Vandelli, Domingos (ou Domenico)

Pádua, Itália, 8 julho 1735 — Lisboa, 27 junho 1816

Palavras-chave: Academia das Ciências de Lisboa, Universidade de Coimbra, história natural, jardins botânicos.

Domenico Vandelli, italiano de nascimento e educação, fixou-se em Portugal em 1764. Foi com o prenome adaptado de Domingos que as suas contribuições científicas mais conhecidas conheceram letra impressa, sendo unanimemente reclamado como figura relevante do pensamento científico português de finais do século XVIII e inícios do século XIX. O seu percurso científico foi trilhado entre a história natural e a economia política, demonstrando a fertilização mútua de áreas do saber que, na época, ainda não estavam totalmente autonomizadas. Contribuiu de forma decisiva para a criação da Academia Real das Ciências de Lisboa e foram de sua autoria as contribuições mais numerosas e de maior alcance científico publicadas nas coleções de Memórias Económicas daquela instituição.

Foi em Pádua, cidade natal, que Domenico Vandelli concluiu a sua formação universitária nos domínios da medicina e da história natural. Através dos seus primeiros livros, escritos em latim, através das notícias que mais tarde deu das coleções de objetos botânicos, mineralógicos e paleontológicos destinados ao seu museu privado e, sobretudo, através da correspondência que manteve com Carl Lineu, confirmou-se a sua vocação de naturalista atento ao desenvolvimento científico em curso na Europa ilustrada de meados do século XVIII. A boa fama que certamente obteve junto de alguns cientistas e literatos portugueses que na época viviam em Itália, terá estado na origem do convite que lhe foi feito pelo Marquês de Pombal para que se estabelecesse em Portugal. Assim aconteceu, no ano de 1764, integrando uma comitiva de outros professores italianos contratados para lecionar matérias científicas (matemática, química, física e história natural) no Real Colégio dos Nobres. Esta experiência pedagógica fracassou, dada a baixa apetência da aristocracia portuguesa em proporcionar formação científica adequada aos seus descendentes. Regressou temporariamente a Itália para de novo ser chamado por Pombal, em 1765, para projetar e construir o Jardim Botânico da Ajuda, que vira a ser inaugurado em 1768. A partir de 1772, Vandelli e os restantes professores italianos que haviam colaborado na tentativa de inovação pedagógica pre-universitária do Colégio dos Nobres, acabariam por se fixar na cidade de Coimbra, preparando e dando execução à reforma iluminista dos Estatutos da Universidade.

Domingos Vandelli lecionou na Universidade de Coimbra as disciplinas de química e de história natural, fundou o Laboratório de Química e o Gabinete de História Natural da Universidade (em grande parte constituído pelas peças da sua coleção privada trazida de Pádua) e colaborou na criação do Jardim Botânico daquela cidade. Soube aproveitar as condições especiais que lhe foram oferecidas pela Câmara de Coimbra e dedicou-se à produção industrial de cerâmica. Em 1779 e anos precedentes participou ativamente na criação da Academia Real das Ciências de Lisboa, podendo considerar-se como um dos principais mentores da ação da Academia no domínio económico.

Os escritos de Vandelli destacaram-se de forma nítida por entre a abundante literatura de teor económico produzida sob a égide da Academia Real das Ciências de Lisboa. Da sua pena saíram textos programáticos e orientadores do que viria a constituir-se como um dos mais importantes núcleos documentais para o estudo da economia e do pensamento económico português na fase final do antigo regime. As memórias que Vandelli publicou com o selo da Academia revelam uma atenção de pendor descritivo sobre os recursos produtivos do reino e suas colónias, especialmente o Brasil. O seu propósito era claro e as suas intenções transparentes: proceder a um inventário rigoroso e sistemático de recursos e matérias-primas minerais, vegetais e animais, tendo em vista a sua exploração ou utilização económica. Para isso socorreu-se dos seus conhecimentos nos diferentes ramos da história natural e procurou, através de processos sistemáticos de observação e experimentação, demonstrar a utilidade económica de tais conhecimentos.

A criação e administração de jardins botânicos, museus e laboratórios de história natural, a promoção e realização de viagens filosóficas e a organização de inquéritos sobre atividades agrícolas, foram alguns dos instrumentos que privilegiou na construção do conhecimento sobre os recursos disponíveis. Porém, os testemunhos escritos que deixou são comprovativos de uma intenção programada de exercício científico que ultrapassou a simples obtenção de níveis acrescidos de conhecimento, que se afirmou como instrumento de configuração de uma estratégia e de um modelo de desenvolvimento económico, no qual cumpriam papel central os recursos naturais do império, especialmente do Brasil.

Sempre movido por intentos pragmáticos, Vandelli proporcionou informação metodicamente organizada sobre “algumas produções naturais deste reino, das quais se poderia tirar utilidade”, ou “sobre algumas produções naturais das conquistas, as quais ou são pouco conhecidas ou não se aproveitam”, ou “sobre a maior utilidade que se pode tirar de várias produções do Brasil”, ou ainda “sobre as produções naturais do reino, e das conquistas, primeiras matérias de diferentes fábricas, ou manufaturas”. Os títulos das memórias de Vandelli aqui transcritos são suficientemente elucidativos do objetivo que se propunha cumprir e para o qual contava com o beneplácito institucional da Academia Real das Ciências de Lisboa. Através desta instituição era possível construir formas disciplinadas de recolha de informação e manter ativa uma rede de correspondentes e coletores de espécies destinadas a laboratórios e museus.

Para além de explicar o uso imediato que poderia ser feito das matérias-primas minerais, vegetais e animais, Vandelli transmitiu também alguma preocupação com a possível alteração da estrutura produtiva do país, nomeadamente no que se refere à modificação da sua dependência em relação à importação de bens essenciais e sua substituição por bens produzidos internamente. Deste modo, Vandelli ultrapassou a simples descrição naturalista de recursos e centrou a sua análise nos obstáculos físicos ou morais (isto é, naturais ou sociais) do desenvolvimento do setor agrícola, ou ainda nas condições que tornariam possível uma utilização eficiente e sem desperdício dos recursos naturais, humanos e técnicos, tanto na produção como na circulação de produtos e matérias-primas. Esta componente de diagnóstico foi coerentemente acompanhada de propostas de reforma e melhoramento que configuravam uma opção estratégica de desenvolvimento económico do país tendo por base a agricultura.

