Tavares, Joaquim da Silva

Vila de Rei, 17 agosto 1866 — Paris, 2 setembro 1931

Palavras-chave: Brotéria, Companhia de Jesus, botânica, zoologia, cecídias.

Joaquim da Silva Tavares, S.J. ingressou na Companhia de Jesus com catorze anos, no dia 13 de novembro de 1880. Depois de dois anos no Noviciado do Barro em Torres Vedras, estudou Humanidades (1882–1885) e Filosofia (1885–1888) no Colégio de São Francisco em Setúbal. Entre 1889 e 1894 foi professor de Física, Química e História Natural no Colégio de Campolide (1889) em Lisboa e no Colégio de São Fiel (1890–1894) em Louriçal do Campo, onde ensinou também Latim e Grego. Tal como todos os seus companheiros jesuítas neste período, estudou Teologia fora de Portugal, primeiro em Uclés (1894–1897), na província de Cuenca em Espanha e depois em Vals-près-le-Puy na região de Haute Loire em França (1897–1898). Foi ordenado sacerdote em Uclés no dia 20 de junho de 1897 e, entre 1898 e 1899, esteve em Viena para se preparar para a profissão dos últimos votos na Companhia de Jesus. De regresso a Portugal, ensinou Física, Química e Mecânica no Colégio de São Francisco (1899–1900) e Física, Química e História Natural no Colégio de São Fiel (1900–1907), onde também dirigiu o herbário e o museu de história natural. Entre 3 de julho de 1908 e 5 de outubro de 1910, foi reitor de São Fiel.

Em Outubro de 1902, Joaquim da Silva Tavares, Cândido de Azevedo Mendes, S.J. (1874–1943) e Carlos Zimmermann, S.J. (1871–1950) fundaram a revista científica Brotéria. Por ter como principal objetivo a identificação de novas espécies de animais e plantas, a Brotéria: Revista de Sciencias Naturaes do Collegio de S. Fiel tomou o nome do naturalista Félix de Avelar Brotero (1744–1828), a quem a revista era dedicada. Além de ter atingido uma longevidade singular para uma revista científica em Portugal, a Brotéria Científica (1902–2002) distinguiu-se também das outras publicações da Companhia de Jesus em todo o mundo, por ser uma revista exclusivamente científica e não uma gazeta de divulgação com fins apologéticos. Ao longo de cem anos, publicaram-se na Brotéria cerca de 1 300 artigos de investigação original, em áreas como a botânica, a zoologia, a genética e melhoramento de plantas, a bioquímica e a genética molecular. Com a fundação da Brotéria, os naturalistas da Companhia de Jesus pretendiam difundir os seus trabalhos de classificação sistemática e contribuir para o progresso da botânica e da zoologia no nosso país. Este objetivo foi alcançado através da identificação e descrição de vários milhares de espécies de animais e plantas, muitas delas novas para a ciência, sobretudo em Portugal, Espanha, Madeira, Angola, Moçambique, Brasil e Timor. Entre 1902 e 1979, foram identificadas e descritas 1 327 novas espécies de animais e 890 novas espécies de plantas na revista dos jesuítas portugueses. Durante a direção de Silva Tavares (1901–1931), a Brotéria revelou ser uma importante revista científica, de circulação nacional e internacional. A relevância das suas publicações foi reconhecida em Portugal e no estrangeiro e logo nos primeiros anos da sua existência, houve revistas científicas especializadas como o American Naturalist, Journal of Mycology e o Bulletin of the Torrey Botanical Club, o primeiro jornal de botânica editado nos Estados Unidos da América, a dedicar artigos às novas espécies identificadas e descritas pelos naturalistas da Companhia de Jesus, inserindo-as nos seus catálogos anuais. A inclusão das espécies descritas na Brotéria nestes catálogos revela a importância da circulação do conhecimento entre os jesuítas e os botânicos americanos, não só para o desenvolvimento da sistemática e da taxonomia no início do século XX, mas também para a credibilização internacional dos jesuítas portugueses.

Silva Tavares dedicou-se à identificação e descrição de cecídias, estruturas vulgarmente designadas por galhas e que se desenvolvem nas plantas como resposta ao ataque de outros seres vivos. Ao longo da sua carreira, estudou centenas de espécies de zoocecídias colecionadas em Portugal, Espanha, Áustria, Brasil, Argentina e Moçambique. Em 1900, publicou o seu primeiro trabalho sobre as zoocecídias portuguesas nos Anais de Ciências Naturais, o que lhe valeu a nomeação para membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa em 1903. Ao longo de 92 páginas, o jesuíta identificou 234 insetos cecidogénicos, 24 dos quais novos para a ciência, e setenta novas plantas hospedeiras. Os seus trabalhos de classificação sistemática de cecídias tiveram a sua continuação natural na Brotéria. No ano de fundação da revista, Silva Tavares publicou uma série de artigos sobre as cecídias portuguesas, destacando-se uma adenda ao estudo publicado nos Anais de Ciências Naturais dois anos antes, onde identificava quinze novas espécies. 

Inspirado pelo trabalho de Jean-Jacques Kieffer, S.J. (1857–1925), que tinha publicado uma resenha das zoocecídias da Europa em 1901, Silva Tavares decidiu publicar uma sinopse das espécies portuguesas em 1905. Para a conclusão deste trabalho, contou com a colaboração de diversos naturalistas para a colheita de alguns espécimes, nomeadamente Gonçalo Sampaio (1865–1937) e Augusto Nobre (1865–1945), da Academia Politécnica do Porto, e Afonso Luisier, S.J. (1872–1957). Para a classificação taxonómica de alguns espécimes, o jesuíta reconheceu ainda a importância das contribuições de Kieffer, Louis Bedel (1849–1922) e dos irmãos Joseph de Joannis, S.J. (1854–1932) e Léon de Joannis, S.J. (1843–1919). Para complementar a identificação e descrição das zoocecídias portuguesas, este estudo incluiu catorze estampas com fotografias de cerca de 240 espécies. Apesar da prática comum nos estudos sobre cecídias ser a publicação de desenhos, Silva Tavares considerava que era mais vantajoso publicar antes fotografias, por causa da sua maior fidelidade. Em 1907, o jesuíta publicou um apêndice a esta sinopse, onde identificou 32 novas espécies de cecídias e uma nova espécie de díptero. 

Em 1903, 1905 e 1914, Silva Tavares publicou os resultados dos seus estudos sobre as zoocedídias, que o botânico Carlos Azevedo de Meneses (1863–1928) lhe enviou da ilha da Madeira, e identificou 72 espécies, doze das quais novas para a ciência. Em 1908, publicou um estudo sobre as cecídias da Zambézia, onde identificou 54 espécies, onze das quais inéditas. Os espécimes da Zambézia tinham sido colhidos pelo missionário Luís Lopes, S.J. (1867–1954). Os últimos trabalhos que Silva Tavares publicou antes da expulsão dos jesuítas versavam sobre as cecídias do Brasil e do Gerês. Enquanto no primeiro estudo, descreveu quarenta espécies, a partir do material enviado pelos padres Johann Rick, S.J. (1869–1946) e Bruggmann, S.J. (1863–1922), no segundo, identificou 137 espécies.

Entre 1902 e 1906, a Brotéria afigurou-se como uma revista científica dirigida a um público académico. Neste período, Silva Tavares conseguiu estabelecer mais de uma centena de permutas com revistas nacionais e internacionais. Contudo, o número de assinantes em Portugal não era suficiente para financiar a sua publicação. Por isso, resolveu restruturar a Brotéria dividindo-a em três séries distintas: Vulgarização CientíficaBotânica e Zoologia. Enquanto as séries científicas publicaram artigos de investigação original na língua de preferência do autor (português, latim, italiano, francês, alemão, espanhol, francês ou inglês), a série de Vulgarização Científica foi integralmente escrita em português e a sua publicação teve como objetivo garantir a independência financeira à Brotéria. Dividida em seis fascículos anuais, esta série foi publicada alternadamente com os cadernos de Botânica Zoologia até 1924, dando depois origem à Brotéria Cultural. Apesar da sua curta longevidade, publicaram-se nesta série mais de quatrocentos artigos de divulgação científica em áreas como agricultura, física, geografia, medicina, higiene, química e história das ciências. O projeto de divulgação da Brotéria esteve manifestamente dependente do seu diretor e dos seus maiores colaboradores, nomeadamente os jesuítas Camilo Torrend (1875–1961), Raúl Sarreira (1889–1968), Manuel Rebimbas (1873–1944), António de Oliveira Pinto (1868–1933), Cândido Azevedo Mendes (1874–1943), Manuel Martins (1858–1940) e Artur Redondo (1873–1966) e outros cientistas e médicos portugueses e brasileiros como António Ferreira da Silva (1853–1923), Egas Moniz Barreto de Aragão (1870–1924), José Pedro Dias Chorão (1853–1928) e Fernando de Almeida e Silva (1873–1942). O empenho de Silva Tavares na publicação desta série refletiu-se sobretudo na quantidade de artigos que escreveu. Ao longo de dezoito anos, o diretor da Brotéria publicou 174 artigos na Brotéria: Vulgarização Científica, o que representou mais de 40% de todos os artigos publicados nesta série. A partir dos artigos que escreveu na Vulgarização Científica, publicou um volume sobre As fruteiras do Brasil em 1923.

