Erédia, Manuel Godinho de

Malaca, 1563 — Goa, ca. 1623

Palavras-chave: Manuel Godinho de Erédia, Ásia, Malaca, cartografia, geografia, botânica, XVI, XVII.

Manuel Godinho de Erédia foi autor de uma vasta obra cartográfica e geográfica sobre o mundo oriental, a qual na época permaneceu manuscrita e apenas modernamente tem sido editada. Filho de um soldado português de ascendência aragonesa e de uma princesa originária das Celebes (Sulawesi), Erédia foi educado no colégio jesuíta de Malaca. Mais tarde, em muitos dos seus mapas e escritos utilizaria palavras e expressões malaias, para além de se referir a fontes escritas de origem malaia ou javanesa, o que leva a supor que conhecia bem a língua malaia. Com 13 anos de idade, Manuel Godinho mudou-se para Goa, a fim de continuar a sua educação formal com os padres jesuítas, estudando gramática, artes, filosofia e matemática. Distinguiu-se no estudo desta última disciplina, pois durante alguns anos exerceu funções no colégio jesuíta de Goa como mestre de matemática. Era também um artista talentoso, pois as fontes jesuítas atribuem-lhe a autoria de uma pintura religiosa remetida para a corte do Grão-Mogol em Agra. A vocação religiosa de Erédia, contudo, não se revelou sólida, pois em 1586 abandonou a Companhia de Jesus, para se dedicar a outras atividades. Contudo, não se encontra confirmação documental para a alegação do próprio Erédia de que teria passado a desempenhar funções de cosmógrafo-mor do Estado da Índia.

O vice-rei D. Duarte de Meneses, que governou o Estado da Índia entre 1584 e 1588, fez-se acompanhar por GiovanniBattista Cairato, engenheiro de origem italiana que fora encarregado por Felipe II de Espanha (e I de Portugal) de realizar um cuidadoso levantamento das fortalezas orientais dos portugueses. Cairato viajou extensamente pelo Oriente até 1596, e parece certo que Erédia o serviu como desenhador; durante estas deslocações, o cartógrafo reuniu elementos para muitos dos seus posteriores desenhos de cidades e fortalezas. A primeira obra conhecida de Erédia, a Informação da Aurea Chersoneso, ou Peninsula, e das Ilhas Auriferas, Carbunculas e Aromaticas, foi escrita após este período, entre 1598 e 1600. Tratava-se de uma descrição da Península Malaia e das principais ilhas do arquipélago indonésio, com notícias referentes à história, costumes, crenças e lendas, e com a preocupação de identificar minas de metais preciosos e fontes locais de especiarias valiosas. Desde as primeiras décadas do século XVI que nenhum outro autor tinha analisado de forma tão cuidadosa estas regiões orientais. Este primeiro escrito de Erédia, paralelamente a informações geográficas inovadoras, incluía dezenas de referências livrescas, citando numerosos autores ocidentais, clássicos e modernos, como Ptolomeu, Estrabão, Plínio, Pompónio Mela, Marco Polo ou Ludovico de Varthema. Este procedimento foi depois repetido em todos os subsequentes escritos de Erédia, que gostava de alardear erudição, a qual, contudo, nem sempre era de primeira mão. 

Entre 1600 e 1605, Erédia estanciou na Península Malaia, dedicando-se a trabalhos de engenharia militar, relacionados com as fortalezas portuguesas da região, e a atividades de prospeção mineira no sertão de Malaca. Preparou entretanto diversos planos de fortificações e detalhados mapas das regiões malaias visitadas, que conduziram a cartografia portuguesa para a representação inovadora de regiões interiores do continente asiático. Nada se consegue apurar sobre o seu paradeiro nos cinco ou seis anos seguintes, mas regressou decerto a Goa, pois muitas das suas cartas e plantas de fortalezas, cidades e regiões orientais, como o Atlas produzido em 1610 a instâncias do vice-rei Rui Lourenço de Távora, que governou o Estado da Índia entre 1609 e 1612, parecem datar deste obscuro período. Em 1611, efetuou uma viagem de prospeção mineira nas regiões setentrionais do Indostão, regressando na posse de vários mapas corográficos muito detalhados e inovadores, e de uma breve relação intitulada Discursos sobre a Província do Indostão, que descrevia esta região indiana. Como era habitual nos seus escritos, apresentava uma complexa combinação de observações em primeira mão e de informações orais, com diversas notícias recolhidas em fontes livrescas. Estas últimas incluíam não só referências ocidentais, mas também alusões a manuscritos persas. Erédia preparou também, durante esta expedição, um álbum de desenhos de árvores e plantas indianas, a Suma de Árvores e Plantas da índia Intra Ganges, dedicado a Rui Lourenço de Távora, que comprovava a sua curiosidade pela história natural e os seus dotes artísticos. Aparentemente satisfeito com este metódico trabalho de exploração, o novo vice-rei, D. Jerónimo de Azevedo, que governou entre 1612 e 1617, enviou-o em mais uma empresa de prospeção mineira na região de Goa. Erédia deve ter desempenhado este encargo nos anos de 1612 e 1613, descobrindo importantes jazidas de cobre e de ferro, e produzindo, como de costume, diversos mapas e cartas.

A partir de 1613, e até ao seu desaparecimento uma década mais tarde, Manuel Godinho viveu em Goa, a partir de onde dirigiu diversas cartas para Portugal, algumas das quais continham propostas de realização de viagens de descobrimento em partes inexploradas dos mares asiáticos. Mas nenhum desses projetos mereceu apoio régio. Dedicou-se, entretanto, a diversos afazeres. Trabalhou como pintor, sendo nomeadamente responsável pela elaboração de numerosos retratos de governadores e vice-reis portugueses, e também como cartógrafo, desenhando mapas e plantas de cidades e fortalezas, que andam reunidos em diversos atlas manuscritos. Erédia atravessou então o seu mais prolífico período de criação literária, pois no curto espaço de quatro anos produziu três tratados históricos e geográficos. Em primeiro lugar, em finais de 1613 concluiu a Declaraçam de Malaca e India Meridional com o Cathay, o seu mais ambicioso projeto textual, dedicado a Felipe III de Espanha (e II de Portugal), composto por três partes, e que desenvolvia a anterior Informação. Primeiro, uma detalhada corografia de Malaca e do seu sertão, ilustrada por mapas e desenhos diversos (pessoas, plantas, animais e embarcações), que abordava temas tão variados como a topografia urbana e rural, a história política local, as práticas comerciais, as produções naturais, as crenças religiosas ou o folclore tradicional. Depois, uma compilação de notícias sobre terras desconhecidas, alegadamente ricas em minérios auríferos, que se poderiam encontrar nos mares para sul de Timor, também ilustrada por diversos mapas especulativos. A partir desta secção da obra tem-se desenvolvido um debate, ainda não concluído, sobre o possível descobrimento da Austrália pelos portugueses. Enfim, em terceiro lugar, a Declaraçam continha uma geografia geral do continente asiático, desde a parte setentrional do Indostão até às regiões mais orientais da China, que procurava conciliar o saber geográfico ocidental com informações orais recolhidas na Índia e com cartografia produzida na Europa, recorrendo talvez a algumas fontes asiáticas. Esta secção era ilustrada por mapas parciais e globais da Ásia, que, como geralmente sucedia em toda a cartografia erédiana, tentavam reconciliar a diversidade de fontes utilizadas pelo cosmógrafo, que incluíam nomeadamente mapas analisados em edições bíblicas e edições do cartógrafo flamengo Abraham Ortelius. Pesem embora os muitos equívocos cometidos relativamente à real configuração das regiões tratadas, atribuíveis às limitadas possibilidades de exploração então disponíveis, a Declaraçamconstituiu um feito notável do ponto de vista do conhecimento europeu da geografia asiática, pois abordava áreas e temáticas pouco estudadas anteriormente. Tal como o seu primeiro tratado, também este estava recheado de referências eruditas, numa clara exibição de conhecimentos livrescos. Mas desta vez Erédia atribuía uma maior importância aos autores seus contemporâneos, citando nomeadamente João de Barros, Brás de Albuquerque, Benito Arias Montano, Diogo do Couto ou João de Lucena, entre outros. 

