Silva, Eugénio Correia da Conceição

Lisboa, 11 maio 1903 — Lisboa, 26 abril 1969

Palavras-chave: Astrónomo amador, Física, Fotografia astronómica, Planetário.

Eugénio Correia da Conceição Silva nasceu na freguesia de Santa Isabel, em Lisboa, no dia 11 de maio de 1903. Ingressou na Escola Naval em 1920, tendo terminado o curso em 1923. Com vinte anos iniciou a sua carreira como oficial e durante os primeiros anos esteve embarcado, como normalmente acontece com os oficiais da Marinha. Merece especial destaque a longa comissão que fez no Oriente, a bordo do cruzador República. Durante essa passagem por aquelas terras longínquas teve duas intervenções, ambas em Macau, que demonstram um elevado sangue-frio e uma enorme capacidade de reagir a situações inesperadas, tendo a sua atuação sido alvo da atribuição de louvores por parte do seu comando. A primeira aconteceu durante um incêndio de grandes proporções que deflagrou na ilha da Taipa, tendo a ação de Conceição Silva contribuído para reduzir significativamente os efeitos do incêndio, mesmo correndo sérios riscos. A segunda dessas intervenções deu-se em 20 de agosto de 1927. Nesse dia, a cidade de Macau foi atingida por um dos mais violentos tufões registados naquele território. O cruzador República foi arrancado da bóia na qual se encontrava amarrado e arrastado pelo temporal em direção a terra, tendo corrido por duas vezes perigo de naufragar. O papel de Conceição Silva, na altura um jovem oficial, foi fundamental nas manobras realizadas, garantindo a segurança do navio.

Após esse período de embarque seguiu-se o desempenho de funções em terra. Entretanto, em 1928 casou com D. Maria Helena George com quem teve dois filhos: Guilherme e Tomás. Seguiram ambos a carreira militar, tal como o pai. Ambos estudaram na Escola Naval. Tomás Conceição Silva frequentou posteriormente o curso de piloto naval e quando, na década de 1950, foi criada a Força Aérea, optou por transitar para esse novo ramo, onde atingiu o mais alto cargo, Chefe do Estado-Maior da Força Aérea. Quanto a Guilherme, permaneceu na Marinha, onde desempenhou diversos cargos, embarcado e em terra. Simultaneamente adquiriu formação em direito, tendo-se especializado em direito marítimo. Foi um dos militares da Marinha que integrou o Movimento das Forças Armadas, tendo chefiado a Comissão de Extinção da PIDE/DGS e foi Secretário de Estado da Comunicação Social, num dos primeiros governos provisórios, após o 25 de abril. Faleceu recentemente, em 5 de abril de 2014.

No início da década de 1930 a Marinha foi alvo de um profundo programa de modernização. Provavelmente foi o mais completo plano naval dos últimos dois séculos. Uma das principais razões para o levar a cabo foi o facto de a Marinha ter atingido uma situação de «Zero Naval», de acordo com as palavras do Almirante Pereira da Silva, Ministro da Marinha nos últimos anos da Primeira República e um dos principais ideólogos deste programa. Tendo em conta o estado de obsolescência a que chegara a maior parte dos navios portugueses, a aquisição de novos meios tinha associadas inúmeras inovações tecnológicas para as quais era necessário formar pessoal, no estrangeiro. Em 1931, Eugénio Conceição Silva foi nomeado para frequentar um curso de especialização em Artilharia, em Itália, conjuntamente com outros dois oficiais portugueses. Conceição Silva destacou-se neste curso, pela sua elevada craveira intelectual, tendo obtido uma das melhores notas do mesmo, entre oficiais italianos e inúmeros estrangeiros. Mas Conceição Silva também se fez notar pelo seu desempenho prático, uma vez que o curso tinha uma forte componente prática, com realização de bastantes exercícios de tiro, realizados a bordo de vários navios. Esta forte ligação entre um conhecimento académico e a habilidade para realização de tarefas práticas será uma constante ao longo de toda a vida do Comandante.

