Sanches, António Nunes Ribeiro

Penamacor, 7 março 1699 — Paris, 14 outubro 1784

Palavras-chave: Iluminismo, República das Letras, medicina, pedagogia.

António Nunes Ribeiro Sanches foi uma das figuras portuguesas que maior projeção adquiriu na cultura da Europa ilustrada. Os seus pais, Simão Nunes e Ana Nunes Ribeiro, eram cristãos-novos. Teve sete irmãos, Maria, Isabel, Guiomar, Diogo, Manuel, José e Theodosia. 

Com treze anos, após ter frequentado a escola latina, Sanches foi enviado pelo pai para a casa de uns familiares na Guarda. Aqui aprende a tocar cítara e convive com o erudito Martinho de Mendonça de Pina e Proença. Em 1716, matriculou-se no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra. Frequenta depois o curso de Direito Civil. Contudo, em 1720, acabou por abandonar esta instituição, devido à sua insatisfação com o ensino aí ministrado e o ambiente estudantil tumultuoso. Decidiu então cursar Medicina na Universidade de Salamanca onde, a 5 Abril de 1724, obteve o título de licenciado.

Regressou a Portugal e passou a exercer medicina em Benavente. Em 1726, o seu primo Manuel Nunes Sanches denunciou-o à Inquisição por práticas judaicas. O seu grande receio de ser alvo de perseguições religiosas, à semelhança do que já tinha acontecido com muitos dos seus familiares, levou-o a abandonar prontamente a pátria.

Dados os seus contactos familiares em Londres e a tolerância religiosa aí vivida, Sanches decidiu estabelecer-se nesta cidade. Foi acolhido pelo seu tio Diogo Nunes Ribeiro, médico e membro da comunidade sefardita de Bevis Marks. No âmbito deste círculo social e religioso, abraçou o culto do judaísmo e submeteu-se à circuncisão. Conheceu também o naturalista Emanuel Mendes da Costa (1717–1791) e o médico Jacob de Castro Sarmento (1691–1762), ambos membros da Royal Society of London. Nos dois anos que permaneceu na capital inglesa, alargou os seus horizontes intelectuais e aprofundou a sua formação médica e científica. Frequentou com entusiasmo as aulas do médico James Douglas (1675–1742) e do matemático Jacob Stirling (1688–1766). Visitou hospitais, a coleção de história natural de Hans Sloane (1660–1753) e tomou contacto com a literatura médica então publicada em Inglaterra que, mais tarde, referenciará em algumas das suas obras. 

Em 1728, Sanches regressou ao continente europeu. Nesta sua nova etapa, começou por visitar a Universidade de Montpellier, passando por Paris e Marselha onde conheceu o médico João Baptista Bertrand (1670—1752), que o aconselhou a frequentar as lições de Herman  Boerhaave (1668—1738) na Universidade de Leiden. Seguidamente, o médico português partiu para Pisa, onde, por um breve período, frequentou a universidade. No Inverno de 1729, encontra-se em Bordeaux. Foi aqui que uma família judia o convidou para acompanhar e orientar os estudos médicos  do seu filho em Leiden, oferta que aceitou sem qualquer hesitação. Chegou a esta cidade no início de 1730 e, a 12 de abril, matriculou-se, também ele, na Faculdade de Medicina da Universidade. A sua passagem por este afamado centro universitário, onde permaneceu durante quase dois anos, e a possibilidade que teve de ser discípulo de Boerhaave marcaram de forma indelével a sua formação e o seu futuro profissional. Foi o eminente médico que recomendou o nome de Sanches à imperatriz Ana Ivanova (1693–1740) para médico ao serviço da Corte Russa.

O período em Leiden foi também determinante para o desenvolvimento da rede de contactos que Sanches tinha iniciado em Inglaterra. Ao longo da sua vida, o médico português manteria correspondência com Hieronym David Gaubius (1705–1780), Gerard Van Swieten (1700–1772) e Albrecht von Haller (1708–1777), também eles discípulos de Boerhaave. Já na Rússia, e depois em França, estabeleceu trocas epistolares com Herman Kauu e Abraham Kauu, sobrinhos e testamentários do seu mestre, o que lhe permitiu ter acesso a alguns dos seus manuscritos.

Sanches chegou à Rússia em Outubro de 1731, sendo nomeado médico do Senado e da Cidade de Moscovo. Passados dois anos, foi chamado para exercer medicina junto da Corte Russa em São Petersburgo. Passados quatro anos, foi nomeado Primeiro Médico da Armada Imperial, lugar que lhe permitiu estudar doenças que eram comuns nos campos militares e conduzir observações em hospitais de campanha. Após as expedições militares, regressou à capital russa e foi nomeado médico do Corpo Imperial de Cadetes, instituição dedicada à educação de membros da alta aristocracia russa. Em 1740, passou a ocupar o lugar de médico da Corte e a assistir de perto vários membros da família imperial, tendo desempenhado um papel crucial na cura da princesa Sophia Augusta e da futura imperatriz Catarina II (1729–1796), na altura com 15 anos. Esta aludiria ao facto com gratidão nas suas Memórias. Os sucessos do médico português na Corte Russa motivaram a sua designação como Conselheiro de Estado em 1744. Contudo, devido a intrigas políticas e a alegações de judaísmo, Sanches foi forçado a deixar a Rússia em 1747. Antes de partir, a Imperatriz Isabel Petrovna (1709–1762) honrou-o com um certificado de bons serviços e a Academia Imperial das Ciências nomeou-o membro estrangeiro, atribuindo-lhe uma tença anual de 200 rublos. Sanches decidiu estabelecer-se em Paris, cidade onde permanecerá até ao final dos seus dias. No seu trajeto, passou por Berlim e foi recebido por Frederico II da Prússia. Na capital francesa, tomou conhecimento de que foi excluído como membro da Academia russa após uma denuncia à Imperatriz, a qual era anti-semita militante, de que Sanches era judeu de nascimento e praticante. Após a  ubida ao trono de Catarina II em 1762, foi-lhe estabelecida uma pensão anual e vitalícia de mil rublos. Contudo, não lhe foi restituído o título de membro da Academia.