Tal estratégia foi delineada por Vandelli numa das suas mais célebres memórias, com o sugestivo título de Memória sobre a preferência que em Portugal se deve dar à agricultura sobre as fábricas. Vandelli desenvolveu neste texto uma crítica ao sistema de protecionismo manufatureiro seguido em França por Colbert, crítica esta que também deverá ser lida como uma avaliação negativa da congénere política económica pombalina. Também apresentou os seus argumentos a favor de uma maior liberdade de comércio interno e externo como meio de garantir a redução do preço dos bens agrícolas, acompanhando propostas semelhantes então em voga na literatura económica europeia. Mas o que melhor caracteriza o seu texto é a aposta inequívoca numa orientação agrarista da política económica, à qual se subjugaria o processo de desenvolvimento fabril.

O agrarismo vandelliano apresentava algumas semelhanças com o discurso económico produzido pelos fisiocratas franceses. Nalguns momentos, Vandelli chegou mesmo a advogar uma conceção da produtividade exclusiva da agricultura e também se aproximou do conceito fisiocrático de bom preço. Mas ficaram por aí as suas incursões no terreno teórico cultivado pelos discípulos de François Quesnay, autor do célebre Tableau Économique que Vandelli certamente teve oportunidade de ler. A sua recetividade em relação às ideias fisiocráticas limitou-se à aceitação de uma visão da atividade económica que tinha como eixo e motor o setor agrícola.

A importância deste texto de Vandelli não decorre apenas da clareza expositiva com que o autor apresentou as suas orientações em matéria de doutrina e política económicas. Vale também pela forma como consubstanciou o objeto de inquérito e o programa de reformas subjacentes ao conjunto de textos publicados na série de Memórias Económicas da Academia Real das Ciências de Lisboa.

A partir do ano de 1791, e após a sua jubilação da Universidade de Coimbra, Domingos Vandelli pôde acompanhar mais de perto os trabalhos da Academia. Mas a sua atenção voltou-se também para outros horizontes. Em Lisboa passou a exercer os cargos de Diretor do Jardim Botânico da Ajuda (regressando assim à instituição que fundara em 1768), e de Deputado da Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação (para a qual fora nomeado em 1788). A sua proximidade da corte vai proporcionar a oportunidade de afirmar os seus méritos como observador e analista de assuntos de âmbito político, diplomático e financeiro. Esta nova etapa da sua vida revela, por conseguinte, uma mudança no objeto fundamental dos seus estudos: ao ciclo de escritos de carácter descritivo e de análise dos problemas estruturais com que se deparava a economia portuguesa, sucede-se um novo ciclo de escritos em que Vandelli surge a discutir temas de acesso reservado a um público mais vasto, com destinatários restritos, opinando sobre a condução da diplomacia externa portuguesa e esboçando propostas de reorganização financeira.

Num conjunto vastíssimo de memórias e pareceres que redigiu nos anos de 1796 e 1797—os quais se mantiveram inéditos até 1994—Vandelli deu conta da sua preocupação perante o envolvimento português nos confrontos de guerra e de resistência às pretensões hegemónicas francesas. A participação de tropas portuguesas nas campanhas do Roussillon e Catalunha e os riscos de um alastramento dos conflitos e palcos de guerra, justificavam a antecipação de reformas que viabilizassem o financiamento dos gastos militares adicionais. Tal era o pretexto para as sugestões de Vandelli sobre contenção de despesas supérfluas, sobre a racionalização da administração financeira, a elaboração de orçamentos e a melhoria dos sistemas de arrecadação fiscal, e ainda sobre o lançamento de novos impostos e a ampliação das fontes de rendimento da coroa através da alienação de uma parte dos seus próprios bens.

As reformas propostas por Domingos Vandelli denotavam alguma sintonia com o programa de saneamento fiscal e financeiro delineado e executado por D. Rodrigo de Sousa Coutinho. Uma diferença, porém, viria a revelar-se dramática para Vandelli: na conjuntura das Guerras Napoleónicas—em que Portugal manteve sempre firme a sua aliança com a Inglaterra—Vandelli manifestou-se claramente contra tal opção estratégica e em diversas ocasiões confessou a sua simpatia por uma atitude de cedência em relação às pretensões hegemónicas francesas.

Durante o período de ocupação francesa em Lisboa, a colaboração de Vandelli com as tropas de Junot terá chegado ao ponto de proporcionar o desmantelamento e transferência para França de importantes coleções museológicas de história natural, sobretudo de espécies colhidas no Brasil. Por essas e outras razões, e não obstante a sua idade já muito avançada, viria a conhecer a expatriação e o exílio na Ilha da Madeira, em 1810, após a entrada vitoriosa do Duque de Wellington em Lisboa. Por pressão de alguns pares académicos de outros países viria a ser libertado e, após breve passagem por Londres, regressaria a Portugal em 1815, vindo a morrer no seu país de adoção no ano seguinte, mais de cinquenta anos volvidos desde a sua primeira chegada a Lisboa.

A desgraça a que o velho Vandelli foi votado no final da sua vida não fez esquecer a obra pioneira que desenvolveu em prol do conhecimento das características dos recursos naturais de Portugal e do seu império, tendo em vista a sua utilização económica.

José Luís Cardoso
Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa

Arquivos

Lisboa, Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Arquivo Histórico do Museu Bocage

Obras

Aritmética Política, Economia e Finanças (1770-1804). Lisboa: Banco de Portugal, 1994. [Coleção de Obras Clássicas do Pensamento Económico Português, ed. José Vicente Serrão].

Memórias de História Natural. Porto: Porto Editora, 2003. [Coleção Ciência e Iluminismo, ed. José Luís Cardoso].

Bibliografia sobre o biografado

Brigola, João Carlos. Colecções, Gabinetes e Museus em Portugal no século XVIII. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2003.

Cardoso, José Luís. “Os escritos económicos e financeiros de Domingos Vandelli.” Ler História 13 (1988): 3–-51.

Cardoso, José Luís. O Pensamento Económico em Portugal nos Finais do Século XVIII (1780-1808). Lisboa: Editorial Estampa, 1989.

Rocha, José Monteiro da

Canavazes, 25 junho 1734 – Lisboa, 11 dezembro 1819

Palavras-chave: Reforma Pombalina, Universidade de Coimbra, Observatório Astronómico, Matemática e ciências afins.

José Monteiro da Rocha foi um dos principais responsáveis pela ampla e decisiva renovação de estudos no campo do ensino da matemática, da astronomia e das ciências naturais e experimentais operada pela Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra. A sua obra científica é relativamente vasta, compreendendo traduções de livros de texto franceses, trabalhos de matemática aplicada e de astronomia José Monteiro da Rocha, filho primogénito de um casal de agricultores, Maria e João Teixeira, nasceu em 25 de junho de 1734, em Canavazes, uma pequena localidade perto de Marco de Canavezes. Conhece-se pouco sobre a sua infância e juventude. Com a idade de 18 anos partiu para o Brasil já como membro da Companhia de Jesus, onde entrou a 15 de outubro de 1752. Os poucos anos passados na Companhia foram vividos em São Salvador da Baía, no Colégio de Todos os Santos.  Aí terá estudado humanidades e filosofia com Jerónimo Moniz (1723-?) e ciências com o alemão João Brewer. A sua sólida formação inicial adquirida no seio da Companhia revela-se desde logo nos seus trabalhos de juventude, dos quais, o Systema Physico Mathematico dos Cometas [1759-60]’ e o ‘Método de achar a longitude geográfica [1765-66]’ são exemplos paradigmáticos. 