Apesar das provas que tinha dado no curso, demonstrando ser um excelente artilheiro, a bordo, quis o destino que ele aplicasse esses seus conhecimentos essencialmente na formação dos futuros oficiais da Marinha. Assim, após regressar de Itália foi nomeado professor da 7ª cadeira da Escola Naval – Artilharia e Técnicas de Tiro. Com a reforma curricular ocorrida em 1937, esta área do conhecimento passou a integrar o 3º grupo de cadeiras – Artilharia e Tiro, que se desdobrava em duas outras: Balística Interna e Balística Externa.

A sua atividade como professor da área de Artilharia prolongou-se por vinte e nove anos. Apenas a interrompeu por necessidades administrativas da carreira de qualquer oficial da Marinha, para frequentar um curso de âmbito militar naval e para cumprir um tirocínio de embarque, durante o qual regressou ao Oriente. Inúmeros testemunhos de antigos alunos seus dão conta de algumas das facetas de Conceição Silva. Por um lado, a sua permanente disponibilidade para estudar um vasto leque de assuntos científicos, nomeadamente matemática, química e física, em especial a ótica e a dinâmica. Usava permanentemente estes conhecimentos nas suas exposições que eram, em geral, simples e claras. [IMdSPA1] 

No âmbito das suas atividades docentes foi responsável pela redação de três manuais de cariz prático: Manual de tiro naval para o oficial não especializadoBalística externa e tiro naval e Guia prático do oficial telemetrista. Além das aulas da área da Artilharia foi igualmente docente de Eletricidade e de Hidrografia, em situações em que o cargo de professor destas matérias não estava provido. Em 1959 pediu para passar à reserva, tendo, contudo, permanecido como professor da Escola Naval. Só que desta feita, passou a ensinar matérias do 1º grupo de cadeiras – Matemática. Nesta fase final da sua vida ministrou as cadeiras de Matemáticas Gerais, Cálculo Infinitesimal e Mecânica Racional.

Ao mesmo tempo que exercia funções docentes na Escola Naval, desempenhou funções em outros organismos da Marinha. Em 1948 foi escolhido para diretor do Laboratório de Explosivos da Marinha, dada a sua competência nesta área. Este laboratório era responsável, entre outros assuntos, pela verificação da qualidade dos explosivos adquiridos pela Marinha, tendo o comandante sido responsável por um trabalho no âmbito da química de explosivos, apreciado pelos seus pares. Por inerência deste cargo assumiu a função de vogal da comissão de explosivos do Ministério da Economia, onde os seus conhecimentos  académicos na área foi reconhecida. Foi ainda responsável pela criação da Oficina de Ótica da Armada, assumindo ele próprio a formação técnica do pessoal que nela prestava serviço assim como também tomou para si o encargo de estabelecer a orgânica de funcionamento da mesma oficina.

Mas a área em que mais se notabilizou Conceição Silva foi a astronomia. No seu tempo, o ingresso na Escola Naval fazia-se após frequência dos Preparatórios Militares, na Faculdade de Ciências de Lisboa (poderiam igualmente ser feitos em Coimbra ou no Porto). No ano em que frequentou a faculdade, para obter esta habilitação de ingresso, inscreveu-se, voluntariamente, numa cadeira de astronomia. Ao mesmo tempo, inscreveu-se como membro da Societé Astronomique de France. Tinha então dezasseis anos. Este gosto pelas estrelas vinha desde a infância. Ele próprio referia diversas vezes esse interesse, que era confirmado pelo testemunho de sua mulher. Conheciam-se desde tenra idade, e num postal que lhe enviou, quando ele tinha nove anos, chamava a atenção para uma determinada estrela brilhante que poderia ser observada no céu.

Obviamente que quando realizou as suas comissões de embarque não poderia fazer observações astronómicas de precisão. Mas assim que passou a exercer funções docentes pôde dedicar-se àquela que era a grande paixão da sua vida. No início da década de 1930, construiu um pequeno observatório na mata do Alfeite, próximo de sua casa. Nas suas primeiras observações usava uma luneta astronómica, que ele próprio construiu. Mais tarde construiu vários telescópios refletores, de 100 mm e de 500 mm de abertura. Possuía uma capacidade excecional para resolver problemas técnicos que identificava. Concebeu e construiu um micrómetro destinado a observar estrelas duplas. Este micrómetro mereceu atenção a nível internacional, tendo sido descrito no Boletim da Societé Astronomique de France, em 1935, e posteriormente este texto foi traduzido para inglês e publicado no Amateur Telescope Making – Advanced. Foi ainda elogiado pelo astrónomo amador americano R. L. Beardsley, que escreveu a Conceição Silva informando-o que tinha publicado na revista Astrolab, de Chicago, uma descrição do micrómetro.

