Sousa, Francisco Luís Pereira de

Funchal, 22 setembro 1870 — Portimão, 25 setembro 1931

Palavras-chave: engenharia militar, Serviços Geológicos, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, terramoto de 1755, tectónica.

Francisco Luís Pereira de Sousa foi talvez um exemplo de um certo homem de ciência que existiu em Portugal na transição do século XIX para o seguinte.

Pereira de Sousa passou a infância e a adolescência na sua cidade natal, onde realizou os primeiros estudos. Aos dezassete anos, partiu para Lisboa a fim de cursar os preparatórios de Engenharia Militar na Escola Politécnica e, em 1888, ingressou na Escola do Exército a fim de completar a sua formação. Concluiu o curso em 1894 e foi colocado na divisão de engenharia militar em Tancos. A 10 de outubro de 1904, com o posto de tenente, foi nomeado engenheiro subalterno de segunda classe do Corpo de Engenharia Civil da secção de Obras Públicas. Promovido a capitão no mesmo mês, foi destacado para a Direção Geral dos Correios e Telégrafos.

No dia 1 de janeiro de 1911, Pereira de Sousa passou a prestar serviço, a seu pedido, na Comissão do Serviço Geológico, uma vez que a geologia lhe despertava grande interesse desde há muito. Entre 1918 e 1922, chefiou, interinamente, por duas vezes, os Serviços Geológicos (SG), instituição que, em 1918, substituiu a Comissão do Serviço Geológico. Pereira de Sousa permaneceu nos SG até setembro de 1928, quando foi forçado a abandonar a instituição devido à publicação de legislação que limitava a acumulação de cargos na função pública.

A par de trabalhar nos SG, Pereira de Sousa foi igualmente professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) desde a sua criação, em 1911. Ingressou na carreira académica como segundo assistente da cadeira de Geologia e, em 1915, foi promovido a primeiro assistente, tendo passado a reger, além da cadeira de Geologia, a de Geografia Física e Física do Globo e a de Mineralogia e Petrologia. Em abril de 1929, foi nomeado professor catedrático e diretor do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico anexo à FCUL, sendo-lhe atribuído, em julho do mesmo ano, o título de doutor em Ciências Histórico-Naturais.

Pereira de Sousa foi sócio da Associação dos Engenheiros Civis Portugueses; sócio e vice-presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa e da Associação dos Arqueólogos Portugueses e sócio efetivo da Academia de Ciências de Lisboa. No plano internacional, foi sócio da Sociedade Geológica de França, tendo desempenhado as funções de vice-presidente, em 1922.

Fora do âmbito científico e académico, Pereira de Sousa foi presidente do Conselho Fiscal do Banco Nacional Ultramarino e membro de uma comissão nomeada pela ditadura nacional com a finalidade de estabelecer uma nova divisão administrativa de Portugal.

Pouco se sabe sobre o trabalho de Pereira de Sousa antes de ter sido destacado para os SG mas é de supor que, além de tratar de aspetos burocráticos inerentes ao funcionalismo público, a sua principal atividade fosse o aconselhamento e o acompanhamento técnico. Efetivamente, durante este período, Pereira de Sousa fez parte do Conselho Superior de Obras Públicas e de um comité de inspeção do Observatório Astronómico de Lisboa.

Foram os anos que Pereira de Sousa passou, primeiro na Comissão do Serviço Geológico, e, em seguida, nos SG, que, do ponto de vista científico, foram os mais produtivos e significativos da sua carreira. No entanto, este foi também um dos períodos mais difíceis da vida da instituição. Quando Pereira de Sousa ingressou nos SG, Paul Léon de Choffat (1849–1919) era o único geólogo que aí trabalhava; a convivência entre os dois, a influência e os ensinamentos de Choffat terão sido decisivos na formação geológica de Pereira de Sousa. Todavia, não é possível afirmar que existiu entre ambos uma relação de mestre/discípulo.

A presidência interina dos SG a que Pereira de Sousa se viu obrigado, não parece ter sido uma experiência particularmente gratificante. Acima de tudo, a acumulação das funções desempenhadas nos SG com as de docente na FCUL não deixavam a Pereira de Sousa tempo suficiente para desenvolver a sua atividade científica. As pretensões de Pereira de Sousa no que respeita ao abandono da chefia dos SG acabaram por ser atendidas, mas o geólogo permaneceu na instituição até ter sido legalmente impedido.

Enquanto professor na FCUL, Pereira de Sousa parece ter sido um dos poucos a fomentar a realização de saídas geológicas junto dos seus alunos. Muitos desses alunos frequentavam o curso de Ciências Histórico-Naturais com o objetivo de virem a ser professores de ciências no ensino secundário. Outros eram obrigados a ter aproveitamento em cadeiras de Geologia que faziam parte dos cursos preparatórios de Engenharia. Poucos eram os alunos que pretendiam prosseguir uma carreira de algum modo relacionada com a geologia, o que não permitiu a Pereira de Sousa criar discípulos, nem na FCUL, nem nos SG.