O primeiro é um texto de cariz didático, escrito aquando do tão esperado regresso do cometa Halley, com o objetivo de instruir o leitor nas noções básicas do cálculo astronómico e reforçar a verdadeira conceção da natureza celeste destes corpos (ironicamente não reconhece que as observações que faz, entre 13 de março e finais de abril de 1759, são na realidade do cometa Halley). Neste trabalho Monteiro da Rocha revela-se um newtoniano convicto, possuidor de uma sólida formação técnica. O ‘Método de achar a longitude’ é também ele paradigmático da sua formação, sobressaindo, desde logo, um conhecimento profundo e um domínio técnico e científico da questão da determinação da longitude no mar, que na altura (1759-65) era o centro de um importante debate no seio da comunidade astronómica e náutica internacional. Sendo um texto dedicado sobretudo aos marinheiros, cujo domínio matemático era muito reduzido, são constantes o cuidado e a clareza no discurso, sendo explicitados conceitos técnicos e matemáticos presentes no método das distâncias lunares, mas ainda ignorados na prática da navegação. Esta vertente didático-pedagógica de Monteiro da Rocha é uma característica que o acompanhará ao longo de toda a sua obra.

Após a expulsão dos Jesuítas, Monteiro da Rocha optou pela secularização e foi como professor público de Gramática Latina e Retórica que viveu a meia dúzia de anos que antecederam a sua vinda para Lisboa em 1766. Logo no ano seguinte matriculou-se na Universidade de Coimbra no curso de ânones, obtendo o grau de Bacharel três anos mais tarde, a 25 de junho de 1770. Foi neste período que travou amizade com Francisco de Lemos , o futuro reitor reformador da Universidade. Uma amizade que o levaria em 1771 a participar nos trabalhos da Junta de Providência Literária, um organismo criado por Pombal  em 1770, para a Reforma da Universidade de Coimbra e do qual Francisco de Lemos fazia parte. A Reforma da Universidade pretendia ser a concretização de um projeto que tinha por finalidade sintonizar Portugal com as ideias do iluminismo europeu e encaminhá-lo na direção do progresso e das ciências. Pretendia-se, entre outras coisas, construir uma nova universidade aberta às ciências naturais e ao método experimental, em que todas as matérias estudadas fossem ‘iluminadas’ pela luz da razão. A universidade, colocada nas mãos do Estado, seria uma ferramenta insubstituível e indispensável para a desejada edificação de uma sociedade moderna, movida pela ciência e pelo progresso tecnológico. A ideologia e programa dos Estatutos (1772) para as ciências estão em perfeita sintonia com as ideias de D’Alembert , bem como de outros autores franceses seus condiscípulos, das quais os Estatutos mostram ser herdeiros. A matemática é um exemplo paradigmático do esforço racionalista subjacente a este projeto reformista. Recordemos que a cadeira de geometria (cadeira do 1º ano da Faculdade de Matemática) era comum a todos os cursos das várias faculdades.

O papel desempenhado por Monteiro da Rocha na reforma pombalina foi marcado por duas fases que, embora distintas, estão estreitamente ligadas. Uma diz respeito à elaboração dos Estatutos, e a outra é respeitante aos compêndios adotados. Monteiro da Rocha foi um dos principais responsáveis pela conceção e elaboração dos estatutos das novas ‘faculdades scientificas’, principalmente pela estruturação do ‘curso mathematico’ e definição do seu plano curricular e conteúdos programáticos. O ‘curso mathematico’ foi constituído em sete cadeiras: 1º ano, Geometria (+ Filosofia Racional e Moral + História Natural); 2º ano, Álgebra (+ Física Experimental); 3º ano, Foronomia (Física-Matemática); 4º ano, Astronomia. Havia ainda uma cadeira anexa de Desenho e Arquitetura a ser frequentada no 3º ou 4º ano. No que respeita aos compêndios para o ensino das diversas matérias – dos dez livros adotados, sete foram traduzidos para português, sendo Monteiro da Rocha responsável pela tradução de seis. 

No início das aulas, em setembro de 1772, Monteiro da Rocha foi integrado na Faculdade de Matemática como professor de foronomia, cabendo-lhe a honra de ler a lição inaugural. Como os Estatutos reconheciam que para a docência só estavam habilitados aqueles que possuíssem grau de doutor, este foi-lhe concedido, assim como aos outros professores da faculdade, em 9 de outubro de 1772. O papel de Monteiro da Rocha na vida letiva e administrativa da faculdade e da universidade foi desde os primeiros tempos relevante.O seu empenho na prossecução do ideal universitário pombalino evidencia-se no modo como participou quer no domínio institucional, quer no científico e letivo. Primeiro como professor da cadeira de Foronomia (1772-83) e mais tarde como professor da cadeira de Astronomia (1783-1804), bem como diretor e decano da Faculdade de Matemática e diretor perpétuo do Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra (OUAC, carta régia de 4 de abril de 1795). A ele se devem o projeto, a construção, a regulamentação e o apetrechamento instrumental do Observatório, que viria a ser inaugurado em 1799. A sua contribuição no que diz respeito à astronomia é bem mais vasta que a sua contribuição matemática. Essa contribuição que será fundamental para a futura atividade científica do próprio OAUC é ainda reforçada com o exercício da sua função de professor, que faz dele o principal responsável pela formação científica dos futuros astrónomos portugueses da primeira metade do século XIX.

No que diz respeito aos seus trabalhos matemáticos destacam-se dois manuscritos (s.d.), um de aritmética e outro de álgebra. O de aritmética tem por título ‘Elementos de Mathematica’ e divide-se em duas partes: para além da aritmética propriamente dita (intitulada de ‘Elementos de Arithmetica’) é iniciado com uns ‘Prolegómenos’, onde Monteiro da Rocha dá a entender que pretende ensinar outras matérias para além da aritmética. O facto do manuscrito de álgebra se intitular ‘Elementos de Álgebra’ e estar estruturado e organizado de modo semelhante ao de aritmética sugere a intenção da sua integração numa única obra. Hoje desconhecidos, mas referenciados entre os seus papéis pessoais haveria ainda uns ‘Elementos de geometria e trigonometria’ e um maço dedicado ao cálculo infinitesimal que, juntamente com os anteriores, fariam parte de um suposto compêndio de matemática que Monteiro da Rocha terá escrito por meados da década de 1760. 