Neste período, em finais de 1615, Erédia redigiu também a Historia de serviços com martirio de Luis Monteiro Coutinho, relato apologético das façanhas militares de um capitão português capturado e executado em 1588 por ordem do soberano do Achém, sultanato do norte da ilha de Samatra, que lhe fora encomendado por familiares. Manuel Godinho tentou situar a carreira de Luís Monteiro no contexto mais alargado da presença portuguesa na Ásia, mostrando de passagem que estava bastante bem informado sobre as passadas atividades militares do Estado da Índia. Tal como outras das suas produções, também esta obra (que se mantém inédita, num manuscrito autógrafo da Biblioteca Nacional de Portugal) era acompanhada de detalhadas ilustrações representando cenas bélicas. De finais de 1616 data o Tratado Ophirico, última das produções erédianas, também dedicada ao monarca Felipe III. As partes principais desta obra constituíam um ambicioso dossiê de exegese bíblica. A partir de uma edição latina da Bíblia, talvez a Poliglota de Arias Montano, e com o apoio de meia-dúzia de comentadores, Erédia lançou-se na resolução de um problema que durante séculos tinha estado na primeira linha de preocupações de estudiosos da tradição cristã. Procurando conciliar a tradicional geografia bíblica com a sua visão da configuração dos espaços asiáticos, obtida em tratados livrescos, através de informações orais, e também em repetidas viagens terrestres, o cosmógrafo luso-malaio procurava determinar a exata localização da região de Ofir, de onde vinha o ouro de Salomão. 

Erédia, nos seus últimos anos, continuou a produzir materiais artísticos e cartográficos. O cronista Diogo do Couto, que também residia em Goa, mencionava numa carta enviada para Portugal em 1616 o ‘pintor Godinho’, que então trabalhava sob a sua supervisão na restauração das pinturas das armadas da carreira da Índia. Manuel Godinho parece ter falecido por volta de 1623. Nenhuma das suas inúmeras produções textuais ou cartográficas mereceu durante a sua vida as honras da impressão; e nenhum dos seus diversos projetos de descobrimento foi patrocinado pelas autoridades portuguesas. As suas obras rapidamente caíram no esquecimento, apenas sendo regularmente convocadas, em tempos mais recentes, no contexto da discussão sobre o descobrimento da Austrália pelas potências marítimas da Europa. Os variados e extensos escritos de Erédia foram produto do específico mundo cultural da Índia portuguesa, onde os saberes, os valores e as tradições da Europa e da Ásia se interligavam, formando uma única e complexa simbiose cultural. Manuel Godinho de Erédia produziu nas suas muitas obras uma síntese por demais curiosa, usando uma combinação complexa de experiência pessoal, de testemunhos vivenciais, de rumores dispersos, de tradições malaias, e de fontes cartográficas e literárias. As suas origens miscigenadas permitiram-lhe acesso franco às mais atualizadas fontes da educação humanista europeia, aos mais recentes descobrimentos portugueses no campo da geografia asiática, e a um vasto corpo de sabedoria asiática, consignada em manuscritos e em tradições orais. Estas contribuições múltiplas colocavam os seus tratados geográficos e as suas produções cartográficas num lugar de fronteira e de cruzamento, onde se ensaiava uma impossível ponte entre três heranças culturais muito distintas, a clássica europeia, a portuguesa e a malaia. Esta natureza simbiótica explica o singular destino dos escritos de Erédia, condenados durante séculos ao esquecimento. Mas os escritos históricos e geográficos de Erédia, de uma forma muito própria, eram bastante inovadores e estavam na linha da frente das preocupações de outros cosmógrafos contemporâneos. O infortúnio editorial de Erédia explica-se sobretudo pelos conturbados tempos em que lhe foi dado viver, numa época que assistiu à expansão holandesa e inglesa na Ásia marítima e ao sistemático assalto às posições ibéricas desencadeado pelas potências do Norte da Europa. Nessa conjuntura, as autoridades ibéricas não estimularam particularmente a difusão e a impressão de materiais de natureza geográfica sobre as Índias Orientais. E muitos dos escritos de Manuel Godinho de Erédia eram dedicados a tópicos demasiado sensíveis, como a localização de fontes produtoras de metais preciosos e o descobrimento de desconhecidas ilhas auríferas. O Estado da Índia, certamente, não gostaria de ver cair este tipo de informações estratégicas em mãos erradas.

Rui Manuel Loureiro
ISMAT e CHAM/NOVA

Obras

Erédia, Manuel Godinho de. Historia de serviços com martirio de Luis Monteiro Coutinho (Goa, 1615), ms., Biblioteca Nacional de Portugal, FG 414.
Erédia, Manuel Godinho de. Malaca, l’Inde Orientale et le Cathay, ed. Léon Janssen. Bruxelas: E. Lambert-Stevelinck, 1881.

Erédia, Manuel Godinho de. Eredia’s Descrition of Malaca, Meridional India, and Cathay, ed. J.V. Mills & Cheah Boon Kheng. Kuala Lumpur: Malaysian Branch of the Royal Asiatic Society, 1997.
Erédia, Manuel Godinho de. O Lyvro da Plantaforma das Fortalezas da Índia, ed. Rui Carita Lisboa: Edições INAPA e Ministério da Defesa Nacional, 1999.