Os cerca de dezasseis anos passados na Rússia desempenharam um papel crucial na vida e na obra de António Nunes Ribeiro Sanches. Aqui enriqueceu a sua experiência médica e esboçou algumas das obras que, mais tarde, viria a publicar. Este período foi ainda determinante na extensão da sua rede de contactos e correspondentes, para a qual a frequência da Academia Imperial das Ciências em São Petersburgo desempenhou um papel central. Foi através desta instituição que conhece o matemático Leohnard Euler (1707–1783), o naturalista Johann Georg Gmelin (1709–1755), o estudioso de música e Director da Academia Jacob von Stahlin (1709–1785) e o matemático e Secretário da Academia Christian Goldbach (1690–1764). Tem também a oportunidade de conviver com o estudioso de línguas e história oriental Gottlieb Siegfried Bayer (1694–1738) e o astrónomo Nicholas Delisle (1688–1768), através dos quais iniciou correspondência com jesuítas portugueses a residir na cidade de Pequim, que lhe enviavam notícias sobre plantas do oriente e sobre práticas médicas chinesas. Por sua vez, o médico português enviava-lhes várias obras e instrumentos científicos, tendo, provavelmente, recorrido a Jacob de Castro Sarmento. Em várias ocasiões, Sanches atuaria como intermediário entre várias instituições, com vista ao envio de informações, bibliografia e objetos científicos. Ainda na Rússia, manteve com este propósito contactos com Academia Real da História Portuguesa. 

Em Paris, Sanches consolidou e ampliou a sua rede de amigos e correspondentes. Passou a conviver de perto com Charles Andry (1741–1829) e Félix Vicq d´Azir (1748–1794), ambos professores da Faculdade de Medicina da Universidade  de Paris e membros fundadores da Société Royale de Médecine, à qual irá pertencer. Estabeleceu também contacto com os astrónomos Jean Jacques Mairan (1678–1791) e Charles Messier (1730–1817), o Conde de Buffon (1707–1788) e o seu colaborador Louis D´Aubenton (1716–1800). Foi para o célebre naturalista que, ainda na Rússia, compilou observações sobre história natural que mais tarde figurariam no terceiro volume da História Natural (1769) deste autor. O médico português travou ainda conhecimento com o matemático e co-editor da Encyclopédie Jean le Rond D´Alembert (1717–1783) e o filósofo e co-editor da Encyclopédie Denis Diderot (1713–1784). 

Foi na capital francesa que Sanches redigiu a maioria das suas obras e manuscritos, tendo sido os estudos sobre a sífilis os que mais marcaram a sua contribuição para a medicina da época e a obra Dissertation sur l’origine de la maladie vénérienne a que alcançou mais sucesso editoral. Foi publicada pela primeira vez em Paris em 1750, vindo a ter duas re-edições (1756, 1765) e traduções em inglês (1751), alemão (1775) e holandês (1792). Mais tarde, veio a lume o Examen historique sur l’apparition de la maladie vénérienne en Europe, supostamente editado em Lisboa em 1774. Estas duas obras foram depois reunidas num só volume, preparado e dado à estampa por Hieronym David Gaubius, em Leyden, em 1778. Ainda em vida, redigiu, a convite de Diderot, uma pequena síntese sobre o diagnóstico e tratamento da doença venérea crónica, destinada à segunda edição da Encyclopédie num volume publicado em 1771. Postumamente virão a lume, com a chancela da Sociedade Real de Medicina de Paris, as Observations sur les maladies vénériennes (1785), uma edição organizada e revista por Charles Andry.

O médico português iniciou o seu interesse pelas doenças venéreas quando ainda se encontrava na Rússia. Aqui, conduziu estudos sobre as virtudes terapêuticas  os banhos de vapor preparados neste país e assinalou os seus efeitos benéficos no tratamento de várias doenças e, em particular, da sífilis. Registou também a manifestação clínica da doença e indicou métodos para o seu tratamento. A sua preferência recaiu sobre a administração oral de um preparado de bicloreto de mercúrio, também conhecido por sublimato corrosivo. O autor demonstrou ainda, em oposição ao que no seu tempo se admitia, que a sífilis já era conhecida na Europa alguns anos antes do regresso de Colombo da sua segunda viagem.

Sanches nunca regressou ao seu país natal mas, durante toda a sua vida, manteve um interesse vivo por aquilo que estava a acontecer em Portugal. Evidenciam-no a sua correspondência e algumas das obras que escreveu especificamente destinadas a uma audiência portuguesa. O seu objetivo era o de contribuir para a circulação de novas ideias e para alterações sobre os modos de pensar, particularmente no domínio da educação. O seu pensamento pedagógico esteve em inteira consonância com o papel primordial que era atribuído à instrução no século XVIII. O ideal de progresso da Europa ilustrada encontrava-se intimamente ligado a um sistema eficiente de ensino e destacava o papel fulcral da circulação de conhecimento entre os vários países e centros de aprendizagem. 