Após a implantação da República, Silva Tavares foi forçado a exilar-se, tendo chegado a Salamanca a 13 de outubro de 1910. No dia 7 de novembro partiu de Cádis para Buenos Aires, onde chegou no dia 25 desse mês. De Buenos Aires seguiu para a Baía, onde restabeleceu, em 1912, a publicação da Brotéria, que assumiu então o subtítulo de Revista Luso-Brasileira. Permaneceu no Brasil até 1914, data em que regressou a Espanha, fixando-se na Galiza, primeiro em Pontevedra e depois no Colégio de La Guardia. Tal como os seus companheiros jesuítas, viu as suas coleções confiscadas pelo Governo Provisório. Embora desse razão a Silva Tavares, António José de Almeida (1866–1929), ministro do Interior, acabou por entregar a resolução deste assunto ao ministro da Justiça, Afonso Costa (1871–1937), que recusou as pretensões do jesuíta. Assim, apesar da insistência de Veríssimo de Almeida (1834–1915), Marck Athias (1875–1946), Carlos Arruda Furtado (1886–1953), António Ferreira da Silva (1853–1923) e Ricardo Jorge (1858–1934), Silva Tavares só recuperou as suas coleções de cecídias quando regressou a Portugal em 1928.

No exílio, Silva Tavares estudou as cecídias e os insetos cecidogénicos da Argentina, do Brasil e da Península Ibérica. Em 1915, fruto da sua breve estadia em Buenos Aires, publicou um artigo sobre as cecídias da Argentina, onde identificou e descreveu 73 espécies. Entre 1916 e 1924, publicou uma série de artigos sobre os insetos das famílias Cynipidae e Cecidomyiidae da Península Ibérica, onde identificou e descreveu pela primeira vez oito géneros, 33 espécies, dez subespécies e uma variedade. Entre 1918 e 1922, descreveu nas páginas da Brotéria onze novos géneros e trinta novas espécies de cecídias do Brasil. Em 1925, publicou uma “Nova contribuição para o estudo da cecidologia brasileira”, onde identificou um novo género e cinco novas espécies de galhas. Entre 1927 e 1931, a Brotéria editou um conjunto de artigos de Silva Tavares sobre os insetos da família Cynipidae encontrados na Península Ibérica. Nestes artigos, o jesuíta descreveu seis novas espécies e seis novas subespécies destes insetos. Em 1931, Silva Tavares reuniu estes trabalhos numa monografia intitulada Cynipidae Peninsulae Ibericae. O primeiro volume, profusamente ilustrado, compreendeu os artigos publicados até 1928. Com a morte de Silva Tavares, o segundo volume, que incluía os artigos publicados entre 1930 e 1931, ficou incompleto e nunca chegou a ser publicado.

Durante a direção de Silva Tavares, a publicação da Brotéria foi reconhecida no Brasil, onde a revista recebeu duas medalhas de ouro, a primeira na Exposição do Liceu de Artes e Ofícios da Baía, em 1913, e a segunda na Exposição Internacional do Rio de Janeiro, em 1922. Enquanto esteve sediada na Baía (1912–1914), por causa do exílio dos jesuítas, a sua subsistência financeira foi garantida, em grande medida, por assinantes brasileiros, dado que existiam na Europa apenas 98 assinantes. Em 1927, a situação já se tinha invertido e a maioria dos assinantes encontrava-se no nosso país. De regresso a Portugal em 1928, Silva Tavares foi convidado para trabalhar no Instituto Rocha Cabral e em 1930 conseguiu que a Brotéria – Botânica e a Brotéria – Zoologia fossem subsidiadas pela recém-criada Junta de Educação Nacional. Apesar de ter publicado a grande maioria dos seus trabalhos na Brotéria, publicou também no Boletim da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, na Marcellia, nos Annales de la Societé Linnéenne, e em atas de encontros organizados pela Associación Española para el Progresso de las Ciencias. Entre os seus principais correspondes estrangeiros encontravam-se os jesuítas Jean-Jacques Kieffer, Joseph de Joannis, Léon de Joannis e Johann Rick, e ainda os naturalistas italianos Alfredo Corti (1880–1973) e Mario Bezzi (1868–1927).

Pelas suas atividades científicas em torno da identificação e classificação sistemática de cecídias, a sua reputação científica foi-se construindo, quer a nível nacional, quer no panorama internacional. Além de ter sido cofundador da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais e da Sociedade Ibérica de Ciências Naturais, pertenceu ainda a várias outras reputadas academias científicas nacionais e estrangeiras como a Reial Acadèmia de Ciències i Arts de Barcelona, a Société Lynnéenne, a Sociedad Española de Historia Natural, a Asociación Española para el Progreso de las Ciências, a Associação Portuguesa para o Progresso das Ciências, a Société Entomologique de France, a Sociedade Entomológica de España, o Museu Nacional do Rio de Janeiro e a Accademia Pontificia dei Nuovi Lincei. O reconhecimento científico atingiu o seu apogeu com a nomeação, por unanimidade, para sócio efetivo da Academia das Ciências de Lisboa. A eleição, realizada a 6 de março de 1928, foi amplamente noticiada nos periódicos portugueses e valeu a Silva Tavares a felicitação pessoal de Egas Moniz. Ocorrida em plena Ditadura Militar, esta nomeação foi um dos primeiros sinais públicos de reconhecimento científico dos jesuítas, em Portugal, após a implantação da República em outubro de 1910. 

Silva Tavares morreu no dia 2 de setembro de 1931 em Paris e foi homenageado na Academia das Ciências no dia 5 de novembro de 1936, numa sessão realizada por Aquiles Machado (1862–1942), Celestino da Costa (1844–1956) e Antero Seabra (1897–1983), seu sucessor na Academia.

Francisco Malta Romeiras

Obras

Tavares, Joaquim da Silva. “As Zoocecidias Portuguesas. Enumeração das espécies até agora encontradas em Portugal e descrição de dezanove ainda não estudadas.” Anais de Ciências Naturais 7 (1900): 17–106.

Tavares, Joaquim da Silva. “As Zoocecidias portuguesas: Addenda.” Brotéria 1 (1902): 5–48.

Tavares, Joaquim da Silva. “Zoocecidias dos suburbios de Vienna d’Austria.” Brotéria 1 (1902): 77–94.

Tavares, Joaquim da Silva. “Zoocecidias da ilha da Madeira.” Brotéria 2 (1903): 179–186; 4 (1905): 221–227.

Tavares, Joaquim da Silva. “Zoocecidias da ilha da Madeira.” Brotéria: Zoologia 12 (1914): 193–197.

Tavares, Joaquim da Silva. “Synopse das Zoocecidias Portuguesas.” Brotéria 4 (1905): v–xii, 1–123.

Tavares, Joaquim da Silva. “Contributio prima ad cognitionem cecidologiae Regionis Zambeziase.” Brotéria: Zoologia 7 (1908): 133–174.

Tavares, Joaquim da Silva. “Cécidologie Argentine.” Brotéria: Zoologia 13 (1915): 88–128.

Tavares, Joaquim da Silva. “Espécies novas de Cynípides e Ceccidomyas da Península Ibérica, e descrição de algumas já conhecidas.” Brotéria: Zoologia 14 (1916): 65–136; 16 (1918): 130–142; 17 (1919): 5–101; 18 (1920): 43–69; 20 (1922): 97–155; 21 (1924): 5–48.

Tavares, Joaquim da Silva. “Cecidologia Brasileira.” Brotéria: Zoologia 16 (1918): 21–28; 18 (1920): 82–125; 19 (1921): 76–112; 20 (1922): 5–48.

Tavares, Joaquim da Silva. “Os Cynípides da Península Ibérica.” Brotéria: Zoologia 24 (1927): 16–78; 25 (1928): 11–152; 26 (1930): 25–53; 27 (1931): 5–100.

Bibliografia sobre o biografado

Carvalho, José Vaz de. “Joaquim da Silva Tavares.” In Diccionario Histórico de la Compañía de Jesús, vol. 4: 3706. Madrid e Roma: Universidade Pontificia Comillas e Institutum Historicum Societatis Iesu, 2001.