Por volta de 1786 Monteiro da Rocha escreveu um trabalho sobre o problema das quadraturas (integração), que seria publicado apenas em 1797 no 1º volume das Memórias da Academia das Ciências de Lisboa (ACL). Escrito em resposta aos comentários negativos feitos pelo seu ex-colega José Anastácio da Cunha a um trabalho de Manuel Coelho da Maia, premiado pela ACL em 1785, sobre a demonstração da regra de quadraturas (integração) de Fontaine .  Comentários que se estendem ao próprio Monteiro da Rocha, gerando uma famosa ‘polémica’ que foi muito para além da questão matemática, originando uma severa troca de acusações de carácter pessoal de parte a parte, gerando partidários de ambos a assumirem severas posições adversárias. Nesse trabalho Monteiro da Rocha propôs dois métodos de aceleração da convergência, antecipando um método que Richardson proporá cerca de 130 anos mais tarde (em 1910) e que ficará conhecido na análise numérica como o método de extrapolação de Richardson. Ainda nesse 1º volume das Memórias da ACL Monteiro da Rocha publicou um outro trabalho sobre o cálculo de volumes. A ‘Solução geral do problema de Kepler sobre a medição das pipas e toneis’, assim se intitula, reflete bem a sua preocupação com a dimensão prática da matemática e a sua aplicabilidade na resolução de problemas concretos, ao pretender dar solução a um problema real no quotidiano do comércio de substâncias líquidas que se faziam transportar em pipas e tonéis; o de saber o volume parcial de líquido aí contido. Monteiro da Rocha elabora uma tabela que permite aos comerciantes estimar com precisão o volume parcial de uma pipa sabendo apenas os seus diâmetros maior, menor e médio, bem como o seu comprimento e a altura do líquido nela contido.

São vários os trabalhos de astronomia teórica e prática que Monteiro da Rocha publicou, grande parte deles escritos enquanto professor da cadeira de Astronomia (1783-1804) e diretor do Observatório (1795-1819). Estes trabalhos serão fundamentais para o estabelecimento dos métodos matemáticos e das práticas astronómicas que permitiram o cálculo e a elaboração das emblemáticas ‘Ephemerides Astronomicas’ que o Observatório Astronómico começou a publicar a partir de 1803.

O Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra (OAUC), cuja concretização efetiva foi essencialmente da responsabilidade de Monteiro da Rocha, não se reduz apenas a um observatório de cariz universitário, direcionado exclusivamente para a vertente letiva. O papel e a prática astronómica que se requeriam para este estabelecimento (traçada desde logo nos Estatutos de 1772 e depois reforçada no regulamento de 1799) prende-o a uma dicotomia muito própria: por um lado como observatório universitário, nomeadamente no ensino prático da astronomia e na investigação científica dos seus professores e, por outro, como observatório nacional envolvendo-o na elaboração das efemérides astronómicas «para uso da Navegação Portuguesa». A criação do OAUC foi fundamental, na segunda metade do século XVIII, para a institucionalização da ciência astronómica em Portugal, durante o período em que a astronomia, sustentada pelos grandes avanços teóricos da mecânica celeste e da matemática aplicada, tenta, por fim, resolver as grandes questões que desde Newton (1643-1727) vinha enfrentando. Estas questões, ligadas aos problemas de navegação, geodesia e cartografia, determinação de órbitas de planetas e cometas, medições de tempo, e que faziam parte do programa de trabalho de qualquer observatório da época, estão também na base da criação e planificação do OAUC. A construção do Observatório esteve inicialmente planeada para o sítio do Castelo da cidade de Coimbra. A construção deste vasto equipamento iniciou-se em Abril de 1773, com as obras a pararem definitivamente em 1775 por dificuldades financeiras, quando estava realizado o essencial do primeiro piso. Entretanto edificou-se (c.1775), no terreiro do Paço das Escolas, para suprir as necessidades letivas, um pequeno observatório interino. Este observatório de carácter temporário acabaria por funcionar provisoriamente durante cerca de quinze anos, pois só em meados da década de 1780 se encarava definitivamente o problema da inexistência de um verdadeiro observatório astronómico conforme os Estatutos haviam estabelecido. Foi através da estreita colaboração entre Monteiro da Rocha (na qualidade de professor de astronomia e vice-reitor da Universidade) e Manuel Alves Macomboa (?-1815), o arquiteto da universidade, que surgiria o projeto definitivo para o OAUC, que aprovado pela universidade em 5 de fevereiro de 1791, se vê concluído em 1799. Os primeiros instrumentos, provenientes do Colégio dos Nobres, já haviam chegado de Lisboa logo no final de 1772. Ao longo dos anos seguintes Monteiro da Rocha encarregou-se de encomendar de França e Inglaterra muitos outros, estando praticamente reunido o núcleo principal dos instrumentos, nos meados da década de 1780. Após a sua inauguração em 1799, a atividade científica, da inteira responsabilidade de Monteiro da Rocha, centra-se no cálculo e na publicação das ‘Ephemerides Astronomicas’ (EAOAUC). O ponto sétimo do ‘Regulamento do Real Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra’ (carta régia de 4 de dezembro de 1799) precisa bem o objetivo maior de toda a sua atividade científica: a elaboração de umas efemérides astronómicas, “para uso dele, [e que] igualmente possa servir para uso da Navegação Portuguesa”. 

As EAOAUC serão a imagem de marca do trabalho astronómico do OAUC durante todo o século XIX. O primeiro volume foi publicado em 1803, pela Real Imprensa da Universidade, com as efemérides para o ano de 1804 e salvo dois períodos relativamente curtos em que a sua publicação esteve suspensa, as EAOAUC ainda eram publicadas no século XX. Para além das efemérides propriamente ditas, e à semelhança das congéneres estrangeiras, também as EAOAUC publicaram artigos científicos. Ao contrário das efemérides estrangeiras que calculavam diretamente partir das tabelas astronómicas as posições da Lua tanto para o meio-dia como para a meia-noite, as de Coimbra calculavam apenas o lugar do meio-dia diretamente das tabelas, sendo o lugar da meia-noite calculado por interpolação segundo um método proposto por Monteiro da Rocha, que vem publicado no volume 5, “Exposição dos Methodos Particulares de que se faz uso no cálculo destas Ephemerides” (1807). Em 1813 Monteiro da Rocha publicou as suas próprias tabelas astronómicas, ‘Taboas Astronómicas ordenadas a facilitar o Calculo das Ephemerides da Universidade de Coimbra’ (1813), que passaram a constituir a base de cálculo das EAOAUC até aos inícios da década de 1840.