Na verdade, no que respeita à geologia, as condições académicas, científicas e mesmo sociais existentes à época no país não permitiam o efetivo desenvolvimento desta ciência. Ao criar, em 1931, o Boletim do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico, cujo objetivo era a publicação de estudos inéditos dedicados à geologia portuguesa, Pereira de Sousa pretendeu, certamente, contribuir para uma desejada transformação do panorama da investigação e prática geológicas.

Os estudos de Pereira de Sousa relativos à geologia do Algarve, que se encontravam relacionados com a realização pelos SG de uma Carta Geológica do Algarve na escala 1:50,000, são, talvez, os mais reveladores da sua atividade científica. Esses estudos permitiram-lhe escrever e publicar diversos artigos sobre a petrografia, o vulcanismo, a tectónica e a estratigrafia da região e constituíram grande parte da sua produção científica entre 1917 e 1922. Foram ainda fundamentais para o conhecimento do Carbónico do Algarve, que se encontrava, na época, ainda pouco estudado. A maior parte desses estudos foram publicados nas Comptes Rendus de l’Académie des Sciences de Paris e nas Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal.

O trabalho de investigação de Pereira de Sousa levou a que se deslocasse com frequência ao Laboratório de Mineralogia do Museu de História Natural de Paris, onde trabalhou com François Antoine Alfred Lacroix (1863–1948), que considerava seu mestre. Teorias relativas às estruturas tectónicas deste e de outros geólogos franceses, bem como as do sismólogo Fernand Montessus de Ballore (1851–1913), foram as principais e mais diretas influências nos estudos de Pereira de Sousa dedicados à tectónica. Indiretamente, Pereira de Sousa foi também influenciado pelas teorias do geólogo austríaco Eduard Suess (1831–1914), uma vez que os geólogos franceses com quem privou eram parte de uma linhagem de seguidores de Suess.

Uma das consequências das teorias tectónicas de Suess foi o renovado interesse da comunidade geológica pela questão da Atlântida no início do século XX. Pereira de Sousa interessou-se pelo tema, tanto mais que a localização lendária da Atlântida dada por Platão era de modo a poder situá-la próximo de Portugal, o que conferia à questão um interesse acrescido. Pereira de Sousa considerava que a Atlântida teria sido um grande continente que ocupava quase todo o oceano Atlântico em tempos anteriores ao Quaternário e que ligava as actuais Europa, África e América; os arquipélagos das Canárias e da Madeira seriam os vestígios deixados pela submersão dessa hipotética Atlântida.

As teorias de Suess e dos geólogos franceses foram, igualmente, o ponto de partida para aquele que é, sem dúvida, o trabalho mais conhecido de Pereira de Sousa: a obra em quatro volumes dedicada ao terramoto de Lisboa de 1755, publicada entre 1919 e 1931 e deixada incompleta pelo facto do geólogo ter falecido subitamente devido a uma síncope cardíaca quando realizava trabalho de campo no Algarve.

Neste trabalho, Pereira de Sousa identificou regiões com diferente sismicidade em Portugal Continental, utilizando, para tal, as intensidades relativas apresentadas pelo terramoto em várias localidades. As intensidades foram obtidas a partir de dados retirados dos inquéritos mandados realizar pelo marquês de Pombal no seguimento da catástrofe. Pereira de Sousa considerou ainda que o epicentro do sismo se teria situado a sul do Algarve ocidental e a nordeste do arquipélago da Madeira e a sua origem estaria relacionada com movimentos epirogénicos de uma depressão existente no fundo do Mediterrâneo, com atividade tectónica recente.

Apesar do seu impacto científico limitado, tanto nacional como internacionalmente, o estudo de Pereira de Sousa sobre o terramoto de 1755 constituiu uma das primeiras tentativas no campo da investigação geológica de sismos em Portugal.

Pereira de Sousa foi um geólogo por vocação, uma vez que não possuía qualquer formação específica em geologia. A sua vontade de construir uma reputação científica enquanto geólogo, levou-o a conseguir uma posição nos SG, o único sítio em Portugal onde era possível desenvolver uma prática geológica efetiva. A sua carreira na instituição apresenta assim um padrão semelhante à de outros geólogos portugueses que, durante o século XIX, aí trabalharam: engenheiros militares cujo gosto pela geologia os levou a uma quase autoaprendizagem que permitiu a alguns deles tornarem-se competentes geólogos.