Leite, Serafim. “J.S. Tavares.” Brotéria: Fé, Ciências, Letras 13 (1931): 273–297.

Luisier, Afonso. “In memoriam. Le R. P. J. da Silva Tavares, S.J.” Brotéria: Ciências Naturais 1 (1932): 9-34.

Maurício, Domingos. “O fundador da Brotéria na Academia.” Brotéria: Revista Contemporânea de Cultura 23 (1936): 449–455.

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. xxx: 811–814. Lisboa e Rio de Janeiro: Verbo, 1936–1960

Zimmermann, Carlos (Karl Zimmermann)

Ehigen, Baden-Württemberg, Alemanha, 28 março 1871 — Salvador, Baía, Brasil, 21 outubro 1950

Palavras-chave: Brotéria, Companhia de Jesus, diatomáceas, botânica.

Carlos Zimmermann, S.J. entrou na Companhia de Jesus através da província de Lyon, em data incerta, mas só iniciou a sua formação religiosa em Portugal em 1890. No dia 7 de Setembro desse ano, ingressou no Noviciado do Barro em Torres Vedras, onde estudou Humanidades e foi responsável pelo ensino de Música até 1892. Depois de ter completado os seus estudos de Filosofia e Ciências Naturais no Colégio de São Francisco (1892–1895) em Setúbal, foi nomeado professor no Colégio de São Fiel, onde permaneceu até 1902. Estudou Teologia em Canterbury, Inglaterra (1902–1905), e no Colégio de Santo Inácio em Enlway, Irlanda (1905–1906). De regresso a Portugal, esteve no Noviciado do Barro (1906–1907), para se preparar para a profissão dos últimos votos na Companhia de Jesus. Em 1907, foi destacado para o Colégio do Porto e foi encarregue de organizar o Museu de História Natural que se estava então a constituir. Com o encerramento deste colégio em 1909, Zimmermman regressou a São Fiel, onde permaneceu até 1910. Nos dois períodos em que esteve neste colégio (1895–1902 e 1909–1910), ensinou Física, Química, História Natural, Música, Latim, História, Geografia, Desenho e Alemão. No ano letivo de 1897–1898, Zimmermann foi responsável pela constituição do herbário do Colégio de São Fiel. Em 1910, este herbário era constituído por mais de duas mil espécies de líquenes, musgos, fungos, fanerogâmicas e cerca de três mil espécies de diatomáceas.

Juntamente com Joaquim da Silva Tavares, S.J. (1866–1931) e Cândido de Azevedo Mendes, S.J. (1874–1943), fundou no Colégio de São Fiel, em 1902, a Brotéria, uma revista científica dedicada à identificação, descrição e classificação de novas espécies de animais e plantas. Promotor ativo do ensino experimental das ciências naturais, publicou, entre 1902 e 1907, uma série de quatro artigos na Brotéria, intitulada “Microscopia vegetal”, onde encorajava os professores de História Natural dos liceus portugueses a usar o microscópio nas suas aulas. Uma vez que o seu objetivo era promover o ensino experimental da botânica, estes artigos continham descrições pormenorizadas dos instrumentos e dos métodos relevantes para se obterem preparações definitivas para observação microscópica. 

Entre os seus principais correspondentes estrangeiros, encontravam-se os naturalistas franceses Maurice Peragallo (1853–1931), autor de uma vasta obra sobre a identificação e classificação de diatomáceas e antigo professor de Zimmermann em Paris, e Joannes Albert Tempère (1847–1926), colecionador destas algas microscópicas e criador de meios de montagem específicos para a sua observação microscópica. Pontualmente, Zimmermann correspondeu-se ainda com Frederico Oom (1864–1930), direor do Observatório Astronómico de Lisboa, com quem se aconselhou sobre a construção de um observatório meteorológico no Colégio de São Fiel. Situado a 2 km da serra da Gardunha, a uma altitude superior a 500 m, este observatório começou a ser construído em 1901 e entrou em funcionamento em Janeiro de 1902. As observações meteorológicas realizadas em São Fiel eram relatadas duas vezes por dia ao Observatório do Infante D. Luís e constavam do relatório anual desta instituição.

Na sequência dos bombardeios ao Colégio de Campolide na tarde de 4 de Outubro de 1910, um grupo de quinze jesuítas dirigiu-se à estação de comboios de Campolide, deixando a maior parte dos seus bens no colégio. Carlos Zimmermann fazia parte deste grupo e sofreu dois atentados no caminho para a estação, onde foi depois assaltado por um revolucionário. Consigo levou apenas o microscópio, deixando no colégio não só as suas coleções de diatomáceas, mas também alguns livros, manuscritos e desenhos de preparações destas algas microscópicas. Após a implantação da república, estes bens foram confiscados pelo Governo Provisório. Exilado no Brasil desde Março de 1911, conseguiu recuperar as suas coleções em novembro desse ano, graças ao apoio do naturalista José da Silva e Castro (1842–1928) e à intervenção de António Machado (1833–1969), membro da comissão nomeada para inventariar as coleções científicas e a biblioteca do Colégio de Campolide e filho de Bernardino Machado (1833–1969), então ministro dos Negócios Estrangeiros. Apesar do apoio da comunidade científica nacional e internacional, Zimmermann não conseguiu recuperar os livros que estavam no Colégio de Campolide, nem o herbário do Colégio de São Fiel, que após a expulsão dos jesuítas foi enviado para Universidade de Coimbra, onde ficou, provavelmente, a cargo de Júlio Henriques (1838–1928).

Reconhecido em Portugal e no estrangeiro pela relevância do seu trabalho de classificação sistemática, Zimmermann integrou importantes academias científicas como a Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, da qual era sócio fundador, e a Royal Microscopical Society. Entre 1902 e 1919, identificou e descreveu centenas de espécies de diatomáceas em Portugal, no Brasil, em Moçambique e nas ilhas da Madeira e de Porto Santo. Em Portugal identificou 27 famílias, 73 géneros e 400 espécies de diatomáceas (das quais 340 nunca tinham sido observadas) e na Madeira registou cerca de 200 espécies diferentes. Entre 1913 e 1919, publicou uma série de artigos na Brotéria sobre as diatomáceas do Brasil (Baía, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul), onde registou cerca de 800 espécies diferentes. Ao longo da sua carreira, identificou e descreveu 80 novas espécies de diatomáceas.

A partir de 1911, Zimmermann foi professor no Colégio Padre António Vieira, criado na Baía pelos jesuítas portugueses exilados. Foi ainda bibliotecário deste colégio e diretor do Museu de Ciências Naturais. Em 1921, pediu a secularização e abandonou a Companhia de Jesus. Morreu na cidade de Salvador da Baía no dia 21 de outubro de 1950.

Francisco Malta Romeiras

Obras

Zimmermann, Carlos. “Observatorio Metereologico do Collegio de S. Fiel.” Brotéria 1 (1902): 185–188.

Zimmermann, Carlos. “Microscopia vegetal.” Brotéria 1 (1902): 49–75; 2 (1903): 5–40; 4 (1905): 137–159; 5 (1906): 229–244.

Zimmermann, Carlos. “Os Jesuitas e a Astronomia nos seculos 17 e 18.” Brotéria 5 (1906): 125–128.

Zimmermann, Carlos. “Catálogo das Diatomaceas portuguezas.” Brotéria 5 (1906): 245–251; Brotéria: Botânica 8(1909): 89–103; 9 (1910): 95–102; 12 (1914): 115–124.

Zimmermann, Carlos. “Diatomaceas. Como se colhem e preparam.” Brotéria: Vulgarização Científica 9 (1910): 42–51.

Zimmermann, Carlos. “Contribuições para o estudo das Diatomaceas dos Estados Unidos do Brasil.” Brotéria: Botânica11 (1913): 149–164; 12 (1914): 5–12; 13 (1915): 37–56, 65–71 e 124–146; 14 (1916): 85–103 e 130–157; 15 (1917): 30–45; 16 (1918): 8–24 e 113–122; 17 (1919): 5–16.

Zimmermann, Carlos. “Contribuição para o conhecimento das Diatomaceas da Provincia de Moçambique.” Brotéria: Botânica 12 (1914): 155–162.

Zimmermann, Carlos. “Algumas Diatomaceas novas ou curiosas.” Brotéria: Botânica 13 (1915): 33–36; 15 (1917): 5–7; 16 (1918): 84–95.

Zimmermann, Carlos. “Quelques Diatomées nouvelles ou curieuses.” Brotéria: Botânica 17 (1919): 97–100.

Bibliografia sobre o biografado

Romeiras, Francisco Malta. “Constituição e percurso das colecções científicas dos jesuítas exilados pela 1ª República: o caso de Carlos Zimmermann SJ (1871-1950).” Archivum Historicum Societatis Iesu 86 (168) (2015): 287–327.

