Folque, Filipe de Sousa

Portalegre, 28 novembro 1800 – Lisboa, 27 dezembro 1874

Palavras-chave: geodesia, cartografia, astronomia, ensino de ciência, institucionalização de ciência.

Filipe de Sousa Folque foi determinante na institucionalização dos trabalhos geodésicos e da astronomia em Portugal no século XIX. Enquanto diretor da Comissão Geodésica e Topográfica do Reino, coordenou os trabalhos de levamento geodésico que resultaram na elaboração, entre outras, da Carta Geographica de Portugal, editada em 1865. Folque foi também o professor de Astronomia e Geodesia da Escola Politécnica de Lisboa e um dos principais impulsionadores da criação do Observatório Astronómico da Ajuda, contribuindo decisivamente para moldar a natureza desta área científica e da comunidade astronómica em Portugal durante a segunda metade do século XIX e inícios do século XX. Folque foi sócio da Academia de Ciências de Lisboa.

Filho do general Pedro Folque e de Maria Micaela de Sousa Folque, o jovem Filipe seguiu a carreira militar tal como seu pai, assentando praça como aspirante a piloto da Marinha em 1817. Após ter estudado na Academia Real da Marinha, Folque ingressou na Universidade de Coimbra onde se dedicou ao estudo de matemática, geodesia e topografia. Em 20 de julho de 1826, obteve o grau de doutor em Matemática pela Universidade de Coimbra. Ainda neste ano, Folque foi nomeado ajudante do diretor das obras do rio Mondego e, em 1827, ajudante do Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra. Foi provavelmente nesta qualidade que iniciou a atividade letiva, área em que mais tarde se distinguiu na Academia Real da Marinha e, sobretudo, na Escola Politécnica de Lisboa. Vivia-se, nessa altura, o início das guerras entre liberais e absolutistas (1828–1834). De acordo com José Maria da Ponte e Horta (1824–1892), seu sucessor na cadeira de Astronomia e Geodesia na Escola Politécnica e responsável pelo Elogio Histórico do Doutor Filipe Folque lido na sessão publica da Academia Real das Sciencias em 12 de Dezembro de 1875, Folque colocou-se desde a primeira hora do lado dos liberais, facto que lhe terá custado o afastamento da Universidade de Coimbra.

Na sequência destes acontecimentos, Folque regressou a Lisboa, onde se casou em 1831 com Maria Luísa Possolo, com quem teve dois filhos, Pedro e Virgínia Folque. Dois anos mais tarde, em 1833, transitou da Marinha para o Exército, onde alcançou o posto de general no Corpo de Engenheiros, em 1872. Deste período data a estreita colaboração com Almeida Garrett na fundação do Conservatório Nacional de Lisboa. Folque, que era um exímio flautista amador, assumiu gratuitamente as funções de conservador da Escola de Música, chegando mesmo a participar como solista e membro da orquestra em várias festas escolares. Uma destas ocasiões foi justamente a sessão solene do Conservatório de 21 de dezembro de 1841, que teve lugar na Sala de Atos da Escola Politécnica de Lisboa e que foi a última a que Garrett assistiu.

Uma vez no Corpo de Engenheiros, Folque começou a trabalhar sob direção do seu pai, Pedro Folque, na Comissão para os Trabalhos de Triangulação Geral e Levantamento da Carta Corográfica do Reino, sob a alçada do Ministério da Guerra. Esta comissão pretendia retomar os trabalhos de triangulação iniciados em 1790 por Francisco António Ciera (1763–1814). Uma das dificuldades com que o levantamento geodésico do reino se deparava era a escassez de pessoal técnico devidamente qualificado. Folque fez constante menção a este facto na sua Memória sobre os trabalhos geodésicos elaborados em Portugal, obra em quatro volumes publicada a partir de 1841, que oferece uma visão épica sobre o processo de elaboração de uma cartografia rigorosa do reino. Folque teve oportunidade de solucionar em parte este problema ao assumir funções como lente de Astronomia e Geodesia na recém-criada Escola Politécnica de Lisboa, em 1837. Pensada como peça essencial no processo de modernização do país, a Escola Politécnica de Lisboa teve um papel crucial na formação da elite técnico-científica que contribuiu para a consolidação do Estado-nação no século XIX. Foi neste contexto que Folque transitou da Academia Real da Marinha, agora extinta, onde ensinava Matemática desde 1834, para a Escola Politécnica, onde se manteve como professor da quarta cadeira (Astronomia e Geodesia), até se jubilar em 1859.

Quando Folque assumiu o ensino de Astronomia na Escola Politécnica, esta ciência dividia-se em dois ramos, que os seus contemporâneos nomeavam de “astronomia teórica”, também designada por vezes de “mecânica celeste”, graças à influência decisiva de Pierre Simon Laplace (1749–1827) e da sua incontornável Mécanique Céleste, e “astronomia esférica”. Se a primeira se dedicava à investigação das leis do movimento dos corpos celestes de acordo com a aplicação da teoria da gravitação universal de Newton, a segunda consistia no estudo da posição e direções  dos corpos celestes em momentos e localizações concretas. À medida que o século XIX se aproximava do fim, alguns astrónomos passaram a incluir na sua área disciplinar a designada “física cósmica” ou “astronomia física”, que estudava a estrutura do universo e a constituição física dos corpos celestes e que, mais tarde, beneficiando dos desenvolvimentos na área da espectroscopia, esteve na origem da “astrofísica”. Folque estava familiarizado com esta distinção, reconhecendo que, com Newton, a astronomia se havia reduzido “a não ser mais do que um grande problema de mecânica”. Contudo, perante a necessidade de formar um conjunto de engenheiros que pudessem levar a bom termo o levantamento geodésico e topográfico do país, ele não hesitou em valorizar a dimensão aplicada da astronomia no seu curso da Escola Politécnica. Ao fazê-lo, acabou por traçar um percurso semelhante a outros professores de escolas técnico-científicas da Europa e das Américas, optando conscientemente pela “astronomia esférica”. Foi neste contexto que escreveu o livro Elementos d’Astronomia coordenados para uso dos alunos da Eschola Polytechnica, publicado pela litografia da Escola Politécnica em 1840. Como outros manuais de astronomia esférica, os Elementos de Folque tinham como objetivo familiarizar o estudante com os métodos de determinação, não apenas da posição dos corpos celestes em determinado momento e local na superfície da terra, mas, também, das suas distâncias relativas tal como eram observáveis na esfera celeste. Tal exigia o domínio prévio dos processos de determinação e conversão dos sistemas de coordenadas esféricas e retangulares, o conhecimento da forma, dimensões e movimentos da terra, dos princípios da teoria do Sol e da Lua, o domínio de conceitos como o tempo solar e o tempo sideral, bem como de outros fenómenos astronómicos, como seja a aberração, a precessão dos equinócios, nutação e paralaxe. Uma introdução aos principais instrumentos utilizados para medir o tempo, os movimentos e as distâncias dos corpos celestes e sua calibração era, ainda, parte crucial dos manuais de astronomia esférica, como os Elementos de Folque.

O programa de astronomia esboçado por Folque e que se consubstanciava nos seus Elementos manteve-se em vigor até à década de 1890. Assim, parte significativa dos homens de ciência que, em Portugal, receberam formação em astronomia no século XIX, fizeram-no nos moldes traçados por Folque. Esse foi, em particular, o caso dos engenheiros que trabalharam da Comissão Geodésica e Topográfica do Reino. De facto, número significativo dos engenheiros que participaram nos trabalhos da designada alta geodesia desta Comissão, ou seja na determinação dos valores das coordenadas de latitude e longitude dos vértices dos triângulos de “primeira ordem” e do azimute entre um dos lados do triângulo e a linha norte-sul de forma a ajustar a orientação da cadeia de triangulação, foram alunos de Folque na Escola Politécnica de Lisboa. Após os estudos nesta e na Escola do Exercito, ao ingressarem na Comissão Geodésica e Topográfica do Reino, estes engenheiros reencontraram Folque, que dirigia Comissão desde 1852. Nesta função, Folque coordenava o planeamento dos trabalhos não apenas do ponto de vista técnico e científico, mas também administrativo. Neste contexto, produziu um conjunto preciso de instruções relativas aos métodos de observação, calibração de instrumentos, protocolo de observação, que por vezes chegavam mesmo a incluir referência ao pagamento por estes trabalhos.

Em 1856, a Comissão Geodésica e Topográfica do Reino deu origem à Direcção-Geral dos Trabalhos Geodésicos, Corográficos e Hidrográficos, dependendo do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria. Filipe Folque foi reconduzido na direção desta instituição. Nos anos que se seguem, o processo de elaboração de uma cartografia do reino avançou. Em 1865, foi publicada a Carta Geographica de Portugal à escala 1:500,000. O objetivo inicial foi a elaboração de um mapa topográfico com informação cadastral. Contudo, perante as manifestas dificuldades em concretizar este desiderato, decidiu elaborar um mapa corográfico à escala 1:100 000. O projeto de publicação deste mapa, que deveria incluir informação relativa às linhas de água, principais elevações, localização das estradas, principais cidades e vilas, bem como as divisões administrativas do país, só foi completado em inícios do século XX. Para além destes espécimes cartográficos, os serviços dirigidos por Folque elaboraram, entre outros, a Carta Topográfica de Lisboa na escala 1:1,000 em 65 folhas manuscritas e coloridas, o Plano Hidrográfico da Barra do Porto de Lisboa na escala 1:10 000 e a primeira Carta Geográfica e Geológica de Portugal continental na escala de 1:500 000.

Um dos motivos de demora na produção de mapas, sobretudo na primeira fase, relacionou-se com a técnica de impressão. Foi assim, que, provavelmente por iniciativa e Folque, se estabeleceu um contrato entre o governo português e o desenhador de origem polaca, exilado em França, Jan Lewiscki (1795–1871) com vista ao seu estabelecimento em Lisboa. Nesta cidade, foi, assim, fundada a primeira oficina litográfica dedicada à publicação de mapas e à preparação dos técnicos portugueses neste domínio.

Os mapas elaborados sob os auspícios da Direcção-Geral dos Trabalhos Geodésicos, Corográficos e Hidrográficos foram cruciais não apenas no planeamento de obras públicas e de desenvolvimento do país, mas também na projeção de uma imagem de modernidade fora das fronteiras. A Carta Geographica de Portugal tornou-se, assim, uma presença obrigatória nas exposições mundiais que ocorreram em várias cidades europeias e americanas durante a segunda metade do século XIX. Acompanhando várias destas Cartas, encontrava-se uma descrição do seu processo de produção escrita por Folque e publicada pela Imprensa Nacional, em 1868, com o título Rapport sur les travaux géodésiques du Portugal et sur l’état actuel de ces mèmes travaux.