Entretanto, em 1947 começaram as obras para construção do seu novo observatório, que ficaram concluídas dois anos mais tarde. Naquela época, o espaço ocupado pela Marinha, no Alfeite, encontrava-se relativamente isolado. Apesar de se situar no concelho de Almada, não existiam grandes facilidades de comunicação. A ligação com Lisboa só poderia ser feita por via fluvial, pois não existia nenhuma ponte. Muitos dos militares da Marinha viviam dentro da própria base, em bairros construídos para esse efeito. O comandante vivia no bairro dos oficiais, ocupando, portanto, uma casa que era propriedade do Estado. Apesar disso, conseguiu autorização do Ministro da Marinha para transformar profundamente a cobertura dessa casa, de modo que a mesma passasse a dispor de uma cúpula para instalar um telescópio. Este facto é prova evidente de que já era reconhecido o mérito de Conceição Silva como astrónomo. O telescópio foi retirado e encontra-se em exibição na galeria do Planetário Calouste Gulbenkian. Contudo, a casa ainda existe e pode ser vista a cúpula, hoje sem qualquer utilidade prática.

O telescópio que aqui instalou foi totalmente construído por Conceição Silva. Tratava-se de um telescópio refletor de 500 mm de abertura. Naquela época era o maior da Península Ibérica. Pouco tempo depois de ser construído, o telescópio foi conhecido internacionalmente, tendo sido descrito no boletim L’Astronomie, da Associação Astronómica Francesa, de janeiro de 1951, e na revista Scientific American, de setembro de 1952. Possuía dois espelhos refletores, principal e secundário, podendo ser usado na configuração Newton, apenas espelho principal (f/6); ou na configuração Cassegrain, dois espelhos (f/18); neste último caso conseguiam-se ampliações superiores a oitocentas vezes. Conceição Silva demorou quatro anos a construir o berço do telescópio, assim como os dois espelhos Colaborou diversas vezes com a esquadrilha de submarinos, tendo sido o responsável pela primeira revisão ótica de um periscópio realizada em Portugal.

No período de 1950 a 1957, Conceição Silva usou o seu telescópio de 500 mm, assim como outros de menores dimensões, que também construíra. Recolheu inúmeras fotografias do espaço. Nas suas observações, o comandante realizava, sozinho, todas as tarefas: apontava o telescópio, montava a câmara fotográfica, permanecia de pé várias horas, durante a exposição, revelava as chapas fotográficas, ampliava as mesmas e realizava as provas fotográficas. Nalguns casos, as exposições tinham que ser efetuadas em vários dias consecutivos, para atingir a qualidade desejada. Tudo isto fora das horas que dedicava à sua ocupação principal, que era a docência na Escola Naval, complementada com os cargos que desempenhava no âmbito da Artilharia e dos Explosivos. A astronomia era exercida por ele de uma forma completamente amadora, sendo considerado o primeiro astrónomo amador português. 

Embora feitas como amador, as suas observações mereceram reconhecimento, nomeadamente a nível internacional. Nos anos trinta, a União Astronómica Internacional solicitou o envio de todas as informações referentes a estrelas variáveis para o Observatório de Lyon, para que aqui se reunissem todos os dados que poderiam contribuir para o avanço da astronomia neste campo. Conceição Silva correspondeu ao apelo e os seus dados foram incluídos nos anos de 1948, 1949 e 1950 no Boletim da Associação Francesa de Observadores de Estrelas Variáveis.

