manuel Valadares (entrada neste dicionário) presente no júri, determinou que Lídia Salgueiro seguisse uma carreira de investigação em física atómica e nuclear. De facto, perante um rasgado elogio de Amorim Ferreira, Valadares, que recentemente havia terminado o doutoramento em Paris com Marie Curie, convidou-a a trabalhar com ele. Apesar do entusiasmo que sentiu, procurou antes de tudo uma situação profissional estável. Por isso, Lídia Salgueiro fez a preparação para admissão ao estágio no Liceu Pedro Nunes para ingressar na carreira docente do ensino secundário. No final das provas, Armando Cyrillo Soares, simultaneamente docente daquele Liceu e diretor do Laboratório de Física da Universidade de Lisboa, convidou-a para assistente da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). Embora o ensino universitário não a entusiasmasse, foi determinante a possibilidade de trabalhar em investigação, em física.

Em março de 1942, Lídia Salgueiro foi contratada como segunda assistente da FCUL, tendo começado pela Física Geral em que Amorim Ferreira lecionava a componente teórica. O primeiro trabalho de investigação no domínio da radioatividade, tinha como objetivo estudar o espetro emitido por velhas agulhas que continham o gás radioativo radão, utilizando o método da espetrografia. As agulhas de radão foram cedidas pelo Instituto Português de Oncologia e a aparelhagem era precária; até o espetrógrafo foi emprestado pela secção de química da FCUL. Este aparelho teve de ser modificado por Lídia Salgueiro para identificar, no espetro obtido, elementos descendentes do rádio, o alvo da sua tese de doutoramento. Também se interessou pela espetrografia de raios X, um domínio em que Valadares investiu e com o qual acabou por introduzir a física atómica experimental em Portugal. Não foi, porém, o estudo da transformação do núcleo dos átomos no domínio da física nuclear, o assunto da sua tese de doutoramento, que Lídia Salgueiro escolheu para iniciar a carreira de investigação. Foi antes a física atómica, a área mais desenvolvida por Valadares, porque após o seu afastamento compulsivo do ensino universitário por motivos políticos, em julho de 1947, seria a forma de não deixar morrer a tradição da investigação experimental no laboratório de física.

Em Novembro de 1947, Julio Palacios Martinez (com entrada neste dicionário), foi contratado para substituir Cyrillo Soares na direção do Centro de Estudos de Física (CEF), criado em 1940 pelo Instituto de Alta Cultura (IAC). Os Centros de Estudos constituíram uma nova direção da política do Estado Novo de apoio à investigação universitária, disponibilizando de forma mais sistemática os subsídios a laboratórios de investigação  e bolsas de estudos a investigadores. Cada um dos centros era supervisionado por um diretor que reportava diretamente ao IAC o andamento das respetivas atividades. Palacios, investigador da Universidade de Madrid com reconhecimento internacional e currículo em áreas que se foram sucedendo no tempo, dedicava-se, à época, à eletroquímica. O seu objetivo no CEF consistia em trazer para primeiro plano, a investigação experimental neste domínio, obliterando a experiência anterior. Teve, porém, de enfrentar a resistência de Lídia Salgueiro, que se opôs ao desaparecimento da herança de Valadares, a investigação em física atómica. A facilidade em conquistar jovens investigadores para as respetivas causas era desigual, pois Palacios tinha do seu lado o apoio institucional. O início da década de 1950 saldou-se com a pequena vitória de Lídia Salgueiro, ao receber um investigador dedicado, para a causa da física atómica, José Gomes Ferreira Casaram a 26 de março de 1953, enriquecendo a partilha na atividade de investigação, com os laços familiares. 

Nos primeiros tempos as atividades de investigação versaram exclusivamente a física atómica, um tema que Gomes Ferreira escolheu para a sua tese de doutoramento, supervisionada conjuntamente por Valadares e Lídia Salgueiro e defendida em 1954. Também conseguiram a adesão de um pequeno número de jovens colaboradores e publicavam artigos na revista Portugaliae Physica e nos Comptes rendus des scéances de l’Académie des Sciences de Paris, ambos com alcance limitado do ponto de vista da física. No mesmo plano se encontravam os Congressos Luso-Espanhóis para o Progresso das Ciências, ao qual também submeteram comunicações. Este pequeno mundo abriu-se, em outubro de 1956, com uma estadia do casal no Department of Natural Philosophy da Universidade de Edimburgo para aprenderem novas técnicas de deteção de partículas usando placas nucleares. Foi uma oportunidade que lhes abriu novos horizontes.