Pode dizer-se que Pereira de Sousa é o último dos geólogos do período pioneiro da geologia em Portugal e que, à data da sua morte, a sua carreira científica possuía alguma visibilidade, até mesmo no estrangeiro, algo que não voltaria a acontecer a um geólogo português nas duas décadas seguintes.

Teresa Salomé Mota
Gestão e conversação do património geológico

Arquivos

Lisboa, Arquivo Histórico da Academia de Ciências de Lisboa.

Lisboa, Arquivo Histórico de Economia.

Lisboa, Arquivo Histórico do Laboratório Nacional de Engenharia e Geologia.

Lisboa, Arquivo Histórico do Museu de Ciência da Universidade de Lisboa.

Obras

Gentil, Louis e Francisco Luís Pereira de Sousa. “Sur les effets au Maroc du Grand Tremblement de Terre en Portugal (1755).” Comptes Rendus de l’Académie des Sciences de Paris 157 (1913): 805–808.

Sousa, Francisco Luís Pereira de. “Algumas rochas eruptivas das orlas mesozoica e cenozoica de Portugal.” Boletim do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico da Universidade de Lisboa 1 (1931–1934): 1–16.

Sousa, Francisco Luís Pereira de. “Alguns prognósticos possíveis do terramoto de 1755.” Boletim da Academia das Ciências de Lisboa 1 (1929): 98–109.

Sousa, Francisco Luís Pereira de. “Aperçu sur le Carbonique de la rive droite du Guadiana.” Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal 15 (1924): 43–48.

Sousa, Francisco Luís Pereira de. “Contribution à l’étude petrographique du nord d’Angola.” Comptes Rendus de l’Académie des Sciences de Paris 157 (1913): 1450–1453.

Sousa, Francisco Luís Pereira de. “Estudo geológico do Polygno de Tancos.” Revista de Engenharia Militar 15 (1902): 1–34.

Sousa, Francisco Luís Pereira de. “La Serre de Monchique.” Bulletin de la Société Géologique de France 26 (1926): 321–350.

Sousa, Francisco Luís Pereira de. O Terremoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal e um Estudo Demográfico. Lisboa: Oficina Gráfica Lda, 1919-1931. 4 vols.

Sousa, Francisco Luís Pereira de. “Sur les mouvements épirogéniques pendant le Quaternaire à l’Algarve.” Comptes Rendus de l’Académie des Sciences de Paris 166 (1918): 688–691.

Sousa, Francisco Luís Pereira de. “Sur les roches éruptives de la partie occidentale de l’Algarve (Portugal).” Comptes Rendus de l’Académie des Sciences de Paris 191 (1930): 59–61.

Bibliografia sobre o biografado

Almeida, Fernando Moitinho de e António Barros Carvalhosa. “Breve História dos Serviços Geológicos em Portugal.” Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal 58 (1974): 239–265.

Carneiro, Ana e Teresa Salomé Mota. “Francisco Pereira de Sousa (1870–1931): um terramoto para uma vida.” In O Terramoto de 1755 — Impactos Históricos, ed. Ana Cristina Araújo, José Luís Cardoso, Nuno Gonçalo Monteiro, Walter Rossa e José Vicente Serrão, 131-143Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais e Livros Horizonte, 2007.

Costa, Alfredo Augusto d’Oliveira Machado e. “O Professor Dr. Francisco Luís Pereira de Sousa, 1870-1931.” Boletim do Museu de Mineralogia e Geologia da Universidade de Lisboa 2 (1933): 2–14.

Simões, Jorge Macedo de Oliveira. “Biografia de geólogos portugueses — Francisco Luís Pereira de Sousa (1870-1931).” Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal 17 (1931): 3–11.

Choffat, Léon-Paul

Porrentruy, Suíça, 14 março 1849 — Lisboa, 6 junho 1919

Palavras-chave: Mesozoico, cartografia geológica, geologia aplicada, tectónica.

Léon-Paul Choffat nasceu no seio de uma família abastada, filho de Marie Anne Jeanne Baptiste Béchaux (1812−1881) e de Henri Joseph Choffat (1797−1869), banqueiro e industrial. Durante a infância, era visita da casa paterna o naturalista e iniciador da tectónica do Jura, Jules Thurmann, discípulo de Élie de Beaumont. Choffat foi diretamente influenciado por dois alunos de Thurmann, Jean-Baptiste Thiessing e Joseph Ducret, então professores da Ecole Cantonale de Porrentruy, onde se matriculou em 1861, acompanhando-os em excursões geológicas. Após terminar a educação secundária, foi enviado para Besançon para adquirir a formação necessária a uma carreira na banca; simultaneamente, frequentou a Faculdade de Ciências local. Foi nesta altura que se tornou sócio da Société d’Emulation du Doubs, uma associação promotora desta região francesa, vindo a publicar trabalhos sobre a geologia da região do Jura nas respetivas Mémoires, entre 1875 e 1879.

