Salgueiro, Lídia Coelho

Lisboa, 31 dezembro, 1917 — 24 julho 2009

Palavras-chave: Investigação, Física Atómica, Centro de Estudos de Física. 

Lídia Coelho Salgueiro nasceu em Lisboa, a 31 de dezembro de 1917. Os pais, João Fortunato da Fonseca da Rocha Salgueiro, secretário de finanças, e Maria Angélica Pina Coelho Salgueiro, de profissão indefinida, provinham de famílias abastadas que, entretanto, delapidaram a fortuna. O pai morreu precocemente, em 25 de janeiro de 1923 com 35 anos e a mãe, com duas filhas, sendo Lídia a mais nova de apenas cinco anos, passou a ter necessidade de trabalhar devido à escassez dos meios de subsistência. 

Até à maioridade Lídia conheceu diversas localidades, pois a mudança de residência passou a ser a constante. O melhor emprego que a mãe conseguiu foi como mestra de lavores, proporcionando uma situação de maior desafogo que, ainda criança, Lídia conheceu. Seguiu o ensino doméstico ministrado pela mãe até aos oito anos, tendo frequentado a escola aos nove anos, nos arredores de Peniche. Por motivos de saúde da mãe, mudaram-se para Palmela, local de residência dos avós maternos, onde fez a preparação com uma tia para completar o ensino básico. Durante dois anos, frequentou o ensino comercial pelo facto de ser de curta duração, quatro anos, e praticamente gratuito. No entanto, Lídia Salgueiro não sentia vocação para as disciplinas comerciais e a mãe conseguiu, através de antigas colegas do marido, que fosse aceite no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, de Lisboa, onde se matriculou no 1º ano, em 1930/31. Entretanto, devido a novo emprego da mãe em Viseu, Lídia Salgueiro foi matriculada no Liceu Central de Alves Martins, tendo aqui completado o curso em 1937. O primeiro ano de ciências físico-químicas foi frequentado na Universidade de Coimbra, tendo terminado o curso na Universidade de Lisboa, em julho de 1941. 

O último exame do curso na cadeira de Eletricidade, ministrada por Herculano de Amorim Ferreira (1895–1974), estando Manuel Valadares (entrada neste dicionário) presente no júri, determinou que Lídia Salgueiro seguisse uma carreira de investigação em física atómica e nuclear. De facto, perante um rasgado elogio de Amorim Ferreira, Valadares, que recentemente havia terminado o doutoramento em Paris com Marie Curie, convidou-a a trabalhar com ele. Apesar do entusiasmo que sentiu, procurou antes de tudo uma situação profissional estável. Por isso, Lídia Salgueiro fez a preparação para admissão ao estágio no Liceu Pedro Nunes para ingressar na carreira docente do ensino secundário. No final das provas, Armando Cyrillo Soares, simultaneamente docente daquele Liceu e diretor do Laboratório de Física da Universidade de Lisboa, convidou-a para assistente da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). Embora o ensino universitário não a entusiasmasse, foi determinante a possibilidade de trabalhar em investigação, em física.

Em março de 1942, Lídia Salgueiro foi contratada como segunda assistente da FCUL, tendo começado pela Física Geral em que Amorim Ferreira lecionava a componente teórica. O primeiro trabalho de investigação no domínio da radioatividade, tinha como objetivo estudar o espetro emitido por velhas agulhas que continham o gás radioativo radão, utilizando o método da espetrografia. As agulhas de radão foram cedidas pelo Instituto Português de Oncologia e a aparelhagem era precária; até o espetrógrafo foi emprestado pela secção de química da FCUL. Este aparelho teve de ser modificado por Lídia Salgueiro para identificar, no espetro obtido, elementos descendentes do rádio, o alvo da sua tese de doutoramento. Também se interessou pela espetrografia de raios X, um domínio em que Valadares investiu e com o qual acabou por introduzir a física atómica experimental em Portugal. Não foi, porém, o estudo da transformação do núcleo dos átomos no domínio da física nuclear, o assunto da sua tese de doutoramento, que Lídia Salgueiro escolheu para iniciar a carreira de investigação. Foi antes a física atómica, a área mais desenvolvida por Valadares, porque após o seu afastamento compulsivo do ensino universitário por motivos políticos, em julho de 1947, seria a forma de não deixar morrer a tradição da investigação experimental no laboratório de física.