No regresso a Lisboa em 1957, o cenário tinha mudado. Fundamentalmente, Palacios apresentara a demissão em dezembro de 1956, novos professores catedráticos de física da FCUL podiam assegurar o cargo de diretor do Centro de Estudos de Física e uma nova docente oriunda da Faculdade de Ciências do Porto apresentava-se como candidata ao doutoramento para ser supervisionada por Lídia Salgueiro e Gomes Ferreira. A nova técnica das placas nucleares também foi frutuosa pois viria a ser tema de doutoramento de uma docente de física da FCUL, além de ter proporcionado um trabalho que valeu ao casal o prémio de física Artur Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa, em 1961. Além disso, nas décadas seguintes, Lídia Salgueiro e o seu grupo encontraram acolhimento em revistas estrangeiras como Il Nuovo Cimento, Journal de Physique, e Journal of Physics B: Athomic and Molecular Physics.

Apesar de ter deixado a sua marca na investigação em física atómica e nuclear experimentais, publicou sempre em coautoria e sobre temas com pouco impacto. Foi também uma figura apagada no exercício de cargos académicos. A sua notoriedade deve-se sobretudo à luta determinada para não deixar soçobrar a física atómica e nuclear experimentais no Centro de Estudos de Física, após o seu fundador ser afastado da investigação por motivos políticos. Também denunciou, através de artigos e iniciativas em que colaborou, a injustiça de que Valadares foi alvo e deu realce ao problema do seu afastamento para a continuidade da investigação em Portugal. Aposentou-se em 1978.

Júlia Gaspar

Arquivos

Lisboa, Arquivo do Instituto Camões (AIC): 

Lisboa, Bolsas fora do País, Lídia Coelho Salgueiro, 0358/12, 13 abril 1946 a 23 setembro 1971. 

Centro de Estudos de Física anexo à FCUL: 3249/1; 3249/5; 3250/3; 3251/2; 3251/3; 3251/4; 3251/5.

Obras

Salgueiro, Lídia. “Espectro gama dos derivados da vida longa do radão”. Dissertação de doutoramento, Universidade de Lisboa, 1945.

Salgueiro, Lídia e Glaphyra Vieira. “Nouvelle détermination des intensités des groupes de structure fine de la transmutation AcC → ( α, γ) AcC”, Comptes rendus des séances de l’Académie des Sciences de Paris, 234 (1952): 1765-67. 

Salgueiro, Lídia, José Gomes Ferreira e Arnaldo Silvério. “Estudo da forma e da intensidade das bandas satélites das riscas L α do ouro (espectros de fluorescência)” (Publicações do 23º Congresso Luso-Espanhol, Associação Portuguesa para o Progresso das Ciências, Coimbra, tomo 4, 1957).

Salgueiro, Lídia, J. G. Ferreira, J. H. Park e M. S. Ross. “Fluorescence and other yields of LII shell in Pu”, Proceedings of the Physical Society, 72 (1961): 657-64.

Salgueiro, Lídia e José Gomes Ferreira. “Le coefficient massique d’absorption du quartz pour des longueurs d’onde comprisses entre 0.780 Aº et 1500 Aº”. Il Nuovo Cimento, 30 (1963): 1568. 

Ferreia, J. G., M.O. Costa, M.I. Gonçalves e L. Salgueiro, “Le rendement de transition de CosterKrönig LI →LIII des éléments de nombre atomique compris entre 73 et 92”, Journal de Physique, 26 (1965): 5-8.

Salgueiro, Lídia e J. Gomes Ferreira, Introdução à física atómica e nuclear, 1º vol. Física Atómica, (Lisboa: Tipografia Matemática. 1970), 2º vol. Física Nuclear (Lisboa: Tipografia Matemática, 1975). 

Salgueiro, Lídia, M. T. Ramos, M. L. Escrivão, M. C. Martins e J. G. Ferreira “L1 subshell yields of elements with Z=74, 75, 77, 79 and 90”, Journal of Physics B: Athomic and Molecular Physics, 7 (3) (1974): 342-348.

Salgueiro, Lídia, “Vida e Obra de Manuel Valadares”, Gazeta de Física, 6 (1) (1978): 2-12.

