Cristoforo Borri (Christovão Bruno, Brono, Boro, Burrus, Bruni)

Milão, 1583 — Roma, 24 maio 1632

Palavras-chave: Astronomia, Jesuítas, Tycho Brahe, Cometas.

DOI: https://doi.org/10.58277/PZVX8665

Cristoforo Borri teve um papel de destaque na introdução do sistema de Tycho Brahe entre os Jesuítas, tendo sido um dos primeiros autores a preconizar este modelo astronómico entre os padres da Companhia de Jesus. Defensor do modelo geo-heliocentrico tychonico, Borri desenvolveu um conjunto de importantes teorias sobre a natureza da matéria celeste, estrutura da região supra-lunar e dinâmica celeste que lhe pareciam conformes com as exigências deste sistema planetário. Borri foi ainda missionário no Extemo Oriente, tendo escrito aquele que foi a primeira obra impressa na Europa sobre a Cochinchina (Vietname e Laos). Borri ensinou matemática e astronomia em Coimbra e Lisboa na década de 1620. As suas ideias cosmológicas foram altamente influentes em Portugal durante o século XVII.

Cristoforo Borri nasceu em Milão, no ano de 1583. A 13 de setembro de 1601, entrou para a Companhia de Jesus, na Casa de Provação de Arona, no Piemonte. Aí iniciou os estudos de humanidades, retórica e gramática, antes de ingressar no Colegio de Brera. À época, este colégio destacava-se entre as instituições da Provincia Mediolanensis, funcionando, na prática, como uma universidade. Em 1605, Borri encontrava-se no rol dos doze estudantes de lógica deste colégio. Iniciava, assim, o triénio de estudos de filosofia que, segundo as indicações da Ratio Studiorum jesuíta,deveria anteceder o curso de teologia, com a duração de quatro anos. Entre os seus professores neste colégio, contam-se Tommaso Bisdomini (ca. 1571–1633), que lhe ensinou filosofia, e muito provavelmente Giovanni Bartolomeo Biamino (1580–?), professor de matemática em Brera , entre 1605 e 1607. 

Desde cedo que o jovem Borri se destacou na área das disciplinas matemáticas. Tudo parecia indicar que tinha pela sua frente uma auspiciosa carreira de “matemático” e professor de matemáticas nos colégios da Companhia de Jesus. Como era hábito entre os jesuítas, antes de assumir o magistério de matemática, filosofia ou teologia, o promissor professor era testado no ensino de matérias menores, como a gramática. Foi assim que, com o grau de mestre em Artes, Borri rumou ao Colégio de Mondovi, no Piemonte, com a incumbência de ensinar gramática e matemática, a partir do ano letivo de 1607/08. Nos anos que se seguiram, expôs com toda a probabilidade o Tratado da Esfera de Sacrobosco, livro basilar da formação em astronomia durante a Idade Média e inícios da Idade Moderna. Sem surpresa, o livro de base terá sido o In Sphaeram Ioannis de Sacro Bosco Commentarius, de Christoph Clavius (1538–1612). 

Borri regressou ao Colégio de Brera em 1610 para aí estudar teologia, formação que concluiu em 1614. Neste colégio, Borri voltou a ser encarregado do ensino de matemática, o que sugere que tenha tido um bom desempenho nos três anos em que ensinou tal disciplina no Colégio de Mondovi. Mas, em Brera, Borri iria inovar. Aí, após apresentar o sistema heliocêntrico de Copérnico e o tradicional modelo geocêntrico de Ptolomeu, defendeu publicamente o modelo geo-heliocêntrico de Tycho Brahe. Segundo este modelo, os planetas giravam em torno do Sol e este corpo celeste, juntamente com a Lua, movia-se à volta da Terra. Entre outras consequências cosmológicas, este modelo planetário tinha subjacente o princípio de que os céus eram fluídos. Borri corroborou, de forma inovadora, ambas as teorias nas suas aulas de matemática no principal colégio de Milão, em 1611/12. Esta posição pública não deixou de provocar reações entre os seus superiores. De facto, após ter ensinado matemática por dois anos no Colégio de Brera, Borri foi afastado, segundo testemunho do próprio, por pressão das autoridades da Província Milanesa. Este afastamento acabou por ter um efeito dramático na carreira de Borri. Como sabemos pela extensa carta que o jesuíta italiano endereçou, por volta de 1631, ao então Geral da Companhia de Jesus, Muzio Vitelleschi (1563–1645), Borri vaticinou que em breve o sistema de Tycho Brahe tornar-se-ia popular entre os jesuítas. E, de facto, em 1620, com publicação da Sphaera Mundi de Giuseppe Biancani (1566–1624), o sistema tychonico passou a ser oficialmente aceite pelas autoridades jesuítas, sendo defendido entre os astrónomos e filósofos. Borri, que tinha sido um dos primeiros a defender em aulas este sistema, viu-se assim privado de uma posição de preeminência entre os seus confrades.

       No ano em que o sistema tychonico se tornava uma referência pública para os jesuítas, Borri encontrava-se no Extremo Oriente como missionário. Como descreve num manuscrito sobre a sua experiência de missionário, “Partimos da Europa no entrar de abril de 1615. Após seis meses chegámos a Goa”. Iniciava-se, assim, a jornada oriental de Borri. Após concluir a sua formação em teologia, Borri deslocou-se, entre o verão de 1614 e os primeiros meses do ano seguinte, para Lisboa e daqui partiu, no dia 5 de abril de 1615, em direção a Goa, onde chegou em outubro desse ano. Como as monções retinham em Goa as embarcações que se destinavam ao Extremo Oriente até abril, Borri demorou-se meia dúzia de meses nesta cidade antes de alcançar o seu destino. 

Em abril de 1616, a viagem de Cristoforo Borri retomou o seu curso rumo ao Extremo Oriente, onde deve ter chegado três a quatro meses mais tarde. Uma vez em Macau, Borri fixou residência no Colégio de São Paulo. Este colégio desempenhava funções que ultrapassavam em muito o ensino. Ele era, na prática, uma plataforma de pessoas, produtos e ideias que circulavam entre a Europa, a China, o Japão e a Cochinchina. No que se refere ao ensino, para além da formação regular em humanidades, filosofia e teologia, aí estudava-se, com particular detalhe, matemática e as línguas do Extremo Oriente. A familiarização com os costumes, as tradições intelectuais e as crenças religiosas desses povos era, também, uma importante componente da formação dos futuros missionários.

No Colégio de São Paulo, para surpresa de Borri, foi-lhe pedido, pelo Visitador Francisco Vieira, que escrevesse um tratado sobre a fluidez celeste especificamente dirigido aos missionários jesuítas na região. Segundo o seu relato, a expulsão da China de que os jesuítas foram alvo, em 1616, ter-se-ia ficado a dever, em grande parte, ao facto dos missionários preconizarem a teoria da solidez e pluralidade dos céus e, em particular, terem publicado um livro sobre tal temática. Esta teoria contrariava frontalmente as crenças chinesas na existência de um único céu fluido, posição que o jesuíta italiano considerava, aliás, ser comum a toda a Antiguidade pré-aristotélica. Assim, se justificava, não sem alguma ironia, que Borri tornasse públicas as suas ideias cosmológicas na China para que os jesuítas não fossem, também aqui, apelidados de defensores de novas teorias.

Apesar da ideia inicial de Borri ser servir como missionário no Japão ou na China, as dificuldades com os jesuítas se deparavam em ambos os teatros de conversão, fez com que fosse enviado, em inícios de 1618, para a Cochinchina. Tendo aportado inicialmente na cidade Faïfo, foi-lhe destinado, segundo palavras suas, ir para “Turon [Dalat], para aí servir os portugueses, dizendo-lhes a missa, pregando e confessando-os, aprendendo ao mesmo tempo a língua da Cochinchina”. Pouco depois, Borri partiu para Pulucambi [Qui-nhon], onde se demorou a maior parte do tempo em que esteve na Cochinchina. Foi provavelmente aqui que observou o aparecimento de um cometa no final de 1618. Esta observação, que lhe permitiu concluir que o cometa se situava na região celeste e não abaixo do côncavo do céu a Lua, como afirmavam os aristotélicos, será crucial no desenvolvimento do seu pensamento cosmológico. 

O domínio da língua vietnamita permitiu-lhe escrever o livro Relatione della Nuova Missione delli PP. della Compagnia di Giesu al regno della Cocincina, que ao ser impresso em Roma, em 1631, e traduzido, de imediato, para francês, holandês, latim, inglês e alemão, se tornou a primeira obra publicada por um ocidental sobre a região vietnamita, tornado Borri um viajante conhecido na Europa.

       Apesar dos sucessos reclamados por Borri na conversão dos povos vietnamitas, mas disputados por outros jesuítas da época, o jesuíta italiano abandona inesperadamente a missão na Cochinchina em 1622. Segundo o seu relato, nesse ano, ele ficou muito doente e não restou outra alternativa aos seus superiores de Macau senão chamarem-no para esta cidade para aí se curar. O jesuíta italiano partiu para Macau no mês de abril ou maio desse ano. 