Em Novembro de 1947, Julio Palacios Martinez (com entrada neste dicionário), foi contratado para substituir Cyrillo Soares na direção do Centro de Estudos de Física (CEF), criado em 1940 pelo Instituto de Alta Cultura (IAC). Os Centros de Estudos constituíram uma nova direção da política do Estado Novo de apoio à investigação universitária, disponibilizando de forma mais sistemática os subsídios a laboratórios de investigação  e bolsas de estudos a investigadores. Cada um dos centros era supervisionado por um diretor que reportava diretamente ao IAC o andamento das respetivas atividades. Palacios, investigador da Universidade de Madrid com reconhecimento internacional e currículo em áreas que se foram sucedendo no tempo, dedicava-se, à época, à eletroquímica. O seu objetivo no CEF consistia em trazer para primeiro plano, a investigação experimental neste domínio, obliterando a experiência anterior. Teve, porém, de enfrentar a resistência de Lídia Salgueiro, que se opôs ao desaparecimento da herança de Valadares, a investigação em física atómica. A facilidade em conquistar jovens investigadores para as respetivas causas era desigual, pois Palacios tinha do seu lado o apoio institucional. O início da década de 1950 saldou-se com a pequena vitória de Lídia Salgueiro, ao receber um investigador dedicado, para a causa da física atómica, José Gomes Ferreira Casaram a 26 de março de 1953, enriquecendo a partilha na atividade de investigação, com os laços familiares. 

Nos primeiros tempos as atividades de investigação versaram exclusivamente a física atómica, um tema que Gomes Ferreira escolheu para a sua tese de doutoramento, supervisionada conjuntamente por Valadares e Lídia Salgueiro e defendida em 1954. Também conseguiram a adesão de um pequeno número de jovens colaboradores e publicavam artigos na revista Portugaliae Physica e nos Comptes rendus des scéances de l’Académie des Sciences de Paris, ambos com alcance limitado do ponto de vista da física. No mesmo plano se encontravam os Congressos Luso-Espanhóis para o Progresso das Ciências, ao qual também submeteram comunicações. Este pequeno mundo abriu-se, em outubro de 1956, com uma estadia do casal no Department of Natural Philosophy da Universidade de Edimburgo para aprenderem novas técnicas de deteção de partículas usando placas nucleares. Foi uma oportunidade que lhes abriu novos horizontes.

No regresso a Lisboa em 1957, o cenário tinha mudado. Fundamentalmente, Palacios apresentara a demissão em dezembro de 1956, novos professores catedráticos de física da FCUL podiam assegurar o cargo de diretor do Centro de Estudos de Física e uma nova docente oriunda da Faculdade de Ciências do Porto apresentava-se como candidata ao doutoramento para ser supervisionada por Lídia Salgueiro e Gomes Ferreira. A nova técnica das placas nucleares também foi frutuosa pois viria a ser tema de doutoramento de uma docente de física da FCUL, além de ter proporcionado um trabalho que valeu ao casal o prémio de física Artur Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa, em 1961. Além disso, nas décadas seguintes, Lídia Salgueiro e o seu grupo encontraram acolhimento em revistas estrangeiras como Il Nuovo Cimento, Journal de Physique, e Journal of Physics B: Athomic and Molecular Physics.

Apesar de ter deixado a sua marca na investigação em física atómica e nuclear experimentais, publicou sempre em coautoria e sobre temas com pouco impacto. Foi também uma figura apagada no exercício de cargos académicos. A sua notoriedade deve-se sobretudo à luta determinada para não deixar soçobrar a física atómica e nuclear experimentais no Centro de Estudos de Física, após o seu fundador ser afastado da investigação por motivos políticos. Também denunciou, através de artigos e iniciativas em que colaborou, a injustiça de que Valadares foi alvo e deu realce ao problema do seu afastamento para a continuidade da investigação em Portugal. Aposentou-se em 1978.

Júlia Gaspar

Arquivos

Lisboa, Arquivo do Instituto Camões (AIC): 

Lisboa, Bolsas fora do País, Lídia Coelho Salgueiro, 0358/12, 13 abril 1946 a 23 setembro 1971. 