Erédia, Manuel Godinho de. Suma de Árvores e Plantas da Índia Intra Ganges, ed. John G. Everaert, J. E. Mendes Ferrão e Maria Cândida Liberato. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descorbimentos Portugueses, 2001.
Erédia, Manuel Godinho de. Informação da Aurea Quersoneso, ed. Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Centro Científico e Cultural de Macau, 2008.

Erédia, Manuel Godinho de. Tratado Ophirico, 1616, ed. Juan Gil e Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Centro Científico e Cultural de Macau, 2016.

Bibliografia sobre o biografado

Flores, Jorge. “Between Madrid and Ophir: Erédia, a Deceitful Discoverer?” In Dissimulation and Deceit in Early Modern Europe, ed. Miriam Eliav-Feldon & Tamar Herzig, 184–210. London: Palgrave Macmillan, 2015.
Loureiro, Rui Manuel. “Manuel Godinho de Erédia e os seus tratados geográficos.” Oriente 9 (2004): 94–107.

Loureiro, Rui Manuel. “Manuel Godinho de Erédia revisited.” In Indo-portuguese History: Global Trends, ed. Fátima da Silva Gracias, Celsa Pinto e Charles Borges, 411–439. Goa: s.n., 2005.
Richardson, W.A.R. “A Cartographical Nightmare: Manuel Godinho de Erédia’s Search for India Meridional.” In The Portuguese and the Pacific, ed. Francis A. Dutra e João Camilo dos Santos, 314–348. Santa Barbara, Califórnia: Center for Portuguese Studies-University of California, 1995.

Subrahmanyam, Sanjay. “Pulverized in Aceh: On Luís Monteiro Coutinho and his ‘Martyrdom.’” Archipel 78 (2009): 19–60.

Orta, Garcia de

Castelo de Vide, c. 1500 — Goa, 1568

Palavras-chave: matéria médica, botânica, Império Português no século XVI, Inquisição.

Garcia de Orta (de Orta, da Orta, d’Orta) (Castelo de Vide, c. 1500 — Goa, 1568foi um médico e naturalista do período renascentista. Os seus pais, Fernando de Orta e Leonor Gomes, originários respectivamente de Valência de Alcântara e de Albuquerque, em Espanha, deslocaram-se para Portugal na sequência da promulgação do édito de expulsão dos judeus de Espanha, em 1492. Fixaram residência na povoação fronteiriça de Castelo de Vide na qual  tiveram quatro filhos, Garcia de Orta e as suas irmãs  Violante, Isabel e Catarina. Orta teve também um meio-irmão, Jorge de Orta, fruto de uma ligação anterior mantida entre o pai e uma mulher castelhana de nome Brites Nunes. Este seu familiar estabeleceu-se em Elvas pouco tempo antes de 1504. A ascendência judaica de Garcia de Orta e, nomeadamente, a sua condição de cristão-novo teve uma influência marcante no seu percurso pessoal e profissional.

Entre c. 1515 e 1523, Orta estudou medicina nas universidades de Salamanca e de Alcalá onde obteve o seu título de licenciado. Dedicou-se à prática médica, primeiro em Castelo de Vide e, volvidos três anos, em Lisboa. Depois de três tentativas frustradas para conseguir um lugar na Faculdade de Artes da Universidade de Lisboa, obteve  em 1530 a posição de  leitor de Filosofia Natural nesta instituição. Em 1533, foi eleito representante do Conselho da Universidade, cargo que ocupou até à partir para a Índia, a 12 de Março de 1534. Embarcou na qualidade de médico pessoal do amigo e patrono Martim Afonso de Sousa, Capitão-Mor da Armada. A Inquisição  foi estabelecida em Portugal, poucos anos antes, em 1531, e o receio do médico português de vir a ser perseguido devido às suas origens judaicas, terá sido um dos principais motivos desta mudança radical na sua vida. Jamais regressaria ao reino. 

A frota ancorou em Goa, no mês Setembro de 1534. Em breve, Orta passou a acompanhar Martin Afonso de Sousa em campanhas militares na costa ocidental da Índia, desde Gujarate a Ceilão, cruzando, entre outras,  as cidades de Diu, Chaul, Baçaim e Cochin. Em 1538, Sousa regressou a Lisboa mas Orta decidiu não o acompanhar e instalar-se em Goa. Em breve, adquiriu grande prestígio profissional e social, tendo sido médico de vários vice-reis e governadores da cidade e do sultão de Ahmadnagar. Exerceu também medicina no Real Hospital Militar de Goa e granjeou o título de Físico-mor aquando do regresso de Martim Afonso de Sousa a Goa, em 1541, na qualidade de Vice-Rei, cargo que ocupou até 1546. Para a fortuna pessoal do médico português, contribuiu também a sua actividade comercial em matéria médica e pedras preciosas.  Além da sua abastada casa em Goa, Orta passou igualmente a dispor da Ilha de Bombaim que adquiriu por aforamento, em 1548.

Em finais de 1541, chegou a Goa a família do mercador e cristão novo Henrique de Solis, originária de Alter do Chão. Pouco tempo depois, a filha, Brianda de Solis, contraiu matrimónio com Garcia de Orta com quem teve duas filhas. Em 1548, chegou também a esta cidade a mãe e as irmãs de Orta, Catarina e Isabel, fugindo à perseguição movida pelo Tribunal da Santa Inquisição de Lisboa. Este tribunal religioso foi estabelecido em Goa, em 1560, mas durante a sua vida Orta conseguiu escapar à acusação do Santo Ofício e proteger dele a sua família, provavelmente devido ao seu prestígio e ao seu círculo de contactos e amigos influentes. Após a morte do médico português em Goa, em 1568, alguns dos seus familiares mais próximos foram perseguidos severamente pela Inquisição, tanto em Goa, como em Portugal. A  irmã Catarina foi presa e condenada à fogueira, em 1569, e o ano de interrogações e tortura a que tinha sido sujeita conduziu a que denunciasse vários dos seus familiares pela prática de judaísmo, incluindo o seu já falecido irmão. O Santo Ofício ordenou que fossem exumadas as ossadas de Orta e que as mesmas fossem queimadas em auto-da-fé,  ocorrido a 4 de Dezembro de 1580. As cinzas foram depois lançadas no rio Mandovi.