Romeiras, Francisco Malta e Henrique Leitão. “Jesuítas e Ciência em Portugal. II: Carlos Zimmermann SJ e o ensino da Microscopia Vegetal.” Brotéria 174 (2012): 113–125.

Gomes, Doriedson Ferreira, Oberdan Caldas, Eduardo Mendes da Silva, Peter Andrew Gell e David M. Williams. “Father Zimmermann (1871–1950): the first Brazilian diatomist.” Diatom Research 27 (2012): 177–188.

Franco, José Eduardo. “Carlos Zimmermann.” In Fé, Ciência, Cultura: Brotéria–100 anos, ed. Hermínio Rico e José Eduardo Franco, 149–150. Lisboa: Gradiva, 2003.

Mendes, Cândido de Azevedo

Torres Novas, 17 janeiro 1874 — Ceará, 16 dezembro 1943 

Palavras-chave: Brotéria, Companhia de Jesus, lepidópteros, zoologia.

Cândido de Azevedo Mendes, S.J. ingressou na Companhia de Jesus no dia 17 de setembro de 1888. Estudou Humanidades no Noviciado do Barro em Torres Vedras e no Colégio de São Francisco em Setúbal (1890–1893) e Filosofia e Ciências Naturais no Colégio de São Fiel em Louriçal do Campo (1893–1896). Entre 1896 e 1902, foi professor de Matemática, Física, Química e Ciências Naturais em São Fiel, onde fundou em 1902, com Joaquim da Silva Tavares, S.J. (1866–1931) e Carlos Zimmermann S. J. (1871–1950), a revista científica Brotéria: Sciencias Naturaes. Entre 1902 e 1906, estudou Teologia na Universidade Gregoriana em Roma, tendo sido ordenado sacerdote no ano de 1905. Em 1906, regressou a Portugal para terminar a sua formação na Companhia de Jesus. Esteve um ano no Noviciado do Barro e depois regressou a São Fiel como professor de Matemática, Física, Química e Ciências Naturais.

Azevedo Mendes foi um dos autores mais profícuos da Brotéria, tendo publicado ao longo da sua carreira 48 artigos. A maioria dos seus trabalhos incidiu sobre a identificação e classificação de novas espécies de lepidópteros em Portugal, Espanha, Moçambique, Angola e Roma. Entre 1902 e 1913, o jesuíta publicou na Brotéria os seus primeiros trabalhos de classificação sobre os lepidópteros da região de São Fiel. Para a conclusão desta obra, na qual descreveu mais de 800 espécies, contou com a colaboração de León de Joannis, S.J. (1843–1919) e Joseph de Joannis, S.J. (1864–1932), da Societé Entomologique de France, de José da Cruz Tavares, S.J. (1847–1916), reitor de São Fiel, e de Luís Alves Correia, S.J. (1862–1945). Enquanto os entomólogos franceses tinham ajudado na classificação de alguns espécimes, os jesuítas portugueses tinham auxiliado na captura de alguns lepidópteros diurnos e noturnos. Em 1904, fruto da correspondência com Azevedo Mendes sobre os lepidópteros de São Fiel, Joseph de Joannis descreveu na Brotéria um novo género de lepidópteros que, em homenagem ao jesuíta português, batizou de Mendesia. À primeira espécie descrita deste género (Mendesia echiella) viria a juntar-se em 1909 uma nova espécie, identificada e classificada por Azevedo Mendes como Mendesia joannisiella, em homenagem ao entomólogo francês. Depois de completar o catálogo da região de São Fiel, Azevedo Mendes estudou os lepidópteros de outras localidades onde os jesuítas portugueses se tinham estabelecido desde meados do século XIX, como Torres Vedras, Guimarães, Campolide e Vale do Rosal. Alguns dos espécimes coletados por Azevedo Mendes na região de São Fiel e em Torres Vedras encontram-se atualmente no Muséum National d’Histoire Naturelle em Paris, na coleção dos irmãos Joannis. Estes espécimes têm sido utilizados por diversos entomologistas na descrição e identificação de novas espécies de lepidópteros, tais como: Symnoca serrata Gozmány (1985), Pleurota gallicella Huemer & Luquet (1995) e Homoeosoma soaltheirellum Roesler (1965).

Após a expulsão dos jesuítas em 1910, as suas coleções de lepidópteros foram confiscadas pelo Governo Provisório da República Portuguesa e enviadas para a Universidade de Coimbra. Exilado em Salamanca, Azevedo Mendes ainda se empenhou em recuperá-las, mas não teve sucesso. Entre 1911 e 1913, publicou dois importantes opúsculos: A Brotéria no exílio e O Collegio de São Fiel: Resposta ao Relatório do Sr. Advogado José Ramos Preto. Centrados na expulsão republicana, estes textos pretendiam rebater as principais acusações sobre o ensino dos jesuítas em Portugal e ilustrar a indignação da comunidade científica nacional e internacional em relação ao destino das coleções científicas dos jesuítas portugueses. Enquanto esteve exilado, prosseguiu os seus trabalhos de taxonomia, tendo estudado, sobretudo, os lepidópteros de Espanha, Angola e Moçambique. Após a expulsão da Companhia de Jesus de Espanha em 1932, o governo de Manuel Azaña (1880–1940) confiscou as coleções que Azevedo Mendes tinha constituído ao longo de vinte anos de exílio. Enquanto as coleções confiscadas pelo República Portuguesa permanecem na secção de zoologia do museu da Universidade de Coimbra, as coleções confiscadas pelo governo espanhol acabaram por ser restituídas ao jesuíta, e encontram-se atualmente no Instituto Nun’Alvres, nas Caldas da Saúde, em Santo Tirso.

A Brotéria foi um veículo especialmente importante para a identificação, descrição e classificação de novas espécies de animais e plantas no início do século XX, não só em Portugal Continental, mas também no Brasil, na Madeira, nos Açores, em Moçambique e em Angola. Neste contexto, as missões dos jesuítas foram particularmente relevantes, dado que, além das tarefas oficiais que lhes tinham sido atribuídas, os missionários eram instruídos a recolher novos espécimes de animais e plantas que, por sua vez, deveriam ser enviados aos naturalistas para serem identificados e descritos. Um exemplo desta circulação de espécimes, envolve precisamente Cândido de Azevedo Mendes, o seu irmão João (1883–1940) e outros dois missionários jesuítas. Como resultado desta correspondência, Azevedo Mendes publicou uma lista contendo cerca de 180 espécies de lepidópteros presentes nos territórios das antigas missões lusitanas da Zambézia e de Angola. 

Cândido de Azevedo Mendes pertenceu a várias sociedades científicas, entre as quais se destacavam a Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, da qual tinha sido sócio fundador, e a Società Entomologica Italiana. A partir de 1918, a sua atividade científica diminuiu significativamente, provavelmente por causa dos cargos de governo que desempenhou na Companhia de Jesus a partir dessa altura. Foi superior da residência de Tuy (1913–1917) e da casa de escritores de Pontevedra (1917–1919) e desempenhou ainda por duas vezes o cargo de provincial da Companhia de Jesus em Portugal (1919–1924; 1927–1933) e o cargo de vice-provincial dos jesuítas no Brasil Setentrional (1938–1942). Morreu no dia 16 de dezembro de 1943, em Baturité, Ceará, Brasil.

Francisco Malta Romeiras

Obras

Mendes, Cândido de Azevedo. O Collegio de S.Fiel: Resposta ao Advogado Sr. José Ramos Preto. Madrid: López del Horno, 1911.

Mendes, Cândido de Azevedo. A Brotéria no exílio. Madrid: Imprenta Ibérica, 1913.

Mendes, Cândido de Azevedo. “Lepidopteros de S. Fiel (Portugal).” Brotéria 1 (1902): 151–71; Brotéria 2 (1903): 41–80; Brotéria 3 (1904): 223–54; Brotéria 4 (1905): 166–77; Brotéria: Zoologia 10 (1912): 161–82; Brotéria: Zoologia 11 (1913): 15–44.

Mendes, Cândido de Azevedo. “Lepidoptera africana.” Brotéria: Zoologia 10, (1912): 183–193.

Mendes, Cândido de Azevedo. “Altera nova Mendesia ex Lusitania.” Brotéria: Zoologia 8 (1909): 65–67.

Mendes, Cândido de Azevedo. “Lepidopteros romanos (Roma, Castelli Romani).” Brotéria: Zoologia 9 (1910): 132–133.

Mendes, Cândido de Azevedo. “Lithocolletes et Nepitucale novae ex Lusitania.” Brotéria: Zoologia 9 (1910): 163–166.

Mendes, Cândido de Azevedo. “Nepticula et Colephora novae ex Lusitania.” Brotéria: Zoologia 9 (1910): 102–104.