Centro de Estudos de Física anexo à FCUL: 3249/1; 3249/5; 3250/3; 3251/2; 3251/3; 3251/4; 3251/5.

Obras

Salgueiro, Lídia. “Espectro gama dos derivados da vida longa do radão”. Dissertação de doutoramento, Universidade de Lisboa, 1945.

Salgueiro, Lídia e Glaphyra Vieira. “Nouvelle détermination des intensités des groupes de structure fine de la transmutation AcC → ( α, γ) AcC”, Comptes rendus des séances de l’Académie des Sciences de Paris, 234 (1952): 1765-67. 

Salgueiro, Lídia, José Gomes Ferreira e Arnaldo Silvério. “Estudo da forma e da intensidade das bandas satélites das riscas L α do ouro (espectros de fluorescência)” (Publicações do 23º Congresso Luso-Espanhol, Associação Portuguesa para o Progresso das Ciências, Coimbra, tomo 4, 1957).

Salgueiro, Lídia, J. G. Ferreira, J. H. Park e M. S. Ross. “Fluorescence and other yields of LII shell in Pu”, Proceedings of the Physical Society, 72 (1961): 657-64.

Salgueiro, Lídia e José Gomes Ferreira. “Le coefficient massique d’absorption du quartz pour des longueurs d’onde comprisses entre 0.780 Aº et 1500 Aº”. Il Nuovo Cimento, 30 (1963): 1568. 

Ferreia, J. G., M.O. Costa, M.I. Gonçalves e L. Salgueiro, “Le rendement de transition de CosterKrönig LI →LIII des éléments de nombre atomique compris entre 73 et 92”, Journal de Physique, 26 (1965): 5-8.

Salgueiro, Lídia e J. Gomes Ferreira, Introdução à física atómica e nuclear, 1º vol. Física Atómica, (Lisboa: Tipografia Matemática. 1970), 2º vol. Física Nuclear (Lisboa: Tipografia Matemática, 1975). 

Salgueiro, Lídia, M. T. Ramos, M. L. Escrivão, M. C. Martins e J. G. Ferreira “L1 subshell yields of elements with Z=74, 75, 77, 79 and 90”, Journal of Physics B: Athomic and Molecular Physics, 7 (3) (1974): 342-348.

Salgueiro, Lídia, “Vida e Obra de Manuel Valadares”, Gazeta de Física, 6 (1) (1978): 2-12.

Salgueiro, Lídia e Luísa Carvalho, “Manuel Valadares (1904-1982). Facetas de uma personalidade: humana, científica e artística” in Ana Simões (coord.), Memórias de Professores Cientistas. Os 90 anos da FCUL, 1911-2001 (Lisboa: Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 2001), pp.70-77.

Bibliografia sobre a biografada 

AAVV, Jubileu de José Gomes Ferreira, Prof. Catedrático de Física da F.C.L. (Lisboa: [s.n.], 1989).

Carvalho, Luísa. “Lídia Salgueiro. Fragmentos de uma vida: infância, percurso, paixões, o fim”, in Ana Simões (coord.) Novas Memórias de Professores Cientistas. Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa 1911-2011. Lisboa: Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 2011, p. 61. 

Simões, Ana, Ana Carneiro, Maria Paula Diogo, Luís Miguel Carolino e Teresa Salomé Mota. Uma História da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (1911-1974). Lisboa: Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 2013.

Gaspar, Maria Júlia Neto Gaspar. “Percursos da Física e da Energia Nucleares na Capital Portuguesa. Ciência, Poder e Política, 1947-1973”. Dissertação de Doutoramento, Universidade de Lisboa, 2014.

Palacios Martínez, Julio

Paniza (Zaragoza), 12 abril 1891 – Madrid, 12 fevereiro, 1970

Palavras-chave: Investigação, Eletroquímica, Centro de Estudos de Física.

Julio Palacios Martinez nasceu em Paniza (Campo de Cariñena, Zaragoza) em 12 de abril de 1891. Foi o segundo filho de Miguel Palacios Cabello, médico, e de Eusebia Martínez Lostalé. Os estudos básicos e secundários foram realizados em Huesca e Zaragoza. Licenciou-se em Ciências Exactas e Físicas em Barcelona, em 1911. 