Os Colóquios dos simples e drogas e coisas medicinais da Índia, a única obra de Garcia de Orta e a primeira de um autor europeu sobre as matérias nela versadas, foram publicados em Goa por Joannes de Enden, em 1563. A prensa móvel foi introduzida nesta cidade em 1557, sendo os Colóquios apenas a terceira obra publicada no território e a única que, até então, não se debruçava sobre temas religiosos. Vigorando já o Tribunal do Santo Ofício na cidade, a folha de rosto do livro patenteia a necessária autorização à sua impressão por parte do inquisidor Aleixo Dias Falcão. Não é totalmente conhecido o modo como a mesma foi obtida, nem tão pouco o grau de escrutínio utilizado pelo censor. Em todo o caso, o prestígio social e económico de Orta e, em particular, o seu círculo de protetores e de amigos  influentes no reino e em Goa, terão contribuído decisivamente para que a obra pudesse ter sido publicada. São aliás dois dos humanistas seus companheiros nesta cidade, o licenciado Dimas Bosque e o latinista Tomé Dias Caiado quem, a par de Luís de Camões que então publica o seu primeiro poema, dão autoria aos principais  paratextos laudatórios da obra. O frontispício dos Colóquios contribui também como dispositivo legitimador ao referenciar o suposto título de Garcia de Orta como Físico d’ El Rey nosso Senhor e o privilégio do 3º Conde do Redondo, Vice-Rei da Índia, sendo ainda de assinalar a dedicatória da obra ao ilustre e seu sempre estimado Martim Afonso de Sousa.

Tal como o título indica, a obra de Garcia de Orta é apresentada no formato dialógico, sendo constituída por uma série de conversas, 59 no total, entre o próprio Orta e o seu principal interlocutor, Ruano, um jovem médico também ele formado nas Universidades de Salamanca e Alcalá e acabado de chegar a Goa, em busca de novos conhecimentos. A mesma dá ainda voz a outras figuras da sociedade goesa e aos próprios serviçais do médico português. A forma coloquial escolhida serve múltiplos propósitos incluindo uma melhor efectivação dos processos de comunicação, legitimação e persuasão subjacentes  à obra.

Os Colóquios baseiam-se na compilação de observações e de informações recolhidas pelo autor ao longo dos quase trinta anos, até então tinha vividos em Goa e noutros lugares do Oriente, abrangendo as virtudes médicas de vários produtos de origem vegetal, alguns de origem animal e ainda de algumas pedras preciosas. Os diversos produtos considerados estão organizados alfabeticamente em capítulos distintos não sendo, todavia, esta ordem sempre obedecida. Para cada um deles, Orta apresenta não só os seus usos médicos  e atributos morfológicos e sensoriais, mas também os seus nomes em diferentes línguas, os seus locais de origem e os seus preços em várias terras e mercados. Um dos propósitos do autor é, assim, o de proporcionar um sistema de ordenação da grande variabilidade dos atributos dos produtos naturais do oriente utilizados na prática médica. Outro dos seus objetivos é a consideração de métodos de tratamento utilizados por físicos indígenas, nomeadamente os  “hakins” (muçulmanos) e os “vaydas” (hindus).

Nem todos os produtos abordados nos Colóquios eram então totalmente desconhecidos no Ocidente, mas Orta tem também o propósito de avaliar e clarificar considerações sobre matéria médica de autores antigos e modernos. Nesta época, A Matéria Médica  do médico e botânico Dioscorides continuava a ser a principal obra de referência  nesta área do saber. Com a invenção da imprensa, em 1455, e  a influência do humanismo renascentista, a mesma passou a ser objecto de um renovado interesse, de traduções e de estudos por vários autores incluindo Jean de RuellePier Andrea MattioliAndrés Laguna  e o português Amato Lusitano. Contudo, os comentários de Orta não se restringem a estes autores e incluem, entre outros, referências a Teofrasto, Galeno e Plíneo, o Velho da antiguidade clássica, aos árabes Rasis, Avicena e Averróis, do período medieval, e aos europeus António Musa, Niccolò Leoniceno, Matheolo Senense e Nicolás Monardes, seus contemporâneos. Nas suas observações-  critica, sobretudo, alguns dos autores coevos pelo facto de não procurarem actualizar os seus conhecimentos face à reconfiguração do saber proporcionada pela expansão geográfica, descrevendo mesmo alguns dos autores da sua época como meros imitadores dos gregos. Orta é também crítico de algumas passagens de autores árabes, mas a sua apreciação sobre os mesmos é fundamentalmente positiva. É de realçar a enfâse  dada pelo autor à natureza aberta e dinâmica da construção do conhecimento médico e botânico.

Os Colóquios são uma obra abrangente, apresentando numerosas informações sobre as propriedades médicas do mundo natural asiático. Muito do conhecimento neles patenteado resultou da experiência pessoal do seu autor ao longo da sua vivência na Índia e, em particular, em Goa.  A partir de 1510,  esta cidade passou a ser a  capital do Império Português no Oriente e um  importante centro de intercâmbio comercial e cultural favorável à  aquisição de produtos e saberes com relevância para a prática médica. No entanto, a grande amplitude da origem dos produtos mencionados por Orta, não permitia que as observações directas do autor fossem por si só suficientes na elaboração da obra. A mesma indica que a sua rede de informadores  foi vasta e ecléctica, tendo incluindo 

não somente médicos e boticários, mas também comerciantes, soldados, missionários, viajantes e tradutores oriundos de vários lugares. O médico português remunerou também alguns agentes em tarefas de recolha de plantas e sementes de lugares específicos da Índia. Beneficiou, ainda, de relações de colaboração e amizade que estabeleceu com médicos e eruditos árabes, persas e hindus. Terá igualmente sido favorecido pelo acesso a compilações confidenciais sobre plantas e drogas medicinais da Índia encomendadas por reis e altos  dignitários da coroa portuguesa.

As várias fontes e agentes de informação subjacentes aos Colóquios  contribuem para que, pelo menos em parte, possamos considerar a obra como uma espécie de  “centro de acumulação” de saberes sobre a matéria médica da Índia e territórios adjacentes. Todavia, este é apenas um dos seus atributos uma vez que a obra tem uma natureza multifacetada. 

Uma das características distintivas e, ao mesmo tempo, mais apelativas dos Colóquios são as menções culturais apresentadas nos mesmos e para as quais o formato dialógico eleito pelo autor muito  contribui. Entre outras, a obra alude a costumes locais de Goa, a notícias da China, à situação geográfica da Babilónia e ao jogo de xadrez. Incluem ainda histórias e até fábulas. É ainda significativo que a maioria dos diálogos apresentados na obra decorra na casa de Orta e,  especialmente, à sua mesa. Deste modo, a transmissão a Ruano de conhecimentos sobre as virtudes médicas de plantas, frutas  e especiarias tais como a manga — um dos ingredientes mais frequentes da cozinha Goesa — o coco, o cravo ou o gengibre, é acompanhada da sua percepção directa através dos sentidos (visão, olfacto, paladar e tacto). A alimentação simultânea do corpo e da mente surge, assim, nos Colóquios como um dos métodos didácticos mais eficazes. É ainda na visita a dois dos seus pacientes que, a par de um bom mestre, Orta exibe as suas qualidades no exercício da medicina. Desde logo, é destacada a prontidão com que atende os doentes  quando é chamado e seguidamente o cuidado com que avalia os seus sintomas e dita o tratamento mais apropriado.