Filipe Folque esteve ainda na origem do Observatório Astronómico de Lisboa. Surgido no contexto de uma controvérsia internacional sobre a paralaxe da estrela de Argelander, o projeto de um observatório astronómico dedicado à astronomia sideral depressa se converteu numa iniciativa de Estado, tendo sido designada uma comissão para promover a sua edificação. Folque destacou-se nesta comissão. Ele estabeleceu os contactos iniciais com a comunidade científica internacional, soube reunir apoios políticos para a sua concretização, nomeadamente o patrocínio do rei D. Pedro V (1837-1861), e escolheu, ainda, o astrónomo que iria materializar o projeto, o seu ex-aluno na Escola Politécnica Frederico Augusto Oom (1830–1890), futuro diretor do Observatório Astronómico de Lisboa. Este observatório foi edificado entre 1861 e 1867, tendo como modelo o Observatório Astronómico de Pulkovo, São Petersburgo, Rússia.

Como era frequente entre os homens de ciência no Portugal oitocentista, Filipe Folque seguiu, também, uma careira política, tendo sido eleito nas legislaturas de 1840–1842 e 1860–1861. Apesar de se traçar com certa frequência o perfil de um homem comprometido com a ciência e um pouco avesso às discussões parlamentares, Folque integrou as Comissões de Guerra e de Administração Pública e apresentou, na Câmara dos Deputados, propostas relativas ao ensino e política científica, como, por exemplo, a necessidade de melhorar o ensino de matemática nas instituições de ensino superior em Portugal.

Em vida, Filipe Folque viu reconhecido o seu importante papel no âmbito do ensino e institucionalização da ciência em Portugal. Logo em 1834 foi eleito sócio efetivo da Academia Real das Ciências de Lisboa, sendo nomeado diretor da classe das ciências exatas em 1850. Ele foi, também, mestre de Matemática de D. Pedro V e D. Luís, tendo feito parte do séquito que acompanhou os príncipes no seu tour europeu de 1854 e 1855, sobre o qual escreveu um interessantíssimo diário, ainda manuscrito. Entre as inúmeras distinções que recebeu, encontram-se a de Fidalgo da Casa Real e Par do Reino e a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, bem como as Comendas da Real Ordem de S. Bento de Avis, Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, Ordem de Leopoldo (Bélgica), Ordem da Coroa de Carvalho e Ordem do Leão (Países-Baixos), Legião de Honra (França) e da Ordem de S. Jorge (Reino das Duas Sicílias). Filipe Folque foi, ainda, sócio fundador da Sociedade de Geografia de Lisboa, instituída um ano antes da sua morte.

Luís Miguel Carolino
CIES – Centro de Investigação e Estudos de Sociologia
ISCTE – IUL

Obras

Folque, Filipe. Ephemerides das distancias do centro do Sol e planetas Venus, Marte, Jupiter e Saturno ao centro da Lua e dos lugares heliocêntricos e geocêntricos destes astros para 1833. Lisboa: Impressão Régia, 1832.

Folque, Filipe. Elementos d’Astronomia coordenados para uso dos alumnos da Eschola Polytechnica. Lisboa: Lithografia da Escola Polytechnica, 1840.

Folque, Filipe.  Memória sobre os trabalhos geodésicos executados em Portugal. Lisboa: Typographia da Academia Real das Sciencias de Lisboa, 1841-56.

Folque, Filipe. Diccionário do Serviço dos Trabalhos Chorographicos do Reino. Lisboa: Imprensa Nacional, 1853.

Folque, Filipe. Instrucções para a execução, fiscalisação, e remuneração dos trabalhos geodésicos e chorographicos do Reino. Lisboa: Imprensa Nacional, 1858.

Folque, Filipe. Taboas para o cálculo trigonométrico das cotas de nível. Lisboa: Imprensa Nacional, 1864.

Folque, Filipe. Taboas para o cálculo das distâncias à meridiana e à perpendicular do Observatório do Castelo de Lisboa segundo a projecção de Flamsteed modificada. Lisboa: Imprensa Nacional, 1867.

Folque, Filipe. Rapport sur les travaux géodésiques du Portugal e sur L’état actuel de ces mèmes travaux pour être présenté à la commission permanente de la Conférence Internationale. Lisboa: Imprensa Nacional, 1868.

Folque, Filipe. Relatório dos trabalhos executados no Instituto Geographico durante o ano de 1866-1867. Lisboa: Imprensa Nacional, 1868.

Folque, Filipe. Instrucções sobre o Serviço Geodesico de primeira ordem. Lisboa: Imprensa Nacional, 1870.

Bibliografia sobre o biografado

Alegria, Maria Fernanda e João Carlos Garcia. “Aspectos da evolução da Cartografia Portuguesa (séculos XV a XIX).” In Os mapas em Portugalda tradição aos novos rumos da cartografia, ed. Maria Helena Dias, 27–84. Lisboa: Cosmos, 1995.

Branco, Rui Miguel C. Branco. O mapa de Portugal: estado, território e poder no Portugal de oitocentos. Lisboa: Livros Horizonte, 2003.

Carolino, Luís Miguel Carolino. “Measuring the heavens to rule the territory: Filipe Folque, the teaching of astronomy at the Lisbon Polytechnic School and the modernization of the State apparatus in nineteenth century Portugal.” Science & Education 21 (1) (2012): 109–133.

Costa, Maria Clara Pereira da Costa. “Filipe Folque – O homem e a obra (1800–1874).” Revista do Instituto Geográfico e Cadastral 6 (1986): 95–160.

Leitão, Vanda Leitão “Filipe de Sousa Folque (1800–1874): breve biografia.” In Medir os céus para dominar a terra: a astronomia na Escola Politécnica de Lisboa / medir o tempo, medir o mar, medir o tempo (catalogo de exposição), ed. Luís Miguel Carolino e Teresa Salomé Mota, 12–15. Lisboa: Museu de Ciência da Universidade de Lisboa, 2009.

Homem, Diogo

fl. século XVI

Palavras-chave: cartografia náutica, cartografia, atlas.

Cartógrafo português do século XVI, filho do cartógrafo Lopo Homem e autor de um vasto número de cartas e atlas náuticos, quase todos conservados fora de Portugal. Desconhecem-se as datas de nascimento e morte e são escassos os documentos históricos que o mencionam. O mais antigo é uma carta de D. João III conservada na Torre do Tombo, de 1547, na qual o rei acede a um pedido de perdão da pena a que tinha sido condenado em tribunal pela morte de um indivíduo, na condição de voltar ao reino no prazo de oito meses e aí servir a coroa. Nessa ocasião encontrava-se Diogo Homem em Londres, como cosmógrafo. Um outro documento está conservado em Londres e refere-se a uma declaração apresentada por Diogo Homem ao Tribunal do Almirantado, a propósito de um atlas que fizera por encomenda a um cliente veneziano e não tinha sido aceite ou pago. O terceiro documento é uma carta enviada de Londres, em 1567, pelo embaixador espanhol Guzman de Silva para Filipe II de Portugal, referindo a prisão de Diogo Homem a propósito de uma missão de um navio inglês a África, em que teriam participado portugueses. Contudo, desconhece-se o motivo da prisão.

A obra de Diogo Homem que chegou aos nossos dias consta de vinte e três trabalhos que incluem cinco atlas universais, sete atlas da Europa e Mediterrâneo e onze cartas avulsas. Destes trabalhos somente desassete estão assinados. As datas variam entre 1557 e 1576, presumindo-se que o cartógrafo teria cerca de 55 anos quando completou esta última, em Veneza. Tendo em conta que, em 1547, Diogo Homem estava em Londres e já seria um cartógrafo competente, muitos outros trabalhos se terão perdido. 

De acordo com Armando Cortesão e Teixeira da Mota, a abundante ornamentação das cartas mais antigas seria progressivamente suavizada nos trabalhos mais recentes. De acordo com os mesmos autores, ao grande volume e beleza estética da obra de Diogo Homem está também associado alguma falta de originalidade. 

Joaquim Alves Gaspar

Arquivos

Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Legitimações e Perdões, Liv. 312, f. 202. 

Valladolid, Archivo de Simancas, Estado 819, f. 199.

Obras sobre o biografado

Cortesão, Armando e Avelino Teixeira da Mota, eds. Portugaliae Monumenta Cartographica, Vol. II: 5–10. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda 1987.

Albuquerque, Luís de. “Homem, Diogo.” In Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses, ed. Luís de Albuqerque, Volume I: 300–301. Lisboa: Caminho, 1993.

Erédia, Manuel Godinho de

Malaca, 1563 — Goa, ca. 1623

Palavras-chave: Manuel Godinho de Erédia, Ásia, Malaca, cartografia, geografia, botânica, XVI, XVII.

Manuel Godinho de Erédia foi autor de uma vasta obra cartográfica e geográfica sobre o mundo oriental, a qual na época permaneceu manuscrita e apenas modernamente tem sido editada. Filho de um soldado português de ascendência aragonesa e de uma princesa originária das Celebes (Sulawesi), Erédia foi educado no colégio jesuíta de Malaca. Mais tarde, em muitos dos seus mapas e escritos utilizaria palavras e expressões malaias, para além de se referir a fontes escritas de origem malaia ou javanesa, o que leva a supor que conhecia bem a língua malaia. Com 13 anos de idade, Manuel Godinho mudou-se para Goa, a fim de continuar a sua educação formal com os padres jesuítas, estudando gramática, artes, filosofia e matemática. Distinguiu-se no estudo desta última disciplina, pois durante alguns anos exerceu funções no colégio jesuíta de Goa como mestre de matemática. Era também um artista talentoso, pois as fontes jesuítas atribuem-lhe a autoria de uma pintura religiosa remetida para a corte do Grão-Mogol em Agra. A vocação religiosa de Erédia, contudo, não se revelou sólida, pois em 1586 abandonou a Companhia de Jesus, para se dedicar a outras atividades. Contudo, não se encontra confirmação documental para a alegação do próprio Erédia de que teria passado a desempenhar funções de cosmógrafo-mor do Estado da Índia.