A preparação do doutoramento foi o passo seguinte em Madrid, supervisionado por Blas Cabrera, director do Laboratorio de Investigaciones Físicas da Junta para Ampliación de Estudios (JAE), a instituição de apoio à investigação científica criada em 1907. Defendeu a tese de doutoramento em 1914 e, dois anos depois, obtinha por concurso a cátedra de Termologia da Faculdade de Ciências da Universidade Central de Madrid. Foi então aconselhado por Blas Cabrera a candidatar-se a uma bolsa da JAE para se especializar em Leiden (Holanda), no Laboratório de Baixas Temperaturas, com Heike Kerlingh Onnes), conhecido pela descoberta da supercondutividade. Dedicou-se ao estudo das isotérmicas do néon e de outros gases nobres e publicou trabalhos em holandês, inglês e espanhol. Regressou a Madrid para exercer a docência na Faculdade de Ciências da Universidade e continuar a investigação sobre isotérmicas do neón, no Laboratorio de Investigaciones Físicas da JAE. Contudo, a introdução da Física das Baixas Temperaturas em Espanha foi problemática.Assim, a partir de 1922, foi encarregado de dirigir a Secção de Raios X do Laboratorio de Investigaciones Físicas, instalando as primeiras montagens que permitiriam lançar a investigação sobre estruturas cristalinas por meio da difração de raios X. 

A ligação à comunidade científica portuguesa é desta altura. Em 1921, participou no Congresso da Associação Portuguesa para o Avanço das Ciências, que se realizou em conjunção com o Congresso da congénere espanhola, no Porto, em 1921. Enquanto este foi o primeiro congresso português, para os espanhóis foi o oitavo. Em 1925, realizou-se novo Congresso em Coimbra. Palacios apresentou o discurso inaugural da terceira secção (ciências físico-químicas) intitulado “La teoria de los quanta y la émission de energia”. A ligação a Portugal estreitou-se mais ainda com o casamento de Palacios com uma parente do físico da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), Armando Gibert (1914-1985).

Em 1940, o Estado Novo comemorava os bicentenários – da nacionalidade, 1143, e da independência de Espanha em 1640. O programa incluía uma componente sobre história, o “Congresso do Mundo Português”. Foram convocadas as grandes figuras científicas para relatarem os feitos das suas disciplinas e os trabalhos de investigação relacionados com a História de Portugal. Professores de matemática, física e química da FCUL aceitaram o convite. Uma delegação espanhola, chefiada por Palacios na qualidade de vice-reitor da Universidade de Madrid, era portadora de mensagens ao Congresso.

Em junho de 1942, o Congresso Luso-Espanhol para o Avanço das Ciências realizado no Porto, criou as condições para o encontro dos investigadores do Centro de Estudos de Física (CEF), anexo à FCUL. Os Centros de Estudos tinham sido criados, em 1940, pelo Instituto para a Alta Cultura (IAC), concretizando uma nova orientação da política de investigação científica do Estado Novo. Depois do Congresso, Palacios visitou o CEF e manifestou interesse em que fosse permitido a membros da sua equipa seguir ações de formação sobre técnicas de espectrografia de raios X, em que aquele centro se havia especializado. Luis Rivoir Alvarez pôde, então, beneficiar desta oportunidade. Lídia Coelho Salgueiro (com entrada neste dicionário) investigadora do CEF, referiu-se a esta familiaridade nas suas memórias. Por outro lado, a colaboração de Palacios nas revistas portuguesas, Portugaliae Physica Gazeta de Física é mais um testemunho das relações estreitas entre o físico espanhol e os investigadores do CEF.