Regressado da estadia de três anos em França, Choffat ingressou, em 1871, na Escola Politécnica e na Universidade de Zurique, onde frequentou cursos de química e de ciências naturais. O falecimento de seu pai, aliado à fortuna pessoal herdada e à influência do arqueólogo e historiador da região, Auguste Quiquerez, e do médico e geólogo, Jean Baptiste Greppin, levaram-no a seguir a sua vocação de geólogo, agora sem constrangimentos. Durante este período, beneficiou do regime de aulas de campo de Arnold Escher von der Linth e Albert Heim, figuras de relevo na geologia suíça, e Heim na sua institucionalização. Na universidade e, mais tarde, nas expedições pelos Alpes, na região do Jura, Choffat relacionou-se com Ludwig von Loczy, Oswald Heer, que viria a colaborar com os serviços geológicos portugueses, Karl Mayer-Eymar e Jules Marcou. Depois de concluir os estudos superiores na Universidade de Zurique, em 1875, foi nomeado Privatdozent, na Escola Politécnica local para os cursos de geologia e paleontologia animal, lecionando também na Faculdade de Medicina; porém, rapidamente deixou a docência devido a uma laringite crónica, sendo aconselhado a mudar-se para um clima mais ameno. Em resultado das investigações realizadas no Jura francês e na região de Berna, tinha já publicados diversos trabalhos, em França e na Suíça, quando, em 1878, se deslocou a Paris para a primeira reunião do Congresso Internacional de Geologia (CIG).

A atividade científica de Choffat decorreu num período de franco desenvolvimento da geologia, então já em fase de profissionalização e especialização. Desde meados da década de 1830, tinham sido criados nos diversos países, incluindo Portugal, instituições estatais destinadas ao levantamento geológico e à elaboração de cartografia geológica, decorrentes da necessidade de controlar o território para melhor o administrar. A exploração de recursos minerais e hidrológicos intensificou-se dada a sua utilização em importantes sectores económicos como a produção industrial, enquanto matérias-primas e combustíveis, construção civil, agricultura, abastecimento de águas potáveis e exploração de águas mineromedicinais. Sendo a geologia uma ciência territorial que comporta uma dimensão histórica e tendo as unidades geológicas, frequentemente, um carácter transnacional, nela convergiram tensões entre nacionalismo e internacionalismo, numa época em que a ciência e a tecnologia se tornaram argumentos decisivos na afirmação da supremacia das diversas potências europeias. Estas tensões ficaram bem patentes nas reuniões do CIG, fórum internacional que reunia periodicamente com o intuito de normalizar a linguagem verbal e visual da geologia, em matéria de divisões cronostratigráficas e respetiva nomenclatura e do código de cores a usar na cartografia geológica, a última adquirindo um carácter simbólico ao integrar a parafernália de símbolos nacionais. 

Foi, precisamente, na reunião do CIG de 1878 que Choffat travou conhecimento com Carlos Ribeiro, então diretor da Secção dos Trabalhos Geológicos, organismo do Ministério da Obras Públicas, Comércio e Indústria, que tinha por missão o levantamento geológico de Portugal continental e a produção de cartografia geológica. Ribeiro convidou Choffat a colaborar com a instituição portuguesa não só para que este realizasse o estudo do Mesozóico, até aí inexplorado devido à falta de especialistas em Portugal, mas também fortalecesse a estratégia de internacionalização dos serviços que chefiava. Choffat, por seu turno, estava simultaneamente interessado em passar algum tempo num clima mais suave e em investigar a geologia de Portugal, o que lhe garantiria uma produção original e sem concorrência, facilitando a sua projeção na comunidade científica internacional. 

Choffat esboçou um programa de trabalho e negociou modos de prevenir conflitos, assegurando-se de que não haveria sobreposição com trabalho de colegas portugueses, ao mesmo tempo que clarificou questões de propriedade intelectual e dos fósseis a recolher, propondo-se ser um colaborador temporário, a título gratuito. Ribeiro respondeu favoravelmente ao plano e Choffat veio para a Lisboa. A correspondência endereçada à Secção dos Trabalhos Geológicos dá indicações acerca das suas atividades no ano e meio seguinte e da rede de contactos que tinha na Suíça e em França.

Choffat chegou a Portugal em Novembro de 1878, passando os últimos dois meses deste ano a examinar a coleção de fósseis da Secção; em Janeiro de 1879, foi-lhe oficialmente requerido que estudasse as formações do Mesozóico. Bem integrado, gozava de uma autonomia significativa, cedo desempenhando um papel ativo na instituição, pois apercebeu-se das limitações existentes, nomeadamente da sua reduzida dimensão e falta de recursos bibliográficos, estabelecendo contactos com livreiros estrangeiros, no sentido de adquirir obras atualizadas para a modesta biblioteca.