Em Paris, Sanches manteve contacto com diplomatas, sábios, médicos e estudantes portugueses a viver nesta cidade, alguns deles no exílio. Entre eles, encontrava-se José Joaquim Soares de Barros (1721–1792) que, depois de cursar matemática em Inglaterra e na Holanda, foi aluno de Alexis Clairaut (1713–1765) e Joseph Nicholas Delisle (1688–1768). Entre 1767 e 1787, conviveu com o padre oratoriano Teodoro de Almeida (1722–1804) exilado em Paris. Foi também nesta cidade que conheceu João Jacinto de Magalhães (172–1790) residente em Londres, mas que, devido à sua actividade de intermediário na troca e venda de obras e instrumentos científicos, se deslocava com frequência ao continente. Um dos seus correspondentes, a partir de Roma, foi Luís António Verney (1713–1792) com quem partilhou ideais e princípios pedagógicos.

Das obras que Sanches destinou a um público português, o Tratado sobre a Conservação da Saúde dos Povos (1756), publicado um ano após o Terramoto de 1755, foi a que alcançou maior reconhecimento ao longo da história. Tendo como audiência privilegiada os encarregados dos povos, o volume versa uma espécie de “medicina política” cuja finalidade é a de transformar a própria medicina num dos alicerces da racionalização da vida política e social. Tornava-se assim necessária a implementação de leis e de regulamentos que promovessem a conservação da saúde dos povos, sendo imprescindível que o médico, como legislador do corpo humano, indicasse os meios mais eficazes para estabelecer a saúde do corpo coletivo, quer em tempo de paz ou em tempo de guerra. É com base em noções da medicina hipocrática e nas novas descobertas da química pneumática, que o autor preconiza uma conceção higienista baseada na qualidade do ar dos espaços públicos incluindo as igrejas, os hospitais civis e militares, as prisões, os conventos e, igualmente, os navios. Sanches reclama a responsabilidade do Estado e dos seus dirigentes na higiene do corpo coletivo, defende que a prevenção deve ser considerada como o primeiro degrau da terapêutica e que o Estado deve ter um papel central na profilaxia, nomeadamente no que respeita à prevenção de doenças contagiosas. A principal estratégia de conservação da saúde pública é efetivada através da implementação de procedimentos elementares na purificação do ambiente e, em especial, dos espaços públicos e promíscuos. O Tratado revela o conhecimento do autor em relação às mais recentes autoridades na matéria. Contudo, não obstante os conhecimentos teóricos e práticos que demonstra, bem como a antecipação nas medidas preventivas que preconiza, o Tratado da Conservação da Saúde dos Povos não parece ter tido uma repercussão significativa na medicina e sociedade portuguesa da época. Na verdade, o Marquês de Pombal (1699–1782), Primeiro Ministro de D. José I (1714–1777), ignorou em grande parte a moderna e pioneira topografia sanitária contida na proposta higiénico-urbanística de Ribeiro Sanches. A obra foi, no entanto, objeto de uma edição revista em 1757. Viria ainda a ser traduzida em castelhano em 1781 e a secção sobre terramotos apresentada no seu final traduzida em italiano em 1783.

Após a expulsão dos jesuítas em 1759, tornava-se urgente uma reforma do sistema educacional português, tendo Sanches sido convidado a contribuir para a reestruturação dos estudos médicos da universidade de Coimbra. O seu interesse por questões pedagógicas já vinha de longa data. Em 1731 tinha delineado um plano sobre esta matéria quando residia em Leiden e, mais tarde, foi consultado pela Universidade de Estrasburgo em relação a um projecto sobre o ensino da cirurgia. Para além disso, as suas Cartas sobre a educação da mocidade vieram a lume em 1760. Nas mesmas, apresentava uma história do ensino e da pedagogia na Europa e uma defesa da laicização da educação e da sociedade em geral. Os princípios pedagógico protagonizados na obra influenciaram os moldes em que viria a funcionar o Real Colégio dos Nobres fundado em 1761.

Por volta de 1760, Sanches debatia os seus planos para a reorganização da educação médica em Portugal com o seu amigo Soares de Barros e o médico Joaquim Pedro de Abreu. Numa carta enviada para o Marquês de Pombal em 1763, anunciava que o Método para aprender e estudar a Medicina estava impresso e tinha sido enviado para Lisboa. Nesta obra, o médico e pedagogo defende a secularização da educação e a sua estruturação tendo como principal objetivo a utilidade pública. Realça a importância cimeira da observação e da experiência no novo sistema educacional médico e que da Faculdade de Medicina passem a fazer parte integrante um hospital, um teatro anatómico, um jardim botânico e um laboratório químico e farmacêutico. Atribui também relevância à inclusão da História da Medicina no curriculum já que a considera fundamental ao desenvolvimento do conhecimento científico e humanitário, ambos necessários à formação dos futuros médicos. Encoraja ainda o estágio dos estudantes portugueses em centros de excelência no estrangeiro, assim como a troca de experiências entre estudiosos de diferentes países europeus. No entanto, o projeto de Sanches foi apenas parcialmente adotado pela Comissão responsável pelos novos estatutos da Universidade de Coimbra e, em todo o caso, não lhe foi atribuído qualquer reconhecimento.

Os interesses de António Nunes Ribeiro Sanches não se restringiram à medicina e à pedagogia, tendo também abrangido a religião, a economia e a política e até as obra de Luís de Camões para as quais redigiu um ensaio introdutório em 1760. A grande riqueza do seu percurso vivencial e profissional contribuiu decisivamente para o ecletismo dos seus estudos e a repercussão que alcançaram na Europa Ilustrada e, embora em menor grau, em Portugal. Esta riqueza contribuiu ainda para que estabelecesse uma vasta rede de contactos com médicos, estudiosos de várias áreas, diplomatas e altas figuras de vários países e instituições. Foi essencialmente no âmbito de trocas de conhecimento e de influências, nomeadamente por via epistolar, que Sanches conseguiu conquistar para si um lugar de destaque na República das Letras do seu tempo.

Palmira Fontes da Costa

Obras

Sanches, António Ribeiro. “Affections de l’ame.” In Encyclopedie methodique — médecinepar une société de médecins, vol. I A-ALI: 247–277. Paris: Panckoucke, 1787. 