Em 1952 representou, pela primeira vez, Portugal numa reunião internacional, na qualidade de astrónomo amador. Foi um dos representantes da Secção Portuguesa das Uniões Astronómica, Geodésica e Geofísica, na sua VIII Assembleia Geral. Teve oportunidade de participar em diversas outras reuniões internacionais, como astrónomo. Inclusivamente deslocou-se à União Soviética, numa altura em que Portugal não tinha relações diplomáticas com este país e que era muito difícil a um português deslocar-se até lá. Quando, em 4 de outubro de 1957, a União Soviética lançou o primeiro satélite artificial, Sputnik I, a notícia foi recebida com muito ceticismo em Portugal. Conceição Silva, que mantinha ligações científicas com astrónomos soviéticos, contribuiu para confirmar a veracidade da mesma, junto dos seus camaradas da Escola Naval.

O valor dos seus trabalhos foi reconhecido, com a atribuição do prémio «Dorothea Klumpke Isaac Roberts», pela Societé Astronomique de France. Conceição Silva foi galardoado ex-aequo com o astrónomo J. Texerau, do Observatório de Paris, tendo sido premiados os trabalhos de fotografias estrelares realizados por cada um deles. Em 1959 recebeu novo prémio, pela qualidade das suas fotografias, desta vez em Barcelona, o prémio «Ricardo Guille».

Quando se falou na atividade principal de Conceição Silva, a docência, referiu-se que ele tinha um gosto especial em transmitir os conhecimentos que adquiria, em termos científicos. Igual postura assumiu na divulgação da astronomia. Publicou, entre 1950 e 1953, quinze artigos de divulgação, sobre astronomia, na revista Átomo. Já antes, em 1938, publicara alguns textos sobre fotografia astronómica na revista Objectiva: revista mensal de fotografia e cinema de amador. Foi o autor do livro O sistema solar, da Coleção Cosmos, escreveu o Prefácio e supervisionou a tradução da obra Astronomia, de Karl Stumpf. Escreveu ainda artigos para os Anais do Clube Militar NavalBoletim da Sociedade de Geografia de Lisboa e na Revista Aster, da Agrupacion Astronómica, de Barcelona, assim como algumas entradas para a Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura.

Os últimos anos da sua vida trouxeram-lhe um outro desafio a nível da astronomia. A partir de finais da década de cinquenta, a sua saúde já não lhe permitia dedicar-se às observações astronómicas noturnas. Entretanto, durante uma viagem aos Estados Unidos, visitou o Planetário de Nova Iorque. A partir daí defendeu a ideia de que Lisboa deveria possuir um equipamento igual. A Marinha acolheu a ideia e, com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, foi possível inaugurar o Planetário Calouste Gulbenkian, em 1965. Este ficou localizado junto ao Museu de Marinha, que recentemente, em 1962, se tinha mudado para a zona de Belém, implicando uma remodelação arquitetónica da área da Praça do Império.

Conceição Silva foi naturalmente escolhido para primeiro diretor do Planetário. Apesar de ter já uma saúde fragilizada, o seu entusiasmo, em relação às questões da astronomia, não diminuiu. Foi ele o responsável pela formação dos conferencistas e pela elaboração dos guiões das primeiras sessões de planetário. Criou uma oficina de ótica onde se fizeram diversos telescópios, tendo sido auxiliado por um dos primeiros conferencistas, Joaquim Garcia.

Faleceu em Lisboa, a 26 de Abril de 1969, tendo sido diretor do Planetário até ao final da sua vida.

António Costa Canas
Escola Naval / CINAV / CH-ULisboa

Obras 

Silva, Eugénio Correia Conceição. Balística externa, telemetria e tiro naval: apontamentos para as lições da 7ª cadeira-Escola Naval 1932-1933. Lisboa: Escola Naval, 1933.

Silva, Eugénio Correia Conceição. «Fotografia astronómica, algumas notas práticas», Objectiva: Revista mensal técnica de fotografia e cinema, nº 14 (julho de 1938), p. 23.

Silva, Eugénio Correia Conceição. «Fotografia astronómica, algumas notas práticas», Objectiva: Revista mensal técnica de fotografia e cinema, nº 15 (agosto de 1938), pp. 44.

