Girão, Aristides de Amorim

Fataunços (Vouzela), 16 junho 1895 — Coimbra, 7 abril 1960

Palavras-chave: Coimbra, Geografia, Portugal. 

Aristides de Amorim Girão foi um dos treze filhos de Custódio Ribeiro Pereira de Amorim Girão e Luciana Augusta Lopes de Carvalho. Na medida em que seu pai exercia judicatura, eram uma família proeminente de uma aldeia do distrito de Viseu. Foi nesta cidade que se distinguiu como aluno liceal, passando depois à Universidade de Coimbra onde completou o curso de Ciências Histórico-Geográficas em 1916. 

Enquanto estudante foi colega e travou amizade com o teólogo, que seria cardeal, Manuel Gonçalves Cerejeira. Também ganhou notoriedade com a publicação de Lições do seu professor, o naturalista Anselmo Ferraz de Carvalho.

O trabalho científico de Amorim Girão ligou-se à preocupação com o reconhecimento e valorização dos recursos nacionais, com vista ao desenvolvimento do país. Em 1918 iniciou a sua carreira docente na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, defendendo o Doutoramento em 1922, o primeiro em Ciências Geográficas em Portugal. A Bacia do Vouga: Estudo Geográfico chamou a atenção para a potencialização dos recursos do território. Era exemplo de trabalho de Geografia naturalista na medida em que assentou no estudo na natureza. Tratou-se de uma monografia geográfica onde Amorim Girão classificou e distinguiu os terrenos com origem granítica e com origem no xisto, caraterizou a área em estudo por classes de altitude, deu conta das principais linhas de relevo e da sua formação. Destacou o rio Vouga, cujo regime irregular dificultava o aproveitamento hidroelétrico, e a Ria de Aveiro, cuja evolução reconstruiu. No “Clima” lamentou a inexistência de postos meteorológicos no interior da bacia hidrográfica, usando valores de Porto, Viseu e Coimbra. Analisou a temperatura, o vento e a chuva concluindo com a “fisionomia geral das estações”. Abordou as “Associações vegetais e animais”, e transmitiu a evolução da distribuição dos centros de população desde os tempos pré-históricos, aproximando-se dos vales e descendo ao longo dos cursos dos rios e seus afluentes. Concluiu que a “disposição atual dos diversos centros de população, permite ver agora como a sua fisionomia geográfica é poderosamente condicionada pelo influxo dos fatores naturais”. Distinguiu o povoamento aglomerado nas regiões xistosas do disseminado nas graníticas. Relativamente às aglomerações urbanas comparou Viseu (apesar de fora da bacia do Vouga) com Aveiro. Em “Ocupação do solo: evolução histórica da habitação” mostrou como a geologia determinou a natureza dos materiais de construção empregues. Seguiu-se a caraterização dos tipos de habitação. A abordagem às vias de comunicação foi também historicista, desde o tempo romano. Estabeleceu relações entre as vias de comunicação e o relevo. Abordou as culturas do solo distinguindo regiões agrícolas, estudou a criação de gado e as devastações vegetais e animais, as explorações minerais e águas. Concluiu definindo regiões – Beira central, Zona de transição e Beira litoral— e sub-regiões naturais através da sobreposição de cartas de todos os aspetos da superfície da terra estudados. Fez notar como as divisões administrativas careciam de base geográfica definida.

Em Viseu: Estudo de uma aglomeração urbana, obra publicada em 1925, adotou uma abordagem historicista dado que “O estado atual de uma cidade é sempre o resultado de uma sedimentação de elementos fragmentários provenientes de épocas anteriores”. Lamentou a falta de cartografia atualizada e de fotografias aéreas. Caraterizou o “Quadro natural de Viseu”, os “Elementos de formação do agregado citadino”, transmitindo a importância das vias romanas no crescimento da cidade, e “Viseu desde as origens até à fundação da monarquia”. Seguiam-se “Elementos de engrandecimento da cidade de Viseu”: ser cidade episcopal, residência de monarcas, sede de colónia judaica, centro artístico quinhentista, a sua riqueza agrícola, a atividade industrial e o desenvolvimento comercial; “A cidade de Viseu nos séculos XV e XVI”; “Viseu desde o século XVII até nossos dias” e “Estado atual das funções citadinas”. Concluiu com o “Futuro de Viseu” que na sua opinião passava pela construção de ligações ferroviárias e manutenção das estradas existentes. Não esqueceu modificações para modernizar a circulação urbana dentro da cidade, a necessidade de revitalizar o comércio (a feira franca) e o desenvolvimento do turismo assente em “propaganda”.

Esboço duma Carta Regional de Portugal…, publicado em 1930, discutiu a existência de regiões naturais no país, à época ainda foco de polémica, sustentando que isso se devia à falta de estudos. Fez referência aos trabalhos de Bernardino Barros Gomes, mas baseou-se no conceito de região da “escola geográfica francesa de Vidal de La Blache” para definir e caraterizar as regiões do Minho, Trás-os-Montes, Alto Douro, Douro litoral, Beira Litoral, Beira Alta, Beira Trasmontana, Beira Baixa, Ribatejo, Estremadura, Alto Alentejo, Baixo Alentejo e Algarve. Abordou depois as sub-regiões. Esta divisão esteve na base da reorganização administrativa de 1936.

Na obra de Amorim Girão, o múnus de professor foi marcante. Assim, além de métodos pedagógicos originais, centrados no aluno, procedeu à análise crítica a textos didáticos para o ensino secundário, a práticas de aprendizagem e publicou textos e cartas de geografia. Também foi este o contexto da publicação de Lições de Geografia Humana, em 1936. 

Este livro partiu de uma visão organicista da geografia, “A ideia mais fecunda para os modernos progressos da ciência geográfica é, sem dúvida alguma, a de considerar a terra como um organismo vivo, em contínuas mutações e evolução constante. (…) Descrever e explicar os traços fisionómicos da face desse grande organismo que é a Terra— eis o objeto e fim primacial da Geografia” a partir da observação. A geografia era assim a análise da paisagem, resultando de três categorias de fenómenos: os naturais de ordem física, os naturais que entram nos domínios da biologia e os devidos à presença e atividade do Homem. Era assim fundamental que a disciplina estudasse o Homem: “Estudá-lo independentemente do solo que pisa é tarefa tão absurda como pretender interpretar este sem aquele. [o solo sem o Homem]”. Terminava o livro abordando grandes temas de geografia humana: a distribuição geral da população e as condições da existência humana à superfície da Terra.

Amorim Girão participou no movimento de renovação da Geografia nacional orientando-a para o trabalho de campo (associada aos cursos de férias da Faculdade de Letras), por exemplo com Excursões no Centro de Portugal, publicação de 1939. Aí sustentou a importância da observação da paisagem para os geógrafos. Transmitiu e caraterizou, em conjunto com os historiadores Vergílio Correia e Torquato de Sousa Soares, itinerários para excursões a realizar na região Centro do país. A sua máxima “encham os olhos de paisagem” marcou os estudantes. 

As décadas de 1940 e 1950 foram o período mais trabalhoso de Amorim Girão. Foi diretor da Faculdade de Letras de Universidade de Coimbra, entre 1943 e 1955, e publicou o Atlas de Portugal em 1941, onde demonstrava “o desejo ser útil aos que estudam ou ensinam Geografia de Portugal; dando-lhes um indispensável instrumento de trabalho”. Foi durante décadas o que de mais próximo existiu de um Atlas nacional de Portugal. 

De 1941 é também, Geografia de Portugal, um livro profusamente ilustrado em que o país foi analisado sob a forma monográfica. Em 1946, ena obra, Geografia Humana transmitiu as suas reflexões sobre esta disciplina. Fundou o “seu” Centro de Estudos Geográficos em 1949, e, no ano seguinte, o Boletim do Centro de Estudos Geográficos de Coimbra. 

A bibliografia de Amorim Girão conta cerca de 90 títulos. O seu trabalho foi interrompido pela doença que o vitimou, mas o facto de ser o primeiro geógrafo português e ter um pensamento original assegurou-lhe lugar de destaque na história da geografia. 

José Braga

Obras 

Amorim Girão, Aristides. A Bacia do Vouga: Estudo Geográfico. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1922.