O vice-rei D. Duarte de Meneses, que governou o Estado da Índia entre 1584 e 1588, fez-se acompanhar por GiovanniBattista Cairato, engenheiro de origem italiana que fora encarregado por Felipe II de Espanha (e I de Portugal) de realizar um cuidadoso levantamento das fortalezas orientais dos portugueses. Cairato viajou extensamente pelo Oriente até 1596, e parece certo que Erédia o serviu como desenhador; durante estas deslocações, o cartógrafo reuniu elementos para muitos dos seus posteriores desenhos de cidades e fortalezas. A primeira obra conhecida de Erédia, a Informação da Aurea Chersoneso, ou Peninsula, e das Ilhas Auriferas, Carbunculas e Aromaticas, foi escrita após este período, entre 1598 e 1600. Tratava-se de uma descrição da Península Malaia e das principais ilhas do arquipélago indonésio, com notícias referentes à história, costumes, crenças e lendas, e com a preocupação de identificar minas de metais preciosos e fontes locais de especiarias valiosas. Desde as primeiras décadas do século XVI que nenhum outro autor tinha analisado de forma tão cuidadosa estas regiões orientais. Este primeiro escrito de Erédia, paralelamente a informações geográficas inovadoras, incluía dezenas de referências livrescas, citando numerosos autores ocidentais, clássicos e modernos, como Ptolomeu, Estrabão, Plínio, Pompónio Mela, Marco Polo ou Ludovico de Varthema. Este procedimento foi depois repetido em todos os subsequentes escritos de Erédia, que gostava de alardear erudição, a qual, contudo, nem sempre era de primeira mão. 

Entre 1600 e 1605, Erédia estanciou na Península Malaia, dedicando-se a trabalhos de engenharia militar, relacionados com as fortalezas portuguesas da região, e a atividades de prospeção mineira no sertão de Malaca. Preparou entretanto diversos planos de fortificações e detalhados mapas das regiões malaias visitadas, que conduziram a cartografia portuguesa para a representação inovadora de regiões interiores do continente asiático. Nada se consegue apurar sobre o seu paradeiro nos cinco ou seis anos seguintes, mas regressou decerto a Goa, pois muitas das suas cartas e plantas de fortalezas, cidades e regiões orientais, como o Atlas produzido em 1610 a instâncias do vice-rei Rui Lourenço de Távora, que governou o Estado da Índia entre 1609 e 1612, parecem datar deste obscuro período. Em 1611, efetuou uma viagem de prospeção mineira nas regiões setentrionais do Indostão, regressando na posse de vários mapas corográficos muito detalhados e inovadores, e de uma breve relação intitulada Discursos sobre a Província do Indostão, que descrevia esta região indiana. Como era habitual nos seus escritos, apresentava uma complexa combinação de observações em primeira mão e de informações orais, com diversas notícias recolhidas em fontes livrescas. Estas últimas incluíam não só referências ocidentais, mas também alusões a manuscritos persas. Erédia preparou também, durante esta expedição, um álbum de desenhos de árvores e plantas indianas, a Suma de Árvores e Plantas da índia Intra Ganges, dedicado a Rui Lourenço de Távora, que comprovava a sua curiosidade pela história natural e os seus dotes artísticos. Aparentemente satisfeito com este metódico trabalho de exploração, o novo vice-rei, D. Jerónimo de Azevedo, que governou entre 1612 e 1617, enviou-o em mais uma empresa de prospeção mineira na região de Goa. Erédia deve ter desempenhado este encargo nos anos de 1612 e 1613, descobrindo importantes jazidas de cobre e de ferro, e produzindo, como de costume, diversos mapas e cartas.

A partir de 1613, e até ao seu desaparecimento uma década mais tarde, Manuel Godinho viveu em Goa, a partir de onde dirigiu diversas cartas para Portugal, algumas das quais continham propostas de realização de viagens de descobrimento em partes inexploradas dos mares asiáticos. Mas nenhum desses projetos mereceu apoio régio. Dedicou-se, entretanto, a diversos afazeres. Trabalhou como pintor, sendo nomeadamente responsável pela elaboração de numerosos retratos de governadores e vice-reis portugueses, e também como cartógrafo, desenhando mapas e plantas de cidades e fortalezas, que andam reunidos em diversos atlas manuscritos. Erédia atravessou então o seu mais prolífico período de criação literária, pois no curto espaço de quatro anos produziu três tratados históricos e geográficos. Em primeiro lugar, em finais de 1613 concluiu a Declaraçam de Malaca e India Meridional com o Cathay, o seu mais ambicioso projeto textual, dedicado a Felipe III de Espanha (e II de Portugal), composto por três partes, e que desenvolvia a anterior Informação. Primeiro, uma detalhada corografia de Malaca e do seu sertão, ilustrada por mapas e desenhos diversos (pessoas, plantas, animais e embarcações), que abordava temas tão variados como a topografia urbana e rural, a história política local, as práticas comerciais, as produções naturais, as crenças religiosas ou o folclore tradicional. Depois, uma compilação de notícias sobre terras desconhecidas, alegadamente ricas em minérios auríferos, que se poderiam encontrar nos mares para sul de Timor, também ilustrada por diversos mapas especulativos. A partir desta secção da obra tem-se desenvolvido um debate, ainda não concluído, sobre o possível descobrimento da Austrália pelos portugueses. Enfim, em terceiro lugar, a Declaraçam continha uma geografia geral do continente asiático, desde a parte setentrional do Indostão até às regiões mais orientais da China, que procurava conciliar o saber geográfico ocidental com informações orais recolhidas na Índia e com cartografia produzida na Europa, recorrendo talvez a algumas fontes asiáticas. Esta secção era ilustrada por mapas parciais e globais da Ásia, que, como geralmente sucedia em toda a cartografia erédiana, tentavam reconciliar a diversidade de fontes utilizadas pelo cosmógrafo, que incluíam nomeadamente mapas analisados em edições bíblicas e edições do cartógrafo flamengo Abraham Ortelius. Pesem embora os muitos equívocos cometidos relativamente à real configuração das regiões tratadas, atribuíveis às limitadas possibilidades de exploração então disponíveis, a Declaraçamconstituiu um feito notável do ponto de vista do conhecimento europeu da geografia asiática, pois abordava áreas e temáticas pouco estudadas anteriormente. Tal como o seu primeiro tratado, também este estava recheado de referências eruditas, numa clara exibição de conhecimentos livrescos. Mas desta vez Erédia atribuía uma maior importância aos autores seus contemporâneos, citando nomeadamente João de Barros, Brás de Albuquerque, Benito Arias Montano, Diogo do Couto ou João de Lucena, entre outros. 

Neste período, em finais de 1615, Erédia redigiu também a Historia de serviços com martirio de Luis Monteiro Coutinho, relato apologético das façanhas militares de um capitão português capturado e executado em 1588 por ordem do soberano do Achém, sultanato do norte da ilha de Samatra, que lhe fora encomendado por familiares. Manuel Godinho tentou situar a carreira de Luís Monteiro no contexto mais alargado da presença portuguesa na Ásia, mostrando de passagem que estava bastante bem informado sobre as passadas atividades militares do Estado da Índia. Tal como outras das suas produções, também esta obra (que se mantém inédita, num manuscrito autógrafo da Biblioteca Nacional de Portugal) era acompanhada de detalhadas ilustrações representando cenas bélicas. De finais de 1616 data o Tratado Ophirico, última das produções erédianas, também dedicada ao monarca Felipe III. As partes principais desta obra constituíam um ambicioso dossiê de exegese bíblica. A partir de uma edição latina da Bíblia, talvez a Poliglota de Arias Montano, e com o apoio de meia-dúzia de comentadores, Erédia lançou-se na resolução de um problema que durante séculos tinha estado na primeira linha de preocupações de estudiosos da tradição cristã. Procurando conciliar a tradicional geografia bíblica com a sua visão da configuração dos espaços asiáticos, obtida em tratados livrescos, através de informações orais, e também em repetidas viagens terrestres, o cosmógrafo luso-malaio procurava determinar a exata localização da região de Ofir, de onde vinha o ouro de Salomão. 

Erédia, nos seus últimos anos, continuou a produzir materiais artísticos e cartográficos. O cronista Diogo do Couto, que também residia em Goa, mencionava numa carta enviada para Portugal em 1616 o ‘pintor Godinho’, que então trabalhava sob a sua supervisão na restauração das pinturas das armadas da carreira da Índia. Manuel Godinho parece ter falecido por volta de 1623. Nenhuma das suas inúmeras produções textuais ou cartográficas mereceu durante a sua vida as honras da impressão; e nenhum dos seus diversos projetos de descobrimento foi patrocinado pelas autoridades portuguesas. As suas obras rapidamente caíram no esquecimento, apenas sendo regularmente convocadas, em tempos mais recentes, no contexto da discussão sobre o descobrimento da Austrália pelas potências marítimas da Europa. Os variados e extensos escritos de Erédia foram produto do específico mundo cultural da Índia portuguesa, onde os saberes, os valores e as tradições da Europa e da Ásia se interligavam, formando uma única e complexa simbiose cultural. Manuel Godinho de Erédia produziu nas suas muitas obras uma síntese por demais curiosa, usando uma combinação complexa de experiência pessoal, de testemunhos vivenciais, de rumores dispersos, de tradições malaias, e de fontes cartográficas e literárias. As suas origens miscigenadas permitiram-lhe acesso franco às mais atualizadas fontes da educação humanista europeia, aos mais recentes descobrimentos portugueses no campo da geografia asiática, e a um vasto corpo de sabedoria asiática, consignada em manuscritos e em tradições orais. Estas contribuições múltiplas colocavam os seus tratados geográficos e as suas produções cartográficas num lugar de fronteira e de cruzamento, onde se ensaiava uma impossível ponte entre três heranças culturais muito distintas, a clássica europeia, a portuguesa e a malaia. Esta natureza simbiótica explica o singular destino dos escritos de Erédia, condenados durante séculos ao esquecimento. Mas os escritos históricos e geográficos de Erédia, de uma forma muito própria, eram bastante inovadores e estavam na linha da frente das preocupações de outros cosmógrafos contemporâneos. O infortúnio editorial de Erédia explica-se sobretudo pelos conturbados tempos em que lhe foi dado viver, numa época que assistiu à expansão holandesa e inglesa na Ásia marítima e ao sistemático assalto às posições ibéricas desencadeado pelas potências do Norte da Europa. Nessa conjuntura, as autoridades ibéricas não estimularam particularmente a difusão e a impressão de materiais de natureza geográfica sobre as Índias Orientais. E muitos dos escritos de Manuel Godinho de Erédia eram dedicados a tópicos demasiado sensíveis, como a localização de fontes produtoras de metais preciosos e o descobrimento de desconhecidas ilhas auríferas. O Estado da Índia, certamente, não gostaria de ver cair este tipo de informações estratégicas em mãos erradas.