Silva, Eugénio Correia Conceição. «Fotografia astronómica, algumas notas práticas», Objectiva: Revista mensal técnica de fotografia e cinema, nº 16 (setembro de 1938), pp 55 e 58.

Silva, Eugénio Correia Conceição. «Observações astronómicas fora da atmosfera», Anais do Clube Militar Naval (outubro a dezembro de 1961), pp. 695-704.

Silva, Eugénio Correia Conceição. «O Planetário Gulbenkian de Lisboa», Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa (julho a dezembro de 1965), pp. 165-174.

Silva, Eugénio Correia Conceição. O sistema solar. Lisboa: Cosmos, 1944.

Bibliografia sobre o biografado

Castro, Cyrne de. «O Comandante Eugénio Conceição Silva, astrónomo solitário no seu observatório do Alfeite» Eugénio Correia Conceição Silva. Evocação no seu centenário. Lisboa: Academia de Marinha, 2003, pp. 15-27.

Castro, Cyrne de. «Quem foi o Comandante Eugénio Conceição Silva?» Revista da Armada (dezembro de 2000), pp. 17-21.

Homenagem ao comandante Conceição SilvaAnais Clube Militar Naval (janeiro a março de 1974), pp. 105-115.

d’Oliveira, Rogério S. «Sessão de homenagem à memória do Comandante Conceição Silva (centenário)», Eugénio Correia Conceição Silva. Evocação no seu centenário. Lisboa: Academia de Marinha, 2003, pp. 1-6.

Serra, Manuel Limpo. «Eugénio Conceição Silva, o artilheiro e o professor», Eugénio Correia Conceição Silva. Evocação no seu centenário. Lisboa: Academia de Marinha, 2003, pp. 7-14.

Pinto, António de Oliveira

Covilhã, 30 janeiro 1868 — Santo Tirso, 17 março 1933

Palavras-chave: Brotéria, Companhia de Jesus, física, radioatividade, telegrafia sem fios.

António da Costa e Oliveira Pinto tinha catorze anos quando ingressou na Companhia de Jesus no Noviciado do Barro, no dia 12 de agosto de 1882. Estudou Filosofia e Ciências Naturais no Colégio de São Francisco (1891–1893) em Setúbal e no Colégio de São Fiel (1893–1895) em Louriçal do Campo. Enquanto estudante de Filosofia, ensinou matemática em São Francisco (1892–1893) e física, química e história. Natural em São Francisco (1891–1892) e em São Fiel (1893–1895). Estudou Teologia em Oña (1895–1897) e em Vals-près-Le-Puy (1897–1899), na região de Haute-Loire, em França. Foi ordenado presbítero em 1898 em Vals-près-Le-Puy e professou os últimos votos na Companhia de Jesus a 2 de fevereiro de 1901 em Lisboa. Entre 1901 e 1910, ensinou Matemática, Física, Química e História Natural no Colégio de Campolide, em Lisboa, onde desenvolveu grande parte da sua carreira científica. 

Em Campolide, Oliveira Pinto procurou promover o ensino experimental das ciências naturais, sobretudo através da Academia Científica e Literária de Maria Santíssima Imaculada e do Instituto de Ciências Naturais. Como nos séculos anteriores, os jesuítas portugueses fomentaram a criação de academias científicas nos seus colégios. Constituídas pelos melhores alunos dos diversos anos, as academias promoviam a discussão de matérias científicas coevas nas suas sessões ordinárias. Uma ou duas vezes por ano, organizavam sessões solenes, onde os alunos explicavam os fundamentos teóricos de uma determinada tese, realizando, de seguida, experiências que a comprovassem. As sessões solenes chegaram a ser presididas pelo príncipe D. Luís Filipe e pelo infante D. Manuel de Bragança, em 1905, e pelo Diretor Geral da Instrução Pública, em 1906, e representaram um espaço da maior importância para a popularização científica dos jesuítas e para a sua credibilização enquanto cientistas e educadores modernos. Entre 1873 e 1910, as experiências realizadas em Campolide envolveram, por exemplo, descargas elétricas de alta frequência, magnetismo, raios catódicos, raios X, telegrafia sem fios, cristais sólidos e cristais líquidos. Enquanto diretor da secção de ciências da academia (1904–1910), Oliveira Pinto desempenhou um papel fundamental não só nas sessões ordinárias, mas também na escolha das teses apresentadas nas sessões solenes, como se verificou, por exemplo, no caso da telegrafia sem fios. Oliveira Pinto tinha realizado experiências com telegrafia sem fios em Campolide em 1902, isto é, apenas um ano após as primeiras experiências realizadas em Portugal. Três anos depois, na sessão solene realizada no dia 16 de março de 1905, Raúl Dias Sarreira (1889–1968), académico da classe de ciências e futuro missionário jesuíta em Moçambique (1943–1968), demonstrou publicamente como se poderiam realizar comunicações através da telegrafia sem fios.