Borri demorou-se em Macau até provavelmente inícios de 1623. Aí foi-lhe atribuído um cargo de governo, “ofício” de Ministro do Colégio de São Paulo de Macau. Em Macau, participou , ainda da defesa da cidade contra um ataque holandês de junho de 1622. Foi nessa qualidade que recebeu a notícia de que os dois padres procuradores da Índia, que tinham sido enviados à Europa “per negotii spettanti alla salvezza dell’anime dell’India”, não tinham chegado ao seu destino, por morte de um e prisão do outro. Cumpria ao jesuíta italiano dar bom destino a essa missão.

Em abril de 1623, Borri já se encontrava em Goa, de regresso à Europa. Na manhã do dia 10 desse mês teve um encontro com o humanista e poliglota italiano Pietro della Valle (1586-1652). Tendo realizado uma impressionante viagem que o levou desde Itália, através da Turquia, Ásia Menor, Egito, Monte Sinai, Palestina, Irão até à Índia, uma viagem que lhe valeu o cognome de “peregrino”, Della Valle foi visitar, nessa manhã, a Casa Professa dos jesuítas, em Goa. Aí se encontrava, entre muitos outros jesuítas, Cristoforo Borri, um “grande matemático”, no juízo do viajante italiano.

Nos meses que se seguiram, os dois italianos desenvolveram uma relação de amizade que perdurará até à morte de Borri. Em Goa, discutiram por longas horas astronomia, cosmologia e náutica. Nessa ocasião, Borri informou Della Valle acerca dos mais recentes livros publicados sobre matéria astronómica e descreveu-lhe o instrumento recentemente inventado e que estava a revolucionar o debate e a investigação astronómica, o telescópio. Della Valle parece ter ficado de tal modo emocionado pela defesa que Borri fez do sistema planetário de Tycho Brahe e pela descrição das observações das “novidades celestes” feitas na Europa e no Oriente que lhe sugeriu que escrevesse um tratado sobre tais temáticas. A sua intenção seria, ao que é possível apurar, traduzir esse texto para farsi e enviar a um astrónomo persa, chamado Zayn al-Din, da cidade de Lar, de quem se tornara próximo aquando do seu périplo pelo Irão. Deste encontro resultou o tratado de Az risāla-i pādri Khristufurūs Būrus ‘Isawī dar tawkif-i djadid-i dunyā. Não se sabe se este tratado chegou a ser realmente enviado para Zayn al-Din, mas se tal foi o caso, Risāla foi a primeira obra a tornar o sistema tychonico conhecido na região do Médio Oriente.

A similitude deste tratado persa com a obra maior de Borri, Collecta Astronomica ex doctrina, publicada mais tarde em Lisboa, levou alguns historiadores a considerarem-no uma espécie de resumo da obra latina. Contudo, esta interpretação não resiste à análise de ambas as obras. De facto, não apenas estes tratados têm um fôlego completamente distinto, como, sobretudo, apresentam ideias diferentes e conflituantes em tópicos essenciais aos modelos cosmológicos da época, nomeadamente sobre a natureza e composição da matéria que compõe os céus e a dinâmica dos corpos celetes. Risāla Collecta proveem, portanto, de dois momentos diferentes no desenvolvimento do pensamento cosmológico de Cristoforo Borri. Ainda assim, o tratado persa demonstra que, por volta de 1623/24, Borri já tinha provavelmente decidido escrever um livro sobre astronomia e cosmologia, tendo escolhido os tópicos e alguns dos argumentos que iria desenvolver.  A redação deste livro terá lugar já em Portugal, para onde Borri partiu em inícios de fevereiro de 1624.

Enquanto, em Lisboa, se refazia da longa viagem oceânica, vagou no Colégio das Artes de Coimbra a cátedra de matemática. Instigado a ocupar-se desta disciplina, Borri viajou para Coimbra e aí leu matemática no ano letivo de 1626/27. Tal como havia feito em Mondovi, Borri voltou a expor a esfera de Sacrobosco. Era comum, entre os professores de matemática jesuítas, iniciar-se os comentários à esfera com uma exposição sobre a utilidade, divisão e história da matemática. Borri, por sua vez, decidiu tratar um tema polémico à época, a questão da cientificidade e certeza das matemáticas; tema, então, designado comummente de quaestio de certitudine mathematicarum. Neste domínio, defendeu, contrariamente à tradição filosófica e, em particular, contra o que havia sido estabelecido pelo jesuíta Sebastião do Couto, célebre Conimbricense, que a matemática obedecia aos principais requisitos da ciência aristotélica, devendo, como tal, ser considerada ciência. Tal posição custar-lhe-ia, a breve trecho, uma situação de tensão com as autoridades jesuítas em Portugal.

Foi provavelmente em Coimbra que Borri escreveu parte substancial da sua obra maior de cosmologia, a Collecta Astronomica. O livro estava praticamente concluído em junho de 1627, mas foi publicado apenas em 1631. Esta demora ficou a dever-se à oposição movida contra a publicação da obra por Sebastião do Couto. Ofendido com a crítica direta e incisiva que o confrade italiano havia feito à sua tese sobre o estatuto epistemológico da matemática, Couto moveu todas as influências possíveis para que a obra não fosse publicada.

Contudo, o manuscrito da Collecta Astronomica ser-lhe-ia particularmente útil, quando rumou para Lisboa com a função de ler matemática na “Aula da Esfera” do Colégio de Santo Antão, no ano letivo de 1627/28. Entre os tópicos que abordou no colégio de Lisboa encontravam-se a astronomia e a cosmologia. Ao abordar essa temática, o professor italiano seguiu o livro composto em Coimbra como se depreende da análise da apostila do curso de Lisboa, intitulada Nova Astronomia na qual se refuta a Antiga da multidão de XII ceos pondo so tres Aereo, Sydereo e Empireo. A relação entre o impresso latino e manuscrito em língua portuguesa tem estado na origem de alguns equívocos, afirmando-se frequentemente que a Collecta Astronomica não é mais do que uma versão latina da Nova Astronomia. Na origem deste erro encontra-se o testemunho do jesuíta francês Dominique Le Jeunehomme, segundo o qual, após anos de viagens entre a Europa e o Extremo Oriente, Borri ter-se-ia esquecido da sua língua materna e do latim e, consequentemente, decidido escrever a Collecta em português. Face ao suposto desejo dos jesuítas da província lusitana em ver o livro do seu confrade alcançar as audiências europeias, Le Jeunehomme ter-se-ia oferecido para verter a obra para latim, transformando, assim, a Nova Astronomia na Collecta Astronomica que hoje conhecemos. Esta versão sobre a génese da obra maior de Borri foi retomada por Carlos Sommervogel na sua monumental Bibliothèque de la Compagnie de Jésus. Desde aí, a tese da origem portuguesa da Collecta tem sido frequentemente reiterada pelos estudiosos de Borri. Contudo, esta interpretação sobre a génese desta obra não tem qualquer fundamento. Antes de mais, como já salientado pelo historiador jesuíta Domingos Maurício Gomes dos Santos, os documentos existentes da década de vinte demonstram que Borri tinha um domínio absoluto tanto do italiano como do idioma latino. Acresce que a tese de LeJeunehomme/Sommervogel sobre génese da principal obra cosmológica de Borrinão resiste a uma análise comparativa das versões latina e portuguesa dela existentes, uma vez que a versão latina é mais rica, extensa e detalhada nas questões técnicas do que a sua congénere portuguesa. 

Em Santo Antão, para além de cosmologia e astronomia, Borri dedicou-se também ao ensino de náutica, detendo-se na questão premente à época da determinação da longitude em mar aberto. Nas suas aulas no colégio lisboeta, ele propôs três métodos, a saber, o cálculo com base em eclipses, a utilização de um relógio de areia, uma ampulheta, que “conservaria” a hora do meridiano de referência e o método da retardações da Lua. Contudo, nesta época, o jesuíta italiano encontrava-se a desenvolver um método muito mais inovador (ainda que ineficaz), o cálculo da longitude com base nas variações do magnetismo terrestre. O método proposto por Borri tinha na sua base a suposta existência de uma variação regular do magnetismo terrestre, sendo possível estabelecer umas linhas de orientação grosso modo norte-sul onde a agulha magnética não apresentava variações de declinação.

Este método parece ter gerado um forte interesse por parte das autoridades espanholas que convocaram Borri a apresentá-lo em Madrid. Para lá se deslocou em 1629. Tendo exposto a sua proposta a uma comissão que estava encarregada de avaliar as diferentes soluções e eventualmente atribuir um prémio àquela que resolvesse tão delicado problema para a navegação, foi-lhe ordenado que desse as devidas instruções a uma frota encarregada de experimentar a sua invenção.