A multifuncionalidade dos Colóquios faz crer que a audiência que o autor pretendia atingir fosse também ela diversa. Na dedicatória, Orta indica que o seu trabalho foi sobretudo escrito para a comunidade local de Goa e regiões adjacentes e, em particular, os seus colegas e amigos médicos e boticários, nos quais certamente se incluiria o licenciado Dimas Bosque. Contudo, o número significativo de referências a autores antigos e modernos nela incluído indica que os humanistas europeus seus contemporâneos também fariam parte do público almejado, especialmente os seus colegas portugueses, espanhóis e italianos tais como Amato Lusitano, Andrés Laguna, Nicolás Monardes e Pier Andrea Mattiolipara quem a língua portuguesa não constituiria um obstáculo. Os Colóquios poderiam ainda ser úteis em instituições médicas de Goa como o Real Hospital Militar de Goa e a Santa Casa da Misericórdia desta cidade.  É ainda muito provável que atraíssem uma audiência mais vasta incluindo mercadores e oficiais já que a obra proporciona informações variadas sobre a localização, o preço e as rotas de comércio de muitos dos simples e drogas da Índia. Provavelmente menos significativo, mas nem por isso menos assinalável, é a leitura lúdica e perspicaz que os Colóquios também podiam proporcionar. Seria difícil conciliar todas estas potencialidade da obra se a mesma tivesse sido escrita em latim e não em português. Igualmente de assinalar é o facto de a língua portuguesa estar muito próxima de ser a língua franca da época para os leitores de todas as cidades portuárias em redor do Oceano Índico..

Alguns exemplares dos Colóquios alcançaram, sem demora, a capital do império. Testemunha-o  um dos leitores mais atentos e diligentes da obra de Orta,  Carolus Clusius, que datou de 6 de Janeiro de 1564 o exemplar adquirido em Lisboa. A importância da obra do médico português foi imediatamente reconhecida por Clusius, que reconheceu não só a relevância dos novos conhecimentos médicos e botânicos nela apresentados, mas também admirou a crítica destemida e acérrima de Orta a afirmações de autores antigos e modernos sobre  matéria médica.

A adaptação dos Colóquios por Clusius, com o título Aromatum et simplicium aliquot medicamentorum apud Indos nascentium história , a cargo do famoso impressor Christopher Plantin, foi publicada logo em 1567. O naturalista flamengo reduz a epítome

as conversas da obra de Orta e  omite  as informações que não considera directamente relevantes para o conhecimento médico e botânico. Ordena e clarifica, ainda, partes da obra original e complementa o processo editorial com anotações de sua autoria e algumas ilustrações. A obra de Orta é assim recriada numa nova língua, o latim, num formato mais sóbrio  que prima pela sistematização do conhecimento médico e botânico nela apresentado. O conteúdo informativo é mais alargado e algumas representações visuais são originais. Os dotes editoriais de Clusius, as suas capacidades linguísticas e a sua preocupação constante em avaliar e adicionar novas observações às suas obras tornaram o epítome dos Colóquiosnum dos maiores sucessos da história do livro do século XVI. As suas sucessivas tiragens, todas elas de algum modo reformuladas e melhoradas, apresentando também alterações em algumas das ilustrações nelas patenteadas, vieram a lume em 1574, 1579, 1593 e 1605. A quarta edição de 1593 apresentou, pela primeira vez, não só o epítome dos Colóquios mas também as obras de Cristovão da Costa, Nicolás Monardes e Pierre Belon du Mans. Já a última e quinta edição foi integrada na publicação das obras completas de Clusius, Exoticorum libri decem, quibus animalium, plantarum, aromatum, aliorumque peregrinorum fructuum historiae describuntur.

O epítome dos Colóquios de Clusius passou a ser na Europa a obra de referência do saber médico e botânico inicialmente veiculado por Garcia de Orta e foi com base na mesma que foram obtidas as múltiplas traduções em italiano (Veneza: 1578, 1582, 1582, 1589, 1597, 1605, 1616)  e em francês (Lyon: 1601, 1619), versando a temática dos simples e das drogas da Índia. 

Ao longo dos séculos XVI e XVII, os Colóquios continuaram a ter uma influência

determinante nas obras de outros autores, de entre as quais se destacam o Tratado

delas drogas y medicinas de las Indias Orientales, con sus plantas debuxadas

al bivo de Cristovão da Costa publicado em Burgos, em 1578, e De medicina Indorum libri iv de Jacobus Bontius  publicado em Leiden, em1642. No entanto, em Portugal, durante um  longo período, os Colóquios foram votados a um esquecimento presumivelmente forçado.

Até meados do século XIX, a atenção dedicada a Garcia de Orta no nosso país foi praticamente inexistente. Os primeiros esforços conducentes à reedição da obra estiveram intimamente associados a questões nacionalistas, em particular, ao propósito de legitimar e reforçar os interesses políticos e científicos do império português. Num processo que foi longe de ser linear, os Colóquios acabariam por ser reeditados por Francisco Adolfo de Vernhagen, em 1872. No entanto, o empreendimento não foi considerado satisfatório por vários membros das comunidades científicas e literárias portuguesas. Apenas em 1886, foi publicado o primeiro estudo sobre Orta da autoria do Conde de Ficalho com o título Garcia de Orta e o seu tempo. Foi também da sua responsabilidade a edição comentada dos Colóquios em dois volumes (1891, 1895)que ainda hoje é utilizada como referência. Ficalho desconhecia a ascendência judaica do autor apenas revelada por Augusto da Silva Carvalho, em 1934.

Ao longo do século XX, a nova dimensão de Orta como autor e o seu novo estatuto de herói fundador da medicina portuguesa teve correspondência no significativo número de publicações dedicadas à sua obra. Indubitavelmente, a componente médica e científica dos Colóquios foi a que despertou maior interesse. A formação da grande maioria dos estudiosos era precisamente nestas áreas. Neste período, a historiografia sobre Orta e a sua obra assumiu, em larga medida, um carácter laudatório e foi quase sempre ancorada numa análise literal dos Colóquios. Não deve, no entanto, ser esquecido o valor destas primeiras análises e o contributo de alguns do estudiosos na inventariação de novas fontes históricas relevantes para a história da expansão portuguesa e para o lugar que a inventariação e a

descrição do mundo natural ocupou nestas investigações. Foi essencialmente no século XXI que um conjunto de estudos imbuídos de recentes e mais sofisticadas abordagens historiográficas permitiu atribuir um significado mais complexo e global aos Colóquios e à vida do seu autor.