Mendes, Cândido de Azevedo. “Contribuição para a fauna lepidopterica da Galliza e do Minho.” Brotéria: Zoologia 12, (1914): 61–75 e 204–208.

Mendes, Cândido de Azevedo. “Lepidopteros de Salamanca.” Brotéri: -Zoologia 13 (1915): 55–61; 16 (1918): 111–129.

Bibliografia sobre o biografado

Agenjo, Ramón. “Nota necrológica. R. P. Candido Mendes d’Azevedo, S.J. (1874–1943).” Graellsia 2 (1944): 53–59.

Corley, Martin. “The Lepidoptera collections of deceased Portuguese entomologists.” Entomologist’s Gazette 59 (2008): 145–171.

Carvalho, José Vaz de. “Cândido Azevedo Mendes.” In Diccionario Histórico de la Compañía de Jesús, vol. 3: 2618. Madrid e Roma: Universidade Pontificia Comillas, Institutum Historicum Societatis Iesu, 2001.

Franco, José Eduardo. “Cândido Mendes.” In Fé, Ciência, Cultura: Brotéria–100 anos, ed. Hermínio Rico e José Eduardo Franco, 147–148. Lisboa: Gradiva, 2003.Luisier, Afonso. “R.P. Cândido Azevedo Mendes (SJ).” Brotéria: Ciências Naturais 13 (1944): 43–48.

Torrend, Camilo (Camille Torrend)

Saint-Privat d’Allier, Haute-Loire, França, 21 junho 1875 — Salvador, Baía, Brasil, 24 junho 1961

Palavras-chave: Brotéria, Companhia de Jesus, fungos, botânica.

Camilo Torrend, S.J. tinha dezanove anos quando entrou na Companhia de Jesus no Noviciado do Barro, em Torres Vedras, no dia 25 de outubro de 1894. A decisão de ingressar na Companhia de Jesus em Portugal prendeu-se com o desejo de vir a ser missionário na Zambézia, à semelhança do seu irmão Jules (1861–1936). Depois de três anos no Noviciado do Barro, estudou Filosofia e Ciências Naturais no Colégio de São Fiel (1897–1898) em Louriçal do Campo e no Colégio de São Francisco (1900–1902) em Setúbal. Entre 1904 e 1908, estudou Teologia em Dublin e foi ordenado sacerdote nesta cidade no dia 29 de julho de 1907. De regresso a Portugal, foi destinado para o Colégio de Campolide, em Lisboa, onde se focou na identificação e caracterização de novas espécies de fungos. Neste colégio, constituiu uma importante coleção de 283 mixomicetes, na qual se encontravam representadas 199 espécies diferentes. Antes do exílio, realizou diversas expedições para recolha de fungos em Almada, no Vale do Rosal, na Costa de Caparica, em Setúbal e na Serra de Monchique. 

No dia 6 de outubro de 1910, Torrend encontrava-se no Noviciado do Barro, onde estava a terminar a sua formação religiosa, quando toda a comunidade, constituída por noventa jesuítas, foi presa por ordem de Afonso Costa. Graças à ação diplomática francesa, foi libertado da prisão de Caxias no dia 12. Nesse dia foi entrevistado por Afonso Costa que lhe ofereceu uma cátedra na Universidade de Coimbra, caso quisesse permanecer em Portugal. Torrend recusou a oferta do ministro da Justiça e acabou por embarcar para Londres no dia 18 de outubro. Tal como acontecera com os seus companheiros jesuítas, viu as suas coleções científicas confiscadas pelo Governo Provisório. Contudo, graças à intervenção do embaixador francês, conseguiu recuperá-las em abril de 1913.

Torrend foi um dos principais autores da Brotéria, a revista científica fundada por três jesuítas portugueses no Colégio de São Fiel em 1902. Ao longo da sua carreira, identificou e descreveu centenas de espécies de fungos em Portugal, na Madeira, em Moçambique, em Timor e no Brasil. No primeiro artigo que publicou na Brotéria, Torrend identificou 512 espécies de fungos na região de Setúbal. Na época, este trabalho foi reconhecido por Júlio Henriques (1838–1928) e José Veríssimo de Almeida (1834–1915) como uma das mais importantes contribuições para o estudo da flora micológica portuguesa. Em 1905, quando ainda estava em Dublin a estudar Teologia, Torrend publicou a sua primeira contribuição para o estudo dos fungos de Moçambique. Neste trabalho, identificou 36 fungos pertencentes à flora da Zambézia e, juntamente, com o Padre Giacomo Bresadola (1847–1929), fundador da Societé Mycologique de France, descreveu duas espécies novas para a ciência. Estes espécimes tinham sido recolhidos pelo seu irmão Jules e por Luís Gonzaga Dialer, S.J. (1866–1943), missionários em Mururú, no distrito do Zumbo, e enviados para Torrend, para posterior identificação e descrição. Entre 1907 e 1908, o jesuíta publicou na Brotéria: Botânica uma importante resenha com as 271 espécies de mixomicetes conhecidas até então. Além de uma tabela geral de géneros, espécies e sinonímias, a revista dos jesuítas portugueses publicou ainda 240 ilustrações de mixomicetes em nove estampas diferentes. Entre 1909 e 1913, Torrend estudou os cogumelos da ilha Madeira e identificou 338 espécies, 31 das quais novas para a ciência. Estes fungos tinham sido recolhidos por Carlos Azevedo Meneses (1863–1928) e pelos padres Jaime Gouveia Barreto (1887–1963) e Manuel da Silveira, seus correspondentes na Madeira. Entre 1922 e 1935, publicou na Brotéria, uma série de artigos sobre os basidiomicetes da família Polyporaceae do Brasil, tendo identificado e descrito 115 espécies diferentes, uma das quais inédita. Apesar da Brotéria ter editado a maioria dos seus trabalhos de classificação sistemática, Torrend publicou também no Boletim da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, no Bulletin de la Societé Mycologique de France, nas Mycological Notes e no The Irish Naturalist.

Ao longo da sua carreira, Torrend publicou alguns artigos de divulgação científica, nomeadamente na Brotéria-Vulgarização Científica (1907–1924), tendo-se destacado, neste contexto, o texto que escreveu sobre a expedição de Eddington e Crommelin a São Tomé e Príncipe e ao Brasil, para a observação do eclipse total de 29 de maio de 1919. Por ter publicado o artigo antes de terem sido analisadas as chapas fotográficas do eclipse, Torrend apresentou os três cenários possíveis, salientando qual o resultado que poderia confirmar a teoria da relatividade de Einstein 

Entre 1912 e 1914, foi professor no Instituto Nun’Álvares (Château de Dielighem, Bruxelas). Com o início da Primeira Guerra Mundial, Torrend partiu para o Brasil. Ensinou Apologética e Biologia no Colégio Padre António Vieira, em Salvador da Baía (1914–1953) e regeu a cátedra de Fitopatologia e Botânica na Escola Agrícola da Baía entre 1932 e 1943. Sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais e membro da Real Sociedade de Agricultura de Turim e da Real Academia das Ciências, Torrend foi ainda conselheiro do Diretório Regional de Geografia do Brasil e presidente da Sociedade Baiana de História. Quando o micólogo brasileiro Augusto Chaves Batista (1916–1967), que tinha como seu aluno, criou o Instituto de Micologia da Universidade Federal de Pernambuco, em 1954, decidiu dar o nome do jesuíta ao herbário. Constituído por cerca de 88 mil registos de fungos e 46 mil exsicatas é considerado atualmente o maior herbário do género da América Latina. Em 1957, a Universidade do Recife distinguiu-o com um doutoramento honoris causa.

Morreu com 86 anos em Salvador da Baía, no Brasil, no dia 24 de junho de 1961.

Francisco Malta Romeiras

Obras

Torrend, Camilo. “Contribuições para o estudo dos fungos da região setubalense.” Brotéria 1, (1902): 93–150; 2 (1903): 123–148; 4 (1905): 207–211.

Torrend, Camilo. “Primeira contribuição para o estudo da llora mycologica da provincia de Moçambique.” Brotéria 4 (1905): 212–221.

Torrend, Camilo. “Les Myxomycètes. Étude des espèces connues jusqu’ici.” Brotéria: Botânica 6 (1907): 5–64; 7 (1908): 5–177.

Torrend, Camilo. “Contribuitions pour l’étude des champignons de l’île de Madère.” Brotéria: Botânica 8 (1909): 128–144; 10 (1912): 29–49; 11 (1913): 165–181.

Torrend, Camilo. “Fungos. Que são e como se coleccionam.” Brotéria: Vulgarização Científica 9 (1910): 95–106.

Torrend, Camilo. “Premiére contribuition à l’étude des champignons de l’île de Timor (Océanie).” Brotéria: Botânica 9 (1910): 83–91.