A necessidade da elaboração e publicação por parte dos observatórios de efemérides astronómicas está intimamente ligada ao problema da determinação das longitudes geográficas, principalmente no alto mar, o que constituiu um dos maiores desafios enfrentados pela náutica e pela astronomia do século XVIII e inícios do século XIX. Monteiro da Rocha tem três trabalhos específicos, realizados em dois períodos distintos da sua vida, sobre o problema da determinação das longitudes. O já mencionado ‘Método de achar a longitude geográfica no mar e na terra’, nunca publicado, e escrito ainda antes da Reforma Pombalina da Universidade; os outros dois são a ‘Taboada Nautica para o calculo das Longitudes’ (1799) e o ‘Calculo das Longitudes’ (1803), escritos e publicados nos inícios do século XIX, quando o seu trabalho académico e científico já era reconhecido. Monteiro da Rocha publicou ainda nas EAOAUC três artigos sobre o cálculo dos eclipses e trânsitos de Mercúrio e Vénus: ‘Cálculo dos Eclipses’ (1803), ‘Demonstração e ampliação do cálculo dos eclipses’ (1806) e ‘Aditamento ao cálculo dos eclipses’ (1811). 

Ainda no campo da astronomia teórica merece destaque o seu trabalho sobre a ‘Determinação das orbitas dos Cometas [1782]’ (1799). Com este trabalho, lido em 1782 em assembleia académica da ACL de Lisboa mas só publicado em 1799, Monteiro da Rocha perdeu a oportunidade de ficar inscrito na história da Astronomia como o primeiro a propor um método simples e de fácil aplicação na resolução de um dos problemas mais intrincados com que se debateu a astronomia do século XVIII: a determinação de órbitas de cometas. Perdeu essa primazia para o alemão Olbers (1758-1840), que em 1797 publicou um método muito parecido. 

No campo da astronomia prática são relevantes dois trabalhos (também publicados nas EAOAUC), um sobre o ‘Uso do Instrumento das Passagens’ (1805), e outro sobre o ‘Uso do retículo romboidal’ (1805). Estes trabalhos, elogiosamente referidos por Delambre no Connaissance des Tems para o ano de 1810 (1808), contextualizados no conjunto da considerável obra astronómica de José Monteiro da Rocha, refletem a dicotomia e a excelência do astrónomo que era, tanto a nível teórico como prático.

No campo administrativo a ação de Monteiro da Rocha foi também variada e marcante, principalmente no trabalho que desempenhou como Vice-Reitor da Universidade (1786-1804). Monteiro da Rocha foi responsável por uma série de textos de carácter legislativo que ultrapassam em muito o estrito carácter académico. Dentre os mais significativos destacam-se o ‘Regulamento do Real Observatório Astronómico’, que é importante não só por estabelecer a lei orgânica do Observatório mas também porque nele se estabelece a necessidade de enviar professores da Universidade em viagens científicas ao estrangeiro para atualização de conhecimentos. Será em consequência desta lei que Manuel Pedro de Melo , professor da cadeira de Hidráulica, viajará, com instruções específicas redigidas por Monteiro da Rocha, para França e outros países europeus. Desse conjunto de leis merece igualmente destaque o ‘Regimento da Junta da Diretoria Geral dos Estudos’ (aviso régio de 10 de maio de 1800), organismo criado com a incumbência de fiscalizar a instrução pública e que veio substituir o Tribunal da Real Mesa da Comissão Geral sobre os Exames e Censura dos Livros. Refiram-se ainda a ‘Lei dos Cosmógrafos’ (alvará régio de 9 de junho de 1801), que introduziu uma profunda reforma na administração do território, instituindo em cada uma das comarcas do País um matemático com o título de ‘Cosmógrafo’ a reportar diretamente à administração central do Estado; e também o importante alvará de 1 de dezembro de 1804, que estabelecia o concurso como forma de provimento das cadeiras universitárias. Em 16 de Janeiro de 1780 Monteiro da Rocha foi eleito membro da ACL, vindo a ocupar alguns anos depois o cargo de diretor da classe das Ciências Exatas. Em 1798 Monteiro da Rocha seria eleito membro da Sociedade Real Marítima, Militar e Geográfica (criada em 30 de junho desse ano), e em 1799 eleito vogal da Junta da Diretoria Geral de Estudos e Escolas do Reino. Em 21 de Março de 1800 Monteiro da Rocha tornou-se conselheiro do Príncipe Regente D. João. No ano seguinte, em 2 de Junho de 1801, recebeu a Comenda da Ordem de Cristo da Sé de Portalegre, como reconhecimento dos seus serviços. Ainda no tempo do Marquês de Pombal, pelos mesmos motivos, havia sido nomeado para uma cadeira magistral da Sé de Leiria (18 de fevereiro de 1774) e em 1779 designado para o cargo de principal do Real Colégio dos Nobres das três Províncias do Norte. Em 1804, devido à nomeação para preceptor do príncipe herdeiro, futuro rei D. Pedro IV, e de seus irmãos (carta régia de 18 de agosto de 1804), Monteiro da Rocha abandonou a vida universitária ativa, passando a residir em São José de Ribamar, em Lisboa. Monteiro da Rocha morreu em 11 de Dezembro de 1819.

Fernando B. Figueiredo
Universidade de Coimbra

Arquivos

Processo Académico de José Monteiro da Rocha, Lisboa, Academia das Ciências de Lisboa

Processo do Professor José Monteiro da Rocha, Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, AUC Cx. 265

Obras

‘Segunda Parte. Do Curso Mathematico’. 1772. In Estatutos da Universidade de Coimbra. II Centenário da Reforma Pombalina. Por Ordem da Universidade de Coimbra. 3: 141-222. Coimbra

“Additamentos à regra de M. Fontaine para resolver por approximação os Problemas que se reduzem às Quadraturas”. 1797. Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, I: 218-243

“Solução Geral do problema de Kepler sobre a medição das Pipas e Tonéis.” 1797. Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, I: 1-36

“Determinação das órbitas dos Cometas”. 1799. Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, II: 402-479

Taboada Nautica para o calculo das Longitudes, por José Monteiro da Rocha da Universidade de Coimbra em 14 de Março de 1799. [1801]. Lisboa: Typographia Chalcografica, e Litteraria do Arco do Cego

Ephemerides Astronomicas calculadas para o Meridiano do Observatorio da Universidade de Coimbra para o uso do mesmo Observatório, e para o da navegação Portugueza [EAOAUC]. Coimbra: Real Imprensa da Universidade (são vários volumes, o 1º é de 1803) 