As investigações sobre o Mesozóico resultaram na colheita de fósseis cuja descrição e classificação requereram colaboração externa. No início de 1880, decidiu contactar Heer, reputado especialista na flora do Terciário, que se mostrou interessado nos seus achados e se prontificou a auxiliá-lo, mas no quadro de uma colaboração formalizada com a Secção dos Trabalhos Geológicos. Como Ribeiro não conhecia Heer, Choffat funcionou como intermediário entre ambos e, mais tarde, com outros especialistas: o paleontólogo suíço Perceval de Loriol, e o cristalógrafo e mineralogista austríaco Gustav Adolph Kenngot que colaboraram com os serviços geológicos portugueses. 

A estadia de Choffat em Portugal produziu resultados capazes de contribuir para a consolidação da sua posição no panorama científico internacional e a confiança nele depositada levou Ribeiro a investi-lo de responsabilidades de diplomacia científica. Quando se deslocou a Paris, em Junho de 1880, para apresentar um trabalho na Société Géologique de France sobre as investigações do Jurássico realizadas em Portugal usou a oportunidade para, a pedido de Ribeiro, auscultar a disponibilidade dos colegas de viajarem até Lisboa para o Congresso de Arqueologia e Antropologia Pré-histórica que teve lugar nesse mesmo ano. 

A sua primeira estadia em Portugal terminou, em 1880, ano em que regressou a Porrentruy para depois casar, em Besançon, com Jeanne Claudette Logerot (1859−1928) de quem teve nove filhos. Embora à data mantivesse o lugar de professor em Zurique, manifestou a Ribeiro o desejo de voltar a Portugal. Entretanto, o ano de 1882 é marcado pela morte deste, sucedendo-lhe na direção da Secção dos Trabalhos Geológicos, Joaquim Filipe Nery da Encarnação Delgado, que seguiu orientações idênticas no que se referia à colaboração externa, dado o reduzido pessoal dos serviços e a inexistência de uma comunidade local de geólogos. 

Choffat regressou definitivamente a Portugal, em 1883, começando a trabalhar para o governo português, na Secção dos Trabalhos Geológicos, sob contrato sucessivamente prorrogado até à sua morte. Nesse mesmo ano, iniciou-se a publicação da primeira revista portuguesa especializada em geologia, as Comunicações da Secção dos Trabalhos Geológicos, denotando a capacidade da instituição de produzir, regularmente, investigação científica. 

A produção científica de Choffat foi vasta, abrangendo diversas disciplinas da geologia, ou com ela relacionadas: estratigrafia e paleontologia do Mesozoico, cartografia geológica, tectónica, sismologia, geologia económica, hidrogeologia, paleoantropologia e arqueologia. Entre 1880 e 1885, publicou sobre o Lias (Jurássico Inferior) e Dogger (Jurássico Médio), a Norte do Tejo, e sobre o Cretácico nas regiões de Lisboa, Sintra e Belas. Como era então comum, dividiu o Jurássico em Lias, Malm (Jurássico Superior) e Dogger, estando entre os primeiros geólogos europeus a defender a separação do Calloviano do Jurássico Superior e a colocá-lo no Dogger. Em 1882, apresentou à Société Géologique de France uma nota sobre estruturas diapíricas em Portugal que designou vales tifónicos, assunto sobre o qual publicou nos dois anos seguintes. Neste período, teve ainda assento nas comissões de nomenclatura geológica, lideradas pela Secção dos Trabalhos Geológicos, no âmbito do CIG. 

Com a reestruturação de 1886, a Secção dos Trabalhos Geológicos passou a denominar-se Comissão dos Trabalhos Geológicos, dissociando-se da Direcção-Geral dos Trabalhos Geodésicos, em fase de declínio, ficando formalmente ligada ao sector mineiro pela sua integração na Direcção-Geral das Obras Públicas e Minas. A partir de então, a Comissão passou a ser obrigada a recrutar o seu pessoal entre os engenheiros de minas já ao serviço do Ministério das Obras Públicas, certamente para poupar verbas e satisfazer esta já bem posicionada clientela. De salientar que somente Choffat e depois Wenceslau de Lima, ambos no regime de contratados, tiveram o título de geólogo, facto indicativo de que o estatuto profissional dos engenheiros prevalecia sobre o dos geólogos no seio da instituição, situação que se prolongou pelas primeiras décadas do século XX.