Sanches, António Ribeiro. Observations sur les maladies vénériennes, ed. Charles Andry. Paris: Théophile Barrois le Jeune, 1785.

Sanches, António Ribeiro. “Mémoire sur les bains de vapeur de Russie, consideres pour la conservation de la santé et pour la guérison de plusieurs maladies.” Histoire de la Société Royale de Médecine (1779): 223–280. Paris: Théophile Barrois le Jeune, 1782. 

Sanches, António Ribeiro. Dissertation sur l’origine de la maladie vénérienne, pour prouver que le mal n’est pas venu d’Ameriquem mais qu’il a commencé en Europe, par une epidemie: suive de l’examen historique sur l’apparition de la maladie véneérienne en Europe et la nature de cette epidémieNouvelle edition revue et corrigée. Leiden: Henri Hoogenstraaten, 1778).

Sanches, António Ribeiro. Examen historique sur l’apparition de la maladie vénérienne en Europe, et sur la nature de cette épidémie. Lisbonne, 1774).

Sanches, António Ribeiro. “Maladie vénérienne chronique.” In Encyclopédie ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers, ed. Diderot e D’Alembert, vol. XVI: 83–84. Neuchatêl: Samuel Faulche, 1771. 

Sanches, António Ribeiro. Método para aprender e estudar a Medicina, illustrado com apontamentos para estabelecerse huma Universidade Real na qual deviam aprender-se as Sciencias humanas de que necessita o Estado Civil e Politico. Paris, 1763.

Sanches, António Ribeiro. Cartas sobre a educação da mocidade. Colónia, 1760. 

Sanches, António Ribeiro. “Ao leitor sobre esta edição.” Obras de Luis de Camões. Paris: Pedro Gendron, 1759).

Sanches, António Ribeiro. Tratado da Conservação da Saúde dos Povos: Obra útil e, igualmente, necessária aos Magistrados, Capitães Generais, Capitães de Mar e Guerra, Prelados, Abadessas, Médicos e Pais de Famílias: Com um Apêndice: Considerações sobre os Terramotos, com a notícia dos mais consideráveis, de que faz menção a História, e dos últimos que se sentiram na Europa desde o I de Novembro 1755. Paris, 1756.

Sanches, António Ribeiro. Dissertation sur l’origine de la maladie vénérienne, dans laquelle on prouve qu’elle n’a point été apportée de l’Amérique, et qu’elle a commencé en Europe, par une épidémie. Paris: Durand et Pinot, 1750.

Bibliografi  sobre o biografado 

Costa, Palmira Fontes da e António Jesus. “António Ribeiro Sanches and the circulation of medical knowledge in eighteenth-century Europe.” Archives Internationales d’Histoire des Sciences 56 (2006): 185–197.

Dulac, Georges. “Science et Politique: les réseaux du Dr António Ribeiro Sanches (1699-1783).” Cahiers du Monde Russe 43 (2002): 251–274.

Lemos, Maximiano. Ribeiro Sanches, a sua vida e a sua obra. Porto: Eduardo Tavares Martins, 1911.

Machado, Fernando Augusto. Educação e Cidadania na Ilustração Portuguesa: Ribeiro Sanches. Porto: Campo de Letras, 2001.

WillenseDavid. António Nunes Ribeiro Sanches, élève de Boerhaave et son importance pour la Russie. Leiden: E. J. Brill, 1966.

Paiva, Manuel Joaquim Henriques de

Castelo Branco, 23 dezembro 1752 — Baía, ca. 1829

Palavras-chave: medicina, farmácia, Iluminismo, popularização.

Manuel Joaquim Henriques de Paiva foi um boticário, bacharel em Filosofia e médico, que se notabilizou na clínica, na investigação, no ensino e na popularização das ideias médicas, tendo sido o mais prolífico escritor médico do Iluminismo português.

Descendeu de uma família de cristãos-novos com tradição no âmbito das artes da cura. O seu pai foi António Ribeiro de Paiva, boticário e cirurgião acreditado, assim como boticário parece ter sido o seu avô materno, João Henriques. Dos seus dez irmãos, talvez a influência mais decisiva no seu percurso profissional, académico e literário tenha sido exercida por José Henriques Ferreira, médico e comissário do físico-mor do Reino no Brasil. Henriques de Paiva      foi também, com muita probabilidade, familiar do médico e enciclopedista António Nunes Ribeiro Sanches, com quem      manteve frequente troca epistolar.     

Sob os auspícios do irmão José Henriques Ferreira, Henriques de Paiva partiu em 1769, juntamente com o pai, para o Rio de Janeiro, com o intuito de aprofundar os seus conhecimentos farmacêuticos e botânicos. Um ano após a sua chegada, obteve carta de aprovação para o ofício de boticário (16 de junho de 1770), perante um júri de que fazia parte o seu próprio irmão, porventura por imposição do cargo de comissário do físico-mor que exercia, juntamente com outros três boticários. Em conjunto com o irmão e o pai, Paiva envolveu-se na criação da Academia Fluviense Médica, Cirúrgica, Botânica e Farmacêutica (1772), tendo-se dedicado ao estudo da fauna brasiliensis enquanto se aperfeiçoava na botica da mesma academia.

Com o objetivo de obter a formatura em Medicina, regressou à metrópole provavelmente ainda em 1772, ingressando na Universidade de Coimbra, onde foi nomeado Demonstrador de Química e de História Natural na Faculdade de Filosofia, cargo que      exerceu, com bastante probabilidade, entre 1773 e 1777. Neste período, envolveu-se na criação e dinamização da Sociedade de Celas ou Sociedade dos Mancebos Patriotas, em Coimbra, uma ambicionada agremiação científica que visou promover o debate livre e a discussão em torno de diversas inovações teóricas e metodológicas no campo científico. 