Rui Manuel Loureiro
ISMAT e CHAM/NOVA

Obras

Erédia, Manuel Godinho de. Historia de serviços com martirio de Luis Monteiro Coutinho (Goa, 1615), ms., Biblioteca Nacional de Portugal, FG 414.
Erédia, Manuel Godinho de. Malaca, l’Inde Orientale et le Cathay, ed. Léon Janssen. Bruxelas: E. Lambert-Stevelinck, 1881.

Erédia, Manuel Godinho de. Eredia’s Descrition of Malaca, Meridional India, and Cathay, ed. J.V. Mills & Cheah Boon Kheng. Kuala Lumpur: Malaysian Branch of the Royal Asiatic Society, 1997.
Erédia, Manuel Godinho de. O Lyvro da Plantaforma das Fortalezas da Índia, ed. Rui Carita Lisboa: Edições INAPA e Ministério da Defesa Nacional, 1999.

Erédia, Manuel Godinho de. Suma de Árvores e Plantas da Índia Intra Ganges, ed. John G. Everaert, J. E. Mendes Ferrão e Maria Cândida Liberato. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descorbimentos Portugueses, 2001.
Erédia, Manuel Godinho de. Informação da Aurea Quersoneso, ed. Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Centro Científico e Cultural de Macau, 2008.

Erédia, Manuel Godinho de. Tratado Ophirico, 1616, ed. Juan Gil e Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Centro Científico e Cultural de Macau, 2016.

Bibliografia sobre o biografado

Flores, Jorge. “Between Madrid and Ophir: Erédia, a Deceitful Discoverer?” In Dissimulation and Deceit in Early Modern Europe, ed. Miriam Eliav-Feldon & Tamar Herzig, 184–210. London: Palgrave Macmillan, 2015.
Loureiro, Rui Manuel. “Manuel Godinho de Erédia e os seus tratados geográficos.” Oriente 9 (2004): 94–107.

Loureiro, Rui Manuel. “Manuel Godinho de Erédia revisited.” In Indo-portuguese History: Global Trends, ed. Fátima da Silva Gracias, Celsa Pinto e Charles Borges, 411–439. Goa: s.n., 2005.
Richardson, W.A.R. “A Cartographical Nightmare: Manuel Godinho de Erédia’s Search for India Meridional.” In The Portuguese and the Pacific, ed. Francis A. Dutra e João Camilo dos Santos, 314–348. Santa Barbara, Califórnia: Center for Portuguese Studies-University of California, 1995.

Subrahmanyam, Sanjay. “Pulverized in Aceh: On Luís Monteiro Coutinho and his ‘Martyrdom.’” Archipel 78 (2009): 19–60.

Barbuda, Luís Jorge de (Ludovico Georgio)

fl. século XVI

Palavras-chave: Luís Jorge de Barbuda, cartografia, China, Abraham Ortelius.

Luís Jorge de Barbuda, também conhecido pelo nome latino Ludovico Georgio, foi um cartógrafo português ativo na segunda metade do século XVI e primeiros anos do século imediato. Desenhou o primeiro mapa da China impresso na Europa, incluído na edição de 1584 do Theatrum Orbis Terrarum, atlas da responsabilidade do flamengo Abraham Ortelius, que foi publicado em Antuérpia a partir de 1570, em sucessivas edições melhoradas e ampliadas. Nada de especial se consegue apurar sobre a primeira fase da sua vida, mas por volta de 1568 trabalhava em Lisboa como adjunto de Pedro Nunes, o célebre matemático português que então desempenhava funções de cosmógrafo-mor. Parece certo que Luís Jorge estaria ligado a um ateliê de produção cartográfica relacionada com as viagens e navegações portuguesas. Em circunstâncias que não se conseguem apurar, e por volta de 1570, Barbuda passou ao serviço de D. Juan de Borja, representante de Felipe II de Espanha junto da corte lusitana. O próprio embaixador espanhol confirmava esta ligação numa carta mais tardia, na qual afirmaria que Luís Jorge, oficial mecânico especializado na iluminação e pintura de cartas de marear, trabalhara sob as suas ordens entre 1570 e 1574, desenhando mapas de regiões orientais e colaborando nas ilustrações de um livro de empresas. Esta obra de D. Juan de Borja seria publicada com o título de Empresas Morales, em 1581 em Praga, para onde o embaixador espanhol fora transferido alguns anos depois de cessar funções em Lisboa. Muito provavelmente, uma parte das ilustrações da obra seria da autoria de Luís Jorge, mormente aquelas que se relacionavam com temas geométricos e cosmográficos.

As atividades de D. Juan de Borja em Lisboa tinham uma clara ligação aos assuntos orientais, pois em 1565 os espanhóis tinham conseguido estabelecer uma rota regular entre os seus territórios americanos e as ilhas logo depois designadas como Filipinas. Pretendiam agora, a partir deste arquipélago, intervir no comércio asiático que até então fizera a fortuna dos portugueses, que desde a primeira viagem de Vasco da Gama monopolizavam a rota do Cabo. Decerto por esse motivo, o embaixador fizera-se acompanhar por Giovanni Battista Gesio, cosmógrafo napolitano que estava ao serviço de Felipe II. Ambos procuravam recrutar técnicos portugueses especializados em assuntos ultramarinos, ao mesmo tempo que colecionavam documentação geográfica e cartográfica sobre o Oriente. A importância estratégica do trabalho cartográfico desenvolvido por Luís Jorge de Barbuda levou a que D. Juan de Borja o tentasse levar para Espanha, quando em 1575 cessou funções em Lisboa. Mas o cartógrafo português foi preso em Olivença pelas autoridades lusitanas, que o impediram de abandonar Portugal. Barbuda foi reconduzido a Lisboa, onde esteve preso durante dois anos sob acusação de espionagem. Tal alegação não era decerto infundada, pois Gesio escreveu um pouco mais tarde que durante a sua estadia em Lisboa o cartógrafo português lhe tinha revelado numerosos segredos relacionados com a geografia oriental, para além de lhe fornecer muitas relações, mapas e roteiros respeitantes à configuração geográfica de terras e mares da Ásia mais oriental. Aliás, um baú repleto destes materiais geográficos, incluindo diversos mapas desenhados por Barbuda, fora remetido a Felipe II pela embaixada espanhola em Lisboa em 1573. O cosmógrafo italiano voltou a Lisboa poucos anos passados, e restabeleceu contacto com Luís Jorge, que, entretanto, estava já em liberdade, continuando disponível para passar ao serviço de Espanha. Decerto aproveitando a situação complexa que então se vivia em Portugal, na sequência do desaparecimento do rei D. Sebastião em Alcácer Quibir (1578), Battista Gesio conseguiu que Barbuda passasse a fronteira de forma encoberta, e em meados de 1579 já ambos se encontravam em Madrid. Parece certo que o cartógrafo português levou consigo um conjunto de mapas da sua autoria, representando regiões da Ásia e do Pacífico. Posteriormente, Luís Jorge passaria ao serviço de Felipe II, e nos anos seguintes desenvolveria intensas atividades de natureza matemática, geográfica e cartográfica, circulando entre Madrid, onde colaborou na Academia de Matemáticas, e Sevilha, onde trabalhou na Casa de la Contratación, organismo que superintendia aos contactos de Espanha com os seus territórios além-mar. É provável que um mapa da Península Ibérica que é conhecido como Atlas de El Escorial, e que foi desenhado na década de 1580, tenha tido a sua colaboração. 

Não estão ainda totalmente esclarecidas as circunstâncias em que um mapa manuscrito da China de Luís Jorge de Barbuda chegou às mãos de Abraham Ortelius. O editor flamengo mantinha excelentes relações com Benito Arias Montano, o célebre biblista espanhol, capelão de Felipe II, que entre 1565 e 1572 tinha residido em Antuérpia, enquanto preparava a edição da monumental Bíblia Poliglota. Arias Montano, a partir de Espanha ou de Itália, manteve ativa correspondência com Ortelius, e em diversas ocasiões remeteu-lhe novos mapas (de Portugal, de Espanha, mas também de regiões extraeuropeias), que seriam utilizados em sucessivas edições do grande atlas Theatrum Orbis Terrarum. Tudo leva a crer que o mapa da China teria sido remetido para Antuérpia por Arias Montano, para depois aparecer pela primeira vez impresso na edição latina do atlas orteliano de 1584, com o título “Chinae, olim Sinarum regionis, noua descriptio, auctore Ludovico Georgio”, integrando a partir de então as subsequentes edições da obra. O atlas de Abraham Ortelius conheceu uma circulação intensa em toda a Europa, pela extrema novidade da fórmula de reunir num mesmo volume um conjunto exaustivo de mapas de formato manuseável, pela excelente qualidade gráfica das impressões, que depois eram coloridas manualmente, pela extraordinária abrangência geográfica dos exemplares cartográficos, que cobriam praticamente todo o mundo então conhecido, e sobretudo pelo facto de circularem impressos, pela primeira vez, determinados mapas que até então haviam permanecido no segredo dos gabinetes de cartografia de diversas potências europeias. 

O mapa de Barbuda era verdadeiramente revolucionário, do ponto de vista da cartografia portuguesa (e também europeia) da época. Até então, e de forma genérica, as representações cartográficas da China apresentavam apenas os contornos do litoral, com um mais ou menos alargado conjunto de topónimos espalhados ao longo dessa faixa costeira. As regiões interiores, que nunca haviam sido visitadas pelos viajantes portugueses, surgiam despidas de informação gráfica, a qual se resumia a ilustrações simbólicas de centros urbanos. Na carta da “Chinae, olim Sinarum regionis», pela primeira vez apareciam as designações adequadas das quinze províncias chinesas, o nome de muitas dezenas de localidades interiores (muitas das quais perfeitamente identificáveis), cadeias montanhosas, e uma complexa rede hidrográfica de rios e lagos. Entretanto, na fronteira setentrional aparecia uma representação da Grande Muralha chinesa, que não era contínua, mas alternava com porções montanhosas. Ao longo desta linha de fortificações aparecia uma extensa legenda em latim, que referia um «muro de quatrocentas léguas» mandado construir pelo «Rei da China contra as invasões dos Tártaros». Não é improvável que Barbuda, complementarmente a materiais de origem portuguesa e espanhola, tivesse tido acesso a algum mapa chinês, chegado a Portugal pela via do Cabo da Boa Esperança ou oriundo das Filipinas e encaminhado para Espanha pela via do novo Mundo. Um exemplo poderia encontrar-se num mapa chinês impresso no Fujian em 1555 por meios xilográficos, o Gujin xingsheng zhi tu (Mapa topográfico antigo e moderno), que se conserva hoje em Sevilha, no Archivo General de Indias, e que foi adquirido em Manila e enviado para Espanha em 1574 pelo governador Guido de Lavezaris. Exemplares cartográficos deste género poderiam também ter chegado a Lisboa pela via de Macau, servindo de fonte de informação ao cartógrafo lusitano relativamente ao desconhecido interior da China.  