Salgueiro, Lídia e Luísa Carvalho, “Manuel Valadares (1904-1982). Facetas de uma personalidade: humana, científica e artística” in Ana Simões (coord.), Memórias de Professores Cientistas. Os 90 anos da FCUL, 1911-2001 (Lisboa: Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 2001), pp.70-77.

Bibliografia sobre a biografada 

AAVV, Jubileu de José Gomes Ferreira, Prof. Catedrático de Física da F.C.L. (Lisboa: [s.n.], 1989).

Carvalho, Luísa. “Lídia Salgueiro. Fragmentos de uma vida: infância, percurso, paixões, o fim”, in Ana Simões (coord.) Novas Memórias de Professores Cientistas. Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa 1911-2011. Lisboa: Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 2011, p. 61. 

Simões, Ana, Ana Carneiro, Maria Paula Diogo, Luís Miguel Carolino e Teresa Salomé Mota. Uma História da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (1911-1974). Lisboa: Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 2013.

Gaspar, Maria Júlia Neto Gaspar. “Percursos da Física e da Energia Nucleares na Capital Portuguesa. Ciência, Poder e Política, 1947-1973”. Dissertação de Doutoramento, Universidade de Lisboa, 2014.

Valadares, Manuel José Nogueira

Lisboa, 26-02-1904 — Paris, 31-10-1982

Palavras-chave: Investigação, Física Atómica, Física Nuclear, Espetrografia.

Manuel Valadares foi um físico que pertenceu à primeira geração de cientistas portugueses formados no estrangeiro e que, regressado a Portugal, pugnou pela introdução da investigação científica na universidade. Integrou o Laboratório de Física da Faculdade de Ciências, onde criou uma escola de investigação na área da física atómica e nuclear. Vítima das purgas de 1947, abandonou o país continuando uma carreira de sucesso em França.

Manuel José Nogueira Valadares nasceu em Lisboa, a 26 de fevereiro de 1904. Os pais, Manuel António Alves Valadares, empregado de comércio, e Maria da Conceição Nogueira Valadares, doméstica, residiam nesta data na Travessa de Santa Gertrudes, atualmente Rua Doutor Teófilo Braga, na freguesia da Lapa.

Valadares frequentou o Liceu Central de Pedro Nunes, de 1913 a 1921. Em novembro de 1919, o jovem Valadares teve a oportunidade de assistir a uma pequena lição de física, proferida por Jean Baptiste Perrin (1870-1942), físico francês, galardoado com o prémio Nobel da física em 1926, pelo estudo do movimento browniano que validava a estrutura descontínua da matéria e permitia calcular a dimensão dos átomos. Na visita ao Liceu de Passos Manuel, Perrin falou aos alunos, feliz por poder fazer despertar neles o gosto pela ciência. Foi uma experiência que Valadares recordaria, em fevereiro de 1943, numa sessão comemorativa do primeiro aniversário da morte daquele físico. A descrição de experiências que exigiam aparelhagem muito simples impressionou-o e poderá ter influenciado a sua decisão de prosseguir uma carreira de investigação dedicada à física. 

Valadares licenciou-se em Ciências Físico-Químicas na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, em 1926. Começou por lecionar no Liceu Pedro Nunes como professor provisório, nos anos letivos de 1926-27 e 1927-28, no mesmo liceu em que foi aluno e onde conheceu, como professor, Armando Cyrillo Soares (1883-1950), que seria nomeado diretor do Laboratório de Física da Universidade de Lisboa, em 1930. Pela mesma altura, em 1927, foi contratado como assistente de física daquela faculdade, onde lhe foi possível dedicar-se exclusivamente ao ensino e à investigação. Em 1929, aceitou colaborar com o Instituto Português para o Estudo do Cancro (designado Instituto Português de Oncologia, em 1930) na qualidade de assistente de física no campo do tratamento oncológico, com recurso ao elemento químico rádio. Esta experiência acabou por conduzi-lo à investigação em física atómica e em física nuclear. 