Em 1781, formou-se em Medicina pela Universidade de Coimbra, sendo que há indícios claros de que exerceu prática clínica nas cidades de Coimbra e Lisboa e seus arredores (Caparica, Almada e Pragal) nos anos de 1777 e 1778, ainda antes da conclusão dos seus estudos médicos – uma realidade que, à época, estava longe de constituir uma exceção. Nas décadas seguintes, Henriques de Paiva      notabilizou-se não só no exercício da clínica privada em Lisboa (com consultório aberto na rua dos Sapateiros), mas também como figura de relevo no seio de algumas das instituições pedagógicas, científicas e políticas mais relevantes e dinâmicas do seu tempo. Com efeito, entre inícios da década de 1780 e c. 1807, foi nomeado para cargos diversos: académico correspondente da Academia Real das Ciências,      diretor do Laboratório Químico da Casa Pia, médico da Casa Real;      diretor do  Dispensatório Geral do Exército, deputado da Real Junta do Protomedicato e lente da cadeira de Farmácia, criada em Lisboa em 1801, em dependência da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra, além de manter estreita colaboração com o Laboratório da Casa da Moeda.   

Espírito inquieto e polémico, incompatibilizou-se frequentemente quer com autores (a polémica com o boticário lisboeta Francisco Raimundo Xavier da Costa, autor de  Apologia Crítico-Química e Farmacêutica, é a que mais merece destaque) quer com diferentes instituições, da Real Academia das Ciências à Censura e seus acólitos. Foi também perseguido, a diferentes tempos, pela justiça secular e pela justiça inquisitorial. Na ação judicial que lhe foi movida pela Inquisição de Coimbra em 1779, celebrizada na historiografia como o processo dos presuntos, Henriques de Paiva foi acusado de condutas atentatórias da fé e da santa disciplina da Igreja católica – discorrer sobre os erros formais do dogma, comer carne durante o período da Quaresma, maldizer Portugal e a falta de liberdade que aí se vivia – mas acabaria por ver o seu processo arquivado, por razões que se desconhecem.

Desfecho diferente teve a ação judicial com que se viu confrontado em 1808, numa acusação com contornos de crime de lesa-majestade. No contexto das Invasões Francesas, foi acusado de ter opinado publicamente em favor da invencibilidade de Napoleão e do exército agressor, o que lhe valeu o encarceramento nas cadeias da Trafaria e Almada e a exoneração de todos os cargos públicos a que havia ascendido. Juízo condenatório proclamado pela Junta da Inconfidência conduziu-o a um exílio definitivo no Brasil, onde, em 1818, ainda pôde assistir à reposição de todos os seus anteriores cargos e distinções por Decreto Real de D. João VI. Não mais      regressou a Portugal, tendo-se dedicado ao ensino da matéria médica e da farmácia no Colégio Médico-Cirúrgico na cidade da Baía, em terras de Vera Cruz.   

Especial destaque merece a sua produção literária, muito vasta e multifacetada. Publicou como autor e tradutor e “ordenou, corrigiu, aditou ou fez imprimir” um conjunto muito significativo de obra de outros autores. Distribuídos por estas categorias, foram-lhe atribuídos mais de meia centena de títulos. Enquanto autor, e no âmbito da farmácia e da química, destacamos as obras Elementos de Química e Farmácia e Farmacopeia Lisbonense, ou Colecção dos Simplices, Preparações e Composições Mais Eficazes e de Maior Uso. No domínio da medicina, assinou diversos Avisos ao Povo redigidos de acordo com o espírito do Iluminismo – obras de popularização das ideias médicas – que se debruçaram sobre temas de saúde pública muito significativos à época (asfixia, morte aparente, envenenamento), sendo igualmente de destacar as suas diversas contribuições no Jornal Enciclopédico. Sobre a profilaxia da varíola, publicou Preservativo das Bexigas e dos Seus Terríveis Estragos, ou História da Origem, e Descobrimento da Vacina, dos Seus Efeitos e Sintomas, e do Método de fazer a Vacinação, obra que conheceu duas edições em 1801 e 1806.

Foi igualmente um tradutor prolífico, vertendo para a língua portuguesa obras de autores e áreas científicas diversos de que destacamos Buchan, Plenck e Tissot, em medicina, Lineu, Scopoli e Brisson, em história natural, ou Fourcroy, em química. Por último, das várias obras que “ordenou, corrigiu e fez editar” destaca-se o Discurso crítico em que se mostra o dano que tem feito aos doentes, e aos progressos da medicina, em todos os tempos, a introdução e uso de remédios de segredo e composições ocultas, da autoria do seu irmão José Henriques Ferreira, que constitui um documento essencial para a história da medicina portuguesa no período do Iluminismo. 

Bruno Barreiros
CHAM – Centro de Humanidades 
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa; Universidade dos Açores 

Obras

Paiva, Manuel Joaquim Henriques de. Directório para se Saber o Modo, e o Tempo de Administrar o Alcalino Volátil Fluído nas Asfixias, ou Mortes Aparentes, nos Afogados, nas Apoplexias, na Mordedura de Víbora, de Lacraus e Outros Insectos, nas Queimaduras, na Raiva, e Outras Muitas Enfermidades. Lisboa: Régia Oficina Tipográfica, 1782. 

Paiva, Manuel Joaquim Henriques de. Elementos de Química e Farmácia. Lisboa: Impressão da Academia das Ciências, 1783. 

Paiva, Manuel Joaquim Henriques de. Farmacopeia Lisbonense, ou Colecção dos Simplices, Preparações e Composições Mais Eficazes e de Maior Uso. Lisboa: Oficina de Filipe da Silva e Azevedo, 1785. 