Praticamente todos os mapas que figuram no Theatrum Orbis Terrarum incluem no verso um texto sobre a região que é representada, mas não é perfeitamente transparente que o autor da carta seja sempre o autor do respetivo texto. O mapa da China não era exceção, e no respetivo verso figura um texto em latim intitulado «China», que tanto pode ser atribuído a Luís Jorge, como a Abraham Ortelius. Anda imputada ao cartógrafo português a autoria de uma «Descrição da China», provavelmente com base no texto que figura no atlas orteliano. A fonte principal desta descrição da China é o Discurso de la navegacion que los Portugueses hazen à los Reinos y Provincias del Oriente, da autoria do religioso espanhol Bernardino de Escalante, que foi impresso em Sevilha em 1577, e que por sua vez se baseava no Tractado das cousas da China do dominicano português Gaspar da Cruz, impresso em Évora em 1570. Mas são também utilizadas informações colhidas na segunda edição do primeiro volume das Navigationi et viaggi, da responsabilidade de Giovanni Battista Ramusio. Esta célebre coletânea de relatos de viagem foi publicada em Veneza a partir de 1550, em três volumes que conheceram numerosas edições, e que foram sendo sucessivamente alargados com novos textos. Caso fosse da autoria de Barbuda a descrição da China que figura no verso do mapa, a datação deste último poderia ser colocada cerca de 1580, numa altura em que o cartógrafo português já residia em Espanha, baseado em Madrid, mas visitando repetidamente a cidade de Sevilha, onde poderia ter consultado quer o mapa chinês chegado pela via das Filipinas, quer o tratado de Escalante sobre matéria chinesa. Nada mais se consegue apurar sobre a vida de Barbuda, que por volta de 1600 parece ter regressado a Portugal, para se reunir à família. 

Rui Manuel Loureiro
ISMAT e CHAM/NOVA

Obras

Barbuda, Luís Jorge de. “Chinae, olim Sinarum regionis, noua descriptio”, in Abraham Ortelius, Theatrum Orbis Terratum. Antuérpia, Christopher PLantin, 1584.

Bibliografia sobre o biografado

Armando Cortesão. Cartografia e cartógrafos portugueses dos séculos XV e XVI, 2 vols. Lisboa: Seara Nova, 1935.

Suzanne Daveau. “O fragmento de mapa corográfico de Portugal da Real Academia de la Historia de Madrid. Fases de realização e de utilização.” Cadernos de Geografia 26–27 (2007–2008): 3–17.

Sylvie Deswartes-Rosa. “De l’emblematique à l’espionnage: autour de D. Juan de Borja, ambassadeur espagnol au Portugal.” In As Relações Artísticas entre Portugal e Espanha na Época dos Descobrimentos, ed. Pedro Dias, 147–183. Coimbra: Livraria Minerva, 1987.

Maroto, María Isabel Vicente e& Mariano Esteban Piñeiro. Aspectos de la Ciencia Aplicada en la España del Siglo de Oro. Salamanca: Junta de Castilla y León, 1991. 

Reinel, Pedro

m. ca. 1542                                                                      

Palavras-chave: Cartografia, cartas de marear, escala de latitudes, declinação magnética, Sevilha. 

Pedro Reinel foi um cartógrafo português cujos trabalhos foram desenvolvidos entre o último quartel do século XV e a primeira metade do século XVI. Com exceção de um conjunto muito reduzido de documentos, o seu nome vai aparecer sempre ligado às suas funções profissionais como perito em cartografia. Não são muitos os dados biográficos que se conhecem dele e é muito complicado estabelecer com exatidão a sua data de nascimento e morte. No entanto, ficaram vários trabalhos cartográficos da sua autoria (geralmente cartas náuticas) da maior relevância para a história da cartografia portuguesa e europeia no contexto da expansão ultramarina. Destes trabalhos, duas cartas foram assinadas por ele. As outras, que iremos mencionar ao longo desta biografia, foram-lhe atribuídas pelos especialistas. 

Embora um documento de 1519 diga que Pedro Reinel assim como o seu filho Jorge Reinel passaram uma curta temporada em Sevilha envolvidos em tarefas cartográficas no contexto da preparação da viagem de Fernão de Magalhães (1519–1522), a verdade é que ambos trabalharam para a Coroa portuguesa grande parte da sua vida. De fato, uma carta de mercê com a data de 10 de Fevereiro de 1528 revela que D. João III concedeu a Pedro Reinel um salário anual de 15.000 reais pelos serviços prestados aos reis D. João II e D. Manuel I como mestre de cartas e agulhas de marear. Sabe-se também que em 1524 Pedro Reinel esteve envolvido nas negociações da Junta de Badajoz-Elvas, um encontro diplomático celebrado na fronteira luso-espanhola entre os representantes dos reis de Espanha e Portugal para tentar resolver a questão das Molucas. Segundo informa uma carta de Junho do mesmo ano enviada ao rei pelos delegados portugueses na dita reunião, Diogo Lopes de Sequeira e António de Azevedo Coutinho, os delegados espanhóis tentaram, sem muito sucesso, persuadir Pedro e Jorge Reinel para trabalharem ao serviço de Carlos V. Um outro documento de 1542 revela que Pedro Reinel ainda estava vivo nesta data: encontrava-se então casado com Isabel Fernandez, morava em Lisboa e fazia cartas de marear. 

Pedro Reinel é o autor de uma das poucas cartas náuticas portuguesas que chegaram até hoje do século XV e uma das duas cartas assinadas (a outra é a carta de Jorge de Aguiar de 1492) mais antigas que se conhecem. Trata-se de uma carta em pergaminho do Atlântico oriental construída entre 1485 e 1492 e conservada nos Archives Départementales de la Gironde, em Bordéus (França). Esta carta, onde se pode ler “Pedro Reinel me fez,” deu início a uma série de cartas produzidas pelos Reinel (pai e filho) que chegaram até os anos quarenta do século XVI. Um dos aspetos mais chamativos desta carta, que também seria usado por Jorge de Aguiar, é a representação da linha de costa atlântica de Africa. Aparentemente, a carta representa o Mediterrâneo ocidental até à Sicília e o Atlântico oriental desde as Ilhas Britânicas até ao Golfo da Guiné com todos os arquipélagos europeus e africanos – e as ilhas imaginarias Mayda e Brasill. No entanto, no interior do continente africano pode-se ver o resto da linha de costa desde o Golfo da Guiné até o Rio Congo, última paragem da expedição de Diogo Cão. Este aspeto tem dado lugar a várias interpretações que não iremos discutir aqui. 

Alguns anos mais tarde o nome de Pedro Reinel vai aparecer numa outra carta em pergaminho do Atlântico (chamada Kunstmann I) feita por volta de 1504 e conservada na Bayerisch Staatsbibliotek de Munique (Alemanha). Esta é a segunda das duas cartas assinadas por Pedro Reinel. Nesta carta Reinel tentou corrigir os efeitos da variação da agulha na costa da península do Labrador (ao leste do Canadá) com uma escala de latitudes oblíqua de 44º a 57º e com uma inclinação de 22,5º. Trata-se da carta náutica mais antiga que se conhece com uma escala de latitudes visível. E de fato não tem apenas uma, mas duas o que faz com que seja considerada uma das chamadas cartas de dupla graduação. A escala principal está localizada no centro do Atlântico em direção norte-sul e é aplicável a toda a costa ocidental de África representada na carta. A outra escala, em posição oblíqua, está situada no estreito e baía de Hudson e aplicava-se só àquela região. Depois de Reinel ter usado este recurso técnico, muitos outros cartógrafos tentaram resolver as consequências da declinação magnética através deste procedimento.

Em diante, todas as cartas relacionadas com Pedro Reinel são só atribuições, algumas delas meramente conjeturais e envolvidas em processos complexos de atribuição de autoria. Como acontece com vários trabalhos cartográficos deste período, estas atribuições são ainda hoje questões em aberto. A primeira destas cartas é uma carta do Oceano Índico de c.1517, hoje desaparecida. Seguem-se um conjunto de cartas que constituem o chamado Atlas Miller (também atribuído a Lopo Homem), datado de 1519 e guardado na Bibliothèque nationale de France; uma outra carta do Índico construída por volta de 1520 e pertencente ao British Museum, em Londres; uma carta de c. 1522 em projeção polar representando o hemisfério sul e preservada no Topkapi Sarayi Müzesi, em Istambul (Turquia); e a carta do Atlântico de c.1535, hoje no National Maritime Museum de Greenwich (Reino Unido).

Além destes trabalhos, é sabido que em 1519 Pedro Reinel esteve em Sevilha envolvido na construção de um planisfério (o planisfério anónimo de Munique, também conhecido como Kunstmann IV), que segundo o historiador Armando Cortesão foi feito por Jorge Reinel por volta de 1519 (ver a biografia de Jorge Reinel). Assim o diz uma carta com data de 18 de Julho de 1519 enviada ao rei D. Manuel pelo seu feitor em Sevilha, Sebastião Álvares. A missiva queria informar ao rei dos planos da viagem de Magalhães e, referindo-se às Ilhas Molucas, diz que as viu representadas numa carta construída por Jorge Reinel, a qual não estava acabada quando o seu pai (Pedro) foi a Sevilha à procura do filho para regressarem juntos a Portugal. Segundo Álvares foi Pedro Reinel quem acabou a carta e representou nela as Molucas. Álvares escreve também que este era o modelo cartográfico usado por outro cartógrafo português que trabalhava na Casa de la Contratación de Sevilha, Diogo Ribeiro. O que se pode verificar a partir desta carta é que Pedro Reinel foi a Sevilha em busca do seu filho (por razões pouco claras) e acabou por fazer parte nos trabalhos cartográficos da preparação da circunavegação de Magalhães. A carta ou planisfério à qual se refere o documento, supostamente o Kunstmann IV, desapareceu no fim da Segunda Guerra Mundial. Hoje só se pode ter acesso a um fac-símile construído em 1836 por Otto Progel preservado na Bibliothèque nationale de France. Segundo o contexto em que foi feito, o aspeto mais destacado desta carta é que as cobiçadas ilhas das especiarias (as Ilhas Molucas) são representadas a este do meridiano de Tordesilhas, isto é, dentro da área de influência espanhola. 