Após a derrota republicana na Guerra Civil Espanhola, em 1939, a JAE foi substituída pelo Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC). Palacios transitou normalmente para a nova organização e manteve a sua cadeira na universidade, contrariamente a muitos investigadores da JAE que foram obrigados a recorrer ao exílio. Apesar desta aparente estabilidade, os comportamentos sociais e políticos de Palacios conduziram a uma degradação das suas relações universitárias. Em relação ao legado da JAE não demonstrava a beligerância esperada pela direção do CSIC e, politicamente, devido às suas convicções apoiava o conde de Barcelona, no exílio em Portugal, à sucessão monárquica, entrando em conflito com a estratégia de Francisco Franco, que preconizava colocar João Carlos no trono de Espanha. Em 1947, Palacios precisava de um porto de abrigo que lhe foi concedido em Portugal, onde os seus contactos se estendiam à direção do IAC sendo, também, conhecida a sua identificação ideológica com a política do Estado Novo 

Em junho de 1947, três investigadores do CEF foram demitidos das suas funções docentes, por motivos políticos e, num gesto de solidariedade, o diretor do CEF solicitou a aposentação. Esta situação criou, fundamentalmente, dois vazios: na docência e na direção CEF. Palacios foi, então, convidado a lecionar Termodinâmica e Mecânica Racional na FCUL e a assumir o cargo de diretor do CEF. Nesta altura, Palacios vinha-se dedicando a uma nova linha de investigação, a eletroquímica, que pode ter sido inspirada no seu trabalho sobre estruturas cristalinas iónicas. Tratava-se de uma revisão da teoria clássica de Nernst, pretendendo demonstrar que esta seria um caso particular de uma teoria mais geral que ele se propunha demonstrar teórica e experimentalmente.

Esta foi a linha de investigação que pretendeu lançar no CEF, contribuindo para obliterar um passado de investigação em que predominava a espectrografia de raios X, no domínio da física atómica. A oposição de Lídia Salgueiro para impor que a investigação tradicional do CEF não desaparecesse, não impediu que Palacios formasse um grupo de jovens investigadores em eletroquímica, salientando-se entre eles António Manuel Baptista (e Fernando Carvalho Barreira. Em 1951, a nova linha de investigação em eletroquímica estava em vias de consolidação com divulgação intensa na Revista da Faculdade de Ciências.

Perante um futuro aparentemente tão promissor, inesperadamente em 1952, Palacios, aceitava o projeto oferecido pelo IAC de lançar com os seus investigadores uma nova linha em física nuclear no Instituto Português de Oncologia (IPO), nomeadamente a aplicação de radioisótopos à medicina. Palacios passou então a gozar de uma situação insólita, ser diretor de dois centros de estudos do IAC, um anexo à FCUL e o outro anexo ao IPO. Os objetivos dos dois centros eram distintos, sendo o diretor o único elo de ligação. A situação terminou em dezembro de 1956, quando foi nomeado um professor catedrático de física para dirigir o CEF. Além disso, desde 1953, que Palacios dividia o seu tempo entre Lisboa e Madrid, prestando serviço quinze dias por mês na universidade de cada cidade.

Ao mudarem-se para o IPO, os investigadores rejeitaram o investimento e o esforço aplicados à eletroquímica. Barreira foi a exceção, ao escolher a eletroquímica para tema da sua tese de doutoramento defendida em 1957. No entanto, não se deve concluir que o trabalho em eletroquímica tenha sido simplesmente desperdiçado, porque os investigadores de Palacios tinham adquirido a atitude mental, a técnica do trabalho experimental e o hábito de publicar resultados, sendo por isso fácil transitar da eletroquímica para a física nuclear. 

No IPO, o grupo de Palacios promoveu cursos de formação em física nuclear para elementos de outros centros de estudos e para médicos, sendo dada prioridade aos do IPO. Também publicou o resultado da sua investigação, fundamentalmente na Revista da Faculdade de Ciências e enviou artigos à Conferência Internacional de Aplicações Pacíficas de Energia Nuclear de 1955, participou no II Congresso de Endocrinologia realizado em Lisboa, em novembro de 1955 e no XXXIII Congresso Luso-Espanhol para o Avanço das Ciências realizado em Coimbra, em junho de 1956. O mais bem-sucedido dos discípulos de Palacios foi, sem dúvida, Baptista com uma carreira no IPO baseada na aplicação de radioisótopos à medicina, tendo contribuído para a criação da medicina nuclear em Portugal. 