Amorim Girão, Aristides. Viseu: Estudo de uma aglomeração urbana. Coimbra: Coimbra Editora, 1925. 

Amorim Girão, Aristides. Esboço duma Carta Regional de Portugal… Coimbra: Coimbra Editora, 1930. 

Amorim Girão, Aristides. Lições de Geografia Humana. Coimbra: Coimbra Editora, 1936.

Amorim Girão, Aristides. Excursões no Centro de Portugal. Coimbra: 1939.

Amorim Girão, Aristides. Atlas de Portugal. Coimbra: 1941. 

Amorim Girão, Aristides. Geografia de Portugal. Porto: Portucalense editora, 1941.

Amorim Girão, Aristides. Geografia Humana. Porto: Portucalense editora, 1946.

Bibliografia sobre o biografado

Alegria, Maria Fernanda; Daveau, Suzanne; Dias, Maria Helena e Garcia, João Carlos. “As duas Edições do Atlas de Portugal de A. de Amorim Girão”, Biblos Vol. LXV (1989): 11-33.

Cerejeira, Manuel Gonçalves. Discurso pronunciado na sala dos Capelos da Universidade de Coimbra, em o dia 28 de Maio de 1922, pelo professor da Faculdade de Letras Dr. Manuel Gonçalves Cerejeira, no ato de se conferirem as Insígnias doutorais ao novo doutor em Letras (secção de Ciências Geográficas) o senhor Aristides de Amorim Girão, Coimbra: Casa Tipográfica, 1922.

Pereira de Oliveira, José Manuel. Professor Doutor Aristides de Amorim Girão (o Homem e a Obra), Câmara Municipal de Vouzela-Instituto de Estudos Geográficos Faculdade de Letras Universidade de Coimbra, 2000.

Pereira de Oliveira, José Manuel. O Prof. Amorim Girão e a Arqueologia, Comunicação apresentada ao II Colóquio Portuense de arqueologia, 1962, Porto: 1963.

Rebelo, Fernando. A geografia física de Portugal na vida e obra de quatro professores universitários, Coimbra: Minerva Coimbra, 2008, 13-29. 

Erédia, Manuel Godinho de

Malaca, 1563 — Goa, ca. 1623

Palavras-chave: Manuel Godinho de Erédia, Ásia, Malaca, cartografia, geografia, botânica, XVI, XVII.

Manuel Godinho de Erédia foi autor de uma vasta obra cartográfica e geográfica sobre o mundo oriental, a qual na época permaneceu manuscrita e apenas modernamente tem sido editada. Filho de um soldado português de ascendência aragonesa e de uma princesa originária das Celebes (Sulawesi), Erédia foi educado no colégio jesuíta de Malaca. Mais tarde, em muitos dos seus mapas e escritos utilizaria palavras e expressões malaias, para além de se referir a fontes escritas de origem malaia ou javanesa, o que leva a supor que conhecia bem a língua malaia. Com 13 anos de idade, Manuel Godinho mudou-se para Goa, a fim de continuar a sua educação formal com os padres jesuítas, estudando gramática, artes, filosofia e matemática. Distinguiu-se no estudo desta última disciplina, pois durante alguns anos exerceu funções no colégio jesuíta de Goa como mestre de matemática. Era também um artista talentoso, pois as fontes jesuítas atribuem-lhe a autoria de uma pintura religiosa remetida para a corte do Grão-Mogol em Agra. A vocação religiosa de Erédia, contudo, não se revelou sólida, pois em 1586 abandonou a Companhia de Jesus, para se dedicar a outras atividades. Contudo, não se encontra confirmação documental para a alegação do próprio Erédia de que teria passado a desempenhar funções de cosmógrafo-mor do Estado da Índia.

O vice-rei D. Duarte de Meneses, que governou o Estado da Índia entre 1584 e 1588, fez-se acompanhar por GiovanniBattista Cairato, engenheiro de origem italiana que fora encarregado por Felipe II de Espanha (e I de Portugal) de realizar um cuidadoso levantamento das fortalezas orientais dos portugueses. Cairato viajou extensamente pelo Oriente até 1596, e parece certo que Erédia o serviu como desenhador; durante estas deslocações, o cartógrafo reuniu elementos para muitos dos seus posteriores desenhos de cidades e fortalezas. A primeira obra conhecida de Erédia, a Informação da Aurea Chersoneso, ou Peninsula, e das Ilhas Auriferas, Carbunculas e Aromaticas, foi escrita após este período, entre 1598 e 1600. Tratava-se de uma descrição da Península Malaia e das principais ilhas do arquipélago indonésio, com notícias referentes à história, costumes, crenças e lendas, e com a preocupação de identificar minas de metais preciosos e fontes locais de especiarias valiosas. Desde as primeiras décadas do século XVI que nenhum outro autor tinha analisado de forma tão cuidadosa estas regiões orientais. Este primeiro escrito de Erédia, paralelamente a informações geográficas inovadoras, incluía dezenas de referências livrescas, citando numerosos autores ocidentais, clássicos e modernos, como Ptolomeu, Estrabão, Plínio, Pompónio Mela, Marco Polo ou Ludovico de Varthema. Este procedimento foi depois repetido em todos os subsequentes escritos de Erédia, que gostava de alardear erudição, a qual, contudo, nem sempre era de primeira mão. 

Entre 1600 e 1605, Erédia estanciou na Península Malaia, dedicando-se a trabalhos de engenharia militar, relacionados com as fortalezas portuguesas da região, e a atividades de prospeção mineira no sertão de Malaca. Preparou entretanto diversos planos de fortificações e detalhados mapas das regiões malaias visitadas, que conduziram a cartografia portuguesa para a representação inovadora de regiões interiores do continente asiático. Nada se consegue apurar sobre o seu paradeiro nos cinco ou seis anos seguintes, mas regressou decerto a Goa, pois muitas das suas cartas e plantas de fortalezas, cidades e regiões orientais, como o Atlas produzido em 1610 a instâncias do vice-rei Rui Lourenço de Távora, que governou o Estado da Índia entre 1609 e 1612, parecem datar deste obscuro período. Em 1611, efetuou uma viagem de prospeção mineira nas regiões setentrionais do Indostão, regressando na posse de vários mapas corográficos muito detalhados e inovadores, e de uma breve relação intitulada Discursos sobre a Província do Indostão, que descrevia esta região indiana. Como era habitual nos seus escritos, apresentava uma complexa combinação de observações em primeira mão e de informações orais, com diversas notícias recolhidas em fontes livrescas. Estas últimas incluíam não só referências ocidentais, mas também alusões a manuscritos persas. Erédia preparou também, durante esta expedição, um álbum de desenhos de árvores e plantas indianas, a Suma de Árvores e Plantas da índia Intra Ganges, dedicado a Rui Lourenço de Távora, que comprovava a sua curiosidade pela história natural e os seus dotes artísticos. Aparentemente satisfeito com este metódico trabalho de exploração, o novo vice-rei, D. Jerónimo de Azevedo, que governou entre 1612 e 1617, enviou-o em mais uma empresa de prospeção mineira na região de Goa. Erédia deve ter desempenhado este encargo nos anos de 1612 e 1613, descobrindo importantes jazidas de cobre e de ferro, e produzindo, como de costume, diversos mapas e cartas.