Antonio Sánchez
Universidad Autónoma de Madrid

Arquivos

Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Carta de Sebastião Álvares ao rei D. Manuel I, 18 de Julho de 1519. Corpo Cronológico, P. 1.ª, maço 13, doc. 20. 

Carta de Diogo Lopes de Sequeira e António de Azevedo Coutinho ao rei D. João III, 9 de Junho de 1524. Gaveta 18, maço 8, doc. 13.

Carta de mercê do rei D. João III a Pedro Reinel, 10 de Fevereiro de 1528. Chancelaria de D. João III, Doações, ofícios e mercês 1521/1557, Liv. 14, f. 67. 

Documento com data de 5 de Junho de 1542. Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa 1536/1821, Denunciações 1537/1736, livro 1 1537/1543, f. 165.

Obras

Carta do Atlântico oriental de Pedro Reinel, ca. 1492. Archives Départementales de la Gironde, Burdeos (2 Fi 1582 bis). Manuscrito em pergaminho, 711 x 948 mm.

Carta atlântica de Pedro Reinel, também chamada Kunstmann I ca. 1504. Bayerisch Staatsbibliotek, Munich (Cod. Icon. 132). Manuscrito iluminado sobre pergaminho, 60 x 73,5 cm.

Bibliografia sobre o biografado

Cortesão, Armando. Cartografia e cartógrafos portugueses dos séculos XV e XVI, Vol. I: 249–305. Lisboa: Seara Nova, 1935.

Cortesão, Armando e Avelino Teixeira da Mota. Portugaliae Monumenta Cartographica, Vol. I. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987 [1960]. 

Marques, Alfredo Pinheiro. Portugaliae Monumenta Cartographica, Vol. I.: 66–72 Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987.

Marques, Alfredo Pinheiro. “Reinel, Pedro e Jorge.” In Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses, ed. Luís de Albuquerque, Vol. II: 940–941. Lisboa: Caminho, 1994.

Viterbo, Sousa. Trabalhos náuticos dos Portuguezes nos séculos XVI e XVII, Parte I. Lisboa: Typographia da Academia Real das Sciencias, 1898.

Reinel, Jorge

m. ca. 1572

Palavras-chave: Cartografia, planisfério, Lisboa, Sevilha, Armazéns.

Jorge Reinel foi um cartógrafo português do século XVI que trabalhou nos Armazéns da Guiné e Índia de Lisboa, a principal instituição portuguesa na produção de cartas náuticas daquela época. Tal como acontece com o seu pai, Pedro Reinel, não são muitos os dados sobre a sua vida. Os documentos conhecidos não permitem determinar com precisão quando é que Jorge Reinel nasceu e morreu, mas indicam que viveu grande parte do século XVI. Sabemos, no entanto, que trabalhou ao serviço da Coroa portuguesa como cartógrafo e examinador da ciência e arte de navegar, e também, temporariamente, para a Coroa espanhola em circunstâncias ainda pouco esclarecidas. Sabe-se igualmente que esteve casado com Beatriz Lopes e que, em 1572, no fim da sua vida, estava doente e vivia na pobreza.

Segundo uma carta régia de 6 de Junho de 1532, parece que Jorge Reinel tinha tido, anos antes, problemas pessoais, em Lisboa, com um clérigo chamado Pero Anes. É consensual na historiografia portuguesa considerar este episódio como a causa para a sua deslocação a Sevilha, em 1519, com o grupo de portugueses envolvidos na preparação científico-técnica da viagem de Fernão Magalhães. A participação de Jorge nestas tarefas teria a ver com a construção de uma carta náutica hoje perdida, que alguns historiadores identificam com o planisfério anónimo de Munique, conhecido por Kunstmann IV (que hoje conhecemos só a partir de um fac-símile construído em 1836 por Otto Progel conservado na Bibliothèque nationale de France). Segundo Armando Cortesão e Avelino Teixeira da Mota, esta carta foi utilizada na preparação da viagem de Magalhães. Duas das suas características mais relevantes são o fato de apresentar pela primeira vez o Equador graduado e de representar as ilhas Molucas no hemisfério espanhol. 

A vinculação do trabalho desenvolvido por Jorge em Sevilha e este planisfério, feito por volta de 1519, surge a partir de uma missiva de Sebastião Álvares, também assinada em 1519. Neste documento, Álvares, feitor português em Sevilha, conta a D. Manuel ter visto as Ilhas Molucas representadas numa carta de Jorge Reinel terminada pelo pai, quando este foi àquela cidade à procura do filho. É sabido que os dois Reinel, pai e filho, acabaram por voltar a Portugal e, segundo o documento de 1532 já mencionado, Jorge seria finalmente perdoado dos seus conflitos com a justiça portuguesa. De fato, quatro anos antes, em 1528, D. João III concedeu a Jorge Reinel (e também ao seu pai) uma carta de mercê com um salário anual de 10.000 reais pelos seus serviços como mestre de cartas de marear. 

Para além da referência ao trabalho cartográfico dos Reinel em Sevilha, a carta de Álvares é também relevante porque afirma que aquele mapa serviu de modelo para um dos principais cartógrafos da Casa de la Contratación dos anos vinte, o também português Diogo Ribeiro. Isto quer dizer que a carta iniciada pelo filho Reinel e acabada pelo pai foi utilizada na Casa como base para as cartas que ali se faziam, nomeadamente o chamado Padrón Real e as suas cópias. O Padrón Real era o modelo cartográfico da Casa a partir do qual eram construídas todas as cartas utlizadas na Carrera de Indiasespanhola. A afirmação de Álvares reforça a hipótese de que a carta dos Reinel seja o planisfério de Munique, uma vez que os trabalhos cartográficos de Ribeiro que sobreviveram são todos planisférios ou pedaços de planisférios, com características técnicas semelhantes. 

Qualquer que fosse o trabalho desenvolvido pelos Reinel em Espanha, parece que a sua passagem pelo país vizinho não deixou indiferentes os delegados espanhóis nas negociações pela pertença e exploração das Ihas Molucas. Uma carta assinada em 9 de Junho de 1524 pelos representantes portugueses na Junta de Badajoz-Elvas, Diogo Lopes de Sequeira e António de Azevedo Coutinho, dizia a D. João III que Jorge Reinel e o seu pai foram convidados a trabalhar ao serviço da Coroa espanhola. Tal convite não parece, porém ter sido aceite, segundo as cartas de mercê dadas em 1528.

Alguns documentos testemunham igualmente as funções de Jorge Reinel como examinador e o apoio ao Cosmógrafo-Mor Pedro Nunes no exame aos futuros cartógrafos da Coroa. Do seu trabalho como examinador, em questões relacionadas com a arte de navegar, sabemos graças a dois autos de juramento, assinados pelo cartógrafo João Freire na qualidade de escrivão, existentes no Arquivo Municipal de Lisboa com as datas de 1551 e 1554 respetivamente, onde o seu nome aparece junto com o de outro cartógrafo, Lopo Homem. Por outro lado, Jorge Reinel foi nomeado para assistir aos exames que o Cosmógrafo-Mor fazia àqueles que desejavam ser cartógrafos. Segundo o Regimento do Cosmógrafo-Mor (1592), estes exames eram feitos pelo Cosmógrafo-Mor na presença de um mestre em cartas de marear. Estes cartógrafos eram escolhidos entre os quais exerciam há mais tempo o cargo, que tinham maior experiência e habilidades e, também, que tinham melhor reputação. Como já foi dado a conhecer pelo historiador Sousa Viterbo, Jorge Reinel esteve presente em pelo menos três exames, o de António Martins em 1563 e os de Bartolomeu Lasso e Luís Teixeira em 1564, sendo sempre Pedro Nunes o Cosmógrafo-Mor responsável.

Apesar de a maioria dos documentos acima mencionados fazerem referência a Jorge Reinel como mestre de fazer cartas de marear, não se conhece nenhuma carta náutica assinada por ele. No entanto, são várias as cartas que se lhe atribuem. A mais antiga é uma representação do Oceano Índico, em pergaminho e datada de 1510, que esta conservada na Herzog August Bibliothek, em Wolfenbüttel (Alemanha). Há ainda que mencionar o já referido planisfério de Munique e as cartas do Atlas Miller (1519), na Bibliothèque nationale de France. Em data muito posterior, c. 1540, foi construída a última carta atribuída a Jorge Reinel. Trata-se de uma carta em pergaminho que representa o Atlântico, Europa, África ocidental e Brasil. No canto superior esquerdo pode-se ler Reinel em letras maiúsculas. Esta carta encontra-se hoje na Biblioteca Barone Ricasoli-Firidolfi, em Florença (Itália). 

Antonio Sánchez
Universidad Autónoma de Madrid

Arquivos

Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Carta de Sebastião Álvares ao rei D. Manuel I, 18 de Julho de 1519. Corpo Cronológico, P. 1.ª, maço 13, doc. 20. 

Carta de Diogo Lopes de Sequeira e António de Azevedo Coutinho ao rei D. João III, 9 de Junho de 1524. Gaveta 18, maço 8, doc. 13.

Carta de mercê do rei D. João III a Jorge Reinel, 10 de Fevereiro de 1528. Chancelaria de D. João III, Doações, ofícios e mercês 1521/1557, Liv. 14, fol. 67. 

Carta régia de 6 de Junho de 1532. Chancelaria de D. João III, Doações, ofícios e mercês 1521/1557, Liv. 18, f. 48v. 

Carta de mestre de cartas de marear a António Martins, 1563. Chancelaria de D. Sebastião e D. Henrique, Doações, ofícios e mercês, Liv. 13, f. 158v. 

Carta de mestre de cartas de marear a Bartolomeu Lasso, 17 de Maio de 1564. Chancelaria de D. Sebastião e D. Henrique, Doações, ofícios e mercês, Liv. 15, f. 69. 

Carta de mestre de cartas de marear a Luís Teixeira, 18 de Outubro de 1564. Chancelaria de D. Sebastião e D. Henrique, Doações, ofícios e mercês, Liv. 13, f. 261.