Entre 1908 e 1910, Oliveira Pinto fundou e dirigiu em Campolide o Instituto de Ciências Naturais. Este instituto agregava num só organismo o Museu de História Natural, a biblioteca científica, o Gabinete de Física e os Laboratórios de Química, Zoologia, Botânica, Mineralogia e Ciências Naturais. Um dos principais objetivos do instituto era contribuir para a formação científica dos alunos do colégio que, por essa razão, eram convidados a participar ativamente na manutenção das coleções e nos trabalhos de classificação taxonómica. No ano da fundação do instituto, Oliveira Pinto estendeu ainda a participação aos antigos alunos, que convidava a contribuírem para as coleções do museu com animais, plantas e minerais provenientes das colónias. Em 1908, o acervo do museu era constituído por colecções etnológicas, onde se encontrava, por exemplo, a múmia que pertencera à colecção do marquês de Angeja, e que era a única existente em Portugal, colecções de numinástica e heráldica e ainda colecções mineralógicas, geológicas, zoológicas e botânicas, sendo que as colecções de musgos, fungos e de mixomicetes eram consideradas de grande qualidade pelos seus pares. Em 1909, o acervo do museu aumentou significativamente, destacando-se a entrada de mais de 1 500 novas espécies de fungos e um leão, com mais de 2 m de comprimento, trazido da Zambézia por um missionário jesuíta e preparado por António Mendes, taxidermista do museu Bocage. Das atividades pedagógicas e científicas e dos princípios que regeram o seu funcionamento compreende-se que o seu objetivo não era divulgar apenas uma versão simplificada da ciência, mas sim reproduzir, tanto quanto possível, a atividade científica em áreas como a Botânica, a Zoologia, a Física, a Química e a Mineralogia. Concebido como uma instituição de fronteira entre o ensino e a prática das ciências, o Instituto de Ciências Naturais de Campolide refletia a preocupação do seu diretor em preparar cientificamente uma nova geração e em divulgar e promover a investigação em ciências naturais no nosso país.

Um facto de especial importância na vida científica de António Oliveira Pinto foi a sua participação no I Congresso Internacional de Radiologia e Ionização, em Liège, no ano de 1905. Entre os trezentos participantes deste congresso encontravam-se, por exemplo, Arrhenius, Becquerel, Pierre Curie, Lord Kelvin, Lord Rayleigh, Rutherford e J. J. Thomson. Ao contrário de outros governos europeus, o governo português não enviou nenhuma delegação oficial a este congresso, pelo que a participação portuguesa se ficou a dever, exclusivamente, à presença de Oliveira Pinto e de outro jesuíta. Em 1910, o jesuíta português participou também no II Congresso Internacional de Radiologia, em Bruxelas. Tal como acontecera na reunião anterior, a comissão de honra deste congresso contava com a participação de físicos de renome internacional como Marie Curie, Lord Rayleigh, Ramsay, Thomson, Lorentz, Arrhenius, Poincaré e Planck. Enquanto no congresso de 1905, Oliveira Pinto não apresentou nenhuma comunicação, em 1910, apresentou os resultados das suas experiências sobre a radioatividade das águas minerais portuguesas, as primeiras experiências com radioatividade realizadas em Portugal. A realização deste estudo só fora possível porque o jesuíta tinha trabalhado nesse mesmo ano no laboratório de Pierre e Marie Curie, onde se tinha familiarizado com as técnicas radiológicas mais recentes. Para realizar os seus estudos sobre a radioatividade das águas minerais, Oliveira Pinto utilizou uma solução de brometo de rádio, obtida no laboratório dos Curie, indispensável à calibração dos eletroscópios de que se serviu. Na comunicação que apresentou em Bruxelas, o jesuíta começou por salientar a importância terapêutica da radioatividade, advertindo, no entanto, que o estudo metódico da radioatividade se encontrava ainda numa fase inicial. Depois de descrever detalhadamente a técnica utilizada, apresentou os resultados das suas experiências, concluindo que as águas minerais analisadas não eram radioativas.