Contudo, antes de saber do sucesso do seu inveto, Borri pediu autorização para se deslocar a Roma. Assim, no início do segundo semestre de 1630 embarcou de Barcelona com destino à caput mundi do catolicismo. Moviam-no dois objectivos na sua viagem a Roma. Por um lado, como podemos concluir da extensa carta que endereça a Vitelleschi, pretendia interferir a favor da publicação do seu livro Collecta Astronomica. Não se conhece a resposta de Muzio Vitteleschi. Contudo, passados poucos meses do seu envio, o livro foi finalmente publicado em Lisboa, com o apoio de Gregório de Castelo Branco, terceiro conde de Vila Nova e Sortelha que tinha sido seu aluno de matemática. 

O segundo motivo que terá levado Borri a solicitar autorização para se deslocar a Roma prende-se com a convocação (8 de julho de 1630) por parte da recém-criada Congregação De Propaganda Fide para que se apresentasse perante esta instituição criada, em 1622, com o objetivo de promover a evangelização a uma escala planetária. Neste contexto, Borri acabaria por endereçar a esta congregação uma importante Informazione, em que expunha os métodos segundo os quais, na sua opinião, se poderia converter ao catolicismo os povos asiáticos. Um papel de destaque estava reservado à Congregação. Como já foi destacado por vários historiadores, a criação da Congregação De Propaganda Fide introduziu uma tensão na relação entre as ordens religiosas que tradicionalmente se dedicavam à missionação. Isso talvez explique a razão por que Borri solicitou à Congregação que este assunto se mantivesse sigiloso.

Todavia, as notícias do envolvimento do jesuíta italiano nos projetos da Congregação De Propaganda Fiderapidamente chegaram ao conhecimento dos superiores jesuítas. Este acontecimento parece ter resultado na saída de Borri da Companhia e Jesus. De acordo com o testemunho de Pietro della Valle, com quem Borri fortaleceu os laços de amizade estando em Roma, os superiores, sabendo do contacto de Borri com a Congregação De Propaganda Fide, exerceram uma forte pressão sobre o seu confrade, levando-o ao abandono da Companhia de Jesus. Nas palavras do patrício romano, ele “por isso [ou seja, pelas relações com a Congregação] teve tais problemas com os Superiores, que teve necessidade, com o beneplácito do Papa, que o favoreceu com um breve especial, de sair da Religião dos Jesuítas e de passar àquela dos monges Cistercienses”.

A autorização para Borri abandonar a Companhia de Jesus foi emitida em 19 de dezembro de 1631. Seguidamente, o milanês entrou na ordem cistercience, onde tomou o nome de Onofrio. É frequentemente mencionado que, após ter sido admitido no convento cisterciense de S. Croce in Gerusalemme, Borri foi expulso deste convento, tentando ingressar sem sucesso em outra casa religiosa da mesma ordem. Contudo, os autores seus contemporâneos, como o cisterciense Charles de Visch, não mencionam qualquer abandono posterior desta ordem religiosa. Cristoforo Borri morreu no dia 24 de maio de 1632.

Luís Miguel Carolino
Instituto Universitário de Lisboa
ISCTE-IUL, CIES

Arquivos

Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo:

“Al molto Reu. Pre. Generale. Christoforo Borri sopra il libro che ho composto per stampare delli tre Cieli,” Armário dos Jesuítas, vol. XIX, ff. 314–317v.

Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal:

Sphaera Mundi, FG 2378.

Compendium problematum, meteorum et paruorum naturalium et tractatus aliquot de mathematica disciplina traditi a Patre Christophoro Brono e Societate Jesu. Ignatius Nunes, Cod. 2378.

Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

Arte da Memoria, Ms. 44, ff. 144–153v.

Arte de Navegar, Ms. 44, ff. 1–62.

Nova Astronomia na qual se refuta a antiga da multidão de 12 ceos pondo so tres Aereo, Cidereo e Impireo, Ms. 44, ff.. 65–143v.

Della terra nuoua dell’India Australe del padre Christoforo Borri Giesuita, Ms. 677, ff. 230–231.

Évora, Biblioteca Pública de Évora:

Isperiencias que se mandarão fazer pera a nauegasão de Leste a Oeste segundo a invenção do Padre Mestre Cristouão Bruno, Cod. CXXVI/1-17, nº 2, fls. 72-80.

Nova Astronomia na qual se refuta a Antiga da multidão de XII ceos pondo so tres Aereo, Sydereo e Empireo, CXVI/1-17.

Vaticano, Archivio della Congregazione per L’Evangelizzazione dei Popoli:

Informazione del P. Christoforo Borro Giesuita a Sua Santità d’vna nuova India per poter’in quella con Sua Autorità Apostolica mandare a piantare, e propagare la Santa Fede a petizione della Santa Congregazione de’ Cardinali di Propaganda Fide, Africa, Isole dell’Oceano Australe, vol. 1; S.O.C.G. – India et Iapponia, 1636, vol. 190.

Vaticano, Biblioteca Apostolica Vaticana:

Az risāla-i pādri Khristufurūs Būrus ‘Isawī  dar tawkif-i djadid-i dunyā / Compendio di un trattato del Padre Christoforo Borro Giesuita della nuova costitution del mondo secondo Tichone Brahe e gli altri astrologi moderniTradotto di Latino in Persiano da Pietro Della Valle il Pellegrino Patritio Romano, 1624/1631, Ms. Pers. 9 e Ms. Pers. 10.

Roma, Archivum Romanum Societatis Iesu:

Relatione d’alcune cose di edificatione occorse al P. Christoforo Borro della Compagnia di Giesù nell’India Orientale, massime in Cochinchina, ARSI, Jap.Sin. 68, fls. 43-46.

Roma, Biblioteca Nazionale Centrale di Roma:

De astrologia universa tractatus. Diuiditur in duas partes quarum prima de contemplatrice astronomia, secunda de practica breuiter, sed dilucide ita pertractat ut deesse plane aut desiderari posse nihil uideatur. Rdo P. Christoforo Burro Societatis Jesu. Auctore in amplissimo Braydensi Collegio scientiarum mathematicarum doctore praestantissimo Anno MDCXII. Qui deinde ad Indos migrauit Anno 1615. Albertus de Albertis [1612, 1615], Ms. Fondo Gesuitico 587.

Milão, Biblioteca Ambrosiana:

Tractatus astrologiae auctore a R.P. Christophoro Borro lectore e Societate Iesuaudiente Bernardino Gorino Luganensi in Collegio Braydensi Mediolani, Ms. A.83 sussidio.

Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro:

Regimento que o P. Christovam Bruno da Comp. de Jesus, por ordem de S.M., da aos pilotos das naos da India para fazerem as experiências sobre a invenção de navegar de leste a oeste, Ms. I-12, 3, 6

Obras

Arte de Navegar (1628) pelo padre mestre Cristóvão Bruno, prefácio por A. Fontoura da Costa. Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1940.

Collecta Astronomica ex doctrina… De tribus caelis aereo, sydereo, empyreo. Lisboa: apud Matthiam Rodrigues, 1631.

Relatione della Nuova Missione delli PP. della Compagnia di Giesu al regno della Cocincina. Roma: Francesco Corbelletti, 1631.

Relatione della nuova missione delli P.P. della Compagnia di Giesù al Regno della Cocincina. Roma e Bolonha: Francesco Catanio, 1631.

Relation de la nouvelle mission des peres de la Compagnie de Jesus au Royaume de la Cochinchine. Traduite de l’italien du Pere Christofle Borri Milanois, qui fut un des premieres qui entrerent en ce Royaume. Par le Pere Antoine de la Croix, de la mesme Compagni. Rennes: Jean Hardy, 1631.

Historie van eene nieuwe Seyndinghe door de Paters der Societeyt Iesu in’t ryck van Cocincina. In’t Italiens gheschreven door P.Christophous Borri Melanois. Der Societeyt Iesu, eenen die onder de eerste in dit Rijk zijn ghegaen. Ende verduytscht door P. Jacobus Susius der selve Societeyt, Lovaina: weduwe van Hendrick Haesten, 1632.

Relatio de Cocincina R.P. Christophori Borri e Societate Jesu, ex Italico latine reddita pro strena D.D. Sodalibus Inclytae Congregationis Assumptae Deiparae in Domo Profess Societatis Jesu, Viena, Excudebat Michael Rictius, in novo mundo. 1633.

Cochin-China: Containing many admirable Rarities and Singularities of that Countrey. Extracted out of an Italian Relation, lately presented to the pope, by Christophoro Barri, that liued certaine yeeres there. London: published by Robert Ashley,, printed by Robert Raworth, 1633.

Relation von dem newen Konigreich Cocincina desz Ehrwurdingen Patris Christophori Borri, der Societet Jesu … aus dem Welsch und Latein verseuscht. Gedrucht zu Wien in Oesterreich bey Michael Riekhes. Viena: Michael Rickhes 1633.

An Description of Cochin-China. In A Collection of Voyages and Travels, ed. Churchill, vol. 2: 721–765. London, printed by assignment from Messrs. Churchill, 1732.