De 1885 em diante, Choffat prosseguiu com investigações sobre o Cretácico e o Jurássico, corrigindo interpretações de Ribeiro. Apesar de este ter definido as principais características geológicas do território antes de 1860, os seus conhecimentos sobre as faunas e floras do Cretácico e do Jurássico estavam, naturalmente, limitadas pelo conhecimento da época, o que explica que não tenha podido caracterizar o Bathoniano (Jurássico Médio), o Senoniano (Cretácico Superior), hoje em desuso, e estabelecer os contactos do Jurássico com o Triásico. Choffat localizou os depósitos bathonianos e estabeleceu a estratigrafia pormenorizada de todos os andares do Jurássico, descrevendo a sua fauna em Portugal. Propôs a criação do andar Lusitaniano (1885 e 1893) para o conjunto estratigráfico Oxfordiano Superior – Kimmeridgiano, localizado no Jurássico, o que foi temporariamente aceite. Embora nunca se tenha deslocado a África, desenvolveu, entre 1886 e 1889, estudos de geologia das colónias portuguesas neste continente, analisando amostras e notas enviadas por diversos viajantes. 

Em 1887, Choffat solicitou que nos trabalhos de levantamento geológico auferisse de ajudas de custo para o serviço de campo iguais às dos engenheiros de minas, alegando ser mais antigo no serviço do governo português do que o primeiro classificado dos engenheiros subalternos, pretensão despachada favoravelmente. No ano seguinte, requereu que o seu vencimento de 60 mil reis fosse equiparado ao dos engenheiros chefes de minas, no valor de 100 mil reis; no entanto, foram-lhe apenas abonados 90 mil reis

Neste período, a produção científica da Comissão dos Trabalhos Geológicos assentava, fundamentalmente, nos trabalhos de Choffat e de Delgado, recorrendo-se novamente a colaborações estrangeiras, em certos casos facilitadas por Choffat. É o caso de Loriol que analisou as faunas do Cretácico e do Jurássico, em 1888, e, posteriormente, em 1890 e 1896. Mais uma vez, os serviços geológicos foram reestruturados, em 1892, passando a designar-se Direção dos Trabalhos Geológicos, continuando Nery Delgado a gerir os seus destinos. 

No plano da cartografia, Choffat e Nery Delgado baseados na carta geológica de Portugal de 1876, na escala de 1:500 000, apresentaram os esboços da revisão desta carta, nas reuniões do CIG de Londres (1888) e de Zurique (1894), publicando uma nova versão, em 1899, que foi premiada com uma medalha de ouro, na Exposição Universal de Paris de 1900. Em conjunto com Nery Delgado, Choffat colaborou na elaboração do Mapa Geológico de España, na escala 1: 400 000 (folhas 5, 9 e 13), publicada em 1889, e na edição de 1893 do Mapa Geológico de España (representando a Península Ibérica), na escala 1: 1 500 000, ambos sob a direção de Manuel Fernandez de Castro. Contribuíram, também, para as folhas 29 AV e 36 AVI da carta geológica da Europa, na escala 1: 500 000, publicada em Berlim, em 1896, uma iniciativa do CIG coordenada pelo prussiano Wilhelm Hauchecorne. Choffat elaborou uma carta geológica de Portugal do ponto de vista agrícola, na escala de 1: 2 000 000, publicada em 1901. Em colaboração com Luís de Almeida Couceiro, funcionário dos serviços geológicos, elaborou uma carta hipsométrica de Portugal, na escala de 1:100 000 publicada em 1900, com uma nota explicativa, em 1907. Trabalhou, ainda, nos mapas geológicos de Sintra, na escala 1: 20 000; Buarcos, na escala 1: 100 000, e Arrábida, na escala 1: 25 000, com a colaboração de Romão de Matos (1880−1979), um dos auxiliares de trabalho de campo (então denominados coletores) mais proficientes. 

Em 1899, a Direção dos Trabalhos Geológicos foi reestruturada, passando a designar-se Direção dos Serviços Geológicos, deixando o vencimento de Choffat de estar inscrito no orçamento geral, para passar a sair da verba “despesas diversas.” Consequentemente, ficou sem financiamento para ajudas de custo referentes a trabalho de campo e a publicações, sendo o seu vencimento reduzido para 76 500 reis, facto surpreendente, tendo em conta a sua carreira e prestígio. Em 1901, na sequência de mais uma reorganização, a anterior Direção passa a Comissão do Serviço Geológico.

Choffat, agora detentor de um conhecimento aprofundado da geologia do país, reviu divisões estratigráficas anteriormente estabelecidas. Trabalhou, principalmente, o Cretácico Superior e os contactos entre o Jurássico e o Cretácico. Relativamente ao Cretácico, reviu interpretações e distinguiu quatro grupos: o grupo hoje em desuso Neocomiano (Cretácico Inferior), o Belasiano (uma antiga divisão entre o Cretácico Médio e Inferior, cujo nome deriva de Belas, localidade próxima de Lisboa), o Turoniano (Cretácico Médio), e o Senoniano (Cretácico Superior). Na sequência dos sismos registados no país em 1903 e 1909, publicou trabalhos neste domínio, tendo representado Portugal na Associação Internacional de Sismologia; em 1908, publicou um estudo sobre a tectónica da Serra da Arrábida. 