Paiva, Manuel Joaquim Henriques de. Preservativo das Bexigas e dos Seus Terríveis Estragos, ou História da Origem, e Descobrimento da Vacina, dos Seus Efeitos e Sintomas, e do Método de fazer a Vacinação. Lisboa: Oficina de João Rodrigues Neves, 1801. 

     Paiva, Manuel Joaquim Henriques de, trad. Aviso ao Povo Acerca da Sua Saúde, por Mr. Tissot, Traduzido do Francês Sobre a Última Edição de Paris. Lisboa: Régia Oficina Tipográfica, 1777, 2 tomos. 

Paiva, Manuel Joaquim Henriques de, trad. Instituições de Cirurgia Teórica e Prática, que Compreendem a Fisiologia, e a Patologia Geral e Particular, Extraída do Compêndio das Instituições Cirúrgicas, dos Elementos de Cirurgia e de Outras Obras do dr. José Jacob Plenck, e Notavelmente Acrescentadas. Lisboa: Oficina de Filipe da Silva e Azevedo, 1786. 2 tomos.   

Paiva, Manuel Joaquim Henriques de, trad. Medicina Doméstica, ou Tratado de Prevenir e Curar as Enfermidades, com o Regimento e Medicamentos Simples: Escrito em Inglês pelo Dr. Guilherme Buchan, Traduzido para Português com Várias Notas e Observações Concernentes ao Clima de Portugal e do Brasil, com o Receituário Correspondente, e um Apêndice sobre os Hospitais Navais. Lisboa: Oficina Morazziana, 1788.      4 tomos.     

Bibliografia sobre o biografado

Dias, José Lopes. “Manuel Joaquim Henriques de Paiva. Médico e Polígrafo Luso-Brasileiro.” Imprensa Médica 18 (3) (1954): 145–     171.

Giffoni, Carneiro. Presença de Manoel Joaquim Henriques de Paiva na Literatura Luso-Brasileira do Século XVIII”. São Paulo: II Congresso Brasileiro de História da Medicina, 1954. 

Pita, João Rui. “Manuel Joaquim Henriques de Paiva: Um Luso-Brasileiro Divulgador de Ciência. O Caso Particular da Vacinação Contra a Varíola.” Mneme – Revista de Humanidades 10 (26) (2009): 91–102. 

Roque, Mário da Costa. “Manuel Joaquim Henriques de Paiva. Estudante Coimbrão.” Arquivo de Bibliografia Portuguesa 15 (59-60) (1969) .

Silva, Inocêncio Francisco da. Dicionário Bibliográfico Português.     Lisboa: Imprensa Nacional, 1862. 

Fortes, Manuel de Azevedo

Lisboa, ca. 1660 – Lisboa, 28 março 1749

Palavras-chave: engenharia militar, estrangeirado, ensino, Iluminismo.

Manuel de Azevedo Fortes nasceu em 1660, filho natural de Monsieur Lembrancour, um nobre francês então na Corte de Lisboa exercendo o cargo de Intendente das tropas francesas, e de uma senhora portuguesa de alta condição, cujo nome não se sabe. Embora os pais não assumissem a paternidade, pelo que Manuel de Azevedo Fortes foi exposto no Hospital Real de Todos os Santos (Fortes deu, para fins oficiais, várias indicações diferentes no que respeita à sua filiação), o pai responsabilizou-se activamente pela sua educação, na qualidade de benfeitor, permitindo-lhe, desde cedo, um contacto com o estrangeiro, onde, aliás, fez toda a sua formação em moldes totalmente diferentes do que, à época, se fazia em Portugal nas classes abastadas e, particularmente, na corte.  

Com apenas 10 anos o jovem Manuel de Azevedo Fortes foi enviado, primeiro para o Colegio Imperial de Madrid, essencialmente vocacionado para as belas letras e, depois, para a Universidade de Alcalá de Henares para “se instruir nas sciencias severas”, nomeadamente na área da Filosofia. O êxito dos seus estudos, levaram o pai a enviá-lo para França, para o famoso Colégio de Plessis-Sorbonne, com o objectivo de aperfeiçoar os seus conhecimentos em Filosofia Moderna, Filosofia Experimental e Matemática, tendo sido em todas estas disciplinas um aluno brilhante. 

Já formado, Manuel de Azevedo Fortes concorreu ao lugar de professor de Matemática na Universidade de Siena, onde, após leccionar um primeiro triénio, lhe foi pedido pelo governador da cidade, Francisco Maria de Médicis, irmão do Grão-Duque da Toscânia, que permanecesse mais três anos, o que, efectivamente, aconteceu. A morte de seu pai durante este último período e, portanto, a cessação do apoio financeiro que deste recebia, levaram-no a aceitar um benefício oferecido por Francisco de Médicis. 

Para resolver questões burocráticas indispensáveis à tomada de posse deste benefício, Azevedo Fortes deslocou-se a Portugal, onde foi recebido entusiasticamente pelos círculos intelectuais portugueses, nomeadamente por D. Francisco Xavier de Meneses, 4º Conde de Ericeira, um dos ícones das “Luzes” portuguesas. O círculo de Ericeira, como é habitualmente conhecido, era o corolário de uma linhagem de academias – Academia dos Generosos (1649-1692), Academia das Conferências Discretas (ou Academia dos Discretos, 1696-1717) – em que se fomentava o debate sobre temas de filosofia e ciência europeias que, de outra forma, dificilmente chegavam a Lisboa. A casa do Conde de Ericeira, no Largo da Anunciada, era o centro das ideias do iluminismo em Portugal, constituindo o nosso primeiro cenáculo esclarecido. À volta do Conde da Ericeira e das suas Conferências Discretas e Eruditas, gravitava um círculo de políticos, eruditos, professores e homens viajados a par das novas ideias científicas, conhecedores e leitores das obras mais recentes em diversos campos, como o Reverendo D. Manuel Caetano de Sousa, D. José de Barbosa, Manuel Serrão Pimentel, D. Luís Caetano de Lima e Rafael Bluteau. A esta plêiade de intelectuais iluministas, juntou-se Manuel de Azevedo Fortes, convidado ainda na sua viagem de regresso, para abordar temas relacionados com a nova Lógica. 