Bibliografia sobre o biografado

Carolino, Luís Miguel. “Cristoforo Borri and the Epistemological Status of Mathematics in Seventeenth-Century Portugal.” Historia Mathematica 34 (2) (2007):  187–205.

Carolino, Luís Miguel. “The making of a Tychonic cosmology: Cristoforo Borri and the development of Tycho Brahe’s astronomical system.” Journal for the History of Astronomy 39 (2008): 313–344.

Dror, Olga e K. W. Taylor , eds. Views of seventeenth-century Vietnam. Christoforo Borri on “Cochinchina” and Samuel Baron on “Tonkin”. Ithaca, NY: Cornell University, 2006.

Santos, Domingos Maurício Gomes dos. “Vicissitudes da obra do Pe. Cristóvão Borri.” Anais da Academia Portuguesa de História 3 (1951): 117–150. 

Surdich, Francesco. “L’ attività di Padre Cristoforo Borri nelle Indie Orientali in un resoconto inedito.” In Fonti sulla Penetrazione Europea in Asia, 67–122.. Génova: Bozzi, 1979.

Bocarro Francês, Manuel (Bocarro Francês, Jacob Rosales, Immanuel Rosales, Immanuele B.F. Y. RosalesBocarro Francês, Manuel)

Lisboa, ca. 1588/1593 — Livorno, ca. 1662/1668

Palavras-chave: Astronomia, Astrologia, Messianismo, Cometas.

DOI: https://doi.org/10.58277/DJLL6341

Manuel Bocarro Francês alias Jacob Rosales teve um papel crucial na introdução de ideias cosmológicas de inspiração estóica em Portugal, tendo sido o primeiro autor a criticar, em obra impressa, a cosmologia aristotélica-ptolomaica neste país. Bocarro Francês foi, ainda, um destacado messiânico cujo livro Anacephaleoses da Monarquia Lusitana ficou célebre nos círculos sebastianistas. Nascido no seio de uma família cristã-nova proveniente do interior do país, Bocarro Francês realizou estudos filosóficos e médicos na Península Ibérica, partindo posteriormente para Itália e, mais tarde, para o Norte da Europa, onde assumiu publicamente o credo judaico, sob o nome de Jacob Rosales.

Filho do médico Fernão Bocarro, natural de Estremoz e autor de um Memorial de muita importância para o S. D. Filippe II, rey de Portugal … o como se ha de hacer contra sus inimigos, e de Guiomar Nunes que nascera na vila de Abrantes, Manuel Bocarro Francês nasceu em Lisboa, provavelmente em 1588 ou, talvez um pouco mais tarde, em 1593. A sua família de origem cristã-nova dedicava-se maioritariamente a atividades mercantis, ainda que alguns dos seus antepassados se tivessem destacado no serviço da Coroa. Segundo testemunho do próprio Bocarro nas primeiras páginas do seu Anacephaleoses da Monarquia Lusitana “teve meu avô João Bocarro, filho de António Bocarro, Capitão que foi de Safim, a meu pai só filho seu legítimo e teve muitos outros bastardos, que nesta cidade [de Lisboa] se fizeram muito ricos e tiranos, os quais aniquilando a honra dos Bocarros tomaram mercatins exercícios”. Tanto o seu avô paterno, João Bocarro, casado com Maria Fernandes, como o seu avô materno, de seu nome Manuel Francês e marido de Brites Lopes, eram mercadores. A atestar por alguns familiares seus, cujas atividades se conhecem em consequência das denúncias por práticas judaizantes e consequentes investigações realizadas por parte do tribunal da Inquisição de Lisboa, é provável que também eles estivessem ligados ao comércio entre Portugal e Espanha ou, mesmo, entre a Península Ibérica e a longínqua Índia ou Pernambuco, para onde irá viver, mais tarde, um primo de Manuel Bocarro, de seu nome Miguel Francês (alias David Francês), filho de Pero Francês.

Tal como seu pai, Manuel Bocarro seguirá a carreira das letras e da medicina. Após ter estudado no Colégio jesuíta de Santo Antão, em Lisboa, onde certamente fez a sua formação filosófica e onde ainda se encontrava em 1610, juntamente com o seu irmão António, Manuel Bocarro parte para Espanha com o objetivo de aí estudar medicina. Inscreve-se, primeiro, na Universidade de Alcalá de Henares, por onde se torna bacharel e, depois, na Universidade de Sigüenza, onde obtêm o grau de licenciado “com muito aplauso e aprovação”, como consta de um documento, passado em Janeiro de 1620, que autoriza Bocarro a exercer a prática médica em Portugal. Apesar de não haver qualquer referência neste documento, a tradição tem acrescentado a estas instituições espanholas, as universidades de Coimbra e de Montpellier, respectivamente, como academias onde Bocarro se teria licenciado e doutorado em medicina. A vida académica parece ter interessado, num primeiro momento, Manuel Bocarro, que declara perante a comissão que lhe avaliou o conhecimento médico, que, já bacharel, foi lente de cadeiras de substituição da faculdade de medicina e artes da Universidade de Alcalá de Henares.

Pouco depois do seu irmão António Bocarro partir para a Índia, onde virá a distinguir-se como cronista do Estado da Índia e como autor de Década 13 da História da Índia, escrita com o objetivo de continuar as famosas Décadas de Diogo do Couto, Manuel Bocarro já se encontra de regresso a Lisboa. Nesta cidade, observará os importantes cometas que cruzaram os céus em Novembro de 1618 e que estarão na origem da sua primeira obra astronómica, o Tratado dos Cometas que appareceram em Novembro passado de 1618, publicado em 1619 com uma dedicatória a D. Fernão Martins Mascarenhas, inquisidor-geral de Portugal. Este tratado é de nuclear importância pois apresenta a primeira crítica impressa às ideias cosmológicas da tradição aristotélica em Portugal. Nesta obra, Manuel Bocarro defende uma cosmologia de inspiração estóica, muito próxima da preconizada por Jerónimo Muñoz (c. 1520–c. 1591), professor de língua hebraica e matemática nas universidades de Valência e Salamanca. Manuel Bocarro ter-se-á familiarizado com tais ideias cosmológicas quando estudou na Universidade de Alcalá de Henares, onde havia ensinado no início do século XVII Diego Pérez de Mesa (1563–1632), um discípulo de Muñoz. No Tratado dos Cometas, Manuel Bocarro apresenta, ainda, uma defesa do valor epistemológico da matemáticas e dos seus procedimentos no estudo da natureza. Ainda que hoje não conheçamos os registos detalhados das observações que Bocarro fez dos cometas de 1618, segundo testemunho do próprio, o astrónomo português enviou as suas observações do cometa a Johannes Kepler (1571–1630) e Christen S. Longomontanus (1562–1647), de quem terá obtido aprovação quanto aos cálculos obtidos. 

Nesta fase da sua vida, a astronomia e a cosmologia estiveram, aliás, na primeira linha das suas preocupações intelectuais. Por esta altura, alimentava a ideia de publicar um pequeno livro intitulado Comentário sobre a Verdadeira Composição do Mundo contra Aristóteles, obra certamente em vias de finalização em inícios de 1619, quando Manuel Bocarro, dirigindo-se a D. Fernão Martins Mascarenhas, na dedicatória que lhe faz no Tratado dos Cometas, refere que tal livro “muito cedo sairá à luz, porque só me falta o favor e amparo de Vossa Ilustríssima”. Fosse pelo carácter pouco ortodoxo do livro, fosse pela simples falta de oportunidade, este projeto ficará adiado por alguns anos. Em 1622, na sequência de um debate científico que teve sobre esta temática, na Corte de Madrid, com Baltazar de Zuñiga, embaixador presidente do Conselho de Itália, e com o “fidalgo napolitano, grande químico e matemático”, Bocarro Francês terá imprimido um breve compêndio em verso latino, apresentando-o ao nobre espanhol. Não se conhecem exemplares de tal publicação. Apenas a edição em Florença, três décadas mais tarde, do poema científico Vera Mundi Compositio, uma reedição da referida obra, nos permite conhecer a sua posição sobre o aceso debate cosmológico de inícios do século XVII. Nesta obra, Bocarro desenvolve as ideias previamente expostas no Tratado dos Cometas, expondo de forma mais articulada e desenvolvida a sua cosmologia. 

Em 1624 a vida de Bocarro Francês sofre uma inflexão de todo significativa. No decorrer desse ano publica a primeira parte de Anacephaleoses da Monarquia Lusitana, livro que lhe trará maior celebridade entre os messiânicos portugueses de Seicentos e Setencentos, sendo constantemente citado a propósito da eminência do estabelecimento do Quinto Império por intermédio da monarquia portuguesa. De acordo com o plano de Bocarro, este livro dividir-se-ia em quatro anacefaleoses. No primeiro anacefaleose que dedica a Filipe III e intitula Estado Astrológico, defende que Portugal há-de ser a última e mais poderosa monarquia do mundo; no segundo, chamado Estado Régio e dedicado a Dom Diogo da Silva e Mendonça, propõe-se narrar a história do reino português; no terceiro, intitulado Estado Titular e dedicado ao inquisidor-geral Fernão Martins Mascarenhas, teria como objeto os títulos seculares e religiosos que compõem a monarquia portuguesa; por fim, no quarto anacefaleose, a que significativamente dá o título de Estado Heróico Particular e dedica ao duque de Bragança Dom Teodósio, Bocarro propõe-se cantar os varões ilustres que se destacaram por seus heróicos feitos. 