Torrend, Camilo. “Un nouveau genre de Discomycètes, Helolachnun aurantiacum Torrend.” Brotéria: Botânica 9 (1910): 53.

Torrend, Camilo. “Les Basidiomycètes des environs de Lisbonne et de la région de S. Fiel (Beixa Baixa).” Brotéria: Botânica 10 (1912): 192–210; 11 (1913): 54–98.

Torrend, Camilo. “O eclipse total de 29 de Maio de 1919, no Brazil.” Brotéria: Vulgarização Científica 18 (1920): 40–41.

Torrend, Camilo. “Les Polyporacées du Brésil.” Brotéria: Botânica 18, (1920): 23–43 e 121–142; 20 (1922): 107–112; 22 (1924): 12–42; 24 (1926): 5–19; Brotéria: Ciências Naturais 31 (1935): 108–120.

Bibliografia sobre o biografado

Carvalho, José Vaz de Carvalho. “Camilo Torrend.” In Diccionario Histórico de la Compañía de Jesús, vol. 4: 3816. Madrid e Roma: Universidade Pontificia Comillas e Institutum Historicum Societatis Iesu., 2001.

Pinto, António de Oliveira

Covilhã, 30 janeiro 1868 — Santo Tirso, 17 março 1933

Palavras-chave: Brotéria, Companhia de Jesus, física, radioatividade, telegrafia sem fios.

António da Costa e Oliveira Pinto tinha catorze anos quando ingressou na Companhia de Jesus no Noviciado do Barro, no dia 12 de agosto de 1882. Estudou Filosofia e Ciências Naturais no Colégio de São Francisco (1891–1893) em Setúbal e no Colégio de São Fiel (1893–1895) em Louriçal do Campo. Enquanto estudante de Filosofia, ensinou matemática em São Francisco (1892–1893) e física, química e história. Natural em São Francisco (1891–1892) e em São Fiel (1893–1895). Estudou Teologia em Oña (1895–1897) e em Vals-près-Le-Puy (1897–1899), na região de Haute-Loire, em França. Foi ordenado presbítero em 1898 em Vals-près-Le-Puy e professou os últimos votos na Companhia de Jesus a 2 de fevereiro de 1901 em Lisboa. Entre 1901 e 1910, ensinou Matemática, Física, Química e História Natural no Colégio de Campolide, em Lisboa, onde desenvolveu grande parte da sua carreira científica. 

Em Campolide, Oliveira Pinto procurou promover o ensino experimental das ciências naturais, sobretudo através da Academia Científica e Literária de Maria Santíssima Imaculada e do Instituto de Ciências Naturais. Como nos séculos anteriores, os jesuítas portugueses fomentaram a criação de academias científicas nos seus colégios. Constituídas pelos melhores alunos dos diversos anos, as academias promoviam a discussão de matérias científicas coevas nas suas sessões ordinárias. Uma ou duas vezes por ano, organizavam sessões solenes, onde os alunos explicavam os fundamentos teóricos de uma determinada tese, realizando, de seguida, experiências que a comprovassem. As sessões solenes chegaram a ser presididas pelo príncipe D. Luís Filipe e pelo infante D. Manuel de Bragança, em 1905, e pelo Diretor Geral da Instrução Pública, em 1906, e representaram um espaço da maior importância para a popularização científica dos jesuítas e para a sua credibilização enquanto cientistas e educadores modernos. Entre 1873 e 1910, as experiências realizadas em Campolide envolveram, por exemplo, descargas elétricas de alta frequência, magnetismo, raios catódicos, raios X, telegrafia sem fios, cristais sólidos e cristais líquidos. Enquanto diretor da secção de ciências da academia (1904–1910), Oliveira Pinto desempenhou um papel fundamental não só nas sessões ordinárias, mas também na escolha das teses apresentadas nas sessões solenes, como se verificou, por exemplo, no caso da telegrafia sem fios. Oliveira Pinto tinha realizado experiências com telegrafia sem fios em Campolide em 1902, isto é, apenas um ano após as primeiras experiências realizadas em Portugal. Três anos depois, na sessão solene realizada no dia 16 de março de 1905, Raúl Dias Sarreira (1889–1968), académico da classe de ciências e futuro missionário jesuíta em Moçambique (1943–1968), demonstrou publicamente como se poderiam realizar comunicações através da telegrafia sem fios.

Entre 1908 e 1910, Oliveira Pinto fundou e dirigiu em Campolide o Instituto de Ciências Naturais. Este instituto agregava num só organismo o Museu de História Natural, a biblioteca científica, o Gabinete de Física e os Laboratórios de Química, Zoologia, Botânica, Mineralogia e Ciências Naturais. Um dos principais objetivos do instituto era contribuir para a formação científica dos alunos do colégio que, por essa razão, eram convidados a participar ativamente na manutenção das coleções e nos trabalhos de classificação taxonómica. No ano da fundação do instituto, Oliveira Pinto estendeu ainda a participação aos antigos alunos, que convidava a contribuírem para as coleções do museu com animais, plantas e minerais provenientes das colónias. Em 1908, o acervo do museu era constituído por colecções etnológicas, onde se encontrava, por exemplo, a múmia que pertencera à colecção do marquês de Angeja, e que era a única existente em Portugal, colecções de numinástica e heráldica e ainda colecções mineralógicas, geológicas, zoológicas e botânicas, sendo que as colecções de musgos, fungos e de mixomicetes eram consideradas de grande qualidade pelos seus pares. Em 1909, o acervo do museu aumentou significativamente, destacando-se a entrada de mais de 1 500 novas espécies de fungos e um leão, com mais de 2 m de comprimento, trazido da Zambézia por um missionário jesuíta e preparado por António Mendes, taxidermista do museu Bocage. Das atividades pedagógicas e científicas e dos princípios que regeram o seu funcionamento compreende-se que o seu objetivo não era divulgar apenas uma versão simplificada da ciência, mas sim reproduzir, tanto quanto possível, a atividade científica em áreas como a Botânica, a Zoologia, a Física, a Química e a Mineralogia. Concebido como uma instituição de fronteira entre o ensino e a prática das ciências, o Instituto de Ciências Naturais de Campolide refletia a preocupação do seu diretor em preparar cientificamente uma nova geração e em divulgar e promover a investigação em ciências naturais no nosso país.

Um facto de especial importância na vida científica de António Oliveira Pinto foi a sua participação no I Congresso Internacional de Radiologia e Ionização, em Liège, no ano de 1905. Entre os trezentos participantes deste congresso encontravam-se, por exemplo, Arrhenius, Becquerel, Pierre Curie, Lord Kelvin, Lord Rayleigh, Rutherford e J. J. Thomson. Ao contrário de outros governos europeus, o governo português não enviou nenhuma delegação oficial a este congresso, pelo que a participação portuguesa se ficou a dever, exclusivamente, à presença de Oliveira Pinto e de outro jesuíta. Em 1910, o jesuíta português participou também no II Congresso Internacional de Radiologia, em Bruxelas. Tal como acontecera na reunião anterior, a comissão de honra deste congresso contava com a participação de físicos de renome internacional como Marie Curie, Lord Rayleigh, Ramsay, Thomson, Lorentz, Arrhenius, Poincaré e Planck. Enquanto no congresso de 1905, Oliveira Pinto não apresentou nenhuma comunicação, em 1910, apresentou os resultados das suas experiências sobre a radioatividade das águas minerais portuguesas, as primeiras experiências com radioatividade realizadas em Portugal. A realização deste estudo só fora possível porque o jesuíta tinha trabalhado nesse mesmo ano no laboratório de Pierre e Marie Curie, onde se tinha familiarizado com as técnicas radiológicas mais recentes. Para realizar os seus estudos sobre a radioatividade das águas minerais, Oliveira Pinto utilizou uma solução de brometo de rádio, obtida no laboratório dos Curie, indispensável à calibração dos eletroscópios de que se serviu. Na comunicação que apresentou em Bruxelas, o jesuíta começou por salientar a importância terapêutica da radioatividade, advertindo, no entanto, que o estudo metódico da radioatividade se encontrava ainda numa fase inicial. Depois de descrever detalhadamente a técnica utilizada, apresentou os resultados das suas experiências, concluindo que as águas minerais analisadas não eram radioativas.

Sócio da Societé Astronomique de France e da Real Sociedad Española de Física y Química, Oliveira Pinto foi ainda fundador e primeiro vice-secretário da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais. Em outubro de 1910, viu os seus instrumentos e manuscritos científicos confiscados pelo Governo Provisório da República Portuguesa. Mais tarde, conseguiu recuperar parte dos seus manuscritos, graças à intervenção de republicanos influentes. No exílio, destacou-se, sobretudo, pelos cargos governativos que desempenhou. Enquanto Provincial da Companhia de Jesus (1912-1918), estabeleceu uma casa de escritores em Alsemberg (Bélgica) em 1912. Nomeado superior da missão portuguesa do Brasil Setentrional em 1919, fundou o Colégio Manuel da Nóbrega, no Recife, e a Escola Apostólica de Baturité. Foi ainda reitor do Colégio António Vieira, na Baía, entre 1925 e 1930. Regressou a Portugal em 1932, e faleceu no dia 17 de março de 1933 nas Caldas da Saúde, em Santo Tirso.