“Taboas Auxiliares”. 1803-1804. EAOAUC 1: 121-170; 2: 121-165

“Cálculo das Longitudes”. 1803. EAOAUC 1 : 213-230 

Mémoires sur l’Astronomie Pratique par M. J. Monteiro da Rocha. 1808. Paris: Courcier

Taboas Astronomicas ordenadas a facilitar o cálculo das Ephemerides da Universidade de Coimbra. 1813. Coimbra: Imprensa da Universidade

Bibliografia sobre o biografado

Teixeira, António José. 1888-1890. “Cartas do Dr. José Monteiro da Rocha a D. Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho.” O Instituto: Jornal scientifico e litterario 36 (1888-1889) 305-310, 372-376, 449-454, 509-514, 587-593, 657-663, 732-736, 793-798; 37 (1889-1890) 53-57, 128-132, 197-204, 268-275, 338-340, 475-479, 560-564, 622-628, 709-714, 799-804, 881-884

Teixeira, António José. 1889-1889. “Sciencias moraes e sociaes. Apontamentos para a biographia de José Monteiro da Rocha.” O Instituto: Jornal scientifico e litterario 37: 65-98

Teixeira, Francisco Gomes. 1925. Panegíricos e Conferências. Coimbra: Imprensa da Universidade

Figueiredo, Fernando B. 2005. “A contribuição de José Monteiro da Rocha para o cálculo da órbita de cometas.” Tese de Mestrado, FCT-UNL

Figueiredo, Fernando B. 2011. “José Monteiro da Rocha e a actividade científica da ‘Faculdade de Mathematica’ e do ‘Real Observatório da Universidade de Coimbra’: 1772-1820.” Tese de Doutoramento, FCTUC

Gouveia, António Jorge Andrade de

Guarda, 18 junho 1905 — Coimbra, 13 julho 2002 

Palavras-chave: Universidade de Coimbra, Química, História das Ciências, Academia das Ciências de Lisboa.

António Jorge Andrade de Gouveia, filho de António Carvalho de Gouveia e de Angelina da Soledad Sarah Bette Andrade de Gouveia, frequentou a Escola Primária de São Vicente da Guarda e fez os seus estudos secundários no Colégio da Via Sacra e no Liceu Alves Martins, em Viseu. 

Em outubro de 1922, matriculou-se na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, onde se licenciou em Ciências Físico-Químicas, em 1926. Ainda antes de terminar o curso, em agosto de 1925, foi nomeado, primeiro assistente da Faculdade de Ciências. Reconduzido neste cargo académico até 1930, foi provido definitivamente neste ano, no cargo em questão. 

Por indicação e recomendação da Congregação da Faculdade, de outubro a dezembro de 1927, estagiou na Universidade de Paris, frequentando os cursos de Marie Curie e Jean Perrin, estudando simultaneamente vários compostos de alumínio, estanho e tungsténio no Laboratório de Química Inorgânica do Instituto de Química Aplicada, sob a orientação e direção do professor Raymond Marquis.

Em 1931, passou a trabalhar em Inglaterra, na Universidade de Liverpool, sob a orientação do professor Richard Alan Morton (1899–1977). Aí estudou vários compostos orgânicos, em particular o índigo, o naftaleno e outros compostos aromáticos e sua aplicação ao estudo de problemas biológicos, utilizando técnicas espectroscópicas de absorção no visível e ultravioleta. Obteve, em 7 de julho de 1934, o grau de doutor com a tese “Contributions to the Study of the Role of the Double Bond in the Absorption Spectra of Organic Compounds”.

Em agosto de 1935, foi-lhe concedida equivalência ao grau de doutor em Ciências Físico-Químicas pela Universidade de Coimbra. Foi então contratado pela Faculdade de Ciências como equiparado a professor catedrático. Primeiro assistente desde abril de 1942, em janeiro de 1944, foi aprovado por unanimidade para professor extraordinário de Química, em concurso onde apresentou a dissertação “Contribuição para o estudo das oleorresinas portuguesas do Pinus pinaster e do Pinus pinea – Estudo espectrofotométrico dos ácidos resínicos e seus derivados”. Em junho deste mesmo ano, foi aprovado para o lugar de professor catedrático do mesmo grupo.

Foi secretário da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra de 1945 a 1949. Em 1955 foi nomeado diretor do Laboratório Químico, cargo que exerceu até setembro de 1975, acumulando funções com o cargo de diretor da Faculdade de Ciências, nos anos de 1962–1963, e com o cargo de reitor da Universidade de Coimbra, a partir de junho de 1963 e até fevereiro de 1970. 

Foi membro da Junta de Educação Nacional nos anos de 1956, 1962 e 1965. Em 1963, foi nomeado para membro da Comissão Permanente da Organização circum-escolar do Ensino Superior. No mesmo ano, foi nomeado presidente da Comissão Administrativa das Obras da Cidade Universitária. Em 1944, foi admitido como sócio do Instituto de Coimbra; e, em 1992, foi admitido como membro da New York Academie Advanced. Em 1969, integrou a Comissão Nacional para a Celebração do V Centenário do Nascimento de Vasco da Gama. Neste mesmo ano, representou Portugal na Assembleia Geral dos Reitores das Universidades Europeias, em Genebra. Foi ainda Presidente da Sociedade Filantrópico-Académica da Universidade de Coimbra, cargo que deixou ao tomar posse como reitor, por falta de tempo e por entender que as funções que exercia nessa sociedade eram incompatíveis com o cargo de reitor. Em 1963, tornou-se sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa, passando a efetivo em 1973.

Como reconhecimento pelos elevados serviços prestados, foram-lhe conferidos os títulos e as insígnias de Grande Oficial da Ordem de Mérito da República Italiana, em 27 de dezembro de 1968, e de Grande Oficial da Ordem de Sant’Iago da Espada, da República Portuguesa, em 30 de maio de 1996.

Em sua homenagem, o Departamento de Química da Universidade de Coimbra criou, em 1995, o Prémio Professor António Jorge Andrade de Gouveia, destinado a “galardoar os alunos de licenciatura que se salientem no estudo da ciência química”.