Uma obra com semelhante estrutura e tais propósitos não podia deixar de suscitar fortes desconfianças por parte das autoridades espanholas, que de imediato impediram a sua publicação e prenderam tão ousado autor. Acontece que exatamente nesse ano de 1624 um outro factor irá concorrer para o agravar da situação de Bocarro na Península Ibérica. O seu irmão António comparece voluntariamente perante o tribunal do Santo Ofício de Goa e denuncia parte da sua família por práticas judaízantes. Na sequência desta denúncia a família Bocarro Francês sairá gradualmente de Portugal, exilando-se em algumas cidades italianas, em Amsterdão e, sobretudo, em Hamburgo, mas também nas possessões do império Otomano e na América do Sul.

Manuel Bocarro Francês, mesmo após assumir publicamente a sua condição de judeu, não fará qualquer referência a esta denúncia do seu irmão; contudo tal certamente precipitou a fuga da Portugal, que terá ocorrido em 1625, na segunda metade deste ano. O seu primeiro destino foi Roma, onde estabeleceu contactos com o círculo de Galileu, que tanto o marcaram como testemunhará ao longo da sua vida. Ainda nesta cidade publicou, sob os auspícios de Galileu Luz Pequena Lunar e Estelífera bem como Foetus Astrologici Libri tres. O apoio de Galileu a Bocarro Francês tem causado alguma perplexidade entre os historiadores, nomeadamente de Joaquim de Carvalho, que chegou mesmo a afirmar, no seu estudo Galileu e a Cultura Portuguesa sua contemporânea, “sendo exato, o patrocínio de Galileu, se cientificamente é paradoxal, visto auxiliar a impressão de um livro de semblante astrológico, patrioticamente é para nós gratíssimo, porque significa proteção e, porventura, solidariedade”. Se é certo que Galileu e Bocarro partilhavam uma oposição à cosmologia e epistemologia aristotélica, um olhar de relance sobre as conceções científicas de ambos os astrónomos não deixa de revelar a diferença de noções sobre o sistema de mundo, estrutura da matéria celeste e teoria cometária destes astrónomos. No domínio da astronomia, era mais aquilo que os afastava do que o que os fazia concordar. Contudo, tanto Galileu como Bocarro, à semelhança da maioria dos astrónomos de inícios do século XVII, partilhavam um interesse pela astrologia. O contexto político que se vivia tanto em Itália como na península ibérica e as circunstâncias em que Galileu recebeu o manuscrito bocarriano podem ajudar, também, a explicar o apoio do Pisano à obra do astrónomo português. Galileu recebeu o texto Bocarro em Florença por uma interposta pessoa, provavelmente um português próximo do cardeal Francesco Barberini interessado em explorar as divergências surgidas entre a Santa Sé e a Coroa de Espanha, ocorridas neste período. A situação política não era, de facto, favorável aos Medici por volta de 1625. Não só a presença espanhola na península itálica ameaçava tornar-se hegemónica, com o apoio ao papado e a alguns principados importantes, como os esforços diplomáticos conduzidos por Ferdinando I e Cosimo II junto da corte de Madrid no sentido de obterem concessões comerciais nas possessões ibéricas no Novo Mundo, nomeadamente na Amazónia, viram-se gorados. Acresce que Galileu viu a sua proposta de determinação da longitude a partir dos eclipses dos recém-descobertos satélites de Júpiter – proposta que se insere na referida tentativa de penetração dos Medici na economia americana -, preterida em favor de um matemático espanhol. É neste contexto político que a passagem de Manuel Bocarro por Roma ganha um novo significado e que a sua Luz Pequena Lunar e Estelífera da Monarquia Lusitana se torna um livro a apoiar estrategicamente por quem não tinha nada a ganhar com a afirmação hegemónica de Espanha. Seja como for, este pequeno livro de Bocarro foi de efetivamente antecedido de um prefácio de Galileu, em que este considerava ser importante a sua publicação para que “o mundo admire, ame e louve o talento do seu autor, primeiro entre os astrólogos”.

Após uma breve, mas marcante, passagem por Roma, Bocarro Francês dirige-se para o norte da Europa. Provavelmente chega a Amesterdão ainda em 1626, onde assume abertamente o seu judaísmo sob o nome de Jacob Rosales. Pouco mais tarde, por volta de 1632, desloca-se para Hamburgo, onde se reuniu à sua família que aí habitava. Hamburgo era á época uma das capitais comerciais do Mar do Norte.

Nesta cidade hanseática residirá por cerca de duas décadas, estabelecendo fortes relações com intelectuais judeus, protestantes e católicos. Para além da relação de amizade e admiração mútua que o uniu a Menasseh ben Israel, polifacetado judeu de origem portuguesa muito famoso na época por suas obras de apologética judaica e pelos contatos que cultivou com acadêmicos de outros credos religiosos, Bocarro teve entre seus amigos e correspondentes, Zacuto Lusitano, Moshe ben Gideon Abudiente, o médico e professor Jan van Beverwick, os teólogos Paul Felgenhauer e Johann Mochinger, D. Francisco de Melo, embaixador de Espanha junto da corte imperial, entre outros.  

A produção intelectual de Manuel Bocarro em Hamburgo refletirá este vivo clima de que participou. Assim, não apenas compôs um vasto número de poemas que foram publicados em obras de seus pares, como também escreveu o poema sobre a origem do conhecimento Epos Noeticum sive Carmen Intellectuale, inserido no livro de Menasseh ben Israel De Termino Vitae (Amsterdão, 1939) e um pequeno tratado sobre o conhecimento médico com o título Armatura Medica: hoc est modo addiscendae medicinae per Zacutinas historias earumque praxin que publicou nos Opera Omnia de Zacuto Lusitano (Lyon, 1644). Para além destes textos originais, Manuel Bocarro, agora também Rosales, teve ainda oportunidade de publicar em Hamburgo, em 1644, na célebre tipografia de Henrich Werner, o Regnum Astrorum Reformatum onde reuniu dois textos anteriormente impressos: o Anacefaleose Primeiro da Monarquia Lusitana ou Status Astrologicus e o Foetus Astrologici libri tres.

O prestígio que Rosales atingiu em Hamburgo não foi reduzido, valendo-lhe o título honorifico de Conde Palatino, com que o imperador Fernando III o condecorou em 1647. Contudo, tal distinção não parece ter ficado a dever-se sobretudo aos seus méritos como filósofo, astrónomo ou conhecido médico da nobreza europeia. Tal explicar-se-á antes pela sua colaboração económica e política com os ramos espanhol e alemão da Casa de Habsburgo. De facto, ao longo da sua estadia em Hamburgo, Bocarro Francês agiu como um destacado intermediário do partido espanhol e da casa imperial alemã, em detrimento dos interesses portugueses e da própria comunidade sefardita de Hamburgo. Assim, por exemplo, num dos raros momentos em que a política nórdica da corte de Madrid e da Casa Imperial alemã divergiram, Bocarro desempenhou um papel importante. Estando em Hamburgo em 1645, o português assumiu o lugar de representante nesta cidade do secretário de estado imperial, Balthasar von Walderode. A corte de Madrid e a corte imperial disputavam a jurisdição sobre este cargo. Em princípio, tal deveria estar sob autoridade exclusiva dos espanhóis, contudo o embaixador espanhol, duque de Terranova, teria aceite a influência de Walderode, reconhecendo tacitamente o poder imperial sobre esta função. Face à oposição súbita do conselho de estado espanhol, o duque de Terranova contornou a situação, fazendo com que Bocarro passasse a seguir as suas ordens a troco de dinheiro pago pela embaixada espanhola nessa cidade. Manuel Bocarro teria, deste modo, de acordo com as indicações espanholas, que regular o tráfico de navios das cidades hanseáticas com portos espanhóis e denunciar os navios e comerciantes que não seguissem as normas. Segundo Hermann Kellenbenz tal significava prejudicar, entre outras, as ligações que os portugueses sediados no norte da Europa estabeleciam com o reino lusitano. 

Manuel Bocarro teve, assim, em Hamburgo, um papel importante como mandatário da política dos Habsburgos espanhóis e alemães nas cidades hanseáticas, ocupando mesmo posição de relevo nos senados de Hamburgo, Lubeck e Danzig. Esta situação aparentemente paradoxal tem gerado alguma discussão entre os historiadores que aí veem uma contradição entre os princípios messiânicos em torno da monarquia portuguesa e o favorecimento dos interesses espanhóis. Contudo, essa contradição poderá ser mais aparente do que real, uma vez que a defesa do estabelecimento de Quinto Império por parte de um rei português não exigia necessariamente a dissolução da monarquia compósita ibérica.