O rei D. Pedro II, partilhando das opiniões extremamente favoráveis relativas a Azevedo Fortes, força a sua permanência no reino e na corte, oferecendo-lhe, em 1686, o cargo de docente de Matemática na Aula de Fortificação e Arquitectura Militar, na Ribeira das Naus, onde leccionou pelo menos até 1703, e empossando-o, em 1698, na patente de Capitão de Infantaria, com aplicação de engenheiro, e em 1703 na de Sargento-Mor engenheiro. Já em plenas funções na carreira militar, o facto de falar correctamente o português, o castelhano o italiano e o francês, levou-o a desempenhar, a par dos trabalhos mais comuns à fortificação, algumas funções específicas, nomeadamente de espião militar, disfarçado de hortelão, em praças espanholas, e de oficial de ligação, com as funções de tradutor, entre as praças e patentes mais baixas portuguesas e os oficiais superiores do exército estrangeiro. Em 1710, já no reinado de D. João V, é nomeado governador da Praça de Castelo de Vide, com o posto de Coronel, sendo o responsável pela reedificação desta praça. Em 1719 é nomeado Engenheiro-Mor e Brigadeiro dos Exércitos do Reino e, em 1735, é promovido a Sargento-Mor de batalha.

Quando, em 1720, D. João V fundou a Academia Real de História, Manuel de Azevedo Fortes foi um dos 27 sócios fundadores indicados pelo Conselho de Sua Majestade, sendo-lhe atribuída, em conjunto com o matemático Padre Manoel de Campos (um dos 23 sócios fundadores indicados por instituições religiosas), a responsabilidade pelos “pontos Geograficos da Historia, assim Ecclesiastica, como Secular destes Reynos”, tarefa cartográfica que, não obstante o seu empenhamento, não conseguiu levar a bom termo.

Apesar deste desaire, referido inúmeras vezes pelo próprio, Manuel de Azevedo Fortes conseguiu impor o seu projecto mais global de afirmação da engenharia militar portuguesa. Neste contexto, interveio directamente na construção de um espaço pedagógico e profissional para o métier de engenheiro, na óptica do que mais moderno se fazia ao tempo, mantendo-se sempre fiel à difusão das novas formas do pensamento europeu em Portugal. A par dos projectos académicos e pedagógicos, Manuel de Azevedo Fortes participou em numerosos projectos de fortificação em todo o país, quer de raiz, quer introduzindo modificações, assumindo-se como uma referência na área da engenharia militar. 

A educação que teve fora de Portugal, a carreira profissional que iniciou no estrangeiro, os contactos que manteve com o que se passava no exterior das fronteiras do reino, em larga medida proporcionados pelo seu conhecimento de três línguas europeias, e a sua integração no círculo ericeirence, fazem de Manuel de Azevedo Fortes um caso paradigmático da importância dos estrangeirados na definição de uma nova racionalidade científico-tecnológica em Portugal, ligada aos princípios do Iluminismo. Esta nova atitude face ao papel a desempenhar pela ciência e a tecnologia nas sociedades modernas, com que Fortes convivera nos países estrangeiros, está bem espelhada nas suas obras. 

No quadro das Luzes, os trabalhos de Azevedo Fortes, embora focando-se em aspectos específicos da engenheiro militar, partilham de um projecto global de modernização da sociedade portuguesa, de que o uso do vernáculo, e não do latim, é emblemático. A importância da educação formal e a relevância da sedimentação de uma comunidade nacional de engenheiros militares são claras, não só pelo número de militares com exercício de engenharia que a procuram e frequentam, como pelos esforços no sentido do seu alargamento a outras partes do Reino, nomeadamente ao Brasil e à Índia.  

É precisamente sobre estas questões profissionais e de formação que o recém-nomeado Engenheiro-Mor do reino publicou, em 1719, a Representação sobre o Modo e Direcção que devem ter os Engenheiros para melhor sevirem n’este Reino e suas Conquistas, primeiro esboço de um regulamento para o exercício da profissão de engenheiro.

No contexto das suas tarefas na Academia Real de História, Fortes escreveu o Tratado do modo mais fácil e o mais exacto de fazer cartas geographicas, assim como do mar e tirar as plantas das praças, cidades e edíficios com instrumentos e sem instrumentos (1722), obra que, tendo como motivação última recuperar a liderança portuguesa na área da cartografia, se tornou de ensino obrigatório para os engenheiros e outros oficiais da Academia Militar, introduzindo-os nas regras de fortificação dos matemáticos Claude Millet Deschalles e Jacques Ozamam. Ainda na sua qualidade de académico, Fortes escreveu vários textos, dos quais se destaca a Oração Académica pronunciada na presença de Suas Magestades indo a Academia ao Paço em 22 de Outubro de 1739, na qual, a propósito dos trabalhos de organização das cartas geográficas da História Eclesiástica e Secular de Portugal, defendeu, de forma vigorosa, a ciência baseada na matemática e elogia o apoio dado por D. João V às novas atitudes face ao conhecimento.  