Carta régia, 16 de Julho de 1572. Chancelaria de D. Sebastião e D. Henrique, Perdões e legitimações, Liv. 44, f. 196v.

Lisboa, Arquivo Municipal–Arquivo Histórico 

Chancelaria da Cidade, Livro 1º da vereação, f. 103.

Chancelaria da Cidade, Livro 2º da vereação, f. 33v. 

Bibliografia sobre o biografado

Cortesão, Armando. Cartografia e cartógrafos portugueses dos séculos XV e XVI, Vol. I: 249–305. Lisboa: Seara Nova, 1935.

Cortesão, Armando e Avelino Teixeira da Mota. Portugaliae Monumenta Cartographica, Vol. I. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1987 [1960].

Denucé, Jean. Les origines de la cartographie portugaise et les cartes des Reinel. Gand: Librairie Scientifique E. Van Goethem, 1908. 

Marques, Alfredo Pinheiro. “Reinel, Pedro e Jorge.” In Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses, ed. Luís de Albuquerque, Vol. II: 940–941. Lisboa: Caminho, 1994.

Viterbo, Sousa. Trabalhos náuticos dos Portuguezes nos séculos XVI e XVII, Parte I. Lisboa: Typographia da Academia Real das Sciencias, 1898.

Garcês, Belchior José (Garcez, Belchior José)

Lisboa, 24 março 1808 — Trancoso, 21 janeiro 1874

Palavras-chave: Regeneração, estradas, caminhos-de-ferro, cartografia.

Belchior José Garcês foi um engenheiro militar que contribuiu para o desenvolvimento das redes rodoviárias e ferroviárias nacionais nas primeiras décadas da Regeneração.

Filho de José Sobral, fora destinado à vida clerical, mas enveredou por uma carreira militar, na qual ascendeu à patente de general, em 1864.

Cursou as Academias Reais de Marinha e Fortificação, Artilharia e Desenho. Devido à Guerra Civil, interrompeu os estudos e, em 1829, evadiu-se para França, praticando nas obras públicas dos Baixos Pirenéus (Toulouse e Bayonne) e no estudo de dois canais, sob orientação do engenheiro Galambert. Regressou a Portugal em 1832 para se juntar às forças liberais que tomaram Lisboa, tendo comandado o sector Manique-Picoas de fortificação da capital. 

Findo o conflito terminou os estudos e, em 1837, foi admitido na arma de engenharia. Foi colocado sucessivamente nas praças de Elvas, Chaves, Almeida e Abrantes. Iniciou o levantamento cartográfico de Trás-os-Montes e da fronteira da Beira e, em 1841, dirigiu a reedificação daquelas duas últimas praças.

Entretanto, casou em 1839 com Carlota Cardoso, tendo quatro filhos.

Em 1843, entrou para o serviço de Obras Públicas do Ministério do Reino (no distrito de Bragança e, em 1845, na província do Minho), incumbido de fiscalizar a construção de estradas. 

Aderiu à Patuleia, sendo demitido do Exército em 1846. Contudo, pelas suas competências, foi readmitido na hierarquia militar e incumbido da fiscalização das estradas do Minho e Trás-os-Montes. Aproveitou a ocasião para elaborar uma planta de Braga com Miguel Maciel. 

Em 1851, foi contratado pela Companhia Viação Portuense para construir estradas no Minho, juntamente com os seus camaradas Vitorino Damásio e Calheiros e Meneses. Deparou-se com as primeiras dificuldades ligadas à gestão privada da construção de grandes obras públicas e com obstáculos levantados pelos locais, mas, no final, assentou uma estrada elogiada pelos fiscais do governo. A experiência convenceu-o da necessidade de o Estado intervir na construção rodoviária por não ser atividade propícia à iniciativa privada. 

Em 1854, integrou o Conselho Superior de Obras Públicas, órgão consultivo do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria. Entre 1855 e 1856, fiscalizou os caminhos de ferro do Sul e de Sintra e integrou a comissão encarregada do inquérito ao fracasso da inauguração da linha Lisboa-Carregado. Em 1857, voltou ao sector privado como engenheiro-chefe da Companhia de Caminhos de Ferro ao Sul do Tejo. 

Em 1858, regressou ao serviço do Estado, como diretor da Escola Politécnica de Lisboa. Neste ano iniciou também a sua carreira parlamentar (1858–1870), sempre nas fileiras do Partido Histórico, cujo governo integrou em 1860, como ministro da Guerra. No Parlamento, defendeu a necessidade de construir estradas e caminhos de ferro até à fronteira (não com intuitos defensivos mas de ligação do país ao resto da Europa), uma forte intervenção do Estado no sector e o apoio ao ensino industrial.

Regressou ao Conselho Superior em 1861. Em 1864, fez parte da comissão responsável pela redação  da lei geral ferroviária (aprovada por decreto de 31 de dezembro de 1864). Em 1868, foi nomeado presidente da comissão para regular o serviço técnico do ministério que extinguiu o Corpo de Engenheiros Civis e substituiu o Conselho Superior pela Junta Consultiva de Obras Públicas e Minas, da qual assumiu a vice-presidência até 1873. Desde 1869, porém, a sua participação foi intermitente, em virtude do desgosto causado pela morte da esposa. Faleceu, cinco anos depois, em Trancoso.

Belchior Garcês foi um engenheiro com um percurso comum a outros técnicos. Formado nas Academias Reais de Marinha e Fortificação, obteve uma educação prática nas obras públicas francesas. Beneficiou do espírito de consenso da Regeneração para aplicar os seus conhecimentos na implementação e ampliação das redes nacionais de estradas e caminhos de ferro (contribuindo também para um melhor conhecimento topográfico do Reino) e na planificação da política de fomento nos órgãos consultivos do Ministério das Obras Públicas, aos quais presidiu nos últimos anos da sua vida. 

Hugo Silveira Pereira

Arquivos

Lisboa, Acervo Infraestruturas, Transportes e Comunicações, Processos Individuais, Cx. 73, Belchior José Garcês, PT/AHMOP/PI/073/034.

Lisboa, Arquivo Histórico Militar, cx. 557, processo individual de Belchior José Garcês.

Setúbal, Arquivo Distrital, Arquivo Pessoal de Almeida Carvalho, 12/435/pt. 12/25, recorte do Diario de Noticias.

Obras 

Garcês, Belchior José. Itinerário da cidade de Bragança à Barca do Pocinho… [manuscrito]. S. l.: s. n., 1843.

Garcês, Belchior José. Pavimento terreo do Quartel do Castello em Chaves aonde se aloja o R.º d’Infanteria n.º 13 [manuscrito]

. S. l.: s. n., 1843.
Garcês, Belchior José. Planta da praça de Abrantes [manuscrito]

. S. l.: s. n., 1841.

Garcês, Belchior José. Planta dos quarteis do Forte de S. João de Deos aonde se aloja em Bragança o Regimento de Cavallaria n.º 7 [manuscrito]. S. l.: s. n., 1843.

Garcês, Belchior José. “Relatorio do fiscal do caminho de ferro de Cintra, datado de 26 de Março de 1857.” Boletim do Ministerio das Obras Publicas, Commercio e Indústria 5 (1858): 573–575. 

Garcês, Belchior José e Miguel Baptista Maciel. Planta da cidade de Braga. S. l.: J. F. M. Palha, 1853–1854..

Meneses, Sebastião Lopes de e Belchior José Garcês. Duas palavras acerca da Companhia Viação Portuense. Porto: Tipografia Comercial, 1853.

Bibliografia sobre o biografado

Chaby, Cláudio. “Belchior José Garcéz.” Diario Illustrado 608–609 (1874): 1–2.

Costa, António José Pereira da. “Belchior José Garcez. General de Brigada (1808–1874).” In Os Generais do Exército Português, ed. António José Pereira da Costa, 2 (2), 31–32. Lisboa: Biblioteca do Exército, 2005.

Marinho, Maria José. “Belchior José Garcês (1808–1874).” In Dicionário Biográfico Parlamentar, ed. Maria Filomena Mónica, vol. 2, 291–294. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2005–2006.

Pereira, Hugo Silveira. “A política ferroviária nacional (1845-1899)”. Dissertação de doutoramento. Porto: Universidade do Porto, 2012.

Pina, Miguel Esperança, Nuno Borrego e Nuno Vilhena Freitas. Os Titulares e os Oficiais da Patuleia. Lisboa: Tribuna, 2006.

Vilhena, Júlio Marques de. D. Pedro e seu Reinado. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1921.

Gomes, Bernardino Barros

Lisboa, 30 setembro 1839 — Lisboa 5 outubro 1910

Palavras-chave: ordenamento florestal, geografia, cartografia, Administração-Geral das Matas.

Bernardino Barros Gomes foi um engenheiro silvicultor que introduziu em Portugal os métodos científicos do ordenamento florestal. Para sustentar o fomento deste ordenamento, lançou-se em estudos sobre flora, relevo, clima e agricultura, com trabalhos de campo e levantamentos cartográficos até chegar à uma visão integradora do país que esteve na base da construção da geografia científica em Portugal. 