Garcia de Orta é o médico que, até à data, foi motivo de mais homenagens públicas, que incluem o mural “Garcia de Orta e os médicos portugueses” (1906) de Veloso Salgado, patente na Escola Médica de Lisboa (actual Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa), a estátua de Martins Correia (1953), no Instituto de Higiene e Medicina Tropical, e a estátua de Irene Vilar, no largo Tomé Pires, no Porto. A imagem de Orta teve também  uma larga circulação em selos, notas de vinte escudos  e  moedas. Motivou ainda a designação de jardins, ruas e um hospital em 1991. Os vários tributos contrastam radicalmente com o longo esquecimento a que autor e a sua obra foram votados, tendo contribuído para que a figura de Garcia de Orta  adquirisse um estatuto emblemático como herói da comunidade médica e científica, bem como da própria nação portuguesa.

Palmira Fontes da Costa

Sequeira, Gaspar Cardoso

Murça, XVI-XVII

Palavras-chave: matemática, magia matemática, baralho ordenado.

Gaspar Cardoso de Sequeira nasceu em Murça — no Alentejo, segundo Inocêncio Francisco da Silva e Diogo Barbosa Machado, em Trás-os-Montes de acordo com Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues — na segunda metade do século XVI. Estudou na Universidade de Alcalá, obtendo o título de  Mestre em Artes. Ensinou matemáticas ao longo de vinte anos em Lisboa (1604), Coimbra, Braga, Porto e Lamego e, em Espanha, em  Ciudad Rodrigo e Tuy. 

A sua obra Thesouro de Prudentes (1612) foi popular no seu tempo, tendo sido sucessivamente reeditada durante cem anos. Nela está contida a descrição matemática de um efeito de ilusionismo tradicionalmente atribuído ao mágico americano Si Stabbins (1867 – 1950). 

Jorge Nuno Silva

Obras

Sequeira, Gaspar Cardoso. Prognostico lunario para o anno de 1605, com algumas curiosas anotações no cabo. Lisboa, editado por Pedro Craesbeeck, 1601.

—. Thesouro de Prudentes. Contém quatro livros: 1.º do computo ecclesiastico, com algüas annotações para os parochos. 2.º tem dous tratados, primeiro de cousas tocantes á agricultura… segundo de cousas importantes á Medicina e Cirurgia, com algüs remedios experimentados. 3.º Da Arismetica, com varias curiosidades a ella pertencentes. 4.º Da Esphera, maneira de fazer quadrantes para tomar a altura, fabricar relogios diurnos, e nocturnos, medição das horas planetarias, preparação das figuras usadas na Astronomia Judiciaria…. e outras cousas similhantes. Coimbra, por Nicolau Carvalho 1612. 4.º Ibi, pelo mesmo 1626. 4.º. Sahiu em terceira edição, accrescentado com o Prognostico e Lunario perpetuo, Coimbra, por Thomé Carvalho 1651. 4.º Ibi, pela viuva de Manuel Carvalho 1664. 4.º Lisboa, por Francisco Villela 1673. 4.º Evora, na Offic. da Universidade 1675. 4.º Lisboa, por João Galrão 1686. 4.º de IV 363 pag. N’esta impressão, (que se diz sexta, posto que contadas as precedentes, deve ser septima) sahiu accrescentado com um Tractado para se saber de cor as horas da maré, e varias curiosidades que se declaram no prologo, pelo sargento-maior Gonçalo Gomes Caldeira. Estes accrescentamentos começam a pag. 341. Mais sahiu a outava edição, Evora, na Imp. da Universidade 1700. 4.º (Barbosa tem erradamente 1701.) N’esta faltam os additamentos de Gonçalo Gomes Caldeira. Outra edição, Lisboa, por Manuel Lopes Ferreira 1701. 4.º Outra, que no rosto se diz septima, sendo realmente decima, como se vê da enumeração feita: Lisboa por Miguel Manescal 1712. 4.º de IV 355 pag. N’esta vem os sobreditos additamentos de Caldeira. (In Diccionario bibliographico portuguez)

—. Primeira e segunda parte de Segredos da Natureza, tirados de regras filosóficas, não menos úteis que curiosas. Lisboa, 1631; 1673, Coimbra, 1704.

Bibliografia sobre o biografado

Klauf, Tony. A importância do baralho ordenado no ilusionismo,  ed. do autor, Grijó: Porto, 1998. Dep. Leg. 130597/98

Machado, Diogo Barbosa. Bibliotheca Lusitana, Tomo II, (Lisboa 1747), p. 339.

Silva, Innocencio Francisco. Diccionario bibliographico portuguez, Tomo Terceiro. Lisboa, 1859, p. 124 (Gaspar Cardoso de Siqueira).

Pereira, Esteves e Guilherme Rodrigues. Portugal — Diccionario histórico, chorografico, biográfico, bibliográfico, heráldico, numismático e artístico, vol. VI. Lisboa, 1912, p. 812.

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, volume XXVIII. Lisboa e Rio de Janeiro, sd, p. 371.

Santos, José Carlos. “A ilusão portuguesa”, Gazeta de Matemática 158, (setembro, 2009), pp. 30-1.

Vinuesa, Carlos. “Círculos mágicos”, Matematicalia 7, n. 4 (dezembro, 2011), pp. 1-9

Serrão, Veríssimo. “Contributo para o estudo dos portugueses na Universidade de Alcalá (1509-1640)”, Revista Portuguesa de História 17 (1978), pp. 37-54

Holanda, Francisco de

Lisboa, ca. 1517 — Lisboa, 19 junho 1585

Palavras-chave: Humanista, urbanista, tratadista, teoria da ideia.

Francisco de Holanda nasceu em Lisboa em 1517. Foi o segundo filho de António de Holanda (c. 1480-1556), pintor da corte de D. Manuel I (1469-1521) e de D. João III (1502-1557), possivelmente originário dos Países Baixos (como o nome indica), e especialmente dedicado a iluminura heráldica. A partir de 1536 António de Holanda recebe a mercê de rei de armas e escrivão da nobreza, o que garantia algum bem-estar e segurança à família e sobretudo acesso à vida na corte e a privilégios concedidos pela família real. Francisco de Holanda cresce, assim, na corte e torna-se moço da câmara do Infante D. Afonso (1509-1540), filho de D. Manuel I, escudeiro-fidalgo de D. João III em 1541, cavaleiro-fidalgo em 1556 e, finalmente, recebe o hábito de cavaleiro da Ordem de Cristo. Casa-se em 1560 com a aia da rainha D. Catarina (1507-1578). Francisco de Holanda tinha possivelmente oito irmãos que beneficiaram igualmente do estatuto do seu pai na corte.