A partir de 1613, e até ao seu desaparecimento uma década mais tarde, Manuel Godinho viveu em Goa, a partir de onde dirigiu diversas cartas para Portugal, algumas das quais continham propostas de realização de viagens de descobrimento em partes inexploradas dos mares asiáticos. Mas nenhum desses projetos mereceu apoio régio. Dedicou-se, entretanto, a diversos afazeres. Trabalhou como pintor, sendo nomeadamente responsável pela elaboração de numerosos retratos de governadores e vice-reis portugueses, e também como cartógrafo, desenhando mapas e plantas de cidades e fortalezas, que andam reunidos em diversos atlas manuscritos. Erédia atravessou então o seu mais prolífico período de criação literária, pois no curto espaço de quatro anos produziu três tratados históricos e geográficos. Em primeiro lugar, em finais de 1613 concluiu a Declaraçam de Malaca e India Meridional com o Cathay, o seu mais ambicioso projeto textual, dedicado a Felipe III de Espanha (e II de Portugal), composto por três partes, e que desenvolvia a anterior Informação. Primeiro, uma detalhada corografia de Malaca e do seu sertão, ilustrada por mapas e desenhos diversos (pessoas, plantas, animais e embarcações), que abordava temas tão variados como a topografia urbana e rural, a história política local, as práticas comerciais, as produções naturais, as crenças religiosas ou o folclore tradicional. Depois, uma compilação de notícias sobre terras desconhecidas, alegadamente ricas em minérios auríferos, que se poderiam encontrar nos mares para sul de Timor, também ilustrada por diversos mapas especulativos. A partir desta secção da obra tem-se desenvolvido um debate, ainda não concluído, sobre o possível descobrimento da Austrália pelos portugueses. Enfim, em terceiro lugar, a Declaraçam continha uma geografia geral do continente asiático, desde a parte setentrional do Indostão até às regiões mais orientais da China, que procurava conciliar o saber geográfico ocidental com informações orais recolhidas na Índia e com cartografia produzida na Europa, recorrendo talvez a algumas fontes asiáticas. Esta secção era ilustrada por mapas parciais e globais da Ásia, que, como geralmente sucedia em toda a cartografia erédiana, tentavam reconciliar a diversidade de fontes utilizadas pelo cosmógrafo, que incluíam nomeadamente mapas analisados em edições bíblicas e edições do cartógrafo flamengo Abraham Ortelius. Pesem embora os muitos equívocos cometidos relativamente à real configuração das regiões tratadas, atribuíveis às limitadas possibilidades de exploração então disponíveis, a Declaraçamconstituiu um feito notável do ponto de vista do conhecimento europeu da geografia asiática, pois abordava áreas e temáticas pouco estudadas anteriormente. Tal como o seu primeiro tratado, também este estava recheado de referências eruditas, numa clara exibição de conhecimentos livrescos. Mas desta vez Erédia atribuía uma maior importância aos autores seus contemporâneos, citando nomeadamente João de Barros, Brás de Albuquerque, Benito Arias Montano, Diogo do Couto ou João de Lucena, entre outros. 

Neste período, em finais de 1615, Erédia redigiu também a Historia de serviços com martirio de Luis Monteiro Coutinho, relato apologético das façanhas militares de um capitão português capturado e executado em 1588 por ordem do soberano do Achém, sultanato do norte da ilha de Samatra, que lhe fora encomendado por familiares. Manuel Godinho tentou situar a carreira de Luís Monteiro no contexto mais alargado da presença portuguesa na Ásia, mostrando de passagem que estava bastante bem informado sobre as passadas atividades militares do Estado da Índia. Tal como outras das suas produções, também esta obra (que se mantém inédita, num manuscrito autógrafo da Biblioteca Nacional de Portugal) era acompanhada de detalhadas ilustrações representando cenas bélicas. De finais de 1616 data o Tratado Ophirico, última das produções erédianas, também dedicada ao monarca Felipe III. As partes principais desta obra constituíam um ambicioso dossiê de exegese bíblica. A partir de uma edição latina da Bíblia, talvez a Poliglota de Arias Montano, e com o apoio de meia-dúzia de comentadores, Erédia lançou-se na resolução de um problema que durante séculos tinha estado na primeira linha de preocupações de estudiosos da tradição cristã. Procurando conciliar a tradicional geografia bíblica com a sua visão da configuração dos espaços asiáticos, obtida em tratados livrescos, através de informações orais, e também em repetidas viagens terrestres, o cosmógrafo luso-malaio procurava determinar a exata localização da região de Ofir, de onde vinha o ouro de Salomão. 

Erédia, nos seus últimos anos, continuou a produzir materiais artísticos e cartográficos. O cronista Diogo do Couto, que também residia em Goa, mencionava numa carta enviada para Portugal em 1616 o ‘pintor Godinho’, que então trabalhava sob a sua supervisão na restauração das pinturas das armadas da carreira da Índia. Manuel Godinho parece ter falecido por volta de 1623. Nenhuma das suas inúmeras produções textuais ou cartográficas mereceu durante a sua vida as honras da impressão; e nenhum dos seus diversos projetos de descobrimento foi patrocinado pelas autoridades portuguesas. As suas obras rapidamente caíram no esquecimento, apenas sendo regularmente convocadas, em tempos mais recentes, no contexto da discussão sobre o descobrimento da Austrália pelas potências marítimas da Europa. Os variados e extensos escritos de Erédia foram produto do específico mundo cultural da Índia portuguesa, onde os saberes, os valores e as tradições da Europa e da Ásia se interligavam, formando uma única e complexa simbiose cultural. Manuel Godinho de Erédia produziu nas suas muitas obras uma síntese por demais curiosa, usando uma combinação complexa de experiência pessoal, de testemunhos vivenciais, de rumores dispersos, de tradições malaias, e de fontes cartográficas e literárias. As suas origens miscigenadas permitiram-lhe acesso franco às mais atualizadas fontes da educação humanista europeia, aos mais recentes descobrimentos portugueses no campo da geografia asiática, e a um vasto corpo de sabedoria asiática, consignada em manuscritos e em tradições orais. Estas contribuições múltiplas colocavam os seus tratados geográficos e as suas produções cartográficas num lugar de fronteira e de cruzamento, onde se ensaiava uma impossível ponte entre três heranças culturais muito distintas, a clássica europeia, a portuguesa e a malaia. Esta natureza simbiótica explica o singular destino dos escritos de Erédia, condenados durante séculos ao esquecimento. Mas os escritos históricos e geográficos de Erédia, de uma forma muito própria, eram bastante inovadores e estavam na linha da frente das preocupações de outros cosmógrafos contemporâneos. O infortúnio editorial de Erédia explica-se sobretudo pelos conturbados tempos em que lhe foi dado viver, numa época que assistiu à expansão holandesa e inglesa na Ásia marítima e ao sistemático assalto às posições ibéricas desencadeado pelas potências do Norte da Europa. Nessa conjuntura, as autoridades ibéricas não estimularam particularmente a difusão e a impressão de materiais de natureza geográfica sobre as Índias Orientais. E muitos dos escritos de Manuel Godinho de Erédia eram dedicados a tópicos demasiado sensíveis, como a localização de fontes produtoras de metais preciosos e o descobrimento de desconhecidas ilhas auríferas. O Estado da Índia, certamente, não gostaria de ver cair este tipo de informações estratégicas em mãos erradas.

Rui Manuel Loureiro
ISMAT e CHAM/NOVA

Obras

Erédia, Manuel Godinho de. Historia de serviços com martirio de Luis Monteiro Coutinho (Goa, 1615), ms., Biblioteca Nacional de Portugal, FG 414.
Erédia, Manuel Godinho de. Malaca, l’Inde Orientale et le Cathay, ed. Léon Janssen. Bruxelas: E. Lambert-Stevelinck, 1881.

Erédia, Manuel Godinho de. Eredia’s Descrition of Malaca, Meridional India, and Cathay, ed. J.V. Mills & Cheah Boon Kheng. Kuala Lumpur: Malaysian Branch of the Royal Asiatic Society, 1997.
Erédia, Manuel Godinho de. O Lyvro da Plantaforma das Fortalezas da Índia, ed. Rui Carita Lisboa: Edições INAPA e Ministério da Defesa Nacional, 1999.

Erédia, Manuel Godinho de. Suma de Árvores e Plantas da Índia Intra Ganges, ed. John G. Everaert, J. E. Mendes Ferrão e Maria Cândida Liberato. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descorbimentos Portugueses, 2001.
Erédia, Manuel Godinho de. Informação da Aurea Quersoneso, ed. Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Centro Científico e Cultural de Macau, 2008.

Erédia, Manuel Godinho de. Tratado Ophirico, 1616, ed. Juan Gil e Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Centro Científico e Cultural de Macau, 2016.

Bibliografia sobre o biografado

Flores, Jorge. “Between Madrid and Ophir: Erédia, a Deceitful Discoverer?” In Dissimulation and Deceit in Early Modern Europe, ed. Miriam Eliav-Feldon & Tamar Herzig, 184–210. London: Palgrave Macmillan, 2015.
Loureiro, Rui Manuel. “Manuel Godinho de Erédia e os seus tratados geográficos.” Oriente 9 (2004): 94–107.