Em 1728, Azevedo Fortes retoma o tema da formação dos engenheiros, publicando O Engenheiro Portuguez, obra dividida em dois tratados, versando sobre a fortificação e o ataque e defesa das praças. Ambos os Tratados contêm, no fim do respectivo volume, um Apêndice (no primeiro tomo sobre cálculos baseados na trigonometria rectilínea e no segundo sobre armas de guerra) e estampas ilustrativas sobre os conteúdos tratados. Esta obra, de vocação eminentemente didáctica, pretende expor, de forma sistematizada, os conhecimentos considerados fundamentais para o exercício da profissão de engenheiro, aqui apresentado como um técnico que, de uma forma particular, incorpora num mesmo sistema de saber os planos teórico e prático. Esta nova visão da engenharia como área privilegiada de contacto e interacção entre a ciência e a prática, insere-se numa óptica de modernidade assente na crítica ao ensino de tipo escolástico praticado nas escolas portugueses. Trata-se, portanto, de disponibilizar em português, para os futuros engenheiros portugueses, um corpus de conhecimentos que o Engenheiro-Mor do reino conhecia, porque havia contactado com ele no estrangeiro durante a sua formação académica e profissional, mas que se encontrava ausente ou profundamente desactualizado no ensino português. O Engenheiro Portuguez baseia-se nas referências da escola francesa, nomeadamente nos influentes Marquês de Vauban e Conde de Pagan e nos engenheiros militares Errard de Bar-le-Duc, Antoine de Ville e Manesson Mallet. 

Obra usada como manual na Aula de Fortificação e de Arquitectura Militar, o Engenheiro Portuguez era considerado pelos alunos como um símbolo da nova postura da engenharia portuguesa e da sua integração numa comunidade transnacional. Neste contexto, e perante um ataque à obra de Azevedo Fortes, os alunos reagem escrevendo a Evidencia apologetica e critica sobre o primeiro e segundo tomo das “Memorias militares”, pelos particantes da Academia militar d’ esta corte (1733), em que criticam os opositores do Engenheiro-Mor pela sua falta de precisão e desactualização no plano da terminologia.  

Em 1744, já numa fase tardia da sua vida, Manuel de Azevedo Fortes publicou a Lógica Racional, Geométrica e Analítica, obra claramente cartesiana, que introduz as novas correntes da filosofia europeia em Portugal. Contrapondo a lógica dos modernos, nomeadamente Descartes, Tycho Brahe, Regiomontanus, Roberval, Galileu e Gassendi, à argumentação escolástica (que considerava ser uma interpretação deturpada da filosofia aristotélica, com base nas leituras árabes e de comentadores medievais como Averróis e Avicena), Fortes impõe uma visão cognitiva da ciência assente na matemática. Esta obra, que antecedeu em dois anos e preparou o caminho para o trabalho de Luís António Verney, O Verdadeiro Método de Estudar, foi igualmente usada como livro de instrução para os alunos da Aula de Fortificação  e de Arquitectura Militar.

Azevedo Fortes morre em Lisboa, em Março de 1749. A forma inovadora como entende a figura profissional o engenheiro e o facto, pouco comum em Portugal, de ter efectivamente agido como formador de uma nova mentalidade tecnológica (através das suas obras, que são adoptadas como livros de texto nas escolas de engenharia nacionais), tornam-no uma referência incontornável na engenharia portuguesa. Sendo um estrangeirado, e tendo, portanto, contactado, nos planos educativo e profissional, com as elites intelectuais da Europa das Luzes, soube usar esta experiência, adquirida precocemente e mantida ao longo da sua vida,  para moldar o perfil da engenharia militar portuguesa e dotá-la de um estatuto multifacetado, sólido e moderno que se prolongará nos séculos seguintes.

Maria Paula Diogo

Obras 

Representação sobre o Modo e Direcção que devem ter os Engenheiros para melhor servirem n’este Reino e suas Conquistas. Lisboa: Officina de Mathias Pereira da Silva & João Antunes Pedroso, 1719-1720.

Tratado do modo mais fácil e o mais exacto de fazer cartas geographicas, assim como do mar e tirar as plantas das praças, cidades e edifícios com instrumentos e sem instrumentos. Lisboa: Officina de Paschoal da Silva, 1722.

O Engenheiro Portuguez. Lisboa: Officina de Manoel Fernandes da Costa, 1728-29.

Lógica Racional, Geométrica e Analítica. Lisboa: Officina de José António Plates, 1744.

Oração Académica pronunciada na Presença de Suas Magestades indo a Academia do Paço em 22 de Outubro de 1739. 

Bibliografia sobre o biografado

Andrade, António Alberto Banha de. “Manuel de Azevedo Fortes, primeiro sequaz, por escrito, das teses fundamentais cartesianas em Portugal”, in Contributos para a história da mentalidade pedagógica portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda 1982, pp. 191-126. 

Bernardo, Luís Manuel Aires Ventura. O Projecto Cultural de Manuel de Azevedo Fortes: Um Caso de Recepção do Cartesianismo aa Ilustração Portuguesa. Lisboa : Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005.

Coxito, Amândio A. O Compêndio de lógica de M. Azevedo Fortes e as suas fontes doutrinais, (Coimbra: Universidade de Coimbra,1981). 

Cruz, José Gomes da. Elogio Fúnebre de Manoel de Azevedo Fortes. Lisboa:1754.

Diogo, Maria Paula. “Manuel de Azevedo Fortes: o nascimento da engenharia moderna em Portugal”, XIX Colóquio de História Militar, 100 Anos do Regime Republicano: políticas, rupturas e continuidades. Lisboa: Comissão Portuguesa de História Militar, 2011, pp. 167-181. 

Diogo, Maria Paula, Ana Carneiro, Ana Simões. “El Grand Tour de la Tecnología: El Estrangeirado Manuel de Azevedo Fortes”, in A. Lafuente, A. Cardoso Matos, T. Saraiva (eds.), in Maquinismo Ibérico – Tecnologia y cultura en la península ibérica, siglos XVIII-XX. Aranjuez: Doce Calles, 2006, pp 119-139.