Na área da hidrogeologia realizou, entre 1893 e 1903, estudos relacionados com o abastecimento de água a Lisboa, Guimarães, Beja e Guarda, e sobre as águas minerais dos terrenos mesozoicos e do soco paleozoico.

Desde os finais do século XIX que, no decurso de trabalhos de terraplanagens, abertura de poços ou pesquisa de águas, se registaram ocorrências de hidrocarbonetos (petróleo, asfalto e betume) nos terrenos mesozoicos portugueses a norte do Tejo. Rapidamente se difundiu a notícia da existência de petróleo em Portugal, numa altura em que a exploração de jazidas deste combustível fóssil adquiria cada vez maior importância em diversos países. Desde 1902 que Choffat fora solicitado por privados a realizar estudos sobre locais onde parecia existirem indícios de petróleo. Os resultados destes estudos foram publicados em 1910, concluindo o geólogo ser inegável a existência de petróleo nas formações mesozoicas portuguesas da região de Torres Vedras e Monte-Real. Aproveitou a ocasião para chamar a atenção para a necessidade de realização de estudos geológicos preliminares a sondagens, de modo a aumentar a eficácia, reduzir o risco de insucesso e os custos; considerava que o Estado português deveria intervir na pesquisa e exploração dos hidrocarbonetos, uma atividade industrial promissora em termos económicos. Entre 1912 e 1914, Choffat elaborou relatórios sobre as areias auríferas da Adiça e outros depósitos da costa ocidental da Península de Setúbal, as jazidas de ferro do Triásico e dos xistos paleozoicos das zonas de Pias e Alvaiázere e as minas de granadas de Monte Suímo, em Sintra.

Ainda no que se refere à geologia aplicada, publicou sobre a importância dos dados geológicos prévios à construção de caminhos-de-ferro, prática corrente na Suíça, e a construção de uma ponte sobre o Tejo, em Lisboa. De entre estes trabalhos, destaca-se o estudo geológico dos terrenos onde foi construído o túnel do Rossio, publicado em 1889. Além do seu significado científico, esta obra visou ser uma demonstração da necessidade de estudos geológicos preliminares a obras públicas, demarcando o espaço de competência profissional do geólogo, face ao engenheiro civil. No entanto, o principal beneficiário deste estudo foi Edmond Bartissol, o empreiteiro francês responsável pela obra inaugurada em Junho de 1890, que pôde assim escolher o método de perfuração mais económico. Choffat, no entanto, advogava um traçado do túnel ligeiramente diferente, alegando que este pouparia ao Estado quantia considerável, mas nem a Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses, nem a Direcção-Geral ou o Ministério da Obras Públicas, lhe solicitaram qualquer estudo prévio à adjudicação da obra, talvez por entenderem que este seria uma mera formalidade burocrática.  

Finalmente, Choffat publicou diversos obituários de geólogos portugueses e de estrangeiros que trabalharam sobre temas geológicos referentes ao território nacional, contribuindo para a construção de uma memória da geologia, em Portugal.

Com a morte de Nery Delgado, em 1908, sucedeu-lhe Wenceslau de Lima cujo mandato foi efémero. Choffat foi instado a suceder-lhe, mas recusou por se sentir fisicamente debilitado. Lamentou a falta de quadros competentes, dadas as deficiências no ensino da geologia em Portugal e a aversão ao trabalho de campo que já anteriormente criticara. Choffat não deixou discípulos; apenas alguns coletores e o capitão de engenharia do quadro de minas do Ministério das Obras Públicas, Francisco Luís Pereira de Sousa, terão beneficiado da sua experiência e conhecimentos. A 6 de Junho de 1919, Choffat morreu, em Lisboa, ficando provisoriamente sepultado no jazigo de Nery Delgado, no Cemitério dos Prazeres, tendo sido posteriormente transladado para o seu mausoléu, no cemitério de Porrentruy. 

Cada vez mais crítico do rumo que a instituição tomara, sobretudo após o falecimento de Nery Delgado, terá sido sua intenção doar parte da biblioteca pessoal a sociedades científicas francesas e belgas; a um seu sobrinho, estudante de geologia, as obras referentes à Suíça e o remanescente à Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra. Quanto às suas notas de campo e outros manuscritos, foram levados pelos herdeiros para a Suíça. Este espólio só regressaria a Portugal, em 1947, sendo posteriormente devolvido aos serviços geológicos.