Loureiro, Rui Manuel. “Manuel Godinho de Erédia revisited.” In Indo-portuguese History: Global Trends, ed. Fátima da Silva Gracias, Celsa Pinto e Charles Borges, 411–439. Goa: s.n., 2005.
Richardson, W.A.R. “A Cartographical Nightmare: Manuel Godinho de Erédia’s Search for India Meridional.” In The Portuguese and the Pacific, ed. Francis A. Dutra e João Camilo dos Santos, 314–348. Santa Barbara, Califórnia: Center for Portuguese Studies-University of California, 1995.

Subrahmanyam, Sanjay. “Pulverized in Aceh: On Luís Monteiro Coutinho and his ‘Martyrdom.’” Archipel 78 (2009): 19–60.

Lautensach, Hermann

Gotha, 20 setembro 1886 — Wildbad (Schwarzwald), 20 maio 1971

Palavras-chave: Geografia, Portugal, Alemanha.

Nascido numa família de professores, Lautensach estudou com os geógrafos Alexander Supan e Albrecht Penck. Em 1910 obteve formação em Geografia, Matemática, Física e Química, e tornou-se professor do ensino secundário. Procurou a habilitação para docência universitária através do estudo de um país pouco conhecido, seguindo a linha da geografia praticada na Alemanha. Escolheu Portugal por facilidades familiares e publicou a tese professoral sobre morfologia da costa portuguesa em 1928. Tornou-se professor nas Universidades de Giessen e de Greifswald e na Escola Superior Técnica de Estugarda, onde se aposentou em 1952.

Um dos primeiros trabalhos que publicou foi Estudo dos Glaciares da Serra da Estrela (1932, traduzindo estudo de 1929). Baseando-se em trabalho de campo, observação direta e carta 1:100 000, demonstrou que a glaciação não se estendeu pelas regiões periféricas. Determinou a extensão da glaciação na cordilheira durante o Wurm e analisou a ação morfológica dos gelos.

Em 1932 e 1937 Lautensach publicou Portugal auf Grund eigener Reisen und der Literatur (Portugal, baseado nas próprias viagens e bibliografia). Tratou-se da primeira geografia moderna do nosso país, com uma parte geral (1º volume) e outra regional (2º volume), resultando de quatro viagens à península ibérica entre 1927 e 1930. Cedo atraiu Orlando Ribeiro que a procurou traduzir e adaptar ainda nos 1940.

Em quase todos os aspetos foi obra pioneira, uma geografia que analisava os fenómenos no seu enquadramento e interdependência espacial. Começa por colocar “Portugal no Contexto Ibérico” assinalando a estabilidade das fronteiras e as similaridades com o oeste de Espanha e a Galiza. Aborda depois o mar e o litoral, da configuração da plataforma continental à biogeografia dos peixes. Dedica um capítulo à geomorfologia cujo conhecimento considera avançado. “As caraterísticas climáticas” dão conta dos tipos de tempo ao longo do ano com as situações meteorológicas dominantes. Em “Os rios e os processos de erosão” transmite as caraterísticas do perfil longitudinal relacionando-o com a Culminação Ibérica Principal. Destaca o papel das cheias invernais e as diferenças entre as regiões de xisto e granito relativamente ao modelado superficial. Passa depois à Geografia humana. “As bases históricas e psicossociais da Geografia humana de Portugal” dá conta da importância da tradição na vida social e em “A cobertura vegetal” conclui que as espécies e formações mediterrânicas substituem as europeias à medida que aumenta a seca estival, sendo bastante marcadas pela ocupação humana que as degradou. Segue-se “As florestas, as árvores cultivadas e os campos”, as Atividades económicas, a “Geografia da população” em que interpreta a densidade populacional e não esquece o peso dos movimentos migratórios e, finalmente, o “Povoamento, Toponímia e Circulação”. No segundo volume, expõe a sua divisão regional do país: Portugal setentrional, dividido em Fachada do Alto Portugal, Interior do Alto Portugal e Centro Litoral; e Portugal meridional, com baixo Portugal e Algarve. O limite entre as duas grandes partes do país é, grosseiramente, a cordilheira central estando a península de Setúbal inserida no Portugal setentrional. Infelizmente a barreira linguística e a publicação tardia da tradução (décadas de 1980/90) retiraram parte do impacto que esta obra merecia.

De modo a comparar as duas penínsulas subtropicais nos extremos da Eurásia, Lautensach fez o estudo da Coreia em Korea. Ein Landeskunde auf Grund eigener Reisen und der Literatur (1945). Explorou a então colónia japonesa dando conta das suas caraterísticas históricas e geográficas, a natureza e cultura tradicional, as suas regiões e do seu papel como colónia japonesa. Neste livro usou o mesmo subtítulo que no trabalho sobre Portugal, por opção metodológica.

Em 1964 publicou Iberische Halbinsel traduzida para castelhano três anos depois. Tratou-se de um livro equilibrado tanto em termos de componente física e humana como geral e regional, acompanhado por um Atlas temático.

Lautensach fez assim trabalho pioneiro em Portugal. A originalidade deste não escapou aos geógrafos peninsulares que o procuraram aproveitar. Infelizmente, a barreira linguística só foi ultrapassada tardiamente.

José Braga

Obras

Lautensach, Hermann. Estudo dos Glaciares da Serra da Estrela, Coimbra: 1932.

Lautensach, Hermann. Portugal auf Grund eigener Reisen und der Literatur, Gotha: Justus Perthes, 1932-1937, 2 volumes. [Traduzido parcialmente em: Ribeiro, Orlando; Hermann Lautensach e Suzanne Daveau. Geografia de Portugal, Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1987-1991, 4 volumes.]

Lautensach, Hermann. Korea. Ein Landeskunde auf Grund eigener Reisen und der Literatur, Leipzig: K. F. Koehler Verlag, 1945.

Lautensach, Hermann. Iberische Halbinsel, München: Keysersche Verlagsbuchhandlung, 1964.

Bibliografia sobre o biografado

Ribeiro, Orlando. “Hermann Lautensach e a Geografia da Península Ibérica”, Finisterra, Revista Portuguesa de Geografia, I (1), (1966), 125-128.

Ribeiro, Orlando. “Hermann Lautensach (1886-1971)”, Finisterra, Revista Portuguesa de Geografia, VI (12), (1971), 161-163.

Ribeiro, Orlando. “A Geografia da Península Ibérica de Hermann Lautensach”, Finisterra, Revista Portuguesa de Geografia, VI (12), (1971), 255-277. https://www.deutsche-biographie.de/gnd118570218.html#ndbcontent (consultado em março de 2017).

Ribeiro, Orlando

Lisboa, 16 fevereiro 1911 — 17 novembro 1997

Palavras-chave: biografia, Portugal, geografia, Lisboa.

Orlando da Cunha Ribeiro foi um dos geógrafos portugueses mais profícuos do século XX. Formou-se em Ciências Histórico-Geográficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Depois de concluir o doutoramento sobre a serra da Arrábida (1936) foi nomeado leitor de Português na Sorbonne, onde foi discípulo de De Martonne e Demangeon, até 1940. A sua carreira como professor e investigador decorreu, entre 1941 e 1981, sobretudo na Universidade de Lisboa, onde fundou um importante Centro de Estudos Geográficos e a Revista Finisterra. A sua obra científica conta mais de quatrocentos títulos em áreas diversas da geografia. O seu livro mais conhecido é a síntese Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, estando muitos dos seus trabalhos reunidos nos seus Opúsculos Geográficos.

Orlando da Cunha Ribeiro foi filho de António da Cunha Ribeiro e Palmira Carvella Ribeiro, estabelecidos em Lisboa como comerciantes na rua da Escola Politécnica, em frente da Faculdade de Ciências. 

A morte da mãe quando tinha quatro anos, a par dos golpes militares frequentes na capital, quedas de governo e a participação na I Guerra Mundial, características da conturbada Primeira República (1910–1926), fizeram com que Orlando Ribeiro fosse viver com os avós em Runa, no Asilo dos Inválidos Militares, do qual o avô, Augusto Carvella, oficial do exército, era um dos administradores. O avô marcou-o profundamente. 