Em finais da década de quarenta, a situação de Bocarro altera-se bruscamente. Nesse momento, as cidades hanseáticas passaram a emitir diretamente os necessários passes aos navios de comércio com destino a Espanha, em detrimento do representante das autoridades espanholas em Hamburgo, ou seja do próprio Bocarro. Assim, a sua situação económica declinou rapidamente, ao que se veio a somar o crescente desinteresse de Espanha pelo papel de intermediação económica e política de Bocarro Francês. Tentando em vão ser ressarcido das despesas que lhe teriam valido o apoio ao partido dos Habsburgos, e que o próprio avaliava em 1651 em 15 000 ducados, o astrónomo português deixa o seu cargo em situação de extrema dificuldade, abandona Hamburgo em direção a Amsterdão, passando possivelmente por Bruxelas. Será de novo a Península Itálica para onde irá rumar. 

Em 1653, Manuel Bocarro encontrava-se já na Toscânia, onde rapidamente entra no circulo dos Médici, apresentando-se como doutor em medicina e nobre do Sacro Império Romano Germânico. Certamente que o seu perfil intelectual secundado pela memória do anterior apoio de Galileu lhe abriu algumas portas da corte medicea, uma corte que se destacava pela riqueza dos seus interesses artísticos e filosóficos e pela sua já secular política de mecenato. Contudo, o seu profundo conhecimento dos meios políticos, das estratégias diplomáticas e dos interesses económicos de países e estados tão diversos não pôde deixar de ser tomado em consideração pelos Médici que viam o seu poder económico e a sua área de influência política reduzir-se abruptamente com o decorrer do século XVII.

Neste contexto, Rosales encontrará na Toscânia condições para equilibrar a sua periclitante situação patrimonial, prestando os seus serviços de médico a famílias influentes como a família Strozzi. O apoio dos Médici possibilitou-lhe, ainda, obter uma carta de recomendação do príncipe Leopoldo endereçada ao governador de Livorno, cidade portuária onde existia uma consistente comunidade judaica e para onde Bocarro se transfere com a sua família em 1656. Aqui, integra-se na comunidade judaica local, tornando-se membro da congregação “Hebra de Casar Orfãs”, em 1660, e continua a alimentar as esperanças sobre a afirmação da monarquia portuguesa como o sujeito do Quinto Império que vê prestes a cumprir-se, morrendo provavelmente em 1662 (ou 1668).

Ao publicar, em Florença, em 1654, a sua última obra, um volume intitulado Fasciculus Trium Verarum Propositionum Astronomicae, Astrologicae et Philosophicae, que dedica ao príncipe Cosimo III, Manuel Bocarro Francês retoma as obras que o tinham acompanhado durante a sua vida, fazendo uma nova edição dos tratados Vera Mundi Compositio,Foetus Astrologici Epos Noeticum sive Carmen Intellectuale, obras em verso já anteriormente dadas ao prelo. E fazendo-o, Rosales reafirma, mais uma vez, as teses por que se havia batido no campo da cosmologia, da filosofia, da profecia e do messianismo político. 

Luís Miguel Carolino
Instituto Universitário de Lisboa
ISCTE-IUL, CIES

Arquivos

Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo:

“Anacefaleoses da Monarquia Lusitana pelo Doutor Manuel Bocarro Francês, medico, filósofo e matemático lusitano.” Manuscritos da Livraria, n.º 746. 

“Anacefaleoses da Monarquia Lusitana. Estudo astrológico.” Manuscritos da Livraria, n.º 1054 (1). 

“Anacephaleoses da Monarquia Lusitana.” Adília Mendes, mç. 6, n.º 54.9.

“Explicação do primeiro Anacephaleoses impress em Lisboa no ano de 1624 sobre o Príncipe Encoberto e a monarquia ali prognosticada – porq[ue] os Castelhanos impediram imprimirsse com outros no ano de 1626.” Manuscritos da Livraria, n.º 1228 (3)

Luz Pequena, Lunar e Estellifera do Doctor Manoel Bocarro Francez Rosales, Manuscritos da Livraria, ms. 774, ff. 99v–111v.

“Aforismo que o doutor Manoel Bocarro Frances mandou a hum amigo seu no anno de 1627 dizendo assim.” Manuscritos da Livraria, ms. 774 , ff. 97v–99v. 

“O Bocarro [131 oitavas].” Manuscritos da Livraria, ms. 774, ff.14–-162v.

“Observação que fez em Lisboa Manuel Bocarro Francês sobre o sinal que apareceu no céu em 9 de Novembro de 1618.” Manuscritos da Livraria, n.º 1736.

Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal:

“Anacephaleoses da Monarchia Lusitana. Tres partes contendo 56, 75, 16 oitavas.” Cód. 125.

“Aphorismos.” Cód. 7211. 

“Aphorismos de Manoel Bocarro sobre o juizo que fez do eclipse lunar em Setembro do anno de 1624.” ms. 97, nº 7.

“Carta que Manuel Bocarro Francês escreveu de Liorne a Francisco de Sousa Coutinho, chegado a Lisboa da Embaixada de Roma em 27 de Maio de 1659.” Cód. 125.

“Discurso astrológico no anno de 1629.” Cód. 551.

“Profecias, anno de 1624.” ms. 249, nº 69.

“Profecias em verso: Muitos parecerão se não me engano.” Cód. 627, fls. 62 e 141v.

“Vaticinios feitos pela mathematica no anno de 1627.” Cód. 400.

“Vaticinios que fez o Dr. Manoel Bocarro Francez, medico, astrologico lusitano no anno de 1627 – anno de 1628.” Cód. 551.

“Cópia de uma carta do Dr. Bocarro a um amigo seu mandando-lhe com ela huns aforismos astrológicos. Cod. 914

Lisboa, Biblioteca da Ajuda:

“Adevinhações de Bocarro.” ms. 50-V-35, ff. 387–387v.

Correspondência, ms. 50-V-36, ff. 145–148v.

Évora, Biblioteca Pública de Évora:

“Aphorismos”, Códs. CIV / 1–14, ff. 161ss.; CV / 1–2, ff.. 56ss.; CV / 1–3, ff. 48v.ss. 

“Carta de Manuel Bocarro Francez para um fidago de Lisboa em 1627.” Cód. CXII / 2–15, ff. 183–183v.

“Carta que Manuel Bocarro Francês escreveu de Liorne a Francisco de Sousa Coutinho, chegado a Lisboa da Embaixada de Roma em 27 de Maio de 1659.” cód. CV / 1–6, f. 195v.

“Tratado dos Cometas que appareceram em Novembro passado de 1618, Biblioteca Pública de Évora.” ms. CX/1-5.

Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

“Discurso que o Doutor Manoel Bocarro Medico, Filozofo e Matematico Luzitano, fez sobre a conjunção maxima, que se celebrou no anno de 1603 aos 31 de Dezembro.” ms. 103.

Luz Pequena, Lunar e Estellifera do Doctor Manoel Bocarro Francez Rosales. ms. 393. 

Florença, Biblioteca Nazionale Centrale di Firenze:

Correspondência, Lettere autografe, V, 121–126

Paris, Biblithèque Nationale de France:

“Profecias do doutor Manuel Bocarro Francês, do ano de 1627, com alusões ao regresso do Rei encoberto.” Fonds PortugaisMs. 25, ff. 408–409.

Obras

Anacephaleoses da Monarchia Luzitana. Lisboa: António Alvares, 1624.

Epos Noeticum sive Carmen Intellectuale. In De termino vitae libri 3, quibus veterum Rabbinorum, ac recentium doctorum, de hac controversia sententia explicatur, ed. Menashe ben Israel. Amstelodami: typis et sumptibus authoris, 1639.

Regnum Astrorum Reformatum. Hamburg: ex officina typographica Henrici Werneri, 1644. 

Armatura Medica: hoc est modo addiscendae medicinae per Zacutinas historias earumque praxin. In Zacuto Lusitano, Opera Omnia, vol. 2. Lugdunis: Sumptibus Ioannis-Antonii Huguetan, 1644.

Fasciculus trium verarum propositionum astronomicae, astrologicae, et philosophicae. Florence: typis Francisci Honuphrii, 1654.

Tratado dos cometas que apareceram em Novembro passado de 1618, ed. Henrique Leitão. Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal, 2009.

Luz Pequena Lunar e Estelífera da Monarquia Lusitana, ed. Luís Miguel Carolino. Rio de Janeiro: Museu de Astronomia e Ciências Afins, 2006.

Bibliografia sobre o biografado

Carolino, Luís Miguel. “Scienza, Politica ed Escatologia nella formazione dello ‘scienzato’ nell’Europa del XVII secolo: Il caso di Manuel Bocarro Francês – Jacob Rosales.” Nuncius, 19 (2) (2004): 477–506.