Em 1929, o país atravessava, no que respeita à investigação científica, um momento de entusiasmo. Em janeiro nascia a Junta de Educação Nacional (JEN), uma instituição que, apesar dos orçamentos modestos, passou a conceder bolsas de estudo no país e no estrangeiro e a apoiar o apetrechamento de laboratórios. Em setembro, Valadares requeria ao presidente da JEN uma bolsa para frequentar o Radium Institut Suisse de Genebra e o curso da Faculdade de Ciências desta cidade, durante os meses de novembro a junho, para desenvolver conhecimentos e aperfeiçoar a técnica respeitante à parte física do rádio. Esta formação foi recomendada por Francisco Soares Branco Gentil (1878-1964), diretor do Instituto do Cancro, que planeava oferecer-lhe a direção do laboratório de física do Instituto nos dois anos seguintes. No entanto não é claro se Valadares assumiu formalmente este compromisso pois, terminado com êxito o ano de especialização, decidiu realizar doutoramento sob a supervisão de Marie Skłodowska Curie (18671934), para o qual obteve nova bolsa da Junta. O primeiro passo da carreira de investigação universitária foi dado no Laboratório Curie do Instituto do Rádio de Paris, de 1930 a 1933. O grau de doutor em ciências físicas com menção très honorable, foi-lhe concedido a 11 de dezembro de 1933, com a tese titulada Contribution à la spectrographie, par diffraction cristalline, du rayonnement gamma

Valadares regressou a Portugal ao Laboratório de Física num período de grave crise financeira sequência da Grande Depressão americana. A Junta de Educação Nacional restringiu ainda mais o seu orçamento, nomeadamente a rubrica de apetrechamento de laboratórios, o que condicionou a realização do projeto de investigação de Valadares. Este projeto devia seguir o rumo traçado em Paris, numa área que, no início da década de 1930, ainda era designada por radioatividade, mas em evolução para a física nuclear. Como ponto de partida tanto do ponto de vista científico, como do económico, era aconselhável montar instalações para estudar as radiações emitidas pelos átomos – a radiação gama com origem no núcleo (área da física nuclear) e a radiação X proveniente de camadas eletrónicas mais próximas desse núcleo em átomos com elevado número de eletrões (área da física atómica). A primeira etapa era montar uma instalação produtora de raios X e um espectrógrafo do tipo Cauchois, aparelho destinado a fornecer o espectro desta radiação e cujo estudo se designava por espetrografia de raios X. Não tendo a Junta concedido qualquer subsídio ao Laboratório de Física Valadares decidiu usar o seu engenho na construção da aparelhagem de que necessitava. O total apoio do diretor do Laboratório de Física, Cyrillo Soares, permitiu localizar no Laboratório de Química e na arrecadação do Laboratório de Física as componentes essenciais da instalação para produzir raios-X. Um marceneiro construiu um espetrógrafo em madeira, com o qual foram realizadas as experiências para determinar as características do instrumento a encomendar e que seria entregue no ano seguinte. 

Foram vários os trabalhos efetuados por Valadares nestes primeiros tempos. Em 1937-38, o Instituto para a Alta Cultura (IAC), sucessor da Junta, concedeu a Valadares uma bolsa de estudo destinada à elaboração de um projeto para instalar no Museu de Arte Antiga um serviço de análise de obras de arte através de exame radiológico. A sua experiência neste domínio tinha sido adquirida durante a estada em Paris, em 1930-31, no Institut Mainini que se dedicava à investigação de obras de arte do Louvre. Em 1938, publicou “Étude des satellites La, de l’élément 82 (Pb)“, em Comptes Rendus de l’Académie des Sciences de Paris. Em simultâneo, o trabalho com o título “Análise, por espetrografia de Raios X, de transmutações naturais e provocadas” foi distinguido pela Academia das Ciências de Lisboa, com o Prémio Artur Malheiros (Ciências Físico-Químicas), em 1939. Durante 1940 e 1941, o IAC concedeu-lhe uma bolsa para, no laboratório de física do Instituto di Sanitá Pubblica de Roma, se dedicar a um projeto de identificação do elemento químico ástato. O estudo foi publicado no Rendiconti del Instituto di Sanitá Pubblica e deveria ser continuado em Portugal, se fosse possível aceder a uma quantidade de rádio substancial, o que não sucedeu. Estes são marcos da carreira de Valadares no âmbito da física atómica utilizando, essencialmente, a espetrografia de raios X, em que usou inicialmente equipamento improvisado, substituído parcialmente, em 1948 e totalmente em 1959.

Tanto Valadares como os seus sucessores no Laboratório de Física se empenharam em dar sequência aos estudos inaugurais de física atómica, pelo que Valadares foi reconhecido como o fundador desta disciplina em Portugal. 