Voltou a Lisboa com oito anos de idade. No bairro onde vivia a família, frequentou um colégio, onde começou a aprender francês, incutindo-lhe o gosto pela língua e cultura desse país, francesismo que marcará o seu trabalho. Passou para o liceu Passos Manuel (entre 1921 e 1928) e começou a frequentar bibliotecas populares. A transição para uma escola de grandes dimensões levou-o a perder o terceiro ano. Manteve-se aplicado a História e Geografia pela relação que estabeleceu com o docente, que lhe inspirou a ideia de ter igual profissão. No liceu, marcaram-no outros professores que ensinavam pela observação e experiência. Completou o exame da sétima classe, secção de letras, com a classificação de dezoito valores. Observador por natureza, a sua curiosidade por história despertou-o a ler romances de Alexandre Herculano. Para o superar, estudou árabe, inscrevendo-se na Faculdade de Letras antes de acabar o liceu. Conheceu o arabista David Lopes e leu livros de geógrafos nacionais e estrangeiros. No final do liceu, leu trabalhos de Leite de Vasconcellos, cuja casa começou a frequentar nos primeiros anos do curso universitário. Ganhou hábitos de reflexão a partir das suas leituras. Frequentou a Biblioteca Nacional, a da Sociedade de Geografia e da Imprensa Nacional. Com base no seu precoce gosto pela investigação, defendeu a junção entre investigação e ensino na Universidade.

Amante de música, desde cedo frequentou concertos e estabeleceu a comparação entre música e ciência. Defendeu que a arquitetura musical era paralela ao travejamento do trabalho científico, pois a harmonia estimulava a criação baseada no raciocínio, mas integrando ingredientes emocionais.

O facto de rer sido criado no bairro da Politécnica facilitou ao jovem estudante os primeiros contactos académicos. Na escola primária, conviveu com os filhos do embriologista e professor Augusto Celestino da Costa. No liceu, conheceu o amigo, futuro dermatologista e professor catedrático, Juvenal Alvarez Esteves. Conviveu com professores e alunos da Universidade, já que o pai fornecia os laboratórios universitários. 

Nos estudos universitários, a geografia à época estava ligada à história. No ensino secundário, predominavam as listas de nomes para decorar, que qualquer um podia ensinar. 

Ao ingressar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Orlando Ribeiro encontrou “uma escola má com alguns professores excelentes”. Em geografia o ensino era inteiramente teórico e verbal. “Nunca fizemos uma excursão, nunca vimos um mapa de grande escala”. Influenciou-o o professor de História, Manuel Ramos, que condensava um parágrafo com uma rubrica à margem, permitindo-lhe retirar o fundamental do texto, hábito que Orlando Ribeiro adquiriu. Também o médico, primeiro professor português de Geografia a nível superior, Francisco Xavier da Silva Telles, o marcou.

Orlando Ribeiro proferiu a sua primeira conferência aquando da celebração do centenário da morte de Goethe, em 1932, ano em que concluiu a licenciatura. Nessa altura decidiu fazer doutoramento e carreira em ciência. 

Foi fora da faculdade que Orlando Ribeiro encontrou os verdadeiros mestres: Ernest Fleury, um geólogo suíço que ensinava no Instituto Superior Técnico (em 1932–1933 frequentou a sua cadeira, na qual se iniciou no trabalho de campo) e José Leite de Vasconcellos: “a ele, mais do que a ninguém, devo a posse de uma disciplina de trabalho e de um ideal de servir a Ciência”. Foi também nesta época que conheceu Manuel Viegas Guerreiro.

Assim que completou a licenciatura, lecionou no Colégio Infante de Sagres, em Lisboa, onde foi colega do filósofo Agostinho da Silva. Considerou o ensino secundário a melhor iniciação pedagógica, já que permitia aprender a tornar claras e atraentes as aulas e relacionar-se com os alunos. Hauriu pedagogias modernas, de Pestalozzi e Manuel Silva Leal, o diretor do colégio, dando importância ao ar livre.

Em 1934, iniciou um programa de viagens em Portugal, como bolseiro do Instituto de Alta Cultura, tomando conhecimento direto do território continental português. 

Aproveitou as férias de 1935 para participar no I Cruzeiro de Férias às Colónias, dirigido por Marcello Caetano. Aí conheceu a ilha da Madeira e as colónias da África ocidental, convivendo com autores que conheciam o pensamento de Gilberto Freyre, deixando-o recetivo ao luso-tropicalismo que marcou a sua análise do Brasil e Cabo Verde. 

No ano seguinte, defendeu a dissertação de doutoramento em Ciências Geográficas pela Faculdade de Letras de Lisboa. A dissertação, intitulada “Arrábida, Esboço Geográfico”, girou em torno dos mapas e bibliografia existentes, trabalho de campo e observações pessoais. A escolha do tema deveu-se à proximidade de Lisboa e à facilidade de transportes à época. 

Na dissertação, transparecem vários aspetos da personalidade do jovem investigador e da sua vida. Por um lado, a sua ambição científica, (planeando estudos mais abrangentes para o futuro), a sua admiração pelo povo (preferindo as designações populares em aspetos do relevo e da vegetação) e o prazer da descoberta. Para Ribeiro, a ciência era um atraente exercício de espírito com proveito educativo. Inovou no quadro territorial abordado, escolhendo uma serra. Reconheceu a necessidade de gravuras e mapas (com o tempo ganhou o hábito de se deslocar no campo com o mapa e martelo — para identificar rochas ou colher amostras — e depois, com a máquina fotográfica), não os incluindo na dissertação por limitações financeiras. A observação direta no campo ganhou importância fundamental, tal como a escala local. A geografia foi a única disciplina abordada, autonomizando-se da história, pois os fenómenos temporais suportavam apenas a geografia humana.

Cinco dos capítulos da tese foram dedicados às características físicas: “Arquitetura do Solo”, “Fatores do Relevo”, “Formas do Relevo”, “O Litoral”, “Clima e Vegetação” e um único dedicado a “Alguns Aspetos de Geografia Humana”. Os dois primeiros serviram de base, ao explicarem aspetos da estrutura e tectónica, orogenia e sismologia, a natureza das rochas ou erosão, a individualização e caracterização de cada unidade que compunha a serra e o litoral. Faltando dados e bibliografia climatológica, para lá de obras gerais, o autor cingiu-se “a observações pessoais e informações colhidas entre os habitantes”. A vegetação já estudada, foi alvo de uma descrição cuidadosa e atenta. O seu estilo era escorreito. No que respeita à parte humana, limitou-se a indicar os aspetos essenciais, prometendo um trabalho mais desenvolvido sobre a península de Setúbal. “Ocupação Económica” (apropriação da Natureza) e “Povoamento” (apropriação do território) são os aspetos mais marcantes da geografia, “isto é, aqueles por que principalmente se exprimem na paisagem a presença do homem”. Concluiu com os “Factos de Circulação” (transportes e comércio, os fluxos).

A geografia humana da Arrábida articulou-se assim numa estrutura onde os fatores naturais jogaram um papel explicativo relevante da realidade geográfica: “A razão principal desta distribuição [da população] está no aproveitamento das águas (pesca, salinas, comunicações) e na natureza do solo arável”. Porém, a noção de região geográfica como síntese de características físicas e humanas, individualizadas e específicas de um espaço, foi defendida. A terminologia que tentou fixar serviu de apoio a uma síntese final. A “pequena região natural” que se propôs estudar nas primeiras páginas possuiu uma “individualidade geográfica” na conclusão. Ribeiro considerou a Arrábida “única pela estrutura entre as recentes montanhas portuguesas, polimórfica no relevo, no clima, na vegetação, na forma dos agrupamentos humanos”. Sustentou desconhecer “em Portugal, nenhum outro lugar onde, em tão pequeno espaço, se possam contemplar tão variados aspetos naturais. Esta riqueza de paisagens se por um lado dificulta muito o estudo geográfico da região, por outro, compensa o investigador com a diversidade de ensinamentos que lhe proporciona”.