Anotados os passos principais da sua carreira académica, deve relevar-se aqui a atividade científica a que Andrade Gouveia se dedicou toda a sua vida de professor universitário. Nos primeiros anos da década de 1930, após o seu doutoramento em Inglaterra, regressou ao Laboratório Químico da Universidade de Coimbra e empenhou-se completamente na formação de uma equipa de investigadores que, liderada por si, equipou o Laboratório com a aparelhagem necessária, nomeadamente no domínio da espectrofotometria, votada a investigações de química orgânica centradas no estudo sobre o valor nutritivo de várias espécies de peixes e moluscos das costas portuguesas, determinando, em particular, os seus conteúdos de proteínas e lípidos, bem como vitaminas A e D. Rapidamente, estes estudos se estenderam a várias espécies de peixes da costa de Angola, em estreita colaboração científica com o Agrupamento Científico de Estudos Ultramarinos, envolvendo amostras preparadas em Angola e remetidas por via aérea para a metrópole, investigando o seu teor em tiamina, riboflavina, niacina e vitamina A, bem como de proteínas e gorduras. Já nos finais da década de 1950, o grupo dedicou-se ao desenvolvimento de uma técnica analítica espectrofotométrica para determinação quantitativa de pró-vitaminas D, baseada na reação de cor destas substâncias com soluções saturadas de cloreto de antimónio e dicloreto de etileno, em presença de pequenas quantidades de iodo, e estabeleceu uma estreita e muito dinâmica colaboração com os Laboratórios Atral no estudo da plumbagina, uma naftoquinona extraída de várias plantas com numerosas propriedades farmacológicas, procedendo à síntese química do composto e à preparação de vários derivados hidrossolúveis do mesmo, determinando o seu poder químio-terapêutico. 

Para além de toda esta sua atividade de investigação científica no domínio da química orgânica, Andrade de Gouveia fomentou com grande interesse o estudo da história e filosofia das ciências em Portugal, com particular ênfase nos períodos renascentista e pós-pombalino. Enquanto diretor da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, a ele se deve a criação de um curso livre de História da Ciência ministrado, a seu convite, nos anos de 1962–1964, pelo professor Reijer Hooykaas (1906–1994), o primeiro professor de História das Ciências numa universidade holandesa (1946) e professor da mesma disciplina na Universidade Livre de Amsterdão, nos anos de 1946–1972. Já aposentado, na Academia de Ciências de Lisboa, em 1983, Andrade Gouveia estabeleceu relações muito estreitas com o professor Allen George Debus (1926–2009), eminente historiador das ciências, nomeadamente da química, da Universidade de Chicago, e com o então presidente da International Union of History and Philosophy of Science (IUHPS)William R. Shea (1937), professor de História e Filosofia da Ciência na Universidade McGill de Montreal (Canadá), em colaboração com os quais viria a organizar na Academia de Ciências de Lisboa dois marcantes colóquios sobre o desenvolvimento da ciência em Portugal (o primeiro de 15 a 19 de abril de 1985, sobre a ciência em Portugal até inícios do século XX, e o segundo de 13 a 17 de novembro de 1989, sobre a ciência em Portugal no século XX). Ainda em colaboração com os mesmos professores, organizou, em Coimbra, de 18 a 22 de abril de 1988, a VII Conferência Internacional da IUPHS, cujas atas, publicadas nesse mesmo ano pela Science History Publications (Estados Unidos da América) com o título Revolutions in Science – Their Meaning and Relevance, lhe foram dedicadas pelo editor, o próprio professor William R. Shea. 

António M. Amorim da Costa
Departamento de Química, Universidade de Coimbra

Arquivos

Coimbra, Arquivo da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra 

Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Curriculum Vitae, 1996

Lisboa, Arquivo da Academia das Ciências de Lisboa

Obras

Andrade de Gouveia, António Jorge. “Análise Química da água de abastecimento da cidade de Coimbra (Rio Mondego).” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 1 (1931): 33–38.

Andrade de Gouveia, António Jorge. “Desenvolvimento da Química e Ciências Relacionadas e seu Impacto com Actividades Científicas e Culturais em Portugal.” Revista Portuguesa de Química 29 (1987): 127–139.

Andrade de Gouveia, António Jorge. “Determinações quantitativas de pro-vitaminas D.” In Memórias da Academia das Ciências de Lisboa 8 (1962): 121–134.

Andrade de GouveiaAntónio Jorge. “Livros do século XV e XVI sobre artes químicas e simples e drogas, nas Livrarias da Universidade e de Colégios de Coimbra.” Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, Classe de Ciências 22 (1978-1979): 289–309.

Andrade de Gouveia, António Jorge. “Os paradigmas da afinidade química e a Faculdade de Filosofia nos fins do séc. XVIII.” Memórias da Academia de Ciências de Lisboa 22 (1978): 17–26.

Andrade de Gouveia, António Jorge. “Químico esclarecido luso-brasileiro: Vicente Seabra (1764-1804).” Memórias da Academia de Ciências de Lisboa 21 (1976-1977): 7–35.

Andrade de GouveiaAntónio Jorge. “Vicente de Seabra e a Revolução Química em Portugal.” In História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, vol. 1, 335–351. Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, 1986.

Andrade de Gouveia, António Jorge. “Vicente Seabra and the Chemical Revolution in Portugal.” Ambix 32 (3) (1985): 97–109.

Andrade GouveiaAntónio Jorge. “Posições de Garcia d’Orta e de Amato Lusitano na ciência do seu tempo.” In História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, vol. 1, 303-333. Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, 1986.

António Jorge Andrade de Gouveia e Fernando Pinto Coelho. “Determinações quantitativas de vitamina C em frutos e derivados.” Las Ciências 6 (1942): 483–491.

Andrade de Gouveia, António Jorge e Alfredo da Purificação Gouveia. “Contribuição para o estudo químico dos moluscos da costa portuguesa. I. Estudo analítico da espécie Loligo vulgaris Lamark.” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 20 (1951): 5–20.

Andrade de Gouveia, António Jorge e Alfredo da Purificação Gouveia. “Determinação quantitativa da vitamina B12 em produtos naturais e farmacêuticos.” La Ricerca Scientifica 23 (1953): 23–26.

 Andrade de Gouveia, António Jorge e Alfredo da Purificação Gouveia. “Contribuições para o estudo químico de peixes da costa portuguesa I-Estudo analítico das espécies “Sardina pilchardus (Walbum) (sardinha) e Trachurus (L) (carapau).” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 19 (1950): 136–150.

 Andrade de Gouveia, António Jorge e Alfredo da Purificação Gouveia. “Contribuições para o estudo químico de peixes da costa portuguesa II. Carotenoides de Sardina pilchardus Walbaum.” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 21 (1952): 166–169.

 Andrade de Gouveia, António Jorge e Alfredo da Purificação Gouveia. “Contribuiciones para el estudio químico de pescado de la costa portuguesa. Estudio analítico de las espécies de Sardina pilchardus (Walbum) (sardinha) e Trachurus (L) (Jusel).” Industria Conservera 7 (1951): 120–123.