Bernardino Barros Gomes nasceu e cresceu no seio de uma família com longa tradição ligada à Medicina e à Ciência: bisneto do médico José Manuel Gomes (1733–?), neto de Bernardino António Gomes (1768–1823), médico e botânico que isolou o antipirético cinchonina na casca da quina, e filho de Bernardino António Gomes (1806–1877) e Maria Leocádia Fernanda Tavares de Barros. O pai foi lente de Medicina e médico do Paço, colaborando em vários jornais científicos. O ambiente familiar foi propício ao estudo assíduo e à curiosidade científica, sobretudo no domínio das ciências naturais. Em 1843, nasceu o seu irmão Henrique, que fez carreira como economista e na política. Barros Gomes frequentou um colégio de Lisboa, continuando os seus estudos em Coimbra após a morte da sua mãe em 1853. Nesta cidade, então a única no país com universidade, matriculou-se nas Faculdades de Matemática e de Filosofia. Na primeira, obteve o bacharelato em 1859. Na segunda, ficou particularmente atraído pelo ensino da química e das ciências naturais, acabando a licenciatura em 1860. O jovem Barros Gomes apaixonou-se pela botânica, que o levou a passar férias e tempos livres estudando e classificando as plantas com Carlos Maria Gomes Machado (1828–1901), que recolhia espécies para os herbários da Universidade. Em 1860, partiu para a Universidade de Leipzig, onde se inscreveu num curso de aperfeiçoamento em química. Encontrou em Leipzig um estudante polaco, J. Rivoli, com quem travou uma longa amizade e partilhou uma expedição científica na serra da Estrela. Em 1861, matriculou-se num curso para alunos estrangeiros na Real Academia Florestal e Agrícola da Saxônia, em Tharandt, fundada em 1811 pelo pioneiro da ciência florestal alemã, Heinrich Cotta. Em 1862, a Real Academia conferiu-lhe o diploma final de especialização, com ótimos resultados e a confirmação do seu futuro desempenho profissional. Também foi em Tharand que o jovem estudante conheceu Elisa de Wilcke, com quem se casou em 1866. A ligação com a escola de Tharandt e seus professores permaneceu forte e Barros Gomes continuou a visitá-la na procura dos últimos progressos da ciência florestal. Divulgou em Portugal as inovações técnicas relevantes de Max Robert Pressler, inventor de uma sonda e das tabelas florestais para cálculo dos volumes dos arvoredos. O botânico Heinrich Moritz Willkomm, que talvez fosse o seu professor, estudou as coleções de plantas de Barros Gomes ao escrever Prodromus Florae hispanicae. Nunca deixou de aproveitar viagens no estrangeiro para tratar de assuntos científicos, privando, entre outros, com Frederich Welwitsch acerca do regresso dos herbários de Angola a Lisboa e outros botânicos em Londres. Encontrou-se com colegas espanhóis na Escuela de Ingenieros de Montes de Villaviciosa; por outro lado, outros nunca faltaram em recensear algumas das suas obras na Revista de Montes.Regressado da Academia de Tharandt em 1863, Barros Gomes iniciou logo a atividade profissional na Repartição de Agricultura do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria (MOPCI), que integrava a Administração-Geral das Matas. Foi encarregue de estudar os pinhais de Vale de Zebro e da Machada, perto do Barreiro, na ausência completa de informação prévia. Em 1864, apresentou um notável relatório, com estudo do meio natural e medições do arvoredo. Foi o primeiro trabalho sobre ordenamento florestal realizado no país, tendo o próprio autor procedido ao levantamento topográfico. Entretanto, em 1863, tinha publicado os seus primeiros artigos no Arquivo Rural, onde desenvolveu a prática do ordenamento florestal na Alemanha. Finalizado outro estudo sobre os efeitos da resinagem na produção lenhosa dos pinhais de Leiria, o reconhecimento da sua competência valeu-lhe ser nomeado, ainda em 1864, engenheiro do corpo civil na mesma Repartição da Agricultura do MOPCI. Em 1865, fez parte de uma comissão de estudo sobre Cabo Verde, produzindo um relatório sobre a arborização desta província portuguesa. A consagração destas atividades não se fez esperar: com apenas 25 anos, foi nomeado sócio correspondente da Academia Real das Ciências. A par das atividades e relatórios profissionais, Barros Gomes escreveu numerosos artigos até ao fim da sua carreira sobre assuntos diversificados da botânica, floresta e agricultura. Alguns foram a base para estudos de maior relevo, outros resultaram de conferências proferidas em diferentes locais. Prosseguiu os trabalhos em prol do ordenamento florestal nos pinhais de Vale de Zebro e da Machada e Leiria, até que, desiludido pelos rumos da política florestal, pediu a demissão em 1868. Foi-lhe concedida uma licença renovada até 1872. Durante estes anos, continuou os seus estudos, trabalhos de campo e divulgação técnica.Em 1872, após uma reforma da orgânica dos serviços florestais, voltou ao serviço, iniciando-se então o período mais fecundo da obra de Barros Gomes como engenheiro florestal e cientista. Foi sucessivamente nomeado diretor das Divisões Florestais Norte (1872), Sul (1874) e Centro (1879). As suas deslocações profissionais no país e os respetivos trabalhos de campo deram-lhe um conhecimento ímpar do ambiente natural e da vegetação. Elaborou trabalhos de síntese onde reuniu as suas observações e outras informações disponíveis de carácter orográfico, climático, botânico e florestal, acompanhadas por uma cartografia inovadora. Com o colega silvicultor Pedro Roberto da Cunha e Silva, preparou uma carta orográfica e regional de Portugal (1875), tendo por base a carta geográfica dirigida por Filipe Folque (1865), que representou o relevo com a nova técnica das curvas de nível. Elaborou também uma série de nove mapas com a distribuição das principais espécies florestais que permitiram a preparação da carta xilográfica ou dos arvoredos; esta série na escala 1:1 000 000 foi publicada no último Relatório da Administração Geral das Matas de 1879–1880. As duas cartas do relevo e dos arvoredos (escala 1:2 300 000) foram premiadas na Exposição de Filadélfia de 1876, para a qual Barros Gomes preparou todo o material, e integraram o primeiro trabalho do núcleo da obra científica de Barros Gomes, as Condições Florestaes de Portugal. Nesta obra, o cientista debruçou-se particularmente sobre a base naturalista — relevo, exposição, clima, geologia — e desenvolveu o comentário sobre a divisão regional do país, para apresentar a repartição das espécies florestais, utilizando fontes bibliográficas atualizadas em todas os domínios de conhecimento. Na “Notice sur les arbres forestiers du Portugal”, escrita em francês para a Exposição de Paris (1878), Barros Gomes apresentou uma reflexão sobre os processos de desarborização/florestação, procurando uma explicação ligada às mutações socioeconómicas que o país estava a atravessar. Finalmente, em 1878, publicou as Cartas Elementares de Portugal para uso das escolas. No prolongamento da preocupação da época, a última obra de fôlego de Barros Gomes foi concebida no intuito de contribuir à melhoria do ensino pela difusão dos conhecimentos. O autor reuniu cinco mapas, dois dos quais já estavam publicados (cartas dos concelhos, do relevo e regional, dos arvoredos, agronómica e da povoação concelhia) larga e devidamente comentados. Barros Gomes desenvolveu uma análise inovadora e integradora das “condições physicas e sociaes” do país e da divisão regional com base natural que já tinha esboçado nas Condições Florestaes. A influência direta das Cartas Elementares prolongou-se até meados do século XX nas propostas de divisão regional dos geógrafos Aristides de Amorim Girão, Hermann Lautensach e Orlando Ribeiro. Na sua correspondência, o próprio cientista reconheceu durante a elaboração desta última obra que, pondo os seus conhecimentos ao serviço da sociedade, cumpria uma forma mais plena de apostolado cristão. Desde meados dos anos 1870, Barros Gomes vivia mais intensamente a sua fé e trabalhava na Conferência Vicentina de Lisboa. No ano seguinte à publicação das Cartas Elementares, mudou o rumo da sua vida com o súbito falecimento da mulher, dois meses antes de tomar posse como diretor da Divisão Florestal do Centro. Consagrou-se ao Pinhal de Leiria, com uma nova planta e um plano decenal de ordenamento, colaborando também com João Inácio Ferreira Lapa e Jaime Batalha Reis num estudo sobre a resinagem. Em 1882, pediu a exoneração do cargo. Assegurou o futuro das três filhas e ingressou em 1883 na Congregação da Missão (Padres Lazaristas), tendo sido ordenado presbítero em 1888. Desde 1903,  o padre Barros Gomes passou a ensinar Ciências Naturais e Físico-Químicas no colégio de Arroios da Congregação, quando foi assassinado no dia 5 de outubro de 1910 nesta casa, durante os distúrbios que acompanharam a instauração da República.

Nicole Devy-Vareta
CEGOT, Universidade do Porto

Arquivos

Lisboa, Arquivo da Biblioteca do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas

Lisboa, Arquivo da Congregação da Missão, Padres Vicentinos.

Obras

Gomes, Bernardino Barros. “Estudos florestaes.” Archivo Rural 5(17, 19, 20, 21, 22) (1863):  462–465, 513–516, 541–545, 570–577, 599–605; 6 (2) (1863): 35–41.

Gomes, Bernardino Barros. Cultura das plantas que dão a quina, com cinco estampas lithografadas. Lisboa: Imprensa Nacional, 1864.

Gomes, Bernardino Barros. Relatorio florestal sobre as matas da Machada e Valle de Zebro. Lisboa: Imprensa Nacional, 1865. 

Gomes, Bernardino Barros. Novas taboas florestaes de Pressler reduzidas ao systema metrico e accommodadas ao uso portuguez. Lisboa: Lallemant Frères, 1875. 

Gomes, Bernardino Barros. Condições florestaes de Portugal, illustradas com as cartas orographica, xylographica e regional, os perfis transversaes e as curvas meteorologicas mais caracteristicas. Lisboa: Lallemant Frères, 1876. 

Gomes, Bernardino Barros. Exposição de Philadelphia. Administração Geral das Matas do Reino. Portugal. Lisboa: Lallemant Frères, 1876.

Gomes, Bernardino Barros. “Étude sur les espèces de chênes forestiers du Portugal.” Jornal de Sciencias Mathematicas, Physicas e Naturaes 5 (20) (1876): 235–241.

Gomes, Bernardino Barros. “Notice sur les arbres forestiers du Portugal.” Jornal de Sciencias Mathematicas, Physicas e Naturaes 6 (22) (1877): 110–129.

Gomes, Bernardino Barros. Cartas elementares de Portugal para uso das escolas approvadas para as escolas primarias pela Junta Consultiva de Instrucção Publica, e duas d’ellas duas vezes premiadas na exposição de Philadelphia de 1876. Lisboa: Lallemant Frères, 1878. 

Gomes, Bernardino Barros. “Observações florestaes de uma jornada pela Beira feita em Agosto de 1876.” Boletim da Sociedade Broteriana 27 (1917): 198–211.

Bibliografia

Almeida, Antonio Mendes de. “Elogio historico do silvicultor Bernardino Barros Gomes.” Revista Agronómica 15 (1920): 1–21.

Devy-Vareta, Nicole e João Carlos Garcia. “Bernardino Barros Gomes e a silvicultura no desenvolvimento da geografia portuguesa oitocentista.” Revista da Faculdade de Letras 12(5) (1989): 139–148.

Devy-Vareta, Nicole, José Resina Rodrigues e João Carlos Garcia. “Introdução”. In Cartas elementares de Portugal para uso das escolas, III-XVI. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1990.

Guimarães, P. Bráulio. Padre Barros Gomes, vítima da República. Lisboa: Alêtheia Editores, 2006

Ribeiro, Orlando. “Barros Gomes, geógrafo.” Revista da Faculdade de Letras de Lisboa 2(1) (1934): 104–112.