A sua exigência consigo próprio no sentido de colmatar as lacunas da sua formação e o ambiente intelectual existente, procurando selecionar cientistas prometedores, levaram-no ao cargo de leitor de Português na Sorbonne entre 1937 e 1940. No convite para o cargo, foram importantes as relações com Marcello Caetano e o trabalho de reconhecimento do território que Ribeiro já havia realizado.

Em Paris, estudou Geografia e ciências cognatas na Faculdade de Letras daquela universidade, na Escola Normal Superior e no Colégio de França. Sob a direção de docentes como Albert Demangeon e Emmanuel de Martonne visitou várias regiões da França. Estagiou no Seminário de Geografia e Geologia da Universidade de Liège (Bélgica). Participou no XV Congresso Internacional de Geografia, em Amesterdão (1938). Assistiu De Martonne na organização dos trabalhos práticos do curso de geografia durante a Segunda Grande Guerra, tendo dado aulas e dirigido excursões nos arredores de Paris. Voltou a Portugal durante os verões, percorrendo o país na companhia do geógrafo Pierre Birot.

Regressou definitivamente a Portugal em 1940, semanas antes da ocupação de Paris pelos nazis. No ano seguinte, ingressou como professor extraordinário na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde assistiu Aristides de Amorim Girão, que o conheceu através dos cursos de férias da universidade. Em 1943, Ribeiro passou a professor catedrático na Universidade de Lisboa. Neste ano fundou, numa ruela contígua ao convento de Jesus, o Centro de Estudos Geográficos, que aglutinou um pequeno grupo de colaboradores provenientes de várias áreas. Durante a Segunda Guerra Mundial, percorreu o centro de Portugal com Hermann Lautensach.

Manteve-se fiel à forma de fazer geografia tal como a aperfeiçoou: baseada na observação da paisagem, trabalho de campo, descrição e comparação para atingir a interpretação dos fenómenos geográficos, numa visão unitária e abrangente. Como professor, realizou muitas visitas de estudo em Lisboa e arredores. Ditos célebres, sobre este método identitário da disciplina, marcaram gerações de estudantes: “os geógrafos não se dissolvem em água” e “a geografia faz-se com a planta dos pés”, são dois exemplos.

Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico foi uma das grandes obras de Ribeiro. O livro começou a ser pensado em 1941, sendo publicado em 1945 pela Coimbra Editora. Logo considerado marcante, esgotou rapidamente e conheceu várias reedições. Captou as constantes da personalidade geográfica do país, materializadas nas paisagens através das inter-relações físicas e humanas.

Aprofundando linhas de investigação esboçadas por Bernardino Barros Gomes e Hermann Lautensach, propôs uma divisão do país em três grandes regiões. O Noroeste, entre a parte terminal do Mondego e a Cordilheira Central; o Norte Interior, separado da região anterior por serras e estendendo-se a sul também até à Cordilheira Central; e o Sul, o restante território.

O Noroeste caracterizava-se pelas influências climáticas atlânticas, elevada humidade e precipitação, relevo acidentado, fortes densidades populacionais, policultura de minifúndio e importância da cultura do milho num povoamento rural disperso. O Norte Interior era marcado pela continentalidade, vastas extensões planálticas, povoamento rural aglomerado e traços de comunitarismo em algumas aldeias. Finalmente, o Sul, onde as características mediterrâneas se impunham progressivamente, era uma região que possuía precipitação reduzida, baixa densidade populacional, povoamento rural concentrado e montados de sobro e azinho associados à cultura extensiva de cereais em latifúndios.  

No interior de cada uma destas grandes regiões distinguiam-se pequenas áreas com características semelhantes e uma grande variedade de aspetos e contrastes que asseguravam ao país uma enorme diversidade. A análise da paisagem e da economia regional revelava uma articulação complexa, que em grande parte era devida à ação do ser humano. A síntese das gentes e das plantas e a variedade das combinações regionais era onde radicava a misteriosa unidade portuguesa. O país era o somatório das regiões, feito a diferentes escalas.

Para Orlando Ribeiro, a unidade de Portugal foi em grande parte obra do povo português, desde há séculos contido numa fronteira fixa que tornou o país uma formação antiga e estável do mapa político mundial. 

Outro marco da geografia portuguesa foi o Congresso Internacional de Geografia de 1949, realizado entre 8 e 15 de abril em Lisboa, em virtude das relações de Orlando Ribeiro com os seus mestres franceses, numa altura em que ainda se sentiam os efeitos da Segunda Grande Guerra na maioria dos países europeus. Contou com a presença de 779 participantes que representavam 37 países. Do evento resultaram quatro volumes de atas, um volume de resumos das comunicações e seis livros-guia de excursões. A Escola de Geografia de Lisboa ganhou então projeção internacional. 

Entre os seus colaboradores na organização do congresso, destacaram-se jovens que se tornaram importantes cientistas nas áreas respetivas: o geógrafo coimbrão Alfredo Fernandes Martins, o geólogo Georges Zbyszewski, o etnólogo Jorge Dias, o engenheiro civil convertido à geomorfologia Mariano Feio e a historiadora Virgínia Rau. Teve também grande ajuda das primeiras alunas do curso de Geografia, caso de Raquel Soeiro de Brito. Ribeiro indicou como condição de êxito na investigação mais do que condições materiais, pessoas que criavam, desenvolvam e acreditavam numa Escola. 

No congresso seguinte, em Washington (1952), Orlando Ribeiro foi nomeado para primeiro vice-presidente da União Geográfica Internacional. Tornou-se o geógrafo português mais reputado no estrangeiro. 

Após o Congresso, colaborou na Geografia de Espanha e Portugal, publicada em Barcelona (1955). A participação neste trabalho, ligou-se ao contacto com os geógrafos espanhóis (sobretudo a família Hernández–Pacheco e Manuel de Terán) e à participação em excursões às outras regiões peninsulares desde o curso de Geografia Peninsular e dos Pirenéus de Jaca, em 1946. 

A partir de 1947, Ribeiro participou em missões ultramarinas e publicou os seus resultados, ligando-se ao contexto do colonialismo tardio português.  Em 1951 e 1957, grandes erupções vulcânicas ocorreram na ilha do Fogo (Cabo Verde) e Faial (Açores), respetivamente. Ribeiro estudou-as, e publicou A Ilha do Fogo e as Suas Erupções (1954), aquela que considerou ser a sua melhor monografia. Ilídio do Amaral e Francisco Tenreiro foram colaboradores que se destacaram na exploração das regiões tropicais sob sua orientação.

Também refletiu sobre o método da geografia em Atitude e Explicação em Geografia Humana (1960), as relações entre geografia e cultura em Geografia e Civilização (1961), o ensino superior em Portugal, na coletânea Problemas da Universidade (1964) e as marcas da expansão portuguesa no mundo, em Aspectos e Problemas da Expansão Portuguesa(1962). Aqui, a história estava presente, mas apenas para compreender as consequências da expansão. Ribeiro encarou-a de forma humanista. Para o autor a expansão anunciou o desabrochar de uma civilização planetária que, num ideal nem sempre atingido, respeitou a diversidade social. 

O período mediado entre a década de 1960 e a sua aposentação, em 1981, foi o de maior produção do cientista e de grande atividade como professor, num momento em que a sua escola se expandiu e alargou horizontes.

Ribeiro publicou mais de 120 títulos em várias línguas e países. Escrevendo em francês e castelhano, promoveu a divulgação de trabalhos que, em português, não atingiriam tanta repercussão internacional. 

Em 1968, publicou Mediterrâneo, Ambiente e Tradição, que foi traduzido em italiano. Dois anos depois deu à estampa Ensaios de Geografia Humana e Regional. Em 1973, publicou La Zone Intertropicale Humide, uma síntese de reflexões sobre a zona equatorial, em conjunto com sua esposa Suzanne Daveau, antiga professora da Universidade de Dacar. Estes laços facilitaram a criação e a afirmação de Finisterra – Revista Portuguesa de Geografia (1966). Em 1977 editou Introduções Geográficas à História de Portugal que evidenciou interesses por aspetos teóricos, históricos e culturais. 