A obra de Choffat foi reconhecida e objeto de distinções variadas. Foi homenageado através da nomenclatura paleontológica, sendo longa a lista de táxones que lhe são dedicados. Em 1892, foi-lhe conferido o doutoramento honoris causa pela Universidade de Zurique, e o grau de Comendador da Ordem de Isabel la Católica, em 1896, pela colaboração com a Comisión del Mapa Geológico de España; em Portugal, recebeu o mesmo grau da Ordem de S. Tiago. Em 1900, foi galardoado com o Prémio Auguste Viquesnel da Société Géologique de France, pela primeira vez atribuído a um estrangeiro. Foi membro de inúmeras academias e sociedades científicas portuguesas e estrangeiras.

Ana Carneiro

Arquivos

Arquivo Histórico e Biblioteca do LNEG – Laboratório Nacional de Energia e Geologia: notas manuscritas, correspondência, minutas de campo, cartografia e publicações científicas (espólio não organizado, guardado em caixas diversas).

Biblioteca do Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Coimbra, 

Núcleo Paul Choffat (1849–1919).

Obras 

Choffat, Paul. “Études Géologiques sur la Chaîne du Jura. I– Esquisse du Callovien et de l’Oxfordien dans le Jura Occidental et le Jura Méridional suivie d’un Supplément aux Couches à Ammonites Acanthicus dans le Jura Occidental.” Mémoires de la Société d’Émulation du Doubs, 3 (1879): 72–219.

— Etude Stratigraphique et Paléontologique des Terrains Jurassiques du Portugal: Première Livraison – Le Lias et le Dogger au Nord du Tage. Lisbonne: Section des Travaux Géologiques/Imprimerie de L’Académie Royales des Sciences, 1880.

Étude Géologique du Tunnel du Rocio. Contribution à la Connaissance du Sous-sol de Lisbonne. Lisbonne: Commission des Travaux Géologiques du Portugal/ Imprimerie de l’Académie Royale des Sciences, 1889.

— “Les Eaux d’Alimentation de Lisbonne. Rapport entre leur Origine Géologique et leur Composition Chimique.” Bulletin de la Société Belge de Géologie, Paléontologie et Hydrologie, 10 (1896): 161–197.

— “L’Infralias et le Sinémurien du Portugal.” Comunicações da Comissão do Serviço Geológico de Portugal, 5 (1903): 49–113.

Contributions à la Connaissance Géologique des Colonies Portugaises d’Afrique. I – Le Crétacique de Conducia. Lisbonne: Commission du Service Géologique du Portugal/ Imprimerie de l’Académie Royale des Sciences, 1903.

Essai sur la Tectonique de la Chaîne de l’Arrabida. Lisbonne: Commission du Service Géologique du Portugal/Imprimerie Nationale, 1908.

—“Le Séisme du 23 Avril 1909 dans le Ribatejo (Portugal) et ses Relations avec la Nature Géologique du Sol.” In Comptes Rendus des Séances de la Troisième Réunion de la Commission Permanente de l’Association Internationale de Sismologie, Réunion à Zermatt, du 30 Août au 2 Septembre, edited by R. Kövesligethy, 126–129. Budapest: Victor Hornyánszky, 1910. 

— “Rapports de Géologie Économique. 3– Les Recherches d’Hydrocarbures dans l’Estremadure Portugaise (Résumé). 4– Les Mines de Grenats de Suimo.” Comunicações da Comissão do Serviço Geológico de Portugal, 10 (1914): 159–198.

Delgado, Joaquim Filipe Nery e Paul Choffat. Carta Geológica de Portugal. Escala 1:500 000. Direção dos Trabalhos Geológicos, 1899.

Bibliografia sobre o biografado 

Areias, Maria das Dores, “Expeditions in the African Colonies during then 19th century: Geological Contributions from Portuguese Travellers.” Comunicações do Instituto Geológico e Mineiro, 88 (2001): 347–354.

Carneiro, Ana, Teresa Salomé Mota e Vanda Leitão. O Chão que Pisamos. A Geologia ao Serviço do Estado (1848–1974). Lisboa: Edições Colibri /Colecção CIUHCT, 2014.

Fleury, Ernest. “Une Phase Brillante de la Géologie Portugaise: Paul Choffat, 14 Mars 1849–6 Juin 1919.” Mémoires de la Société Portugaise des Sciences Naturelles, 3 (1920): 1–54.

Rocha, Rogério Bordalo da, et al. (eds). Paul Choffat na Geologia Portuguesa. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa /Instituto Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação, 2008.

Teixeira Pinto, Luís. “Paul Choffat’s First Stay with the Portuguese Geological Survey.” Comunicações do Instituto Geológico e Mineiro, 88 (2001): 301–308.