Foi mais difícil iniciar o projeto de investigação na área da física nuclear. Em 1938, Valadares tinha tentado investigar a radiação gama emitida na transmutação do chumbo em bismuto, que se encontra na fase final no decaimento radioativo do gás rádon. Foi obrigado a abandonar este projeto devido aos maus resultados obtidos. Nova oportunidade surgiu em 1942, após a missão em Roma, e quando Valadares supervisionou as teses de doutoramento de assistentes de física das Faculdades de Ciências: Lídia Coelho Salgueiro (1917 -2009) de Lisboa, Carlos de Azevedo Coutinho Braga (1899-1982), e José Sarmento de Vasconcelos e Castro (1899 -1986) do Porto. Enquanto este se dedicou à física atómica, em que se doutorou com a dissertação Estudo das riscas satélites La do ouro, em 1945, os dois primeiros abordaram temas distintos da física nuclear. Lídia Salgueiro retomou o estudo que Valadares havia abandonado em 1938, possibilitado por uma oferta de rádon (envelhecido) do Instituto de Roma. Para o efeito foi adaptado um espetrógrafo de raios X pertencente ao Laboratório de Química, munindo-o de um cristal de sal-gema acionado por um sistema de relojoaria que lhe comunicava um movimento oscilatório. A tese de doutoramento, intitulada Espectro gama dos derivados de vida longa do Radão foi apresentada em dezembro de 1945. Carlos Braga utilizou a espetrografia magnética para investigar a emissão eletrónica (radiação beta) proveniente da mesma transmutação estudada por Lídia Salgueiro. Sendo engenheiro eletrotécnico de formação não teve dificuldade em construir a aparelhagem com a qual obteve os resultados que lhe permitiram apresentar a tese de doutoramento Estudo da transformação RaD (Chumbo-210)RaE (Bismuto-210) por espetrografia magnética da radiação beta secundária, em 1944. Estas realizações foram notáveis já que, na altura, o doutoramento nas Faculdades de Ciências era um acontecimento raro. 

Valadares integrou também o Núcleo de Matemática, Física e Química, fundado em 1936, por ex-bolseiros da Junta de Educação Nacional no estrangeiro. Entre eles contavam-se os físicos Herculano Amorim Ferreira (1895 -1974), António da Silveira (1904 -1985), professor do Instituto Superior Técnico e o matemático António Aniceto Ribeiro Monteiro (1907 -1980), todos eles, excetuando o primeiro que se formou em Londres, formados em Paris. O Núcleo tinha o apoio do presidente do IAC, Augusto Celestino da Costa (1884 -1956), que via com bons olhos a implementação de organizações similares pelo Ministério da Educação Nacional, onde a atividade docente e a de investigador se pudessem complementar. O projeto do Núcleo era ambicioso, visando a realização de cursos e seminários de ciência moderna, de nível europeu, “autenticamente superiores”, sobre matérias que não constavam dos programas. Nesta iniciativa colaboraram os professores de matemática Bento de Jesus Caraça (1901 -1948), de Lisboa, e Rui Luís Gomes (1905-1985), do Porto. Os cursos iniciaram-se em 16 de novembro de 1936, versando temas muito variados e tendo sido publicados em livro com o apoio do IAC. Foi, no entanto, uma atividade efémera que terminou devido a desavenças, em novembro de 1939, mas o espírito do Núcleo, envolvendo físicos e matemáticos, perduraria.

Em 1930, o Laboratório de Física foi uma exceção no panorama científico português, não só pelos resultados obtidos por Valadares, mas principalmente porque Cyrillo Soares definiu uma nova estratégia para o seu laboratório, uma vez que considerava que os laboratórios universitários não se deviam restringir ao ensino, mas estender-se à investigação. Este projeto tornou-se possível com a criação da Junta de Educação Nacional, mas, no campo da física, Cyrillo Soares foi o único diretor a obter resultados, que começaram com o doutoramento dos assistentes no estrangeiro, primeiro Amorim Ferreira, em Londres, depois Valadares e, em seguida, Aurélio Marques da Silva (1905 -1965), também em Paris. Apesar da iniciativa ter sido de Cyrilo Soares, foi a partilha da liderança por Valadares que permitiu o seu êxito, conduzindo a uma escola de investigação, de que os alunos mais notáveis foram Lídia Salgueiro e Armando Carlos Gibert (1914 -1985).