Após 1981, sucederam-se reedições de trabalhos e publicações novas. Foi o caso de A Colonização de Angola e o seu Fracasso (1981), onde expôs reflexões sobre a ex-colónia, e de outros livros que serviram de transmissão da experiência científica, como Iniciação em Geografia Humana (1986), Introdução ao Estudo da Geografia Regional (1987), ou elaboraram reflexões sobre a identidade nacional, caso de A Formação de Portugal (1987). 

Parte do trabalho de divulgação da sua obra deveu-se à sua esposa, que preparou volumes como Geografia de Portugal(quatro volumes, entre 1987 e 1991, reunindo o trabalho de Orlando Ribeiro e de Herman Lautensach, com atualização de Suzanne Daveau) e Opúsculos Geográficos (seis volumes, publicados entre 1989 e 1995), onde se compilaram 179 artigos, cobrindo as áreas do método e pensamento ou história da geografia, aspetos da natureza, mundo rural, temas urbanos e estudos regionais.

Pelo seu reconhecimento internacional, Ribeiro teve um lugar particular no meio universitário do Estado Novo. Criticou-o pública e particularmente em relatórios sobre a reforma administrativa, educativa ou questões coloniais. Tal valeu-lhe o adiamento do seu reconhecimento interno pelas instituições académicas. Somente em 1976 se tornou académico correspondente da Academia das Ciências e sete anos depois académico efetivo na secção de Ciências Naturais. Posteriormente, as décadas de 1980 e 1990 foram anos de outras homenagens universitárias e títulos de doutor Honoris Causa

Orlando Ribeiro foi um geógrafo completo, que se debruçou sobre todos os aspetos da disciplina e praticou-a de forma unificada. Dotou a geografia de um corpo científico e institucional. O seu trabalho pode ser ainda considerado atual.

José Braga

Arquivos

Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal, Espólio do Professor Orlando Ribeiro, Espólio D12.

Obras 

Ribeiro, Orlando. A Arrábida: esboço geográfico. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1935. 

Ribeiro, Orlando. A Ilha do Fogo e as Suas Erupções. Lisboa: Junta das Investigações do Ultramar, 1954. 

Ribeiro, Orlando. Aspetos e Problemas da Expansão Portuguesa. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1962. 

Ribeiro, Orlando. Geografia e Civilização. Lisboa: Instituto da Alta Cultura, 1961. 

Ribeiro, Orlando. Mediterrâneo, Ambiente e Tradição. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1968. 

Ribeiro, Orlando. Memórias de um Geógrafo. Lisboa: Edições João Sá da Costa, 2003.

Ribeiro, Orlando. Opúsculos Geográficos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1989–1995. 6 volumes.

Ribeiro, Orlando. Portugal o Mediterrâneo e o Atlântico. Coimbra: Coimbra Editora, 1945. 

Ribeiro, Orlando e Suzanne Daveau. La Zone Intertropicale Humide. Paris: Armand Colin, 1973.

Ribeiro, Orlando, Hermann Lautensach e Suzanne Daveau. Geografia de Portugal. Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1987–1991. 4 volumes.

Bibliografia sobre o biografado

Amaral, Ilídio. A “Escola Geográfica de Lisboa” e a sua contribuição para o conhecimento geográfico das regiões tropicais. Lisboa: Centro de Estudos Geográficos, 1979.

Amaral, Ilídio. “O Centro de estudos Geográficos 1943-1973.” Finisterra 8 (16) (1973): 310 –315.

Costa, José Braga. “Geografia de Lisboa Segundo Orlando Ribeiro.” Dissertação de mestrado. Lisboa: Universidade de Lisboa, 2012.

Daveau, Suzanne. “O Investigador, o Professor Universitário e o Director do Centro de Estudos Geográficos.” Finisterra43 (85) (2008): 85–93.

Daveau, Suzanne. “Orlando Ribeiro (1911–1997).” Geographers Biobiographical Studies 31 (2012): 30–55.

Daveau, Suzanne. “Os Anos de Formação de Orlando Ribeiro.” Finisterra 43 (85) (2008): 19–34.

Garcia, João Carlos. “Orlando Ribeiro (1911–1997): O Mundo à sua Procura.” Revista da Faculdade de Letras – Geografia 1 (14) (1998): 107–116. 

Garcia, João Carlos. “Sobre a Reedição de A Arrábida, Esboço Geográficode Orlando Ribeiro.” Revista da Faculdade de Letras – Geografia 1 (1) (1986): 209–243.

Gaspar, Jorge. “Orlando Ribeiro e Lisboa – Locais de Vida e Memória.” Finisterra 43 (85) (2008): 67–76.

Orlando Ribeiro, 1911–1997. Online. Disponível em: orlandoribeiro.igot.ulisboa.pt. Consultado em 3 agosto 2022.

Ribeiro, Orlando. “Os Percursos de Orlando Ribeiro e Mariano Feio até aos começos do Centro de Estudos Geográficos.” Finisterra 37 (73) (2002): 109-117.

Gomes, Bernardino Barros

Lisboa, 30 setembro 1839 — Lisboa 5 outubro 1910

Palavras-chave: ordenamento florestal, geografia, cartografia, Administração-Geral das Matas.

Bernardino Barros Gomes foi um engenheiro silvicultor que introduziu em Portugal os métodos científicos do ordenamento florestal. Para sustentar o fomento deste ordenamento, lançou-se em estudos sobre flora, relevo, clima e agricultura, com trabalhos de campo e levantamentos cartográficos até chegar à uma visão integradora do país que esteve na base da construção da geografia científica em Portugal. 