Andrade de Gouveia, António Jorge e Fernando Pinto Coelho. “Determinações quantitativas de vitamina A pelo método espectrofotométrico. I Estudo de alguns óleos de fígado de bacalhau de empresas de pesca portuguesas.” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 6 (4) (1936): 191–199.

 Andrade de Gouveia, António Jorge, Alfredo da Purificação Gouveia, J. Anacoreta Correia e M. H. R. Fonseca. “Estudo químico de peixes da costa de Angola (Luanda). I-Teor de riboflavina e comportamento dos resíduos insaponificáveis.” In XXIII Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências. Coimbra, 1956.

Andrade de Gouveia, António Jorge, Alfredo da Purificação Gouveia e M. H. R. Fonseca. “Ergosterol and 7-dehydrecholesterol colour reaction.” In XV Congresso da União Internacional de Química Pura e Aplicada. Lisboa: s. n., 1956. 

Andrade de Gouveia, António Jorge, Alfredo da Purificação Gouveia, J. Anacoreta Correia e M. H. R. Fonseca. “Contribuição para o estudo químico de peixes da costa de Angola. I- Estudo analítico de algumas espécies obtidas nas pecarias de Luanda.” Garcia de Orta, Revista da Junta das Missões Geográficas e de Investigações do Ultramar 4 (4) (1957): 531–555.

Andrade de Gouveia, António Jorge, Alfredo da Purificação Gouveia e M. H. R. Fonseca. “Metalic Complexes with alicyclic unsaturated compounds.” In XVI Congresso Internacional de Química Pura e Aplicada. Paris: s. n., 1957.

Andrade de Gouveia, António Jorge, Alfredo da Purificação Gouveia e M. H. R. Fonseca. “Reacção corada do ergosterol e do de-hidro-7 colesterol.” Revista Portuguesa de Química 1 (1) (1958): 15–36.

Andrade de Gouveia, António Jorge, Fernando Pinto Coelho e Aires Pedroso de Lima. “Determinações quantitativas de ácido fítico. I-Estudo de farinhas portuguesas de trigo, centeio e milho.” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 14 (1945): 35–49.

Andrade de Gouveia, António Jorge, Fernando Pinto Coelho e Aires Pedroso de Lima. “Determinações quantitativas de ácido fítico. II-Estudo de produtos de panificação da Cidade do Porto.” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 15 (1946): 55–76.

Andrade de Gouveia, António Jorge, Fernando Pinto Coelho e Alfredo da Purificação Gouveia. “Complexos de cobalto bivalente com ácidos resínicos. I-Composição e estudo espectrofotométrico.” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 22 (1953): 88–109.

Andrade de Gouveia, António Jorge, Fernando Pinto Coelho e J. A. Correia. “Determinações quantitativas de vitamina C em bananas (Musa nana) provenientes da Ilha da Madeira.” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 9 (1) (1941): 49–68.

Andrade de Gouveia, António Jorge, Fernando Pinto Coelho e Karl Schön. “Studies on the ultraviolet absorption spectra of proteins. I. Aminoacids. II. Dipeptides.” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 6 (4) (1936): 391–413.

 Andrade de Gouveia, António Jorge, Fernando Pinto Coelho, Alfredo da Purificação Gouveia e L. J. Esteves Paz. “Determinações quantitativas de vitamina A pelo método espectrofotométrico. II-Estudo de óleos de fígado de atum (Thunnusthynnus, (L) de empresas de pesca do Algarve.” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 11 (1945): 35–49.

Gouveia, Alfredo da Purificação e António Jorge Andrade de Gouveia. “Contribuição para o estudo químico do peixe seco de Angola. Algumas vitaminas e composição das proteínas em amino-ácidos.” Revista Portuguesa de Quimica3 (1962): 41–60.

Gouveia, Alfredo da Purificação, G. S. Figueiredo e António Jorge Andrade de Gouveia. “Plumbagina e compostos relacionados.” Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, Classe de Ciências 14 (1970): 303–325.

Gouveia, Alfredo da Purificação, G. S. Figueiredo, A. M. Silva e António Jorge Andrade de Gouveia. “Estudo químico dos componentes da Plumbago zeylanica. Síntese de outros produtos afins.” Garcia de Orta, Revista da Junta das Missões Geográficas e de Investigações do Ultramar 16 (1968): 441–456.

Gouveia, Alfredo da Purificação, G. S. Figueiredo, A. M. Silva e António Jorge Andrade de Gouveia. “Métodos micro-analíticos da dosagem da plumbagina e naftoquinonas relacionadas, em soluções aquosas e meios fisiológicos. Diferenças de comportamento com a estrutura.” Revista Portuguesa de Química 12 (1970): 104–111.

Gouveia, Alfredo da Purificação, G. S. Figueiredo, A. M. Silva e António Jorge Andrade de Gouveia. “Estudo do Oleo Essencial de «Heteropyxis natalensis» Harv.” Revista Portuguesa de Química 14 (1972): 230–237.

Gouveia, Alfredo da Purificação, M. H. R. Fonseca e António Jorge Andrade de Gouveia. “Possíveis intermediários numa reacção de cor do ergosterol e do 7-de-hidro-colesterol.” In XXIV Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências. Madrid: s. n., 1958.

Gouveia, António Jorge Andrade de. Garcia d’Orta e de Amato Lusitano na Ciência do seu Tempo. Lisboa: Instituto Camões e Biblioteca Breve, 1985.

Morton, Richard Alan e António Jorge Andrade de Gouveia. “Chromophoric Groups. Part I. Ultra-violet Absorption Spectra of Indene and Certain of its Derivatives.” Journal of the Chemical Society 1934: 911–916.

Morton, Richard Alan e António Jorge Andrade de Gouveia. “Chromophoric Groups. Part II. Absorption Spectra of Naphthalene, Hydronaphthalenes and Related Compounds.” Journal of the Chemical Society 1934: 916–930.

Schön, Karl, António Jorge Andrade de Gouveia e Fernando Pinto Coelho. “Determinações quantitativas da Vitamina A, Ergosterol, Vitamina B2 (lactoflavina) e Vitamina C, por métodos físico-químicos. Estudo do vinho tinto da Bairrada.” Revista da Faculdade de Sciencias da Universidade de Coimbra 8 (1939): 130–147.

Bibliografia sobre o biografado

Carvalho, A. Herculano de. “Discurso de recepção do Prof. Doutor Andrade Gouveia, novo Académico Titular da Cadeira n.º 19.” Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, Classe das Ciências 18 (1975): 51–56.

Costa, António M. Amorim da. “Chemical Science and Education in the University of Coimbra (Portugal) from the thirties to the fifties of the twentieth century.” In Alchemy, Chemistry and Pharmacy, ed. M. Bougard, 169–176. Turnhout: Brepols Publications, 2002.