Em maio de 1945, a II Guerra Mundial chegou ao fim. Para muitos opositores ao Estado Novo, a vitória dos aliados significava que também este regime tinha os seus dias contados, tanto mais que, a 6 de outubro, a Assembleia Nacional foi dissolvida e as eleições legislativas marcadas para 18 de novembro. Apesar do curto período concedido para preparar candidaturas, o entusiasmo cresceu perante a suspensão da censura e a autorização de algumas reuniões políticas da oposição democrática, após requerimento aos governadores civis. Alguns investigadores e professores universitários participaram ativamente, principalmente em artigos nos jornais. Em 22 de Outubro, Valadares dava uma entrevista ao República, em que manifestava a sua preocupação pela falta de apoio dos governantes à investigação, embora reconhecesse a criação da Junta de Educação Nacional, em 1929, como a medida mais importante para alterar o panorama científico-cultural português. Contudo, considerava que, passados dezasseis anos, o balanço era insatisfatório, principalmente porque muitos bolseiros tinham desistido e outros trabalhavam com pouquíssimo rendimento. Como alternativa, propunha a criação de uma “Junta de Investigação Científica” que deveria avaliar as necessidades do país no domínio da investigação e promover o envio em massa de estudantes para adquirirem, no estrangeiro, a formação e especialização que não encontravam em Portugal. A participação eleitoral culminou na criação do Movimento de Unidade Democrática (MUD), cuja comissão consultiva, com perto de uma centena de nomes, incluía Rui Luís Gomes e Valadares.

A carreira de Valadares em Portugal terminou com uma nota oficiosa do governo, que o Diário de Lisboa de 15 de junho de 1947, intitulava “O Governo resolveu afastar do serviço efetivo por motivos de ordem política alguns oficiais e professores”. Os três investigadores mais dinâmicos do Laboratório de Física, Valadares, Marques da Silva e Gibert, encontravam-se entre os 21 professores abrangidos por esta decisão. Valadares, nomeadamente, contestou formalmente a ausência de fundamento para os motivos alegados, mas a sua defesa foi ignorada. O resultado imediato foi o pedido de aposentação de Cyrillo Soares e, a curto prazo, a escola de investigação foi descaracterizada, embora a dinâmica da investigação viesse a ser retomada mais tarde no Laboratório de Física, sob a liderança de Julio Palacios.

Forçado a abandonar a Faculdade de Ciências, Valadares exílou-se em Paris, onde foi acolhido no Laboratoire de l’Aimant Permanent, sob a direção do físico de origem russa, Salomon Rosenblum (1896-1959). A colaboração entre os dois físicos remontava ao início da década de 1930, na altura em que Valadares preparava o doutoramento no Laboratório Curie e em que foram co-autores de dois trabalhos, um dos quais sobre a estrutura fina da radiação alfa, publicado em 1932. Voltaram a encontrar-se em Lisboa, em fins de 1941, quando Valadares ajudou Rosenblum e sua família a fugir para Nova Iorque, na sequência da perseguição antissemita, na França ocupada pela Alemanha. Em 1947, o Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) concedeu a Valadares o estatuto de chargé de recherches, a que se seguiu em 1948, maître de recherches e, em 1957, directeur de recherches. Em 1948, Valadares e Rosenblum publicaram o primeiro trabalho depois do reencontro, a que se seguiram 27 trabalhos, dos quais 19 incluiram outros investigadores. Valadares sucedeu a Rosenblum na direção do Laboratoire de l’Aimant Permanent, após o seu falecimento, em 1959, e manteve a direção quando este laboratório mudou a designação para Centre de Spéctrométrie Nucléaire et de Spéctrométrie de Masse, em 1962. Em 1968 cessou funções a seu pedido e, em junho de 1969, foi nomeado diretor honorário deste centro. Entre 1947 e 1971 publicou 38 trabalhos, o último dos quais no Journal de Physique. Reconhecendo a importância da sua publicação em revistas francesas e estrangeiras, a Academia das Ciências de Paris concedeu-lhe o prémio Lacaze, em 1966. 

No mesmo ano, o cônsul de Portugal em França recusou-lhe a renovação do passaporte, pelo que Valadares requereu a naturalização francesa, só voltando a Portugal por pouco tempo, em janeiro de 1977, já após o derrube do regime ditatorial. Em 1979, o governo português conferiu-lhe o Grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada, em reconhecimento pelos serviços prestados ao país. Em 1981, foi-lhe concedido o grau de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Lisboa e, após o seu falecimento, em 31 de outubro de 1982, o anfiteatro do Laboratório de Física no anterior edifício da Faculdade de Ciências na rua da Escola Politécnica, passou a designar-se Auditório Manuel Valadares.

Júlia Gaspar