Bernardino Barros Gomes nasceu e cresceu no seio de uma família com longa tradição ligada à Medicina e à Ciência: bisneto do médico José Manuel Gomes (1733–?), neto de Bernardino António Gomes (1768–1823), médico e botânico que isolou o antipirético cinchonina na casca da quina, e filho de Bernardino António Gomes (1806–1877) e Maria Leocádia Fernanda Tavares de Barros. O pai foi lente de Medicina e médico do Paço, colaborando em vários jornais científicos. O ambiente familiar foi propício ao estudo assíduo e à curiosidade científica, sobretudo no domínio das ciências naturais. Em 1843, nasceu o seu irmão Henrique, que fez carreira como economista e na política. Barros Gomes frequentou um colégio de Lisboa, continuando os seus estudos em Coimbra após a morte da sua mãe em 1853. Nesta cidade, então a única no país com universidade, matriculou-se nas Faculdades de Matemática e de Filosofia. Na primeira, obteve o bacharelato em 1859. Na segunda, ficou particularmente atraído pelo ensino da química e das ciências naturais, acabando a licenciatura em 1860. O jovem Barros Gomes apaixonou-se pela botânica, que o levou a passar férias e tempos livres estudando e classificando as plantas com Carlos Maria Gomes Machado (1828–1901), que recolhia espécies para os herbários da Universidade. Em 1860, partiu para a Universidade de Leipzig, onde se inscreveu num curso de aperfeiçoamento em química. Encontrou em Leipzig um estudante polaco, J. Rivoli, com quem travou uma longa amizade e partilhou uma expedição científica na serra da Estrela. Em 1861, matriculou-se num curso para alunos estrangeiros na Real Academia Florestal e Agrícola da Saxônia, em Tharandt, fundada em 1811 pelo pioneiro da ciência florestal alemã, Heinrich Cotta. Em 1862, a Real Academia conferiu-lhe o diploma final de especialização, com ótimos resultados e a confirmação do seu futuro desempenho profissional. Também foi em Tharand que o jovem estudante conheceu Elisa de Wilcke, com quem se casou em 1866. A ligação com a escola de Tharandt e seus professores permaneceu forte e Barros Gomes continuou a visitá-la na procura dos últimos progressos da ciência florestal. Divulgou em Portugal as inovações técnicas relevantes de Max Robert Pressler, inventor de uma sonda e das tabelas florestais para cálculo dos volumes dos arvoredos. O botânico Heinrich Moritz Willkomm, que talvez fosse o seu professor, estudou as coleções de plantas de Barros Gomes ao escrever Prodromus Florae hispanicae. Nunca deixou de aproveitar viagens no estrangeiro para tratar de assuntos científicos, privando, entre outros, com Frederich Welwitsch acerca do regresso dos herbários de Angola a Lisboa e outros botânicos em Londres. Encontrou-se com colegas espanhóis na Escuela de Ingenieros de Montes de Villaviciosa; por outro lado, outros nunca faltaram em recensear algumas das suas obras na Revista de Montes.Regressado da Academia de Tharandt em 1863, Barros Gomes iniciou logo a atividade profissional na Repartição de Agricultura do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria (MOPCI), que integrava a Administração-Geral das Matas. Foi encarregue de estudar os pinhais de Vale de Zebro e da Machada, perto do Barreiro, na ausência completa de informação prévia. Em 1864, apresentou um notável relatório, com estudo do meio natural e medições do arvoredo. Foi o primeiro trabalho sobre ordenamento florestal realizado no país, tendo o próprio autor procedido ao levantamento topográfico. Entretanto, em 1863, tinha publicado os seus primeiros artigos no Arquivo Rural, onde desenvolveu a prática do ordenamento florestal na Alemanha. Finalizado outro estudo sobre os efeitos da resinagem na produção lenhosa dos pinhais de Leiria, o reconhecimento da sua competência valeu-lhe ser nomeado, ainda em 1864, engenheiro do corpo civil na mesma Repartição da Agricultura do MOPCI. Em 1865, fez parte de uma comissão de estudo sobre Cabo Verde, produzindo um relatório sobre a arborização desta província portuguesa. A consagração destas atividades não se fez esperar: com apenas 25 anos, foi nomeado sócio correspondente da Academia Real das Ciências. A par das atividades e relatórios profissionais, Barros Gomes escreveu numerosos artigos até ao fim da sua carreira sobre assuntos diversificados da botânica, floresta e agricultura. Alguns foram a base para estudos de maior relevo, outros resultaram de conferências proferidas em diferentes locais. Prosseguiu os trabalhos em prol do ordenamento florestal nos pinhais de Vale de Zebro e da Machada e Leiria, até que, desiludido pelos rumos da política florestal, pediu a demissão em 1868. Foi-lhe concedida uma licença renovada até 1872. Durante estes anos, continuou os seus estudos, trabalhos de campo e divulgação técnica.Em 1872, após uma reforma da orgânica dos serviços florestais, voltou ao serviço, iniciando-se então o período mais fecundo da obra de Barros Gomes como engenheiro florestal e cientista. Foi sucessivamente nomeado diretor das Divisões Florestais Norte (1872), Sul (1874) e Centro (1879). As suas deslocações profissionais no país e os respetivos trabalhos de campo deram-lhe um conhecimento ímpar do ambiente natural e da vegetação. Elaborou trabalhos de síntese onde reuniu as suas observações e outras informações disponíveis de carácter orográfico, climático, botânico e florestal, acompanhadas por uma cartografia inovadora. Com o colega silvicultor Pedro Roberto da Cunha e Silva, preparou uma carta orográfica e regional de Portugal (1875), tendo por base a carta geográfica dirigida por Filipe Folque (1865), que representou o relevo com a nova técnica das curvas de nível. Elaborou também uma série de nove mapas com a distribuição das principais espécies florestais que permitiram a preparação da carta xilográfica ou dos arvoredos; esta série na escala 1:1 000 000 foi publicada no último Relatório da Administração Geral das Matas de 1879–1880. As duas cartas do relevo e dos arvoredos (escala 1:2 300 000) foram premiadas na Exposição de Filadélfia de 1876, para a qual Barros Gomes preparou todo o material, e integraram o primeiro trabalho do núcleo da obra científica de Barros Gomes, as Condições Florestaes de Portugal. Nesta obra, o cientista debruçou-se particularmente sobre a base naturalista — relevo, exposição, clima, geologia — e desenvolveu o comentário sobre a divisão regional do país, para apresentar a repartição das espécies florestais, utilizando fontes bibliográficas atualizadas em todas os domínios de conhecimento. Na “Notice sur les arbres forestiers du Portugal”, escrita em francês para a Exposição de Paris (1878), Barros Gomes apresentou uma reflexão sobre os processos de desarborização/florestação, procurando uma explicação ligada às mutações socioeconómicas que o país estava a atravessar. Finalmente, em 1878, publicou as Cartas Elementares de Portugal para uso das escolas. No prolongamento da preocupação da época, a última obra de fôlego de Barros Gomes foi concebida no intuito de contribuir à melhoria do ensino pela difusão dos conhecimentos. O autor reuniu cinco mapas, dois dos quais já estavam publicados (cartas dos concelhos, do relevo e regional, dos arvoredos, agronómica e da povoação concelhia) larga e devidamente comentados. Barros Gomes desenvolveu uma análise inovadora e integradora das “condições physicas e sociaes” do país e da divisão regional com base natural que já tinha esboçado nas Condições Florestaes. A influência direta das Cartas Elementares prolongou-se até meados do século XX nas propostas de divisão regional dos geógrafos Aristides de Amorim Girão, Hermann Lautensach e Orlando Ribeiro. Na sua correspondência, o próprio cientista reconheceu durante a elaboração desta última obra que, pondo os seus conhecimentos ao serviço da sociedade, cumpria uma forma mais plena de apostolado cristão. Desde meados dos anos 1870, Barros Gomes vivia mais intensamente a sua fé e trabalhava na Conferência Vicentina de Lisboa. No ano seguinte à publicação das Cartas Elementares, mudou o rumo da sua vida com o súbito falecimento da mulher, dois meses antes de tomar posse como diretor da Divisão Florestal do Centro. Consagrou-se ao Pinhal de Leiria, com uma nova planta e um plano decenal de ordenamento, colaborando também com João Inácio Ferreira Lapa e Jaime Batalha Reis num estudo sobre a resinagem. Em 1882, pediu a exoneração do cargo. Assegurou o futuro das três filhas e ingressou em 1883 na Congregação da Missão (Padres Lazaristas), tendo sido ordenado presbítero em 1888. Desde 1903,  o padre Barros Gomes passou a ensinar Ciências Naturais e Físico-Químicas no colégio de Arroios da Congregação, quando foi assassinado no dia 5 de outubro de 1910 nesta casa, durante os distúrbios que acompanharam a instauração da República.

Nicole Devy-Vareta
CEGOT, Universidade do Porto

Arquivos

Lisboa, Arquivo da Biblioteca do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas

Lisboa, Arquivo da Congregação da Missão, Padres Vicentinos.

Obras

Gomes, Bernardino Barros. “Estudos florestaes.” Archivo Rural 5(17, 19, 20, 21, 22) (1863):  462–465, 513–516, 541–545, 570–577, 599–605; 6 (2) (1863): 35–41.

Gomes, Bernardino Barros. Cultura das plantas que dão a quina, com cinco estampas lithografadas. Lisboa: Imprensa Nacional, 1864.

Gomes, Bernardino Barros. Relatorio florestal sobre as matas da Machada e Valle de Zebro. Lisboa: Imprensa Nacional, 1865. 

Gomes, Bernardino Barros. Novas taboas florestaes de Pressler reduzidas ao systema metrico e accommodadas ao uso portuguez. Lisboa: Lallemant Frères, 1875. 

Gomes, Bernardino Barros. Condições florestaes de Portugal, illustradas com as cartas orographica, xylographica e regional, os perfis transversaes e as curvas meteorologicas mais caracteristicas. Lisboa: Lallemant Frères, 1876. 

Gomes, Bernardino Barros. Exposição de Philadelphia. Administração Geral das Matas do Reino. Portugal. Lisboa: Lallemant Frères, 1876.

Gomes, Bernardino Barros. “Étude sur les espèces de chênes forestiers du Portugal.” Jornal de Sciencias Mathematicas, Physicas e Naturaes 5 (20) (1876): 235–241.

Gomes, Bernardino Barros. “Notice sur les arbres forestiers du Portugal.” Jornal de Sciencias Mathematicas, Physicas e Naturaes 6 (22) (1877): 110–129.

Gomes, Bernardino Barros. Cartas elementares de Portugal para uso das escolas approvadas para as escolas primarias pela Junta Consultiva de Instrucção Publica, e duas d’ellas duas vezes premiadas na exposição de Philadelphia de 1876. Lisboa: Lallemant Frères, 1878. 

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Bibliografia

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