Sócio da Societé Astronomique de France e da Real Sociedad Española de Física y Química, Oliveira Pinto foi ainda fundador e primeiro vice-secretário da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais. Em outubro de 1910, viu os seus instrumentos e manuscritos científicos confiscados pelo Governo Provisório da República Portuguesa. Mais tarde, conseguiu recuperar parte dos seus manuscritos, graças à intervenção de republicanos influentes. No exílio, destacou-se, sobretudo, pelos cargos governativos que desempenhou. Enquanto Provincial da Companhia de Jesus (1912-1918), estabeleceu uma casa de escritores em Alsemberg (Bélgica) em 1912. Nomeado superior da missão portuguesa do Brasil Setentrional em 1919, fundou o Colégio Manuel da Nóbrega, no Recife, e a Escola Apostólica de Baturité. Foi ainda reitor do Colégio António Vieira, na Baía, entre 1925 e 1930. Regressou a Portugal em 1932, e faleceu no dia 17 de março de 1933 nas Caldas da Saúde, em Santo Tirso.

Francisco Malta Romeiras

Obras

Pinto, António de Oliveira. “Primeiro congresso internacional de radiologia e ionização.” Brotéria 5 (1906): 129–134.

Pinto, António de Oliveira. “Crystaes líquidos.” Brotéria 5 (1906): 258–267.

Pinto, António de Oliveira. “Lampadas electricas.” Brotéria: Vulgarização Científica 7 (1908): 107–126.

Pinto, António de Oliveira. “O Instituto de Sciencias Naturaes do Collegio de Campolide.” O Nosso Collegio 5 e 6 (1908-1910): 99–113 e 143–149.

Pinto, António de Oliveira. Primeira contribuição para o estudo da radioactividade das aguas mineraes de Portugal. Porto: Typographia Occidental, 1910.

Pinto, António de Oliveira. “Première Contribution a l’Étude de la Radioactivité des Eaux Minérales du Portugal.” II Congrès International de Radiologie et d’Electricité, 3-8. Bruxelas: Imprimerie Médicale et Scientifique L. Severeyns, 1911.

Pinto, António de Oliveira. “Telegraphia sem fio.” Brotéria: Vulgarização Científica 9 e 10 (1910-1912): 181–203, 14–33 e 200–245.

Pinto, António de Oliveira. “Eclipse do sol de 17 de Abril de 1912.” Brotéria: Vulgarização Científica, 10 (1912): 194–306.

Pinto, António de Oliveira. “Liquefacção e solifidicação do Hydrogenio.” Brotéria: Vulgarização Científica 10 (1912): 287–293.

Pinto, António de Oliveira. “O estudo da radioactividade da materia. Laboratorio de Giff.” Brotéria: Vulgarização Científica 11 (1913): 51–68.

Pinto, António de Oliveira. “A radioactividade das aguas medicinaes de fraca mineralização.” Brotéria: Vulgarização Científica 13 (1915): 244–245.

Bibliografia sobre o biografado

Carvalho, José Vaz de. “António da Costa e Oliveira Pinto.” In Diccionario Histórico de la Compañía de Jesús, vol. 4: 3141. Madrid e Roma: Universidade Pontificia Comillas e Institutum Historicum Societatis Iesu, 2001.Romeiras, Francisco Malta e Henrique Leitão. “Jesuítas e ciência em Portugal. I: António Oliveira Pinto S. J. e as primeiras experiências com radioactividade em Portugal.” Brotéria 174 (2012): 9–20.