Carolino, Luís Miguel. “Manuel Bocarro Francês, the comet of 1618, and the impact of Stoic cosmology in Portugal.” InNovas y cometas entre 1572 y 1618. Revolución cosmológica y renovación política y religiosa, ed. Miguel Ángel Granada, 195–224. Barcelona, Universitat de Barcelona, 2012.

Kellenbenz, Hermann. “Dr. Jakob Rosales.” Zeitschrift für Religions und Geistesgeschichte 8 (1956): 345–354.

Moreno-Carvalho, Francisco. “A newly discovered letter by Galileo Galilei: contacts between Galileo and Jacob Rosales (Manoel Bocarro Francês), a seventeenth-century Jewish scientist and sebastianist.” Aleph 2 (2002): 59–91.

Silva, Sandra Neves. “Criptojudaísmo e profetismo no Portugal de Seiscentos: o caso de Manoel Bocarro Francês alias Jacob Rosales (1588/93?–1662/68?).” Estudos Orientais 8 (2003): 169–183.

Folque, Filipe de Sousa

Portalegre, 28 novembro 1800 – Lisboa, 27 dezembro 1874

Palavras-chave: geodesia, cartografia, astronomia, ensino de ciência, institucionalização de ciência.

DOI: https://doi.org/10.58277/QPPJ6606

Filipe de Sousa Folque foi determinante na institucionalização dos trabalhos geodésicos e da astronomia em Portugal no século XIX. Enquanto diretor da Comissão Geodésica e Topográfica do Reino, coordenou os trabalhos de levamento geodésico que resultaram na elaboração, entre outras, da Carta Geographica de Portugal, editada em 1865. Folque foi também o professor de Astronomia e Geodesia da Escola Politécnica de Lisboa e um dos principais impulsionadores da criação do Observatório Astronómico da Ajuda, contribuindo decisivamente para moldar a natureza desta área científica e da comunidade astronómica em Portugal durante a segunda metade do século XIX e inícios do século XX. Folque foi sócio da Academia de Ciências de Lisboa.

Filho do general Pedro Folque e de Maria Micaela de Sousa Folque, o jovem Filipe seguiu a carreira militar tal como seu pai, assentando praça como aspirante a piloto da Marinha em 1817. Após ter estudado na Academia Real da Marinha, Folque ingressou na Universidade de Coimbra onde se dedicou ao estudo de matemática, geodesia e topografia. Em 20 de julho de 1826, obteve o grau de doutor em Matemática pela Universidade de Coimbra. Ainda neste ano, Folque foi nomeado ajudante do diretor das obras do rio Mondego e, em 1827, ajudante do Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra. Foi provavelmente nesta qualidade que iniciou a atividade letiva, área em que mais tarde se distinguiu na Academia Real da Marinha e, sobretudo, na Escola Politécnica de Lisboa. Vivia-se, nessa altura, o início das guerras entre liberais e absolutistas (1828–1834). De acordo com José Maria da Ponte e Horta (1824–1892), seu sucessor na cadeira de Astronomia e Geodesia na Escola Politécnica e responsável pelo Elogio Histórico do Doutor Filipe Folque lido na sessão publica da Academia Real das Sciencias em 12 de Dezembro de 1875, Folque colocou-se desde a primeira hora do lado dos liberais, facto que lhe terá custado o afastamento da Universidade de Coimbra.

Na sequência destes acontecimentos, Folque regressou a Lisboa, onde se casou em 1831 com Maria Luísa Possolo, com quem teve dois filhos, Pedro e Virgínia Folque. Dois anos mais tarde, em 1833, transitou da Marinha para o Exército, onde alcançou o posto de general no Corpo de Engenheiros, em 1872. Deste período data a estreita colaboração com Almeida Garrett na fundação do Conservatório Nacional de Lisboa. Folque, que era um exímio flautista amador, assumiu gratuitamente as funções de conservador da Escola de Música, chegando mesmo a participar como solista e membro da orquestra em várias festas escolares. Uma destas ocasiões foi justamente a sessão solene do Conservatório de 21 de dezembro de 1841, que teve lugar na Sala de Atos da Escola Politécnica de Lisboa e que foi a última a que Garrett assistiu.

Uma vez no Corpo de Engenheiros, Folque começou a trabalhar sob direção do seu pai, Pedro Folque, na Comissão para os Trabalhos de Triangulação Geral e Levantamento da Carta Corográfica do Reino, sob a alçada do Ministério da Guerra. Esta comissão pretendia retomar os trabalhos de triangulação iniciados em 1790 por Francisco António Ciera (1763–1814). Uma das dificuldades com que o levantamento geodésico do reino se deparava era a escassez de pessoal técnico devidamente qualificado. Folque fez constante menção a este facto na sua Memória sobre os trabalhos geodésicos elaborados em Portugal, obra em quatro volumes publicada a partir de 1841, que oferece uma visão épica sobre o processo de elaboração de uma cartografia rigorosa do reino. Folque teve oportunidade de solucionar em parte este problema ao assumir funções como lente de Astronomia e Geodesia na recém-criada Escola Politécnica de Lisboa, em 1837. Pensada como peça essencial no processo de modernização do país, a Escola Politécnica de Lisboa teve um papel crucial na formação da elite técnico-científica que contribuiu para a consolidação do Estado-nação no século XIX. Foi neste contexto que Folque transitou da Academia Real da Marinha, agora extinta, onde ensinava Matemática desde 1834, para a Escola Politécnica, onde se manteve como professor da quarta cadeira (Astronomia e Geodesia), até se jubilar em 1859.

Quando Folque assumiu o ensino de Astronomia na Escola Politécnica, esta ciência dividia-se em dois ramos, que os seus contemporâneos nomeavam de “astronomia teórica”, também designada por vezes de “mecânica celeste”, graças à influência decisiva de Pierre Simon Laplace (1749–1827) e da sua incontornável Mécanique Céleste, e “astronomia esférica”. Se a primeira se dedicava à investigação das leis do movimento dos corpos celestes de acordo com a aplicação da teoria da gravitação universal de Newton, a segunda consistia no estudo da posição e direções  dos corpos celestes em momentos e localizações concretas. À medida que o século XIX se aproximava do fim, alguns astrónomos passaram a incluir na sua área disciplinar a designada “física cósmica” ou “astronomia física”, que estudava a estrutura do universo e a constituição física dos corpos celestes e que, mais tarde, beneficiando dos desenvolvimentos na área da espectroscopia, esteve na origem da “astrofísica”. Folque estava familiarizado com esta distinção, reconhecendo que, com Newton, a astronomia se havia reduzido “a não ser mais do que um grande problema de mecânica”. Contudo, perante a necessidade de formar um conjunto de engenheiros que pudessem levar a bom termo o levantamento geodésico e topográfico do país, ele não hesitou em valorizar a dimensão aplicada da astronomia no seu curso da Escola Politécnica. Ao fazê-lo, acabou por traçar um percurso semelhante a outros professores de escolas técnico-científicas da Europa e das Américas, optando conscientemente pela “astronomia esférica”. Foi neste contexto que escreveu o livro Elementos d’Astronomia coordenados para uso dos alunos da Eschola Polytechnica, publicado pela litografia da Escola Politécnica em 1840. Como outros manuais de astronomia esférica, os Elementos de Folque tinham como objetivo familiarizar o estudante com os métodos de determinação, não apenas da posição dos corpos celestes em determinado momento e local na superfície da terra, mas, também, das suas distâncias relativas tal como eram observáveis na esfera celeste. Tal exigia o domínio prévio dos processos de determinação e conversão dos sistemas de coordenadas esféricas e retangulares, o conhecimento da forma, dimensões e movimentos da terra, dos princípios da teoria do Sol e da Lua, o domínio de conceitos como o tempo solar e o tempo sideral, bem como de outros fenómenos astronómicos, como seja a aberração, a precessão dos equinócios, nutação e paralaxe. Uma introdução aos principais instrumentos utilizados para medir o tempo, os movimentos e as distâncias dos corpos celestes e sua calibração era, ainda, parte crucial dos manuais de astronomia esférica, como os Elementos de Folque.

O programa de astronomia esboçado por Folque e que se consubstanciava nos seus Elementos manteve-se em vigor até à década de 1890. Assim, parte significativa dos homens de ciência que, em Portugal, receberam formação em astronomia no século XIX, fizeram-no nos moldes traçados por Folque. Esse foi, em particular, o caso dos engenheiros que trabalharam da Comissão Geodésica e Topográfica do Reino. De facto, número significativo dos engenheiros que participaram nos trabalhos da designada alta geodesia desta Comissão, ou seja na determinação dos valores das coordenadas de latitude e longitude dos vértices dos triângulos de “primeira ordem” e do azimute entre um dos lados do triângulo e a linha norte-sul de forma a ajustar a orientação da cadeia de triangulação, foram alunos de Folque na Escola Politécnica de Lisboa. Após os estudos nesta e na Escola do Exercito, ao ingressarem na Comissão Geodésica e Topográfica do Reino, estes engenheiros reencontraram Folque, que dirigia Comissão desde 1852. Nesta função, Folque coordenava o planeamento dos trabalhos não apenas do ponto de vista técnico e científico, mas também administrativo. Neste contexto, produziu um conjunto preciso de instruções relativas aos métodos de observação, calibração de instrumentos, protocolo de observação, que por vezes chegavam mesmo a incluir referência ao pagamento por estes trabalhos.