Francisco Malta Romeiras

Obras

Pinto, António de Oliveira. “Primeiro congresso internacional de radiologia e ionização.” Brotéria 5 (1906): 129–134.

Pinto, António de Oliveira. “Crystaes líquidos.” Brotéria 5 (1906): 258–267.

Pinto, António de Oliveira. “Lampadas electricas.” Brotéria: Vulgarização Científica 7 (1908): 107–126.

Pinto, António de Oliveira. “O Instituto de Sciencias Naturaes do Collegio de Campolide.” O Nosso Collegio 5 e 6 (1908-1910): 99–113 e 143–149.

Pinto, António de Oliveira. Primeira contribuição para o estudo da radioactividade das aguas mineraes de Portugal. Porto: Typographia Occidental, 1910.

Pinto, António de Oliveira. “Première Contribution a l’Étude de la Radioactivité des Eaux Minérales du Portugal.” II Congrès International de Radiologie et d’Electricité, 3-8. Bruxelas: Imprimerie Médicale et Scientifique L. Severeyns, 1911.

Pinto, António de Oliveira. “Telegraphia sem fio.” Brotéria: Vulgarização Científica 9 e 10 (1910-1912): 181–203, 14–33 e 200–245.

Pinto, António de Oliveira. “Eclipse do sol de 17 de Abril de 1912.” Brotéria: Vulgarização Científica, 10 (1912): 194–306.

Pinto, António de Oliveira. “Liquefacção e solifidicação do Hydrogenio.” Brotéria: Vulgarização Científica 10 (1912): 287–293.

Pinto, António de Oliveira. “O estudo da radioactividade da materia. Laboratorio de Giff.” Brotéria: Vulgarização Científica 11 (1913): 51–68.

Pinto, António de Oliveira. “A radioactividade das aguas medicinaes de fraca mineralização.” Brotéria: Vulgarização Científica 13 (1915): 244–245.

Bibliografia sobre o biografado

Carvalho, José Vaz de. “António da Costa e Oliveira Pinto.” In Diccionario Histórico de la Compañía de Jesús, vol. 4: 3141. Madrid e Roma: Universidade Pontificia Comillas e Institutum Historicum Societatis Iesu, 2001.Romeiras, Francisco Malta e Henrique Leitão. “Jesuítas e ciência em Portugal. I: António Oliveira Pinto S. J. e as primeiras experiências com radioactividade em Portugal.” Brotéria 174 (2012): 9–20.

Luisier, Afonso (Alphonse Luisier)

Fregnoley, Valais, Suíça, 6 fevereiro 1872 — Caldas da Saúde, Santo Tirso, 4 novembro 1957

Palavras-chave: Brotéria, Botânica, Briologia, Companhia de Jesus

Nascido na Suíça, a 6 de fevereiro de 1872, Afonso Luisier, S.J. ingressou na Companhia de Jesus no Noviciado do Barro, em Torres Vedras, a 2 de outubro de 1891. A decisão de fazer o noviciado em Portugal prendia-se com o seu desejo de vir a ser missionário na Zambésia, missão que estava sob a alçada dos jesuítas portugueses. Depois de ter completado o noviciado e de ter estudado um ano de retórica, foi professor em Lons-le-Saunier (França) e em Guimarães entre 1894 e 1897. Estudou filosofia e ciências naturais em Lyon (1898), no Noviciado do Barro (1899), no Colégio de São Francisco, em Setúbal (1900), e na Escola Apostólica de Guimarães (1901), e cursou teologia em Innsbruck, Áustria, entre 1902 e 1906, onde foi ordenado sacerdote a 26 de julho de 1906. De regresso à Província Portuguesa da Companhia de Jesus, a que pertencia oficialmente desde o seu ingresso no noviciado, foi destacado para o Colégio de Campolide, em Lisboa, onde foi professor de química, física e história natural até 1910. 

Entre 1902 e 1932, Luisier foi um dos mais profícuos autores da Brotéria, a revista de ciências naturais dedicada à identificação e descrição de novas espécies de animais e plantas, fundada pelos jesuítas portugueses no Colégio de São Fiel, em Louriçal do Campo, Castelo Branco, em 1902. A maioria dos seus trabalhos versava sobre a identificação e descrição de novas espécies de briófitas na Península Ibérica, nas ilhas da Madeira e Açores e no Brasil. Dedicou grande parte da sua carreira a estudar a flora briológica da Madeira, tendo começado por publicar, entre 1917 e 1922, uma série de artigos na Brotéria-Botânica intitulada Les Mousses de Madère. Depois de ter estado doze vezes na Madeira, iniciou uma nova série de artigos intitulada Les Mousses de l’Archipel de Madère et en général des Îles Atlantiques, publicada entre 1927 e 1945. Ao longo da sua carreira, descobriu e descreveu dezoito novas espécies e treze novas variedades de musgos, tendo constituído uma importante colecção de briófitas que, actualmente, se encontra no Instituto Nun’Alvres em Santo Tirso. De acordo com a origem geográfica dos espécimes, esta colecção de musgos divide-se em três secções distintas: Bryotheca Europaea, Bryotheca Atlantica e Bryotheca Exótica. Apesar de ter publicado a maioria dos seus trabalhos na Brotéria, Luisier publicou também alguns artigos no Boletim da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, nos Anais Científicos da Academia Politécnica do Porto, no Boletim da Sociedade Broteriana, na Revista Agronómica e em actas de congressos organizados pela Asociación Española para el Progreso de las Ciencias ou pela sua congénere portuguesa.

No início da sua carreira científica, Luisier correspondeu-se com alguns dos mais conceituados botânicos portugueses da sua geração, como Gonçalo Sampaio (1865–1937), Júlio Henriques (1838–1928) e Joaquim de Mariz (1847–1916). A colaboração com estes botânicos terá começado, pelo menos, em 1902, ano de fundação da Brotéria. Nesse ano, publicou no Boletim da Sociedade Broteriana um catálogo da flora de Setúbal e da Serra da Arrábida, no qual constavam cerca de mil espécies diferentes e para o qual contara com a colaboração destes três botânicos. Tal como no século XIX, o estabelecimento destas redes de correspondência revelou-se fundamental para a circulação de espécimes, herbários, livros e instrumentos e, sobretudo, para a identificação e descrição de novas espécies de animais e plantas. Um exemplo que ilustra bem a importância das redes de correspondência onde se inseria Luisier, para a classificação de novas espécies de plantas, é o da descoberta e descrição do cardo Centaurea luisieri. Colhida por Luisier em 1915, perto de Salamanca, a hipotética nova espécie de cardo viajou de Salamanca para o Porto, onde foi estudada por Gonçalo Sampaio, e daí para Coimbra, para ser analisada por Júlio Henriques, que confirmou a descoberta, após comparação com as suas congéneres presentes nos herbários da Universidade de Coimbra. De regresso ao Porto, o novo cardo foi então descrito nas páginas da Brotéria por Gonçalo Sampaio que o baptizou de Centaurea luisieri, em homenagem ao seu descobridor. 

Com a implantação da República, em 1910, os jesuítas foram expulsos de Portugal, os seus colégios foram encerrados e os seus livros, colecções e instrumentos científicos foram, na sua grande maioria, inutilizados ou expropriados pelo Governo Provisório. Luisier foi um dos três jesuítas estrangeiros que conseguiu reaver parte das suas colecções no exílio. Por intervenção directa do cônsul suíço, recuperou parte das suas colecções de briófitas em abril de 1913. Passou os dois primeiros anos de exílio em Gemeert (Holanda) e Alsemberg (Bélgica), onde continuou os seus estudos de identificação, classificação e descrição de novas espécies de briófitas. Entre 1912 e 1932 esteve exilado em Espanha, primeiro em Salamanca (1912–1915), onde foi superior da escola apostólica, depois em Pontevedra (1916–1918), onde estava instalada a casa de escritores dos jesuítas portugueses e, finalmente, no Colégio de La Guardia (1918–1932), na província de Pontevedra, onde permaneceu até à dissolução da Companhia de Jesus em Espanha. Ao longo do seu exílio em Espanha estudou a flora briológica de Salamanca, tendo publicado em 1924 a obra Musci Salmanticenses, que viria a ser premiada pela Real Academia de Ciencias Exactas, Físicas y Naturales de Madrid. No Instituto Nun’Alvres, onde se instalou entre 1932 e 1957, desenvolveu uma importante actividade pedagógica, sobretudo no ensino das ciências naturais. No ano de fundação deste colégio dos jesuítas em Portugal estabeleceu uma estação meteorológica que, à semelhança do observatório que os jesuítas tinham fundado no Colégio de São Fiel em 1902, pertencia também à rede nacional de postos meteorológicos.