Neste contexto, Francisco de Holanda aprendeu, desde a infância, a arte da pintura com o seu pai e, na qualidade de moço fidalgo do Infante D. Afonso, residiu no seu Paço em Évora onde o humanista André de Resende (1498-1573) protagonizava um círculo renascentista em Portugal. Aos vinte anos, parte para Roma com o séquito da embaixada de D. Pedro Mascarenhas (1484-1555) para aí completar os seus estudos de pintura. Estudou em Roma entre Setembro de 1538 e 15 de Março de 1540, com o apoio financeiro de D. João III. No contexto do Pleno Renascimento Italiano foi introduzido por Blosio Palladio (-1550) e Lattanzio Tolomei, amigos de longa data do antigo embaixador de Portugal em Roma – D. Miguel da Silva (1480-1556) – no círculo da poetisa Vitoria Colonna (1492-1547), no qual participavam igualmente Miguel Ângelo (1475-1564), Parmigiano (1503-1540) e Giambologna (1529-1608).  

Durante a sua estadia em Roma, Francisco de Holanda desenhou profusamente as obras que viu, tal como D. João III e o Infante D. Luís (1506-1555) desejavam, o que resultou no livro de aparato denominado Antigualhas, conservado na Biblioteca do Escorial (28-I-20). As Antigualhas, para além do valor documental que consubstanciam, iluminam o quadro teórico de Francisco de Holanda e o seu esforço para estabelecer uma taxonomia das esculturas antigas – as figuras pedestres, em movimento, a correr ou a combater, sedentes ou reclinadas. 

Paralelamente ao desenvolvimento da teoria da ideia por inspiração divina, que comunga com Miguel Ângelo, Il Divino, Francisco de Holanda intelectualiza a antiqua novitas – um grupo de normas sistematicamente observadas nas obras antigas, cuja aprendizagem e aplicação garantiriam uma qualidade média patente uniformemente. Por estas razões, a persona de Francisco de Holanda para além de pintor e arquiteto, é também um construtor de conhecimento. 

Enquanto a aprendizagem da norma garantia a qualidade da arte em termos gerais, os artistas de génio procuravam atingir o nível do Criador, a Ideia. O desenho passou a ser entendido como a incarnação da ideia invisível e incorpórea, fonte de todas as artes e ciências e por isso “tudo o que se faz neste mundo é desenhar”, no sentido de que desenhar (esboçar ideias) é o máximo que se pode ambicionar fazer neste mundo.

Holanda foi o primeiro artista da Península Ibérica a corresponder ao ideal de artista do Renascimento Italiano cujo trabalho assenta no desenho e na conceção da obra, e a defender o valor da ideia, da arte como “coisa mental” e, por isso mesmo, exclusivamente acessível aos homens livres, aos fidalgos, distanciando assim a pintura do trabalho manual do artesão. Por isso mesmo, nunca participou ou colaborou com qualquer associação ou grémio de oficiais mecânicos e assumiu a denominação de arquiteto, apesar de nunca ter dirigido uma obra arquitetónica – limitou-se a fornecer os desenhos para a Fortaleza de Mazagão – para reforçar a diferença com o mestre pedreiro, o riscador ou mesmo engenheiro militar. Para Francisco de Holanda existia uma diferença imensa entre aquele que tem a ideia e aquele que executa. 

Francisco de Holanda destacou-se sobretudo no campo teórico, sendo o único nome de um artista português do Renascimento com prestígio internacional como tratadista. Escreveu quatro tratados paradigmáticos que revelam o seu pensamento crítico sobre pintura, desenho e urbanismo e que permanecem igualmente espelho das profundas transformações que ocorreram no Renascimento ao nível de observação do mundo real e modo de o pensar e representar.

O seu mais importante tratado Da Pintura Antiga começou a ser redigido por volta de 1541, mal tinha chegado de Itália, e foi terminado em Lisboa em 1548. Da Pintura Antiga é um tratado de pintura dividido em dois textos: Da Pintura Antiga e Diálogos em Roma. Neste tratado, Francisco de Holanda enumera as ciências de que convém o pintor ter conhecimentos: Latim, Grego, Filosofia Natural, Teologia, História, Música e Matemática, Cosmografia, Astrologia, Geometria e perspetiva, Anatomia, sublinhando que deveria ter desta disciplina tantos conhecimentos como um cirurgião, escultura e arquitetura. Esta panóplia de saberes aponta o enciclopedismo com que concebia a atividade artística, que aliás é próprio dos pintores humanistas do Renascimento. Francisco de Holanda cita nos seus tratados Vitrúvio, Alberti, Sagredo, Durer, Serlio, Pomponio Gaurico, mostrando estar a par das últimas correntes de produção conceptual e prática da arte do seu tempo. 

Do tirar polo natural (1549) foi escrito por Francisco de Holanda em Santarém e surge como continuação dos dois volumes Da Pintura Antiga concluídos em 1548. Em 1563 o pintor português Manuel Dinis realizou a tradução para castelhano – Del sacar por el natural –, mas, pelo facto de não ter chegado a ser impresso, não é possível aferir do seu verdadeiro impacto. Em 1775, o manuscrito em castelhano estava nas mãos do escultor do Rei, D. Filipe de Castro, passando, a partir de 1800, a ser propriedade da Real Academia de Belas Artes de São Fernando, em Madrid.

Em vez do estudo direto da natureza, Holanda defende o estudo exclusivo das obras antigas onde já se encontrava a imitação seletiva perfeita da natureza. Neste sentido, Francisco de Holanda prefigura o academismo dos séculos XIX e XX porque foi a vontade de descobrir o cânone dos Antigos que conduziu à criação de coleções de esculturas da Antiguidade Clássica por toda a Europa. 

Francisco de Holanda parece nunca ter tido residência fixa, antes andando ao sabor das deslocações da corte e vária documentação localiza-o em Évora entre 1537 e 1545, em Santarém entre 1547 e 1549 quando acabava de escrever Da Pintura Antiga, em Almeirim, por volta de 1551 e 1570 e, entre 1571 e 1573, em Lisboa na freguesia de Santa Clara. É certo que passou o Verão de 1571 na sua quinta em Sintra, região que frequentava desde a juventude na companhia do infante D. Luís, percorrendo a Serra de Sintra a observar a natureza e os vestígios arqueológicos antigos que se iam redescobrindo. Foi no seu Monte em Sintra que, em 1571, terminou as suas duas obras: Da Fábrica que falece à Cidade de Lisboa e De quanto serve a ciência do desenho assim na paz como na guerra

O tratado de urbanismo A Fabrica que falece á cidade de Lisboa oferece uma lista de edifícios e obras arquitetónicas que eram necessários construir para enobrecer Lisboa, como um aqueduto, pontes e calçadas públicas, fortalezas e baluartes, chafarizes nas praças, igrejas e capelas, e palácios com jardins em terraços como os do Renascimento italiano. 