Palacios desistiu da sua teoria fundamental para a eletroquímica e um fracasso semelhante ocorreu com a sua contestação da teoria da relatividade de Einstein. O contrato de professor catedrático com a FCUL, que assegurava a ligação de Palacios aos estudantes de física, terminou em novembro de 1958. Ele considerava esta ligação fundamental para o recrutamento de jovens licenciados que permitiriam rejuvenescer o quadro de pessoal do centro de estudos que supervisionava no IPO. Em 1961, a jubilação colocou um ponto final no seu trabalho em Portugal. 

Júlia Gaspar

Arquivos

Lisboa, Arquivo do Instituto Camões (AIC):

Lisboa, Centro de Estudos de Física anexo à FCUL 3249/5; 3250/3; 3251/2.

Lisboa, Laboratório de Física Nuclear do Centro de Estudos de Energia Nuclear de Lisboa, 3243/4, 3243/5, 3175/5. 

Local? Processo de Julio Palacios Martinez, 1948.

Obras

Baptista, António M. e Julio Palacios, “Analysis of uranium and thorium complex ores by measurement of their gamma activity”, Proceedings UN Geneva Conference, 9 (1955):  279.

Palacios, Julio. “De la Física a la Biologia”, Gazeta de Física, 1 (3) (1947): 78-85.

Palacios, Julio e L. Lozano Calvo. “L’aimantation du nickel par compression unilatérale”, Portugaliae Physica, 2 (1) (1943) 77-92.

Palacios, Julio e M. T. Vigon. “L’ adsorption de cations par le charbon actif. Confirmations expérimentales”, Portugaliae Physica, 3 (1) (1943) 295-316.

Palacios, Julio. Mecânica física. Madrid: Estades, 1948.

—. Termodinámica y mecánica estadística. Madrid: Espasa-Calpe, 1949.

Palacios, Julio e A. Baptista. “Demonstration by Radioactive Tracers of the Adsorption of Cations by Metals”, Nature, 170 (1952): 665.

—. “Theoretical and Experimental Study of the Dropping Electrode: I. Experiments with the galvanometer and with the cathode ray oscilloscope”, Revista da Faculdade de Ciências de Lisboa, 2ª Série B, II (1952-53): 97-108.

Palacios, Julio. Análisis dimensional. Madrid: Espasa-Calpe, 1956.

Palacios, Julio. Revision de la teoria de la relatividad (Madrid: [s.n.], 1957. (Publicado na Revista de La Real Academia de Ciencias Exactas, Físicas y Naturales de Madrid, tomo 51, cadernos 1º, 2º, 3º e 4º)

Bibliografia sobre o biografado

Peixoto, José Pinto. “Discurso proferido pelo Presidente da Academia das Ciências de Lisboa, Prof. Doutor José Pinto Peixoto, na sessão plenária de homenagem ao académico correspondente espanhol Prof. Doutor D. Julio Palacios por ocasião do centenário do seu nascimento”, in Memórias da Academia das Ciências de Lisboa. (Lisboa, Classe de Ciências, Tomo 31, 1990-1991), 603-606. 

Sánchez-Ron, José M. “International relations in Spanish physics from 1900 to the Cold War”, Historical Studies in the Physical and Biological Sciences, 33 (1) (2002): 3-31, pp. 12, 15, 19.

Herran, Néstor e Xavier Roqué. “An Autarkic science”: Physics, Culture, and Power in Franco’s Spain”, Historical Studies in the Natural Sciences, 43 (2) (2013): 202–235.

Gaspar, Júlia. “A Spanish-Portuguese Research Connection. Julio Palacios’s Supervision of two Laboratories at Lisbon University” (comunicação apresentada à 6ª Conferência Internacional da European Society for the History of Science, Sessão: Aspects of Cooperation between Portuguese and Spanish Scientists in the Mathematical and Physical Sciences, Lisboa, 4-6 setembro 2014).

Sánchez-Ron, Jose M. “The Non-introduction of Low-Temperature Physics in Spain: Julio Palacios and Heike Kamerlingh Onnes”, in Theodore Arabatzis, Jürgen Ren e Ana Simões (eds.), Relocating the History of Science, Essays in honor of Kostas Gavroglu (Cham, Heidelberg, New York, Dordrecht, London: Springer, 2015), Capítulo 10.