Após a morte de Joaquim da Silva Tavares, S.J. (1866–1931), em setembro de 1931, Luisier assumiu a direção da revista Brotéria. Dadas as dificuldades financeiras em editar uma revista inteiramente dedicada à investigação científica, decidiu então restruturar a revista e unificar as séries científicas Botânica e Zoologia, que então se publicavam alternadamente, numa única série intitulada Ciências Naturais. Entre 1932 e 1957, Luisier continuou a publicar os resultados dos seus trabalhos de classificação sistemática sobre os musgos da Madeira, Açores, Portugal Continental e Brasil. Neste período, publicou ainda alguns trabalhos sobre os artrópodes da Madeira e de Portugal. No caso dos artrópodes da Madeira, o seu trabalho era uma resenha das espécies publicadas por Olav Lundblad, professor na Universidade de Estocolmo que tinha estudado a fauna entomológica da ilha portuguesa. Ao publicar esta resenha, Luisier pretendia suprimir a dificuldade que os botânicos portugueses tinham no acesso à revista Arkiv für Zoologie, da Academia das Ciências da Suécia, onde Lundblad tinha publicado o seu trabalho. Tal como Silva Tavares, Luisier acabaria por publicar na Brotéria, uma biografia de Félix de Avelar Brotero (1744–1828), a quem a revista era dedicada. Esta biografia, mais actualizada e extensa do que as que tinham sido publicadas anteriormente na revista dos jesuítas portugueses, continha também uma lista das principais obras do naturalista, onde se destacavam seis trabalhos inéditos.

Enquanto diretor da Brotéria, Luisier continuou a promover a publicação de trabalhos de autores que já colaboravam com a revista desde os anos anteriores, como os jesuítas Cândido Azevedo Mendes (1874–1943), Camilo Torrend (1875–1961), Longino Navás (1858–1938), Jaime Pujiula (1869–1958) e Johann Rick (1869–1946), pioneiro dos estudos micológicos no Brasil. Neste período estabeleceu ainda novas colaborações com reputados botânicos portugueses como Ruy Telles Palhinha (1871–1957), Carlos das Neves Tavares (1914–1972), António Rodrigo Pinto da Silva (1912–1992), Flávio Resende (1907–1967), Arnaldo Rozeira (1912–1984), Manuel Cabral Resende Pinto (1911–1990) e ainda o geólogo Carlos Teixeira (1910–1982). À semelhança do seu antecessor, Luisier estava particularmente interessado em estabelecer colaborações científicas que continuassem a prestigiar a Brotéria: Ciências Naturais, no contexto dos periódicos científicos portugueses e estrangeiros. Durante o período em que foi dirigida por Luisier, a Brotéria: Ciências Naturais esteve particularmente associada a três organismos públicos: o Instituto Botânico de Lisboa, a Estação Agronómica Nacional e o Instituto Botânico Dr. Gonçalo Sampaio. De entre estas novas colaborações institucionais, a mais relevante, pelo menos do ponto de vista da afirmação e consolidação disciplinar, terá sido a que foi estabelecida com a Estação Agronómica Nacional. Ao publicar alguns dos primeiros artigos de citogenética e de genética de melhoramento de plantas do grupo dirigido por António Sousa da Câmara (1901–1971), Luisier colocava a Brotéria na vanguarda dos periódicos científicos portugueses, e associava a revista a uma das principais linhas de investigação em botânica durante o Estado Novo.

Doutor honoris causa pela Faculdade de Ciências do Porto em 1942, e sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa desde 1933, Luisier foi ainda sócio da Sociedade Broteriana e sócio fundador da Sociedade de Ciências Naturais, da Société Valaisienne de Sciences Naturelles e da Sullevant’s Moss Society. A 6 de fevereiro de 1957, por ocasião do seu 85.º aniversário, foi agraciado com a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, numa cerimónia presidida por Baltazar Rebelo de Sousa (1921–2002), então Subsecretário de Estado da Educação Nacional. Entre os vários discursos proferidos nesse dia salientaram-se os de Américo Pires de Lima (1886–1966), representante da Faculdade de Ciências do Porto, de António Sousa da Câmara, director da Estação Agronómica Nacional, de Abílio Fernandes (1906–1994), da Sociedade Broteriana, e de Francisco Caldeira Cabral (1908–1992), professor do Instituto Superior de Agronomia, que falava em nome dos antigos alunos. Além de professores das três universidades portuguesas estiveram também presentes nesta homenagem o arcebispo de Braga e o vice-cônsul suíço. 

A 4 de novembro de 1957, seis meses depois de celebrar o seu 85.º aniversário, Afonso Luisier acabaria por morrer nas Caldas da Saúde (Santo Tirso), onde se encontrava desde o seu regresso a Portugal.

Francisco Malta Romeiras

Obras

Luisier, Afonso. “Apontamentos sobre a flora da região de Setubal.” Boletim da Sociedade Broteriana 19 (1902): 172–274.

Luisier, Afonso. “Le Genre Triquetrella en Europe.” Brotéria: Botânica 11 (1913): 135–138.

Luisier, Afonso. “Sur la distribuition géographique de Triquetrella arapilensis Luis.” Brotéria: Botânica 13 (1915): 150–151.

Luisier, Afonso. “Les Mousses de Madère.” Brotéria: Botânica 15 (1917): 81–98; 16 (1918): 29–71; 17 (1919): 17–142; 18 (1920): 5–22; 78–120; 20 (1922): 76–106.

Luisier, Afonso. “Musci Salmanticenses. Descriptio et distributio specierum hactenus in Província geographica Salmanticensi cognitarum. Brevi addito conspectu Muscorum totius Peninsulae Ibericae.” Memorias de la Real Academia de Ciencias Exactas Físicas y Naturales de Madrid 3 (1924): 1–280.

Luisier, Afonso. “Les Mousses de l’Archipel de Madère et en général des Îles Atlantiques.” Brotéria: Botânica 23 (1927): 5–53; 129–145 24 (1930): 18–47; 66–96; 119–40; 25 (1931): 5–20; 123–39; Brotéria: Ciências Naturais 1 (1932): 164–82; 7 (1938): 78–95; 110–31; 11 (1942): 29–41; 14 (1945): 78–94; 112–27; 156–76.

Luisier, Afonso. “Recherches bryologiques récentes à Madère,” Brotéria: Ciências Naturais 5 (1936): 140–44; 6 (1937): 88–95; 8 (1939): 40–52; 12 (1943): 135–44; 16 (1947): 86–91; 22 (1953): 178–91; 25 (1956): 170–82.

Luisier, Afonso. “Mousses des Açores.” Brotéria: Ciências Naturais 7 (1938): 96–98.

Luisier, Afonso. “Hepáticas dos Açores.” Brotéria: Ciências Naturais 7 (1938): 187–189.

Luisier, Afonso. “Artrópodes da Madeira, segundo as investigações do Dr. O. Lundblad.” Brotéria: Ciências Naturais 8 (1939): 18–39; 82–95; 101–12; 9 (1940): 184–88; 10 (1941): 61–69; 133–42; 179–84; 11 (1942): 84–93; 137–44; 177–87; 12 (1943): 29–36; 128–34.

Luisier, Afonso. “Contribuições para a flora briológica do Brasil.” Brotéria: Ciências Naturais 10 (1941): 114–132.

Bibliografia sobre o biografado

Carvalho, José Vaz de. “Afonso Luisier”, Diccionario Histórico de la Compañía de Jesús, vol. 3: 2440–2441. Madrid e Roma: Universidade Pontificia Comillas, Institutum Historicum Societatis Iesu, 2001.

Neves, Maria Luísa. “Recordando o Padre Luisier—Nos 40 anos do seu falecimento.” Brotéria Genética,18 (1997): 99–101.

Archer, Luís. “Centenário do nascimento do P. Alphonse Luisier, S.J.” Brotéria: Ciências Naturais 41 (1972): 1.

Lima, Américo Pires de. “Rev. Pe. Dr. Alphonse Luisier.” Separata do Boletim da Sociedade Broteriana 32 (1958).

Carcalhaes, José. “Padre Alphonse Luisier.” Brotéria: Ciências Naturais 54 (1958): 3–16.Carvalhaes, José. “Reverendo Padre Alphonse Luisier, S.J.: Homenagem ao cientista e ao mestre.” Boletim Cultural de Santo Tirso 5 (1957): 223–249.