Apesar dos tratados serem claramente uma crítica ao estado das artes e da arquitetura em Portugal e de ser certo que Francisco de Holanda considerava a pintura italiana claramente superior, o seu desenho Roma Caída revela o pensamento de Francisco de Holanda. Partilhava com Pedro Nunes, D. João de Castro, João de Barros, Frei Heitor Pinto, e Camões, entre outros, a visão grandiosa e messiânica de Lisboa como a capital do V Império e não outras cidades antigas da Europa “que não dominam nem o Oriente nem o Ocidente como o faz Lisboa” (Da Fábrica que falece à cidade de Lisboa, cap. 3).

Da fábrica que falece à cidade de Lisboa, o primeiro tratado de urbanismo escrito na Península Ibérica, estava pronto e licenciado para impressão em 1576, oito anos antes da morte de Francisco de Holanda, mas por razões que se desconhecem, só vieram a ser publicados no século XIX o que só pode ter sido um grave prejuízo para o desenvolvimento das artes e da ciência em geral. Francisco de Holanda delineou a primeira teoria que introduziu a Filosofia na História da Arte, baseada em Platão e no neoplatonismo de Marsilio Ficino (1433-1499) e Cristoforo Landino (1424-1498). Foi o primeiro a descrever a atividade do pintor como “criar” (Pintura Antiga, I, 2). Mesmo Giovanni Paolo Lomazzo (1538-1600) e Federico Zuccaro (1540-1609) que produziram importantes textos de teoria da arte algumas décadas depois, não foram tão assertivos quanto Francisco de Holanda a reivindicar a liberdade criativa para a pintura de uma forma sem precedentes no século XVI. Esta visão da arte só vingou muito mais tarde e o valor incontornável da “ideia” veio a ser, muitos séculos depois, a base do pensamento tanto artístico quanto científico.

Ana Duarte Rodrigues

Obras

Holanda, Francisco de. Da Pintura Antiga. Lisboa: Livros Horizonte, 1984.

—. Diálogos em Roma. Lisboa: Livros Horizonte, 1984.

—. Do Tirar Polo Natural. Lisboa: Livros Horizonte, 1984.

—. Da Fábrica que Falece à cidade de Lisboa (Lisboa: Livros Horizonte, 1984)

—. De quanto serve a ciência do desenho assim na paz como na guerra (manuscrito)

Bibliografia sobre o biografado

Teixeira, António Moreira. A ideia não tem fim: para uma filosofia da História da Arte em Francisco de Holanda, Tese de Doutoramento em Filosofia apresentada à Universidade de Lisboa, 2002.

Moreira, Rafael. “Novos dados sobre Francisco de Holanda”, Sintria, (I-II, tomo 1, Sintra, 1982/83, pp. 619-692)

Deswarte, Sylvie. “Rome déchue”: décomposition d’une image de Francisco de Holanda (S.I.: s.n., 1990, pp. 97-181)

Deswarte, Sylvie. Ideias e imagens em Portugal na época dos Descobrimentos: Francisco de Holanda e a teoria da arte (Lisboa: Difel, 1992)Sylvie Deswarte-Rosa, Francisco de Holanda entre théorie et collection: “Tudo o que se faz em este mundo é desenhar” (Valladolid: Universidad, 2004)

Aguiar, Jorge de

Século XV-XVI
Palavras-chave: cartografia náutica, carta-portulano

Cartógrafo português do final do século XV, autor da mais antiga carta náutica portuguesa assinada e datada que chegou aos nossos dias (1492). Segundo o historiador da cartografia Armando Cortesão, Jorge de Aguiar era provavelmente o fidalgo e poeta português do mesmo nome, nascido em meados do século XV, que comandou uma armada de treze navios a caminho da Índia. Tendo zarpado de Lisboa em Abril de 1508, a bordo da nau capitânia S. João, esta naufragou nas águas das ilhas de Tristão da Cunha, ocorrência que foi registada no Livro das Armadas com uma imagem evocativa. Nada se sabe sobre a eventual experiência de Jorge de Aguiar como cartógrafo, e o facto de ter sido nomeado capitão-mor de uma Armada da Índia não significa que tivesse quaisquer conhecimentos no domínio da ciência náutica. Estes factos levaram o historiador Inácio Guerreiro, que sujeitou a hipótese de Cortesão a uma análise historiográfica mais profunda, a encará-la com alguma reserva.

A carta de Jorge de Aguiar é uma típica carta-portulano, quer na cobertura quer no modelo cartográfico, tendo sido ainda construída com base em rumos e distâncias. Junto à sua margem esquerda pode ler-se: “Iorge dagujar Me fez em Lixboa no anno dominus nostry Jhu Xpi de 1492”. Nela é representada a Europa, os arquipélagos dos Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde, e a costa ocidental de África até S. Jorge da Mina, no Golfo da Guiné. Tal como na carta náutica de Pedro Reinel construída no final do século XV, a parte da costa africana para sul da Serra Leoa foi desenhada no interior do continente. Este expediente é, porventura, justificado pelo facto de o cartógrafo ter copiado a maior parte da informação de um modelo desactualizado, em que este trecho de costa não figurava. Contudo, continua por explicar o facto de a linha de costa se interromper no Golfo da Guiné, numa data em que toda a costa africana até ao Cabo da Boa Esperança era já conhecida dos portugueses. De acordo com o historiador Alfredo Pinheiro Marques, o facto de a decoração desta carta ser semelhante à da escola de Malhorca situa-a no período mais antigo da cartografia portuguesa, que Armando Cortesão designou por “escola do Infante”. O seu modelo cartográfico, cobertura geográfica e decoração exuberante sugerem que não foi concebida para ser utilizada em navegação.

Joaquim Alves Gaspar

Bibliografia sobre o bibliografado

Cortesão, Armando. History of Portuguese Cartography, Vol. 2, 212-16. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1971.

Gaspar, Joaquim Alves. “From the Portolan Chart of the Mediterranean to the Latitude Chart of the Atlantic: Cartographic Analysis and Modeling.” Tese de doutoramento, 89. Universidade Nova de Lisboa, 2010.

Guerreiro, Inácio. A carta náutica de Jorge de Aguiar de 1492. Lisboa: Academia de Marinha e Edições Inapa.Marques, Alfredo Pinheiro (1987), ‘Jorge de Aguiar, Carta de 1492’, in Cortesão, Armando e Mota, Avelino Teixeira da, Portugaliae Monumenta Cartographica, Vol. VI, 75-81. Edição fac-similada. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1992.