Em 1856, a Comissão Geodésica e Topográfica do Reino deu origem à Direcção-Geral dos Trabalhos Geodésicos, Corográficos e Hidrográficos, dependendo do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria. Filipe Folque foi reconduzido na direção desta instituição. Nos anos que se seguem, o processo de elaboração de uma cartografia do reino avançou. Em 1865, foi publicada a Carta Geographica de Portugal à escala 1:500,000. O objetivo inicial foi a elaboração de um mapa topográfico com informação cadastral. Contudo, perante as manifestas dificuldades em concretizar este desiderato, decidiu elaborar um mapa corográfico à escala 1:100 000. O projeto de publicação deste mapa, que deveria incluir informação relativa às linhas de água, principais elevações, localização das estradas, principais cidades e vilas, bem como as divisões administrativas do país, só foi completado em inícios do século XX. Para além destes espécimes cartográficos, os serviços dirigidos por Folque elaboraram, entre outros, a Carta Topográfica de Lisboa na escala 1:1,000 em 65 folhas manuscritas e coloridas, o Plano Hidrográfico da Barra do Porto de Lisboa na escala 1:10 000 e a primeira Carta Geográfica e Geológica de Portugal continental na escala de 1:500 000.

Um dos motivos de demora na produção de mapas, sobretudo na primeira fase, relacionou-se com a técnica de impressão. Foi assim, que, provavelmente por iniciativa e Folque, se estabeleceu um contrato entre o governo português e o desenhador de origem polaca, exilado em França, Jan Lewiscki (1795–1871) com vista ao seu estabelecimento em Lisboa. Nesta cidade, foi, assim, fundada a primeira oficina litográfica dedicada à publicação de mapas e à preparação dos técnicos portugueses neste domínio.

Os mapas elaborados sob os auspícios da Direcção-Geral dos Trabalhos Geodésicos, Corográficos e Hidrográficos foram cruciais não apenas no planeamento de obras públicas e de desenvolvimento do país, mas também na projeção de uma imagem de modernidade fora das fronteiras. A Carta Geographica de Portugal tornou-se, assim, uma presença obrigatória nas exposições mundiais que ocorreram em várias cidades europeias e americanas durante a segunda metade do século XIX. Acompanhando várias destas Cartas, encontrava-se uma descrição do seu processo de produção escrita por Folque e publicada pela Imprensa Nacional, em 1868, com o título Rapport sur les travaux géodésiques du Portugal et sur l’état actuel de ces mèmes travaux.

Filipe Folque esteve ainda na origem do Observatório Astronómico de Lisboa. Surgido no contexto de uma controvérsia internacional sobre a paralaxe da estrela de Argelander, o projeto de um observatório astronómico dedicado à astronomia sideral depressa se converteu numa iniciativa de Estado, tendo sido designada uma comissão para promover a sua edificação. Folque destacou-se nesta comissão. Ele estabeleceu os contactos iniciais com a comunidade científica internacional, soube reunir apoios políticos para a sua concretização, nomeadamente o patrocínio do rei D. Pedro V (1837-1861), e escolheu, ainda, o astrónomo que iria materializar o projeto, o seu ex-aluno na Escola Politécnica Frederico Augusto Oom (1830–1890), futuro diretor do Observatório Astronómico de Lisboa. Este observatório foi edificado entre 1861 e 1867, tendo como modelo o Observatório Astronómico de Pulkovo, São Petersburgo, Rússia.

Como era frequente entre os homens de ciência no Portugal oitocentista, Filipe Folque seguiu, também, uma careira política, tendo sido eleito nas legislaturas de 1840–1842 e 1860–1861. Apesar de se traçar com certa frequência o perfil de um homem comprometido com a ciência e um pouco avesso às discussões parlamentares, Folque integrou as Comissões de Guerra e de Administração Pública e apresentou, na Câmara dos Deputados, propostas relativas ao ensino e política científica, como, por exemplo, a necessidade de melhorar o ensino de matemática nas instituições de ensino superior em Portugal.

Em vida, Filipe Folque viu reconhecido o seu importante papel no âmbito do ensino e institucionalização da ciência em Portugal. Logo em 1834 foi eleito sócio efetivo da Academia Real das Ciências de Lisboa, sendo nomeado diretor da classe das ciências exatas em 1850. Ele foi, também, mestre de Matemática de D. Pedro V e D. Luís, tendo feito parte do séquito que acompanhou os príncipes no seu tour europeu de 1854 e 1855, sobre o qual escreveu um interessantíssimo diário, ainda manuscrito. Entre as inúmeras distinções que recebeu, encontram-se a de Fidalgo da Casa Real e Par do Reino e a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, bem como as Comendas da Real Ordem de S. Bento de Avis, Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, Ordem de Leopoldo (Bélgica), Ordem da Coroa de Carvalho e Ordem do Leão (Países-Baixos), Legião de Honra (França) e da Ordem de S. Jorge (Reino das Duas Sicílias). Filipe Folque foi, ainda, sócio fundador da Sociedade de Geografia de Lisboa, instituída um ano antes da sua morte.

Luís Miguel Carolino
CIES – Centro de Investigação e Estudos de Sociologia
ISCTE – IUL

Obras

Folque, Filipe. Ephemerides das distancias do centro do Sol e planetas Venus, Marte, Jupiter e Saturno ao centro da Lua e dos lugares heliocêntricos e geocêntricos destes astros para 1833. Lisboa: Impressão Régia, 1832.

Folque, Filipe. Elementos d’Astronomia coordenados para uso dos alumnos da Eschola Polytechnica. Lisboa: Lithografia da Escola Polytechnica, 1840.

Folque, Filipe.  Memória sobre os trabalhos geodésicos executados em Portugal. Lisboa: Typographia da Academia Real das Sciencias de Lisboa, 1841-56.

Folque, Filipe. Diccionário do Serviço dos Trabalhos Chorographicos do Reino. Lisboa: Imprensa Nacional, 1853.

Folque, Filipe. Instrucções para a execução, fiscalisação, e remuneração dos trabalhos geodésicos e chorographicos do Reino. Lisboa: Imprensa Nacional, 1858.

Folque, Filipe. Taboas para o cálculo trigonométrico das cotas de nível. Lisboa: Imprensa Nacional, 1864.

Folque, Filipe. Taboas para o cálculo das distâncias à meridiana e à perpendicular do Observatório do Castelo de Lisboa segundo a projecção de Flamsteed modificada. Lisboa: Imprensa Nacional, 1867.

Folque, Filipe. Rapport sur les travaux géodésiques du Portugal e sur L’état actuel de ces mèmes travaux pour être présenté à la commission permanente de la Conférence Internationale. Lisboa: Imprensa Nacional, 1868.

Folque, Filipe. Relatório dos trabalhos executados no Instituto Geographico durante o ano de 1866-1867. Lisboa: Imprensa Nacional, 1868.

Folque, Filipe. Instrucções sobre o Serviço Geodesico de primeira ordem. Lisboa: Imprensa Nacional, 1870.

Bibliografia sobre o biografado

Alegria, Maria Fernanda e João Carlos Garcia. “Aspectos da evolução da Cartografia Portuguesa (séculos XV a XIX).” In Os mapas em Portugalda tradição aos novos rumos da cartografia, ed. Maria Helena Dias, 27–84. Lisboa: Cosmos, 1995.

Branco, Rui Miguel C. Branco. O mapa de Portugal: estado, território e poder no Portugal de oitocentos. Lisboa: Livros Horizonte, 2003.

Carolino, Luís Miguel Carolino. “Measuring the heavens to rule the territory: Filipe Folque, the teaching of astronomy at the Lisbon Polytechnic School and the modernization of the State apparatus in nineteenth century Portugal.” Science & Education 21 (1) (2012): 109–133.

Costa, Maria Clara Pereira da Costa. “Filipe Folque – O homem e a obra (1800–1874).” Revista do Instituto Geográfico e Cadastral 6 (1986): 95–160.

Leitão, Vanda Leitão “Filipe de Sousa Folque (1800–1874): breve biografia.” In Medir os céus para dominar a terra: a astronomia na Escola Politécnica de Lisboa / medir o tempo, medir o mar, medir o tempo (catalogo de exposição), ed. Luís Miguel Carolino e Teresa Salomé Mota, 12–15. Lisboa: Museu de Ciência da Universidade de Lisboa, 2009.